De tempos em tempos, somos presenteados com alguns times de tal modo superiores aos demais que merecem até a honra de serem eternizados em botões de capa de relógio, lustrados e revisitados por toda a vida - se não fisicamente, ao menos na imaginação. A cada desencontro do perna de pau com a bola, aquele craque deslizando pelo gramado ou pelo “estrelão” na sala de estar surge como uma assombração para um jogador mortal qualquer, desses que encontramos a cada domingo.
E o momento de despedida desses escretes, que na insossa realidade não duram para sempre, transformam marmanjos barbados em viúvas tresloucadas no estádio, que choram por talvez perceber que a próxima brilhante geração pode demorar décadas para aparecer. Esse conteúdo emocional, por si só, transforma alguns jogos aparentemente sem importância em momentos históricos.
Como o Milan x Novara deste domingo. Os milaneses com o vice-campeonato garantido; o Novara já rebaixado. Novara? Pois é, talvez nem os jogadores do Milan saibam sua escalação. Mas todos sabem de cor o nome de Nesta, Gattuso, Seedorf e Inzaghi, símbolos de um esquadrão rossonero multicampeão que fizeram nesta tarde sua última partida pela equipe de Milão. Haja choradeira em San Siro!
No que diz respeito a mim, além da convicção de Nesta ter sido o melhor zagueiro que vi jogar (não confundam com o melhor de todos os tempos, por favor), sempre me incomodou o desdém com que essa máquina do Milan foi tratada pela imprensa internacional, apesar de ter feito nada mais nada menos que três finais de Champions League em uma década. Não obstante números indiscutíveis, a cada festa milanista vinha acompanhado um comentário de desdém em relação ao excesso de determinação de Gattuso e de Ambrosini ou ao esquema de jogo minuciosamente trabalhado de Carlo Ancelotti.
Mesmo vangloriadas na Itália, as estrelas do Milan sempre acabavam por ser ofuscadas pelos galácticos do Real Madrid, pelas fantasias de Ronaldinho ou pela eficiência do futebol inglês. No meu mundo particular, foi o maior time da primeira década do século XXI.
Agora chegou o momento da reconstrução. Zambrotta também parece estar com as malas prontas, enquanto Van Bommel já confirmou seu retorno ao PSV. Os preços subiram, os pandas correm risco de extinção e os jogadores envelheceram. O tempo urge, e o Barcelona já largou na frente.
“Uma equipe de sucesso precisa de qualidade técnica, de organização e de um pouco de sorte.” Os espanhóis do Barcelona devem estar com a frase do compatriota Rafa Benitez ressoando na cabeça, como que soprada ao pé do ouvido por uma assombração. Atualmente, os comentaristas de futebol mais parecem matemáticos, imersos em estatísticas e explicações racionais para tudo o que acontece nas quatro linhas, esquecendo-se de uma questão simples: em alguns dias, a bola bate na trave e entra; em outros, quica em cima da linha e sai.
Se o Barcelona acertou 49 vezes o travessão, desperdiçou 20 pênaltis e perdeu o jogo em uma única investida do adversário, injusto o resultado não foi. Uma partida de futebol não é decidida por pontos – quem não faz, leva, já dizia a minha avó. Mas negar a indubitável influência da sorte no destino final de um prélio e colocar na conta do oponente todos os méritos pela vitória é inocência ou burrice mesmo.
Nos épicos confrontos contra o aguerrido Chelsea, o Barça teve a chance de matar a partida várias vezes. Só no primeiro tempo, em Stamford Bridge, os culés poderiam ter aberto uma vantagem de quatro gols de diferença em relação aos ingleses. E aí, o Chelsea deixaria de ser um time de leões? Guardiola ainda seria louvado sem que ninguém se atentasse para seus erros na escalação do time? Pois é, a danada da sorte trabalha com a luz e a escuridão ao mesmo tempo, transformando nosso destino de acordo com seus caprichos.
Alguém objetará que Fábregas perdeu algumas chances claras por incompetência, e não por falta de sorte. Nessa hora vale até o lugar-comum à la Bernardinho de que a sorte acompanha a quem trabalha. Hum, pergunte ao Cuca se isso é verdade! Em ambas as partidas da semifinal o Barcelona teve mais de 70% de posse de bola, chutou infinitamente mais a gol, atacou, fez tabelas, saiu na cara do goleiro... e perdeu a classificação. Acontece. Bola pra frente. Isso não significa que os catalães deixaram de ser os melhores do mundo ou que o Chelsea encontrou a fórmula mágica.
Até porque não a encontrou. Em condições normais de temperatura e pressão teria sido goleado nos dois jogos. Ou alguém vai me dizer que um time que levou quatro bolas na trave, deixou com que o adversário aparecesse várias vezes em condições de marcar e praticamente não atacou hoje tem a receita para bater uma das equipes mais qualificadas da história? O escrete londrino merece todos os elogios pelo seu feito: os jogadores se entregaram como todo torcedor gostaria que os seus o fizessem, foi de uma perícia clínica nos seus contra-ataques e venceu. Mas com tudo isso poderia e normalmente teria perdido. Bastaria o melhor do jogador do planeta ter convertido um pênalti. Fica a reflexão.
Ex-genro de João Havelange,respeitado pelo alto escalão da Fifa e temido por todos os nobres dirigentes brasileiros, Ricardo Teixeira sempre esteve muito bem-acompanhado nos seus longos anos de sucesso à frente da CBF. Don Ricardo praticamente profissionalizou nosso futebol; reinventou a roda, quer dizer, a bola.
Entre algumas acusações de gente desqualificada e invejosa, sedenta por um dia ocupar o seu trono, nosso maior dirigente seguiu incólume no seu objetivo de fazer do futebol brasileiro um projeto sério, imune a presença de amadores e especuladores.
É de se espantar que haja quem pense que Rivaldo e Ronaldo tenham conduzido o Brasil rumo ao penta na Coreia e no Japão. Não fosse o carinho e o esmero dispensados pela CBF a todos os nossos jogadores, desde as categorias de base, diga-se de passagem, esses afortunados teriam tido condições de aparecer para o mundo? Queria vê-los brilhar se tivessem iniciado a carreira em campos de várzea em São Cristovao ou no Nordeste!
No entanto, infelizmente, nem tudo é perfeito. Fomos garfados em diversos Jogos Olímpicos, única competição que não faz parte da coleção de títulos de Teixeira, e nosso presidente pagou com sua saúde a dedicação incondicional com que trabalhou pelo futebol tupiniquim.
Torço por sua recuperação em Miami, longe da bugrada.
O Natal é a época ideal para deslavados canalhas prometerem erradicar a fome do mundo, ser bons pais e respeitar as mulheres. Como na velhice ou na morte, todos, repentinamente, passam a ser exemplos de dedicação e carinho, cidadãos modelo. No meio de tanta pretensa gente boa, alguns verdadeiros heróis se perdem na multidão, incapaz de diferenciar os picaretas de plantão de pessoas realmente engajadas pelo bem comum.
Na Itália, no entanto, Simone Farina, jogador do modesto Gubbio, pelo destaque que só o futebol é capaz de proporcionar, vem recebendo os aplausos que merece por sua louvável atitude de denunciar um esquema de manipulação de resultados. Isso mesmo, Farina rejeitou uma proposta superior ao seu salário para que fizesse corpo mole e ajudasse o adversário, e, de quebra, colocou a boca no trombone.
Como resultado de seu gesto, foi concluída uma investigação que levou 17 pessoas envolvidas com a máfia de apostas no futebol para o xadrez, entre elas o ex-jogador da seleção italiana Cristiano Doni. Como os garis que, nesta época do ano, sempre aparecem no Jornal Nacional devolvendo sacolas de dinheiro encontradas pelas ruas, Farina tornou-se um herói nacional, com direito a mobilização de fãs no Facebook e o apoio do técnico da azzurra, Cesare Prandelli.
Farina foi convidado por Prandelli a treinar com a sua seleção em fevereiro, para que realize um sonho de infância e sirva de modelo para os outros atletas, às vezes reticentes em entregar os bandidos que os cercam. Imagine se Adriano e Vagner Love subitamente tivessem ataques de consciência e delatassem alguns amigos de dentro e de fora do futebol que estão sempre à tiracolo dos jogadores, com aquele sorriso aparecido nas fotos, tirando casquinha de sua popularidade. Talvez o Campeonato Brasileiro e o tráfico de drogas no Rio não ficassem de pé.
Humildemente, só espero que agora, com seus 15 minutos de fama, Farina não venha a participar de nenhum reality show ou namorar a Britney Spears. Não foram poucos os bem intencionados que, com um pouco de poder e espaço na mídia, tornaram-se pessoas execráveis, como os canalhas de final de ano.
O Barcelona talvez seja a melhor equipe de todos os tempos. Messi não é deste planeta. Xavi e Iniesta são dois endiabrados. Guardiola é um visionário. O clube azul grená, jogando no seu limite, é imbatível. Mas dava para ser melhor a final do Mundial. O Santos não foi um adversário à altura; foi embaraçoso assistir à partida da equipe brasileira, que passou para o resto do mundo a impressão de que não se joga futebol por aqui.
A questão não está em perder ou ganhar do Barça. O Manchester United foi aniquilado em duas finais, o Real Madrid corre atrás de seu rival faz tempo, o Milan viu o time da Catalunha mais uma vez sair com a vitória em pleno San Siro. Mas todos eles se entregaram de corpo e alma antes de perder, deram trabalho, se comportaram como verdadeiros gigantes a serem batidos. O que o Santos não fez, não foi capaz de fazer.
Um time que no primeiro semestre já sabia que teria o Barcelona como adversário em dezembro não podia entrar em campo com um sistema tático testado pela primeira vez na temporada. Ainda mais tendo Durval nessa linha improvisada de zagueiros. Assim como foi um erro começar com Elano entre os reservas. Pontos negativos de Muricy. O pior é que, para completar, o treinador não foi o destaque negativo do confronto.
Os jogadores santistas entraram no gramado aterrorizados. Passes de dois metros eram grandes façanhas conquistadas. Paulo Henrique Ganso desfilava como uma prima donna pela relva, como se estivesse batendo uma bolinha na praia. Neymar não conseguiu encaixar nenhum drible e não teve a tranquilidade característica nos jogos locais para finalizar. A zaga, noves fora a boa atuação de quem menos se esperava, Bruno Rodrigo, foi um desastre. Até o artilheiro Borges finalizou como um Alan Kardec em duas oportunidades de frente para o gol.
Com a transmissão para todo o Brasil pela Globo, talvez uma discussão que há anos é feita na Europa e nos canais especializados por aqui chegue ao grande público: em que momento deixamos de praticar nosso futebol para entregá-lo aos espanhóis? Por que o Barcelona joga com apenas um volante, jogadores baixinhos, sem bola parada, centroavante e posições fixas no campo, e nossos times vivem de faltas, chutões e contra-ataque? Nada como uma aula de futebol para indicar o caminho.