
A cantora e instrumentista norte-americana Esperanza Spalding, cultuada como queridinha da cena jazzística, se afasta temporariamente do ritmo que a consagrou e lhe deu o grammy de artista revelação no ano passado. Em seu mais recente álbum, Radio music society, lançado em 12 de março nos EUA, a vocalista e baixista cai nos braços do pop e mistura funk, soul, blues, hip-hop, rythm and blues e até techno. De maneira bem mais discreta, a influência do jazz continua presente. O resultado é um disco que faz jus ao nome, com tudo para fazer sucesso nas emissoras FM.
A surpresa é grande para quem estava acostumado ao tom intimista e delicado dos três primeiros discos da artista, Junjo (2006), Esperanza (2008) e Chamber music society (2010) e pode não agradar ao público mais fiel da intérprete. Prova disso é a polêmica já criada no Youtube, onde o clip de Black gold, uma das faixas do CD, foi postado para divulgar o álbum. Os fãs mais ortodoxos torcem o nariz para os novos rumos da carreira de Spalding, enquanto outros aplaudem a abertura para outros ritmos além do jazz.
Discussões à parte, algo fica patente em Radio music society: a elegância característica de Esperanza Spalding mantém-se intacta. Deixando de lado os scats que se tornaram uma de suas marcas registradas, a cantora solta a voz nos 12 temas e faz bonito. É extremamente afinada e compensa a falta de potência vocal com muita técnica. Nem mesmo a exuberância sonora de alguns arranjos põe em xeque os dotes vocais da intérprete. Outra inovação é a troca do baixo acústico, instrumento que consagrou Esperanza e a levou, ainda aos 15 anos, a ser convidada para tocar ao lado de monstros sagrados do jazz, pelo baixo elétrico. É mais um ingrediente a consolidar a proposta de levada pop que permeia o CD. Também contribui para os momentos mais dançantes do álbum, que não são poucos.
A primeira audição de Radio music society causa estranheza, justamente pela trajetória anterior de Esperanza. Por isso, o melhor a fazer é se despir dos preconceitos e ouvir com calma as 12 faixas, para perceber as nuances do disco. A primeira a chamar a atenção é a homogeneidade. Mesmo com a geleia geral que resulta da mistura de tantos ritmos, o álbum tem um fio condutor, a cada tema reafirma a proposta da artista de explorar novas sonoridades.
Também merece um olhar mais atento o time de feras que participam do álbum. O baterista Jack DeJohnette, monstro sagrado do jazz contemporâneo, comparece em I’cant help it, que conta ainda com a participação do saxofonista Joe Lovano, outro destaque da cena do jazz. Além deles, os bateristas Terri Lyne Carrington e Billy Hart são convidados mais que especiais. Esperanza também foi buscar canções de Stevie Wonder (I’cant help it) e Wayne Shorter (Endangered species) para compor o cenário multifacetado que queria dar ao álbum.
O disco ainda consolida a artista como uma compositora eclética e criativa. Radio song, que abre o disco, emana suíngue e contagia pelo ritmo. Black gold é uma visita de Esperanza às suas raízes africanas e revela um forte apelo étnico já no refrão: "nós somos ouro negro", seguida de versos como "mantenha sua cabeça erguida", referência explícita ao orgulho que a população afro-descendente dos EUA tem de suas origens raciais. Outra incursão mais politizada do álbum é Land of the free, que conta a história de um erro judicial que deixou um negro passar 30 anos na prisão, condenado por um crime que não cometeu.
Music radio society não fará Esperanza disputar a preferência do público com Beyoncé, Lady Gaga ou Rihanna, mesmo porque seu pop sofisticado e inspirado se assemelha mais à elegância da inglesa Corinne Bailey Rae ou da norte-americana Alice keys. De qualquer modo, para desespero de Justin Bieber, que teve um ataque de nervos ano passado, quando Spalding levou o grammy de artista revelação, deixando o ídolo teen chupando dedos, o álbum tem tudo para dar novo prêmio à cantora e instrumentista.
CONTRAPONTO
Como contraponto à transformação musical de Esperanza Spalding em Radio music society, o selo brasileiro Biscoito Fino está lançando no Brasil Junjo, álbum de estréia da intérprete e instrumentista, gravado originalmente em 2006. Para quem ainda não conhece, é uma ótima oportunidade de saber as razões que levaram a artista, já no seu primeiro disco, a se transformar em unanimidade e ganhar elogios escancarados da Downbeat, Jazz Week, Billboard e outras publicações especializadas.
Isso não significa que as outras faixas têm menor impacto. The Peacocks, que abre o álbum, é perfeita para Spalding mostrar porque foi considerada garota prodígio do jazz. Ela dá um show no baixo acústico, num arranjo clássico e discreto. Destaque também para o piano de Aruán Ortiz. E Cantora de Yala, em castelhano, beira o lirismo graças à suavidade da interpretação de Esperanza.

Já tive a oportunidade de escrever aqui sobre as new divas, jovens cantoras de jazz que trouxeram frescor e energia ao ritmo. Mas elas não são as únicas responsáveis pela atual efervescência da cena jazzística. Parcela desse ressurgimento cabe a instrumentistas de raro talento, chamados de young lions, expressão popularizada no início dos anos 90,logo após o tsunami de mau gosto e breguice da década de 80. Como jovens leões, esses músicos dominaram o cenário do jazz a partir dessa época e influenciaram os caminhos do gênero a partir de então.
Entre tais músicos um dos mais destacados é o saxofonista Joshua Redman, que já se apresentou no Brasil, se não me engano em uma das últimas edições do Free Jazz Festival. Nascido em 1969, filho do também saxofonista Dewey Redman, Joshua trilhou o caminho de outros talentos precoces: foi aluno da Berkeley High School of Music. Redman se caracteriza pelo timbre elegante e vigoroso, a exemplo de um de seus inspiradores, o safonista Gene "Jug" Ammons.
Pois bem, depois de acompanhar boa parte da trajetória musical de Joshua Redman na década de 1990, acabei me distanciando de sua carreira até que neste fim de semana seu mais recente álbum, James Farm, veio parar em minhas mãos e ouvidos. O CD tem o mesmo nome do quarteto de jazz fundado pelo saxofonista em 2009, ao lado do pianista Aaron Parks, do baixista Matt Penman e do baterista Eric Harland. James Farm é o primeiro álbum do grupo e foi lançado em abril do ano passado.
O disco reúne 10 temas e é um dos melhores que ouvi nos últimos meses. Além da finesse de Joshua, merece atenção a sintonia entre o baixista Penman e o baterista Eric Harland, criando uma cozinha perfeita para as evoluções e harmonias de Redman. Tal combinação resulta em um álbum vigoroso, mas ao mesmo tempo suave. Injusto citar pontos altos, em razão da uniformidade do CD, mas Coax, que abre o disco, Bijou, Chronos e Low Fives, a última faixa, são as minhas preferidas.