Blog da Conceição


Segunda-feira, 30 de agosto de 2010 09:37 am

Pausa




Este blog estará de férias de 31 de agosto a 20 de setembro.

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Domingo, 29 de agosto de 2010 05:28 pm

crônica da cidade


William Lopes, o anjo louco na Esplanada


Um louco no ministério



Até aquele dia, ela era apenas a fachada branca de um ministério-padrão, parede da burocracia, superfície indiferente de um prédio de brises verdes. Desde que começou o Cena Contemporânea, a pele fria do Ministério dos Esportes se transformou no palco de uma revelação. Um jovem, atrevido e corajoso ator, o brasiliense William Lopes desce e sobe a casca lisa do prédio para avisar ao espectador que sua vida pode estar reduzida a uma chatice vestida de terno e gravata (ou de tailleur e salto alto).


O ator-acrobata-atleta desce a parede sustentado por dois cabos de aço enquanto o público assiste ao espetáculo deitado na calçada. Ele está de terno, gravata e pasta de executivo. Parece sufocado na sua armadura de burocrata. Pensará em suicídio? É provável, mas o personagem encontra uma saída antes do abismo. Ele vai arrancando a roupa, uma manga do terno, a outra, a parte da frente, a de trás, uma perna da calça, a outra. Livre da carcaça, ele vai experimentando voos, saltos, rodopios.


Aos poucos, o homem vai expandindo os movimentos, saltando em volta do próprio corpo e deixando o público temeroso de que algo de terrível possa acontecer no mundo da realidade — afinal, William Lopes faz acrobacias a mais de dez metros acima do solo. Quem está deitado na calçada olhando para o acrobata desafiando o cabo de aço fica em suspenso diante do risco que, supomos, ele está correndo.


Risco? O ator se sustenta em aço. Arriscada é a vida, é isso que ele disse aos espectadores do festival de teatro. De terno é arriscado, e sem terno também. Então se nada é seguro por que se subjugar ao terno e gravata? O engravatado é a metáfora de uma vida infeliz. Em A carta do anjo louco, nome do espetáculo de William Lopes, o personagem escala a fachada lateral do ministério como quem se liberta da pessoa que ele estava sendo e não era. E, aos poucos, vai se anunciando a pessoa que é e nunca tinha tido a coragem de ser.


Enquanto o anjo louco faz alpinismo, holofotes lançam grafismos na parede, imagens que lembram um catavento, o universo pontilhado de estrelas, explosões de luz acompanhadas de efeitos sonoros ao ritmo das mudanças que vão acontecendo com o personagem. William Lopes, que também é o criador do espetáculo, diz que se inspirou em O louco, a carta do tarô. A carta, me diz a Wikipedia, representa “busca, desapego, impulso, excitação”. Pode significar a quem recebeu a carta que a pessoa precisa partir em busca de algo que procurava, “como um desejo que de repente extravasa, uma busca que foi sufocada durante muito tempo.”


O anjo louco ocupa o espaço urbano do poder e da burocracia, tira do edifício a sua imponência ministerial e devolve o sonho ao seu lugar de origem. Com todos os riscos que, de qualquer modo, todos estamos correndo o tempo todo.


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Sábado, 28 de agosto de 2010 05:26 pm

crônica da cidade


Foto retirada do site www.infobrasilia.com.br



A joia e o poeta



Em entrevista por escrito ao jornalista Ézio Pires, em 1966, o poeta Manuel Bandeira comentou: “Brasília é uma joia, não é ainda uma cidade. Não se mora numa joia. Mas o tempo e a vida, com as suas indispensáveis impurezas, se encarregarão de transformar a joia em cidade.”


As impurezas estão aí, até as dispensáveis, mas sem elas Brasília continuaria sendo a ilha do Tatoo cercada de Brasil por todos os lados. O poeta reconheceu a forma preciosa da nova capital, mas percebeu também que não bastava a uma cidade ser bela, nem ter sido pensada ou aprovada em concurso. Notou também não bastava que seus edifícios fossem obras de um grande artista da arquitetura. Era preciso que ela fosse impura, caso contrário, não seria verdadeiramente uma cidade.


Os que, durante os primeiros anos, moraram na joia se entristecem com a cidade desordenada de agora. Têm as razões do coração. Foi um privilégio morar numa peça de joalheria. Mas acabou. Eu ainda não tinha tomado conhecimento desse comentário de Manuel Bandeira quando, no começo dessa semana, fiz uma excursão minuciosa pelos arredores do shopping Iguatemi, a expansão do Lago Norte. O movimento de carros em ruas estreitas, as oficinas mecânicas,  comércios grudados uns nos outros, os prédios de apartamentos não-padronizados, o conjunto me fez lembrar as áreas de comércio das cidades-satélites, o intenso movimento do Riacho Fundo, os prédios novos no Guará.


Algum morador do Lago Norte haverá de se sentir diminuído em seu patrimônio por conta dessa comparação, mas ela traz em si um elogio. A distância estética entre áreas novas do Plano Piloto e as cidades-satélites já não é tão grande assim, seja porque a ascensão das classes C e D está diminuindo distâncias, seja porque a arquitetura se padronizou, o que é lamentável, seja porque as impurezas estão transformando Brasília numa única cidade. As impurezas estão quebrando o muro que separa o Plano Piloto do restante do quadradinho.


Samambaia já tem condomínio fechado com piscina. Samambaia, Taguatinga, Guará, Ceilândia têm belíssimas casas de classe média-média-alta. As vias expressas, se estimulam uma terrível e anti-ecológica dependência dos carros, democratizam o vir e vir na capital do país. A bonança econômica que o Brasil experimenta serviu para contaminar Brasília com as impurezas de uma grande cidade.


Só faria uma ressalva ao poeta. O Plano Piloto continua a ser uma joia. Mantém as características principais do projeto de Lucio Costa, ressaltados os desrespeitos ao tombamento. A escultura urbana se sobressai no cerrado, a despeito das invasões de pilotis, da barafunda das áreas comerciais, da mão truculenta da especulação imobiliária, da Câmara Distrital, dos últimos governantes, de setores emergentes que só querem saber de continuar emergindo.


Lucio e Oscar demarcaram tão firmemente sua criação que qualquer um consegue, sem nenhuma dificuldade, reconhecer a maquete dentro da metrópole. A joia não apenas sobreviveu às impurezas, como ficou melhor com elas, ainda que a concentração de renda continue corroendo a pedra preciosa por dentro e por fora.



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Quarta-feira, 25 de agosto de 2010 12:04 pm

crônica da cidade




Metralhadora
& travesseiro




Ainda na cadeia de comemorações dos 50 anos de Brasília, encontro uma coluna de José Amádio publicada na revista O Cruzeiro dos anos 50/60. Chamava-se Ninguém conhece ninguém e trazia o perfil de uma
celebridade. A edição de 7 de
Anúncio na revista O Cruzeiro/1960


maio de 1960 trazia um estranho e assombroso personagem, uma cidade. O jornalista deu a ela o nome de Brasília Kubitschek de Oliveira. Amádio estava seduzido pela nova capital, “o poema de concreto”.


Amádio veio para a inauguração. “Brasília menina, catita, bossa nova, gerou alguma confusão. E daí? Ponham cem mil pessoas de súbito em Porto Alegre. Já pensaram que trapalhada. Lembram-se do Rio de Janeiro durante o Congresso Eucarístico? Sabem o que aconteceu em Londres durante as cerimônias da coroação? E então? Afinal, Juscelino construiu uma cidade e não um hotel para turistas”.


O jornalista se referia às queixas dos visitantes, dos políticos acostumados a ter o do bom e do melhor às mãos. “Brasília não poderia acomodar 150 mil pessoas confortavelmente. Já sabiam disso os que para lá se dirigiram. A turma do contra, os comodistas, os eternos inconformados reclamaram. Mas o choro é livre neste cálido país.”



Era tanta autoridade no dia da inauguração que governadores, senadores e deputados tiveram que ficar de pé esperando um lugar no restaurante do Brasília Palace Hotel. Não havia nem como retirar alguém mais importante de seu lugar à mesa. Ali, todos eram importantes e portanto anônimos e iguais uns aos outros.

Mas tem gente que não se contenta em ser igual. Foi o caso de um brigadeiro que se irritou quando o apartamento a ele reservado no Brasília Palace Hotel tinha sido ocupado. “Protestou, discutiu, retirou-se furioso, retornou com um ordenança armado de metralhadora.” Ficou com o apartamento. Um deputado cearense, conta Amádio, encontrou seu apartamento funcional sem mobília. “Não teve dúvidas: saiu para a rua de revólver em punho, atacou um caminhão de mudanças da Cofap e ‘requisitou’ os móveis.”
A cidade era nova, o projeto pretendia um novo modo de vida, mas os políticos e as autoridades eram velhas de mentalidade e de vícios. E ainda se dizia que o faroeste acontecia era na Cidade Livre.


José Amádio é premonitório: “Se Juscelino não a tivesse construído no peito e na raça, até hoje [Brasília] seria uma realidade de pergaminho. Que se ponha a guitarra a funcionar, desde que o papel-moeda se transforme em riqueza. As abobrinhas geraram uma cidade. Em pouco tempo a cidade estará gerando abobrinhas. Da cor do dólar.”



Meio século depois, Brasília concentra riquezas e produz delírios de autoridade. Mas gera oportunidade para milhões de brasileiros que de outra forma não teriam construído um futuro.





Anúncio na revista O Cruzeiro, 05/1960

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Terça-feira, 24 de agosto de 2010 11:55 am

crônica da cidade


Gustavo Moreno, Eixo Monumental


Voraz e feroz



Amanhã, quarta, chegaremos aos 90 dias sem chuva, três meses sem gota d’água, nove dezenas de dias de travessia do deserto, com a umidade do ar chegando a 15% nos dias mais críticos. Nesse período, a cidade fica desumanamente bela. O fogo azul do céu corta a pele, fere os olhos, exaure os pulmões, atordoa os pensamentos. Brasília de agosto é impiedosa, como se ela se bastasse em si mesma e quisesse engolir tudo e todos. A claridade excessiva deixa difuso o limite entre os corpos e o espaço, como se todos fossem engolfados pela luz -- e não há nada de místico nisso. É a física implacável de agosto.



O Palácio da Alvorada fica mais branco (quase voa), a Catedral fica rutilante, as novas pedrinhas portuguesas da Praça dos Três Poderes cintilam contra o Sol. O agosto brasiliense atira as obras de Niemeyer contra o anil do céu. O Eixão e o Eixo Monumental de agosto fervem como os rios de lavas que descem dos vulcões.



Agosto dói a vista, expande o peito. Todo agosto Brasília me obriga a ser mais corajosa, ou menos covarde, dependendo da circunstância. Em dias de sufocante agosto, é preciso sair de casa pronta para cruzar a aridez da terra sem sombra e tentar reencontrar o ar no oceano de secura. É o Sol em sua sede insaciável.



A cada novo agosto, a cidade exige dos brasilienses uma coragem sertaneja, um fôlego de maratonista, uma paciência de monge. E umidificadores, garrafinhas d’água, potinhos de hidratante. Olhos, narizes, laringes, pulmões de camelo, se é que camelo tem pulmão.



Todo agosto de Brasília é estranho, novato, intruso, inviável, insuportável. Ao mesmo tempo, tem a beleza fulgurante, forte e fria de uma escultura em mármore. Agosto é lindo como a máscara de uma deusa egípcia e mal humorado como um cacto nordestino. O 8 derrama folhas secas pela cidade, deixa um tapete de bordados semoventes sobre a grama que se finge de morta.



Agosto me cansa e me assusta. Quando ele chega, não tenho onde me esconder. Agosto não me dá sombra. Me atira aos leões, eu que nem garras tenho para enfrentar os perigos da selva. Agosto é tão voraz e feroz que só termina em setembro. Há deles que invadem outubro. Agosto leva o brasiliense pra cama e nada de bom acontece. O que agosto quer é testar nossa resistência e nossa saúde. Agosto não é apenas um mês do calendário gregoriano. Ele se incorporou à alma brasiliense, como o deserto se alojou no peito dos povos que habitam o inabitável, como o sertão vive no sertanejo, como o Everest se esconde dentro dos sherpas.



Se tudo der certo, virá mais agosto brasiliense por aí. Cada vez que ele passa por mim, e já passou mais de vinte vezes, mais ele me provoca. Agosto continuará nos desafiando, indiferente, até a primeira chuva. A cada novo mês 8, aprendemos a ser um pouco mais brasilienses. Dói, mas nos fortalece.





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Sexta-feira, 20 de agosto de 2010 12:05 am

crônica da cidade








O Vinicius de Brasília

Há pelo menos mais retratação a ser feita à memória de Vinicius de Moraes, que esta semana ganhou o título póstumo de embaixador do Brasil, tardia reparação às perseguições de que foi vítima como diplomata do Itamarati. Os brasilienses também devemos ao poeta uma reparação. A de reconhecer que a letra que ele criou para a Sinfonia da Alvorada é um dos mais belos textos poéticos sobre a construção da nova capital. É um texto épico como cabia à encomenda feita por Juscelino a Tom e Vinicius.


O poeta encontrou “antigas solidões sem mágoa” no ermo onde Brasília estava sendo construída. Esbarrou num céu azul, numa terra “vermelho-pungente” e no “verde triste do cerrado”. Vinicius parece ter ouvido o som da solidão do cerrado. “Mais parecia um povo inexistente dizendo coisas sobre nada.”


Havia sim, um barulho de humanidade no cerrado — quando os primeiros candangos chegaram ao quadradinho seis mil almas viviam escondidas no sertão goiano ou morando em Planaltina e Brazlândia. O poeta não ouviu o ruído tímido dos sertanejos dos chapadões. Ninguém ouviu. A civilização que atracava suas máquinas no cerrado era por demais barulhenta para prestar atenção aos  brasileiros isolados de Goiás.


“Sim, os campos sem alma pareciam falar, e a voz que vinha das grandes extensões, dos fundões crepusculares nem parecia mais ouvir os passos dos velhos bandeirantes, os rudes pioneiros que, em busca de ouro e diamantes, ecoando as quebradas com o tiro de suas armas, a tristeza de seus gritos e o tropel de sua violência contra o índio, estendiam as fronteiras da pátria muito além do limite dos tratados.”


O homem que veio construir a nova capital “vinha de longe, através de muitas solidões, lenta, penosamente. Sofria ainda da penúria dos caminhos, da dolência dos desertos, do cansaço das matas enredadas”. Homem que plantaria no deserto “uma cidade muita branca e muito pura”.


Vejam como o poeta descreve a chegada dos candangos (o tom grandiloquente era necessário, tratava-se de uma sinfonia para registrar a inauguração da capital de um país):


“E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra, e que, no calcanho, em carro de boi, em lombo de burro, em paus de arara, por todas as formas possíveis e imagináveis, começaram a chegar de todos os lados da imensa pátria, sobretudo do Norte; foram chegando do Grande Norte, do Meio Norte e do Nordeste, em sua simples e áspera doçura…”.


Vinicius faz anotações de repórter: “Foi necessário um milhão de metros cúbicos de concreto, e foram necessárias cem mil toneladas de ferro redondo, e foram necessários milhares e milhares de sacos de cimento, e 500 mil metros cúbicos de areia, e dois mil quilômetros de fios.”


As grandes estruturas da cidade pareciam ter sido depositadas “de manso por mãos de anjo na terra vermelho-pungente do planalto, em meio à música inflexível, à música lancinante, à música matemática do trabalho humano em progressão…O trabalho humano que anuncia que a sorte está lançada e a ação é irreversível.”



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Quinta-feira, 19 de agosto de 2010 06:03 pm

Brasília lá longe


Foto de João Facó



Brasília está a caminho de Madri. Depois, vai a Lisboa, em seguida atraca em Milão. É a exposição Brasília 50 anos -- meio século da capital do Brasil, que vai contar a história da cidade, de sua arquitetura, sua cultura e paisagem. A peça mais importante da exposição é a maquete da cidade feita pelo arquiteto e maquetista Antonio José Pereira de Oliveira, o mesmo que fez a que está no Espaço Lucio Costa. A nova maquete usa recursos do Google Earth, tem perspectiva tridimensional das principais obras da cidade e é mais ampla do que a antiga. Há também fotos de João Facó e de Fabio Colombini, vídeos de Ronaldo Duque e uma livraria com mais de 50 livros e catálogos sobre Brasília. A maquete ficou exposta no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. A exposição é o resultado de uma tese de mestrado de Danielle Rocha Athayde no curso de Gestão Cultural, Patrimônio, Turismo e Natureza no Instituto de Investigação José Ortega y Gasset, em Madri. Danielle é curadora da exposição. Ao final da itinerância, a maquete ficará em Brasília para visitação pública.

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Quinta-feira, 19 de agosto de 2010 10:53 am

crônica da cidade


Nós e O idiota

Nunca consegui terminar de ler O idiota, de Dostoievski, e não foi por falta de interesse. Nenhum outro livro, dos que já tive notícia, me provoca tanto e ao mesmo tempo nenhum outro me deixa tão derrotada. Consigo ler as primeiras 50 páginas, um pouco mais, um pouco menos, e logo fico desatenta e largo o tijolaço pra lá. Cinquenta página lidas pelo menos cinco vezes desde que um amigo me falou da obra, há uns 20 anos. O príncipe
Michkin, em ilustração de Glazounov

Michkin, o idiota, me perturba, me irrita e me cansa com sua bondade extremada, inverossímel. Mas não consigo esquecê-lo.



Diante da derrota, procurei um caminho transverso, um tanto quanto preguiçoso, registre-se. Fui atrás da versão em filme, de Kurosawa, 1951. Pedi ajuda ao moço da livraria e ele, jovem, me perguntou se eu havia lido o livro. “Nunca consegui terminar”, respondi. Ao que ele comentou: “O final é que é ótimo. O príncipe Michkin vai analisando um por um dos personagens”. Dupla surpresa: pelo fato de um moço livreiro ter lido O idiota e pelo final propriamente dito. Sinal de que as coisas andam melhorando nas grandes redes de livrarias. Há algum tempo, por exemplo, estava a procura de Um calendário da sabedoria, de Tolstoi. Pedi ajuda ao livreiro, indicando título e autor, e ele me levou às prateleiras de auto-ajuda. Tolstoi, no livro, reúne reflexões de grandes pensadores sobre o penoso exercício de viver.


No último final de semana, enfrentei as quase três horas da versão de Kurosawa para O idiota. Cenário e atores são japoneses, claro. O príncipe e todos os personagens com os quais convive, com suas muitas mesquinharias e poucas grandezas, enfrentam sua dolorosa condição humana sob nevascas implacáveis. A bondade do idiota é plácida. Ele aceita a pequenez de todos nós e a própria sem dividir o mundo entre os bons e os maus, sem lançar juízo de valor sobre ninguém, nem mesmo sobre quem o maltrata.



Dizem que Dostoievski tinha Cristo como espelho para a criação de Michkin. Trouxe o redentor para a Rússia do século 19. Outros afirmam que ele se inspirou em dom Quixote. Como esses dois personagens, o príncipe é quase inumanamente bondoso. Fosse o ser humano tão bom assim e a espécie não teria sobrevivido e nem subjugado as demais. Mas também não precisava ser tão ruim.



Ao final do filme, o Michkin de Kurosawa já não me irrita, nem perturba, nem cansa. Também não cheguei a escarnecer dele, como fazem muitos dos que com ele convivem. Nem tive ódio nem me apaixonei pelo princípe, sentimentos antagônicos que o personagem provoca em homens e mulheres que dele se aproximam. Michkin me acalmou e me entristeceu. Ele nos revela o quão imperfeita e covarde é nossa humanidade e que, para ser bastante bom, é preciso ser corajoso.



Não há lugar para Michkin entre os humanos, especialmente nos tempos modernos. Ou aprendemos a ser um pouco maus ou o mundo nos engole. O problema é que tem gente que toma o gosto de ser maligno e fica expert. Dissimula de tal modo a ruindade que ela fica quase imperceptível. E já nem nos lembramos mais como é mesmo ser bom, tão poucos os exemplos que nos são oferecidos. Por isso, a saudade de Michkin.


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Quinta-feira, 12 de agosto de 2010 04:57 pm

crônica da cidade




1 - Ceilândia Tradicional; 2 - Setor O; 3 - Guariroba; 4 - P Sul;

5 - P Norte; 6 - Expansão; 7 - N Norte; 8 - N Sul; 9 - QNQ;

10 - QNR; 11 - Privê






As treze Ceilândias


Precioso livrinho encadernado em espiral me ensina a conhecer a inesgotável Ceilândia. Mais que isso, revela as singularidades de um lugar de resistência. Registre-se que a cidade é o território fértil do hip hop brasileiro e nela surgiu o mais significativo movimento popular de Brasília, os Incansáveis de Ceilândia, que reunia candangos em luta por moradia.


O livrinho de Manoel Jevan, Ceilândia de hoje, foi escrito há quatro anos, mas só agora cheguei nele. Apresenta as onze Ceilândias que existem dentro de uma só. (Agora são treze, contando o Pôr do Sol e o Sol Nascente). Cada uma delas tem personalidade própria, nasceu num determinado contexto político e histórico. A primeira surgiu para abrigar milhares de candangos sem teto. A Campanha para Erradicação das Invasões produziu a satélite de mais forte personalidade do quadradinho. A primeira é a Ceilândia tradicional (da qual fazem parte a Ceilândia Norte, a Sul, a Leste e a Oeste). 


A segunda Ceilândia é o Setor O ou Setor Bolinha como seus habitantes costumam chamá-la. O nome deve-se não apenas ao redondinho da letra, mas à Rádio Bolinha, criada por um grupo de “subversivos pioneiros do ar” nos anos 80, ainda no regime militar, como escreveu Manoel Jevan. Os moradores do Setor Bolinha, hoje de classe média, não gostam muito da vizinhança, mas uma de suas atrações mais conhecidas é a Feira da Periquita, também chamada de Shopping do Amor.


A terceira Ceilândia nasceu em 1977 e é uma das mais conhecidas, a Guariroba, nome de uma palmeira nativa do cerrado e da fazenda onde a cidade foi assentada. Os lotes foram entregues em ordem alfabética, daí que havia uma rua só de Maria, outra só de Francisco, outra só de João.


A Ceilândia de número quatro surgiu em 1979, o P Sul, bairrista como o quê. Há motivos. No bairro foram encontrados vestígios da presença humana no Planalto Central há mais de sete mil anos. O P Sul faz por onde: é uma das comunidades mais bem organizadas de Ceilândia. O resultado é um bairro urbanizado e rico em projetos de cidadania.


O P Norte foi o último bairro de Ceilândia nascido sob a política habitacional do regime militar. Diz Jevan que é o centro culturalmente nervoso da cidade, “juntando desde os cabeludos do Ferrock até os manos do DJ Jamaica, sem esquecer os rastafaris do reggae-man Serginho Jah e as santas letras acadêmicas de dona Percília.


A Expansão do Setor O foi o primeiro assentamento criado pelo regime democrático. Nasceu da pressão popular — o movimento dos inquilinos chegou a levar às ruas 15 mil pessoas — mas foi engolida pelo que Jevan chama apropriadamente de “populismo eleitoreiro”. A desorganização foi tamanha que os lotes foram divididos atabalhoadamente, vão de 25 m2 a 250 m2.
Dentro da Ceilândia há também a Nova Ceilândia (o Setor N Norte), a Nova Guariroba (o N Sul), o Setor Privê, o Setor Q e as QNRs.


Aprendo, ao final das 89 páginas, que a Ceilândia não tira suas forças de um projeto urbanístico, até porque não o tem. Ela se fortalece, consolida sua história e desenvolve sua cultura com a força e a alma sua gente.



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Terça-feira, 10 de agosto de 2010 06:18 pm

crônica da cidade







O mais difícil de tudo



O mais difícil de tudo não é passar no concurso do Banco do Brasil, arrumar uma gratificação, comprar o apartamento próprio, arranjar um marido, manter o casamento, criar os filhos, manter o peso, parar a roda do tempo.



O mais difícil não é conseguir editora para o livro duramente escrito, encontrar o próprio estilo, não é vender cinco mil exemplares, ser convidado para a Flip, conseguir boa cobertura da imprensa, conquistar seguidores no Twitter, patrocionadores pra peça de teatro, galeria para a exposição, sala para o espetáculo.



O mais difícil não é passar no vestibular de medicina (145 candidatos por vaga), não é conseguir reconhecimento público, não é virar celebridade, o mais difícil não é o menino retirante virar presidente da República.


Também não é descobrir o elo perdido entre o homem e o chimpanzé. Não é nem mesmo ser genial como Picasso ou como Einstein ou como Freud. Não é conseguir ser a Lady Gaga (ela, lá no escurinho de si mesma, deve saber que não é fácil montar esse personagem. Se ainda não sabe, um dia haverá de saber).


O mais difícil de tudo, de tudo, é ser humano. Ou pelo menos tentar porque o projeto de humanidade plena só se realiza em esboço. Todas essas camadas de conquistas que cada um de nós vai somando a si mesmo não traz nenhuma garantia, em tese, de que desse modo o ser humano que há em nós fica mais… humano. Pelo contrário, tanta gana desumaniza.


O projeto contemporâneo da espécie tem sido o de compulsiva desumanização. Claro que a gente tenta disfarçar com um gesto humanitário, uma vez ou outra, porque ninguém suporta ser de todo mau ou indiferente ou omisso, salvo os psicopatas e primos próximos.


O mais difícil de tudo é reconhecer que ninguém é assim tão melhor que o outro, que somos fragorosamente erráticos, que quanto mais covardes mais perigosos podemos ser, que a coragem não é sair no tapa para conquistar um lugar ao sol, mas talvez aceitar que os meios não justificam os fins e que o bom mesmo é aproveitar a consciência fugaz e plena de estar vivo.


O mais difícil de tudo é ser Picasso, Einstein, Freud, Lady Gaga e ao mesmo tempo ser humildemente humano. E o que é mesmo ser humano, antes que eu me esqueça? É ser um e ao mesmo tempo ser todos, é pensar em si mesmo como num outro como aquele outro. É descer do salto, baixar a bola, porque, como diz Riobaldo, “o diabo vige dentro do homem”.


Riobaldo sabe das coisas, se sabe: “Tanta gente — dá susto se saber — e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons…De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só.”


Nem precisa ser religião de igreja. Pode a de se cuidar pra não se desumanizar tanto.


 

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