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<category>Blog Dzai</category>
<description>blog para quem ama ou gostaria de amar Brasília</description>
<copyright>UAI - Nenhum é tão você. Todos os direitos reservados</copyright>
<title>Blog da Conceição</title>
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<title>Blog da Conceição</title>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=55414</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		 <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="6"> <br>Visita ao bem viver</font> <br> <br> <br> <br> <br>Quando marquei um encontro com a Irmã Visitação, 92 anos, no Colégio Madre Carmem Sallés, na Asa Norte, esperava encontrar uma velhinha coroca e carola, de corpo frágil e voz trepidante. Errei em tudo, menos no corpo frágil, mas nem tanto. A esperteza de Visitação consegue driblar as limitações físicas. <br> <br> <br> <br> <br>Visitação pareceu usando um andador que ela mesma providenciou quando viu que precisava de ajuda para caminhar. A irmã faz do equipamento seu parceiro no exercício físico diário: quatro caminhadas no corredor da escola, em área destinada à moradia das religiosas. O banho é sempre no mesmo horário, quatro da tarde, não por excesso de disciplina. Foi o truque que a irmã encontrou para se assegurar de que todos na casa saibam que aquela é a hora de seu banho. “Se eu cair, elas vêm me ajudar”, diz Visitação. E ri.  <br> <br> <br> <br> <br>Irmã Visitação é espanhola. Veio para o Brasil na década de 1930 e para Brasília no começo da de 1970. Tem fortes lembranças dos pássaros que planavam sobre o Plano Piloto. A cidade ainda novinha atraía multidões de gaivotas. Do primeiro andar do colégio, de frente para o lago Paranoá (“Nem Lula tem vista mais bonita!”), Visitação acompanhava o voo diário do bando. Elas tinham roteiro e horário certo. Saíam da beira do lago por volta das seis da tarde, cortavam a Asa Norte na direção sul e voltavam às seis da manhã.  <br> <br> <br> <br> <br>Visitação sabia que elas pescavam peixes no lago, mas não sabia por que embicavam em direção ao sul até que alguém disse que as gaivotas passavam a noite no Zoológico — naquele tempo, Brasília era nua de árvores e gaivotas não precisam só de água e de peixe. Há anos, elas desapareceram das janelas do Carmem Sallés, mas Visitação guardou as lembranças no disco rígido de sua potente memória. <br> <br> <br> <br> <br>Irmã Visitação não se aproveita da idade para pedir atenção. Se resolve sozinha. O telefone traz a té ela quase tudo de que precisa. Consegue até atendimento domiciliar de laboratórios de exames clínicos. Pelo telefone, se mobiliza para conseguir cadeiras de rodas para portadores de deficiência física. Tudo começou há alguns anos quando uma mãe pedinte apareceu na escola com dois filhos sadios e um terceiro no colo. A família não tinha condições de comprar uma cadeira de rodas nem havia no mercado unidades para crianças.  <br> <br> <br> <br> <br>Visitação conta que, pelo telefone, descobriu um fabricante e encomendou uma cadeira para o menino. Deu o equipamento de presente à família. Dois anos depois, recebeu um telefonema da Rede Sarah. O garoto já estava grande, havia conseguido outro equipamento e a família dele tinha dito que a cadeira pertencia a Irmã Visitação. Gesto que a irmã guardou com o mesmo gosto com que arquivou na memória o voo das gaivotas do Cerrado.  <br> <br> <br> <br> <br>Há um problema que Visitação não consegue resolver e me pede ajuda: “Você não quer arranjar umas freiras pra gente, não?”, diz, batendo no meu joelho e rindo da escassez de vocação religiosa nesses tempos tão heréticos.  <br> <br> <br> <br> <br>Visitação me dá um beijo e um rosário de crochê e contas amarelas. “É da minha indústria”, ela diz, com mais um enorme sorriso de quem tem muito mais vida do que cabe no corpo frágil.  <br> <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[São Paulo, eu te amo]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=55412</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"></span></font> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Sempre que vejo uma declaração de amor a São Paulo, me pergunto onde brota e como se sustenta o afeto que o paulistano tem por sua cidade. Demasiadamente grande, excessivamente agitada, desarvoradamente metropolitana, cheia de problemas… onde ancorar o amor por São Paulo, eu sempre me pergunto. <br> <br> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>Apesar de tão diferentes, Brasília e São Paulo têm em comum o exercício que ela exige de cada um que goste ou que se disponha a gostar dela. (É preciso se dispor, gostar não nasce exclusivamente da espontaneidade). <br> <br> <br> <br> <br>Daí que me chamou a atenção o blog <a href="http://cinemaderua.wordpress.com/">http://cinemaderua.worldpress.com/</a> no qual cinco designers, cinegrafistas e cineastas filmaram cenas cotidianas de São Paulo. Foram&nbsp; 30 filmes em 30 dias. Kico Santos, Fábio Nikolaus, Sillas Gama, Ricardo Tadashi e Jones Gama se propuseram a postar um vídeo por dia, com duração de um a trêsminutos, entre 8 de fevereiro a 8 de março. (E nem é aniversário de São Paulo). <br> <br> <br> <br> <br>Filmaram nuvens, filmaram gente, pombos, cemitério, edifícios, sebos, as muitas pequenas São Paulo da São Paulo grandona. O olhar amoroso de cinco paulistanos sobre a cidade do tamanho do mundo.&nbsp;  <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=55014</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 293px; height: 269px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/1a411701cd463ed77c1b6b2431d9ba93.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><font size="6">O fim dos porteiros </font> <br> <br> <br> <br> <br>Os prédios residenciais da cidade de São Paulo estão terceirizando a portaria, substituindo os porteiros por seguranças profissionais; a figura a quem se pede socorro na hora do aperto, com quem se conversa sobre o tempo ou o jogo, sairá de cena e em seu lugar virá um sujeito estranho, indiferente e empertigado. Não demora e Brasília também irá aposentar o zelador que mora debaixo do bloco para contratar uma empresa que oferecerá a tecnologia de ponta no cada vez mais procurado serviço de segurança profissional. <br> <br> <br> <br> <br> <br>A mudança está incluída no pacote de aceleração do crescimento da desumanidade no mundo contemporâneo. Universaliza a percepção de Nelson Rodrigues. Ele dizia que passava semanas sem encontrar um ser humano. O anjo de obsessão acusava, com a frase provocadora, a raridade das aparições humanas no seu cotidiano. Há de se registrar que ele experimentou um tempo histórico bem menos cáustico que o da primeira década do século 21. <br> <br> <br> <br> <br> <br>A possibilidade de que, mais dia menos dia, ficarei sem porteiro me causou uma espécie de orfandade antecipada. Mesmo que eu não tenha tempo para bate-papo debaixo do bloco, o que em si já é forte indício de desumanização, mesmo assim a ideia de que no térreo mora uma família que, em caso de urgência, pode me socorrer e aos meus queridos, me ajuda a dormir melhor.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>O 192 é muito pouco para quem vive como um louco e mora no Plano Piloto, parafraseando o incrível Renato Mato. A boa vizinhança não é uma qualidade candanga. Eu mesma, vinte e cinco anos depois, já aderi à educada indiferença com que o brasiliense trata o brasiliense no território que vai do instante em que se desce do carro ao que se abre a porta do apartamento.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>É certo que, quanto maior a cidade, maior a indiferença. Mas Brasília não é tão grande assim, e o Plano Piloto tem o tamanho de um bairro. E se comporta como uma cidade do interior quando avisa, em e-mails como o que acabei de receber, que há uma quadrilha de ladrões de bolsas agindo em certa rede de restaurante frequentada pela classe média-média alta.  <br> <br> <br> <br> <br>Na quadra onde moro e nos arredores dela, os porteiros exercem uma vida comunitária que nós, os moradores, até onde sei, desconhecemos. Eles têm um time de futebol que se apresenta semanalmente na quadra; fazem churrascos na pracinha e conversam, conversam, conservam. Cedinho, antes mesmo das sete da manhã, alguns deles já estão reunidos debaixo de um dos blocos para mais uma rodada de bate-papo. Cabe a eles saborear vagarosa e continuamente o gosto de viver numa quadra bem arborizada, pavimentada e silenciosa do Plano Piloto.&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>Nos, os que vivemos acima dos pilotis, não temos tempo a perder. Não debaixo do bloco. E dizem por aí que os bem-sucedidos somos nós. Estou quase desacreditando. Sem os porteiros que convocam diariamente a nossa humanidade, vou desacreditar mais ainda.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54741</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 359px; height: 239px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/72e9fe4fb40402194a5505c4a1c6038b.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Marge Simpson em foto para a<span style="font-style: italic;"> Playboy</span></font> <br><font size="4"> <br></font> <br><font size="6"> <br>O que é uma mulher?</font> <br> <br> <br> <br> <br>O que é uma mulher? Sou há um tempão e ainda não sei a resposta. Até Freud ficou sem saber e era nesse não-saber que estava a fonte para uma resposta que não pode existir. O mistério, portanto. Existência fugaz, diria. <br> <br> <br> <br> <br>Procuro a mulher que sou e a primeira imagem que me aparece é de uma menina espantada com o corpo a mais que havia nos meninos. Corpinho pendurado o deles. Corpinho escondido o meu. Eles usavam shorts e eu, sainha, o que me deixava em desvantagem. <br> <br> <br> <br> <br>Meninos-caçadores, os da minha infância. Subiam em árvores, nadavam nos rios, jogavam finca, matavam passarinho com estilingue, disputavam quem fazia o cerol mais envenenado e depois lançavam pipas para o combate no ar. Garoto se cortava, se queimava, se quebrava e pouco depois voltava para as incríveis aventuras de ser menino. <br> <br> <br> <br> <br>Não, não era inveja o que sentia. Era admiração. Os garotos da minha infância eram meus heróis. E era desse contraste que eu sabia, sem saber que sabia, que era uma menina. Algumas vezes, eu tentava ser menino, mas nunca fiquei muito à vontade subindo em árvore ou jogando finca. Preferia ficar na janela admirando a meninice máscula.  <br> <br> <br> <br> <br>Filha do finalzinho dos anos 50, eu já via adolescentes usando calça comprida e moças trabalhando no comércio e na indústria. Não quis aprender a bordar, mas admirava as cores fortes das linhas macias que enchiam o cesto da professora de bordado. Também não tive jeito para a cozinha. Meu arroz do tempo de faculdade era famoso por sua extraordinária capacidade de se transformar num mingau.  <br> <br> <br> <br> <br>Desde muito cedo, soube que teria de ir à luta para dar conta da minha sobrevivência e a de meus queridos. Tive de virar caçadora como os meninos de estilingue da minha rua. E lá fui eu, com as armas que eu inventava para cada guerra que surgia. Os garotos empinadores de pipa haviam se transformado em estudantes universitários de calça jeans, chinelo, cabelos compridos e livros de Marx, Engels e Lênin debaixo do braço. E eu era um deles: jeans, chileno e Marx. <br> <br> <br> <br> <br>Por esse tempo, a diferença de gênero, como se diz hoje, foi esmaecida. Eu já não admirava os garotinhos da janela. Estava ao lado deles, pensando, discutindo, argumentando, dedo em riste, palavra afiada tanto quanto a deles. Então passei a acreditar que não havia nenhuma diferença entre homens e mulheres, exceto o corpo a mais que eles tinham. <br> <br> <br> <br> <br>Algum tempo depois, a maternidade veio me lembrar que eu também tinha um corpo a mais — e que não se manifestava apenas num jorro vermelho a cada mês. Ele servia de ninho para um outro corpo, uma outra unidade. Mas a maternidade não me ajudou a desvelar o mistério do que é ser mulher. Ela me ensinou a ser mãe — outro barato, grande barato.  <br> <br> <br> <br> <br>O estilingue, as linhas do bordado, o mercado de trabalho, a maternidade, nada disso me ajudou a desvelar o mistério. A mulher só existe no contraste com o homem e essa não é uma questão feminista, machista ou sexista, nem biológica nem sociológica nem antropológica.  <br> <br> <br> <br> <br>Somente diante de um homem, existe uma mulher.  <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Novamente novo]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54740</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/cdc13708a1bf728e9b216790c6c76c5e.jpg"> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" size="2">Projeto do Puerto de la musica, de Niemeyer, na Argentina&nbsp;  <br></font> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br>O nem já tão novo site de Oscar <a href="http://www.niemeyer.org.br/">Niemeyer </a>trouxe um salto de qualidade à biografia do arquiteto. Desenvolvido pela caos!, o oscarniemeyer.org.br caminha pela vida, pela obra, pela história do Brasil e do mundo no século 20 e começo do 21.&nbsp; De fácil navegação, o site conseguiu sintetizar virtualmente 102 anos de vida e mais de 70 anos de atividade profissional do mais importante arquiteto brasileiro. Está muito mais informativo, iconográfico e ágil que o anterior. Nele, pude conhecer um dos projetos mais ou menos recentes de Niemeyer, o&nbsp; Puerto de la musica, um teatro a ser construído em Rosário, Argentina. É um Niemeyer em variação surpreendente sobre ele mesmo. Como um poeta que reescreve o mesmo poema para fazê-lo novamente novo.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54710</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5eeb57db71df8989282e4ea8d0ce2b8c.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Cidade Administrativa, Belo Horizonte, Oscar Niemeyer</font> <br> <br> <br> <br> <br><font size="6">Lapso aritmético</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br>Entusiasmados com a inauguração da Cidade Administrativa, obra de Oscar Niemeyer, os mineiros estão cometendo um, digamos, lapso aritmético. Com o novo conjunto arquitetônico em Belo Horizonte, Minas não se transformou no Estado com maior número de obras do arquiteto. Esse mérito é de Brasília. Vamos aos fatos, às circunstâncias e aos números. <br> <br> <br> <br> <br>Belo Horizonte abriga a primeira grande obra de Oscar Niemeyer, o conjunto da Pampulha, projeto que alertou o mundo, em 1940, para o surgimento de uma arquitetura moderna à brasileira. Com a Pampulha, o concreto passou a fazer curvas. São quatro as obras: a igreja, a casa de baile, o cassino e o clube.  <br> <br> <br> <br> <br>Antes de Pampulha, o arquiteto havia feito o Grande Hotel de Ouro Preto. Depois, Niemeyer fez outros 15 projetos em Minas, de casas a escolas, em Belo Horizonte, em Cataguazes, em Diamantina, em Juiz de Fora e em Itabira (o Memorial Carlos Drummond de Andrade). <br> <br> <br> <br> <br>Finalmente, o arquiteto executou em Belo Horizonte, obra tão ou mais grandiosa, em volume e extensão, quanto a Pampulha, a Cidade Administrativa. Passei, de carro, pela obra dias antes de ela ser inaugurada. Esperava uma decepção com a que me causou o Conjunto Cultural da República, na Esplanada. Nada disso. Apesar de ser obra desenhada e executada bem depois, o conjunto projetado para abrigar todo o poder executivo de Minas é leve, tem espelho d’´água e projeto paisagístico — grama, grama, grama, que Niemeyer se recusou a colocar no conjunto cultural.  <br> <br> <br> <br> <br>O Palácio Tiradentes é uma surpresa. O prédio está suspenso por tirantes metálicos, sustentados por dois grandes pórticos, como se fossem uma cobertura descolada do que deve cobrir. Ao todo, são seis edifícios, entre eles dois prédios gigantes, um semiconcâvo, outro semiconvexo, voltados um para o outro. Há dois outros volumes, um deles com a forma do Museu Nacional, só que muito mais leve.  <br> <br> <br> <br> <br>Os mineiros, portantos, podem se orgulhar de ter um conjunto da obra recente de Niemeyer no qual se respira leveza, onde áreas verdes e laguinho bucólico envolvem a arquitetura. Brasília não mereceu tamanho cuidado no Setor Cultural Sul. <br> <br> <br> <br> <br>Mas é bom parar por aí. A glória de ter o maior conjunto de Oscar Niemeyer é de Brasília e dificilmente deixará de ser. Até hoje não foi feito um levantamento rigoroso de todas as obras do arquiteto na cidade — algumas das quais os projetos se perderam ou estão apodrecendo em alguma gaveta do GDF; e há muitas outras que ele mesmo não se lembra ou não reconhece como suas. <br> <br> <br> <br> <br>Além dos palácios, da Catedral, do Teatro Nacional, do Brasília Palace Hotel, de algumas superquadras, da Rodoferroviária, de escolas classes e escolas parque, da Igrejinha, dos ministérios, dos anexos, do CCBB, da Casa do Cantador, da Casa do Teatro Amador, do Museu do Índio, do Memorial JK, do QG do Exército (belíssimo), , de todas as obras pontilhadas na Praça dos Três Poderes e atrás dela, além de tudo isso e muito mais que não cabe aqui,&nbsp; há pontos de ônibus, pontos de táxi, casas, relógio do sol…  <br> <br> <br> <br>Brasília abriga o maior número de niemeyeres do planeta, não custa reafirmar. <br> <br></div> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54652</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/13e231521d269865d95f8c00434321b1.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Manchete do <span style="font-style: italic;">The New York Herald</span> <br>sobre o naufrágio do Titanic</font>  <br> <br> <br> <br><font size="6"> <br>Cada um por si</font> <br> <br> <br> <br> <br>Nunca se sabe do que se é capaz até que cada um de nós seja colocado à prova. Em momentos de crise, os credos, as crenças, as teorias, as promessas e o que a gente pensa da gente mesmo (e do outro) podem virar pó. As situações extremas são reveladoras de quem somos e de quem o outro é. E as surpresas serão muitas, mais pra pior do que pra melhor.  <br> <br> <br> <br> <br>Desconfiados de que não somos tão magnânimos quanto gostaríamos, pesquisadores australianos desenvolveram uma pesquisa baseada na reação de passageiros e tripulantes do Titanic e do Lusitânia. No primeiro naufrágio, ocorrido em 1912, morreram perto de 1,5 mil pessoas. No segundo, três anos depois, a lista de mortos tinha cerca de 1,2 mil nomes. <br> <br> <br> <br> <br>A história do Titanic todos conhecem. A do Lusitânia nem tantos. O tlansatlântico foi alvejado por um submarino alemão, o que acabou conduzindo os Estados Unidos à 1ª Guerra Mundial. O Lusitânia afundou em dezoito minutos. Depois de bater no iceberg, o Titanic demorou duas horas e 40 minutos para afundar.  <br> <br> <br> <br> <br>O que intrigou os pesquisadores e provocou a pesquisa foi a diferença no comportamento dos passageiros e tripulantes de um e de outro navio. Os homens do Titanic tiveram mais espírito solidário, por isso foi grande o número de mulheres e crianças sobreviventes. No Lusitânia, isso não ocorreu. Os homens trataram de se salvar e entregaram mulheres e crianças à morte. <br> <br> <br> <br> <br>Os pesquisadores concluíram que no Titanic os homens tiveram tempo para ser solidários. O navio afundou vagarosamente e seus ocupantes acreditavam que seriam resgatados. O torpedeamento do Lusitânia não deu tempo para que a solidariedade se impusesse. Foi cada um por si. “Quando é preciso reagir de maneira muito, muito rápida, os instintos do ser humano costumam se afirmar com velocidade muito maior do que as normas sociais apreendidas”, disse um dos pesquisadores. E o instinto de sobrevivência é primordial em bichos e humanos.  <br> <br> <br> <br> <br>Para ser solidário, o ser humano precisa de tempo, é o que conclui a pesquisa. Dito de outro modo: o ser humano precisa de outro ser humano para ser mais ser humano. É na extensão do contato com o outro que ele se humaniza. Caso contrário, pode se reduzir a um bicho em busca da própria sobrevivência <br> <br> <br> <br>Onde então encaixar a reação dos heróis que, em situação extrema, dão a vida pelos outros? Brasília tem o seu: o sargento Silvio Holembach. Ele passeava com a família no zoológico. Ouviu gritos de uma criança e pulou no poço das ariranhas para salvá-lo. Não pensou. Não avaliou os riscos. Não suportou a ideia de uma criança estar sendo comida pelas ariranhas e não fazer nada. Mas esses são os heróis, feitos de uma substância rara. A maioria de nós corre o risco de virar bicho para se salvar. E nem é preciso estar no Titanic ou no Lusitânia. <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54632</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5e256b1ef83a45ec7d708383bcefb7e6.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="3"><font size="2"><span style="font-style: italic;">Meu vestido pendurado ali</span>, Frida Khalo</font> <br> <br><font size="4"> <br></font> <br> <br><font size="6">Tão pouca <br> <br></font> <br> <br>O dia nem bem começou e já fiquei pequena, menorzinha, dependência completa de empregada, roupa tamanho 36.  <br> <br> <br> <br> <br>Tomo conta do meu real tamanho, o metro e sessenta e oito de minha condição humana, e ao mesmo tempo reconheço o milagre: estou viva enquanto ao meu redor a terra ruge, ronca, sacoleja, troveja , venta, ferve. Um haitiano fugiu de Porto Príncipe, depois do terremoto e foi para Santiago e a Terra foi atrás dele para novamente trepidar sob os pés do fugitivo. Que azar, é a primeira coisa que penso, até que alguém mira o universo de um jeito diferente e me avisa: que sorte, ele sobreviveu a duas catástrofes. <br> <br> <br> <br> <br>Abro a caixa de mensagem e fico mais pouca ainda. Pouquitíssima, porque mesmo apequenada não largo meus superlativos. Tudo treme, tudo pede, tudo se movimenta, tudo manda sinais.  <br>Pelos e-mails que pulam dentro da caixa dá pra ver o sucesso que fez a ideia do poeta Nicolas Behr de mudar a destinação de uso da nova sede da Câmara Legislativa. Uma leitora sugere que o conjunto monumental seja transformado na sede de um arquivo histórico e documental do Distrito Federal <br> <br> <br> <br> <br>Um leitor quer que o conjunto de prédios abrigue o MAB, o Museu de Arte de Brasília, que há tempos insanos espera por uma reforma. Outro sonha com um centro de cultura popular à beira do Eixo Monumental. (“Aquela Casa é do povo. O povo merece estar num local confortável”, já declarou o governador em exercício Wilson Lima).  <br> <br> <br> <br> <br>Pode não dar em nada, mas o movimento, por si só, vai impor aos distritais o constrangimento que eles merecem. Se é que eles ainda têm a capacidade de se sentir constrangidos.  <br> <br> <br> <br> <br>Alguém me conta que o escândalo da bolsa, da meia e da cueca cancelou a edição especial que uma revista planejava publicar pelos 50 anos de Brasília. Mas fico sabendo, ao mesmo tempo, que outras revistas, essas especializadas em arquitetura e urbanismo, preparam reportagens sobre a cidade. Uma jovem repórter de uma rádio alemã está em Brasília preparando um áudiodocumentário sobre a história da construção da nova capital.  <br> <br> <br> <br> <br>Recebo cópia de artigo do jornalista Mauro Santayana que me faz pensar. Diz Santayana, arguto pensador político, que há duas Brasílias, a municipal e a federal. A que compreende a vida comunitária, que seria legislada por uma câmara de vereadores, como havia no velho Distrito Federal. E a federal, a monumental, a que representa o país. E quem deverá cuidar dessa, sugere o jornalista, é o governo federal, que “terá de ser soberano sobre o território de sua sede”. (O texto completo está na internet, sob o título “Brasília: o todo e a parte”). A autonomia do DF foi, diz ele, um erro da Constituinte de 1988.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Brasília é que ficou grande demais para um Brasil que nem dá bola pra ela. E eu vibro ao vê-la discutida, avaliada, investigada, questionada. Brasília vai sair bem melhor disso tudo, podem apostar. E estarei nela até quando durar o milagre de estar viva, do tamanhinho que sou, bem pouca pra os tantos estímulos e os assombros do viver.  <br> <br> <br> <br></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54526</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<div style="text-align: justify;"><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5cb0a00b77d3705d437ef2956f35bdbf.jpg" align="left"><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="3"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A conquista  <br>de Sara</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">O convite chegou de mansinho, 45 anos depois. As amigas do ginásio no colégio de freiras de Fortaleza estavam organizando uma festa de reencontro. No começo, Sara reagiu com certo desdém. Não iria de jeito nenhum, não gosta dessas festas, imagina reencontrar amigas de escola quase meio século depois… e se ela estivesse mais gorda que as outras, mais feia que as outras, mais velha que as outras, e se as outras estivessem mais bem-sucedida do que ela e se…  <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Seu medo maior, porém, era o de alguém lhe pedir o e-mail. “Não tenho e-mail, não gosto desse troço, não sou desse mundo”, ela retrucava a cada vez que os filhos tentavam convencê-la a comprar o bilhete Brasília-Fortaleza, ida e volta. “Faça um e-mail, mãe”, sugeriu um dos filhos. “Não quero saber de e-mail, está muito bom do jeito que está. E-mail não me faz a menor falta.” <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A campanha para que ela fosse à festa continuou. “Mãe, deixa de ser boba, você vai encontrar suas amigas de adolescência, vai se lembrar dos bons tempos e vai fazer uma viagem sozinha, sem filhos, netos, confusão”. Sara acabou aceitando a ideia e deixou que os filhos preparassem a viagem. Ela não quis pensar muito na história, pra não se deixar paralisar pela ansiedade ou pelo medo.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Lá foi Sara, 60 anos, ao reencontro de sua adolescência. <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Ela, que não bebe gota d’álcool, aceitou o primeiro chope que lhe ofereceram; o segundo; o terceiro. E nem percebeu. As amigas foram chegando, reconhecendo-se umas às outras, 45 anos depois. Algumas mais jovens, mais magras, mais bonitas; outras mais velhas, mais gordinhas, menos bonitas. Umas mais ricas, outras remediadas e algumas para quem a vida foi mais pedregosa.  <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Todas elas, naquela noite, garotas de 15 anos reacendendo as lembranças das estrepolias no colégio de freiras; as ingênuas paqueras com os meninos do colégio militar, do outro lado da rua; as mirabolantes fugas de sala de aula; o dia em que uma delas pulou a janela e caiu na cabeça de um gorducho; o cigarro escondido; os primeiros namoradinhos; o beijo na boca, façanha espetacular para uma adolescente do começo da década de 60. <br> <br> <br> <br>&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Quando chegou a inevitável hora de cada uma contar o que havia feito da vida nos últimos 45 anos, surgiram juízas, médicas, advogadas, funcionárias públicas, engenheiras. Sara, então, disse que havia se dedicado à família. Que tinha quatro filhos e oito netos. Nenhuma de suas amigas de adolescência tinha tido tantos netos assim! Contou que adorava cozinhar. Que aos domingos os netos já chegavam pedindo: “Vó, o bolo”. Que fazia bolos para os filhos, os netos, os amigos dos filhos e dos netos, os amigos dos amigos, para toda a gente que um dia provara a massa (Ela não disse desse modo exibido; eu é que estou temperando a modéstia de dona Sara). <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Depois que contou quais tinham sido suas conquistas na vida, Sara pediu o quarto e derradeiro chope. Sorveu os goles como quem saboreia de uma só vez o melhor que a vida lhe deu. <br> <br></span></font> <br></div><font style="font-style: italic;" size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><span style="color: rgb(102, 102, 102);">PS. O desenho acima é de Paul Klee,<span style="font-weight: bold;"> Tete d'enfante</span> &nbsp; </span></span></font> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54492</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 372px; height: 285px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/80fef55928019495dc3d63c469336d9f.jpg"> <br><font size="4"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="6">É do povo</font> <br> <br> <br> <br> <br>Depois de ler na <span style="font-style: italic;">Folha de S. Paulo </span>de ontem que os deputados distritais são os mais caros do Brasil, o poeta Nicolas Behr lançou uma campanha para transformar a nova sede da Câmara Legislativa numa escola de ciências políticas e num museu da cidadania.  <br> <br> <br> <br> <br>O movimento para impedir que os distritais ocupem o conjunto monumental que fica ao lado do Tribunal de Justiça do DF irrompeu da indignação do poeta com os dados apresentados pelo jornal. O custo de cada deputado distrital, neste 2010, será de R$ 14 milhões, segundo levantamento da <span style="font-style: italic;">Folha</span>. O parlamentar de Brasília é o mais caro do Brasil.  <br> <br> <br> <br> <br>Mais alguns dados pra inflar a indignação de Nicolas, o poeta do iogurte com farinha, das pernas tortas das árvores do cerrado e do desejo de viver numa Brasília decente.  <br> <br> <br> <br> <br>O repórter Renato Alves contou em reportagem publicada no <span style="font-weight: bold;">Correio</span> no domingo retrasado que a nova sede da Câmara custou três vezes mais que o preço inicial. Calculada inicialmente em R$ 42 milhões, saltou para R$ 83 milhões e será concluída ao preço de R$ 120 milhões. A Câmara tem 24 distritais, porém, estranhamente, a nova sede terá 36 gabinetes para deputados, cada um deles com 90 metros quadrados — maior que apartamentos de três quartos de classe média-média em Brasília. <br> <br> <br> <br> <br>A nova sede da Câmara, quiçá o museu da cidadania, tem dois pisos térreos, um inferior e um superor. São dez andares, 48 mil metros quadrados ao todo. Três dos andares foram destinados a estacionamento privativo. O plenário fica num volume redondo com acesso por uma praça ou por um corredor ligado ao prédio central.  <br> <br> <br> <br> <br>Renato Alves entrou no conjunto de prédios e disse que o salão que antecede o plenário é muito parecido com o Salão Verde do Congresso Nacional. Vale ressaltar a descrição detalhada das cadeiras destinadas aos distritais. Elas são de couro natural, com encosto de cabeça independente e tela anti-transpirante para que os cabelos de suas excelências estejam protegidos dos suores. Os braços das cadeiras são cromados ou em alumínio com regulagem de altura e de abertura. Haverá apoia-braços em poliuretano, regulagem de tensão no encosto, base de alumínio com cinco patas (!!) e pistão a gás cromado, seja lá o que for isso.  <br> <br> <br> <br> <br>Não fosse o escândalo das meias, bolsas e cuecas, o sorteio dos gabinetes teria ocorrido em 2 de dezembro passado, com a presença do governador José Roberto Arruda, convidado para assistir a tão importante e decisivo compromisso. Não fossem os acontecimentos que revolveram as entranhas da política candanga, os distritais teriam se mudado para a nova sede em 2 de fevereiro passado. <br> <br> <br> <br>No e-mail que deu a largada para a campanha que pretende mudar a destinação do conjunto monumental, Nicolas Behr sugere que a UnB ou a Unesco ou as duas encampem a ideia de ocupar o monumento de R$ 160 milhões. Boa lembrança: antes de assumir interinamente o governo do DF, o deputado Wilson Lima disse que não via nenhum problema no custo da obra. “Aquela casa é do povo. O povo merece estar num local confortável.” <br> <br> <br> <br> <br>Nesse aspecto,o governador e o poeta concordam: a nova obra no Eixo Monumental é da população de Brasília.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54402</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 364px; height: 273px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/f8978148f29537c07d53b7646c43ae1c.jpg"> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="2"><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Projeto do Lelé para a rede Sarah do Rio de Janeiro</span> <br> <br> <br> <br></font> <br><font size="6"> <br></font><div style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" id=":y6" class="ii gt"><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="6">Um homem inspirador</font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"> <br></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"> <br></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="6"> <br></font></p><div style="text-align: justify;"> </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">Um doce e discreto passarinho me contou linda história que compartilho com os leitores desse pé de página. É uma pílula para suavizar o fim de semana que começou com mais uma catástrofe. O passarinho, na verdade, uma passarinha, assistiu a um dos muitos encontros de dois mestres da delicadeza, da arquitetura e da arte, Lelé e Athos.</font></p><div style="text-align: justify;">  </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">Contou-me o passarinho que Lelé estava às voltas com o projeto da rede Sarah em Macapá, feito em parceria com Athos, como tantos outros. De passagem por Brasília, o arquiteto foi visitar o artista em seu apartamento na 315 Sul, “rotina sagrada sempre que vinha à cidade”, nas palavras do passarinho. Passadas as primeiras conversas amenas próprias de um reencontro de amigos, Lelé entrou no assunto profissional, o projeto de Macapá, e comentou a respeito do terreno: “Athos, sabe que lá tem um vento forte permanente? E o local é mais elevado. Então, pensei em fazer uma estrutura metálica tubular que produzisse som em vários tons. Uma flauta tocada pelo vento. Seria alta, com uns dez metros, os tubos em forma helicoidal.”</font></p><div style="text-align: justify;">  </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">Athos ouviu e respondeu, com “seu jeito pausado e manso”, segundo palavras do passarinho: “Uma flauta toda colorida”. Os dois então envolveram-se em um silêncio que, na contagem do relógio pode ter sido curto, mas para os dois foi o tempo da comunhão, para usar um termo do pássaro contador de histórias (que me pediu pra ficar anônimo). Lelé, então, quebrou o silêncio, cheio de entusiasmo: “Isso! Toda colorida. Vamos fazer?”. Athos topou: “Vamos. Me manda um esboço, vou estudar as cores”.</font></p><div style="text-align: justify;">  </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">Não deu tempo. Athos já estava sendo severamente castigado pelo Mal de Parkinson. Lelé concluiu o projeto sem a flauta. Na sexta-feira passada, o arquiteto confirmou a história, e nem precisava. O passarinho que testemunhou o encontro é dos mais confiáveis.</font></p><div style="text-align: justify;">  </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">João Filgueiras Lima é o homenageado da edição de fevereiro da revistra <i>Trip</i> que aproveitou para também celebrar os 50 anos de Brasília. Lelé veio para cá em 1957, com Oscar Niemeyer, seu mestre. Com o tempo, o arquiteto desenhou um próprio, singular, inovador, delicado e discreto caminho na arquitetura moderna. </font></p><div style="text-align: justify;">  </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">O arquiteto Ciro Pirondi diz, na <i>Trip</i>, que “Lelé é o Brasil que a gente queria ter. Numa época em que o arquiteto virou celebridade, ele resgata a profunda responsabilidade social da profissão.”<span>&nbsp; </span><span>&nbsp;</span><span>&nbsp;</span></font></p><div style="text-align: justify;">  </div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3"> <br></font></p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"><font size="3">Na mosca. Lelé não gosta de dar entrevista, não faz nenhuma questão de aparecer na mídia. Tem produzido nas últimas décadas uma coleção de admiráveis obras de arquitetura país afora e adentro, a maior parte delas vinculadas a projetos sociais. Toda vez que eu converso com Lelé, cinco minutos que seja, por telefone, saio embevecida. Há um grande ser humano sustentando o grande arquiteto. Lelé é um homem raro, inspirador. </font></p> </div> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=54099</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		 <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="6">Da janelinha do avião</font> <br> <br> <br> <br>Eu poderia falar da renúncia de Paulo Octávio. <br> <br> <br>Poderia falar de Wilson Lima, o até agora governador interino de Brasília, de seu gosto pelo excesso de gastos. <br> <br> <br> <br>Poderia falar da visita do arcebispo, dom João Braz Aviz a José  <br>Roberto Arruda e do isolamento a que os amigos tão rapidamente condenaram o governador afastado.  <br> <br> <br> <br>Poderia falar na possibilidade, cada vez mais aventada, de intervenção no Distrito Federal. <br> <br> <br> <br>Poderia falar da possibilidade, cada vez mais comentada, de Arruda ficar preso por tempo indeterminado. <br> <br> <br> <br>Poderia falar da possibilidade de Joaquim Roriz voltar a assumir o Governo do Distrito Federal. <br> <br> <br> <br>Poderia falar do terremoto político que está interrompendo carreiras, dissolvendo ambições e derrubando máscaras. <br> <br> <br> <br>Poderia falar da corrupção que corroeu a vida política da capital do país. <br> <br> <br> <br>Mas não vou falar de nada disso. Não sou de política, não gosto de muita proximidade com esse mundo, não tenho traquejo para lidar com as manhas e artimanhas dos jogos de poder (e nem faço questão de aprender, está muito bom do jeito que está). A essa altura do terremoto contínuo, preciso de oxigênio, de pausa pra continuar acompanhando os tremores de terra no chapadão. Por isso vou contar uma visão que tive no domingo à noite, da janelinha do avião. <br> <br> <br> <br> <br>À medida que o avião subia aos céus, surgia um bordado reluzente, feito de linhas curvas e retas, mais retas do que curvas. Como se um imensurável transatlântico ocupasse o mar, todo ele iluminado em cores douradas. Era um mar aberto e verticalmente estufado. Tudo indicava que ele, o mar, tinha orgulho de si mesmo, daí tanta altivez topográfica. <br> <br> <br> <br> <br>Entre os extensos riscos longilíneos do bordado havia pequenos retângulos também feitos de luzes. E várias luzes dentro de cada retângulo, tudo em poético equilíbrio geométrico. Tudo reluzia no transtlântico que eu via da janelinha pendurada no céu. Até os vazios do bordado realçavam as formas do ao-redor.  <br> <br> <br> <br> <br>Quem terá feito bordado tão monumental, cuidadosamente desenhado e tão delicado? As luzes desenham asas e desenham corpo — seriam constelações de uma galáxia desconhecida? Que joalheiro-artesão modernista terá cerzido bordado tão simétrico e harmonioso? Nenhuma irregularidade, nenhum rococó, nenhum excesso, nenhum tropeço, nenhuma ostentação.  <br> <br> <br> <br> <br>Quem chega do céu, desavisado, pode até imaginar que se aproxima de uma cidade como as outras que iluminam o mundo quando o sol pede pausa. Mas logo virá a dúvida: será mesmo uma cidade? Não se trata do aglomerado de luzes aleatórias de uma metrópole.  <br> <br> <br> <br>Pode até ser as lâmpadas de uma cidade planejada, mas não é só isso. O bordado que vi, da janelinha voadora, era a cerzidura de um sonho sendo de novo sonhado.  <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=53880</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 412px; height: 272px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/962da8b5a2d2c042d1efb268a2b56d98.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"><font size="2"><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Rodoviária do Plano Piloto, foto de Breno Fortes</span></font><br style="color: rgb(102, 102, 102);"><br style="color: rgb(102, 102, 102);"><br style="color: rgb(102, 102, 102);"><font size="4"><span style="color: rgb(102, 102, 102);"></span></font><br style="color: rgb(102, 102, 102);"><br style="color: rgb(102, 102, 102);"><br style="color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6"><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Essa gente silenciosa <br> <br> <br></span></font><span style="color: rgb(102, 102, 102);">A entrevista do deputado Wilson Lima publicada no <span style="font-weight: bold;">Correio</span> de anteontem é aparentemente cômica, mas revela a extensão de uma tragédia. O cidadão que pode dirigir, menos por alguns meses, a capital da República e gerir os R$ 21 bilhões que estarão no cofre é&nbsp; vice-campeão de gastos de verba indenizatória da Câmara Legislativa, foi eleito com 9 mil votos e se considera um “fofinho”. <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Wilson Lima é apenas a caricatura da qualidade dos políticos de Brasília. Leio os impressos, os on-line, os colunistas nacionais e locais, os telejornais, blogs, comentários, repórteres, vou e volto e sinto crescer no peito uma suspeita: Brasília, aos 50 anos, não forjou uma geração de políticos respeitáveis. Pergunto a uma repórter de política séria e experiente e ela me diz que a cidade tem o time dos corruptos e um ou outro gato pingado mais ou menos independente.  <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Brasília foi vítima de seus próprios encantos. Bela, rica, solitária, rejeitada pelos brasileiros, hospedeira de políticos que vêm nela apenas uma escala obrigatória entre a base eleitoral e os projetos de ascensão, sem Juscelino para defendê-la, sem Darcy, sem Israel, sem Lucio e com um Oscar Niemeyer preocupado com suas obras de arquitetura, Brasília perdeu o chão. <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Por isso a ideia de intervenção não é tão humilhante como parece num primeiro momento. É preciso alguém com envergadura moral e capacidade administrativa e política para pilotar o barco nesta terrível ameaça de naufrágio. Como escreveu ontem o Alon Feuerwerker, neste jornal, alguém terá que assumir a tutela da cidade, já que ela por si só não tem condições de cuidar de si mesma, até que a população eleja alguém em quem confie para retomar a direção do barco.  <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="color: rgb(102, 102, 102);">O secretário de Comunicação, André Duda, disse ontem, em defesa da não-intervenção, uma (aos meus olhos) verdade: “A crise é grave, é política, mas para a população ela não está acontecendo”. É esse o barato das grandes cidades: elas reúnem uma gente silenciosa e trabalhadora que segue tocando suas vidas — e a vida das cidades — sem alarde, sem desespero, sem destempero. Gente que conta apenas com o próprio esforço para dar conta da vida, que não tem acesso à fila de bajuladores, que não tem nem chance de ser camaleão nas crises (aqueles que estão com quem estiver no poder). São eles, os humildes que continuam a fazer a cidade funcionar, são eles que darão a Brasília a segurança de que o terremoto atinge apenas quem tem alguma coisa (ou muita coisa) a perder. <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Quem vive ao largo do poder toca a vida, com Arruda, com PO, com Wilson Lima, com o interventor. Mas a intervenção, se bem feita, pode sanear as veias sujas de lama da cidade que não merecia isso. E as eleições de outubro trarão de volta a normalidade. É se de esperar que, após tamanho susto, até o mais sujo dos políticos fique com o pé atrás.  <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="color: rgb(102, 102, 102);">A sombra no peito é, portanto, passageira. Brasília, a da gente silenciosa, só tem a ganhar com esse terremoto.&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span><br style="color: rgb(102, 102, 102);"></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=53879</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 415px; height: 273px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/326bb31e79d58b7e7a9eb7f51144af8c.jpg"> <br><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A turma do Charles Brown</span></font><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="4"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="7"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Procura-se a decência</span></font></font> <br> <br> <br> <br><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A professora de ex-internos do Caje que, no início do mês, me escreveu e-mail aflita com o início do ano letivo, reapareceu com novas notícias. Antes de contá-las, porém, vou relembrar a razão da angústia de minha querida leitora. Ela não sabia como entrar em sala de aula para ensinar noções de cidadania, honestidade, dignidade e justiça a uma turma de adolescentes que já foi detida por furto de bicicleta, tênis, celular. Temia que eles, ariscos e desconfiados como a vida lhes ensinou a ser, retrucassem com os exemplos de impunidade que habitavam Brasília àqueles dias. “Só os pobres vão para a cadeia?” — era uma das perguntas que a professora receava ouvir dos meninos. </span><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br> <br> <br>Mas ela tinha de entrar em sala de aula e enfrentar garotos sempre prontos para a contestação, sempre desconfiados de tudo o que lhe oferecem como modelo para uma vida cidadã. Decidiu, então, que entraria com tudo: começou a aula com Semente do amanhã, de Gonzaginha (“Ontem um menino que brincava / me falou que hoje é semente do amanhã…”). Depois, engrenou um Cazuza ( “Não ligue pr’essas caras tristes/ Fingindo que a gente não existe / Sentadas, são tão engraçadas / Donas das suas salas”. )</span><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br> <br> <br>Antes que os meninos pudessem respirar, ela sacou um Chico Burque (“Quando seu moço nasceu, meu rebento, não era o momento dele rebentar. Já foi nascendo com cara de fome e eu não tinha nem nome pra lhe dar…”). Os guris já estavam atordoados quando ela começou a declamar poemas de Drummond. Pronto, a professora havia injetado adrenalina em dose máxima no sangue e no coração dos ex-Caje. Até que um deles parou e perguntou, tentando entender afinal o que estava acontecendo ali: “Tia, isto é aula de educação física?”. Ao que ela respondeu: “É muito mais do que isso. É arte, filosofia, sociologia, justiça, enfim, é vida.”</span><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br> <br>Com a sucessão convulsiva dos acontecimentos, desde a prisão do governador, a professora tem muito a dizer sobre o valor das instituições numa sociedade democrática, sobre o papel da Justiça, do Ministério Público, da Polícia Federal a serviço da moralidade pública. Abriu-se, ela percebeu, um feixe de luz nos olhos dos garotos. A perspectiva de que o mundo pode não ser um emaranhado de obscenidades morais, de hipocrisias e mentiras deslavadas, de Caje para adolescentes e rios de dinheiro sujo para os políticos e outros mais, tudo isso enriqueceu enormemente as aulas da professora e acendeu o interesse dos alunos.</span><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br> <br>Se a professora estiver me lendo, e gostaria muito que assim fosse, me apresso a dar uma sugestão para as próximas aulas. Que ela não deixe os garotos acreditarem numa falácia, a de que daqui pra frente tudo vai ser diferente. Os fatos que continuam a revolver o chão que a gente pisa são apenas um sopro de lisura na tormenta de imoralidades públicas que se espalha pela vida privada numa extensão muito maior do que se é capaz de imaginar. </span> <br> <br> <br> <br> <br><span style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Há tudo por fazer para que Brasília recupere sua fonte de inspiração — o desejo de fundar um país desenvolvido e moderno, com uma universidade inovadora e ousada, um sistema de saúde e educação públicas e universais, um modo de vida urbano e bucólico numa cidade ágil e bela. Mas há muitos poderosos e nem tanto que não querem perder uma lasca de unha em nome de um projeto decente de cidade. E não podemos fingir que essa gente não existe.</span><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=53513</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="7">Brasília Brasil</font> <br> <br> <br> <br> <br>A decisão do STJ, de prender o governador José Roberto Arruda, merece ser celebrada, dure o tempo que durar. Ela tem um sentido simbólico do qual Brasília jamais se esquecerá. Mais do que um presente aos 50 anos da cidade, o melhor deles, a decisão do Superior Tribunal de Justiça tem um sentido muito maior. Não apenas o de avançar no saneamento da vida pública brasileira. A decisão do STJ dá um passo inédito na aproximação do Brasil com sua capital. <br> <br> <br> <br> <br>O pedido de intervenção federal em Brasília que seria feito pela Procuradoria-Geral da República, caso aconteça, será a confirmação de que a cidade nascida de um gesto de bravura e genialidade brasileiras passa a receber o que sempre mereceu e nunca teve: o reconhecimento do país. Claro que a corrupção deve ser combatida com igual rigor em Rio Branco ou em Palmas, no Rio de Janeiro ou em Belém do Pará.  <br> <br> <br> <br> <br>Brasília, porém, é mais do que uma capital da federação. Ela é a cidade que representa todo o país. E foi criada com o que de melhor o Brasil possuía, à época, no campo da liderança política, da capacidade administrativa, da capacidade criadora e da força e valentia física. Ela é uma conquista brasileira e o Brasil não sabe disso. O Brasil estranha Brasília, desconhece, tem preconceito, mistura o território político com a imensidão de cidade que abriga, contando o Entorno, 4 milhões de brasileiros. A decisão vigorosa da Justiça lava a alma de Brasília que tem estado tão amargurada, tão descrente, tão envergonhada.&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>Mesmo se agora, quando o leitor percorre esta crônica, o panorama tenha mudado, o gesto já marcou a história da cidade. A sensação é a de que alguém olha por nós. De que Brasília não está à deriva. E que a indignação nacional surtiu efeito. <br> <br> <br> <br> <br>Pode ser que todos os acontecimentos desta quinta-feira, até o momento em que escrevo, sejam apenas uma miragem. Pode ser que hoje, sexta, tudo volte a ser como antes — são muitos, intrincados e misteriosos os motivos que movem os homens públicos. Mas a decisão do STJ pode ter outra consequência, a de reativar no brasiliense o orgulho por sua cidade. <br> <br> <br> <br> <br>Desde o estouro de Pandora, tenho ouvido e lido confissões de desalento, mesmo de quem cultivou ao longo dos últimos 50 anos uma paixão comovente por esta cidade. Gente que se pergunta, afinal, se gosta mesmo de Brasília. Brasilienses que não sabem mais onde ancorar a sua admiração pela capital, tantas são as suas facetas deploráveis. <br> <br> <br> <br> <br>Não será uma prisão que vai recuperar a salubridade do ar que se respira nos meandros do poder em Brasília. Mas que é um bom começo, lá isso é. Dá pra gente até pensar que nossos netos um dia podem habitar uma cidade melhor e mais limpa num país que se orgulhe de tê-la construído — tão bela, tão única.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=53353</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 423px; height: 264px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/c94c539854e5abae35afe629c1f74988.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">A árvore da vida, Gustav Klimt </font> <br> <br><font size="4"> <br></font><font size="7"> <br>À professora aflita</font> <br> <br> <br>&nbsp; <br>Uma professora que dá aulas para ex-internos do Caje que estão em liberdade assistida me enviou um e-mail aflito. Hoje recomeçam as aulas e ela sabe que terá de enfrentar um turbilhão de perguntas de seus alunos.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>A professora me conta que procura transmitir a eles noções de cidadania, explica o que são valores morais e por que eles são importantes para a vida coletiva. Tenta encorajá-los a acreditar nos próprios sonhos e a ir em busca deles com os métodos legais. Estimula-os a enfrentar a vida com dignidade, com ideias e ideais, a lutar no campo dos argumentos, a se fortalecer no campo do conhecimento e da competência. Tudo isso a professora vem amorosa e pacientemente ensinando a seus alunos — garotos desconfiados, assustados, irados, que testam tudo e todos antes de dedicar um fio de confiança a quem deles se aproxima.  <br> <br> <br> <br> <br>Os acontecimentos que atiraram Brasília num redemoinho de denúncias alteraram os planos de aula da professora aflita. “Sinceramente, Conceição, não sei o que falar a eles agora. Com certeza, vou ser questionada. Vão me perguntar se a prisão é só para moradores de periferia. Vão querer saber se dinheiro compra tudo. Não sei se terei argumentos para fazê-los acreditar no que eu acredito.” <br> <br> <br> <br> <br>A professora sabe que tipo de pergunta ouvirá dos alunos: “A prisão é só pra pobre? Rico rouba e fica por isso mesmo? Pra que serve a honestidade? Então, dinheiro é mais importante que tudo, e esse negócio de valores morais é puro caô?”. <br> <br> <br> <br> <br>Os alunos da professora angustiada foram detidos por furto de tênis, bicicleta, celulares e por isso estão em liberdade assistida. Outros, acusados de furto de milhões, seguem à solta. “Que valores são esses, professora, e para que servem?”, perguntarão os garotos inquietos, que não se deixam levar por qualquer lorota bem-intencionada. <br> <br> <br> <br> <br>A dignidade cobra um preço de quem a quer sempre por perto. E não é nada barato. Os garotos que a esta hora estão enchendo a professora de perguntas querem dela a confirmação de que os valores que ela ensina valem mesmo a pena — muito mais que isso, eles querem muito acreditar que ela está certa. Adolescente é um ser em construção. Ele ainda não está pronto. E esta é a hora de a professora transmitir a eles, com toda a força moral, que ela acredita no que lhes ensina. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Que, se eles estão indignados com o poderoso que pratica crimes e não é preso, é porque têm em si a certeza que roubar é indigno e imoral. Portanto, a primeira atitude corajosa de cada um deles será adotar para si mesmo a regra elementar: só quero o que é meu, o que conquistei com o meu trabalho. A vitória da dignidade é a vitória de cada um deles consigo próprios — e de quem os ama e a eles se dedicam como a professora aflita. <br> <br> <br> <br> <br>Quanto aos ricos que roubam, essa é uma luta pedregosa, do sangue ruim contra o sangue bom. Quem quiser ter a coragem de ser bom (a maldade é uma covardia que se disfarça de coragem) vai ter muita luta pela frente. Mas tudo o que conquistar será verdadeiramente seu. Tesouros que ninguém nunca lhe roubará.  <br> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=53269</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 307px; height: 328px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b7d6a787d2a4ec513022560917be9ff8.jpg"> <br><font size="5"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="5"> <br></font> <br><font size="7"> <br>Vende-se din-din</font> <br> <br> <br> <br>A menina que eu fui comprava geladinho na casa do vizinho. A geladeira se universalizou, as sorveterias populares se multiplicaram, Brasília nasceu moderna, mas as placas estão na fachada das casas modestas das cidades-satélites: “Vende-se din-din”. Há algumas variações: dindim, dim-dim, din-dim, mas o modo mais usual na capital da República é din-din. Gostem os filólogos ou não. <br> <br> <br> <br> <br>Tem din-din vermelho, branco, amarelo, laranja, vinho. Din-din azul! Din-din roxo! Se for só de fruta, o din-din custa R$ 0,50, segundo minhas fontes de Ceilândia e Taguatinga. Se tiver leite condensado, o preço sobe para R$ 0,60 ou R$ 0,70. No Recanto das Emas, por exemplo, a cotação do din-din cai pela metade: tenho fontes seguras que me afirmam ter comprado din-din de uva a R$ 0,25. O Sérgio Maggio comprou din-din a R$ 0,80 no Conic. Não há notícias de que haja no Plano Piloto outro lugar que venda din-din. O geladinho colorido prefere frequentar as cidades-satélites. <br> <br> <br> <br> <br>Din-din é a denominação que o brasiliense adotou para o sorvete em tubinho plástico que a gente vai roendo, roc-roc-roc, chupando o caldinho, roendo de novo, gelando as mãos até que só reste um fiapo de saco plástico. Din-din é nomenclatura herdada dos nordestinos que ajudaram a construir a nova capital. O din-din muda de nome em cada região do Brasil. É sacolé, gelinho, geladinho, brasinha, sorvete de saquinho, juju, dudu, chupa-chupa, chip-chip, chipe, chupe e encontrei até a variação chope. <br> <br> <br> <br> <br>A casa das palavras só reconhece a variação sacolé. O <span style="font-style: italic;">Houaiss</span> diz que ele é “uma espécie de sorvete feito de água e xarope ou sumo de fruta, que se congela dentro de um saquinho plástico produzindo um picolé sem pauzinho”. O <span style="font-style: italic;">Aurélio </span>esclarece que sacolé vem do cruzamento de saco com picolé. O <span style="font-style: italic;">Vocabulário</span> <span style="font-style: italic;">Ortográfico da Língua Portuguesa</span> (o de depois da reforma) reconhece a palavra dindim.  <br> <br> <br> <br> <br>O din-din está na Wikipédia, vejam só. O sorvetinho nasceu na Segunda Guerra Mundial. Foi o modo prático que os mariners encontraram para se alimentar de proteína — os primeiros din-dins eram salgados. No vasto mundo da internet, há receitas e receitas de din-din. Alguns mais elaborados, feitos de pudim, leite, leite condensado, creme de leite. Sacolé diet, sacolé de pavê — não demora muito e a gastronomia vai inventar um din-din-gateau. <br> <br> <br> <br> <br>O din-din também está no orkut. São mais de cem comunidades dedicadas ao geladinho. Uma delas se chama Chupa-Neném e não tem nada de angelical: dela faz parte a turma que gosta de din-din de cachaça. O cliente pode escolher: caipirinha com limão, maracujá, coco ou amendoim.  <br>Prefiro o de Tang de uva.  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=53199</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b1daa6c7f996b0bb24ea95583eae5836.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Fantasia de Plano Piloto</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br><font size="7">Na Sapucaí</font> <br> <br> <br> <br> <br>Na madrugada da próxima segunda-feira, entre 2h30 e 3h30, Brasília vai entrar na Sapucaí. Tenho ouvido, aqui e ali, brasilienses dispostos a vaiar a Beija-Flor, como se assim estivessem protestando contra o escândalo das propinas. Calma lá: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. <br> <br> <br> <br> <br>Desde que a escola decidiu cantar os 50 anos de Brasília no desfile de 2010, me preparei para, pela primeira vez, participar de um desfile de escola de samba do Rio de Janeiro. Uma amiga e eu estávamos planejando comprar uma fantasia menos rebuscada, com menos adereços, para não prejudicar a escola com eventuais perdas de plumas pelo caminho.  <br> <br> <br> <br> <br>É certo que me incomodava desfilar numa escola cujo desfile custara R$ 300 mil pagos pelo dinheiro público. Mas admiti que estava sendo xiita demais. Não é de hoje que o maior espetáculo da Terra se transformou num balcão de compra e venda. Brasília estaria na avenida e eu queria estar no meio dela, rodopiando minha fantasia de braços abertos para o Rio de Janeiro.  <br> <br> <br> <br> <br>Depois que a Polícia Federal abriu a Caixa de Pandora, perdi inteiramente a vontade de entrar na avenida. Minha amiga e eu nem chegamos a conversar a respeito. Foi uma decisão mútua e tácita. O assunto morreu. <br> <br> <br> <br> <br>Porém, a ideia de que a Beija-Flor pode ser vaiada na Sapucaí, e com a ajuda de brasilienses na arquibancada, me entristece. Mais uma vez, a cidade vai pagar por um crime que não cometeu. Mais uma vez, os brasileiros vão confundir Brasília com o Brasil. É bem mais confortável supor que a estranha cidade plantada a meio caminho dos quatro pontos cardeais é responsável pela roubalheira que ocorre de norte a sul e de leste a oeste. É mais trabalhoso aceitar a ideia de que a corrupção é endêmica e está mais próxima de cada um de nós do que gostaríamos de admitir, aqui ou alhures. É mais prático pôr a culpa numa instância difusa e distante chamada Brasília. Brasília não saiu de dentro da Caixa de Pandora e nem se resume ao que de podre há lá dentro.  <br> <br> <br> <br> <br>Começo a acreditar que os brasileiros só vão entender o que a construção da capital moderna significou e significa para o fortalecimento da ideia de Nação quando o Brasil superar suas mais terríveis mazelas. Aí então o brasileiro se libertará do preconceito contra a capital e terá olhos para reconhecer a grandeza que há na invenção desta cidade. Mas este dia está longe. <br> <br> <br> <br> <br>Até lá, vou esperar a Beija-Flor entrar na avenida cantando “<span style="font-style: italic;">Sou candango, calango e Beija-Flor! / Traçando o destino ainda criança / A luz da alvorada anuncia! Brasília, capital da esperança”</span>. Não vou aplaudir, porque não estou para festas. Mas vou ficar mais uma vez orgulhosa de viver em Brasília, mesmo que a escola seja vaiada. Tolos, eles não sabem o que fazem.  <br> <br>&nbsp; <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=52788</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7c238a77b7cf98a2124f973f47971ea1.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Brasília, 1960, foto de Thomas Farkas</font> <br> <br> <br><font size="7"> <br>A festa possível</font> <br> <br> <br> <br> <br>Depois que o bolo queimou e um monstrengo enlameado se sentou na mesa de centro da sala, o aniversário de 50 anos perdeu a graça. A comemoração agora terá de ser de outro modo: menos festiva, mais reflexiva. É esse o espírito de um belo presente que Brasília acaba de ganhar: o número 56 da revista <span style="font-style: italic;">Humanidades</span>. <br> <br> <br> <br> <br>Bonita edição. A economia de recursos gráficos descansa os olhos e deixa o leitor livre para fruir texto e fotos. <span style="font-style: italic;">BrasíliaCidadePensamento</span> é o título da edição, toda ela dedicada à cidade. Nas páginas 4/5, um espanto: uma foto de Thomas Farkas, a Esplanada em construção, entre um céu do tamanho do mundo e um chão do tamanho da Terra.  <br> <br> <br> <br> <br>Logo em seguida, o leitor fica sabendo o que o espera. Textos de craques do pensamento e da crítica: Mário Pedrosa, Paulo Emilio Salles Gomes, Paulo Herkenhoff, Olívio Tavares de Araújo, Vladimir Safatle, entre outros, alguns inéditos, outros não. O de Herkenhoff, fera na crítica de arte, começa com uma provocação. Ele pergunta, como quem não quer nada, o que teria ocorrido se, em vez de Lucio e Oscar, os criadores de Brasília fossem arquitetos como Affonso Eduardo Reidy ou Vilanovas Artigas, arquitetos modernos em plena atividade no período em que se deu o concurso. Um desses dois, ou outro, teria impedido o “apartheid social que se implantou a partir do modelo do Plano Piloto?”. <br> <br> <br> <br> <br>Lucio Costa já respondeu a essa provocação: Brasília está pronta. Quem quiser que faça outra. De todo modo, digo eu, o exercício da especulação intelectual não tira pedaço. Pelo contrário, expande o pensamento, amplia o olhar. Mas, desde já aviso, se você é a-pai-xo-na-do por Brasília, aperte o cinto. Herkenhoff joga duro: “Pensada para o poder, Brasília oscilou entre um plano de exclusão, dimensão da higiene social da futura Capital Federal, e uma acrítica visão desenvolvimentista que legitimasse seu grandioso projeto”. Depois, ele parte para analisar o lugar da obra de Athos Bulcão e Rubem Valentim na nova capital.  <br> <br> <br> <br> <br>O professor Vladimir Safatle bate devagar e assopra com afeto. Dedica-se a entender por que a cidade “sempre foi um corpo estranho no interior do Brasil”. Safatle expressa o desconforto que o brasiliense sente só de ser brasiliense: “Talvez nenhuma outra capital no mundo seja, de uma certa forma, tão desconhecida, tão incompreendida por seu próprio povo como Brasília”. Ele levanta a hipótese de o estranhamento ter nascido da utopia que não se realizou. Não se realizou, mas continua latente, nos diz Safatle, abrindo uma fresta de esperança a quem dela precisa. <br> <br> <br> <br> <br>A revista traz um conto, <span style="font-style: italic;">Brasília</span>, de Mário de Andrade, escrito em 1921 [1943], e publicado em Obra imatura (Agir, 2009). Apresenta poemas de João Cabral de Melo Neto, Anderson Braga Horta e Rui Rasquilho. Reapresenta impressionante obra de Rosângela Rennó (que havia tempos eu procurava) na qual a artista plástica presta homenagem aos candangos desaparecidos na construção de Brasília. Rosângela reproduziu 40 fotos 3 x 4 de operários. Homens, mulheres, garotos, velhos, velhas, engravatados e maltratados, louros e negros, cafuzos e mulatos, brasileiros.  <br> <br> <br> <br> <br>A<span style="font-style: italic;"> Humanidades</span> nº 56 é o presente que Brasília estava precisando. Sem bolo nem festa. (A revista está à venda na livraria da universidade (campus, ao lado da agência do Banco do Brasil) e na livraria da Universidade no aeroporto. <br>&nbsp; <br> <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=52515</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/c4b12490b1bbb83d5654387a315c928c.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">A vida solta nos pilotis, foto de Breno Fortes</font> <br> <br><font size="7"> <br>Boa notícia</font> <br> <br> <br> <br> <br>O escândalo das propinas em bolsas, envelopes, cuecas e meias escondeu uma boa notícia para Brasília e para os que verdadeiramente gostam desta cidade. Em 15 de dezembro de 2009, a 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça proibiu, por unanimidade, o uso de grades nos pilotis dos blocos das superquadras do Plano Piloto. As grades ferem o tombamento, entendeu o STJ. <br> <br> <br> <br> <br>A decisão foi provocada por uma ação ordinária do condomínio do bloco G da SQN 304, que gradeou o pilotis para proteger o bloco de depredações e atos de vandalismo. Um juiz de primeira instância autorizou o uso das grades e o Tribunal Regional Federal confirmou a decisão. Os defensores do gradeamento das superquadras argumentaram que o Iphan tem poderes limitados quando se trata de propriedade privada. E o de que as grades não alterariam o estilo arquitetônico e paisagístico da cidade. <br> <br> <br> <br> <br>Ao decidir pela retirada das grades, o STJ considerou que elas alteram os princípios basilares do projeto de Lucio Costa para as superquadras — ideia, ressalte-se, admirada e estudada por grandes urbanistas e arquitetos brasileiros e estrangeiros.  <br> <br> <br> <br> <br>Os ministros do STJ não apenas devem ter lido como apreendido a concepção do projeto das superquadras. Os blocos de seis andares, sobre pilotis, liberam o chão para uso coletivo tanto dos moradores do bloco quanto da vizinhança e de toda a cidade. Como se a rua e a praça esperassem pela cidade o tempo inteiro. Acima delas, suspensas por pilotis, as moradias, a intimidade, a propriedade privada. É o coletivo que se impõe sobre o individual sem, no entanto, deixar de tratar com enorme senso de humanidade a habitação familiar.  <br> <br> <br> <br> <br>Haverá quem argumente, de pronto, que no tempo de Lucio Costa a violência não nos esperava debaixo do bloco. O urbanista apostou num mundo melhor e o futuro foi implacável: a um país que não distribui a renda, a violência. O que o condomínio do bloco G da 304 não percebe é que as grades não os protegerão do Brasil real. Ele estará à espera, do lado de fora das grades.  <br> <br> <br> <br> <br>O que poderá salvá-los da violência é acreditar, como Lucio Costa, que é possível morar bem, em blocos de seis andares entremeados de praças e jardins, cercados de quadras comerciais e unidades de vizinhança (como queria o projeto original). E, ao mesmo tempo, respeitar e proteger um projeto que tem tudo pra continuar servindo de inspiração a quem se propõe generosamente a pensar não apenas em seu patrimônio pessoal e na própria segurança. As superquadras são a crença numa habitação coletiva e democrática, bela e ajardinada, humana e bucólica. São o melhor do projeto de Lucio Costa.  <br> <br> <br> <br> <br>Quem defende as grades não entendeu o projeto ou não concorda com ele ou até concorda desde que ele lhe traga vantagens pessoais. Como diz uma amiga, o brasiliense do Plano Piloto se acostumou com o bem-estar pessoal de modo tal que quer mais, mais e mais. A ponto de não conseguir pensar que pode abdicar do excesso de bem-estar pessoal em nome de um bem-estar coletivo.  <br>&nbsp; <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=52264</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 441px; height: 296px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/2148222d6c18acb410ce0903aaf3923a.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Infelizmente, não consegui encontra nem a identificação nem a autoria da foto <br></font> <br> <br> <br><font size="7">Mamãe sumiu</font> <br> <br> <br> <br> <br>A história que vou contar é de uma filha que se perdeu da mãe quando tinha sete anos e se sentiu desamparada como uma florzinha que se descola da árvore e vai ao chão. A menina já é uma mulher de 40 anos, mãe de adolescente, dona de si e valente para enfrentar o mundo. Vou chamá-la de Iara, bonito nome para uma doce bravura. <br> <br> <br> <br> <br>Iara se perdeu da mãe novamente e voltou a se sentir como uma flor abandonada. Foi no último sábado. Aconteceu assim: mãe e filha saíram para passear por Ceilândia. Pegaram o ônibus, desceram três pontos adiante e seguiram até um self-service. Depois do almoço, desceram de volta para o ponto. “Mãe, lá vem o ônibus”, avisou Iara. Com a chegada de mais de um coletivo ao mesmo tempo, houve pequena aglomeração de passageiros.  <br> <br> <br> <br> <br>Como de hábito, a mãe entrou pela porta dos fundos, como cabe aos de terceira idade. A filha, pela porta do motorista. Iara ainda não tinha passado pela catraca quando desconfiou que a mãe não havia entrado no ônibus. Quando a reconheceu dentro do outro ônibus. Só deu pra ver que não era uma viação de Brasília, portanto, era de Goiás. Perguntou apressadamente ao motorista: “Moço, por favor, aquele ônibus vai pra onde?”. Pra Morada da Serra, um bairro de Águas Lindas. <br> <br> <br> <br> <br>Iara começou a chorar compulsivamente. Ela não tem celular, a mãe, menos ainda. Não havia como pedir ajuda de nenhum amigo, nenhum deles tem carro para seguir o ônibus. Iara só sabia chorar como se alguém tivesse arrancado do peito dela um pedaço dela mesma.  <br> <br> <br> <br> <br>Como uma mulher que há mais de 20 anos está em Brasília, que criou um filho sozinha, conquistou uma casa, defende seu emprego com galhardia, como essa mulher de 40 anos chorava como uma garotinha que se perdeu da mãe? Chorava tão desbragadamente que um passageiro mais engraçadinho brincou: “Quer um lencinho, quer, dona?” Ao que ela reagiu: “Me respeite! Eu não te conheço!” E buá-buá-buá. O motorista do ônibus sugeriu que ela fosse até o terminal do Setor O e de lá ligasse para o terminal de Águas Lindas para saber se havia uma mãe perdida dentro de um ônibus. <br> <br> <br> <br> <br>Foi o que fez. Mas até chegar ao ponto final, Iara continuou aos prantos. Não sabia quem era mesmo que chorava, se a mulher de 40 anos, a menina de sete, ou as duas. Pensou na vida, nos erros que cometeu, nas coisas desimportantes a que deu importância, das vezes em que não teve paciência com a mãe — chorando, chorando, chorando. Quando chegou ao terminal do Setor O, ligou para o terminal de Águas Lindas. Foi atendida por uma mulher paciente que pediu para ela aguardar a chegada dos próximos ônibus. Na terceira ligação, Iara soube que uma passageira que havia se perdido da filha tinha acabado de chegar. Que ela não se preocupasse, que a senhora seria muito bem tratada e que viesse buscá-la.  <br> <br> <br> <br> <br>Quando viu Maria Gonzaga, Iara sentiu raiva pelo desespero que havia passado. “Mãe, vê se presta mais atenção!”. A mãe prometeu que de agora em diante não vai se importar quando Iara gritar, lá da outra ponta do ônibus: “Maria Gonzaga, tu tá aí?” Mesmo que o grito provoque uma reação em cadeia: “Uhhh!” “Xiiii!”, “Cade tu, Maria Gonzaga?”, “Maria Gonzaga, ha-ha-ha.”  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[O Haiti não é só devastação]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=52076</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		 <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O Haiti hoje arrasado tem uma forte tradição de arte naif e uma grande proximidade com os naifs brasileiros. Nos anos 1960, a dita arte primitiva haitiana virou moda nos Estados Unidos. As galerias passaram a exibi-las, os preços subiram, jovens haitianos passaram a se dedicar mais intensamente à produção artística até que o surto de delumbramento americano passou e os artistas, esquecidos. Em 2008, o Itamaraty promoveu uma exposição itinerante na qual era possível identificar as semelhanças entre a arte naif do Haiti e a do Brasil, por suas proximidades culturais, étnicas e sociais. O Haiti produziu, diz o texto da curadoria, pintores mundialmente conhecidos como Hector Hyppolite, Pierre-Joseph e Prèfète Duffaut.&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br> <br> <br> <br> <br><img style="width: 392px; height: 261px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/042ecf86beb8c29e2b4edb841e443d0a.jpg"> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" size="2"><span style="font-style: italic;">Catedral Episcopal Saint Trinité</span>, Prèfèf Duffaut, 2005</font> <br> <br> <br> <br><img style="width: 398px; height: 261px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e1bcc3ea976154166c6f798f69066d23.jpg"> <br><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-style: italic;">Gurison au son du tambour</span>, Wilson Bigaud, 1972</span></font> <br> <br> <br> <br><img style="width: 399px; height: 338px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/9a8d770ec1681388f7cc4ce1b4536e97.jpg"> <br><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-style: italic;">Baron Samedi</span>, Pierre Joseph Valcin, 1968</span></font> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51952</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 295px; height: 239px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e4f7b783abc4ede962910cdf81cefede.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Arte naif do Haiti</font> <br><font size="7"> <br>O que fazer?</font> <br> <br> <br> <br> <br>Nada é mais insignificante e desnecessário nesta hora que escrever uma crônica. As imagens da terrível tragédia no Haiti se sucedem na tevê e na internet, e deixam uma sombra de lamento e impotência no peito. Tudo perde a importância diante do sofrimento dos haitianos. A urgência perdeu o sentido para quem tem casa, comida, teto e um chão seguro para sustentar os pés. Urgente é oferecer água aos que têm sede, comida aos famintos, tratamento médico aos feridos, colo aos bebês órfãos, ombro aos desesperados. O que fazer, além de escrever toscas linhas num pé de página? <br> <br> <br> <br> <br>O Ministério da Defesa do Brasil informa que há condições de organizar doações de alimentos, água, roupas, remédios, brinquedos ou qualquer outro material que possa servir aos haitianos. A melhor forma de ajudar o Haiti neste momento é por meio de doações de qualquer valor. São esses os endereços disponíveis: <br> <br> <br> <br> <br><span style="font-weight: bold;">Comitê Internacional da Cruz Vermelha (HSBC, Agência: 1276, conta corrente:14526-84, CNPJ: 04359688/0001-51. </span><br style="font-weight: bold;"> <br> <br> <br> <br><span style="font-weight: bold;">Movimento Viva Rio (Banco do Brasil, agência: 1769-8, conta corrente: 5113-6, CNPJ: 00343941/0001-28.) </span> <br> <br> <br> <br> <br><span style="font-weight: bold;">ActionAid. Doações podem ser feitas pelo Apelo Haiti, fone 0300 789 8525. </span> <br> <br> <br> <br> <br>Cabreira com os não raros casos de desvio de doações (no Brasil, pelo menos), hesito antes de decidir pelo depósito em dinheiro. Percorro os sites à procura de mais informações sobre as entidades acima citadas, todas elas conhecidas por suas ações em defesa dos desabrigados, refugiados, doentes e desassistidos do mundo. <br> <br> <br> <br> <br>A Cruz Vermelha é uma organização humanitária que nasceu em 1863 para socorrer prisioneiros de guerra. Com o tempo, expandiu sua ação para o atendimento a vítimas de guerra, sejam civis ou militares, socorro a refugiados e a populações atingidas por grandes calamidades. <br> <br> <br> <br> <br>O Movimento Viva Rio nasceu como uma resposta da sociedade civil carioca à violência crescente no Rio de Janeiro. Desde que foi fundado, em 1993, o Viva Rio tem ampliado sua atuação junto às populações jovens das favelas e periferias pobres. Nove brasileiros integrantes do Viva Rio estavam atuando em projetos sociais no Haiti quando ocorreu o terremoto. Apesar de a sede da ong ter sofrido rachaduras, nenhum deles ficou ferido. A casa agora está servindo de abrigo para vítimas.  <br> <br> <br> <br> <br>Presidida pela atriz Emma Thompson, a ActionAid é uma organização não-governamental inglesa que atua em mais de 40 países com o propósito de tentar vencer a pobreza extrema e garantir a proteção aos direitos humanos. Em 2007, ela foi incluída na lista das 20 ongs mais competentes do mundo. A ActionAid está no Brasil desde 1998. <br> <br> <br> <br> <br>Fica a sugestão. <br>&nbsp; <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Deu na Folha]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51856</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><b><font size="+1"> <br> <br> <br></font></b> <br>    <font size="5"><b>O Haiti já estava de joelhos;  <br>agora, está prostrado</b></font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>   <b>  </b></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><b> <br></b></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><b>Omar Ribeiro Thomaz</b></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>  <font size="-1">  </font> <br> <br>  No dia 12 de janeiro de 2010,  o mundo ruiu em Porto Príncipe. Um mundo já frágil e parcialmente em ruínas foi-se  abaixo. O Haiti já estava de joelhos. Agora, com a destruição  de sua capital, está prostrado.  <br>  </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Os principais edifícios desabaram, entre eles o palácio nacional, vários ministérios e a  catedral; no segundo dia da volta às aulas, jovens estudantes  de escolas e universidades procuravam seus amigos entre feridos e mortos nas calçadas e  choravam aqueles soterrados.  <br>  </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">As operações de resgate são, até  o momento, uma promessa, e é  evidente que as forças internacionais da ONU não estavam  preparadas para lidar com uma  calamidade desta natureza.  <br>  </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Sem Estado e diante da inoperância da ONU, os haitianos estão entregues à própria sorte.  Após o terremoto, as ruas da  capital e as vias que a conectam  com os subúrbios e com Pétionville, ficaram absolutamente obstruídas. Carros foram soterrados por muros e  prédios; também foram abandonados nas vias estreitas de  uma cidade que já possui um  trânsito caótico.  <br> </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Na hipótese da  existência de ambulâncias ou  veículos de resgate, não teriam  como passar. Mortos e feridos  se aglomeram nas calçadas, indivíduos correm horas e horas  para chegar em sua casa e ver  como se encontram os seus, outros parecem andar e correr  sem destino.  <br> </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Diante da falta absoluta de ação de qualquer instância para atender uma cidade  subitamente transformada  num campo de refugiados, os  saques são inevitáveis, e escutamos tiroteios em distintas  partes da cidade.  <br>  </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">A comoção inicial, traduzida  em cânticos e em clamores para "Jesu" e "Bon Dieu", cede  pouco a pouco a uma sensação  de frustração sem limites, de  raiva. Historicamente, o mundo insistiu em ignorar o Haiti e  sua grandeza.  <br> </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Ao embargo político e intelectual secular -como definir de outra forma o ostracismo ao qual foi relegado o Haiti após sua vitoriosa revolução que culminou com sua independência em 1804?- sucederam-se intervenções e ocupações que sempre procuraram negar aos haitianos o sentimento do orgulho dos seus feitos; e, por fim, o golpe de misericórdia, a imposição de uma agenda ditada pela Guerra Fria, que, entre os anos 1950 e 1980 destruiu o Estado haitiano (ao contrário do que pensam alguns, o Haiti possuía um Estado, nem melhor nem pior do que os seus congêneres latino-americanos e caribenhos), fragilizou suas instituições, criminalizou os movimentos sociais e arrebentou seu sistema econômico.  <br> </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Não foi a interferência  americana que destruiu o plantio de milho e interrompeu as  conexões existentes entre o  camponês, os fornos e os consumidores? Ou outra intervenção que promoveu a eliminação  do porco crioulo, base econômica de famílias? Ou o embargo internacional que promoveu  o golpe final nas reservas florestais impondo o uso indiscriminado de carvão vegetal?  <br>  </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Diante da fúria da natureza  não cabe outro sentimento que  o de uma frustração que deita  raízes numa história profunda  e que subitamente pode ganhar  cor: o mundo dos brancos nos  destruiu; o mundo dos brancos  diz que quer fazer alguma coisa,  mas o que faz, além de nutrir  seus telejornais com fotos miseráveis que só fazem alimentar a satisfação autocentrada  dos países ditos ocidentais?  <br> </p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Não são poucos os agentes das organizações internacionais que anunciam que a "comunidade internacional" estaria cansada do Haiti. Após escutar os haitianos ao longo de anos, de tentar entender o sentido de sua história, digo que são os haitianos que estão fartos das promessas daqueles que dizem representar a "comunidade internacional". Afinal, por que estão aqui? Após seis anos de ocupação, os hospitais e as escolas ruíram. Depois da tragédia de Gonaives -quando essa cidade foi soterrada na passagem de um furacão, em 2004-, não teríamos de estar minimamente preparados para a gestão de uma calamidade?  <br>  Não: a gestão foi entregue aos  haitianos e haitianas, e, por que  não dizer, ao "Bon Dieu".&nbsp;</p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>  <br>   <font size="-1"><b>OMAR RIBEIRO THOMAZ</b>, 44, é antropólogo e  professor da Unicamp</font></p>    
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51786</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 416px; height: 278px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/3066743f33e9d16aa0b83a0254bd0873.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Dom Bosco, em seu escritório</font> <br><font size="6"> <br> <br>O pesadelo de Dom Bosco</font> <br> <br> <br> <br>Há uma ópera de rua pronta para ser encenada, o Auto do Pesadelo de Dom Bosco, do maestro Jorge Antunes. A peça se desenvolve em único ato e único cenário, uma mesa para o juiz e um engradado representando a cadeia. <br> <br> <br> <br> <br>O título da peça é um achado, o Pesadelo de Dom Bosco. Expressa o que os brasilienses estamos vivendo por esses dias. O sonho do padre salesiano de encontrar uma civilização onde jorraria leite e mel transfigurado num pesadelo, o de uma cidade onde jorra o dinheiro podre da corrupção e da propina. <br> <br> <br> <br> <br>Sabemos que o sonho de Dom Bosco foi moldado para ser adaptado ao desejo de Juscelino de transformar o projeto de construção da nova capital num ideal divino. Não bastava que Brasília fosse um propósito longamente cultivado pelos brasileiros. Era preciso que ele tivesse o aval de Deus ou de algum de seus representantes, no caso um padre salesiano que gostava de registrar seus sonhos. <br> <br> <br> <br> <br>A bem da verdade, não foi Juscelino quem primeiro recorreu ao sonho de Dom Bosco. Monteiro Lobato citou o salesiano em 1935: “Até um santo já afirmou que o petróleo existe, só nossos ‘técnicos’ dizem que não’”, escreveu o escritor, conforme página 101 de <span style="font-style: italic;">Memória da Construção</span>, de Lourenço Fernando Tamanini.  <br> <br> <br> <br> <br>O italiano havia sonhado, em 1883, que percorria a América do Sul, tendo um anjo como guia. Nessa viagem, a dupla via, dentro das montanhas e no subsolo das planícies, minas de metais preciosos e abundantes depósitos de petróleo. Em determinado trecho de sua narrativa, João Bosco contou que “entre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada bastante extensa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago”. Nesse trecho da viagem, uma voz anunciou ao padre que, quando se escavassem as minas escondidas que havia em meio aos montes apareceria “a terra prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”. <br> <br> <br> <br> <br>A criação de um lago artificial na altura do paralelo 15 foi a deixa para que a partir de então o sonho de Dom Bosco passasse a ser usado como a letra de Deus na construção da nova capital. (É preciso citar, porém, que antes de Juscelino, o goiano Alfredo Nasser já havia citado o sonho em artigo em defesa da transferência da capital do país para Goiás.) <br> <br> <br> <br> <br>Desde então, Dom Bosco passou a fazer parte do oratório de devoção dos candangos. O sonho ajustado para caber direitinho no projeto Brasília foi dos pecados, o menor. <br> <br> <br> <br> <br>O pior seria revelado 50 anos depois. A profecia do salesiano acabou se realizando pelo avesso: a riqueza que se concentra em Brasília é inconcebível. O dinheiro jorra como leite e mel na capital da ostentação. Dinheiro e poder se misturam promiscuamente numa relação incestuosa de tráfico de influência, troca de favores e proteção mútua. Um lago de lama sob os pés da gente poderosa de Brasília, um pesadelo para os brasilienses.  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51538</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		 <br>&nbsp;<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/fac42a69f7c7cf7c6298f9e42eac65fb.jpg" +="" align="left"> &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; <div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6">Sangue frio</font> <br> <br> <br> <br>Fiquei oito dias fora de Brasília, entre o Natal e o Ano-novo. Saí sob o fervor da indignação provocada pelas denúncias de propina nos três poderes da cidade. Voltei e a cidade parecia ter recuado no tempo. Como se nada tivesse acontecido. Cadê o espanto, a ira, a fervura no peito, que deixei aqui? Uma semana de feriados, seguida do começo do período de férias, e o sangue dos indignados pareceu em processo de esfriamento. (Espera-se que&nbsp;&nbsp; momentâneo).  <br><font size="2"><span style="font-style: italic;">A ilha da utopia</span>, de Thomas Morus</font> <br> <br> <br> <br>Até os e-mails de protestos desapareceram. Ontem, por exemplo, apenas um caiu na minha caixa postal dando conta de um adesivo que estaria circulando nos carros do Rio: “Bala perdida é desperdício. Vá para Brasília e acerte o alvo!”. Frase de efeito de péssimo gosto, registre-se. <br> <br> <br> <br> <br>Os envolvidos na denúncia contaram os segundos para a chegada das festas de fim de ano, as férias de janeiro, o Carnaval, o aniversário de Brasília. Ao que parece, o calendário aderiu ao time dos corruptos, pelo menos dentro do quadradinho. Quem passou as festas de fim de ano fora de Brasília, no entanto, trouxe notícias de que à beira da praia perdura a indignação contra os políticos da capital do país (fartamente nomeados — quem não os conhecia pelo nome passou a conhecê-los). Menos mal, por pior que seja para a imagem preconceituosa que os brasileiros, há muito, cultivam de Brasília.  <br> <br> <br> <br> <br>A cidade que os corruptos sujaram de lama tenta se reconhecer em si mesma, na sua história, na sua rotina, no sobe e desce debaixo do Eixão, nos pardais que nos perseguem, nas chuvas de dezembro, no veranico de janeiro, na entrada dos cinemas, nas missas na Igrejinha, na estátua de Juscelino acenando pra cidade, no sol que fere os olhos no fim da tarde, no kibeirute com ovo, na urbana confusão das entrequadras, nas escadas rolantes sujas da Rodoviária, na fachada do Conjunto Nacional, na feira da Torre e até na frieza do morador do Plano Piloto.  <br> <br> <br> <br> <br>Os brasilienses que continuam no quadradinho neste janeiro estão padecendo de desiludida solidão. Há alguém aí?, nos perguntamos, tentando encontrar no gesto ao lado uma convocação para a ira, a indignação e o protesto. Por que deu tudo errado se tudo foi feito para que tudo desse certo?, temos nos perguntado. Somos filhos da utopia e este é um privilégio para poucos. A utopia é o céu que não se alcança, mas que está ali para nos elevar, inspirar, para expandir nossa ideia de viver em cidade. <br> <br> <br> <br> <br>Os que aqui estamos há tanto tempo, nos alimentando desse projeto irrealizável de sociedade ideal, sabemos que, desde os anos da construção, Brasília é infiel a seu próprio sonho. Mas ele persiste como inspiração, como herança e perspectiva, como história para alimentar netos e bisnetos com um sonho hoje habitado. As imagens da dinheirama escondida em sacos de papel, bolsas, calças, cuecas e meias, exaustivamente transmitidas, ameaçam nos roubar o que temos de mais precioso, a utopia. A menos que, passada as férias de janeiro, o sangue dos brasilienses briosos volte a queimar nas veias.  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div>
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		<title><![CDATA[Superquadra de passarinho (2)]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51483</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 437px; height: 294px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/119d42629fd40f79519462c79d727a81.jpg"> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br>Bancário por profissão, fotógrafo por paixão, Jorge Diehl foi atrás da superquadra que um joão-de-barro está construindo na 28 do Lago Sul e que este blog divulgou um mês atrás. Diehl teve a dupla sorte de encontrar dois supostos arquitetos da obra em concerto matinal. Transformou a foto em cartão de boas festas. Jorge Diehl fotografa há cerca de 20 anos, faz parte do Candango Fotoclube de Brasília e tem imagens publicadas em jornal e revistas, entre elas a francesa Photo.&nbsp;  <br></div> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51458</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<div style="text-align: justify;"><img style="width: 243px; height: 288px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/105af49d6899f1dbd1ea8e838bda326d.jpg" align="left"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Para Joanyr</span></font> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>O poeta morreu e foi sepultado em silêncio no dia em que faria 76 anos, 6 de dezembro de 2009. Foi um artigo de outro poeta, Anderson Braga Horta, quem me avisou da morte de Joanyr de Oliveira. Publicado no Jornal Opção, de Goiânia, o texto trata de poesia, de vida, morte, Brasília e amizade. É ele quem me conduzirá nesta discreta homenagem a Joanyr, o poeta que teve o cuidado de reunir em antologias, desde 1962, boa parte de tudo o que poeticamente já se escreveu, em língua portuguesa, sobre Brasília. <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Andava amargurado, o poeta. O diabetes minava seu organismo e maltratava seu ânimo. Em fevereiro do ano passado, como conta Braga Horta, Joanyr escreveu Despedida: “Novos amigos, não quero. / Nem primos, nem descendentes. / Amizade requer provas / na longa extensão dos dias. / Quanto aos netos de meus netos, / sequer ouvirão de mim. // Quero empedrar-me onde estou, / enraizar-me aqui mesmo. / Como alcançarei o cerne / de outras terras, de outras gentes, / se um relógio fatigado / em minhas córneas põe fim? // Novos compêndios, pra quê? / Alfarrábios, muito menos. / Virgens metáforas se perdem, / no crepúsculo definham. / Amigos, filhos, cenários, / adeus, para nunca mais.”</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O diabetes já havia tomado de Joanyr a visão inteira de um dos olhos o outro já estava muito comprometido. Não é nada fácil para ninguém, porém, para um homem de grande capacidade de trabalho, como conta e demonstra Braga Horta. Mineiro de Aimorés, Joanyr fez jornalismo em Vitória, fundou e dirigiu pequenos jornais religiosos no Rio, em São Paulo, em Goiânia e em algumas cidades de Goiás. Pastor evangélico, exerceu cargos públicos em Goiânia e lá tentou a vida política.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Veio para Brasília nos anos 60 para assumir o cargo de revisor do Departamento de Imprensa Nacional, formou-se em direito, tentou a vida como comerciante, aposentou-se como analista legislativo, ajudou a fundar a Associação Nacional de Escritores, tentou montar uma indústria. Mas, na verdade, diz Braga Horta, “Joanyr era fundamentalmente poeta”. E antologista de poesia. Tinha gosto por reunir poetas em um único volume. Vira e mexe, Joanyr aparecia com um novo título — Brasília na poesia brasileira é um dos mais consagrados deles. Reúne, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Rubião, José Santiago Naud, Alphonsus de Gumaraeens Filho. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>“Joanyr foi um grande trabalhador literário”, diz Braga Horta. Os dois se conheceram nos primeiros anos de Brasília. “Se a amizade é uma das coisas que dignificam o homem, naqueles primórdios brasilienses era de certo modo uma necessidade vital”, escreve o amigo de Joanyr.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Anderson Braga Horta conta que Joanyr de Oliveira deixou preparada a segunda edição de <span style="font-style: italic;">Poetas dos anos 30,</span> que ele planejava lançar no rastro dos 50 anos de Brasília, mas o projeto não obteve apoio financeiro. “Cabe um apelo, e o fazemos enfaticamente (…) para que não se cale essa nota de qualidade nas comemorações do cinquentenário”, escreveu Braga Horta. </span> <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Joanyr fez tanto pelo lirismo brasiliense. Brasília haverá de se redimir.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51357</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<div style="text-align: justify;"><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/cc94321303f6a7f920ae2798e432d3fb.jpg" align="left"><font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">De máquinas  <br>e homens</span></font> <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Faltam 117 dias para a inauguração da nova capital do Brasil. Dentro de 20 dias, brasileiros dos quatro cantos do país saem em direção a Brasília. Será a Caravana da Integração Nacional que mostrará aos brasileiros que o país está interligado por rodovias de norte a sul, de leste a oeste, e em X. Provará também que sua indústria automobilística tem capacidade e autonomia para vencer o imenso território sobre duas, quatro ou doze rodas. <br> <br> <br>&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>A ideia partiu dos empresários da indústria de veículos. Cada coluna terá mais ou menos 50 unidades — romisetas, Rural Willys, DKWs, jipes, caminhonetes, caçambas, caminhões e ônibus. A primeira coluna a partir será a sul, no próximo 22 de janeiro. De Porto Alegre rumo ao Centro-Oeste, terá pela frente 2,3 mil quilômetros, dos quais 1,4 mil já asfaltados. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Um dia depois, a coluna norte da Caravana sairá de Belém disposta a percorrer 2.250 quilômetros de chão bruto, de Belém a Brasília, passando por Guamá, Açailândia, Estreito, Gurupi, Porangatu, Ceres e Anápolis. Apenas os percursos de Belém-Guamá e Anápolis-Brasília estarão asfaltados. O carro número 1 será uma Rural Willys, seguido de jipes que levarão 35 jornalistas. A previsão é de que a caravana irá enfrentar as chuvas torrenciais do período na região amazônica. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Em 25 de janeiro, a coluna oeste partirá de Cuiabá e cortará Rondonópolis, Alto Araguaia, Mineiros, Jataí, Rio Verde, Goiânia e Anápolis. Serão 1,3 mil quilômetros até a nova capital. Três dias depois, a coluna leste deixará o Rio de Janeiro em roteiro que compreenderá Juiz de Fora, Belo Horizonte, Três Marias e Cristalina. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Da sacada do Palácio do Catete, o presidente Juscelino Kubitschek prestará uma homenagem à coluna leste da caravana. E dirá: “Há 150 anos, o Brasil esperava esta hora, a hora do início das novas bandeiras para a conquista e posse do território nacional. Esta solenidade marca o início de uma nova marcha. Vamos subir o Planalto Central , para dali, nos lançarmos à conquista dos seis milhões de quilômetros quadrados que ainda jazem desertos e adormecidos, esperando o passo redentor dos brasileiros.”</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Juscelino será propositadamente redundante: “Esta bandeira sai do Rio de Janeiro em automóveis brasileiros, com pneumáticos brasileiros, e petróleo brasileiro, e vai trafegar por estradas asfaltadas com asfalto brasileiro.” </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>As quatro colunas da Caravana serão recebidas com banda de música, discursos, bandeiras e aplausos em muitas cidades por onde passarão. Todas as colunas se encontrarão em Goiânia, em 1° de fevereiro, de onde partirão juntas para Brasília. No dia seguinte, 2, uma multidão vai esperar pela Caravana da Integração Nacional na Praça dos Três Poderes. Uma chuva de papel picado será lançada de voos rasantes de aviões da FAB. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Durante a solenidade, um operário desconhecido furará o bloqueio, pegará o microfone e fará um discurso em homenagem a Juscelino. Uma chuva (de verdade) cairá sobre Brasília lavando a poeira e a lama da Caravana das máquinas e dos homens brasileiros. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"></div> <br>
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		</item>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51320</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/fe318fd440849ffb87097507936f1a9b.jpg"> <br><font size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">A praça destruída</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6"> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Os segregados da Terra</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Deu no <span style="font-weight: bold;">Correio</span> do último dia de 2009: moradores da Quadra 205 de Águas Claras decidiram demolir a praça que havia no lugar. Motivo: a área havia se transformado em ponto de drogas e de práticas de atos obscenos. Argumento de um dos moradores: o anfiteatro ali construído era uma “utopia de arquiteto”.</span> <br> <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Se a moda pega, teremos, ao fim e ao cabo, uma destruição plenetária de praças, ruas, igrejas, estações de metrô, pontos de ônibus, coretos, calçadas, todo e qualquer lugar público onde haja alguma aglomeração dos desorientados da Terra. A começar pela Praça da Sé, em São Paulo, e pela escadaria da Igreja da Candelária, no Rio. Paulistanos e cariocas fariam um plebiscito e, a se levar em conta a tendência brasiliense, aprovariam a destruição de dois dos logradouros mais importantes das duas cidades.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>A decisão dos moradores da Quadra 205 exemplifica, à perfeição, um jeito brasiliense de ser. A cidade de largos espaços vazios, de horizonte ao alcance dos olhos e de longos silêncios urbanos segregou os habitantes, tirou bêbados, drogados, miseráveis, mendigos, prostitutas, desorientados em geral, do convívio com quem tem um teto e um norte. Foi um grave equívoco do projeto de Lucio Costa, que acabou por fazer o brasiliense do Plano Piloto e redondezas próximas acreditar que vive num grande condomínio cercado de cidades-satélites — e a distância segura delas.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br> <br>O que salvará Brasília, estou convencida disso, é a democratização  <br>de seus espaços urbanos. O que estragou Brasília foi o longo período em que se manteve isolada do restante do país e segregada em si mesma. Esse isolamento criou habitantes demasiadamente despreparados para enfrentar os perigos das grandes cidades. E eles existem até nas cidades mais desenvolvidas do planeta. Os desorientados da Terra se misturam aos abrigados, orientados e protegidos em Nova York, em Paris, em Amsterdã, em Estocolmo, na Cidade do México, em Caracas, em São Paulo, em qualquer grande cidade deste mundo perdido de todos nós.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Falta-nos tolerância, preparo e noção de responsabilidade social para entender que cidadania não é apenas fazer eleição entre vizinhos. É pensar coletivamente no bairro, na cidade, no país e no planeta em que se vive.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Ao contrário do que disse o morador sobre “utopia de arquiteto”, é exatamente o que está nos faltando: a crença nos sonhos. Depois que se decretou o fim das utopias, o mundo virou o que virou: um objeto cósmico à beira da implosão. O império do individualismo, a devoção cega às leis do mercado, a destruição do sentido de coletividade — o fim das utopias — nos transformou em destruidores de praças.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Tentar dar um novo destino à praça seria muito mais trabalhoso, com certeza, porém propositivo, construtivo, coletivo.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>  
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		<title><![CDATA[Eric e Minie]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51319</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<div style="text-align: justify;"><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/54a66120ba9ccaaf4cf298c02be1d0e7.jpg" align="left"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6"></font> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br>Eric Gustavo tem 3 anos e uma cadelinha, a Minie, confortavelmente instalada na mochila. O menino, a avó e Minie esperavam o ônibus para Planaltina hoje pela manhã na Rodoviária do Plano.&nbsp; Iano Andrade fez a foto</span></div>
		]]>
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		</item>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=51264</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<img style="width: 568px; height: 204px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/302f2d90888b4f2ffe692f97ee97d1ef.jpg"> <br><font size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Os Gêmeos, grafiteiros paulistas que ressoam pelo mundo</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="4"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"></span></font><font size="6"> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Novo a todo instante</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Se a gente pensar bem, Ano-novo não é nada mais que uma noite entre hoje e amanhã. É uma invenção humana pra gente ter a chance de começar de novo. Ilusão de vida curta. Antes do Carnaval, já nos esquecemos da lista de projetos para o novo ano. Seja como for, a virada da meia-noite nos dá oportunidade de restaurar sonhos perdidos, de se comprometer com novos desejos, de se reencontrar com o que nos é mais importante.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Ano-novo é todo novo dia, nova hora, novo instante em que, de olhos abertos, conferindo o privilégio de estarmos vivos, podemos reajustar a sintonia de nossa existência com aquilo que verdadeiramente vale a pena.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O ano é novo quando a gente decide tentar mais uma vez não cometer o mesmo erro. É novo quando a gente tenta superar os nossos defeitos ou pelo menos manter os mais graves sobre controle. É novíssimo o ano em que a gente, em qualquer dia da semana, em qualquer hora do dia, consegue superar nossas mesquinharias, nossa incapacidade de reconhecer os próprios erros e nossa incrível capacidade de julgar implacavelmente os erros alheios. É novo quando a gente consegue brecar a repetição dos erros, os de sempre, os mais difíceis de a gente se livrar.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O ano recomeça quando a gente exercita a humildade, uma das mais nobres virtudes humanas. Quando a gente consegue se dar conta do quão ridículo somos com nossas exigências estapafúrdias, nossas ambições desmesuradas, do quão egoístas e arrogantes somos com nosso excesso de direitos e escassez de deveres. O ano nasce quando a gente se recusa a uma maldade e concede uma bondade. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O ano estala de novo quando a gente se dá conta de que somos piores do que imaginamos. Pense bem: se todo mundo fosse o que acha que é, o mundo seria uma perfeição. Não são apenas os presos da Papuda que se dizem inocentes. Raro o ser humano que reconhece uma vileza, parafraseando Pessoa. A coragem de admitir os próprios erros nos faz melhor — ou menos pior.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O nascedouro não está no calendário nem em mais uma volta completa que a Terra dá em torno do Sol. Não está no estouro da champanhe, no branco do vestido, no amarelo da calcinha (dizem que traz dinheiro), nos sete pulinhos das ondas do mar, nas doze sementes de romã que você guarda na carteira, ou na sopa de lentilha à meia-noite. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Está no reencontro solitário, humilde e corajoso consigo mesmo, e no desejo de, pelo menos tentar, melhorar a promessa de ser humano que há em cada um de nós. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>2010 é um número bem bonito. Quem sabe ele nos melhora?&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br><span style="font-weight: bold;">Recado</span></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>Caro senhor que me ligou e me disse ter pouco tempo de vida e a quem prometi ligar de volta, por favor, me ligue novamente. Perdi seu telefone.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>  
		]]>
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		</item>
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		<title><![CDATA[Deu na Folha]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=50048</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		 <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br> <br><b><font size="+1">FERNANDO DE BARROS E SILVA </font></b> <br> <br> <br> <br> <br> <br>  <font size="5"><b>O teatro exemplar de Arruda </b></font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">    <b> <br></b></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><b> <br></b></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><b> <br></b></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><b>SÃO PAULO</b> - A deputada enche a bolsa tamanho GG, que mais lembra uma sacola de feira; o dono do jornaleco enfia maços de dinheiro na cueca, ajeitando-os como dá entre a pança e a calça apertada; o presidente da Câmara Distrital recheia, um a um, os bolsos do paletó e, sem mais cavidades disponíveis, esconde o que resta da propina nas meias sociais. Refestelado no sofá, o governador dá instruções ao assessor enquanto se apropria, displicente, do volumoso bolo de notas.</p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> São, antes de mais nada, cenas  grotescas, plasticamente abjetas.  Lembram até aquelas peças rudimentares de Juca de Oliveira, com  seus efeitos de catarse barata.</p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Numa época em que a grande corrupção se tornou invisível e sua engenharia, mesmo quando desvendada, é de difícil tradução, o escândalo que consome o governo José Roberto Arruda nos devolve ao palco mambembe da falcatrua inequívoca, descarada e vulgar.</p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> Há, neste caso de pistolagem política, traços típicos das regiões de  fronteira, de ocupação recente, em  que as instituições parecem estar  ali apenas como cenário de um filme western. O faroeste caboclo de  Arruda não deixa de evocar, por  exemplo, a Rondônia de Ivo Cassol.</p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> Mas Brasília é também a capital  da impunidade, a cidade que propicia aos governantes a sensação de  viver não numa terra sem lei, mas  acima dela. Isso, é óbvio, tem relação com seu isolamento geográfico,  com a redoma que preserva o poder  do contato e da pressão popular.</p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> Tipo à primeira vista anódino e apagado, Arruda foi, na sua origem, afilhado político de Joaquim Roriz, o coronel do cerrado. Soube fazer a ponte entre a velha política da clientela, voltada às cidades-satélite, e a geração dos predadores pós-modernos do Plano Piloto, a exemplo do seu vice, Paulo Octávio, ou do ex-senador Luiz Estevão. Nos anos FHC, o governador tentou envernizar a biografia ingressando no PSDB. Não deu muito certo. Nem coronel, nem yuppie, nem tucano, Arruda, o Democrata, tem um pouco disso tudo na sua biografia torta. <br>  </p> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49984</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<P><IMG src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/f3ec6e60e7c4ce1acedcb96c46a9cca8.jpg"></P> <P>&nbsp;</P> <P align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" color=#666666 size=4></FONT>&nbsp;</P> <P align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" color=#666666><FONT size=6>Flor e bomba</FONT></FONT></P> <P><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" color=#666666><FONT size=6></FONT></FONT>&nbsp;</P><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" color=#666666> <P> <BR>A turbulência da semana passada renovou minhas saudades de Cláudio Abramo, mestre do jornalismo, da ética e da coragem. Viajei com Abramo, em 1986, para Cuba. Participávamos da mesma comitiva, a do então ministro da Justiça Paulo Brossard à ilha. Eu era uma jovem e atordoada repórter; ele era, havia muito, um dos mais respeitados jornalistas que já brotaram em terras tupiniquins. <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>O corpo quase diáfano, a pele muito branca, o rosto fino, os gestos elegantes, não revelavam a envergadura do homem. Eu o observava, silenciosamente, tentando aprender com ele, sem que ele soubesse, a ser gente e a ser jornalista. Como até hoje não aprendi o suficiente, corri aos escritos de Abramo. <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>Sempre que o sapato aperta e o Norte fica obscurecido, consulto <EM>A Regra do Jogo</EM>, livro&nbsp;publicado pela Companhia das Letras em 1989, que reúne textos de Abramo publicados nos jornais onde trabalhou (<EM>Estadão, Folha, Jornal da República, Senhor, Istoé</EM>), além de entrevistas e depoimentos. <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>Neto de anarquistas, de uma família de vasta cultura e tradição de luta, autodidata, leitor desde menino de Shakespeare, Flaubert, Dostoievski, amigo de Flávio de Carvalho, de Paulo Emílio Salles Gomes e Mário Pedrosa (“uma espécie de pai para mim”), Cláudio Abramo dizia: “O Brasil é um país colonial, canalha, dominado por uma burguesia canalha; se o sujeito não for hipócrita, não concordar, não der um jeito, está liquidado”. <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>Responsável pela modernização do <EM>Estadão</EM>, na década de 50, Cláudio Abramo chefiava a redação quando Brasília estava sendo construída e foi inaugurada. O jornal fazia campanha sistemática contra a nova capital.Tentando seduzir os Mesquita para seu projeto, Juscelino convidou os chefes do Estadão, mais os donos, para uma visita a Brasília, num dia de 1959. A princípio, iriam todos, mas alguém alertou para o fato de que, se o avião caísse, o jornal estava acabado. Foram só alguns, Abramo entre eles. <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>Na volta, Júlio de Mesquita, o patrão, mandou que todos escrevessem sobre a cidade -- e, claro, teria de ser contra, nem era preciso esclarecer. “Recusei-me, dizendo que era o único a favor de Brasília”, conta Abramo à página 38. O patrão insistiu. “Escrevi então, às pressas, um artigo chamado Brasília, flor e bomba, que saiu muito feliz”.  <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>O artigo foi publicado em 21de junho de 1959, portanto quando Brasília já era irreversível. “Mas afinal, de quoi s’agit’il? De que se trata? Brasília, afinal de contas, é apenas uma cidade que se constrói. Ser contra ela, nesta altura, é tão efetivo e válido quanto ser contra a existência da Lua.” <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>E o Brasil, àquela altura (e até hoje), precisava de “um momento sério”. Diz Abramo: “Um momento no qual o brasileiro se mire no espelho e pergunte a si próprio: isto tudo está certo? Isto tudo tem sentido? Um momento, enfim, de crise incontrolável, de crise trágica, de abalo sísmico, acima dos homens e das coisas.” <BR></P> <P>&nbsp;</P> <P>&nbsp;</P> <P>O mestre conclui: “Somos a favor de Brasília no plano irracional. Como se é a favor de uma flor, de um animal ferido, de uma criança.”  <BR></P></FONT>
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		<title><![CDATA[Brasília, flor e bomba]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49983</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<P><IMG height=234 src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/16e5a2ea1f6bc1fe680ee78b6136fb26.jpg" width=324></P> <P>&nbsp;</P> <P align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">ARTIGO</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT></o:p>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p>&nbsp;</o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size=5>Cláudio Abramo</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">(<EM>O Estado de São Paulo,</EM> 21 de junho de 1959)</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face=Verdana></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face=Verdana></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face=Verdana></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Brasília tem sido o tema preferido de dois setores da nação que se diferenciam menos por classificações políticas do que pela visão que cada qual deles tem do que deve ser este país. Um e outro promoveram a construção de uma cidade a entidade cujo significado vai além dos limites específicos de um empreendimento desta ordem. Uns e outros, nos discursos, nos artigos, nas manifestações escritas ou orais, empregam em relação à futura capital uma terminologia cujo simbolismo é demasiado revelador para não ser preocupante.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De construção de cidade nova, com soluções atuais de urbanismo, travada de audaciosa concepção arquitetônica, tangida pelo arrojo, Brasília passou a constituir-se num mito; mito necessário, já que a grande massa dos brasileiros – acrescida dos filhos de imigrantes – carece de figuras e momentos suficientemente épicos para fustigar sua vontade de imaginação. Brasília passou a ser defendida e atacada como se de suas estruturas metálicas corresse sangue, como se em suas rampas, asfalto, pedra, cimento e cal pulsassse vida. Tornou-se ela simultaneamente ser e abstração, objeto e entidade – solução e danação. Brasília, transfigurada, passa assim por cima dos seus criadores e dos seus adversários. No debate nacional, no qual a ponderação do ataque e da defesa se alterna com o frenesi da defesa e do ataque, Brasília, de capital em estado embrionário, foi transmudada em forma pulsante e sensorial.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas afinal, de <I style="mso-bidi-font-style: normal">quoi s’agit’il</I>? De que se trata? Brasília, afinal de contas, éapenas uma cidade que se constrói. Ser contra ela, nesta altura, é tão efetivo e válido quanto ser contra a existência da Lua. Apontar os erros que orientam sua construção, fazer o rol do que se deixa de executar para executar Brasília constitui certamente uma comovente demonstração de interesse patriótico pelos problemas públicos – mas não passa, neste momento, de puro exercício acadêmico. Porque há uma coisa inelutável nisto tudo: desde que as forças interessadas na construção de Brasília não têm, pelo menos nesta quadra da vida nacional, nenhuma força efetiva e material, dinamicamente válida, pela frente, e desde que as forças contrárias à construção são obrigadas a uma oposição de mera opinião, a discussão sobre o prosseguimento das obras, <I style="mso-bidi-font-style: normal">em si</I>, é estéril.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quantidade e os recursos dos que enumeram as razões pelas quais são contrários a Brasília é tão grande quanto a quantidade e o recurso dos que perdem tempo igual a absolver a futura capital. Mas de qualquer maneira, é necessário colocar algumas perguntas que se situam no mesmo nível da exclamação da criança diante da invisível indumentária real: são perguntas elementares, que trazem a resposta da negação, mas por isso mesmo fundamentalmente necessárias.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Façamo-la, a primeira pergunta:</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Afinal de contas, era tão necessário assim mudar a capital do Rio para o planalto goiano? Estava nas determinações dos legisladores do fim do século XIX. Mas muito está determinado e escrito, que não se cumpre nem se olha ou vê. Para decidir a questão, seria indispensável consultar sociólogos, urbanistas, especialistas em cálculos de trabalho – e não esquecer os psicólogos.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Era necessário construir Brasília tão depressa? Ninguém respondeu a esta interrogação de maneira satisfatória. O custo das obras aumenta com a rapidez ou a lentidão? Seriamente, ninguém parece ter feito esse cálculo para fins de esclarecimento. Gasta-se muito? Provavelmente sim. Galtam-se bilhões; mas ninguém até hoje fez cálculo algum do que poderia ser feito com o que se despende <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" /><st1:PersonName w:st="on" ProductID="em Bras&#65517;lia. Os">em Brasília. Os</st1:PersonName> governos anteriores não construíram Brasílias, mas também nada fizeram em seu lugar. O governo deveria interromper as obras, porque a oposição é contrária? Contrária como, se lá encontramos, familiarmente instalado, um fiscal da oposição? Contra, sim, mas essa oposição se limita aos lampejos dos discursos e aos brilhantes editoriais. Brasília adiantará de alguma coisa? Provavelmente sim; pelo menos existem ali 65 mil trabalhadores que ocupam terras e casas, que se casam e criam filhos. Tirá-los de lá será extremamente difícil – e não os tirar significa um problema que não exclui a aprovação de uma legislação especialíssima. Brasília é longe? De quê? Do mar? Mas é perto do Amazonas, por exemplo, mais perto do que o Rio ou São Paulo o são.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Brasília é bela? É. No meio da planície, delicada e sensível, leve, projetada no futuro, Brasília revela-se como uma miragem: incompleta, embrionária, metade cidadela, metade alga, anêmona, ela parece pulsar – tem-se a impressão de que se pode estender a mão e colhê-la, fruto delicado, flor brasileira, pétala, pele de pêssego, pedra lapidada, elegante e inteligente abrigo do homem.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por que, em primeiro lugar, colocar o problema de Brasília na base em que ele está sendo colocado, se, no fundo, jamais se discutiu, até hoje, com essa abundância de pormenores que são abundantes apenas para ocultar seu vazio, os problemas nacionais <I style="mso-bidi-font-style: normal">de fundo</I>? Veja-se, por exemplo, com que lamentável fatalidade, com que submissão catastrófica uma ponderável parcela da opinião pública se entrega, olhos fechados e mãos amarradas, às candidaturas, um de fita mexicana, outra de opereta vienense, sem que ninguém, por um minuto, pare para perguntar: mas afinal de contas, <I style="mso-bidi-font-style: normal">o que pensa, o</I> <I style="mso-bidi-font-style: normal">que é</I>, o que significa o Sr. Jânio Quadros (ou o marechal Lott)?</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Não se discutem esses pormenores porque de um lado eles são inelutáveis e de outro não se possuem dados efetivos. Os dados à mão são circunstanciais ou irrelevantes. Num caso de alega boa administração, e uma esperteza erigida em qualidade, noutro um nacionalismo de extração heterogênea e duvidosa filiação. Na realidade, a opinião pública é chamada a manifestar-se apenas no dia da eleição.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se fizéssemos um plebiscito entre a massa de trabalhadores, Brasília seria derrotada porque eles veem nela apenas o vácuo feito daquilo de que eles necessitam e que não recebem. Mas a voz da grande massa de trabalhadores não conta porque não é transmissível.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ficam portanto cingidos aos temas centrais das alegações contrárias que podem ser manifestadas.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma parcela esclarecida da opinião pública vê em Brasília o instrumento acelerador de um processo crítico cujas conseqüências serão trágicas e – o que é muito mais sombrio para ela – incontroláveis. Outro argumento é o de que construir uma cidade nova neste momento constitui um ato de declarada irresponsabilidade; outro ainda é o fato de se cometerem ali, provavelmente, irregularidades (como o denuncia a insistência de uma parte da oposição em realizar um inquérito esclarecedor).</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que entusiastas, por sua vez, depositam nela todo o significado e todo o <I style="mso-bidi-font-style: normal">fulfillment</I> de que a incapacidade governamental (do município à União) deste país torna sequiosos e sedentos os seus burocratas.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em suma, não se possuem dados efetivos para discutir o “caso Brasília” no <I style="mso-bidi-font-style: normal">plano</I> <I style="mso-bidi-font-style: normal">racional</I> porque: 1) as irregularidades, se existem, não bastam para condenar a ideia da nova capital. Antes, sanadas, elas a absolveriam. 2) <I style="mso-bidi-font-style: normal">Nunca</I> é momento de gastar tanto dinheiro, a não ser em hospitais, escolas, pesquisas científicas e obras capazes de elevar efetivamente o nível de vida do povo. Finalmente, o que falta ao Brasil é precisamente um momento sério; um momento no qual o brasileiro se mire no espelho e pergunte a si próprio: isto tudo está certo? Isto tudo tem sentido? Um momento, enfim, de crise incontrolável, de crise trágica, de abalo sísmico, acima dos homens e das coisas.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Só poderemos ser, portanto, a favor de Brasília, se ela traz consigo – como dizem seus adversários – todas essas conseqüências e problemas.</FONT></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><o:p><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&nbsp;</FONT></o:p></P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P> <P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Somos a favor de Brasília no plano irracional. Como se é a favor de uma flor, de um animal ferido, de uma criança.</FONT></P> <P align=justify><FONT face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></FONT>&nbsp;</P>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49893</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7e79205045772ec893517c01d7e1b31c.jpg">  <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Foto de Breno Fortes, 2007</font>  <br>  <br>  <br>  <br><font size="7">  <br><font size="6">Ninguém olha por ela</font></font>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Pelo menos uma vez por mês vou à Rodoviária, e é sempre um susto. Meus olhos acostumados à urbanidade moderna se choca com a vida como ela é. A Rodoviária é a cidade-satélite do Plano Piloto. A menos de dois quilômetros dos três poderes, Brasília é pobre, feia e maltratada. É uma ilha de realidade cercada de riquezas por todos os lados.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Pouco depois das quatro da tarde de ontem, enquanto os manifestantes ocupavam a Câmara Legislativa, fui à Rodoviária tentar medir os ânimos do brasiliense que anda de ônibus. Como eles estão reagindo ao terremoto político?, me perguntava.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>A plataforma inferior estava superlotada, as escadas rolantes rangiam sob o peso dos usuários apressados. Duas delas estavam paradas. Como tem pressa a Rodoviária! Levas ininterruptas de brasilienses descem as escadas e seguem rumo ao metrô ou as muitas e extensas filas de ônibus com a determinação de quem sabe que tem de enfrentar duas viagens por dia numa cidade que foi planejada (mas não para eles).   <br>  <br>  <br>  <br>  <br>De onde saiu tanta gente com deficiência física? De onde o velhinho tira forças para pregar a palavra de Deus, Bíblia aberta na mão, camisa ensopada de supor, óculos de aros antigos e paletó pendurado no antebraço? A lojinha de enfeites natalinos está lotada e na banca de revista há fila para ler os jornais. Não, não é política o assunto que os interessa. Sob os ombros uns dos outros, eles leem notícias de polícia e esportes.   <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Arruda? Propina? Dinheiro na cueca? Estico as orelhas para ver se ouço algum comentário, paro ao lados dos grupinhos, peço um caldo de cana na Viçosa, vou pra fila do ônibus, folheio revistas na banca, me encosto no balcão da lanchonete (cada pedaço de bolo tem perto de meio quilo). Ouço trechos de conversas: “Quando ela precisa, eu, boba, sempre dou um jeito de arranjar uma grana. Quando preciso, ela sempre tem uma desculpa”.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Finalmente, vejo uma cobradora de ônibus (quem sabe motorista?), de uniforme azul, rodeada de colegas, falando como quem faz um discurso. Me aproximo e consigo pegar o final da conversa: “Me diz aí. Quando tu tá na pior, quem é que te dá uma mão? Rico? Deixa de ser besta. Quem ajuda pobre é pobre. Esses caras só querem o voto dos bestas aqui, depois dão um pé na b. da gente. Comigo não, jacaré!”  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>O grupo logo se desfaz. A Rodoviária tem vida própria, sobe e desce, entra e sai, indiferente ao que se passa nos três poderes, os federais e os locais. A Rodoviária precisa sobreviver a um dia, ao outro e ao outro. Não pode se dar ao luxo de parar para debater a crise política e nem mesmo para fazer manifestações de protesto. A Rodoviária, sabe que, no fim das contas, sempre sobra pra ela. É suja, velha, remendada. Nunca há dinheiro para reformá-la.   <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Às cinco da tarde, quatro crianças de rua seguem dormindo num canto meio protegido do mezanino. Quem tem onde morar quer chegar em casa. A Rodoviária até vota, se ilude, mas sente o corte diário na carne: ninguém, verdadeiramente, olha por ela.   <br>  <br>  <br>  <br>  <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49892</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
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		<img style="width: 264px; height: 267px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4184a330fbbfe3d760f4e0cd8b69efdc.jpg">  <br>  <br>  <br><font size="4"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="7"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">  <br><font size="6">E os 50 anos?</font></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>O que parece ser uma bomba jogada antecipadamente na festa do aniversário mais significativo de Brasília pode não ser tão devastador assim. Qualquer que seja o destino dos personagens da trama em cartaz, a cidade já recebeu o seu presente. A revelação, em papel-moeda, de que a capital do país está mergulhada em vasto pântano nos põe mais perto da Brasília real.   <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Aquela outra, que se preparava para receber Paul Mcartney numa festa que prometia ser retumbante, aquela flutuava em fantasia. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">É um presente dramático, porém mais próximo da Brasília verdadeira. A cidade já pode começar a pensar num bolinho de farinha de trigo e ovos e numa tubaína bem gelada em copinho de plástico e guardanapo de papel-toalha. </span>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Assim sendo, as 29 cidades desceriam para a Esplanada para se juntar ao Plano Piloto num imenso carnaval da cidadania. Cada brasiliense levaria um pratinho de salgado, um isopor de dim-dim, outro da cerveja que estivesse em oferta nos supermercados e cada um faria um discurso evocando as dores e as delícias de ser brasiliense. </span>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Os das cidades mais pobres realçariam as enormes dificuldades de transporte, educação, saúde e segurança. Os do Itapoã subiriam no caixote pra protestar, além de tudo isso, contra a bagunça do ordenamento das ruas e dos endereços. Reivindicariam a presença do Estado em atividades esportivas e de preparação de cidadania para adolescentes. </span>  <br>  <br>  <br>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Os da Estrutural levariam alegorias feitas de lixo para retratar o avanço do tráfico que está comprometendo a vida das crianças e destroçando as famílias. Talvez reivindicassem a permanência do Lixão, o patrão da maioria deles. Nessa hora, os ambientalistas pediriam a palavra e tentariam esclarecer os catadores de que o aterro é insalubre, que contamina o lençol freático e que eles deveriam se organizar em cooperativas mais justas e igualitárias, que lhes dessem mais proteção e maiores rendimentos. E que os levassem para longe da montanha fétida.</span>  <br>  <br>  <br>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">As mães de filhos em escolas públicas invocariam o direito à educação de qualidade, à efetiva atuação dos Conselhos Tutelares e o compromisso do governo no atendimento vigoroso aos jovens já comprometidos com a violência e as drogas. As crianças criadas sozinhas, porque suas mães trabalham fora o dia inteiro, sem direito a folga semanal, fariam passeata de protesto exigindo seu direito de ter alguém para cuidar deles, enquanto suas mães cuidam dos filhos dos outros.</span>  <br>  <br>  <br>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Os brasilienses que não têm tanto a reivindicar talvez subissem no palanque para pedir silêncio a partir das dez da noite. A moçada mais arejada pediria mais ciclovias e menos carros.  <br>  <br>  <br>  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Todos pediriam o fim das obras que deixaram a cidade de tripas para fora. Pediriam que a área tombada fosse cuidada com o zelo que merece, que a Praça dos Três Poderes fosse restaurada, que a Rodoviária voltasse a ser moderna, arejada, ágil, combinação graciosa de arquitetura e urbanismo, via expressa, edifício e praça. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Então os brasilienses voltariam para casa sabendo um pouco mais sobre si mesmo, sobre as muitas distâncias entre eles, e sobre políticos, desfarçatez e mentiras.&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">  <br>  
		]]>
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		</item>
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		<title><![CDATA[Deu na Folha]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49709</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<div><font><font size="2" face="Arial"><strong><font face="Times New Roman"><font color="#000080" size="4"> <br> <br> <br></font></font></strong></font></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"><strong><font color="#000080">FERNANDO DE BARROS E SILVA</font></strong> <br></font><font size="3"><strong></strong> <br></font><font size="6"><strong> <br> <br>Capital do puxadinho </strong></font></div></div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"><b> <br></b></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"><b> <br></b></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"><b>SÃO PAULO -</b> A notícia de que o Palácio do Planalto acaba de ganhar um  puxadinho no seu processo de reforma e restauração é cheia de implicações. Em  primeiro lugar, há a questão arquitetônica: diante das normas de segurança  atuais, a construção de Oscar Niemeyer revela-se defasada. Procura-se então  adequar o palácio à nova realidade -ou a obra de arte à vida como ela é. <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3">A  solução encontrada -uma caixa de concreto "escondida" no fundo do prédio, um  monstrengo que se pretende invisível- surge quase como uma metáfora histórica:  quisemos ser modernos, as coisas não saíram como imaginávamos, mas demos um  jeitinho e o resultado é esse, meia boca, até simpático quando se subtrai do  campo de visão seus aspectos inapresentáveis. <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3">O puxadinho do Planalto é o  preço que o país da gambiarra cobra da nossa modernidade. <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3">Niemeyer é o grande  gênio da arquitetura brasileira. E Brasília representou o desejo de integrar  socialmente o país, a materialização de uma utopia simbolicamente plantada no  centro do território nacional. Na véspera de completar 50 anos, a capital  sonhada foi engolida pelo Brasil. <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3">As cidades-satélite no entorno de Brasília  não deixam de ser um imenso puxadinho, um anexo segregado da vida moderna onde  os neocoronéis do meio-oeste fazem a sua festa -de Joaquim Roriz a José Roberto  Arruda. <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3">Mas o próprio Plano Piloto vai acumulando seus puxadinhos. Já há  tempos, a paisagem de Brasília é uma mistura de fachadas neoclássicas, prédios  envidraçados, shoppings ostensivamente coloridos por propagandas, interiores  rococós -uma salada visual que desafia a arquitetura "suspensa no ar" do projeto  original. <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3">Os críticos dizem que a obra de Niemeyer é mais artística e  plástica do que prática e funcional -boa de ver, ruim de morar. Brasília tenta  se afastar de seu destino. É cada vez menos moderna e mais pós-moderna. Sua  utopia foi para o espaço, e hoje tem vigência apenas privada. Chama-se  "qualidade de vida".</font></p>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade ]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49699</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
		<description>
		<![CDATA[
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		<img style="width: 457px; height: 348px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e225b8811d1582ad10a62c4f2735e505.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Embaixadores e secretários na L2 Sul, 1960, foto de Raymond Frajmund</font> <br> <br><font style="font-weight: bold;" size="3"> <br></font> <br><font size="7"> <br><font size="6">Holocausto e revelação</font></font> <br> <br> <br> <br> <br>“Do holocausto à esperança” foi o título de matéria publicada na edição de sábado do Correio sobre a vida do bravo candango Raymond Frajmund. Desavergonhadamente, faço marketing de mim mesma, mas a causa é justa, vale o mico. O adolescente Raymond foi prisioneiro de Auschtiwz, entre os 15 e os 17 anos. Dois dias antes de o exército russo chegar ao campo de concentração e extermínio para libertar os presos, o adolescente foi transferido, junto com outros 4 mil presos, para outro campo.  <br> <br> <br> <br> <br>Na longa caminhada, sob 20 graus abaixo de zero, conseguiu escapar da vigilância dos oficiais nazistas, fugiu e quatro meses depois reencontrou os pais em Bruxelas, Bélgica. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Depois de dois anos de trabalhos forçados, sob um regime alimentar de 200 calorias diárias, Raymond diz ao pai: “Não quero nunca mais trabalhar na minha vida. Não quero mais participar desta farsa”. Era um adolescente devastado por um dos mais terríveis episódios da história da humanidade, o holocausto. <br> <br> <br> <br> <br> <br>“Não quero mais participar desta farsa.” Era esse o sentimento do jovem Raymond depois de ser vítima e testemunha das atrocidades praticadas em nome da busca de uma delirante hegemonia ariana. Até que ele descobriu o Brasil e, alguns anos depois, pôde registrar, como fotógrafo do Estadão, o surgimento de Brasília.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Para o polonês criado na Bélgica, Brasília foi um sopro de esperança, mas por muito pouco tempo. Logo, ele percebeu que não era bem assim, que a cobiça dos homens era muito maior e mais poderosa que o desejo de estabelecer um novo modo de vida, menos desigual. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Passados 49 anos, Raymond continua em Brasília, que desde há muito não é mais a capital da esperança. E por esses dias é a capital da desesperança. As imagens da dinheirama enchendo paletós, bolsas, envelopes e meias são uma revelação. A de que a capital que nasceu de um forte desejo de inventar um novo país se sustenta num pântano.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Apurem-se as denúncias, punam-se os culpados, mas nada mudará se a cidade não criar uma cultura de decência e de limites do poder. Meus tantos anos já me fizeram aprender que os humanos perdem os limites diante dos poderosos. Essa proximidade que a capital tem com os carros pretos com motorista é o que corrói os pés de barro dos bem intencionados e facilita os propósitos dos mal intencionados.  <br> <br> <br> <br> <br>Brasília precisa de movimentos populares fortes, de gente independente e suficientemente segura para não se derreter ao primeiro sorriso do poderoso de plantão. Não é de falastrões que a cidade precisa. É de gente bem preparada, paciente, com coragem e compromisso com os mais preciosos valores da civilização. O mal ainda não venceu. Raymond Frajmund, um bravo candango, é prova disso. <br>&nbsp; <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49579</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		 <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>O anjo obsessivo e sábio cantou a pedra desde o começo: Em Brasília, não há inocentes. Somos todos cúmplices, citação de Nelson Rodrigues que já repeti neste pé de página uma meia dúzia de vezes. Não houve melhor definição do que é a Brasília capital do poder. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Delfim Neto disse a mesma coisa de outro modo, em depoimento a Ronaldo Costa Couto, no Brasília Kubitschek de Oliveira, também aqui reproduzido em outras ocasiões: “Brasília virou uma corte. Brasília é uma sociedade endogâmica, que casa entre si os seus filhos. Vai ser muito difícil arejá-la, porque todo mundo é parente. Eu aprendi: aqui, em nenhuma mesa de almoço ou jantar você pode falar mal de alguém. Sempre que você está conversando com um sujeito, ele é um primo, um irmão, um sobrinho, um cunhado, um amigo da amante de alguém…” <br> <br> <br> <br> <br> <br>Brasília é um ovo. O poder concentrado entre dois eixos cruzados em cruz e abraçados por um lago artificial, afastado do restante do país por léguas e léguas de cerrado, facilitou as tramóias, deu passe livre para a corrupção. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Vivemos em casas geminadas com o poder. Tão próximo, tão sedutor, tão irresistível, o poder transborda os seus limites e vai invadindo consciências, alterando valores, iludindo os bem intencionados, pavoneando todos os que não se contentam com nada que não seja tudo. O poder está à mão, ao telefone, o poder está na casa do vizinho, nas festas megalomaníacas, nas facilidades oferecidas com um sorriso cordial, na troca de favores que põe todos na roda. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Doce ingenuidade a de Juscelino, Sayão, Lucio e Oscar. Juntaram os brasileiros num só território, entremearam a Nação a partir de seu ponto mais central, mas inventaram uma cidade administrativa que isolou o poder — esse instrumento que precisa ser vigiado ininterruptamente. O melhor dos homens piora quando ganha poder. É preciso ter domínio sobre as próprias fraquezas para ser poderoso sem se perder no poder. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Brasília foi construída na lâmina cortante das contradições. Ela existe porque o Estado assim o quis, mas nasceu do desejo de mudar as relações sociais. De aproximar ricos e pobres, de dar aos dois as mesmas condições de vida na cidade. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Nasceu para ser exclusivamente a sede do poder federal, espécie de cidade proibida. Ilhada em imensos vazios, virou-se contra os ideais que a fundaram. Terra de ninguém, lugar de forasteiros, Brasília passou a ser, desde o começo, o território de quem quer se dar bem. À exceção da meia dúzia de idealistas que veio para a invenção de Juscelino apostando num projeto de mudança de mundo, toda a gente que aqui aportou veio em busca de prosperidade. Bastante legítimo, mas a cidade isolada era (e continua sendo) perigosamente permissiva.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Em Brasília, todos somos cúmplices. O caldo sedutor do poder avança pelas frestas das consciências, atordoa princípios, estimula ambições, deteriora princípios. Transforma todos em iguais, iguala todos por baixo. Não é fácil escapar dessa trama.  <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49470</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 340px; height: 266px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4ba3d0efb6defdd2009aa01e090d2393.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="7"> <br>Sem destino</font> <br> <br> <br> <br>A experiência com substâncias alucinógenas existe desde que o homem descobriu o efeito de certos produtos da natureza. Há, em nós, uma atávica inquietação diante de tanto esplendor, tanto mistério e tantos redemoinhos internos que revolvem nossas almas desprotegidas. Para o índio, por exemplo, o uso de entorpecentes encontrados na natureza compunha um ritual de forte sentido mítico. Para o civilizado, é bem diferente. Somos largados no mundo.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Depois do LSD, do haxixe, do ópio, da cocaína, das anfetaminas, dos barbitúricos, do ecstasy, da merla, dos remédios para esconder a dor, chegou a hora e a vez do crack. De produção fácil, a pedra passa de mão em mão e quando encontra um cachimbo leva o consumidor ao êxtase com uma “pancada forte”, como descreveu o perito Adriano Otávio Maldaner, da Polícia Federal.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Leva, traz de volta e cobra muito caro pela viagem. Potente e devastador em si mesmo, o crack surgiu em terreno prodigioso: vivemos um tempo sem referências de bem e de mal, de absoluta perdição de valores, um tempo que parece nos oferecer tudo, e o tudo que recebemos é um bolha vazia, um planeta oco, um tempo sem chão, sem coordenadas, sem teto.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Fantasmas de um mundo que vende projetos de felicidade a preços exorbitantes, meninos e adolescentes da periferia escorregam facilmente na falácia da droga. E se a classe média e a acima da média pode pagar, nem que seja a prestação, ou quem sabe vendendo a alma, pela felicidade a preço de ouro, ela paga também com o vazio da existência. Com ou sem crack. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Falta projeto para a humanidade e, se a vida, por si só, não tem sentido, fica difícil seguir adiante sem ter pelo menos uma linha pontilhada sobre o chão que nos dê confiança na possibilidade de um presente e de um futuro com algum significado. O que estamos vivendo é uma era sem um sentido que nos conduza. Somos contemporâneos de uma época vazia de razões de existir — ou cheia de sentido narcísico, de voracidade egoísta, de ambição sem limite.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>O crack queima a lucidez do pobre, do remediado e do rico, do morador da grande metrópole e das cidadezinhas antes protegidas por si mesmas, como revela a série de matérias que o Correio Braziliense vem publicando. O crack é a droga certa para o momento: esse em que tudo parece ao alcance de todos (basta entrar na rede), em que ninguém acredita em nada e em ninguém, em que parece só haver lugar para vencedores e o fracasso não é apenas o reverso da moeda. É preciso vencer — o que, pra que, por que, ninguém sabe ao certo. Mas tem de vencer. E há quem vença, mas a maioria de nós fica pelo caminho. É destroçado pelo crack ou pela amargura ou pelo vazio. <br> <br> <br> <br> <br>Nâo é apenas uma pedra. É todo o caminho.  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49218</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/0df8256bbabe59d6f3ca56a620982188.jpg"> <br> <br><font size="4"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="3"> <br> <br><font size="6">A vingança da macacada <br> <br> <br></font><span style="font-style: italic;">Severino Francisco</span> <br> <br> <br> <br> <br>Moro em um condomínio horizontal próximo a uma mata cerrada e, há três semanas, acordei em sobressalto com o barulho de um pagode ou de um grupo de catira no telhado. Àquela altura dos acontecimentos, a percepção do som era confusa, mas transmitia algo de farra, com alguns silvos de festa de bicho. Voei da cama, dormindo acordado, sem entender direito o que estava acontecendo. O mistério logo se deslindou quando avistei dois macacos alucinados com a própria imagem ao mirarem uma faixa de vidro colocada no alto para permitir que a luz vaze pela casa. O restante da turma brincava no telhado.  <br> <br> <br> <br> <br>Dei uns berros para assustar a macacada, mas, quando percebi que eles estavam destelhando a casa de pura baderna resolvi jogar uma pedra nas árvores próximas deles para dispersá-los. Sei que, a esta altura, os ecólogos e os biólogos já estão querendo me processar. Mas ocorreu algo muito pior: como disse, eu acabara de pular da cama, com os músculos desaquecidos e ao atirar a pedra sofri uma tremenda distensão no braço, que se irradiou para o ombro direito. Resultado: estou fazendo terapia intensiva todos os dias em uma clínica da Octogonal. De vez em quando, realizo um movimento em falso e o rosto se crispa em uma careta de dor. A macacada deve estar rindo de mim até agora.  <br> <br> <br> <br> <br>Apesar de toda a devastação ambiental, Brasília ainda é uma cidade fronteiriça com manchas de mata brava, e quem mora em condomínios convive com muitos bichos silvestres. Na verdade, nós somos os invasores. A macacada é uma das atrações do nosso condomínio. Fico impressionado com as acrobacias que eles fazem em cima de árvores de 10 a 15 metros de altura, desafiando a lei da gravidade e deixando o Cirque du Soleil no chinelo. Outro dia assisti a um macaco andar tranquilamente em cima de uma longa cerca de arame farpado. Estou pensando seriamente em cobrar ingresso de quem visita a minha casa, a preços de mercado, quer dizer, o mesmo valor dos espetáculos do Teatro Nacional: 500 surreais.  <br> <br> <br> <br> <br>Lá em casa, os macacos traçaram as safras de manga, de goiaba, de pitanga e de amora. É uma turma simpática, mas muito bagunceira. Todos os amigos a quem contei o incidente se solidarizaram irrestritamente com a macacada e ainda comentaram: “Coitadinhos”. Até o fisioterapeuta está preocupado com a saúde deles. É impressionante o carisma dos macacos pregos. Acho que se algum deles se candidatasse a deputado distrital ou federal, com certeza, teria muitos votos e cumpriria um mandato menos nocivo do que várias Excelências.  <br> <br> <br> <br> <br>De todo esse tumulto e desconforto, tirei algumas sábias lições que pretendo aplicar daqui em diante. Não agirei mais de forma desarrazoada, insensata e ecologicamente incorreta. Da próxima vez que a macacada começar a destelhar a minha casa, telefonarei para um personal trainer, farei 30 minutos de aquecimento e, quando os músculos estiverem tinindo, atirarei aos macacos, não pedras, mas sim bananas, pitangas, jaboticabas, morangos, amoras e outras frutas leves.  <br></font></div> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[Superquadra de passarinho]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49189</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 381px; height: 248px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/159b94b7c9b3671ec246a92627412912.jpg"> <br> <br><font size="6"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br>Carlos Moura, bravo fotógrafo do Correio, interrompeu uma das muitas pautas do dia para registrar a construção de um condomínio num poste de luz numa das vias marginais da 28 do Lago Sul. O arquiteto estava por ali quando a foto foi feita, mas não deu pra saber se todas as casas são obras só dele. Sabe-se que joão-de-barro constrói casas por temporada. Depois abandona a moradia e, pacientemente, ergue outra, muitas vezes ao lado da anterior. Como passarinho não sabe o que é especulação imobiliária, as casas desabitadas ficam à disposição de quem quiser habitá-las. Gratuitamente.&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=49200</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 281px; height: 352px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/bd3884adcfccbcdac216c220d05b215c.jpg"> <br> <br><font size="4"> <br> <br> <br> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="7">Minha Feliz</font> <br> <br> <br> <br> <br>Tenho uma amiga que é feliz. Se eu tivesse que achar um retrato mais aproximado da felicidade escolheria o dela. Esclareço meu conceito de felicidade (cada um tem o seu, por isso felicidade não se compra, não se vende, não se empresta. E eu pego carona na felicidade da minha Feliz ). É assim meu conceito de felicidade: é sorver, tal qual uma criança, os goles inebriantes da vida. É aproveitar o que a vida lhe oferta, instante após instante, oferendas às quais, na maioria das vezes, a gente nem se toca de havê-las recebido, tão concentrado estamos na busca de uma suposta felicidade que sempre salta pra mais adiante. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Minha amiga Feliz não é rica. Pelo contrário, vive contando os trocados. Raramente vai a um shopping — nem a convido, porque ela vai lançar seu olhar de quase-desprezo. Mas se chamo minha Feliz para me acompanhar num passeio pelos arredores do Plano Piloto, ela entra no carro como uma criança a caminho da sorveteria. Se o convite for para um passeio mais longo, uma ida ao Goiás, ela põe uma muda de roupa e um livro na mochila e está pronta pra ser Feliz. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Minha Feliz me contou que certa vez num dos raros momentos de muita tristeza (Feliz quando fica triste se esconde do mundo, ninguém a alcança), num desses momentos sorumbáticos e solitários, Feliz se encantoou na varanda de casa, entregue aos abismos da infelicidade, quando um passarinho amarelo pousou no corrimão. Feliz entendeu como um agrado dos deuses: em algum lugar alguém cuidava dela. Feliz chorou mais um pouco, se levantou, tomou um banho, esquentou um pão francês com catupiri, fez um café, pegou um caderno e voltou pra varanda: começou a montar um plano de reestabelecimento da felicidade. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Minha Feliz anda de ônibus e sempre tem histórias hilariantes da aventura diária de sacolejar nos monstros ranhetas da capital mais mal servida por transporte urbano de todo o planeta. Sempre apressada, com seus passinhos rápidos, Feliz entrou no ônibus na plataforma inferior da Rodoviária sem conferir se aquele buzu ia mesmo para Valparaíso. Então perguntou ao motorista: “Esse ônibus vai para Valparaíso?”. O motorista, certamente infeliz, respondeu: “Eu não acredito! Será que este ônibus vai para Valparaíso? Deixa eu ver”. Esbravejando, desceu do ônibus, foi lá for a, olhou para o painel, voltou e trovejou: “Vai, minha senhora, este ônibus vai para Valparaíso”. Minha Feliz ficou toda sem jeito, mas não ficou infeliz. Transformou o acontecimento numa história que ela adora contar. <br> <br> <br> <br> <br>Minha Feliz é das pessoas mais humanas que a vida me deu o privilégio de conhecer. Tem um sentimento de solidariedade, um respeito à integridade humana e uma preocupação genuína com os miseráveis nos quais me espelho, pra eu me lembrar de que pra ser feliz é preciso esquecer um pouco (ou até muito) de si mesmo.  <br>Raras vezes ouvi Minha Feliz falar mal de alguém. E quando o faz cerca o malfalado de tantos cuidados que fica o dito pelo não dito.  <br> <br> <br> <br> <br>Minha Feliz é generosa com o mundo, mas ela não se ilude: o mal está à solta por aí.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Minha Feliz me ensinou: Conceição , não tem outro jeito. É ser feliz ou ser feliz. <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48969</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 336px; height: 325px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/fdf812412ba03bdb1ede652d358f5e9f.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Paris vista da janela, e Marc Chagall</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br><font size="7">Tem alguém aí?</font> <br> <br> <br> <br> <br>Tenho indomável fascínio pelas janelas. Não é doje (caríssimo revisor, deixe o ‘doje’, é tão mais foneticamente verdadeiro). Vivo andando de pescoço espichado, desde o tempo em que perambulava pelas ruas de casas coloniais de Belém do Pará. Depois de mais de 20 anos futricando as janelas desta cidade feita de paredes enjaneladas, me sinto à vontade para dizer que o brasiliense não suja o cotovelo no parapeito. É raro ver alguém debruçado no vazio da parede — haverá gente morando ali? <br> <br> <br> <br> <br> <br>Na falta de morador, observo o pouco que a janela me revela. A dança enevoada das cortinas, as persianas inquietas, um pedaço de estante, a borda de um sofá. Cadê a mãe que não aparece pra gritar pelo menino que está na rua, ou pra chamar o amolador de faca ou pra pedir à vizinha que apareça à janela que a fofoca é boa? São solitárias as janelas desses tempos de muita peleja.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>São quase desnecessárias as janelas de agora. Reza a arquitetura que a janela tem a função de abrir a casa para o vento, a luz e o sol. Na doce vida vagarosa de antigamente, a janela nos conduzia para o mundo do lado de fora sem nos tirar do mundo do lado de dentro. As heroínas dos romances do século 19 namoravam na janela, as beatas cansadas acompanhavam a procissão da janela, as adolescentes atrevidas fugiam pela janela, a moça feia debruçava na janela pensando que a banda do Chico tocava pra ela. <br> <br> <br> <br> <br> <br>As janelas das grandes cidades, Brasília incluída, são retratos inertes na parede dos prédios. Cadê essa gente, meu Deus? eu me pergunto, procurando vida atrás da vidraça. De vez em quando, alguém aparece rapidamente na janela, talvez para conferir se o dia será de sol ou de chuva, de frio ou de calor. Ninguém mais pendura tapetes e toalhas na janela — talvez em nome de uma certa ideia de que gente elegante não expõe sua decoração nem suja a fachada do prédio. No máximo, um vascaíno ou um flamenguista pendura uma bandeira — é o único sinal de que há gente do lado de dentro das janelas. <br> <br> <br> <br> <br> <br>A especulação imobiliária tem sua parcela de culpa no esvaziamento das janelas. Os blocos construídos a meio palmo do nariz uns dos outros transformaram as janelas em recursos arquitetônicos de invasão de privacidade. Não dá mais pra atravessar da sala pra cozinha, de persiana aberta, se o morador ou a moradora não estiver devidamente composto.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Quando Lucio Costa pensou em seis andares para as superquadras, pensou nas janelas. Os seis andares respeitam a linha do horizonte, esperam a maturidade das árvores e têm a altura máxima de onde a mãe pode chamar pelo filho debaixo do bloco. De onde se vê o horizonte, a copa das árvores e de onde se grita pelas crianças? Das janelas.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Tenho fascínio pelas janelas, indomável fascínio, como já disse, mas elas há muito têm me dado as costas. Quando muito, em dia de domingo, vejo alguém fumando no quadradinho. Ou alguém pedindo pro alguém lá debaixo esperar que o alguém lá de cima já está descendo. Minha obsessão por janelas já me fez ver uma garotinha no prédio ao lado querendo se pendurar na janela do primeiro andar. O porteiro avisou a moradora a tempo e menina saiu da janela pela orelha.  <br> <br> <br> <br> <br>Estou de janela nova, o que tem sido um programa de fim de noite: observar as luzes (é o máximo que me é permitido pelas invioláveis janelas da vizinhança) dos blocos à direita e à esquerda. Aparelhos de televisão faiscando movimento de luz&nbsp; no ar e sombras atravessando a sala (ou o quarto ou a cozinha, sei lá eu). É o máximo que consigo ver. Mas se eu perguntar, qual um extraterrestre, se há alguém aí, as luzes e as sombras me dirão que sim. E de certo modo isso me acalma.&nbsp;&nbsp;  <br> <br>&nbsp; <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48922</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/a4fc43693fa9578fa6a7d143a8bde3af.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="7"> <br>Tudo é Brasília</font> <br> <br> <br> <br> <br>Prestimoso, bem-informado e educado leitor envia e-mail puxando as orelhas do Correio Braziliense por conta da suposta confusão que o jornal faz entre o que é Brasília e o que o Distrito Federal.  <br>Brasília, ele explica, é a Região Administrativa de Brasília. Ou seja, Brasília é: a Asa Norte, a Asa Sul, Setor Militar Urbano, Setor de Garagens e Oficinas, Área de Camping, Eixo Monumental, Esplanada dos Ministérios, Setor de Embaixadas Sul e Norte, Vila Planalto, Granja do Torto, Vila Telebrasília, Setor de Áreas Isoladas Norte. Ponto. <br> <br> <br> <br> <br>Distrito Federal é todo o quadradinho, ou seja, Brasília mais as 29 outras regiões administrativas, a saber (se você tiver paciência): Gama, Taguatinga, Brazlândia, Sobradinho, Planaltina, Paranoá, Núcleo Bandeirante, Ceilândia, Guará, Cruzeiro, Samambaia, Santa Maria, São Sebastião, Recanto das Emas, lago Sul, Riacho Fundo, Lago Norte, Candangolândia, Águas Claras, Riacho Fundo II, Sudoeste/Octogonal, Varjão, Park Way, Setor Complementar de Indústria e Abastecimento, Sobradinho II, Jardim Botânico, Itapoã, Setor de Indústria e Abastecimento e, ufa!, Vicente Pires. <br> <br> <br> <br> <br>Do ponto de vista normativo e legal, o leitor está pleno de razão. Uma cidade, porém, não se contém em normas, regras e leis. Uma cidade é formada por um caldo de cultura que seu povo vai criando junto com as camadas do tempo. Quem denomina uma cidade é quem nela vive.  <br> <br> <br> <br> <br>A título de ilustração: quando foi inaugurado, em1978, o Parque da Cidade ganhou o nome oficial de Parque Rogério Pithon Farias, em homenagem ao filho do governador Elmo Serejo de Farias, morto em acidente de trânsito. Mais adiante, passou a se chamar Parque Sarah Kubitschek. Por mais merecedora da homenagem que seja a primeira-dama, a cidade ainda assim preferiu chamar a sua mais nobre área de Parque da Cidade. <br>&nbsp;Brasília é o nome mítico dado ao desejo de uma nação de ocupar todo o seu território, de voltar-se para o interior, de perder seu complexo de vira-lata, de mostrar ao mundo que tinha gênio, criatividade e vontade para construir uma nova capital onde o sertão se escondia. Brasília era o nome do destino desenhado no alto das jardineiras que saíam do Sudeste, e da voz dos motoristas dos paus-de-arara que saíam do Nordeste. Brasília era o nome da esperança que moveu a gente brasileira que procurava o futuro, que alimentou os que buscavam prosperidade. <br> <br> <br> <br> <br>Pergunte a um morador do Recanto das Emas onde ele mora. É em Brasília. Quando ele volta pro Nordeste e leva presentes e conta como conseguiu o lote, a casa e o emprego e diz que é amigo do ascensorista do ministério, que já foi no Congresso, já viu o Lula, quando ele conta tudo isso, com o peito inchado de orgulho, ele diz que mora em Brasília.  <br> <br> <br> <br> <br>Brasília é o nome mítico de um território que reinventou o Brasil e que, na letra da lei, se chama Distrito Federal. Mas esse é um nome para os registros oficiais. E uma cidade é mais cidade quanto menos oficial ela for. Brasília é todo o quadradinho, mesmo que ele se chame Distrito Federal.  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48763</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 375px; height: 282px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5bdfbc29fbf7c7c9c3e79bebc7119aa6.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Salvador Dali</font> <br> <br> <br> <br> <br><font size="7">Cuidado com ela</font> <br> <br> <br> <br> <br>Cada novo acordar de manhãzinha é um escapar da morte. Dormir é morrer sem saber. Por isso, o acordar é uma espécie de renascimento. Mas não é apenas abrir os olhos, se lembrar de si mesmo, reconhecer travesseiros, passar a mão nos olhos ou nos cabelos para reencontrar o próprio corpo. Não é identificar o quarto, cumprimentar a claridade onde ela sempre está, isso é só o começo do acordar. <br> <br> <br> <br> <br>O acordar começa, a cada novo dia, quando quem acorda se reconhece em si mesmo e no outro. Nos movimentos do marido na cama, no murmúrio da mulher na cozinha, na silhueta do filho debaixo dos lençóis. Cada um de nós vai acordando, e recomeçando aos poucos, quando reencontra o porteiro do bloco, o moço do balcão da padaria, o zelador da porta da escola do filho, os jornaleiros nos semáforos, os semáforos, os congestionamentos, o recorte dos prédios, os barulhos da cidade acordando.  <br> <br> <br> <br> <br>Acordar a cada dia é mais uma chance que o senhor da vida nos dá de fazer tudo diferente, mesmo fazendo tudo igual. É abrir a página limpa do caderno e começar a escrever tudo de novo, sem ter apagado o escrito de ontem nem se adiantar no escrito de amanhã. Acordar é um movimento de esperança, mas é também um movimento de dor. A realidade veste capa de espião e fica atrás da porta esperando o sono acabar. Ela, a realidade, sabe que os sonhos moram dentro do sono e isso só aumenta a raiva que ela tem dos dois. Realidade se alimenta de dor. <br> <br> <br> <br> <br>A realidade até pensa que é dona do acordar, mas se engana. O acordar é muito mais largo, comprido e profundo que a realidade. O acordar tem dimensões que a realidade não alcança — e isso a deixa irada. A realidade quer ser mais realista que o rei. É certo que o acordar de todo os dias precisa da realidade senão ele continuará dormindo e dormir o tempo inteiro é a morte. Então, o acordar tem de fazer um pacto com a realidade, mas tem de tomar cuidado, porque a realidade é devoradora, ela quer ser dona do acordar, não quer que ele se deixe levar por devaneios e vadiagens em geral.  <br> <br> <br> <br> <br>A realidade exige disciplina férrea do acordar. Mas ele bobo não é. Sempre dá um jeito de escapar durante as horas em que usufrui da vida de olhos abertos. O acordar se distrai lendo propagandas de pacotes de viagens, manda e-mails de saudade pra outros acordares de quem gosta, come chocolate (escondido da realidade), escreve crônicas (a realidade fica por aqui de irritação). <br> <br> <br> <br> <br>O acordar não pode se esquecer do sonho sonhado e do sonho que logo mais vai sonhar. Senão, a realidade o engole, e se isso acontecer ele nunca mais poderá sonhar, nem devanear, nem vadiar. Será todo realidade. E ela, a senhora realidade, sozinha, pura e crua, é insuportável. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Encontro e reencontro]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48660</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="7"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br><div style="text-align: justify;">A<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">inda não havia lido Adriana Lisboa, azar o meu. Foi o Lourenço Flores, um leitor apaixonado e incessante, quem virou minha cabeça na direção da autora. Ontem à noite, comecei a ler <span style="font-style: italic;">Caligrafias</span>. Me espelhei em Adriana Lisboa, sorvi sua delicadeza, me surpreendi com as jóias que ela retira de debaixo das pedras. Encontrei Reencontro, pequena narrativa, como as demais de Caligrafias, dedicada a Brasília. Sorvam-na:</span> <br> <br> <br> <br><img style="width: 441px; height: 283px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/d92e91644a6396c4819dd75cc20ce1ee.jpg"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="5"> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Reencontro</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><span style="font-style: italic;">Adriana Lisboa</span></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>Volto apreensiva para Brasília, trinta anos depois. Talvez Brasília seja só uma fabulação da infância em que eu ouça ecoar palavras sem sentido como superquadra, Eixo Monumental e Gilberto Salomão. (Eu estava aprendendo a falar e minha mãe me exibia para as visitas perguntando: o que a gente vai fazer no Gilberto Salomão: Ao que eu respondia: jogar. Até o dia em que estava apertada para ir ao banheiro e dei uma resposta inesperada.)</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Talvez eu tenha sonhado com as capivaras. Mas e aquela foto? Eu de chapéu, meu pai me abraçando e o bichinho marrom e molhado do outro lado da grade, confraternizando com a gente. Alguém fotografou meu sonho -- conclusão inevitável. Brasília é um lugar imaginário em que assisti a Godspell na televisão com minha irmã, às escondidas. Em Brasília briguei com meu irmão e depois passei o dia inteiro com medo dele. Brasília é um lugar imaginário, onde os sonhos são fotografáveis.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Não sinto vertigem ao olhar pela janela do meu quarto de hotel, no décimo nono andar. Vejo a torre de televisão que é imensa e pequenina como tudo em Brasília. Meu hotel fica em Brasília, em Tóquio ou em Berlim? Os homens engravatados e as mulheres de salto alto não me dão bom-dia no elevador. Todos tratam de negócios pelo celular e se reúnem com pessoas importantes já no café-da-manhã. Porque a vida é urgente. Conterrâneos meus aparecem arrastando chinelos e falando alto a fim de mostrar seus esses chiados. Porque a vida é carioca. Os homens engravatados seguram a porta do elevador aberta para mim. Os cariocas não.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Brasília brinca: tira instantaneamente da cartola uma escola do  <br>Reino Encanto para que eu toque minha infância, mas vou com cautela. Não sei se é a mesma. Daquela outra eu guardo o medo do menino louro e gordinho e a camiseta que a professora pintou para mim. Brasília não me dá respostas. Tudo são sussuros. Não há calçadas para o pedestre e não há rotas para o olhar, que voa feito um pássaro embriagado. Dizem: monumentalidade. Não me abalo. Brasília é uma epifania e é também um suave bocejo feito de coisas pequenas e instantâneas, de cantinhos e surpresas. Paradoxo? Norma. Não existe nada tão falso quanto a suposição da coerência, sobretudo em Brasília.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>Mas continuo sentindo certo medo de que num dado momento as pessoas percam o peso e saiam flutuando por entre os inúmeros céus de Brasília, finalmente e irremediavelmente invadidas pelo espaço. Se eu trouxe perguntas, Brasília, generosa, me deu mais perguntas. Brasília não me devolveu a mim, apenas indicou-me outras (outras eu, outras Brasília), que cabem na mesma fantasia. No pulso, o sangue também lateja hemácias de concreto, poroso, vaporoso, um suspiro sobre o Planalto Central. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48629</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		 <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2"></font><img style="width: 315px; height: 315px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/1d42d5955e7450ebc2d04d9a1cf8f170.jpg"> <br><font size="2">Foto de Edson Beú na Vila Planalto nos anos 80</font> <br> <br> <br> <br> <br><font size="7">A lição da Iza</font> <br> <br> <br> <br> <br>A caminho da Vila Planalto, ontem pela manhã, Eixo Monumental congestionado, eu e o cinegrafista André Corrêa, brasiliense de nascimento, conversávamos sobre a frieza dos moradores do Plano Piloto. André contava que, se o vizinho de apartamento percebe que o morador ao lado está saindo ao mesmo tempo que ele, interrompe o movimento de destrancar a porta e espera que o corredor se esvazie para só então sair. Brasiliense do Plano Piloto não gosta de vizinho. <br> <br> <br> <br> <br>Chegamos à vila quando a dona da casa estava de saída. Dona Iza tinha compromisso para dali a alguns minutos, e o marido, o irrequieto Geraldo, já havia caído no mundo, esquecido de que havia marcado hora com os repórteres. “Ele se esqueceu, pode ter certeza. Vocês tinham de ter me avisado ou ele mesmo, aí eu não o deixava sair”, ela comenta, com um sorriso de quem já se acostumou com a inquietude do marido. <br> <br> <br> <br> <br>Pelo celular, dona Iza localiza o marido. Ele já havia chegado à chácara em São Sebastião. “Você marcou com os repórteres. Eles estão aqui te esperando”. Seu Geraldo queria que fôssemos ao encontro dele, mas decidimos que seria mais prático que ele viesse para a vila. Afinal, iríamos entrevistá-lo sobre a construção de Brasília e os antigos acampamentos das construtoras.&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Foi então que dona Iza tomou uma decisão que me deixou boquiaberta. Ela precisava sair, não havia mais ninguém na casa e ela nos deixou como guardiães de sua propriedade. “Fiquem, a casa é de vocês”, ela nos disse. Entrou, me chamou para dentro da casa e foi me mostrando o café sobre a enorme mesa de madeira da cozinha, como nas casas de fazenda, apontou para a garrafa térmica, para o açucareiro. Abriu a geladeira: “Ó, tem queijo, pode se servir”. E saiu. <br> <br> <br> <br> <br>Alguém haverá de argumentar, como eu me argumentei, que ela sabe quem eu sou, onde trabalho e que se não fosse essa credencial involuntária, esse gesto de confiança não aconteceria. Ainda assim, ainda assim deixar uma estranha em casa e sair é um procedimento surpreendente em tempos tão desconfiados.  <br> <br> <br> <br> <br>Pois então vejam o que aconteceu em seguida: André e eu tomávamos café e comíamos delicioso queijo curado, quando toca o interfone. Olho na tela e vejo um rapaz. Pergunto quem é, ele me avisa que é o limpador da piscina. Desconfiada, indago como é o nome dos donos da casa. Ele ri da pergunta esquisita e responde: “Dona Iza e seu Geraldo”. Decido deixá-lo entrar, menos pela resposta acertada, mais pelo sorriso de quem pensa: “Quem será esta doida?”.  <br> <br> <br> <br> <br>Fabiano, o limpador de piscina, entra, vai direto para o quintal e pouco depois me conta que nasceu na vila, que os pais estão ali há mais de 40 anos, que, menino, desbravava o cerradão e brincava de levantar a poeira. Era assim: as crianças faziam um carrinho com garrafa de Q-Boa e saco de leite. Os meninos amarravam um arame nas duas ponta da garrafa, dobravam o saco de plástico ao meio, no sentido longitudinal, e pregavam uma das extremidades numa das pontas na garrafa. Com um barbante, faziam desse conjunto um carrinho. A garrava girava no chão e uma das pontas do saco de leite levantava a poeira. Era esse o encanto: ver a terra vermelha subindo e deixando vulcãozinhos no cerrado. E tem gente que acha Brasília fria e fecha a porta  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48545</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 318px; height: 323px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/29ef834529ce8992a6cf6d97daaf8277.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><font size="7">O filho de Deusdete</font> <br> <br> <br> <br> <br>O mundo de Deusdete virou de ponta-cabeça. Vou começar do começo. <br> <br> <br> <br>Deusdete, nome fictício para um personagem real, mora em Ceilândia, trabalha em Taguatinga e transita pelo Barulho, aquele bar do Parque da Cidade, às quintas e domingos. Deusdete seria um gay discreto, não fosse o gosto pelas sobrancelhas bem-desenhadas e pelos cílios caprichosamente recurvados. Mora com a mãe, o pai e o irmão numa casa modesta do Riacho Fundo II. Aos 31 anos, já criou uma casca de proteção contra o preconceito de que é vítima. Já não liga para as gracinhas dentro do ônibus, para as piadinhas no serviço e até tinha se acostumado com o fato de o pai não falar com ele havia mais de dez anos, desde que descobriu que o filho gostava de meninos.  <br> <br> <br> <br> <br>Quando fez 30 anos, Deusdete&nbsp; deu um festão. Era dono do próprio nariz, havia conseguido um emprego de técnico em informática num escritório de advocacia, tinha uma turma de amigos e um namorado firme. Já não sentia necessidade de ir pra balada todas as noites. Só duas vezes por semana estava de bom tamanho e sempre acompanhado do namorado. <br> <br> <br> <br> <br>Numa noite em que o namorado não pôde acompanhá-lo, porque tinha entrevista de emprego no dia seguinte, Deusdete pensou em ficar em casa. Só pensou, mas logo decidiu ir pra night, apesar da voz emburrada do bofe. Em vez de ir para o bar de sempre, ele preferiu se encontrar com uma amiga lésbica. E o que era para ser um programa de bate-estaca regado a cerveja se transformou, lá pelas duas da manhã, num surto de desejo entre dois amigos, um gay e uma lésbica. Daquela noite em diante, a vida nunca mais seria a mesma para Deusdete. <br> <br> <br> <br> <br>Nenhum dos dois entendeu o que havia acontecido. Ficou o feito pelo não-feito. Nas quarto semanas seguintes, evitaram de se encontrar, sumiram do orkut e das baladas. Até que Deusdete foi informado que a amiga lésbica estava grávida. E ele era o pai. <br> <br> <br> <br> <br>A terra tremeu na QNN, no Barulho, nas baladas gays, na casa da moça grávida. A notícia fez uma revolução em Deusdete: “Eu? Pai?! Eu vou ser pai??!!”. O espanto que elevou seus pés acima do chão foi sendo substituído vagarosamente por uma plácida felicidade: “Eu vou ser pai, eu quero ser pai”. Desde então, Deusdete teve muito o que fazer: teve de convencer a mãe de que tudo se resolveria, teve de ajudar a namorada da mãe do bebê a perdoar a inexplicável traição e precisou de muita paciência para esperar o namorado se recuperar da infidelidade de Deusdete com uma mulher. “Com uma mulher?!”  <br> <br> <br> <br> <br>O filho de Deusdete já fez um ano. É saudável, tem dobrinhas nas&nbsp; coxas, cabelinho espetado e, toda vez que o pai aparece, abre os braços e leva o corpo em direção a ele. O bebê mora com a mãe e a namorada e tem a vida que pediu a Deus: duas mães, dois pais, quase uma dezena de tios, quatro avós e quatro avôs. Alguns ainda resistem a essa família tão pouco convencional. Deusdete até se aborrece, mas quando se lembra do filho buscando o seu colo , tudo o mais vira uma grande bobagem.  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=48166</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 393px; height: 262px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7ec344b44ca6c01b5d44eebef9103fea.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Belém-Brasília, 1997, foto de Paula Sampaio</font> <br> <br><font size="5">&nbsp; <br></font> <br> <br><font size="7">Na estrada</font> <br> <br> <br> <br>Peguei a estrada nesse domingo, um dos mais belos fios de chão que saem de Brasília rumo aos brasis à norte, a sul, a leste e a oeste. A rodovia que nos leva a Alto Paraíso e Teresina de Goiás, e de lá a Cavalcante ou a Palmas, está maltratada, especialmente no trecho ainda dentro do Distrito Federal. Mas essa não é uma crônica destinada a denunciar os desleixos rodoviários. É uma crônica estradeira. <br> <br> <br> <br> <br>A estrada nos leva de um ponto a outro, mas o melhor dela não está na sua funcionalidade. O melhor da estrada não é nos conduzir ao destino — uma estrada muda o endereço, apressa o futuro, aproxima as geografias, povoa o isolamento. Mas o melhor da estrada é ela mesma. <br> <br> <br> <br> <br>O melhor de viajar de carro é a estrada. Partir de um ponto em direção a outro, vencer retas e curvas, declives e aclives, tendo diante de si o volante e o asfalto é bom em si mesmo e não apenas no fato de que estamos indo ao encontro do destino. Não há passado, nem presente, nem futuro quando se está numa rodovia. As linhas amarelas, pontilhadas ou contínuas alinham o percurso, ordenam a ausência de tempo e de espaço que é viajar de carro. Sigo a linha amarela, e isso é tudo.  <br> <br> <br> <br> <br>Na estrada, o tempo deixa de existir, a realidade bruta e indisfarçável se ausenta, e o destino é o menos importa. O melhor de viajar de carro é a estrada. Ela nos descola do chão implacável da realidade, mas, ao contrário do que faz as drogas, ela não nos atira na perdição -- a estrada é uma linha, não há como se perder.  <br> <br> <br> <br> <br>A estrada dilui o peso da rotina, descansa o raciocínio, liberta o pensamento. A pressa se reduz às quatro rodas. Na estrada, a vida não tem pressa nem vagar. Dirigir na estrada é escapulir do fardo e das delícias do viver. A linha compacta revestindo o chão indisciplinado da Terra nos oferece uma outra experiência de existir. Não há busca nem espera quando se viaja de carro. Não há espanto nem dúvidas, nem sonho nem desejos. Conduzir um carro numa BR ou numa GO ou numa DF ou numa PI ou numa Rota 66 pouco importa a qualidade da rodovia ou o destino que ela nos promete, é uma experiência única e incomparável. A estrada nos conduz a lugar nenhum mesmo nos levando a algum lugar.  <br> <br> <br> <br> <br>A estrada me levou e me trouxe no último fim de semana. Me levou aonde eu queria ir e me trouxe para onde eu precisava voltar. Ter estado aonde eu fui foi muito bom — revi pessoas muito queridas, comi comidas muito gostosas, bebi cervejas muito geladas, me extasiei com uma das mais belas paisagens que o Brasil nos oferece — a Chapada dos Veadeiros. Ter voltado me dá a chance de ir novamente.  <br> <br> <br> <br> <br>Mas o melhor de tudo, de tudo, é sempre a estrada, este estado de não estar em nenhum lugar, de nada querer, de nada esperar, de nada sonhar nem nada avaliar. Dirigir na estrada não se compara com nenhuma outra experiência do existir. É um não-existir existindo. Por isso, se algum dia tudo ficar insuportável, eu pego a estrada. <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47963</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<title><![CDATA[crônica da cidade ]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47730</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/f373dcd1940367341d6021ccac4caeb4.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; color: rgb(102, 102, 102); font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">É frágil, mas é forte</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br>Voltei ao Catetinho ontem pela manhã. Contornei o viaduto, passei pela guarita vazia, cruzei com uma grama malcuidada, o capim alto às margens da estreita pista de acesso ao Palácio de Tábuas e o encontrei em estado de alerta. O barraco modernista está pedindo cuidados, As fachadas laterais e dos fundos estão mofadas, carcomidas, úmidas, feias. O corrimão e os degraus da escada perderam a camada de tinta, e o revestimento que protege o corredor e a escada estão esburacados. A jóia mais delicada e preciosa da história de Brasília necessita de cuidados contínuos e não apenas de reformas sazonais.  <br> <br> <br> <br> <br>Percorro o quarto de Juscelino, o de Israel, a sala de despacho — o sofá cor-de-rosa, em pé de palito, é simples, confortável e elegante. O banheiro presidencial, com piso vermelhão e a cortina de plástico no box, pertence à arquitetura popular brasileira. A cozinha ampla, com um fogão a lenha vermelho e uma prateleira de tábuas presas à parede também foi importada das casas de fazenda do Brasil colonial. Enquanto inventavam uma cidade moderna, Juscelino e os demais habitavam um barraco modernista que misturava mobiliário moderno com objetos do Brasil popular, tradicional, suburbano. <br> <br> <br> <br> <br>Não se ouve mais o grunido das onças que, diz a lenda, ressoava nas madrugadas do tempo da construção, nem o arrulhar do olho d’água que inspirou Vinicius a escrever Água de Beber. Não se sente mais o cheiro do frango com quiabo fumegando no fogão a lenha. A Pirassununga 29 não estala mais na garganta dos arquitetos, dos engenheiros e dos operários. Não há mais lenda, nem sonho, nem loucura nem mesmo o delírio de se imaginar que de uma nova cidade nasceria um novo país. <br> <br> <br> <br> <br>O Catetinho é um retrato na parede. É a reprodução em madeira de um tempo em que sonhar era possível. Um tempo em que a realidade não nos oprimia, em que ela era uma dimensão possível de ser transformada. O Catetinho me faz chorar, porque me vejo envolvida por um momento histórico em que os homens não eram máquinas de ganhar dinheiro. Claro que havia os espertos, sempre haverá, mas o domínio do sentido do que acontecia não pertencia a eles. Espertamente, eles pegavam carona. <br> <br> <br> <br> <br>Não usavam luvas, os homens do Catetinho. Entre eles e a realidade havia apenas a pele sensível do sonho. Também não usavam o frio bisturi dos cirurgiões. Cavavam a superfície da utopia com as próprias unhas, arriscavam-se na loucura de imaginar uma cidade nova para um mundo novo. Erraram? E muito. Mas erraram positivamente, propositivamente. Aqueles homens tinham desejo de mudar o mundo. Os de hoje disfarçam sua indiferença com a falácia da objetividade.  <br> <br> <br> <br> <br>O Catetinho tem a fragilidade das obras de madeira e a força dos grandes gestos. Brasília destruiu quase todo o seu patrimônio de madeira, o que é imperdoável. Deixar o Palácio de Tábuas se dissolver em abandono é um crime hediondo para a memória do país e de quem ainda confia que os homens um dia serão melhores — nem que seja só por um tempo, como foi aquele. <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47616</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 408px; height: 272px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4cd3320a12ffe7fc72ed30081b9faa80.jpg"> <br><font size="5"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><font size="6">Visita aos mortos</font> <br> <br> <br> <br>Tive de ir ao Campo da Esperança, com minhas próprias pernas, graças aos deuses. Não fui a nenhum velório. Não conhecia nenhum dos mortos, outra graça divina que me foi concedida. Foi um assunto de jornalismo que me levou ao cemitério modernista. Havia um estranho movimento na ponta da Asa Sul. São os preparativos para o Finados que se aproxima.  <br> <br> <br> <br> <br>O barulho mal-educado das máquinas cortadoras de grama se superpunha ao doce ruído crocante dos rastelos puxando as folhas secas.&nbsp; Era quase na hora do almoço, logo os trabalhadores do cemitério pararam a faxina no chão que cobre a morte e, sentados nos meios-fios ou nas lápides saboreavam quentinhas fartamente abastecidas com arroz, feijão, uma carne e muita folha verde saltando em franjas das marmitas.  <br> <br> <br> <br> <br>Passados 50 anos do primeiro sepultamento, o de Bernardo Sayão, o Campo da Esperança alcançou o estágio de arborização que Lucio Costa deve ter imaginado quando o planejou. Os planejou, plural do verbo planejar. O urbanista desenhou dois territórios para moradia dos mortos, um na Asa Norte e outro na Sul. (“Os cemitérios localizados nos extremos do eixo rodoviário-residencial evitam aos cortejos a travessia do cento urbano. Terão chão de grama e serão convenientemente arborizados, com sepulturas rasas e lápides singelas, à maneira inglesa, tudo desprovido de qualquer ostentação”).  <br> <br> <br> <br> <br>O Campo da Esperança está longe de ser considerado um cemitério bem-cuidado. Carrega, e faz tempo, um ar de desleixo. Lamentável, porque visto dois palmos acima do chão, é um imenso bosque de árvores maduras — nesta véspera de novembro, as mangas rolam por cima das lápides. A imensidão plana, porém suavemente côncava da área guarda a lembrança de como era a topografia do final da Asa Sul antes de a&nbsp; Asa Sul existir. Do Campo da Esperança se vê os blocos de seis andares do Sudoeste, uma imitação muito malfeita das superquadras. <br> <br> <br> <br> <br>O cemitério do Plano Piloto deveria ser incluído no turismo cívico da cidade. Por ser um campo não apenas santo, mas modernamente santo. Por ser projeto de Lucio Costa e ter à entrada obra de Oscar Niemeyer com azulejos de Athos Bulcão — o Mercado das Flores tão mal-cuidado, engolido pelos puxadinhos improvisados. Por abrigar a primeira lápide de Juscelino, também obra de Niemeyer. Pela Praça dos Pioneiros, pelas lápides que contam a história dos nossos mortos, pelas sombras ao mesmo tempo acolhedoras e solenes das árvores.  <br> <br> <br> <br> <br>Cemitérios convidam à contrição própria das igrejas. Neles, não é a morte que nos recebe. É a cerimônia que os vivos inventaram para marcar a existência de quem já não ocupa mais um chão sobre a terra.&nbsp; Cemitérios reverenciam a vida de quem morreu. Foram inventados para que os vivos não se esqueçam de que a morte nos compõe. O nosso merecia ser cultivado com o desvelo que sua história exige.&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br>&nbsp; <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47267</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e798552da88d2310cd6d29057b0aa22c.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Cartaz do filme de Nando Olival e Fernando Meirelles <br></font> <br> <br> <br><font size="6"> <br>Mulheres admiráveis</font> <br> <br> <br> <br> <br>Quando vim morar em Brasília, ouvia muita gente de bem chamar empregada doméstica de “a brega lá de casa”. Aquilo doía em meus ouvidos, mas silenciava porque naquele tempo queria ser aceita no novo mundo. Como faz muito tempo que não ouço mais a expressão ofensiva, imagino que a onda do politicamente correto serviu, ao menos, para constranger os excessos de quem até então não tinha noção de limites no trato com as diferenças. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Pesquisa recente mostrou que Brasília é a cidade que mais bem paga os serviços da empregada doméstica. A média salarial é de R$ 478, o que ainda é muito pouco, levando-se em conta que estamos na capital de maior renda per capita do país, na ilha dos altos salários do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, do mercado imobiliário, dos executivos, dos empresários da terceirização, etc, etc, etc. <br> <br> <br> <br> <br>O Plano Piloto é a ilha das oportunidades para a legião de moças que sai do Nordeste e do entorno mineiro e goiano para ampliar perspectivas. Admiro-as. E minha admiração tem nome: admiro a Chica, porque ela cuida muito bem dos dois filhos adolescentes, enfrenta um ex-marido violento, e está sempre sorrindo. Admiro a Marlene pela fidelidade que ela tem para com a patroa. Em dias bons e dias ruins, a Marlene está lá. <br> <br> <br> <br> <br>Admiro a Arcelina, analfabeta, empregada de uma casa no Lago Sul há mais de 20 anos, e que resolve todas as pendências do dia a dia: com o jardineiro, com a operadora de telefone, com o chaveiro, o entregador de gás, o limpador de piscina. Sabe quando algum deles está querendo se aproveitar dos patrões, reconhece um enrolão, e sabe se impor. Nas horas vagas (vagas?), Arcelina dá conselhos à patroa que se desespera por qualquer bobagem. Arcelina sabe o que é um problema de verdade. <br> <br> <br> <br> <br>Admiro a Zezé. Tem quase 60 anos (ela não diz a idade) e um vigor de 35. Tem a língua solta, fala tudo o que lhe vêm à cabeça, é ferina que só ela, mas tem uma capacidade invejável de fazer patrimônio. Depois de 40 anos de faxina, Zezé conseguiu comprar três imóveis, duas casas em Santa Maria e um lote em Águas Lindas. Tanto faz se chove ou se faz sol, se a terra treme ou se o dilúvio se anuncia, Zezé está sempre pronta pra luta. Quem a conhece diz que nunca a viu doente ou reclamando de dor.  <br> <br> <br> <br> <br>A Socorro dá um duro danado numa casa do Lago Norte, mas conseguiu concluir o supletivo, fez o curso de enfermagem em Ceilândia, indo e voltando todo dia, e agora estuda para concurso. É firme como um esteio de casa antiga, alegre como as cigarras em véspera de chuva e ao mesmo tempo sabe ser discreta como poucos. <br> <br> <br> <br> <br>E, por último, a Nonô. Mulher à moda antiga, de entregar a toalha e o chinelo ao marido para o banho. De só se servir à mesa depois que todos da família já abasteceram o prato. De ter sempre um cafezinho quente quando se vai visitá-la. Nonô decidiu trabalhar em casa de família depois que os filhos cresceram. Vai e volta todo dia. E deixa no Plano Piloto lições de quem descobriu que o mais importante não se vende nem se compra. Nonô saboreia o simples viver.  <br> <br></div> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[Arquitetura de estranhas formas]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47291</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <img style="width: 137px; height: 386px;" src="../../static/user//18/18744/d341700d851410848d7e7916e436980d.jpg" align="right"> <br><font size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br> <br><img style="width: 246px; height: 329px;" src="../../static/user//18/18744/44494d9b879bdbc9aabd6c5cdf0c782d.jpg"> <br><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Casa Dançante&nbsp;&nbsp;</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;<font size="2"> Torre do Pepino</font> <br> <br> <br> <br>&nbsp; <br> <br>O espanhol <a href="http://www.elpais.com/global/"><span style="font-style: italic;">El Pais</span></a> publica hoje, em sua versão on-line,&nbsp; matéria enumerando dez obras de arquitetura futurista, de formas inusuais, entre as quais aparece o <span style="font-weight: bold;">Museu de Arte Contemporânea de Niteró</span>i, de Oscar Niemeyer, aquele em forma de disco voador. Frank Gehry participa da lista com a <span style="font-weight: bold;">Casa</span> <span style="font-weight: bold;">Dançante</span>, em Praga, que fez com Vlado Milunic, e que ficou conhecido como Ginger e Fred (não é que parece que Fred Astaire está pegando a Ginger Rogers pela cintura?). Também está na lista o <span style="font-weight: bold;">Templo de Loto</span>, em Nova Delhi, um prédio em forma de flor, com 27 pétalas de mármore no teto, obra do iraniano Fariborz Sahba. Cada uma das pétalas representa uma religião. Um outro, mais estranho ainda, é a <span style="font-weight: bold;">Torre de Gherkin</span> (pepino, em inglês), em Londres. Os ingleses veem nele um pepino, os brasileiros veriam um símbolo fálico. A obra é de Norman Foster, arquiteto britânico de 74 anos, da escola moderna de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright.</span>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47205</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 374px; height: 263px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b0975e2af840f690a436d5d349242d4b.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br><font size="7">Os pés e os fantasmas</font> <br> <br> <br> <br> <br>O par de botas pretas, de elástico nas laterais, está inteiro. Não há furos no solado nem no corpo do sapato. É uma botina de roça, comprada em lojas de produtos agropecuários ou em armazéns de cidade pequena. Foi abandonado na calçada e pelo jeito quem o abandonou estava irado: um pé aponta para o asfalto, como quem pretende dar um chute na vida, e o outro, está emborcado, como quem&nbsp; está de costas pra o mundo. <br> <br> <br> <br> <br>Pesquisa empírica de quem gosta de vigiar o que acontece no meio da rua indica que cresceu o número de sapatos abandonados nas vias de Brasília. Pela ordem de frequência de abandono: chinelos de dedo, tênis, sapatos de salto, sandálias de salto, botinas e sapatos sociais.  <br> <br> <br> <br> <br>O que leva alguém a se desvencilhar dos próprios sapatos no meio da rua? Pode-se suspeitar de defeito nos calçados. Um salto quebrado, uma boca de jacaré, um calo insuportável são motivos mais do que justos para alguém preferir enfrentar o destino com a sola dos pés do que com o solado do sapato. Suspeita-se, no entanto, que há razões ainda não explicadas para tanto sapato largado no meio da rua.  <br> <br> <br> <br> <br>Muitos dos que decidem prosseguir descalço na peregrinação insana do viver deve ter desalento maior que um calo no calcanhar. Quem abandona o sapato para tocar o chão pedregoso, ora quente, ora enlameado, com a sola do próprio pé começou a desistir de se querer se igualar à multidão de humanos de pés calçados. Quem, num instante inesperado, larga o chinelo na calçada e continua sua desprotegida caminhada é alguém que se cansou de tentar acompanhar o ritmo dos demais.  <br> <br> <br> <br> <br>Para cada par de sapato largado pelas vias indiferentes e imponentes do Plano Piloto, pelos canteiros centrais, pelos extensos vazios não-urbanizados, pelas poucas, pouquíssimas calçadas, para cada par de chinelo velho que rola feito lixo, há alguém que começou a desistir de sua condição civilizada, entregou os pés à dureza das pedras, à sujeira do chão, à rigidez implacável do asfalto. Talvez queira ficar rude com eles. <br> <br> <br> <br> <br>Já contei aqui que os pés dos moradores de rua têm a datação do período que saíram de casa. Se os pés estão feridos, é sinal de que faz pouco tempo que perambulam pela rua. Se já se formou uma casca na sola e os pés se deformaram, os dedos se abriram, a ossatura se esparramou, é porque já é longa a desnorteada aventura de viver sem paredes e sem janela. <br> <br> <br> <br> <br>Os pés dos sem-terra são assim, como mostra uma foto clássica de Sebastião Salgado. Três pés em chinelo de dedo. Dedos tortos, unhas grossas, pele tingida de sol, pés saindo da camada de borracha. Mas os sem-terra têm destino, concorde-se ou não com os seus propósitos e seus métodos. Os sapatos, chinelos e botinas largados pelas vias de Brasília são rastros de uma gente que não tem para onde ir e já nem se lembra de onde veio. É uma gente fantasma de pés descalços. &nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Pra quem sente saudade das ruas]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47204</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 377px; height: 250px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6ebc97be443fa4840b761f835d0b343b.jpg"> <br><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Leiteiro na Cidade de Goiás </span></font> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><font size="6">Mutações</font> <br> <br> <br> <br> <br>Cora Coralina <br> <br> <br> <br> <br>Muita rua da cidade <br>mudou de nome. <br>Ritintin -- mudou de nome. <br>Chafariz -- mudou de nome. <br>Detraz da Abadia também. <br>Beco virou travessa. <br>Outras, nem nome têm. <br>Rua do Fogo se apagou, <br>nas vielas não se toca. <br>Beco da Morte é pecado. <br>Do Cotovelo é suspeito. <br>Rua Joaquim Rodrigues <br>virou 13 de maio, <br>passou pra Joaquim de Bastos. <br>Não sei onde vai parar <br>tanta mudança de nome. <br> <br> <br> <br> <br>Mudar nome de rua é fácil. <br>Mudar jeito de rua, não. <br>Dar calçamento e limpeza <br>é coisa muito impossível. <br> <br> <br> <br> <br>Só não mudou nome em Goiás <br>o Beco da Vila Rica. <br>Por ser muito pobre e sujo <br>contrário lhe assenta o nome. <br>Se há de ser beco do sujo pobre <br>seja mesmo da Vila Rica <br>com toda sua pobreza.  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47141</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 309px; height: 281px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/00b0e09ba3a354bd817ba9706e0b315d.jpg"> <br> <br> <br><font size="4"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><font size="6">Conversa com João Cabral</font> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br><span style="font-style: italic;">Severino Francisco</span> <br>&nbsp; <br>&nbsp;&nbsp;  <br> <br>No início de 1980, recebi a missão jornalística de entrevistar o poeta João Cabral de Melo Neto, de passagem por Brasília para uma reunião no Itamaraty, pois era diplomata de carreira. Logo recebi a desagradável informação de que ele costumava ser mal-humorado em razão de uma intermitente dor de cabeça. Era um mau presságio. Já narrei neste mesmo espaço, com detalhes, o vexame de não ter conseguido entrevistar Rubem Braga, numa manhã brasiliense.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>Infelizmente, as expectativas pessimistas se confirmaram. João Cabral me recebeu com cordial indiferença e começou a responder as perguntas de maneira meio burocrática. Contudo, tinha razoável intimidade com a sua poesia e logo a conversa desempacou e começou a fluir maravilhosamente.  <br> <br> <br> <br> <br>Me lembro que ele contou que antes de ler Carlos Drummond de Andrade achava a poesia algo para gente afeminada. Só teve a revelação que poderia ser um poeta ou um antipoeta depois de ler a poesia torta, gaguejada e fragmentada de Drummond. Ali, vislumbrou a possibilidade de fazer uma poesia macha, tesa, com língua de punhal, pedra, cacto e fuzil. <br> <br> <br> <br> <br>Quando eu já havia desligado o gravador e estava do lado de fora do apartamento, prestes a entrar no elevador, João disse que tinha gostado de conversar comigo. Aquele sinal de simpatia ou empatia me animou a contar a ele uma experiência de viajar de ônibus, pelo sertão de Pernambuco, na década de 1980, lendo um volume das suas obras completas.  <br> <br> <br> <br> <br>Era impressionante: mirava a paisagem e não conseguia dissociá-la da poesia de João Cabral: a vegetação “aberta em unhas e sabres”, o sol-fuzil, sol-cangaceiro,&nbsp; de dois tiros repetidos “incendiando a terra: tiro de inimigo” ,&nbsp; a natureza da cabra e do nordestino fundidas (“A cabra deu ao nordestino/Um esqueleto mais de dentro/O aço do osso/Que resiste quando o aço perde o seu cimento”. <br> <br> <br> <br> <br>Tive a vaga impressão de que a minha narrativa causou algum impacto no poeta e que seus olhos ameaçaram marejar. Mas, não, João era cabra macho, isso de se comover era para o Vinicius de Moraes. Três meses depois, estava lendo uma longa entrevista de João concedida a revista 34 Letras e, quando alguém perguntou sobre a relação da poesia dele com a paisagem, o poeta evocou a parte final de nossa conversa em Brasília, na porta do elevador.  <br> <br> <br> <br> <br>Disse que ficou intensamente tocado com o relato de minha viagem pelo sertão lendo a poesia dele e que, na verdade, aquele havia sido o maior elogio que recebera em sua vida. Depois de ler o seu depoimento, me lembrei que ele havia me dito também na porta do elevador uma frase enigmática: “Parabéns por se chamar Severino”. Era um antielogio com língua de mandacaru, a palo seco, elogio de João Cabral. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47089</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 325px; height: 280px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/286b477d3b9a3351c32a64d0293c678a.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="3"><font size="2">Martin Luther King</font> <br> <br> <br> <br><font size="7"> <br>Sonhar era permitido</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br>A contagem regressiva para os 50 anos de Brasília não me anima para a festa. Me enche de nostalgia daquilo que não vivi. Por ora, prefiro entrar na máquina do tempo e pedir a ela que me leve àqueles inacreditáveis três anos e meio que antecederam o 21 de abril de 1960. Enquanto um vulcão de poeira entrava em erupção no cerrado a nordeste de Goiás, o restante do Brasil e o mundo viviam um tempo que prenunciava os tremores dos anos 60.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto os candangos começavam a mudar a topografia do terreno para nele assentar uma cidade, a União Soviética lançava ao espaço os dois primeiros satélites construído pelos homem, o Sputinik 1, e o Sputinik 2.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto os Caterpillars abriam trilhas que levavam da Cidade Livre aos canteiros de obras no Plano Piloto, o americano Jack Kerouac lançava On The Road (Pé na Estrada), livro que fundou a geração beatnik, embrião do movimento hippie. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto milhares de operários atravessavam o dia e a noite revirando areia, brita, cimento e água e nos domingos de folga subiam em caminhões apressados rumo à ZBM da Cidade Livre, Nelson Rodrigues escandalizava o Rio de Janeiro com a montagem de Os sete gatinhos, peça que contava a história de um pai que mantém relações incestuosas com a caçula das três filhas e que decide transformar casa num prostíbulo e passa a ser o cafetão do empreendimento. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto as candangas lavavam roupas na beira dos córregos, sentadas num banquinho de madeira, para escapar das cobras, as mulheres europeias e norte-americanas começavam a usar a pílula anticoncepcional e a se encantar com os tecidos sintéticos que marcavam as curvas de Marylin Monroe. <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto Tom e Vinicius se exilavam no Catetinho, para compor a Sinfonia da Alvorada, devidamente acompanhados de fartas doses de mulheres e uísques, Elvis Presley batia recordes de audiência em programas de TV, e em São Paulo Jânio Quadros proibia que se tocasse rock and roll nos bailes paulistanos. <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto os operários do Congresso Nacional marcavam com estacas o terreno vermelho em frente às obras para a pelada da hora do almoço, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo traziam para o Brasil, pela primeira das cinco vezes a taça Jules Rimet. <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto um brasileiro com simpatias socialistas e o outro vivamente comunista projetavam uma cidade para demarcar a fundação de um novo Brasil, mais confiante, menos desigual, e mais integrado, o Papa João 22 proibia os católicos de votarem nos comunistas.  <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto o Brasil conquistava vastas extensões de seu território, regiões até então desconhecidas, os revolucionários de Sierra Maestra dominavam Cuba e expulsavam Fulgêncio Batista.  <br> <br> <br> <br> <br>Enquanto Lucio Costa traçava a utopia na terra cor de ferrugem no centro de um país continental, Martin Luther King anunciava, em outro país continental: “Eu tenho um sonho”.  <br> <br> <br> <br></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Arquitetura e paisagem]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47069</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 358px; height: 262px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b8a760601f22077174fa586754ee0d61.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">A obra premiada</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br>A arquitetura parece que, finalmente, está preocupada com o meio ambiente. O prêmio FAD de Arquitetura, Cidade e Paisagem, da Espanha, reconheceu o trabalho de um jovem arquiteto português, João Maria Trindade na Estação Biológica de Garducho, em Mourão, Portugual. A obra moderna muito se parece com a arquitetura de Brasília, mas lá o arquiteto levou em conta a paisagem. A obra, diz o presidnete do júri, Arcadi Pla, “se converte numa espécie de árvore de onde se pode observar e ao mesmo tempo acolher a natureza”. A 51ª edição do prêmio FAB avaliou 522 obras, das quais 27 foram finalistas. “Foi uma seleção muito reduzida, disse Pla ao jornal El Pais (www.elpais.com), mas ela reflete o que está acontecendo agora. A seleção vislumbra aonde irá a arquitetura do futuro”.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47048</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 251px; height: 287px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/be77cd74e418c11cb98fbd7b70ae5704.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Carlos Gardel, superlativo, hiperbólico</font> <br> <br> <br> <br> <br><font size="7">O tango da gramática</font> <br> <br> <br> <br> <br>Declaro a quem interessar possa que sou vidrada num adjetivo. Se um meteoro caísse sobre o vernáculo e extinguisse a espécie, eu morreria de tédio. Aprendi na escola que o bom jornalismo se faz sem adjetivo , noção que pouco a pouco vem se dissolvendo em nome de um relato mais vivo dos fatos. Nos tempos em que o adjetivo era maltratado nas redações, até tentei me comportar, mas nunca deixei de disfarçadamente tascar um adjetivozinho no texto.  <br> <br> <br> <br> <br>Os inimigos do adjetivo argumentam que ele é laudatório, ilusório, peremptório, que facilita a vida de quem dele lança mão. A descrição de fatos, circunstâncias, objetos e até de emoções, a descrição feita com o dicionário da razão e do conhecimento produziria matéria mais refinada. Disso não posso discordar inteiramente, mas vivo tentada à desobediência. Sorte minha é que a crônica é uma casa onde adjetivos se sentem muito à vontade.  <br> <br> <br> <br> <br>O adjetivo é o tango da gramática. Se bem escolhido e bem aplicado, ele esquenta a frase sem dela tirar a qualidade. Ele injeta vigor à descrição. Diz ao leitor que, do outro lado, estava um ser humano apurando, testemunhando, relatando histórias de outros humanos. O adjetivo atribui qualidade, estado ou modo de ser ao substantivo. O adjetivo convida o substantivo para dançar, flexiona-o pela cintura e quebra a sisudez de quem veio ao mundo para dar nome aos bois.  <br> <br> <br> <br> <br>O substantivo nasceu para expressar “unicamente e sem reforço de outra, a substância [daquilo que se pretende nomear]”, define o Houaiss. O adjetivo veio alegrar o substantivo, tirá-lo da solidão inevitável de quem tem o duro ofício de nomear o real. O adjetivo foi inventado para modificar o substantivo, para acrescentar qualidade à sua vida, tirá-lo da aridez desértica da realidade.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Uma fruta é só uma fruta e não é pouca coisa. Mas ponha um adjetivo ao lado dela e ela passará a ter um valor específico, não será apenas uma fruta qualquer. Será entregue ao mundo dos sabores, das paixões, dos gostos inesquecíveis. Fruta doce: um substantivo muito bem acompanhado por um adjetivo. De uma fruta até posso não me esquecer, mas de uma fruta doce dificilmente me esquecerei. O risco do adjetivo é que ele é facinho, facinho. Se usado excessiva e indevidamente vulgariza a narrativa&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>Quem gosta de adjetivo não resiste a um superlativo. Fruta dulcíssima: um substantivo seduzido por um superlativo. Me contenho para não usá-lo desabridamente. Se pudesse, superlativizava tudo o que merece ser superlativizado. O superlativo é o primo exagerado do adjetivo. Nele nada é morno, tudo é excessivamente excessivo.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>E as hipérboles? Elas são a expressão máxima do exagero: “Estou morrendo de medo”; “Já chorei rios de lágrimas”; “Estou atravessando um mar de dificuldades”; “Estou pra estourar de tanta raiva”.  <br> <br> <br> <br> <br>Adjetivos, superlativos e hipérboles emprestam&nbsp; qualidade, cor, sabor, forma, tamanho, intensidade a tudo aquilo que é nomeado, tiram a vida de seu estado de rigidez substantiva. São exagerados, como nós, os brasileiros.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=47000</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 252px; height: 344px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/88c17deecdee00f5d68fecb7a5be8aee.jpg">  <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Foto retirada de jorgeamadoespecial.blogspot.com</font>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br><font size="6">A Brasília da Simone</font>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Descubro uma foto de Oscar Niemeyer ao lado de Simone de Beauvoir, Sartre, Jorge Amado e um personagem que não consegui identificar. Niemeyer aponta para a frente. Ao fundo, uma das colunas do Palácio do Planalto. À esquerda do arquiteto, dona Simone num vestido listrado, acinturado, de mangas compridas (no calor de um setembro candango), colar e um lenço contendo os cabelos. Do seu lado direito, muito atento ao que Niemeyer diz, o marido de dona Simone. Jorge Amado e um personagem não-identificado completa o grupo.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Como manda a boa educação, o casal elogiou a arquitetura de Niemeyer nas declarações aos jornais. Só alguns anos depois, num livro autobiográfico (Sob o signo da história, publicado no Brasil pela Nova Fronteira, edição esgotada), ela contaria publicamente as impressões que Brasília lhe causaram. Sobre o arquiteto, ela comentou que ele morava “nas alturas, em uma mansão, obra sua, que mais parecia uma escultura abstrata do que uma casa: um telhado cobria o terraço e o estúdio abria-se inteiramente, sob o céu”. [Simone refere-se à Casa das Canoas, no Rio, uma jóia da arquitetura moderna, porém, um lugar pouco confortável para se morar]. Simone gostou da pessoa Niemeyer: “Ofereceu-nos gim tônica e conversamos como se nos conhecêssemos há muito tempo”.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>De Brasília, teve as piores impressões. “Uma maquete em tamanho natural. Essa falta de humanidade salta logo aos olhos… Só se pode circular de automóvel… A rua, esse lugar de encontro entre moradores e turistas, lojas e residências, sempre imprevista — a rua, tão cativante em Chicago, como no Rio, por vezes deserta e sonhadora, mas cujo silêncio é vivo. A rua em Brasília não existe nem existirá.” Comentou que a cidade era chão fértil para a especulação imobiliária. Dito e feito.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Encontrou vida na Cidade Livre: “A impressão é a de uma cidade do faroeste… A calçada é uma confusão; pisam-nos os pés, a poeira a avermelha nossos sapatos, entra em nossos ouvidos, irrita nossas narinas, arranha nossos olhos, o sol nos castiga. No entanto, nos sentimos felizes, porque nos reencontramos na terra dos homens”.  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>  <br>Finalmente, lança a espada existencialista sobre um dos mais longamente cultivados sonhos brasileiros: “Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante”. <br> <br> <br> <br> <br>&nbsp; <br>Não se pode dizer que Simone de Beauvoir tenha cometido alguma desonestidade intelectual em seu relato. Ela descreve uma Brasília real — sem ruas, artificial e muito cara para um país pobre. Mas não conseguiu enxergar naquela loucura (santa loucura!) o gesto brasileiro de ocupação do território, de afirmação de competência e criatividade. Dona Simone não conseguiu escutar Brasília com o coração dos brasileiros que a construíram e dos que por tanto tempo com ela sonharam.   <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46918</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 417px; height: 233px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/8bb00ec73f6b9298af56f8964347050c.jpg"> <br><img style="width: 294px; height: 221px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/630b54ed31190ad57c40079bd2393cf4.jpg"> <br><font size="4"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="6"> <br> <br>O susto do amigo</font> <br> <br> <br> <br> <br>Querido amigo&nbsp; foi atropelado numa rua da cidade de La Coruña, na costa noroeste da&nbsp; Espanha.&nbsp; Num&nbsp; final de tarde do domingo passado, ele tentava atravessar a rua em frente ao hotel quando foi atingido por um carro. Resultado: seis costelas fraturadas. Querido amigo não quer que eu revele o nome dele, pra não ter de ouvir trocentas vezes a mesma pergunta: como foi que aconteceu? Mas me autorizou a contar a história. <br> <br> <br> <br> <br>Aconteceu assim: ele e um companheiro de viagem começaram a travessia de uma rua estreita e de mão dupla. O parceiro chegou do outro lado, mas o querido amigo não conseguiu alcançar o meio-fio da outra margem. Querido amigo não sabia que naquela rua estreitíssima os carros podiam ir e vir. Ele nem se lembrava mais que existiam ruas, ruas estreitas e ruas estreitas de mão dupla. <br> <br> <br> <br> <br>Querido amigo é um candango que aqui chegou na década de 70. Era um jovem estudante universitário diante de um clarão de cidade. Brasília daqueles anos era uma extensa sucessão de vias muito largas, sem semáforos nem cruzamentos. Um autorama, como diz Jaguar. Uma maquete em tamanho real com uma rarefeita densidade demográfica. <br> <br> <br> <br>La Coruña tem uma das mais altas densidades populacionais da Espanha. São 245 mil habitantes, menos que a população do Plano Piloto, mas num território de 37 km2. Mas a região metropolitana abriga 615 mil habitantes. A escassez de terra transformou La Coruña numa das cidades mais verticais da Espanha.  <br> <br> <br> <br> <br>Casa em cima, carro embaixo. Só que o querido amigo candango não está acostumado com ruas estreitas e de mão dupla. Há 40 anos que ele transita, de carro, por amplas vias de velocidade, de sucessivas faixas numa mão só e um canteiro central separando a mão da contramão. Querido amigo vive numa cidade que há mais de dez anos aprendeu a respeitar a faixa de pedestre. Como a maioria de nós, meu querido amigo entra no carro, estaciona, desce do carro. Caminhadas só de manhazinha ou à noitinha no parque ou na esteira. <br> <br> <br> <br> <br>Querido amigo é um brasiliense e o hábito da cidade moderna deixa as pernas tortas. Brasiliense se esquece de que vive numa exceção de cidade, que Brasília foi uma experimentação de urbanismo e arquitetura que pretendia ordenar ao extremo o modo de vida urbano para facilitar a convivência da multidão. Brasiliense se esquece de que via é via e rua é rua. Via é um caminho que liga um ponto a outro ponto. Objetivo e ordenado assim. Rua é um caminho cujas margens são ocupadas por múltiplos pontos. A rua tem muitos sentidos, a via um só. A rua tem perigos à direita e à esquerda e meu querido amigo é tão brasiliense que nem mais se lembrava disso. <br> <br> <br> <br> <br>Meu querido amigo está bem. Ontem pela manhã já estava andando e conversando. Continua internado num hospital de La Coruña porque os médicos consideraram que uma viagem tão longa de avião ainda não é recomendável. Ele está aliviado porque poderia ter sido muito pior. Agradece aos céus. E está louco pra voltar pra debaixo do céu de Brasília. <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA["Estou puto da vida"]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46908</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/45f8a12e2736347599b449e94cb037f6.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="2"><span style="color: rgb(102, 102, 102);">Niemeyer em seu escritório em Copacabana.  <br>Ao fundo, a célebre fotos de&nbsp; duas mulheres nuas </span> <br></font></div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Além de arquiteto, urbanista, moveleiro, artista plástico, boêmio e namorador, Oscar Niemeyer também é poeta. Nos anos de chumbo, projetando suas obras fora do Brasil, o arquiteto escreveu esse poeminha de raiva e saudade. O arquiteto das curvas e do concreto continua internado no CTI do Hospital Samaritano, no Rio. &nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Estou longe de tudo <br>de tudo que gosto, <br>dessa terra tão linda <br>que me viu nascer. <br> <br> <br> <br> <br>Um dia eu me queimo, <br>meto o pé na estrada, <br>é aí, no Brasil, <br>que eu quero viver. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Cada um no seu canto, <br>cada um no seu teto, <br>a brincar com os amigos, <br>vendo o tempo correr. <br> <br> <br> <br> <br>Quero olhar as estrelas, <br>quero sentir a vida, <br>é aí, no Brasil, <br>que eu quero viver. <br> <br> <br> <br> <br>Estou puto da vida, <br>esta gripe não passa, <br>de ouvir tanta besteira <br>não me posso conter. <br> <br> <br> <br> <br>Um dia me queimo, <br>e largo isto tudo, <br>é aí, no Brasil, <br>que eu quero viver. <br> <br> <br> <br> <br>Isto aqui não me serve, <br>não me serve de nada, <br>a decisão está tomada, <br>ninguém vai me deter. <br> <br> <br> <br> <br>Quer se foda o trabalho, <br>e este mundo de merda, <br>é aí, no Brasil, <br>que eu quero viver.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46782</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 381px; height: 249px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5d3e9df88c67f44900ce52672c95b6bb.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Uma cigarra no Plano Piloto, em foto do Iano Andrade em 2005</font> <br> <br> <br> <br><font size="7"> <br>Cadê elas?</font> <br> <br> <br> <br> <br>Perguntei a poetas, paisagista, zoólogos, crianças, adultos, cadê as cigarras e de todos ouvi um silêncio indagador — cadê as cigarras? Há dois anos, eu já sabia que elas estavam de partida. Ozanan Coelho , então diretor de Parques e Jardins havia prenunciado a despedida das cantoras que sobem ao mais alto da copa das árvores para seu espetáculo altissonante. Ele dizia, àquele tempo, que com a morte das árvores exóticas, plantadas no começo de Brasília, as cigarras perderiam suas hospedeiras e, sem lugar para ancorar seu canto e sua casca elas desapareceriam da cidade. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Tem gente que deve estar achando o maior bom, mas conheço quem não está gostando nada do sumiço das cigarras. Essa que vos escreve, por exemplo. A poeta Dora Duarte também. Autora de Cigarras de Agosto, ela me desmentiu: as cigarras estão por aí, sim, não mais com a euforia de antigamente. Preste atenção e ainda ouvirá a música que exala das árvores. Dora já ouviu o canto das cigarras nos jardins da UnB, onde ela trabalha, e na Avenida das Nações, por onde passa todos os dias.  <br> <br> <br> <br> <br>Mas observou que este ano não tem sido igual àqueles do canto estridente, quase feroz, dos estranhos insetos que passam boa parte da vida debaixo da terra e quando saem abandonam a casca e vivem de cantar.  <br> <br> <br> <br> <br>Outro poeta, o Nicolas Behr, ainda não ouviu o canto fino, sibilante, insistente, mal-educado e tão característico das superquadras em véspera de chuva. Raimundo Cordeiro, paisagista da Novacap, também se deu conta de que as cigarras resolveram abandonar o Plano Piloto. Dois zoólogos da UnB estranharam o silêncio inesperado de setembro antes da chuva. Mas o rigor científico os impede de especular as razões pelas quais elas deram chá de sumiço. Pode ser, arrisca um, efeito da degradação ambiental ou da mudança climática. <br> <br> <br> <br> <br>Tentei entrevistar Paulo Faria, um artista plástico que dedicou um mestrado a fazer um paralelo entre a vida e o canto das cigarras do cerrado com a obra de arte, mas não o encontrei. Em <span style="font-style: italic;">Memória da Chuva</span>, defendido no departamento de artes visuais da UnB, ele conta que quando criança adorava inventar histórias debaixo das árvores. Até que um dia ouviu um canto "que ficava cada vez mais alto". Logo em seguida, ele ouviu outro canto, mais grave e fechado: era a chuva que chegava.  <br> <br> <br> <br> <br>Mais tarde, o menino Paulo viu um bicho saindo de dentro de uma casca. O pai lhe disse que era uma cigarra, o mesmo bicho que cantava tão desarvoradamente nas vésperas de chuva depois de grande estiagem. “Fiquei estarrecido como no dia da chuva e senti um princípio de terror ao ter descoberto um mistério que, de tão grande, não cabia em mim”. <br> <br> <br> <br> <br>A cigarra também parece ser um tipo que não cabe em si mesma. Tudo nela é exagerado, desbragado. Nasce e se enfurna na terra por até 17 anos, sai da casca e os machos cantam desarvordamente para atrair as fêmeas. É um canto de amor, mas tem gente que não gosta. Eu, a Dora, o Nicolas e mais um punhado já sente falta <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Casas feitas de lixo]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46779</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 397px; height: 265px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7c96cae72546d7fe8efad3a7cdc02f6f.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify;"><font size="7"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">&nbsp; </span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">O ex-instrutor de dança Dan Phillips, 64 anos, sabe que, com o lixo, se pode construir uma casa. Ele sabe e prova. O americano do Texas, ex-oficial de inteligência do Exército e ex-negociante de antiguidades, entre outras estranhas atividades, dedica-se agora a construir casas com material reciclado. Já fez um telhado com placas de carro, janelas de travessas de cristal, forro do teto com cantos de molduras (“uma loja ia se livrar de amostras velhas e eu estava lá à espera). Há doze anos, Dan Phillips hipotecou sua casa e começou um novo empreendimento, uma companhia de construção de casas populares feitas com reciclagem em sua cidade natal, Huntsville. Ele diz que 80% das casas que já construiu foram feitos com entulhos de material de construção, objetos retirados do lixo ou apanhados na beira das estradas</span>. <br></div> <br> <br> <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/ad31b98a10356e96680075c582a8037e.jpg"> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46733</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/555e723fac3466c363775e73681c134f.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="3"> <br> <br> <br><font size="6">Fé na vida</font> <br> <br> <br> <br> <br>Os brasilienses aqui nascidos já são um milhão e 154 mil, mas ainda são poucos os que se casam entre si. De uma lista de 99 casamentos anunciados em edital de proclamas publicado no Diário Oficial da Justiça, em 14 de setembro passado, apenas 19 são entre nascidos em Brasília, 20% deles, pra quem gosta de um percentual.  <br> <br> <br> <br> <br>Casar é um modo de expressar a fé na vida. Se os obituários nos avisam que mais dia, menos dia, tudo acaba, os editais de proclamas evocam o futuro, projetam a dois um caminho até então solitário. Avisam a todos quantos queriam saber (e a quem tiver algo que impeça este matrimônio) que o brasiliense Gleyanderson, de 23 anos, vai se casar com a também brasiliense Vivian, de 22. <br>Também procuraram o cartório os brasilienses Luciano, de 34, e Vanderlucia, de 31. O eletricista Jhógenes pretende juntar os trapos com a secretária Lucele. O músico Rafael e a estudante Leilane, brasilienses, também estão dispostos a contrair matrimônio. <br> <br> <br> <br> <br>Quem também está de data marcada é o taxista Diogo e a psicóloga Aline, brasilienses de nascimento. O funcionário público Fábio e a professora Renata são nascidos em Brasília e pretendem comer do mesmo sal. Também vão morar sob o mesmo teto: D’nniel, nascido em Planaltina com Danila, nascida em Sobradinho. Os noivos têm 19 anos. <br> <br> <br> <br> <br>Mais brasilienses de data marcada: Rafael vai se casar com a Angélica; Sanderson com a Daniele, Thiago com a Daniele, Adriano com a Joelma, Marco com a Niliane, Alex com a Sônia, Heber com a Mariana e Filipe com a Kayanne. Caso queiram, eles terão filhos brasilienses. Os filhos dos filhos de uma cidade que atraiu todos os brasis. <br> <br> <br> <br> <br>O edital de proclamas, obrigatoriamente publicado no Diário Oficial de Justiça, reflete mudanças de comportamento. Uma delas: noivas mais velhas que os noivos. É o caso da gerente de loja Elisandra, de 30 anos, que marcou casamento com o pintor Sandoval, de 23. Ou de Dalcira, 36, que vai se casar com Carlos, 29. <br> <br> <br> <br> <br>Casa-se cada vez mais tarde. Na lista de 99 casamentos, são poucos os noivos com menos de 25 anos. Pra quem acha que passou a hora, vejam o caso de Paulo e Gildene. Ele é solteiro, tem 42 anos, é zelador. Ela também é solteira, é auxiliar de serviços gerais e tem 35 anos. Vão se casar. <br> <br> <br> <br> <br>A se tirar pelo edital de proclamas, os pobres estão se casando mais do que os ricos. Exceto um médico que vai se casar com uma fonoaudióloga, um empresário com uma fisioterapeuta, e de alguns servidores públicos casando-se entre si, toda a lista é de operários de baixos salários. O pedreiro que vai se casar com a doméstica, o segurança com a operadora de caixa, o porteiro com a cabeleireira, o cozinheiro com a caixa, o auxiliar de serviços gerais com a diarista. Quando a vida é difícil, de dois parece mais fácil.  <br></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[A Catedral de antes e de agora ]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46722</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4262c02c635424f550d8de742fe4847d.jpg"> <br> <br> <br><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">A Catedral está em reforma. Os vitrais de Marianne Peretti, estrilhaçados pelo calor, estão sendo retirados para serem substituídos , mas enquanto os novos não veem, a Catedral recuperou a beleza nua de antes. A foto em preto-e-branco é de 1977, de quando a Catedral não tinha cor nem vitrais. Agora, ela tem cor, vitral e foi ofuscada (quase engolida) pelo Museu da República. Ao fundo, a Ponte JK, bem bonita, mas daquela beleza de quem quis aparecer mais do que a noiva.  <br></div> <br> <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/2eb473111fb92e04acd46505098e2c36.jpg"> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46577</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7b5aa3a43d6e5ba01969f41ed9b35feb.jpg"> <br><font size="4"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="3"> <br> <br> <br><font size="7"> <br>Setor Metrô</font> <br> <br> <br> <br> <br>Metrôs são a representação mais evidente de que uma cidade virou metrópole. Sem a invenção do metrô, muitas delas já teriam explodido. Quando o habitante de uma grande capital mergulha num metrô&nbsp; ele sabe que seu direito de ir e vir está assegurado. Metrôs são a nave espacial do cidadão comum. O trem apressado que fura a terra nos faz experimentar a sensação de que um super-herói da Liga da Justiça está sentado na cadeira do maquinista.&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>O metrô é também um reencontro com a multiplicidade de tipos que compõem uma metrópole. Se eu for a São Paulo e não andar de metrô me sinto como se tivesse ido ao Rio e não tivesse tido tempo de pôr o pé na areia ou de ter dado uma voltinha no calçadão. Os tipos que entram e sai do trem compõem uma galeria de humanidades. No maior metrô do Brasil, não se vê apenas o paulistano de paletó e gravata ou de terninho/meia/sapato preto. O paulistano-executivo desaparece numa incrível diversidade paulistana — diversidade brasileira.  <br> <br> <br> <br> <br>Fazia uns dois anos que eu não andava no metrô brasiliense em longo percurso, da Rodoviária ao último terminal de Semambaia. Peguei a linha contrária à da horário de rush. Enquanto eu ia pra Samambaia, os usuários vinham para o Plano — eram oito da manhã. Quem anda de metrô tem reclamado da superlotação nas horas críticas. Nessa segunda-feira, eles estavam medianamente cheios. Deu para perceber que o metrô mistura os brasilienses. A classe média anda de metrô e o q ue mais me chamou&nbsp; a atenção foi a quantidade de passageiros lendo livros, revistas, jornais, apostilas. Em pé, sentados, dentro do vagão ou nas estações.  <br> <br> <br> <br> <br>O percurso Rodoviária do Plano/Terminal de Semambaia resume, de certo modo, o que é Brasília. Quando os vagões saem do chão e chegam ao Terminal da Asa Sul, são recebidos por uma grande área de cerrado (um enorme pequizeiro cumprimenta os passageiros). Em seguida, vem a estação do ParkShopping. A próxima é a da Feira do Guará, mas antes e depois dela o que se vê são barracos protegidos por grandes pomares, dos quais se sobressai um generoso bananal. Adiante, um ex-lixão que ainda não foi de todo extinto. No meio da terra ainda coberta de destroços urbanos há um solitário barraco de madeirite. <br> <br> <br> <br> <br>De repente, Brasília se transforma na anti-Brasília. Surge Águas Claras, um paliteiro que não para de crescer e com palitos cada vez mais próximos uns dos outros. Há espigões quase grudados na linha do trem. Alguns prédios de Águas Claras praticam o exercício diário da invasão de privacidade. Janelas abertas para outras janelas e fechadas para o horizonte. A linha para Samambaia passa por apenas uma estação de Taguatinga, a Sul. <br> <br> <br> <br> <br> <br>É quando surge o Setor Metrô:&nbsp; prédios de apartamentos e casas construídos nas proximidades das estações. Não seria de outro modo. Mas não precisava ser exatamente desse modo: moradias grudadas na linha de trem. De dentro do vagão dá pra ver a mobília dos apartamentos. A cidade planejada, de amplos espaços vazios, se encosta no metrô como os viadutos cortam prédios antigos de São Paulo. Lá, é fácil entender: o metrô chegou depois. Mas aqui, a única explicação é a de sempre: a&nbsp; voracidade do mercado imobiliário. <br>&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br></font></div> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[As cores da capela do Alvorada]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46556</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">A foto de antes</span> <br><img style="width: 340px; height: 265px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/ebbf15e90fa4175587f4338ca7e28930.jpg"> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br>O arquiteto Rogério Carvalho, responsável pela restauração da Capela do Alvorada e da Igrejinha, corrige uma foto publicada neste blog há alguns dias. Rogério me alerta: a foto era de antes de a capela ter sido restaurada. O arquiteto conta que o governo atual foi “o primeiro em muitos governos que permitiu livre acesso ao Alvorada para que o Iphan pudesse trabalhar de maneira tranquila”. Quando se chegou ao teto da capela, apareceu uma dúvida. Rogério diz que desconfiou de que a pintura que havia ali não correspondia às características da obra de Athos. O arquiteto procurou Valéria Cabral, secretária executiva da Fundação Athos Bulcão, e relatou sua dúvida. Valéria encontrou o original do artista e então constatou que a cor era “completamente diferente” daquela que estava no teto da capela. “Valéria consultou o próprio Athos, poucos dias antes de sua morte, e ele, naquele jeito singelo de sempre, disse:  <br> <br> <br> <br> <br>— Minha filha, isso não é meu, apontando para a foto do que o Iphan havia encontrado na capela. Valéria mostrou a&nbsp; Athos o estudo de 1959 e ele confirmou:  <br> <br> <br> <br> <br>— Esse é o meu trabalho, temos que modificar algumas cores.&nbsp; Rogério conta que o próprio Athos decidiu quais cores seriam inseridas no teto da capela. A foto acima foi retirada do livro Athos Bulcão e corresponde ao teto restaurado com a interferência do próprio artista.&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br> <br> <br> <br><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">A foto de agora</span> <br><img style="width: 271px; height: 375px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/9f1049dd55176e089c1426e7ee25dffb.jpg">  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46495</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/tv/avatar?a=/18/18744"/>
		<img style="width: 299px; height: 298px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/341feee185f7304af3d01fc97098b7c1.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Os primeiros tempos de Brasília. Foto do Arquivo <br>Público do DF restaurada por Lina Kim e Michael Wesely</font> <br> <br> <br><span style="font-style: italic; font-weight: bold;"></span> <br></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="7">Cidade espacial</font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">Severino Francisco</span></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><span style="font-style: italic; font-weight: bold;"></span></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font>Mostrei o famoso texto que Clarice Lispector escreveu sobre Brasília a uma  adolescente e, depois de algumas linhas de leitura, ela perguntou: "Que droga  esta mulher tomou para escrever tanta loucura ao mesmo tempo?". Mas Clarice já  era lisérgica, não precisava ingerir nenhuma droga para que a sua imaginação  decolasse. Em Brasília, ela não tomou nada; foi tomada pela espacialidade do  planalto. Brasília dá vertigem. De qualquer lugar que você estiver, reponta o  céu escancarado, é uma cidade espacial. E sob certa luz passa a impressão de ser  de outro planeta ou até de outro mundo. Isso faz de Brasília uma cidade  metafísica, aberta, cinematográfica, de grandes planos gerais.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font>Os moradores de outras cidades litorâneas procuram as esquinas, os botecos ou  a praia e não encontram nenhuma referência tradicional. O céu permanentemente  aberto e em movimento de nuvens imprime a estranha sensação da presença e da  iminência do mar. O sertão vai virar mar ou vai virar marte? A espacialidade  provoca angústia ou convida a grandes voos de imaginação. Brasília evoca a  famosa frase de Pascal sobre o céu: "O silêncio eterno dos espaços infinitos me  apavora".</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font>E, na verdade, além da arquitetura e do espaço, a paisagem do cerrado é  metafísica. Não foi à toa que deu o <i>Grande Sertão: Veredas</i>, de Guimarães  Rosa, com seus jagunços filósofos. Estas árvores retorcidas e solitárias, esses  espaços abertos, a linha do horizonte sempre visível. O Rio, ao contrário, é uma  cidade que te convoca o tempo todo para os sentidos, a beleza da paisagem  natural, a exuberância das montanhas e praias. Não há separação entre homem e  natureza. Há um permanente convite à alegria e a fruição da vida.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font>Uma amiga brasiliense e clariciana foi morar no Rio de Janeiro. Ela conta que  ser metafísico no Rio é como ser um alienígena, um E. T., as pessoas te olham  com estranhamento. No Rio, a natureza invade tudo. Brasília tem algo de deserto,  há uma relação dramática entre cidade e paisagem, arquitetura futurista e  cerrado bravo, modernismo e sertão crispado. Não há um encaixe perfeito. Só há  metafísica onde existe um estranhamento do homem com o espaço. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font>A poesia concreta dos grandes espaços vazios, dos espaços em branco,  pretendia corrigir o homem. Mas um lance de dados jamais abolirá o acaso. O  vazio do espaço expõe o nosso vazio, nossa falha, nossa falta. Bastaria a um  poderoso abrir a janela para perceber a sua insignificância cósmica. É preciso  desesperadamente preenchê-la com algo: o trabalho, a religião, a arte, o culto  do poder ou do consumo. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font>Contudo, mesmo a nossa relação com o espaço está condicionada à nossa relação  com a história. Somos livres para construir a Brasília queremos. Não somos  comandados por discos voadores ou seres de outros planetas. Brasília é uma  cidade espacial, mas ela se tece mesmo é no dia a dia da história. </font></p> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[Athos em concreto]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46470</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/515e20e6caaf417fe8dc508b94fd67ac.jpg"> <br> <br> <br><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br></span><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">O convite para o lançamento de <span style="font-weight: bold;">Athos Bulcão</span>, livrão de arte atualizado com as imagens da obra e textos de críticos de arte e jornalistas, foi por si só uma uma surpresa: a fachada da sede do Tribunal Regional do Trabalho. Athos mudou o desenho habitual dos brises-soleils. Feitos de concreto armado, parecem páginas abertas de um livro. Dependendo da hora do dia, uma ou outra “página” reflete a luz do sol. O prédio, no Setor de Autarquias Sul, foi construído em 1978. O projeto é do arquiteto Evandro Pinto da Silva, que também fez a Capela de Nossa Senhora do Carmo na 913 Sul. Evandro morreu em 2006.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[Uma igreja sob o chão]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46429</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/13a8ed89ba13f6bef5269c3d70f45095.jpg"> <br> <br> <br><font size="7"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="color: rgb(102, 102, 102);"></span> </span></font> <br><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Um dos países mais pobres do mundo abriga um surpreendente conjunto de igrejas esculpidas na rocha abaixo do solo. São as onze igrejas de Lalibela. Uma delas, a de São Jorge, é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Ela tem a forma de uma cruz e seu teto aparece ao rés do chao. Lalibela é uma cidade rural onde só há pouco tempo chegou a energia elétrica. Não tem ruas pavimentadas nem postos de gasolina. Dos cerca de dez mil moradores da cidade, mais de mil são sacerdotes. Foi no século 12 que o rei Lalibela encomendou essas igrejas. Ele queria que a cidade fosse a Nova Jerusalém. A maior das igrejas tem 40 metros de altura (ou de fundura). Conta-se que o rei, depois de mais de 20 anos de trabalho para a construção das igrejas, abdicou do trono e se transformou num eremita. Passou a viver numa caverna e a se alimentar apenas de legumes e raízes. Os etíopes reverenciam o Rei Lalibela como um de seus santos mais consagrados.&nbsp;&nbsp;</span>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br> <br> <br> <br><img style="width: 348px; height: 234px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/2dcfa3739606acd76b60cb38421539ba.jpg"> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46424</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/91d341704c7c95376a986528137bc84e.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Taguatinga à noite, foto de Kleber Lima/DA Press</font> <br> <br> <br><font size="7"> <br>Fica, Tchau</font> <br> <br> <br> <br> <br>Internauta meio descrente, meio angustiado, meio apressado posta comentário no blog: “Sinto muito. Brasília não é nada disso que você escreve. É uma cidade hostil. Não aguento mais! Quando puder, me mando. Tchau”. <br> <br> <br> <br> <br>De início, fiquei assustada. É muito difícil ouvir críticas. Depois, me deixei encantar pelo internauta que discorda da Brasília que eu desenho dia sim e outro também nesse pé de página. Gostei da sinceridade concisa, da determinação enxuta e da despedida peremptória. E o conjunto da obra me fez pensar nas Brasílias que tenho comigo, nas que vou descobrindo dia após dia e nas muitas que desconheço.  <br> <br> <br> <br> <br>Ao contrário do que pensa o internauta do Tchau, conheço e já descrevi não poucas vezes a hostilidade que o está expulsando de Brasília. Não é preciso nenhuma grande investigação científica para se descobrir a razão de tanta arrogãncia na capital da utopia. <br>Dos travestis aos políticos, dos moradores de rua aos concurseiros, todo mundo vem pra cá fazer a vida. “Ou o cara vem pra Brasília pra ganhar dinheiro ou vem pra lavar dinheiro”, ouvi dia desses numa antesala de consultório médico. Deve ser essa a Brasília que assusta o internauta do Tchau.  <br> <br> <br> <br> <br>Se fosse gente, Brasília seria daquelas que te olham dos pés à cabeça para só então decidir como vai te tratar. Da cabeça aos pneus, por assim dizer. Do contracheque aos pés. Brasília é uma Avenida Paulista em forma de avião. Uma Wall Street (dos áureos tempos) desaguando no Paranoá. Apesar de monumental, o Plano Piloto é uma província, poderosa província. Nele, os defeitos da sociedade contemporânea se potencializam. Em Brasília, é proibido fracassar e isso transforma o brasiliense num escravo do sucesso. Nada muito diferente das leis que regem as grandes metrópoles na parte ocidental do planeta. Só que aqui tudo se concentra entre dois eixos arqueados que se cortam em sinal da cruz.  <br> <br> <br> <br> <br>A sorte, meu caro Tchau, é que Brasília não é só os 300 e poucos mil habitantes do Plano Piloto e áreas nobres. Contra a vontade de Juscelino, de Israel, de Lucio e de Oscar, os brasileiros não deram bola para o projeto de urbanismo moderno e desembarcaram em grandes levas na nova capital. (Israel até tentou fechar as rodovias de acesso à cidade, no tempo da construção).  <br> <br> <br> <br> <br>Haverá um dia, Tchau, que Brasília será muito mais do que a capital do país. Que o Plano Piloto será apenas o centro histórico da cidade. Continuará protegido, porque é uma joia do urbanismo e da arquitetura moderna. Então, orgulhosos, levaremos nossos parentes e nossos amigos de fora para conhecer a Esplanada, a Igrejinha, as superquadras. Mas os levaremos também para comer uma picanha em Taguatinga ou dançar um forró em Ceilândia.&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>Será uma grande cidade formada por filhos e netos de brasileiros de todas as regiões. Será uma Nova York brasileira, no que a ilha tem de cosmopolitismo e diversidade cultural. Ainda vai demorar um pouquinho. Talvez um poucão. Brasília não tem nem 50 anos. Na contagem do tempo das cidades, ela ainda é um bebê. Portanto, Tchau, ela ainda é uma promessa. Você vai mesmo embora, Tchau? <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46406</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		 <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="3"> <br><font size="7">Parada dos milagres <br> <br></font> <br> <br>Não é a barba branca e longa nem a roupa inteiramente branca nem o sapato social preto, menos ainda o crucifixo preto pendurado no pescoço ou a touca preta na cabeça. Também não é o fato de ele morar, há três anos, no ponto de ônibus entre 103 e a 104 Sul. Ou o discurso encadeado, as metáforas fortes, as mãos de dedos longos e retesados. O que é mais perturbador em Luiz Vida são os olhos. Estranhamente insinuantes, insistentemente reluzentes. “Olhe nos meus olhos. Você está me vendo?”. <br> <br> <br> <br> <br>Luiz Vida mora na “Primeira Parada dos Milagres de Brasília, Distrito Federal” . Há uma forte razão para o ponto de ônibus do Eixinho Oeste ter esse nome. Há três anos, num entardecer de uma quinta-feira, Luiz Vida se sentou na parada da 103/104 Sul. Era um homem maltrapilho, alcoólatra, drogado e doente. Cuspia sangue. Pensou em se deitar no banco de pedra, mas teve medo de ser expulso pela polícia. Ficou sentado até que anoiteceu e ele então pôde descansar o corpo fatigado. Dormiu. <br> <br> <br> <br> <br> <br>Quando acordou, Luiz era outro. Tinha “paz, saúde, alegria e felicidade”. O que ele chama de milagre fez com que ele nunca mais deixasse o ponto de ônibus que então passou a se chamar “Primeira Parada dos Milagres de Brasília, Distrito Federal”. Quem passa todos os dias pelo Eixinho conhece bem o morador de longas barbas brancas. Ontem ele estava de camisa de manga comprida, calça de brim e meias brancas. Dois terços do banco de pedra estavam cobertos por uma espuma envolta num lençol azul. Havia dois travesseiros e uma bolsa de viagem. Tudo arrumado com esmero. A barba está bem cuidada, as unhas, bem cortadas e o lugar exala um cheiro adocicado.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>O morador da “Primeira Parada dos Milagres de Brasília” discursa como um pastor. Pergunto se ele é um pastor. “Se eu disser que sou, estarei mentindo. Se eu disser que não, também. Não posso responder rapidamente. Sou um quebra-cabeças que precisa ser montado.” <br> <br> <br> <br> <br> <br>Há um messianismo solitário no morador do ponto de ônibus do Eixinho Oeste. Ele diz que Deus se sentia muito solitário no dia em que olhou pra ele e o salvou. Daquele amanhecer de sexta-feira em diante, Luiz nunca mais bebeu cachaça ou consumiu merla, crack, maconha ou cocaína. Ele conta que adormeceu cheio de feridas e acordou são.  <br> <br> <br> <br> <br>Diz que mora num autódromo. Me pergunta se já subi na Torre de Tevê. Digo que sim. “Brasília não é um autódromo? Num autódromo não tem camarotes, arquibancadas? Eu moro bem perto da pista do autódromo”. Diz que tinha 100 anos quando chegou à “Primeira Parada dos Milagres de Brasília”. No dia seguinte, quando acordou curado, voltou a ter 50 anos. E desde então terá 50 anos até que complete 100, ele explica enquanto espalma a mão e junta os cinco dedos da mão esquerda com os cinco dedos da mão direita.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Me despeço. Ele se levanta da espuma onde dorme, aperta fortemente a minha mão, olha fundo nos meus olhos e diz que Deus estará comigo.  <br></font></div> <br>
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		<title><![CDATA[A Igrejinha do Arizona]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46270</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/251665fa7626aa83c31fade0a4885a4a.jpg"> <br> <br><font size="6"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br>Brasília tem a Igrejinha e a Catedral e o Arizona tem a Capela de Santa Cruz, projeto da arquitetura moderna construído entre duas formações rochosas muito semelhantes, de 250 metros de altura cada uma. A capela começou a ser construída antes da Igrejinha e ficou pronta em 1956. No ano seguinte, ganhou o Prêmio de Honra do Instituto Americano de Arquitetos. A capela nasceu do desejo da escultora Marguerite Bruswing Staude que, ao conhecer o recém-construído Empire State, em Nova York, viu uma cruz na estrutura do prédio. Marguerite havia sido estudante de Frank Lloyd Wright, um dos mestres da arquitetura moderna. O projeto foi desenvolvido pelo arquiteto Richard Hein e executado pelo arquiteto August K. Strotz. A Capela de Santa Cruz é uma das atrações turísticas mais visitadas de Sedona, no estado do Arizona.  <br></div> <br> <br> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[ crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46141</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/bdea758ada5255a194896811dea10d18.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Superquadras em construção, década de 1960</font> <br><font size="6"> <br><font size="7"> <br>O grito e a saudade</font></font> <br> <br> <br> <br> <br>Dentre as muitas lições que Brasília me ensinou, a de não buzinar no trânsito foi uma das que aprendi para sempre. Fui tão boa aluna que não sei que som tem a buzina do meu carro. Chego a duvidar que ela exista. A lição de civilidade, porém, teve um custo. Qualquer grito histérico de buzina me assusta. E como o aviso “em Brasília não se buzina” virou um retrato na parede da memória, me pego sonhando com uma lei que emudeça todos os carros da cidade.  <br> <br> <br> <br> <br>A minha reincidente irritação com a buzina me fez perceber, mais uma vez, que a Brasília silenciosa de quando aqui cheguei, na metade dos anos 80, só existe na minha (e quem sabe na sua) saudade. Não há como conter o milhão de carros apressados/irritados/extenuados que singram a cidade-autorama. Os cem mil habitantes que aqui estavam no 21 de abril de 1960 se multiplicaram assombrosamente em 4 milhões, contando o Entorno, em menos de meio século. <br> <br> <br> <br> <br>Também é oca ilusão pensar que Brasília algum dia se cumpriu à perfeição. Perfeitas são nossas saudades. As primeiras Brasílias eram tão espantosas quanto incompletas. Um exemplo: quando a cidade estava com 15 anos, o Correio fez uma série de reportagens sobre as superquadras. Nelas, o que se noticia não é a execução plena do projeto do doutor Lucio. O que se relata são as muitas dificuldades de uma população recém-chegada a uma cidade em construção.  <br> <br> <br> <br> <br>Em 1975, as superquadras ainda não haviam sido urbanizadas. Quando chegava a seca, a poeira era generosa como areia de deserto. Na chuva, a lama descia o chapadão em enxurradas indomáveis. Quem gostava desse abandono eram os ratos — milhares de roedores atarantados correndo pelos pés dos candangos e dos candanguinhos. Tantos e mais tantos que as crianças praticavam caça ao roedor, amarravam os bichos pelo rabo e penduravam nas árvores as mórbidas bandeirolas. Brincadeira de menino do interior na cidade que ainda não havia conseguido ser moderna. <br> <br> <br> <br> <br>Quando Brasília havia feito 15 anos, a 405 Norte era o Itapõa de hoje. Faltava urbanização e sobravam ocorrências policiais. Construída para abrigar funcionários do então INPS, a quadra foi feita em regime de urgência. Foram tantos os problemas estruturais dos blocos que a maioria deles foi interditada, mas os moradores se recusaram a sair dos prédios ameaçados, por falta de outro lugar para se abrigar. Todos os blocos da quadra tiveram de ser reformados pouco depois de construídos.  <br> <br> <br> <br> <br>Quem viveu esse tempo sente a doce dor da saudade. Os ratos, a lama, a poeira, o matagal, a violência, nada disso deixou amargura grudada na memória. O que marcou fortemente a lembrança do candango foi o sentimento de solidariedade que encadeava brasileiros de todo o país recém-chegados à cidade que nasceu da vontade plena do homem. Essa Brasília não existe mais. Hoje só se ouve o grito arrogante da buzina. <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Monumental, mas delicado]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=46124</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/77f1b43b2833eb0ba11c31ddf79997cd.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(51, 51, 51);"><font size="6"><span style="color: rgb(102, 102, 102);"></span> <br></font></div> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(153, 153, 153);"><span style="color: rgb(51, 51, 51);">Lucio Costa tinha um senso estético muito afiado. Apesar de ter adotado uma solução monumental para a capital do país, não desejava a monumentalidade por ela mesma. A escala em tamanho gigante tinha de vir acompanhada da delicadeza dos detalhes.Vejam o que ele disse quando esteve aqui em 1974 sobre os letreiros na fachada lateral dos ministérios (que estão lá até hoje): </span> <br></div> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">&nbsp; <span style="color: rgb(51, 51, 51);"><span style="font-weight: bold;">"</span>... é lamentável que tenham adotado esse sistema de individualizar os edifícios, de indicar os edifícios com letras douradas, nas proporções em que usaram nos ministérios. Aquelas letras douradas, nas empenas dos ministérios, são de uma vulgaridade inconcebível. Há mil maneiras de se identificar facilmente para o interessado que aquele é tal ministério, sem o uso desse artifício que está se espalhando. Cada um agora deseja competir com o outro. É preciso uma providência esclarecedora, é preciso fazer o possível para que isto seja corrigido.<span style="font-weight: bold;">"</span></span></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(51, 51, 51);">  <br> <br> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(51, 51, 51);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(51, 51, 51);">Lucio Costa durante o <span style="font-weight: bold;">1º Seminário de Estudos dos Problemas</span> <span style="font-weight: bold;">Urbanos de Brasília</span>, no Senado, entre 5 e 21 de agosto de 1974 </span><span style="color: rgb(51, 51, 51);">&nbsp; &nbsp;</span>  <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45938</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 294px; height: 276px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b8a9b56df504eb0d6a02790d4764ad6f.jpg"> <br> <br><font size="4"> <br> <br></font><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="7">O homem eterno</font> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>Faz uns dez anos, saí em busca de personagens na área rural de Brasília. Saí ao léu. Queria conhecer quem mora no antigamente e é vizinho do moderno. Tentava encontrar os que aqui estavam quando aqui chegamos, eu, você, Juscelino e todos eles. Queria pedir licença, com muito atraso, para ocupar os chapadões que durante séculos viveram em sereno silêncio de sertão.  <br> <br> <br> <br> <br>Saímos, o motorista, o fotógrafo, eu e o gosto de deixar a cidade para trepidar nossos ossos urbanos na poeira pedregosa das áreas rurais pouco habitadas do Distrito Federal. Durante uma semana, conhecemos surpreendentes personagens do Brasil goiano. Eles foram retratados em matérias, mas um deles não mereceu nenhuma linha impressa. Não encontrei o mote para contar uma história, porém, estranhamente, nunca me esqueci daquele homem sem mote e cuja história não consegui contar.  <br> <br> <br> <br> <br>Era mineiro de uma cidade que o tempo me fez esquecer. Tanto podia ter 30 quanto 60 anos. Vestia-se com uma calça de corte antigo, larga, amarrada na cintura por um cordão esgarçado. Não usava camisa e os pés estavam descalços. Nâo era um mendigo. <br>Vivia num barraco de madeira escura e velha, coberta com folhas de palmeira. Não havia porta na choupana. O fogão a lenha ficava do lado de fora, numa espécie de avarandado que dava continuidade ao único cômodo da casa. Tudo ali parecia ser artesanal, exceto as panelas, as colheres e um prato torto de alumínio. Não vi copo. Tudo ali, do teto ao chão, era coberto por uma camada escura de fuligem.  <br> <br> <br> <br> <br>O homem era magro, mas não era raquítico. Havia firmeza muscular nos braços e antebraços, mas nem de longe se parecia com a dos sarados das academias. O rosto era demasiadamente enrugado, mas não consegui saber se era de velhice ou de brigas inclementes com o sol. <br> <br> <br> <br> <br>Morava sozinho, num boqueirão cercado de morros por todos os lados. Ele dizia ter amigos a léguas de distância. Passava dias, até mês, sem vê-los, e não se lembrava, nem fez a menor questão de se lembrar, da última vez que veio a Brasília. O que ele chamava de Brasília era a cidade de São Sebastião, a única área urbana que conhecia, a mais próxima de seu viver antepassado.  <br> <br> <br> <br> <br>Não era triste nem alegre. Também não ficou triste nem alegre quando o carro do jornal chegou. Não tinha muito a dizer, nem muita história pra contar, como eu ansiosamente esperava. Parecia não entender a razão de eu estar ali desvelando o que ele guardava com esmero, o silêncio de seu existir. Não tinha passado nem presente nem futuro. Aquele homem vivia a eternidade e eu demorei dez anos pra entender isso.  <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Em cena, com Reynaldo ]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45924</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 343px; height: 227px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5bba8b7a760ce262f91dae1c723938e1.jpg"> <br> <br><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font><font>Os produtores do documentário <span style="font-style: italic;">Profana Via Sacra</span> convidam admiradores do poeta  e jornalista Reynaldo Jardim para atuarem, como figurantes, na cena Manifesto do  Poema Abstrato. A gravação está marcada para este sábado, às 10h30, no Cine  Brasília. Reynaldo Jardim é um dos mais importantes e criativos jornalistas  culturais do Brasil. Nos anos 50, revolucionou a cobertura de cultura do Jornal  do Brasil. Foi diretor da revista Senhor e diretor de telejornalismo da TV  Globo. Criou o jornal-escola O Sol ("o Sol na banca de revista me enche de  alegria e preguiça…"), um exercício de criatividade nos textos e ousadia no  projeto gráfico. Foi editor do caderno <i>Aparte</i>, o caderno de cultura do  <b>Correio Braziliense</b> nos anos 1980.<a name="geinf"></a><a name="Save1"></a>  </font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Big Brother científico]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45763</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 392px; height: 287px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/aadb42fa4456136dfa649ff6c1af7137.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">O Centro Darwin em forma de casulo</font> <br><font size="7"> <br></font> <br>Uma espetacular estrutura vertical, em forma de casulo de bicho da seda, de 60 metros de altura e 12 metros de largura, foi inaugurada hoje em Londres. Trata-se da segunda fase do Centro Darwin, parte do Museu de História Natural de Londres, que, apesar do nome, não se restringe aos estudos do cientista, mas a estudos em geral sobre a diversidade da vida na terra. O volume agora inaugurado custou 88,5 milhões de euros,&nbsp; mais de 250 milhões de reais, foi construído em 25 meses e tem capacidade para manter, sob 17 graus de temperatura e 45% de umidade relativa do ar, 17 milhões de exemplares entomológicos e três milhões de mostras botânicas. O projeto é obra do escritório escandinavo C.F. Moller, escolhido em concurso público. Será um museu diferente daquele a que estamos habituados a visitar: neste, os visitantes podem acompanhar o trabalho de 200 cientistas através de paredes de vidro. Podem também perguntar a eles sobre suas pesquisas — um Big Brother científico.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br>  
		]]>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45753</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b88f528ddb3b06e56796caba69c9aec8.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">SQS 113, foto de Daniel Ferreira/DA Press</font> <br> <br> <br> <br><font size="7">Não parece e não é </font> <br> <br> <br> <br> <br>A superquadra está para o condomínio assim como uma floresta está para um zoológico. A joia de morar que Lucio Costa aprimorou da arquitetura e do urbanismo modernos está servindo de estratégia de marketing para projetos de blocos de apartamento com área de lazer privativo. Matéria de Helena Mader, publicada na edição de domingo do Correio mostra que empreendimentos imobiliários já executados ou recentemente lançados se apropriaram indevidamente do conceito de superquadra para vender nada mais nada menos que apartamentos em condomínios. <br> <br> <br> <br> <br>Diz o <span style="font-style: italic;">Houaiss</span>: Superquadra é “área residencial urbana, aberta, constituída por blocos de apartamentos, escolas, playgrounds, zonas ajardinadas etc., e na qual o tráfego de veículos se acha separado do trânsito de pedestres”; termo nascido, consta do dicionário, em 1960.  <br> <br> <br> <br> <br>A edição de 2001 do <span style="font-style: italic;">Houaiss</span> não traz a acepção de condomínio no sentido a que aqui me refiro. Mas o Aurélio do mesmo ano faz o registro: Condomínio é um “conjunto residencial composto de edifícios e/ou casas geralmente cercado, com acesso controlado, e cujos moradores dividem esquipamentos comunitários”. <br> <br> <br> <br> <br>O <span style="font-style: italic;">Houaiss</span> sabe o que é uma superquadra, o Aurélio sabe o que é um condomínio, as construtoras misturam os conceitos, mas a diferença é tão flagrante para quem se aproxima das novas supostas superquadras que só se deixa enganar quem faz questão de ser enganado. Argumentam os empreendedores que os novos tempos, de violência e medo, impuseram as cercas e as guaritas. E os pilotis perderam o sentido de ser o espaço livre, democrático, que serve tanto ao morador do bloco quanto a quem nele quiser transitar.  <br> <br> <br> <br> <br>O brasiliense é herdeiro de um dos mais bem-elaborados, humanos, ecológicos, democráticos e inovadores projetos de moradia coletiva moderna, a superquadra. Não chega a 200 mil o número dos privilegiados moradores das superquadras. E não há notícia de que, acuados pela violência, estejam pensando em bater em retirada. Com uma única entrada para carros, sombreada por renques de árvores hoje adultas, as superquadras estão integradas à cidade, recusam-se a se encastelar em condomínios e não há indícios de que estejam mais sujeitas à violência que toda a Brasília. <br> <br> <br> <br> <br>Antes do surgimento dos condomínios fechados que querem ser superquadras, as próprias superquadras já vinham sendo modificadas. A ocupação dos pilotis com salão de festas, por exemplo, foi um dos primeiros movimentos de privatização do espaço público. No projeto de Lucio Costa, o chão dos blocos pertence à cidade, não aos moradores. E esse conceito de coletividade, de espaço público, de convivência democrática, tão caro às utopias, há muito vem sendo considerado um anacronismo. Tudo está sendo privatizado, dos pilotis às consciências.&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[A capela do Athos]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45732</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 378px; height: 294px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/ebbf15e90fa4175587f4338ca7e28930.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Capela do Palácio da Alvora, foto da Fundação Athos Bulcão</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br>Se Oscar Niemeyer conseguiu projetar uma arquitetura do sagrado na Catedral de Brasília, na capelinha do Palácio da Alvorada ele precisou da interferência de Athos Bulcão para transformar a singela construção em caracol num ambiente de contrição e fé. Athos fez um portal de alumínio “pintado de preto, com pequenos quadrados vazados com vidro , trabalhados com um espectro de cores primárias e complementares”, como descreve a professora Grace de Freitas, da Universidade de Brasília. Os vazados levam a luz colorida para dentro da capela. No teto, Athos pintou alguns elementos geométricos — peixes, cruz, sol e lua, “marcas da imagética cristã das catacumbas”.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Visitei o Palácio da Alvorada duas vezes, chorei nas duas. Niemeyer conseguiu combinar simplicidade com imponência, escultura com arquitetura, leveza com grandiosidade, casa grande dos tempos coloniais e arquitetura moderna brasileira. Dizem que é um palácio pra se admirar, não pra se morar. Como um presidente não é eleito para toda a vida, isso não tem lá muita importância. Visitar a capela de Nossa Senhora da Conceição é um novo espanto. O sagrado e o moderno, a luz e as cores, o preto e o dourado estão juntos como se tivessem sido criadas por uma instância divina. Era Athos Bulcão.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45695</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 357px; height: 237px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/8b737519dd0951cb13ca353d4d8fff54.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Mulheres da paz, na Estrutural</font> <br> <br> <br><font size="6">Mulheres da paz</font> <br> <br><br style="font-style: italic; font-weight: bold;"><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Severino Francisco</span> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br>Às vezes tenho a sensação de que bastava um empurrãozinho para o bem, não digo se instalar, mas pelo menos ter uma presença mais forte no mundo. Esta impressão me bateu novamente ao ler uma matéria da repórter Leilane Menezes, no caderno Cidades, sobre o grupo Mulheres da Paz, constituído por voluntárias que atuam em três cidades satélites do DF: Estrutural, Itapoã e Paranoá. É uma intervenção afetuosa, comunitária, solidária, mas animada pela consciência dos direitos humanos. A missão delas é levar paz e dignidade às famílias vítimas da extrema pobreza e da baixa escolaridade. Quase todas são donas de casa. Sedeparam cotidianamente com exploração do trabalho infantil, abusos e violência doméstica.  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>É um trabalho voluntário, mas com o respaldo e o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Social e Distribuição de Renda (Sedest). Elas recebem orientações de psicólogos e advogados. Não ganham nada por isso, a satisfação é melhorar a vida em suas comunidades. E estão conseguindo mudar a vida de muitas pessoas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br>O grupo Mulheres da Paz está em plena sintonia com as ideias de Mathama Gandhi, o líder que expulsou os colonizadores ingleses da Índia, sem disparar nenhuma bala, recorrendo a ações de não-violência: “A não-violência exige muito mais coragem do que a violência”, proclamava ele. O princípio da não-violência nada tem a ver com a covardia ou a omissão.&nbsp; Pelo contrário: a não-violência pregada por Gandhi é uma atitude ativa de transformar o mundo ou as situações próximas por meio de ações pacíficas.  <br> <br> <br> <br> <br>Estamos vivenciando uma escalada alarmante da truculência. Em uma primeira mirada, o fenômeno poderia pressupor atos de bravura. Mas o que temos assistido são os mais revoltantes espetáculos de covardia, ao ler as páginas dos jornais ou ao sintonizar as emissoras de televisão. Quase sempre se juntam três ou quatro para bater em um ou uma. É violência contra mulheres, crianças ou até idosos. Violência de crianças contra crianças ou de adolescentes contra adolescentes. Apela-se para as armas de fogo, que continuam circulando livremente. Violência nada tem a ver com bravura; é pura covardia: “Você com um revólver na mão é um bicho feroz/Mas sem ele, fica rebolando/Até muda de voz”, denuncia o Bezerra da Silva, em um dos seus sambas.  <br> <br> <br> <br> <br>Nas décadas de 1960 e 1970 nós queríamos mudar o mundo. A história nos ensinou que isso não era tão simples assim. Mas talvez seja mais viável alterar pequenas realidades ao alcance do nosso corpo e de nossa capacidade de intervenção. É isso que estão fazendo as Mulheres da Paz. Nunca na história da humanidade o mal teve tanto charme, ibope e glamour. O mal nasce feito capim em qualquer lugar, basta que os homens de bem cruzem os braços. No entanto, como diz o poeta Baudelaire, o bem é uma arte, precisa ser árdua e laboriosamente cultivado.&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45627</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 394px; height: 269px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/d4f0f2901b37b6eecf48e987e5b8e141.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2"><span style="font-style: italic;">Lot e suas filhas</span>, Hendrik Goltzius, 1616</font> <br><font size="6"> <br> <br>O poder tudo pode</font> <br> <br> <br> <br> <br>Viver na capital do país é um risco para quem tenta manter distância segura das tentações do poder. Se ao poder se junta o dinheiro, a capacidade de sedução se expande numa dimensão incontrolável e incomensurável. Nesse aspecto, Brasília é um incrível laboratório para quem queira entender um pouco mais essa instância que transfigura os homens e derrete os escrúpulos. Pouco importa a suspeita que paire sobre este ou aquele poderoso, também não importa se ele vem sendo criticado por esta ou aquela decisão, esta ou aquela omissão, se ele está numa solenidade, numa festa, num restaurante, ele será cercado de sorrisos, tapinhas nas costas e bajulações.  <br> <br> <br> <br> <br>O domínio que um poderoso tem sobre as circunstâncias em que vive permite que casos de assombrosa impunidade aconteçam com estarrecedora reincidência sem que ninguém se atreva a interromper a longa sucessão de crimes. Vejam o caso do médico Roger Abdelmassih, durante muito tempo celebrado como uma das estrelas da medicina reprodutiva. Ele está sendo acusado de abuso sexual de 56 pacientes. Só depois do quinquagésimo-sexto caso foi que finalmente o Ministério Público decidiu interromper a suposta longa carreira de crimes do poderoso. E só então o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) suspendeu o registro profissional do acusado. <br> <br> <br> <br> <br>Caso tão ou mais espantoso foi publicado na edição desta semana da revista <span style="font-style: italic;">Época</span>. O bilionário Antônio Luciano Pereira que, durante algum tempo, foi conhecido como o dono de Belo Horizonte, se vangloriava de ter mantido relações sexuais com mais de 2 mil virgens, a maioria delas moças pobres entregue pelos pais em troca de dinheiro. <br> <br> <br> <br> <br>Antônio Luciano fez o que quis com o poder que o dinheiro lhe assegurava. O bilionário teve 30 filhos e praticava incestos com uma ou mais filhas. Tem pelo menos um filho-neto reconhecido. E agora uma mulher de 54 anos, que se diz filha-neta e amante do pai-avô, entrou na Justiça para também ter direito a uma parte da herança de 3 bilhões de dólares. Antônio Luciano não precisou esconder a filha num porão, como fez o austríaco Josef Fritzl. Também não sedou suas vítimas, como Abdelmassih vem sendo acusado de ter agido com suas clientes. O poderoso de BH negociava virgindades de meninas pobres e fazia sexo incestuoso de portas quase abertas. Comparava-se a um passarinho: “Passarinho tem filhos com suas filhas porque a figura do pai não existe”. Disse isso publicamente nos anos 1980. <br> <br> <br> <br> <br>O poder e o dinheiro impermeabilizam os criminosos. Um poderoso pode tudo ou quase tudo. A teia de bajulação e de tráfico de influência que o cerca é suficiente para protegê-lo, tacitamente, da lei. “Em sociedade, tudo se sabe”, já dizia Ibrahim Sued. Se sabe, se fofoca, mas não são muitos os que se recusam a usufruir da atmosfera de privilégio que envolve um poderoso, mesmo que ele esteja sob suspeita. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[NY, capital do mundo livre]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45596</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<font size="2"><img style="width: 411px; height: 282px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6570c8ba3a0bde774b7fa379837093f5.jpg"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Foto e imagem publicadas na edição de hoje do <span style="font-style: italic;">El Pais</span></font>.<font size="2"> <br>A ilha de Manhattan hoje e como teria sido quando foi descoberta há 400 anos</font> <br> <br> <br> <br> <br> <br>A cidade mais múltipla, poderosa, caótica e vigorosa do mundo está de aniversário. Amanhã, 11 de setembro, Nova York completa 400 anos. A data marca a chegada do explorador inglês Henry Hudson, a serviço da Holanda,&nbsp; à costa de uma ilha que passaria a ser denominada Nova Amsterdã. Hudson ficou fascinado com o lugar: era uma ilha de muitas colinas e que dava acesso a um continente inteiro. Foi curto o domínio holandês sobre a ilha de Manhattan (a Mannahatta dos índios), durou menos de 50 anos. Longe puritanismo inglês e da intolerância religiosa que se alojara ao norte, a cidade de Nova Amsterdã desde o começo foi um porto comercial aberto à diversidade cultural, de raça e de religião. Eis a origem de Nova York tal qual ela é hoje. Foi fundadora a influência holandesa na ilha, mesmo depois que as tropas inglesas lideradas pelo duque de York ocuparam o território. “Os pioneiros de Amsterdã, que se assentaram em Manhattan, plantaram as sementes da democracia, o espírito empresarial e a liberdade de expressão e de religião no que hoje conhecemos como Nova York , a capital oficial do mundo livre”, declarou Job Cohen, prefeito de Amsterdã, durante as comemorações pelo aniversário da conquista de Henry Hudson.  <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Bernardes em Brasília]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45531</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/a9439303fe8f5d500c42fcbac2b4faf1.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Projeto do aeroporto supersônico de Brasília, 1968</font> <br><font size="6">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </font> <br> <br> <br>Presente em qualquer lista dos grandes arquitetos modernos brasileiros, Sérgio Bernardes (1919/2002) fez mais projetos para Brasília do que os que foram construídos. É projeto dele o Mastro da Bandeira que, com seus 100 metros de altura, se apresentou como um potente ícone do regime de força de 1964, erguido ao fundo da Praça dos Três Poderes para se contrapor aos prédios que representavam a democracia. Também é&nbsp; projeto dele o Centro de Convenções, mais tarde totalmente transfigurado&nbsp; em um monumento à arquitetura espetaculosa e à desobediência às escalas de Brasília.&nbsp; Projeto de 1973, o Centro de Convenções pertencia à escola brutalista, que&nbsp; fazia uso extensivo do concreto aparente e das estruturas inteiramente à mostra. O projeto de Bernardes, que ocupou o canteiro central do Eixo Monumental oeste desde 1973 até o começo dos anos 2000, nunca foi concluído. Bernardes também fez&nbsp; um projeto (não-executado) de um aeroporto&nbsp; supersônico para Brasília em 1958. Em artigo publicado no <a href="http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq111/arq111_00.asp">www.vitruvius.com.b</a><a href="http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq111/arq111_00.asp">r</a>, o arquiteto Lauro Cavalcanti diz que Sergio Bernardes foi o melhor arquiteto da segunda geração de modernistas cariocas — a primeira, claro, era de Lucio Costa e Oscar Niemeyer.&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45482</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		&nbsp; <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/21690dc44c8d670f91dd68d93ba40ac4.jpg"><img style="width: 242px; height: 375px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b959371f10d99c59582e9e50db38a309.jpg" aling="left"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;<font size="2">&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Nuvens de chuva em Águas Claras, redemoinho na Epia</span></font> <br> <br> <br> <br><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Perdida </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">no tempo</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>Maio passou rapidinho, quase não deu pra ver a roda da sua saia rendada. Agosto fez rápida conexão no quadradinho e foi embora sem dizer adeus e setembro, ah, setembro, está com o maior jeito de que não virá. Oficialmente, hoje é o nono dia do mês nove, mas estou demorando a acreditar. Desde quando me conheço por brasiliense, Brasília tem duas estações: a da seca e da chuva. Chovia de outubro a março, um pouco mais ou um pouco menos. E a estiagem dominava o restante do ano, com um tanto de frio, um tanto de vento e eventuais chuviscos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br> <br>Muito antes de o primeiro candango descer a mala no poeirão da Cidade Livre, fazia muito frio nessa região. Geadas caudalosas deixavam uma fina lâmina de orvalho no cerrado. As chuvas desciam generosa e continuamente até que todos os goianos de Planaltina, Luziânia e Formosa, os antigos donos do quadradinho, se esquecessem de que cor era o céu. O historiador Paulo Bertran registra, em História da Terra e do Homem do Planalto Central, a morte de homens de uma das bandeiras que desceram do sudeste em busca do ouro de Goiás. Teriam sido vítima de insolação ao tentarem atravessar o cerrado durante um vasto período de seca.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>São mais que testemunhos da história do território que nos acolhe. A seca e a chuva, maio e agosto, julho e dezembro são ponteiros das estações do humor brasiliense, são marcos das histórias que a gente contra para o estrangeiro. A seca de agosto, a chuva de dezembro determinam a escolha da roupa, os projetos de viagem; a reforma da casa, o replantio dos jardins, a cerveja ou o vinho.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Agora já não sei mais o que é maio nem o que é agosto nem mesmo se setembro ainda existe. A infidelidade dos meses perturbou o tique-taque do meu viver. Logo agora que eu começava a me acostumar com a ideia de que o mundo não é nada daquilo que eu tão esforçadamente quis acreditar. Que estava me deixando levar pela roda-gigante e frenética da vida contemporânea, do excesso de informações, da superlotação de imagens e estímulos, do fim das crenças e dos valores, logo agora… </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Há um delicado documentário de Wim Wenders (Tokio GA) no qual ele visita Tóquio dos anos 1980 em busca da Tóquio dos filmes de Yasujiro Ozu. Diretor de 53 filmes que vão desde a época do cinema mudo até o pós-guerra, Ozu filmava principalmente Tóquio, fosse qual fosse o enredo. Wim Wenders passa duas semanas na cidade atrás da cidade que não existe mais. E ele se pergunta, diante da ocidentalização violenta do Japão, do excesso de imagens na tevê japonesa, onde foi parar o mundo amoroso e ordenado dos filmes de Yasujiro Ozu. Foi engolido pelos excessos de toda ordem.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br>Foram excessos que, muito provavelmente, acabaram com maio, agosto e setembro. Procuro a Brasília de antes e, como Wim Wenders, não a encontro. O mundo mudar tanto assim, vá lá, mas Brasília perder a luminosidade dourada de maio e a secura esplendorosa de agosto e setembro é demais para as estações do meu viver. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">&nbsp;&nbsp;</span> </div>
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		<title><![CDATA[Você acredita em Brasília?]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45494</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 287px; height: 376px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/057d2121cf5450697d02287980bdbbb4.jpg" align="left">  <br><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Você acredita em Brasília?, perguntava um anúncio publicado na revista <span style="font-style: italic;">O Cruzeiro</span>, em 14 de novembro de 1959. Uma imobiliária anunciava a distribuição gratuita de mil lotes na Cidade Flor de Brasília, loteamento aprovado pela Prefeitura de Corumbá de Goiás. Quem se dispusesse a "ganhar" o lote deveria enviar 3,8 mil cruzeiros (moeda da época) em vale postal para Anápolis e esperar para receber os "papéis definitivos" do lote. </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45454</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 395px; height: 285px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/0651407ac32a51b951e9d573458d721c.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">As primeiras Setecentas</font> <br> <br> <br> <br></div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" id=":yv" class="ii gt"> <p><font size="6">Os riscos da superproteção</font></p> <p><font size="3"><span>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span> <br></font></p><p><font size="3"> <br></font></p><p><font size="3">O urbanista e arquiteto francês Philippe Panerai me abriu os olhos para uma realidade muito mais complexa do que a que eu conhecia. Panerai cultiva, aos 69 anos, a paixão pelas cidades. Acompanha suas mudanças, tenta entender o movimento de seus moradores, observa as alterações que vão surgindo com o passar dos anos. Escreve e publica livros a respeito e faz projetos de urbanismo.</font></p>  <p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p><font size="3"><span></span>Entrevistei Panerai na semana passada (com tradução da professora Sylvia Ficher), mas antes disso assisti a um seminário sobre Brasília, promovido pelo Docomomo, no Instituto Cervantes. Por certo era um francês que estava sentado à mesa, diante de um computador. Seria mesmo um francês? Ele conversava com a naturalidade de um brasileiro em mesa de bar. Não tinha poses nem ares afetados e distantes, como dizem ser os franceses – vi poucas espécies ao vivo. Sorria, crispava o rosto num momento de mais concentração, ficava vermelho. Tinha vida, o francês. </font></p>  <p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p><font size="3"><span></span>Boa parte da palestra foi dedicada à história de Paris. Ao final, o francês superpôs os mapas da pequena Paris e do Plano Piloto de Brasília para verificar que as duas cidades têm mais ou menos o mesmo tamanho. Em Paris, vivem aproximadamente 2,5 milhões de habitantes e no Plano, pouco mais de 300 mil.</font></p>  <p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p><font size="3"><span></span>Será que os vazios do Plano Piloto serenizam a alma brasiliense, mas afastam um brasiliense do outro?, me perguntei, depois de ouvir Panerai. Seria a<span>&nbsp; </span>imensidão do nada que nos engole a responsável por tão pouca cordialidade entre os brasilienses do Plano Piloto? Nos acostumamos tanto à ausência de gente grudada em gente que nos esquecemos que as cidades são um fuzuê de vida, mistura de cheiros, de calores, de barulhos, de desordens?</font></p>  <p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p><font size="3"><span></span>O francês já veio a Brasília mais de meia dúzia de vezes desde meados da década de 1980. É uma tentação para um urbanista acompanhar as mudanças na mais vasta experiência do urbanismo moderno do planeta. Um laboratório ao ar livre. Parece ter mais críticas ao projeto do doutor Lucio do que se permite expressar<span>&nbsp; </span>– a setorização excessiva é uma delas. O excesso de vazios outra.<span>&nbsp;&nbsp; </span><span>&nbsp;</span></font></p>  <p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p><font size="3"><span></span>Até bem pouco tempo, eu não deixaria um francês ferir a imagem idílica que tenho do projeto do Plano Piloto. Mas Philippe Panerai não é um estrangeiro qualquer. Ele perambula por Brasília muito mais do que a maioria dos brasilienses das áreas nobres. “Me faz ficar três horas em Planaltina, andando pra lá e pra cá”, conta Sylvia Ficher. Passou outro tempão percorrendo as casas das Setecentos para identificar as modificações que os moradores têm feito nas construções modernas.</font></p>  <p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p> <br><font size="3"><span></span></font></p><p><font size="3"><span></span>E alerta para o excesso de rigidez na ordenação da cidade. Especialmente agora que se quer regulamentar a ocupação das entrequadras comerciais. Se as exigências forem muitas, o pequeno comerciante não dará conta de suportá-las e todos vão migrar para Taguatinga. E os comércios entre as superquadras serão ocupados por sucessivas agências bancárias. O Plano Piloto é uma jóia que pede vida, movimento, pequenos comércios, pequenas surpresas. Do contrário, é jóia morta.<span>&nbsp; </span></font></p> </div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[Brasília da noite]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45325</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 337px; height: 222px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/75c4724629fef3eb6815f1d7591cdd7c.jpg"> <br> <br><img style="width: 339px; height: 229px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/64c0f9723e27bb95f5aa2cb2bf6db698.jpg"> <br> <br> <br><font size="6"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br>A fotógrafa brasiliense Bruna Neiva, de 23 anos, vai expor fotos de uma Brasília na qual poucos prestam atenção: é a Brasília noturna, escura, sem céu e sem arquitetura moderna. Brasília erma, mal iluminada, Brasília que é igual a qualquer outra grande cidade brasileira. Brasília de caminhantes solitários, de linhas retas, de luzes incertas. Uma Brasília que não está no cartão-postal, mas que é mais verdadeira das Brasílias, porque é a dos homens e mulheres comuns, 2,5 milhões, que há habitam. A exposição será inaugurada no próximo dia 8, às 20h, no hall de entrada do Cefor, Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara Federal, na via N-3, atrás dos anexos dos ministérios, do lado norte.&nbsp;  <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[Casas premiadas]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45163</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 377px; height: 283px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/29ff1f6a729f17bffbaf2d6861301897.jpg"> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" size="2">Casa em Atalaia, SP, a vencedora</font> <br> <br><img style="width: 370px; height: 278px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/39a81112aa754bac8cc8c9ba3c5290f4.jpg"> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" size="2">Projeto de casa na Serra da Cantareira, SP, menção honrosa</font> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br>Um projeto de casa ao mesmo tempo introspectiva e aberta para a cidade ganhou o 9º Prêmio Jovens Arquitetos 2009. O projeto em Atibaia, em São Paulo, é dos arquitetos Pedro Nitsche, Lua Nitsche e equipe.&nbsp; Uma casa na Serra da Cantareira, em São Paulo, do arquiteto Leonardo Shieh e equipe ganhou uma das menções honrosas. A casa da Cantareira se sustenta em pilotis, em terreno inclinado.&nbsp;  <br> <br> <br> <br>Todos os projetos premiados estão expostos no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, até 6 de setembro. Concorreram ao prêmio promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (SP), 97 trabalhos, dos quais 66 eram projetos e 31 eram de obras concluídas. Todos concorreram ao mesmo prêmio. A comissão julgadora esclareceu que procurou, dentro deles, “o gesto criador e as metodologias abordadas, além do simples atendimento aos programas, às vezes tão díspares encontrados nesta premiação, como uma capela, uma fábrica, uma escola e uma casa”. Para saber mais, <a href="http://www.iabsp.org.br/">clique aqui</a>. <br> <br>&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45162</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 404px; height: 300px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/9ebdf3eefc1fa915f812c2b80fceafce.jpg"> <br><font size="3"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br><font size="6"> <br>Belo e solitário </font> <br> <br> <br> <br> <br>Dias terríveis viriam, ele sentiu pelo cheiro de terra mesclado de cheiro de óleo e de homens. Quando os tratores chegaram rugindo pressa e abrindo clareiras vermelhas no cerrado, um dos mais antigos habitantes do lugar desconfiou que dali em diante nunca mais seria a mesma coisa. Foi um baita susto para uma população que, especulam os cientistas, habita o planeta desde o tempo das eras glaciais. Ele é parente dos lobos, dos cães e das raposas. É o maior dentre eles. Juntos eles compõem uma família — a dos mamíferos digitígrados, que têm esse nome porque andam sobre os dedos. <br> <br> <br> <br> <br>Tem família, mas prefere a solidão. Não gosta de turma, de bando, de multidão nem de conversê. Como os índios, necessita da imensidade da terra para caminhar, caçar, viver. Nos tempos paradisíacos, um único casal dava conta de percorrer uma área de 300 quilômetros quadrados neste cerrado infindo de meu Deus. Cercados pelos homens, pelas máquinas e pelas plantações extensivas e devoradoras de chão, abatido pelos caçadores, atropelados nas rodovias, eles foram sendo dizimados. <br> <br> <br> <br> <br>Quem aqui chegou bem no começo da construção da nova cidade viu de relance o lobo-guará. Bicho arredio, dizem que muito tímido, não ataca o homem. Prefere seguir seu caminho trilhando a solitude das longas caminhadas noturnas. É monogâmico, mas não vive grudado na parceira. Os encontros acontecem somente para a procriação. São os mais belos entre os seus parentes próximos, o lobo, o cão e a raposa. Têm os pelos cor de laranja-avermelhada. Ao sol, a pelugem brilha que nem cobre ruborizado. As pernas esguias sustentam com impressionante elegância o corpo reluzente. O focinho afilado combina à perfeição com pelos e pernas, e dão a ele o garbo e a altivez próprios do lobo-guará. <br> <br> <br> <br> <br>Apesar da bocarra, parecida com a de um cão pastor-alemão, suas mandíbulas não suportam grandes esforços. Por isso, apesar de ser um bicho de porte considerável, o lobo-guará prefere um cardápio mais delicado: roedores, pássaros, ovos, insetos, frutas silvestres, peixes, rãs. Peixes, rãs? É o lobo-guará é um exímio nadador, ainda que aparentemente desajeitado, dadas as pernas muito finas e longas. Carne, ovos e frutas — dieta completa, a o bicho de lindos cor de quentura. Mas seu prato preferido é a lobeira e há razões terapêuticas para a escolha. A fruta-da-loba age contra o verme-gigante-dos-rins, doença fatal para o lobo-guará.  <br> <br> <br> <br> <br>O bicho cor de fogo mede até 1,45 de comprimento e 80 centímetros de altura e pesa não mais de 25 quilos, em média. Está na lista dos animais em risco de extinção. Eles não se reproduzem facilmente em cativeiro. Pesquisadores tentam cloná-lo. Apesar de tão belo e tão único, nunca mereceu dos brasileiros a admiração dedicada, por exemplo, aos animais africanos. O lobo-guará é o animal que eu queria ser. <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Flor do céu]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=45098</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e83e0e55c589373eb8333ba4e72303cb.jpg"> <br> <br> <br><font style="color: rgb(102, 102, 102);" size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);">Antoine Le Menestrel&nbsp; é um francês que vive de escalar o céu. Faz evoluções em paredes urbanas, transforma o concreto em poesia, a vida urbana em espetáculo. Ele esteve em Brasília na semana passada e fez evoluções nos prédios anexos ao Senado. Marli Silva, copeira do Iterligis, ganhou uma flor do artista que desceu do céu para presenteá-la. As fotos são do José Varella/DA Press. <br></div> <br>&nbsp;&nbsp;  <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=44999</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<![CDATA[
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		<img style="width: 279px; height: 318px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/581df409fd67f39036c1abdab02e6fc4.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2"><span style="font-style: italic;">As meninas</span>, de Velasquez (1656)</font> <br> <br><font size="6"> <br> <br>É menina ou menino?</font> <br> <br> <br> <br>O brutal espancamento da adolescente de 15 anos por duas outras garotas é uma história cheia de outras histórias, cada uma mais grave que a outra. Tratarei aqui apenas de uma, a que marca a diferença deste caso em relação a tantos outros que diariamente ocorrem na periferia da capital dos três poderes. Meninas espancando menina, meninas travestidas de feras, fazendo uso da força física, própria dos homens. Meninas-meninos.  <br> <br> <br> <br> <br>Há uns dois meses, assisti a uma cena que revela essa mesma absorção do papel de macho pelas mulheres. Foi num bar de classe média alta do Plano Piloto. Uma moça, de mais ou menos 30 anos, com o porte e as roupas de executiva, levantou-se para ir ao banheiro. Um dos três homens da mesa ao lado, de mesma faixa etária, porte e roupa de executivo, jogou a isca: <br> <br> <br> <br>— Já vai? <br> <br> <br> <br>Rapidamente fisgada, a moça balançou a cabeça e os cabelos longos se moveram em ondas de sedução.  <br> <br> <br> <br>— Vou ao banheiro. <br> <br> <br> <br>— Não demore que estou te esperando, o rapaz comentou com um sorriso de estremecer perna de executiva.  <br> <br> <br> <br>A moça então se perdeu: <br> <br> <br> <br>— Ih, vou demorar mais do que se fosse você. Homem não tem trabalho, é só…, e fez o gesto que você já está imaginando. <br> <br> <br> <br>O rapaz conseguiu esboçar um sorriso sem graça, mas seus dois amigos gargalharam.&nbsp; A moça se sentiu estimulada: <br> <br> <br> <br>— Mulher demora mais. Dependendo da roupa, dá um trabalhão e ainda tem de se equilibrar no vaso… (ela ensaiou o movimento que você também está imaginando).&nbsp;  <br> <br> <br> <br>Os dois amigos continuaram a gargalhar — era a única saída! E o do xaveco tentava se esconder no sorriso amarelo.  <br> <br> <br> <br>Então a moça, que parecia ter bebido mais que o recomendável para a ocasião, seguiu em direção ao banheiro.  <br> <br> <br> <br>Ela não viu o que eu vi: a expressão de galhofa dos dois amigos e de desconcerto do que havia jogado a isca. Quando voltou do banheiro, a moça não encontrou mais o jogo de sedução. O rapaz estava de costas, inteiramente indiferente a ela.&nbsp;  <br> <br> <br> <br>A executiva do Plano Piloto e as adolescentes do Gama estão patinando no mesmo pântano: são homenzinhas.&nbsp; Na cruel competição para ganhar o jogo da vida, elas tomaram pra si as armas dos homens. E nem se lembram mais de que têm as suas, femininas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[É uma casa ou uma obra de arte?]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=44976</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		 <br> <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/3f57e73e118f2bdc03e07e5406ad7919.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2"><font size="3"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Parece a foto de uma obra de arte, mas é de uma casa, a do banqueiro Edemar Cid Ferreira, o ex-dono do Banco Santos, mecenas das artes acusado de uma coleção de fraudes financeiras. Fica no bairro do Morumbi, em São Paulo. O projeto da casa é de Ruy Ohtake e o desenho lembra muito os croquis dos projetos paisagísticos de Burle Marx. A cobertura da casa do ex-banqueiro têm espelhos d’água com pisos feitos de pastilhas italianas desenhas por Burle Marx (1909/1994). A casa tem nove metros de pé direito, cinco pavimentos e duas galerias de arte e uma biblioteca, uma minivila olímpica.&nbsp; Na casa faraônica há obras de Bruno Giorgi, Alfredo Ceschiatti, Di Cavalcanti, Manabu Mabe. A sala de estar, com espelhos de cinco metros de altura, tem um altar barraco restaurado.&nbsp;&nbsp; A foto é do fotógrafo de arquitetura <a href="http://leonardofinotti.blogspot.com/">Leonardo Finotti</a>, que se dedica, entre outros objetos de seu interesse, à obra de Niemeyer.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</font>&nbsp;  <br></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=44921</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 354px; height: 231px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/05d688f544402e32c095d1a83c9bc3e9.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br> <br><font size="6">No couro do outro</font> <br> <br> <br> <br>Foi meu amigo Severino Francisco quem me levou à descoberta que passo a descrever aqui. É a introdução de Darcy Ribeiro a Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Que delícia de prefácio, um pão-doce recheado de manteiga de boa qualidade com um café quentinho pra aquecer a alma. <br> <br> <br> <br> <br>Darcy e Gilberto tinham uma característica comum, entre outras: eram hiperbolicamente vaidosos. Não cabiam em si de vaidade. Espumavam borbolhas de glórias a si mesmo, o tempo todo e gozavam o puro êxtase quando elogiados. A vaidade é um dos defeitos humanos pelos quais tenho pouquíssima tolerância. O que, vivendo na capital dos poderosos, me obriga a um  <br>exercício constante de paciência.  <br> <br> <br> <br> <br>Mas uma coisa é ser um bem-sucedido qualquer e ser vaidoso e outra é se chamar Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre e nadar no mar das delícias do marketing pessoal. (Pessoal, mas vibrantemente coletivo, coisa que a vaidade com as quais cruzamos pelaí nem de longe é). <br> <br> <br> <br> <br>Pois Darcy começa a introdução a Casa Grande e Senzala tratando exatamente dessa comunhão dele com o pernambucano. “Gilberto Freyre tem uma característica com que simpatizo muito: Como eu, ele gosta que se enrosca de si mesmo. Saboreia elogios como a bombons, confessa.” Dizem que GF dedicava boa parte das conversas com amigos e tais a falar de si mesmo e a vangloriar suas obras e os elogios que elas recebiam.  <br> <br> <br> <br> <br>Não precisava ser assim, diz Darcy. “Afinal, não é só Gilberto que se admira. Todos o admiramos. Alguns de nós, superlativamente. Guimarães Rosa, o maior estilista brasileiro, nos diz que o estilo de Gilberto por si só daria para obrigar a nossa admiração. Mestre Anísio [Teixeira], o pensador mais agudo deste país, nos pede que antecipemos a Gilberto a grandeza que o futuro há de reconhecer nele, porque ficamos todos mais brasileiros com sua obra”. <br> <br> <br> <br> <br>Além de vaidoso, Gilberto Freyre era reacionário — “tacanhamente reacionário no plano político”, lembra Darcy. O que nos conduz a uma estupefação: “Como pôde o menino fidalgo dos Freyre; o rapazinho anglófilo do Recife; o moço elitista que viaja para os Estados Unidos querendo fazer-se protestante para ser mais norte-americano; o oficial de gabinete de um governador reacionário — como pôde ele — aparentemente tão inapto para esta façanha, engendrar a interpretação arejada e bela da vida colonial brasileira que é CG&amp;S”.  <br> <br> <br> <br> <br>Produzir a obra genial que produziu foi possível porque Gilberto Freyre fez um exercício genial consigo mesmo: “O ser antropológico permitiu a Gilberto sair de si, permanecendo ele mesmo, para entrar no couro dos outros e ver o mundo com olhos alheios. Trata-se de um caso de apropriação do outro numa operação parecida com a possessão mediúnica”. Essa agudeza em escutar o outro permitiu que ele escrevesse uma das obras fundadoras do país. O que me leva a concluir, sem nenhuma dificuldade, que o Brasil de hoje está sofrendo de surdez crônica e vaidade vazia. <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[Milton Ramos, o fiel]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=44938</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 439px; height: 276px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5397e895837af09de4cc10bfc1052cbd.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"><font size="2">Itamaraty em construção, foto do acervo de Milton Ramos <br></font> <br> <br> <br> <br> <br>Faz um ano que o arquiteto Milton Ramos morreu. Brasília ainda desconhece as obras que ele deixou na cidade e o quanto sua participação foi fundamental para a execução de pelo menos duas das obras mais importantes da cidade, o Palácio do Itamaraty e o Teatro Nacional. Foi ele quem detalhou os dois projetos a partir de traço de Oscar Niemeyer. No Itamaraty, Ramos trabalhou em parceria com o engenheiro de cálculo Joaquim Cardozo.  <br> <br> <br> <br> <br>Há muito mais obras de Milton Ramos na cidade: várias casas, entre as quais a que ele morou, no Lago Sul, os blocos das superquadras 407 e 408 (os JK, sem pilotis), o Oratório do Soldado, no Setor Militar Urbano, a sede do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, no começo da Asa Sul. O Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, é a obra mais importante do arquiteto fora de Brasília. <br> <br> <br> <br> <br>Na dissertação de mestrado Modernidades brasileiras: a obra de Milton Ramos, o arquiteto Carlos Henrique Magalhães resgatou a importância da atuação de MR na construção de Brasília e nos primeiros anos depois da inauguração. Magalhães concluiu que Milton Ramos foi “um homem leal, convicto, fiel a si mesmo e comprometido com as causas pelas quais se empenhou”. Para ler mais sobre o arquiteto, <a href="http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq110/arq110_01.asp">clique aqui.</a> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
		    <author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>

		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=44861</link>
		<!--<pubDate>Sexta-feira, 19 de março de 2010</pubDate>-->
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		<img style="width: 401px; height: 257px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e9b1eaac5cbc521430620ca319722257.jpg"> <br><img style="width: 401px; height: 256px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/c68d50bad1d3300b5961700e3887e443.jpg"> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);" size="2">A Praça da Revolução, com a estátua de Jose Marti, no alto, <br>e abaixo, o prédio com a imagem de Che</font> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; color: rgb(102, 102, 102);"> <br> <br><font size="6"> <br>O último sonho</font> <br> <br> <br> <br> <br>Minha amiga cubana que mora em Brasília tem um namorado argentino. O namorado dela tinha um avô que era socialista até o último fiapo de cabelo branco. Estava com 86 anos até dias atrás.  <br>Quando o avô socialista do namorado argentino de minha amiga cubana soube que o neto que vivia no Brasil estava namorando uma cubana que também vivia no Brasil, percebeu que finalmente havia chegado a hora. <br> <br> <br> <br> <br>O avô socialista do namorado de minha amiga pediu ao neto que o levasse a Cuba, fagulha de sonho que havia muito estava abandonada no esconderijo do esquecimento. A família do avô do namorado da minha amiga se reuniu para avaliar os gastos e os riscos de uma travessia do Caribe para um homem de 88 anos. Vale informar que não era um velhinho quase nonagenário qualquer. Era um argentino à moda dos velhos militantes de esquerda de um país que tem sangue de protesto nas veias. <br> <br> <br> <br> <br>A namorada cubana do neto argentino surgiu para reavivar os sonhos do velho, cansado e desiludido coração do avô socialista. Finalmente, passados quase 60 anos da revolução na ilha, o velho argentino iria conhecer o país dos rebeldes barbudos de Sierra Maestra. Um dos filhos ainda tentou, pela enésima vez, fazer o pai entender que aquela Cuba que ele imaginava não existia mais. Que o país de Raul era um território de muita miséria e nenhuma liberdade. Que ele iria se decepcionar com a ilha. Que os cubanos viviam em casas caindo aos pedaços, que os filhos da revolução esmolavam dólares nas proximidades dos hotéis de turistas estrangeiros, que… <br> <br> <br> <br> <br>O avô socialista respondeu que estava cansado de ouvir aquela toada anti-Fidel, que a imprensa imperialista manipulava as informações, que os companheiros cubanos haviam resistido bravamente aos ataques ianques… Que de nada adiantou a invasão da Baía dos Porcos, que os anticastristas de Miami são um bando de gananciosos ressentidos… E terminou dizendo que já tinha idade demais para mudar de ideia, muito menos para abandonar um sonho tão próximo de ser alcançado. Ele iria a Cuba e que ninguém tentasse impedi-lo.  <br> <br> <br> <br> <br> <br>Minha amiga tirou férias em julho passado e levou namorado e avô do namorado a Cuba. O avô socialista do namorado argentino de minha amiga cubana desceu no aeroporto de Havana como um empedernido companheiro de Fidel. Visitou a Praça da Revolução. Parou entre a estátua de Jose Marti e a imensa imagem de Che Guevara, argentino como ele. De uma lado, uma escultura em concreto, de um herói do século 19, o mártir da independência cubana. Do outro, o retrato do revolucionário argentino que entregou a vida à tentativa de mudar o mundo. O coração do avô socialista do namorado de minha amiga cubana não resistiu. Seu corpo foi enterrado em Havana.  <br> <br> <br></div> <br> <br>  
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