
"A questão do enriquecimento de urânio é o eixo da divergência, já que o urânio levemente enriquecido (entre 3 e 5%) é utilizado como combustível", escrevemos na pág. 14. Ops! Cadê o símbolo da percentagem? Ele tem de aparecer em todos os números. É questão de clareza: entre 3% e 5%.
Oba! Há vaga no Superior Tribunal Militar. Quem se sentará na cadeira de ministro? O general Raimundo Nonato ganhou a indicação. Em sabatina no Senado, pisou a bola: "Os quartéis não devem aceitar gays", disse sem pestanejar. Na mesma ocasião, o almirante Álvaro Luiz Pinto seguiu a trilha. Declarou não ter nada contra homossexual se "ele manter a dignidade". Ops! Eles esqueceram a Constituição. Nossa Carta proíbe discriminação.
Mais: Álvaro Luiz ignorou velha lição da escola primária. Em tempos idos e vividos, indicativo e subjuntivo estavam na ponta da língua da meninada. Hoje a história é outra. Ninguém ensina. Ninguém aprende. Uma das vítimas dos novos tempos são os derivados do verbo ter. Os infelizes sofrem maus-tratos na grafia e na conjugação.
A 3ª pessoa do presente do indicativo é freguesa dos descuidados (ele contém, eles contêm; ele retém, eles retêm; ele detém, eles detêm, ele mantém, eles mantêm). Outro freguês é o futuro do subjuntivo. Ao dizer "se ele manter", o almirante prova desconhecer o pai do sofisticado tempo. Trata-se da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo sem o am- final: eu tive (mantive), ele teve (manteve), nós tivemos (mantivemos), eles tiver (mantiveram).
Resumo da tragicomédia: tolerância e língua podem andar de mãos dadas. Cá entre nós — formam bela parceria.
Nessa altura da vida já não sei mais quem sou... Vejam só que dilema! Na ficha da loja sou CLIENTE, no restaurante, FREGUÊS, quando alugo uma casa, INQUILINO, na condução, PASSAGEIRO, nos correios, REMETENTE, no supermercado, CONSUMIDOR.
Para a Receita Federal, CONTRIBUINTE, se vendo algo importado, CONTRABANDISTA. Se revendo algo, sou MUAMBEIRO, se o carnê tá com o prazo vencido, INADIMPLENTE, se não pago imposto, SONEGADOR. Para votar, ELEITOR, mas em comícios, MASSA, em viagens, TURISTA, na rua caminhando, PEDESTRE, se sou atropelado, ACIDENTADO, no hospital, PACIENTE. Nos jornais, viro VÍTIMA, se compro um livro, LEITOR, se ouço rádio, OUVINTE. Para o Ibope, ESPECTADOR, para apresentador de televisão, TELESPECTADOR, no campo de futebol, TORCEDOR.
Se sou rubro-negro, SOFREDOR. Agora, já virei GALERA (se trabalho na Anatel, sou COLABORADOR) e, quando morrer... uns dirão... FINADO, outros... DEFUNTO, para outros... EXTINTO, para o povão... PRESUNTO. Em certos círculos espiritualistas serei... DESENCARNADO, evangélicos dirão que fui... ARREBATADO. E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL. E pensar que um dia já fui mais EU.
(Colaboração de Roberto Klotz)
Ops! Luziânia está em pânico. Jovens desaparecem sem deixar rastros. São seis garotos pobres sem passagem pela polícia. O desespero das mães lembra o movimento das mães da Praça de Maio. Enlouquecidas, elas exigiam notícias de filhos e netos presos pela ditadura militar. As mães goianas saíram às ruas da cidade. Não encontraram eco. Vieram a Brasília. Ocuparam a Esplanada dos Ministérios pra sensibilizar as autoridades federais.
O secretário de Direitos Humanos da Presidência da República sugeriu a ajuda da Polícia Federal. Os fardados de Goiás recusaram. Mas, 34 dias depois do primeiro sumiço, não mostram resultados. Sem linha de investigação, suspeitam de fuga de casa, trabalho escravo, tráfico de órgãos. E fica por isso mesmo. Vale a pergunta: se os desaparecidos fossem filhos de ministro, juiz, governador, o enredo seria esse? Não. Aqui, nem todos são iguais perante a lei. Há os mais iguais.
Não vale desanimar. Cartazes tomam paredes de ruas e praças de Luziânia. Em todos, sobressai um verbo. É procurar. O trissílabo deu nó no miolo dos redatores. A dúvida: "procura-se jovens desaparecidos" ou "procuram-se jovens desaparecidos"? Trata-se da velha passiva sintética. Jovens desaparecidos é o sujeito. O verbo, velho vassalo, concorda com o suserano. Muitos duvidam. Para sair da confusão, basta recorrer à passiva analítica. Aí, fica claro o mandachuva da oração: Procuram-se jovens desaparecidos (jovens desaparecidos são procurados). Vendem-se ovos (ovos são vendidos). Alugam-se casas na praia (casas na praia são alugadas). Consertam-se carros (carros são consertados).
"As famílias de Luziânia que vieram a Brasília pedir ajuda das autoridades terão de seguir sozinhas", escrevemos na capa. Tropeçamos na regência. Quem pede pede algo a alguém. Melhor: As famílias de Luziânia que vieram a Brasília pedir ajuda às autoridades terão de seguir sozinhas.
Que tal entrar no reino dos palavrões? Trata-se dos numerais ordinais. Primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, décimo são café pequeno. Não provocam insônia em ninguém. O problema reside nas cifras altas. O 999º gol do Romário torturou a cabeça de locutores e repórteres. Eles saíam pela tangente. Falavam em gol 999. Quebram o galho, mas mantêm a curiosidade. Como é mesmo?
Duas dicas
1ª — Os numerais ordinais variam em gênero e número: primeiro gol, primeiros gols, primeira bola, primeiras bolas.
2ª — Quase todos os algarismos se dizem e escrevem em ordinal. Todos eles, também, mandam o hífen pras cucuias: primeiro, oitavo, décimo primeiro, trigésimo quarto, centésimo terceiro, ducentésimo décimo primeiro.
A chave
A relação dos ordinais até bilhão? Ei-la: um (primeiro), dois (segundo), três (terceiro), quatro (quarto), cinco (quinto), seis (sexto), sete (sétimo), oito (oitavo), nove (nono), dez (décimo), onze (undécimo ou décimo primeiro), doze (duodécimo ou décimo segundo), vinte (vigésimo), vinte e um (vigésimo primeiro), trinta (trigésimo), quarenta (quadragésimo), cinquenta (quinquagésimo), sessenta (sexagésimo), setenta (septuagésimo), oitenta (octogésimo), noventa (nonagésimo), cem (centésimo), cento e um (centésimo primeiro), duzentos (ducentésimo), trezentos (trecentésimo), quatrocentos (quadringentésimo), quinhentos (quingentésimo), seiscentos (seiscentésimo ou sexcentésimo), setecentos (septingentésimo), oitocentos (octingentésimo), novecentos (nongentésimo), mil (milésimo), dez mil (dez milésimos), 100 mil (cem milésimos), um milhão (milionésimo), um bilhão (bilionésimo).
Ufa!
Abracadabra
Decifrado o enigma. Romário estava no nongentésimo nonagésimo oitavo gol. Antes de chegar ao milésimo, precisou passar pelo nongentésimo nonagésimo nono gol.
Por falar nisso…
"Na natureza nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma", disse Lavoisier. A língua, parte da natureza, segue a regra. Falamos em numeral? Valem duas observações. Uma: o primeiro dia do mês se escreve sempre em ordinal (primeiro de janeiro, primeiro de fevereiro, primeiro de abril). A outra: milhão, bilhão, trilhão se comportam como substantivo. Variam em número (um milhão, dois milhões; um bilhão, cinco bilhões; um trilhão, quatro trilhões).
Olha a armadilha 1
Assista a telejornal. Ouça notícias no rádio. Preste atenção ao papo de amigos, inimigos ou nem uma coisa nem outra. A colheita é uma só: baita tropeço no milhão. Por algum motivo que nem os orixás explicam, a moçada diz "duas milhões de crianças", "duas milhões de mulheres", "duas milhões de casas". É um soco no ouvido. Dá otite. Para poupar o pobre ouvinte, vale lembrar que milhão funciona como substantivo. O numeral concorda com ele: dois milhões de crianças, dois milhões de mulheres, dois milhões de casas.
Duvida? Tire a prova dos noves. Observe se alguém diz "uma" milhão. Mas espere sentado. Confortavelmente sentado.
Olha a armadilha 2
Dizer aniversário de um ano, aniversário de cinco anos, aniversário de 60 anos? Esquisito, não? A palavra aniversário contém ano. Pertence à família de anual, anuidade, anuário. Ano com ano é desperdício. Melhor: primeiro aniversário, quinto aniversário, sexagésimo aniversário.
À medida que = à proporção que: À medida que me aprofundo no estudo da língua, melhoro o desempenho na escola. Minha pronúncia se aperfeiçoa à medida que exercito o ouvido.
Na medida em que = tendo em vista: Foi desclassificado na medida em que teve de interromper a corrida antes do final. Chorou na medida em que se viu preterido pelo irmão.
Alguns costumam praticar adultério. Misturam o par de uma com o de outra. Nasce, então, um monstrinho — à medida em que. Chama-se cruzamento. Cruz-credo! Xô! Na hora da tentação, lembre-se do 8 ou 80. Uma expressão tem duas vezes a preposição em (na medida em que). A outra não tem nenhuma (à medida que).
"Era a maneira que o jornalista encontrou de botar um ponto final no episódio", escrevemos na pág. 9. Ops! Pisamos a correlação verbal — imperfeito com imperfeito ou perfeito com perfeito. Assim: Era a maneira que o jornalista encontrava de botar ponto final no episódio. Foi a maneira que o jornalista encontrou de botar ponto final no episódio.
Ernesto Silva foi pro céu. Lá do alto, não abandonará a filha. Ele chegou ao Planalto Central antes de JK. Aqui, promoveu o concurso para construção do Plano Piloto. É por isso chamado "o pioneiro do antes". Ao longo de 55 anos, zelou pela integridade da cidade tombada pela Unesco. Lá do alto, continuará atento. Cá embaixo, os brasilienses agradecem. Ela diz obrigada. Ele, obrigado. Elas, obrigadas. Eles, obrigados. Nós, 2,5 milhões de habitantes, obrigados.
Por falar em agradecer, olho na regência. Quem agradece agradece a alguém por alguma coisa. O alguém é objeto indireto. Na troca pelo pronome, o lhe pede passagem: Agradeço ao dr. Ernesto Silva pela defesa de Brasília. Agradeço-lhe pela defesa de Brasília. Agradeço a Deus por ter mantido o dr. Ernesto Silva entre nós. Agradeço-Lhe por ter mantido o dr. Ernesto entre nós.

"Ah, se eu pudesse! Pisaria a língua todos os dias. Em troca, receberia chuvas de aplausos", suspiram, invejosos, milhões de brasileiros. E explicam: "Drummond, que é Drummond, abusou das liberdades poéticas. Quando a diva do teatro nos abandonou em 1969, o mestre mineiro escreveu: `Cacilda Becker morreram´. O verso comoveu Europa, França e Bahia. Mas dá uma baita trombada na concordância. O poeta errou?"
Claro que não. Ele tem licença poética. Privilegiado, pode mandar as regras pras cucuias. A norma, pra ele, é libertação. Nunca camisa-de-força. Entre as tantas possibilidades que a língua oferece nenhuma serve? Pau nelas. Criam-se saídas. Com o simples plural do verbo, Drummond deu o recado. Cacilda é muitas. Não morreu uma atriz. Morreram as multidões de atrizes que viviam dentro dela.
Alto lá, cara pálida
Qual o limite da licença-poética? O nome da figura diz tudo. Trata-se de concessão ao artista. É privilégio para quem galgou os degraus do conhecimento. Todinhos. E, lá de cima, pode mover-se em qualquer direção. O assunto freqüenta os cursos de comunicação. Alunos de publicidade esperneiam. Negam-se a se submeter ao rigor da norma. "Com ela a gente não chega a lugar nenhum", dizem. Será? Propaganda do Guaraná Antarctica prova que não. Ei-la:
Procuram-se garrafas antigas de Guaraná Antarctica. Uma comunidade na internet encontrou pistas de que diversas garrafas de Guaraná Antarctica estão escondidas há muito tempo pelo Brasil. Elas contêm pedaços de um mapa que é chave de um grande segredo. Ajude-nos. Oferecemos recompensa. Mais detalhes, procure-nos no site.
Meus respeitos, língua
O texto está nas páginas de jornais e revistas. Vende o produto e homenageia a língua. Tropeçou em cinco dificuldades. Ultrapassou-as. Quer ver?
Procuram-se garrafas antigas
Que colírio! O autor sabe lidar com a passiva sintética. Garrafas antigas é o sujeito. O verbo, velho vassalo, concorda com o suserano. Muitos duvidam. Para sair da confusão, basta recorrer à passiva analítica. Aí, fica claro o mandachuva da oração: Procuram-se garrafas antigas (garrafas antigas são procuradas). Vendem-se ovos (ovos são vendidos). Alugam-se casas na praia (casas na praia são alugadas). Consertam-se carros (carros são consertados).
Internet
Quando nasceu, internet era sigla (escrevia-se com a inicial maiúscula). Era a forma preguiçosa de international net. Em bom português: rede internacional de computadores. Com o tempo, entrou no time das mídias. É como jornal, revista, rádio ou tevê. Perdeu o privilégio da inicial maiúscula. Tornou-se a vira-lata internet.
Há muito tempo
Viva! É contagem de tempo passado? O verbo haver pede passagem: Cheguei há pouco. O comércio abriu há duas horas. Os eleitos de outubro assumiram o poder há 100 dias.
Trata-se de futuro? Só a preposição a tem vez: Daqui a pouco chego aí. A dois meses das festas juninas, o Nordeste ensaia as quadrilhas e os casamentos na roça. A que horas você pode sair? Só daqui a meia hora.
Elas contêm
Vítimas da má escola? Há muitas. Uma delas: os derivados do verbo ter. Os infelizes sofrem maus-tratos na grafia e na conjugação. A 3ª pessoa do singular e plural do presente do indicativo é freguesa dos descuidados. Vale a pena ver a forma nota mil: ele contém, eles contêm; ele retém, eles retêm; ele detém, eles detêm.
O futuro do subjuntivo chora, chora, mas ninguém se comove. É "se ele se deter" pra cá, "se eu me manter pra lá", "se você se conter" pra todos os lados. A turma esqueceu (ou nunca aprendeu) que o pai do futuro do subjuntivo é conhecido. Trata-se da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo sem o am- final:
Pretérito perfeito: eu tive, ele teve, nós tivemos, eles tiver(am)
Futuro do subjuntivo: seu eu detiver, ele detiver, nós detivermos, eles detiverem; se eu mantiver, ele mantiver, nós mantivermos, eles mantiverem; se eu contiver, ele contiver, nós contivermos, eles contiverem.
Mais detalhes
A moçada costuma dizer "maiores detalhes". Cruz-credo. Detalhe não se mede por metro. A gente quer mais detalhes. Quer também mais informações, mais trabalho, mais dinheiro.
Resumo da ópera: texto jornalístico e língua portuguesa podem andar de mãos dadas. Cá entre nós — formam bela parceria.

DAD SQUARISI // dadsquarisi.df@@dabr.com.br
No noticiário da semana três fatos chamam a atenção. Na aparência são independentes. Mas, observados a fundo, apresentam um denominador comum. Trotes escolares, risco de epidemia de dengue e aumento da violência no trânsito não constituem novidade. O assunto ocupa periodicamente as manchetes de jornais, rádios e tevês. Especialistas falam sobre o tema, editoriais pedem providências, articulistas gastam o verbo e a paciência na análise do comportamento irracional.
Nada, porém, inibe a conduta desatinada. No início do período letivo, a barbárie de universitários veteranos contra novatos remete à bestialidade da Idade Média. Donos de casa que se negam a colaborar na prevenção do avanço do mosquito da dengue põem em risco a própria saúde e a saúde de brasileiros dos cinco cantos do país. Motoristas que aliam o álcool à direção assinam a sentença de morte de adultos e crianças.
Vale a questão. Por que a condenação pública não inibe os atrevidinhos de plantão? Pior: torna-os mais violentos e desdenhosos? A resposta é uma só — impunidade. Se os estudantes tivessem a certeza de que seriam expulsos da universidade e parariam na cadeia, reprisariam o degradante espetáculo? É quase certo que não. Hoje, como nada acontece, humilham, espancam, queimam, submetem o outro a situação degradante. Não se constrangem de chutar a barriga de grávidas. Ou de jogar na piscina colega que não sabe nadar. Ou de levar à morte jovens obrigados a consumir drogas além do limiar de tolerância.
No país do jeitinho há sempre indulgência para os que violam a lei. É diferente de nações em que as leis devem ser cumpridas. Em Viena, por exemplo, a Lei do Silêncio impera a partir das 22h. Se alguém "se esquece" e puxa a descarga às 22h05, não dá outra. Em 15 minutos, a polícia chega. Caso o mesmo rigor vigorasse por aqui, o enredo seria outro. Ante as intensivas campanhas de esclarecimento público, negar-se a tomar medidas para evitar a proliferação do Aedes aegypti é algo próximo ao crime de desobediência civil. A conduta deveria ser punida com multa pesada. Motorista que transforma o carro em arma? Na Inglaterra ele tem uma só oportunidade. Safar-se custa tempo, dinheiro e …cadeia. Limpar a ficha? Jamais.
"Se Deus quisesse me levar, ele não precisaria do câncer", escrevemos na pág. 5. Ops! Peçamos perdão ao Senhor. Pronome que substitui Deus ganha divindade. Escreve-se com a inicial maiúscula: Se Deus quisesse me levar, Ele não precisaria do câncer.
Ivanildo Guilherme de Albuquerque Silva escreve: "O post `A escolha é sua´ merece esclarecimentos. Ali se declara que `os pernambucanos exigem o artigo´ quando se referem à cidade do Recife. Permita-me dizer que os pernambucanos exigem o que é correto. Posso explicar: nos meados do século 16, os viajantes, os cronistas, as autoridades chamavam a nossa cidade de `Os arrecifes dos navios´, numa referência à formação rochosa existente nas imediações do porto. Recife é corruptela de arrecifes. Estes são acidente geográfico, como o rio, a ilha, a baía, o golfo, a lagoa. Ninguém diz `eu moro em Rio de Janeiro, em Bahia, em Ilha do Governador´. Se a maioria dos brasileiros prefere em Recife, talvez se deva ao fato de não atentarem para a regra. Espero ter convencido a todos".
Ivanildo, é possível que se tenha perdido a memória da origem do nome da cidade. Os dicionários abonam as duas formas. O Houaiss, na definição de recifense, diz "natural de Recife". O Aurélio, "natural do Recife". O falante escolhe.
"Banco Central regulamenta megasalário", escrevemos na pág. 12. Ops! Tropeçamos na pronúncia. Um s entre duas vogais soa z. Megazalários? Não. Melhor dobrar o s: megassalário.
Passageiros leram o anúncio. Levaram baita susto. Passada emoção, tiveram de explicar a razão da tremedeira. O porquê estava no anúncio. Você sabe identificá-lo?
a. acentuação gráfica
b. crase
c. emprego das maiúsculas
d. pontuação
Faça a sua aposta. A resposta? É a letra d. Por quê?
Os visitantes do post apontaram dois acentos. Um deles tem perdão. Trata-se de "vôo". O outro é perdição total. Nem o Senhor, cujo único vício é perdoar, pode atenuar o delito. Ei-lo: "de Brasília à Atlanta".
Com perdão
A reforma ortográfica cassou o chapéu do hiato oo. Os velhos vôo, perdôo, abençôo ganharam nova cara. Tornaram-se voo, perdoo, abençoo. Mas a nova regra só será obrigatória em 1º de janeiro de 2013. Até lá, as duas normas convivem sem atritos.
Por que, então, os leitores reagiram? A resposta chama-se hábito. A imprensa adotou a reforma no primeiro dia de 2010. Os olhos se acostumaram a ver a nova grafia. Como ortografia é fixação, elas estranharam o circunflexo. Deu a impressão de coisa velha, ultrapassada. E é. Mas é correta.
Sem perdão
Ocorre crase antes de nome de cidades? Vou a Atlanta? Vou à Atlanta? Eta dor de cabeça. No aperto, a gente chuta. O resultado é um só. A Lei de Murphy, gloriosa, pede passagem. O que pode dar errado dá. O anúncio serve de prova.
Como safar-se? Há saídas. Uma delas: seguir o conselho dos políticos. "Para vencer o diabo", dizem eles, "convoque todos os demônios." Um demoniozinho se chama troca-troca. Construa a frase com o verbo ir. Depois, substitua o ir pelo indiscreto voltar. Por fim, lembre-se da quadrinha:
Se, ao voltar, volto da,
crase no a.
Se, ao voltar, volto de,
crase pra quê?
O calcanhar de aquiles da crase não reside na regência. Reside no artigo. Nem sempre sabemos se o nome da cidade pede ou não o pequenino. O verso quebra o galho. O da, casamento da preposição de com o artigo, denuncia a presença do a. Vamos ao tira-teima:
Vou a Atlanta? Vou à Atlanta?
Volto de Atlanta.
Se, ao voltar, volto de, crase pra quê? Sem artigo, nada de crase:
Vou a Atlanta.
Vai além
O versinho não se restringe a nome de cidades. Aplica-se também a bairros, estados, países. Fui a Ipanema? Fui à Ipanema? Fui a Paraíba? Fui à Paraíba? Fui a França? Fui à França? Fui a Portugal? Fui à Portugal? Recorramos ao troca-troca:
Voltei de Ipanema. Fui a Ipanema.
Voltei da Paraíba. Fui à Paraíba.
Voltei da França. Fui à França.
Voltei de Portugal. Fui a Portugal.
Resumo da opereta? O anúncio teria merecido nota 10 se estivesse escrito assim: Novo voo (vôo) direto de Brasília a Atlanta.
"Juntando a esse fator a alta incidência de sol, temos ambiente propício para as algas se proliferarem", escrevemos na pág. 19. Ops! Esquecemos pormenor pra lá de relevante. Proliferar é verbo solitário. Não aceita, nem a pedido do andar de cima, a companhia do pronome. Melhor respeitar-lhe a manha: Juntando a esse fator a alta incidência de sol, temos ambiente propício para as algas proliferarem.
Sempre fico na dúvida com alguns homônimos. Alguma dica para que eu não esqueça mais quando devo usar sessão, seção e cessão? (Thomás Caixeta)
Thomás, a dúvida é sua e de meio mundo. Vamos acabar com ela? Guarde estas dicas:
Cessão, seção e sessão jogam no time dos homófonos. Têm a mesma pronúncia, mas grafia e sentido diferentes. Por isso causam desentendimentos, dores de cabeça e não poucos vexames. Vamos pôr ponto final na farra?
Cessão é substantivo derivado do verbo ceder. Ambos começam com a mesma letra: O cartório registra a cessão dos bens. A cessão de direitos é assunto complicado. O caso trata da cessão de propriedade.
Seção é a parte de um todo. Quer dizer divisão. No supermercado, há a seção de frutas, a seção de material de limpeza, a seção de bebidas. Na loja, a seção de roupas infantis, a seção de roupas femininas, a seção de roupas masculinas. Na farmácia, a seção de cosméticos e a seção de remédios.
Sessão é o todo. Dá nome ao tempo que dura uma reunião, um espetáculo ou um trabalho: sessão de cinema, sessão do Congresso, sessão de terapia.
Dica: o todo é maior que a parte. Por isso, sessão tem seis letras; seção, cinco.
***
Como diferenciar oração sem sujeito e sujeito indeterminado? (Leandro Lima Valença)
Leandro, se você desvendar o segredo de um, o outro fica fácil, fácil. Tão fácil quanto tirar chupeta de bebê. Vamos lá?
As orações sem sujeito são construídas com verbos muito especiais. Eles, de uma forma ou de outra, têm relação com o tempo. Veja:
verbos que indicam fenômenos da natureza (chover, nevar, relampejar, amanhecer, anoitecer): Chove muito no verão. No Brasil, raramente neva. Relampejou ontem à noite? No horário de verão, amanhece tarde em Brasília. Puxa! Já anoiteceu?
verbos ser, fazer e haver quando indicam contagem de tempo: São duas horas. Faz dois anos que visitei a França. Cheguei há cinco horas.
Verbo haver no sentido de existir ou ocorrer: Há (existem) duas pessoas na sala. Durante a manifestação, houve (ocorreram) vários confrontos com a polícia.
Olho vivo, Leandro. Os verbos impessoais podem se tornar pessoais. Basta ganharem sujeito. Aí, perdem o privilégio. Têm de concordar com o sujeito. Quer ver? Choveram aplausos depois do discurso (suj. aplausos). Hoje amanheci cheia de disposição (suj. eu). Paulo fez 20 anos (suj. Paulo).
O sujeito indeterminado joga em outro time. No caso, alguém pratica a ação. Mas, por conveniência ou ignorância, ele não é referido. Trata-se de ótimo recurso pra fofocas. Observe o diálogo travado entre Luís e Maria.
Maria diz:
-- Luís, falaram mal de você.
-- Quem falou?
-- Ah, falaram.
Viu? Maria sabe quem andou manchando a reputação do Luís. Mas contou o milagre sem citar o santo. Como? Recorreu à 3ª pessoa do plural.
O pronome se também se presta pra indeterminar o sujeito — mas só com verbos intransitivos ou transitivos indiretos: Come-se bem em Brasília (intransitivo). Dorme-se mal no calor (intransitivo). Precisa-se de pedreiros (transitivo indireto).
Os transitivos diretos acompanhados do se formam a voz passiva sintética. Têm sujeito e precisam concordar com ele: Vende-se esta casa. Vendem-se todas as casas da rua. Conserta-se carro. Consertam-se carros. Corrigiu-se o erro. Corrigiram-se os erros.
***
Quando e como posso usar travessões para destacar uma frase importante?
(Ana Luísa Lopes)
O travessão (—) é muito versátil. Como Bom Bril, tem mil e uma utilidades. Entre elas, destaca um termo opaco, escondido. Dá realce ao sem-graça. No caso, substitui a vírgula ou os dois pontos. Compare:
Lula conseguiu, até, a adesão dos adversários.
Lula conseguiu — até — a adesão dos adversários.
Brasília, a capital do Brasil, vai completar 50 anos.
Brasília — a capital do Brasil — vai completar 50 anos.
Eis o grande vencedor: o filme que faturou 300 milhões de dólares.
Eis o grande vencedor — o filme que faturou R$ 300 milhões.
O estado de São Paulo, o mais afetado pelas chuvas, precisa de obras de infraestrutura.
O estado de São Paulo — o mais afetado pelas chuvas — precisa de obras de infraestrutura.
Usa-se travessão com vírgula? Só num caso. Se o segundo travessão coincidir com a vírgula:
Depois da vitória do governista — com mais de 50% dos votos —, o padrinho sentiu-se forte como Tarzã.
Viu? Sem o travessão, só haveria a vírgula final:
Depois da vitória do governista com mais de 50% dos votos, o padrinho sentiu-se forte como Tarzã.
Quando saiu de casa — lá pela meia-noite —, deixou a família reunida. (Quando saiu de casa lá pela meia noite, deixou a família reunida.)
Deu para entender? O casamento da vírgula com o travessão é raro como viúvo na praça. Não confunda. No caso em que podem aparecer duas vírgulas em vez dos dois travessões, a vírgula não tem vez:
Redigir — na definição do Aurélio — é escrever com ordem e método. (Redigir, na definição do Aurélio, é escrever com ordem e método.)
Use. Mas não abuse. Coloque apenas dois travessões no mesmo parágrafo. Mais que isso desorienta. Deixa o leitor confuso como cego em tiroteio.
"Estranhei o fato de a senhora ter escrito `Entra, Zilda. Você não precisa pedir licença´, no blog. Sabe a senhora, muito bem, que o correto seria `Entra, Zilda. Tu não precisas pedir licença´. Ou `Entre, Zilda. Você...´. Erros como esse são comuns na mídia. Responsável por uma coluna cujo objetivo principal é esclarecer erros de português, não deveria a senhora abonar tais assaltos a nossa bela e maltratada língua. (Manoel Vasconcellos)
O título foi inspirado no poema "Irene no céu", de Manuel Bandeira. Lembra-se dele? Ei-lo: "Irene preta / Irene boa / Irene sempre de bom humor. / Imagino Irene entrando no céu: / — Licença, meu Branco? / E São Pedro bonachão: / — Entra, Irene / Você não precisa pedir licença.
Lula estava em Recife ou no Recife? Você escolhe. Os pernambucanos exigem o artigo. Diante deles, não bobeie. Diga o Recife. Os demais brasileiros preferem Recife. Mas aceitam o Recife numa boa.
Era uma vez…
Uma galinha descansava num poleiro bem alto. Lá de cima, viu a raposa entrar no galinheiro. A penetra olhou pra lá e pra cá. Estava morta de fome. Queria encontrar uma ave descuidada pra encher a barriga.
Quando viu a dona da casa, vibrou. Pra lá de feliz, disse com voz macia. Parecia uma mãezona:
— Minha querida, soube que você está doente. Desça. Quero lhe dar um remedinho.
— Estou gripada. Mas não sou boba. Se descer, vou direto pro seu papo. Tire o cavalinho da chuva. Suma daqui.
Decepcionada, a raposa pôs rabinho entre as pernas. Partiu pra outra.
*
De vez em quando a gente tem de ser esperto, não é? Vale o exemplo do Luiz. Ele era capitão do time da escola. O Paulo era da outra escola. As duas equipes iam disputar o campeonato. Na véspera do jogo, o Paulo foi visitar o Luiz. Queria saber se todos os atletas iriam jogar. Luiz disse que não tinha decidido ainda.
*
Moral da história: Desconfie de inimigo que se finge de amigo.
Edison Rodrigues-Chaves escreveu: " Hoje, 29 de janeiro, na pág.17, encontrei um erro no lead: `O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ameaçou ontem dar uma resposta ‘radical’ a quem tentar lhe tirar do poder´, diz o texto. O correto seria `tentar tirá-lo do poder´. Ou `tentar lhe tirar o poder´ ". Viu? Trata-se da velha regência. Tira-se alguém de algum lugar. Ou tira-se alguma coisa de alguém.
Garganta inflamada, suor frio, dor no peito perseguiram Lula o dia inteiro. Ele desdenhou os sintomas. Altas horas da noite, não deu pra segurar. O homem passou…mal? Mau? A resposta está no contrário. O antônimo de mal é bem; de mau, bom: Lula passou mal (bem). Lula é mau paciente (bom). Lula é mal-humorado (bem-humorado). Lula sofre de mau humor (bom humor).
É assim
O plural de mal-estar? É mal-estares.
Brasileirinha da silva
Lula passou mal. Diagnóstico: estresse. Viu? A inglesinha stress ganhou nacionalidade brasileira. E deu filhotes. Entre eles, estressar e estressado.
"Há palavras que surgiram para ser cortadas. Se você escreve 10 horas, duas você passa realmente escrevendo. As outras, cortando."