12 de novembro de 2008

"Hoje, eu vou mudar"

A triste história de uma consumidora compulsiva de auto-ajuda



Maria Luísa nasceu para brilhar. Em sua mesa de cabeceira, avolumavam-se livros de Lair Ribeiro, revistas com dicas para conseguir o amor ideal, duas velas que prometiam eliminar a energia negativa do ambiente, além do DVD de “O Segredo”, assistido religiosamente toda a semana. Após se arrumar para o trabalho, Maria Luísa encarava a porta e dizia para si mesma, como um mantra:

 

“Esta semana, minha vida vai mudar”.

 

Domingo, 8 horas da noite, música do Fantástico toca ao fundo.

 

Maria Luísa teve uma semana como outra qualquer. Ela não conseguia prestar atenção em nada de diferente. Nada. Tudo aconteceu do jeito que sempre acontecia. E ela fez tudo exatamente como estava acostumada a fazer. Bom, não foi dessa vez que sua vida mudou.

 

Segunda-feira, 8 horas da manhã.

 

Maria Luísa acorda, toma seu café, repete 10 vezes para si, em frente ao espelho: “sou poderosa, mereço o melhor”, arruma-se, mentaliza tensa todas as imagens positivas que puder: cavalos correndo pelo campo, Gustavo Cielo batendo recorde na Olimpíada de Pequim, Obama gritando “Yes, we can”, enfim. Estava pronta para mais uma semana.

“Esta semana, minha vida vai mudar”.

 

Domingo, 8 horas da noite, música do Fantástico toca ao fundo.

 

Segunda-feira, 8 horas da manhã.

 

Tudo igual.

 

Mas esta segunda-feira promete. Maria Luísa repete freneticamente, em frente ao espelho: “sou uma super executiva, mereço o melhor MESMO”, arruma-se, imagina-se vencendo as eleições presidenciais americanas, grita para si mesma: “eu vou conseguir a porra da promoção, o amor da minha vida e uma viagem para Nova York!!!”.  Estava pronta para mais uma semana. Chega à porta e pensa:

 

“Esta semana, minha vida vai mudar DE QUALQUER JEITO”.

 

Domingo, 8 horas da noite, música do Fantástico toca ao fundo.

 

Segunda-feira, 8 horas da manhã.

 

Maria Luísa acorda histérica. Põe o “We are the champions” para tocar no aparelho de som em altura máxima, pula vinte vezes em torno de seu próprio eixo para ativar a circulação do cérebro (dica da semana) e grita para si mesma: “EU SOU UMA OUTRA PESSOA”. Tensa, Maria Luísa chega à porta, pára e olha.

 

E continua olhando.

 

Maria Luísa fica parada.

 

E...

 






Maria Luísa não conseguia mais sair de casa.

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06 de novembro de 2008

Capina, menina, capina...


Mãe descobre revolucionário método para problemas "aborrecentes"



Duas horas de discussão entre Patrícia e sua mãe, depois …

Patrícia- … e asenhora não sabe como é difícil minha vida naquele estágio que meu pai mearrumou! Sou perseguida por todos lá dentro! Não é fácil, viu mãe? Olha, tododia tem alguém me alfinetando, me jogando indiretas, fora Camilinha, que meodeia e está fazendo de tudo para queimar meu filme com o Lucas. Nossa,impressionante como tem gente que não presta nesse mundo, sabia?
Mãe (com vozde preguiça) - Para você, ninguém presta neste mundo, Patrícia… Basta lhedesagradar…
Patrícia - Asenhora realmente não me leva a sério, não é, mãe? Impressionante… O que eu tefiz, hein? Por que, afinal, você resolveu engravidar de mim? Era para se sentirsuperior? Bem que eu li na Galileu um artigo sobre mães que, não se sentidocompletas como mulheres, resolvem descontar sua infelicidade nas filhas. Issofoi muito pesquisado por Darwin, no início do século XX, sabia mãe?
Mãe (com vozde mais preguiça ainda) - Darwin viveu no século XIX, Patrícia, e ele nempesquisou o comportamento humano… Onde você leu essa bobagem, minha filha?
Patrícia (com arirônico) - Nossa, como a senhora gosta de me humilhar, hein? Fico besta com suaperseguição contra minha pessoa! Sabe de uma coisa? A única amiga verdadeiraque tenho na vida é a Dani, que sempre se revelou uma grande amiga!
Mãe (com vozde enorme preguiça) - A Dani nem sabe qual curso você freqüenta na faculdade,Patrícia…
Patrícia (violentamente)- Pára, mãe! Pára de perseguir meus amigos! O que eu te fiz, meu Deus!
Mãe(levantando-se da poltrona) - Ai, Patrícia… Chega!

(silêncio)

De repente, a mãe levanta-se e tem uma visão. Em um momentode iluminação, ela olha nos olhos de Patrícia.


(silêncio)


Mãe (em vozsolene) - Patrícia, eu tenho um sonho.
Patrícia(intrigada) - Qual, mãe? Ih… Você está estranha….
Mãe(visionária) - Queria que eu, você e seu pai morássemos em uma grande casa eque, nela, existisse um enorme jardim… Um jardim imenso, grande como um campode futebol, onde a grama estivesse enorme e as plantas, mal cuidadas. Um lugarque exigisse, urgente, da intervenção de um jardineiro… Isso! Queria ter ojardim mais feio do mundo!
Patrícia (maisintrigada) - Credo, mãe! E para quê você queria ter o jardim mais feio domundo!
Mãe (com umenorme sorriso de felicidade) - Para que eu, finalmente, pudesse lhe dar opresente de aniversário perfeito…
Patrícia (muitointrigada) - Sério?! E qual é?!?!
Mãe - Umaenxada. Assim você teria bastante trabalho e pararia de pensar tanta bosta.

Patrícia faz cara de choro e sai da sala, correndo, emdireção ao quarto. Lá, ela se tranca e se conecta à internet para sempre. Ouaté sentir fome.

A mãe caminha em direção ao pai de Patrícia, que estava longe, prestandoatenção à conversa.

Mãe -Esses meninos de hoje são complicados demais, Oswaldo…
Pai
-Culpa da televisão…


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04 de novembro de 2008

Kbças vaum rolar

O caso do empregado que foi parar na guilhotina pela internet

 



Paulo Luís Carvalho trabalhava em uma empresa de desenvolvimento de softwares. Em função da natureza de seu trabalho, ele só se comunicava com seus amigos através de messenger, e-mails, Orkut, lista de discussão, blogs, fotologs, enfim... Menos no cara a cara, afinal o rapaz era totalmente viciado em internet, do tipo que tem ataques de abstinência se ficar mais de quatro horas longe de computador. Um belo dia, chega na caixa de mensagens de Paulo um e-mail do Pereira, seu chefe, com os seguintes dizeres:

 

“Kbças vaum rolar...”

 

Paulo Luís entrou em pânico. Em sua mente, veio logo a idéia: “vai rolar corte de pessoal aqui no serviço”. Paulo era conhecido por ser um cara muito estressado e essa característica foi se acentuando ao longo dos anos, à medida em que ele se viciava na comunicação via internet. Afinal, como não via a cara de nenhum de seus amigos e as mensagens que recebia eram do tipo “vc ta aí?”, “kd minha encomenda” e “falow”, a interpretação dele era sempre assim: “vc ta aí, seu filho de uma égua?”, “kd a porra da minha encomenda, desgraçado” e “falow para vc e a vaca da sua mãe”. Detalhe: ele nunca se dignou a, pessoalmente, chegar aos autores das mensagens e perguntar o que realmente eles queriam dizer.

 

Com a cabeça fervilhando, Paulo Luís resolveu enviar dezenas de e-mails para todos os funcionários, contando a bomba. De repente, um surto coletivo tomou todo o escritório. Mas era um surto peculiar: ninguém se levantava da frente de seu computador para perguntar o que realmente estava acontecendo. Risadas nervosas iam se alastrando e de vez em quando alguém soltava um palavrão. Nesse meio tempo, surgiram e-mails, listas de discussão, conversas coletivas no msn, comunidades no orkut como “Pereira, por favor, não tire meu emprego”, enfim... A histeria tomou conta do pedaço. Afinal, quem seriam os condenados ao olho da rua?

 

Mas que estranho... O Pereira sempre foi um chefe boa praça. Nunca se furtou em receber seus funcionários no escritório e era sempre aberto a críticas. Era um cara bem bacana, não era do seu feito fazer esse tipo de insinuação. Ninguém pensou em fazer o óbvio: levantar-se da cadeira, ir ao escritório do Peixoto e perguntar-lhe o que significava o e-mail misterioso.

 

De repente, o Pereira entra no escritório. Paulo Luís, que já havia tomado sete xícaras de café, fumado quatro cigarros e colocado o seu iPod em volume máximo, levanta-se da frente de seu computador e grita:

 

FILHO DE UMA P*&%$#@!!!! COMO VOCÊ PODE ME MANDAR EMBORA!!!! VOCÊ TEM QUE MANDAR EMBORA O ERNESTO!!!! ELE TE ODEIA, SABIA?????????

 

E não deu outra. Paulo foi demitido na hora.

 

A propósito: o tal e-mail dizendo “Kbças vaum rolar...” tinha ido para a caixa postal de Paulo Luís por engano. Pereira, na verdade, queria enviá-lo a sua esposa. Era uma espécie de código, em que ele sugeria: hoje, o sexo vai ser do bom.

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01 de novembro de 2008

A tempestade

No início da semana, mais uma tormenta se aproxima





Segunda-feira, 6 horas da manhã. Lídia acaba de acordar.

 

“Chegar e-mail, passar no supermercado, o que o Reinaldodeve estar fazendo agora?, pagar a conta de luz, checar e-mail, o que vaiacontecer na novela hoje?, tenho reunião com o pessoal da gráfica, checare-mail, entrar no blog do colega, fazer a revisão do orçamento do projetoespecial de final de ano, comprar revista, checar e-mail, o que o Reinaldo deveestar fazendo agora?, checar e-mail, checar e-mail, nossa, preciso passar naminha mãe, entrar no blog, queria comprar uma cadeira nova, checar e-mail,queria visitar meus pais, revisar o orçamento, checar e-mail, checar e-mail, precisoir ao cabeleireiro, queria comprar uma cadeira e uma mesa novas, não possoesquecer do orçamento, checar e-mail, Google, blog, Orkut, blog, Facebook,Google, cadeira nova, cadeiranova.com.br, checar e-mail, checar e-mail, precisorevisar o orçamento, a semana está começando, checar e-mail, checar e-mail, o mêsestá acabando, não esquecer da reunião, o que o Reinaldo deve estar fazendoagora?, não posso esquecer da reunião, não posso esquecer da reunião, checare-mail.

 

Checar e-mail”.


Segunda-feira, 6 horas e um minuto.


Celular na funçãosoneca.




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Tags: tempestade    sono    trabalho 
30 de outubro de 2008

Lenda urbana

O incrível caso do trainee que ficou invisível



Este é um caso verídico. Bom... quem me contougarantiu que era.


Guilherme Castilho era um cara com um currículo invejável. Passou no vestibular de uma universidade pública em um dos primeiroslugares, conseguiu os melhores estágios, fala inglês, espanhol e polaco(essa língua existe?), enfim. O profissional do futuro, segundo qualquerreportagem fictícia da revista Business Men.

Logo depois de formado, Guilherme conseguiu emprego em uma das firmas mais cobiçadas pelos colegas de sua área. Fato esse que elefez questão de espalhar pelos quatro cantos, como uma espécie de cumprimentoinicial para toda pessoa que ele via pela frente. Toda vez que algum conhecidose aproximava, era a mesma coisa:

Conhecido – Oi, Guilherme, tudobem?

Guilherme  - Oi! Há quanto tempo! Fui contratado pelaLTD & A Associados. Vou começar como trainee, mas tenho grandeschances de subir lá dentro! O pessoal lá gosta muito do meu trabalho!

Conhecido- ...

Guilherme – A propósito, como vocêestá?
Conhecido – Bom, eu...

Guilherme – Nossa, tenho que ir. Depois nosfalamos!

O rapaz teve sorte, começou trabalhando ao lado doseu Oliveira, grande chefe do departamento. Tinha certeza de que, mais cedo oumais tarde, seu talento iria ser descoberto. No primeiro dia, fez questão dechegar antes do big boss. Quando viu o senhor se aproximar pelo corredor, ojovem lançou-se rapidamente da cadeira, estendeu-lhe a mão e disseanimadamente:

Guilherme – Bom dia seu Oliveira!Como senhor está?

Seu Oliveira sequer mudou a fisionomia ao ver ojovem recém-contratado. Olhou-o, virou a cara e seguiu para sua sala.Guilherme logo pensou consigo: "Velho escroto! Filho da p*! Ele vai mecumprimentar, assim que perceber o meu potencial! Não dou uma semana!".

Bom, passou-se um ano...

...e todo dia era a mesma história. Seu Oliveira chegava, Guilherme se jogava,e... Nada. Seu Oliveira solenemente ignorava o empregado, não importava o tipodo cumprimento, a cor da camisa, a elasticidade do sorriso amarelo, nada...Nada que Guilherme fazia causava impacto ao velho capitalista imundo."Pedra de gelo safado! Imundo! Ele vai ver!", pensava o jovem nervoso, que jápensava que se tratava de uma alguma antipatia gratuita.Uma sensação ruimcomeçou a rondar Guilherme. "Esse cara não gosta de mim... serei demitido, maiscedo ou mais tarde...".


Um pânico súbito tomou o coração do garoto! "Não!Isso eu não poderia admitir! Demitido? Logo eu? Com um currículo invejável? Semchances!" Sua primeira providência foi matricular-se em um MBA, um curso demandarim e uma aula de squash (nove entre dez executivos jogam squash, o outroé seu Oliveira). Participou de todas as atividades-extras propostas pela empresa.Vida pessoal? Que nada... Profissional de sucesso pensa na vida pessoal após os40 e ele só tinha 27, cáspita!

Enfim, fez tudo isso, na esperança de que os boatosde seu esforço chegassem ao ouvido de seu Oliveira. Outro ano se passou, MBAconcluído e, pimba, naquele dia, Guilherme sentia que tudo seriadiferente. Quando seu Oliveira chegou para trabalhar, Guilherme repetiu omesmo ritual. Jogou-se na frente do senhor, estendeu-lhe a mão e disseesfusiante:

Guilherme – Olá, seu Oliveira!

Seu Oliveira olhou para o rapaz por cerca de dezminutos, raciocinou e soltou:

Seu Oliveira – Quem é você, garoto?

...


Guilherme não agüentou e teve um surto psicótico.Começou a quebrar tudo no escritório, gritava como um louco.

Guilherme - Não é possível!!! Você tem que meenxergar!!!! Você sabe quem eu sou?????


Seu Oliveira balançou a cabeça negativamente. Foipreciso chamar uma ambulância para levar o pobre Guilherme, que passou um anointeiro em uma clínica de reabilitação.

Seu Oliveira realmente não sabia quem erao jovem funcionário. Bom, na verdade, seu Oliveira não sabe direitonem o nome dos próprios filhos.

Guilherme nunca mais recobrou a sanidade completa. Desenvolveuuma dificuldade absurda em olhar as pessoas na cara, virou um sujeito recluso,com sono movido à base de anfetaminas, sessões do programas trash efilmes pornôs alugados. Praticamente um ogro.

A boa notícia é que ele não foi demitido.


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Tags: emprego  carreira  MBA  chefe  maluco  seu  teixeira