Domingo, 20 de maio de 2012 12:30 am

crônica da cidade


Não mais que os outros

Sempre volto à entrevista de Freud ao jornalista norte-americano George Sylvester Viereck. O fundador da psicanálise estava com 70 anos e padecia de um incômodo câncer na boca. Um dos pensadores mais importantes da civilização suportava as dores de um mortal qualquer e reagia com a humildade dos homens comuns. Ele sabia que nenhum de seus grandiosos feitos nem nenhum reconhecimento o livrava de sua pobre condição humana.

Quem me lê há muito tempo já deve ter passado por trechos dessa entrevista neste pé de página. Leio, releio, publico e republico fragmentos dessa entrevista, como quem volta a um poema, a uma grande obra literária, a uma canção, a uma obra de arte. O modo com que Freud entende a vida e a aceita me reconcilia com desconfortos do viver. O que ele sente e pensa sobre vida e morte é o penso e sinto, e isso é quase motivo de alegria e orgulho. E me sereniza com a vida.

O jornalista quer saber se Freud acha que o destino foi injusto com ele. (O psicanalista está doente, foi perseguido pelo nazismo, incompreendido por muitos e abandonado por discípulos). "Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de 70 anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas — do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?"

O homem que abriu um clarão sobre os mistérios da alma humana não desejava a imortalidade ou a reencarnação. "Quem identifica as razões egoístas que se escondem sob o comportamento humano não tem a menor vontade de voltar. A vida, movendo-se em círculos, ainda seria a mesma. Além disso, mesmo que o eterno retorno de todas as coisas, como disse Nietzsche, nos vestisse com roupas novas, que utilidade isso poderia ser sem a memória?"

Quando chega ao reino dos bichos, Freud confirma o que a civilização já intui há tempos. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana. Eles são muito mais simples. Não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homen de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico". O animal, "é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele". A maldade é "o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura."

Ao fim da entrevista, o entrevistado pede ao jornalista que não o retrate como um pessimista ou um infeliz. "Eu não desprezo o mundo. Expressar insatisfação para com o mundo é só uma outra maneira de cortejá-lo, para conseguir plateia e aplauso! Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! (…)E não sou infeliz — pelo menos não mais do que as outras pessoas."

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Sábado, 19 de maio de 2012 12:30 am

crônica da cidade


Sobre o silêncio

Dia desses, uma aluna de jornalismo me perguntou como era o de criação da crônica. Citei alguns recursos dos quais me utilizo e enquanto espichava a resposta com blablablá vazio de sentido, me dei conta de que a crônica nasce da solidão e do silêncio. Percebi que é na ausência de mim mesma que emerge o que sei sem saber que sei, o que procuro sem saber que procuro. É habitando o lado escuro da Lua que chego à claridade do sentido —ou não chego, nunca sei onde essa cega aventura vai acabar.

Estamos vivendo uma época por demais barulhenta e opiniuda (com o perdão do neologismo). Emitimos incessantes e virulentos juízos de valores, em movimentos ansiosos dos dedinhos nos teclados. Quanto mais opiniões ouço ou leio, mais cansada vou ficando dos excessos humanos. O subjetivo que existe em cada um de nós perdeu a compostura e pôs o bloco na rua. Tudo está sendo dito ao mesmo tempo agora, como se não houvesse mais nenhuma parede protegendo o lado de dentro do lado de fora.

Há uma cena no adocicado Comer, rezar, amar em que a personagem da Julia Roberts pendura no peito um aviso de que está em período de silêncio. Não há mais lugar no mundo para a mudez voluntária. Fala-se o tempo inteiro — de viva voz, ao celular, nos torpedos, nas redes sociais, fala-se, fala-se, fala-se. Tanto e tanto que não sobra espaço para verdadeiramente se ouvir e ouvir o outro. Estamos todos afundando na orgia das palavras ditas ao léu.

Vai daí que, em alguns dias, saio de casa disposta a não abrir a boca, exceto quando profissionalmente necessário ou para o exercício da cordialidade corporativa. Exceto nas horas que antecedem a crônica, não consigo manter largo tempo de convivência exclusiva comigo mesma em ambiente de trabalho. Não chego a ser um Bentinho que se irritava com a conversa no bonde, mas tenho minha porção Dom Casmurro — preciso de silêncio como o peixe de água.    

O silêncio me acalma, me revela e revela o outro a mim. O silêncio me conduz ao que de mais importante preciso saber. O silêncio regenera minhas feridas, acalma a ressaca de minhas marés, reconstituí meus pedaços num só corpo, o silêncio é a morte que me devolve a vida. Preciso morrer pelo menos uma vez por dia (no carro, no banheiro, na cozinha, na caminhada, no computador) para continuar viva.

Se, no divã, a palavra puxa outra que puxa outra que puxa o inconsciente, no silêncio a palavra falada se recolhe à sua temporária insignificância e dá lugar ao que o corpo e alma estão perscrutando em si mesmos e no mundo.

Não sei para onde vou, não sei para onde o mundo vai, nem sei mesmo se darei conta de responder a esta era tão implacável em suas exigências e tão confusa em seus valores, mas sei que se um dia for decretada a inviabilidade do silêncio, eu decreto a minha morte. Ou vou me embora para o fundo do mar.

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Quinta-feira, 17 de maio de 2012 12:01 am

crônica da cidade





                
                 Torre de Babel


         
        Torre de Tevê de Berlim



                                
                                Torre Vasco da Gama, Lisboa


A torre e os deuses


A Torre Digital, que tem atraído tantos brasilienses desde a inauguração, não é exatamente uma torre bonita. Nem causa espanto. Precisei de certo tempo para entender isso — a arquitetura, como as artes plásticas, exige alguma aproximação com a linguagem estabelecida para que se possa fruir suas emanações estéticas. (Mas o conhecimento, por si só, não garante a fruição da beleza).

Apesar de ter sido construída para abrigar a nova tecnologia de transmissão de imagem, a mais recente obra de Oscar Niemeyer já nasceu com 50 anos. Ela tem a idade tecnológica de Brasília, é do tempo em que o concreto armado era a grande inovação construtiva, o titânio da arquitetura moderna. É estranhamente agressiva, rotundamente deselegante e desajeitada.

Mas, se não tem a genialidade de um Palácio da Alvorada ou de um Itamaraty, obras que além de excepcionalmente belas, mantêm uma atualidade incontestável, a Torre Digital tem uma qualidade que supera o projeto arquitetônico. Ela oferece aos brasilienses a oportunidade epifânica de comer com os olhos todo o Plano Piloto. Comer no sentido mesmo antropofágico, saborear a harmonia volumétrica das superquadras, se deliciar com a racionalidade elegante da Esplanada, sorver a desenvoltura do lago e experimentar o encontro do urbanismo e da arquitetura com a representação terrena do Divino, o céu, o horizonte, as chapadas, a sucessão de morros da Apa do Cafuringa, o escoar majestoso e ao mesmo tempo delicado do cerrado.

Não é de hoje que os homens constroem torres para se aproximar de Deus. Mais que isso, para se sentirem imanados pelo divino. A Torre de Babel foi o mais célebre projeto humano, segundo a narrativa bíblica, de alcançar o céu e com isso se ombrear com o onipresente. Esperto, Ele mandou parar a obra e castigou a humanidade criando línguas diferentes, para que nunca mais ela se entendesse nem quisesse ser mais do que é.

A punição não deu os resultados esperados, a Torre de Babel ficou pela metade, mas os homens continuaram a erguer pontes verticais para alcançar o céu. Chineses e japoneses construíram pagodes que, apesar do nome, são torres de caráter religioso. Na Idade Média, a arquitetura religiosa adotou a torre em igrejas para aproximar o terreno do celeste. A torre também teve importante função de defesa de território, e a solução acabou sendo adotada como símbolo do poder estabelecido — os palácios eram todos adornados com soberbas estruturas verticais para sinalizar o endereço de quem mandava no pedaço.

As torres continuaram a sobrevoar nossas fantasias de subida aos céus. Quando projetou Brasília, Lucio Costa fincou a Torre de Tevê numa elevação do terreno entre o Praça Municipal (o Buriti) e a Rodoviária, "tratada como elemento plástico integrado na composição geral". É um de seus raros projetos arquitetônicos na cidade. Com base de concreto armado, sua estrutura de ferro lembra a Torre Eiffel, da Paris que tanto inspirou Lucio Costa na invenção de Brasília.

Com a Torre Digital, Brasília ganhou mais uma ponte para o céu. Bom seria se ela nos concedesse milagres.



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Quarta-feira, 16 de maio de 2012 03:46 pm

crônica da cidade



O mocotó da vizinha

Era quase hora do almoço do domingo das mães. A vizinha chegou perto do portão e pelas grades me perguntou: "Você gosta de mocotó?". Não tive dúvida: "Adoro!". A senhorinha ordenou: "Então, venha cá." Pedi a ela tempo para me trocar. Eu não estava vestida para atravessar a rua, mas ela nem quis ouvir meus argumentos. "Deixe de história, venha".

Segui a mulher que todas as tardes se senta à calçada para prosear com a vizinhança. Não temos muita intimidade. Sou meio forasteira, recém-chegada à rua onde todos moram há mais de 15 anos. Carrego o sem-jeito meio esnobe de quem morou mais de duas décadas no Plano Piloto. Mas era domingo, dia das mães, eu estava de pés e mãos sujos de terra, já tinha tomado uma long neck — tudo conspirava a favor do mocotó.

Segui a anfitriã, entrei porta a dentro até a cozinha e fui contemplada com a imagem de duas panelas fumegantes: numa, a de pressão, emergia um mocotó já molinho, quase todo ele já descolado dos ossos, flutuando em caldo grosso, de uma cor acastanhada e um cheiro de minha mais saborosa saudade. Ao lado, numa panela menor (as duas de alumínio reluzente), um arroz da cor de açafrão, oferecia-se em graões luminosos e quase saltitantes. Na bancada da pia, uma tijela acolhia largos pedaços de uma mandioca amarela recém-saída do fogo.

Eu ali sem jeito, numa casa onde não havia entrado antes, ao lado de uma senhorinha a quem eu dava bom-dia, boa-noite e debulhava conversas vadias sobre o tempo, a violência, os cachorros, os gatos da rua, o resultado da loteria e mais um ou outro assunto cotidiano.

Ainda estava desconsertada, quando ela pegou uma vasilha de plástico e nela despejou generosas conchas de mocotó e dois portentosos pedaços de mandioca. Tentei impedir que ela pegasse outro vasilhame para abarrotá-lo de arroz, mas não consegui — fui vencida em todos aqueles sucessivos movimentos de afeto, despretensão e bondade.

Voltei para casa com as duas porções de hospitalidade e ri de mim para mim: eu havia reencontrado um tesouro que havia tempo se perdera. Brasília, nesse aspecto, me roubou o à-vontade de antes. O excesso de racionalidade urbanística, a perniciosa proximidade com os poderosos, a exaltação dos bons modos, tudo isso e mais alguma coisa nos tirou um de nossos mais caros bens — o convívio de igual para igual com todos e qualquer um.

De certo modo, a monumentalidade de Brasília se infiltra na nossa alma e nos impõe uma altivez que se avizinha da arrogância. Pois o mocotó da vizinha liquidou com minha falta de jeito. O arroz amarelinho e irrequieto riu de minha metidez e a mandioca macia e um tantinho adocicada não deu bola para minha cerimônia.

No fim da tarde, a senhorinha do mocotó se sentou, como de hábito, na calçada e de lá gritou: "E aí? Estava bom?". Respondi à brasiliense: "Estava ótimo."  Podia ter respondido à goiana: "Estava bom demais da conta!" Seria uma resposta à altura do gesto de minha vizinha.   

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Quarta-feira, 16 de maio de 2012 03:42 pm

Aquarelas brasilienses





O artista plástico Joaquim da Fonseca entende de cidades. Ilustrou textos de Luis Fernando Verissimo sobre Nova York, Roma, Paris, Porto Alegre, Madri, Japão. Expôs, recentemente, na Câmara dos Deputados, 33 aquarelas sobre Brasília e não somente sobre o Plano Piloto. Pintou Samambaia, com sua extansiante amplitude, a Praça do Relógio de Taguatinga, com sua atmosfera de cidade comum, a Praça da Feira Central de Ceilândia, com suas árvores adultas e seus largos canteiros ou a surpreendente caple de São Francisco de Assis, no alto de uma colina no Gama. Desvelou a paisagem brasiliense para além da área tombada, mostrando que a maior parte das cidades-satélites são herdeiras do urbanismo moderno, com as largas avenidas, o vasto céu e os imensos vazios.      





Praça da Feira Central de Ceilândia


Capela de São Francisco de Assis, Gama


Samambaia

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Quinta-feira, 10 de maio de 2012 12:01 am

crônica da cidade


Debaixo da praça


Num desses fins de semana de céu cálido e ventos leves, estive no Espaço Lucio Costa. Havia tempos, não revia o museu que se esconde debaixo da Praça dos Três Poderes. O lugar é um dos mais visitados de Brasília. O largo projetado para encadear os três poderes da República parecia vazio, embora saibamos que é necessária considerável multidão para cobrir todas as pedrinhas portuguesas.

Surpresa total: no tempo em que lá estive — entre duas e três horas de uma tarde de sábado —, as escadas do espaço estiveram sempre em movimento. Turistas subindo e descendo rumo ao esconderijo de Lucio Costa. Tivesse contado as cabeças que passaram pela maquete e pelos desenhos do urbanista, teria chegado aos 500 visitantes.

Um homem de bermuda para diante da foto germinal de Mário Fontenelle, aquele do cruzamento dos dois eixos num cerrado virginal. O homem põe o dedo na intersecção das duas vias, olha para o rapaz que o acompanha e diz, com altivez professoral: "Aqui é o marco zero de Brasília, é onde fica a Rodoviária." Depois, para diante do desenho do Plano Piloto, generosamente ampliado, e ensina: "Aqui é a Asa Norte, aqui é a Asa Sul, aqui é o Eixo Monumental e esse aqui é o Eixão".

Logo, uma criança pergunta a outro homem: "Pai, esse desenho é rascunho, né?", apontando para os croquis feitos a lápis, expostos nas paredes do prédio. Ao que ouve a resposta: "É, sim, filho. Depois Lucio Costa fez os desenhos definitivos". Todos saem satisfeitos e doutor Lucio, por certo, deve ter sorrido da versão do prestimoso pai ao curioso filho.

Passados 55 anos, o projeto vencedor do Plano Piloto continua a espantar os que o veem em seu risco original. Lucio Costa desenhou a nova capital em folhas avulsas de papel, com lápis grafite e seus traços aparentemente hesitantes, efetivamente delicados. Seria um rascunho, como pretendeu o pai visitante? Só podia ser. Ninguém projeta uma cidade em folhas de papel avulsas, em traços econômicos, em linhas manuscritas, como um artista que esboça a futura obra de arte. "É um rascunho", mas é a projeção genial de uma cidade.

Debruçados sobre o parapeito, os visitantes conferem a maquete do Plano Piloto — todo ele ao alcance dos olhos, como se deuses fôssemos diante da criatura criada. Não fomos nós quem a criamos, mas compartilhamos, diariamente, com as dimensões do corpo e as extensões dos sentidos, a obra criada. No Espaço Lucio Costa, nos deusificamos ainda mais: aquela que nos abriga se estende toda à nossa frente, como se o universo deitasse diante de nós.

Escondido debaixo das pedrinhas portuguesas, o museu tem a discrição do inventor de Brasília. Mas os visitantes vão chegando, talvez movidos pelo desejo de encontrar uma sombra naquele largo inclemente que é a Praça dos Três Poderes. Encontram abrigo para o corpo e alimento para o espírito.  

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Quarta-feira, 09 de maio de 2012 01:55 pm

crônica da cidade



Mais que tudo



Demorei a desnudar a verdade. O tempo todo ela fugia de mim, me fazia acreditar que era de um jeito quando era de outro. Foram necessários muitos maios, mais de vinte sucessivos maios, para que eu enfim conseguisse retirar a bruma que escondia a veracidade do que eu sentia. Era demasiado, é demasiado, o que me movia e move. Era maior do que eu pensava.

Até então, acreditava piamente que eram as obras humanas que me alumbravam em Brasília — e continuam a me alumbrar, por certo. O incrivelmente rápido surgimento da cidade, obra de arte edificada a céu aberto, dilatava meu espanto, como um jabuti a cada vez que sai de dentro de si mesmo para vir ao mundo.


Como costuma acontecer nas descobertas fortuitas, foi quase num acaso que eu tive contato com a mais genuína verdade sobre meu caso com Brasília. Quando deu-se o clarão, tive o ímpeto de fechar os olhos e tapar os ouvidos. Cheguei a prender a respiração: Não quero saber! Não chegue perto! Está bom do jeito que está! Está tudo resolvido. Já sei o que precisava saber. Já olhei atrás do espelho. Não venha desarrumar o que demorei tanto tempo pra ajeitar — cada coisa em seu lugar.


Teimosa que é, a verdade não arredou pé de mim, jabuti. Quando eu punha a cabeça de fora, ela me engolfava num clarão inescapável, revelação insidiosa do que se disfarçava em forma de objetos de concreto armado e em tramas urbanas elegantemente desenhadas.


Mas uma verdade, por si só, não dissolve a outra. Elas podem habitar o mesmo espírito, incidir sobre sobre a mesma alma. Não raras vezes, esse entrelaçamento de verdades costuma confundir os jabutis existencialistas.


Como eu dizia, a descoberta brotou de um acaso. Lendo um post de Bruno Medina, dos Los Hermanos, no qual ele relata seu deslumbre com o céu de Brasília, cedi à insistência da verdade: Brasília não seria nada sem o domínio monumental do firmamento.


Sabedores de que seria uma competição desigual entre a obra do gênio humano e a invenção esplendorosa dos deuses, Lucio e Oscar desenharam a cidade e os palácios especialmente para o agrado dos deuses que vivem acima das nuvens.


Os dois arquitetos pediram licença ao cosmos para deitar sua genialidade sobre a Terra. Construíram reverências em concreto armado. Até onde se sabe, Lucio Costa só pisou no território onde a capital seria construída depois que seu projeto foi aprovado. Sendo assim, alguém deve ter soprado em seus ouvidos a grandiosidade do céu no lugar destinado a Brasília.


Niemeyer construiu arquitetura flutuante e concisa nas bordas do mar sobre nossas cabeças. Fossem católicos praticantes, teriam construído preces. Criaram elegias para cultuar o manto formado por todas as luzes do arco-íris, aquilo que chamamos de céu e que nos chega azulado e que nos recobre, aos brasilienses, com a mesma grandiosa beleza do dia em que o mundo foi inventado.


É de Brasília que eu gosto, mas é o céu que me faz gostar tanto assim de Brasília. E, dizendo isso, não estou ofendendo nem Lucio nem Oscar. Estou entendendo o que eles entenderam quando da criação da cidade.


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Sábado, 21 de abril de 2012 01:00 am

crônica da cidade



Todo dia ela me ensina

Com ela, descobri que o Brasil tinha arquitetura; nela, conheci Lucio Costa; a partir dela, descobri as casinhas com varanda e as igrejas singelas e branquinhas do período colonial. Ela me ensinou o que era um combogó e que esse nome é um anagrama dos nomes dos inventores desse sistema de ventilação.

Em seus infinitos vazios, pude descansar meu coração aflito. Sob o esplendor azulado de todo dia, descobri o privilégio de habitar a divina invenção do universo. A partir dela, conheci a delicada e ao mesmo tempo rude vegetação do cerrado.

Nela, conheci muitos brasis. Todo dia, encontro alguém que veio de uma cidadezinha do mais profundo sertão brasileiro. Nela, me surpreendo com as gírias regionais, me enlevo com a cantoria dos sotaques, reencontro minha brasilidade.

Ela também me tirou ilusões, me fez ver o quanto a proximidade com o poder corrompe as almas. Dela, se pode testemunhar o lodo correndo quase aos nossos pés. Nela, entendi que é preciso renunciar às vaidades, é necessário dizer não às tentações, para se prender ao essencial da vida.

Nela, aprendi o que é escala, talude, curva de nível, urbs, civitas e aprendi Lelé é o apelido de um arquiteto de primeira grandeza, que dedica sua vida a criar projetos de arquitetura social. Foi ela quem me levou à delicadeza de Athos, à genialidade de Oscar, à inventividade de Zanine. Com ela, aprendi a conhecer o mobiliário brasileiro, a admirar a conjunção da arquitetura com a arte, a cruzar o Plano Piloto tentando identificar a mão de Lucio Costa nos caminhos por onde passo.

Foi ela quem me apresentou a delicadeza moderna e erudita dos poemas de Joaquim Cardozo e a angústia atordoada dos contos de Samuel Rawet, engenheiros-calculistas dos palácios da cidade. Por causa dela, me apaixonei pela conformação das cidades. Se ela tinha uma história tão à mão, tão presente na superfície do tempo, que tanto de história não haveria por trás das cidades mais antigas?

De descoberta em descoberta, fui me urbanizando e com isso descobrindo novos sentidos ao que antes passava em branco. Assim como eu não nasci do vazio, ela também nasceu de uma longa história de urbanização das cidades. O bom de tudo é que não precisava ir tão longe para tê-la na palma da mão. E mesmo assim, dia após dia, descubro cantinhos até então desconhecidos, e brasileiros ainda desprovidos da casca que cobre os que se acham importantes.

Além de me ensinar tudo isso e o que mais aqui não cabe, ela me empresta ânimo e esperança, quando habito o tempo em que ela foi construída. Ali os homens eram melhores. A construção de Brasília abriu um clarão de coragem, de alegria e de senso de coletividade em quem aqui estava. Eu estava, não de corpo presente, mas na transposição desejosa de mim mesma para o tempo e o lugar em que ela nasceu.              

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Sexta-feira, 20 de abril de 2012 01:35 pm

crônica da cidade


Dá a volta por cima


"Chorei, não procurei esconder, todos viram. Fingiram pena de mim, não precisava. Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. Um homem de moral não fica no chão. Nem quer que mulher lhe venha dar a mão. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima".

Uma de nossas mais belas canções, e que traduzem à perfeição a alma brasileira, completa este ano meio século de existência. De autoria de Paulo Vanzolini, foi recusada por Inesita Barroso, que não viu nela apelo comercial, e gravada em 1963 pelo inesquecível Noite Ilustrada.

Não haveria melhor música para consolar e reanimar os brasilienses em mais uma rasteira das circunstâncias. Que rasteira e que circunstâncias.

Durante dias, matutei um jeito de escrever a respeito do desgoverno a que estamos submetidos. Passei do atordoamento para a lassidão e dela para o desânimo -- "ali onde eu chorei qualquer um chorava". Fui e voltei várias vezes a cada um desses estados paralisados d'alma até que reencontrei o caminho da minha vontade de existir -- e muito bem existida.

Levantei, sacodi a poeira vermelha e dei a volta por cima. Reagi ao massacre dos recentes acontecimentos sobre o ânimo dos brasilienses.

Os motivos para o desalento não são poucos e só aumentam: a greve de professores que já chega aos 40 dias e deixa milhares de crianças desassistidas, o fracasso administrativo da cidade, a cachoeira de suspeitas , os mortos na UTI do Hospital Regional de Santa Maria, a violência urbana sem precedentes, a greve dos metroviários e as demais paralisações e ameaças de greve que fazem 2,5 milhões de reféns. No subsolo dessas explosões, há uma disputa de vida e morte pelo poder. Uma guerra sangrenta para ver quem mantém o domínio sobre a galinha dos ovos de ouro -- pobre Brasília.

Então, pensei nas cidades que sobreviveram às guerras, às epidemias, às catástrofes naturais. Pensei em Lisboa pós-terremoto; Paris, pós sucessivas revoluções e contra-revoluções, Berlim, pós-Segunda Guerra; Nova York, pós violência e caos urbano; Barcelona depois da guerra civil espanhola… há fartura de exemplos.

Pensei nos movimentos da sociedade civil -- no Adote um distrital, nos movimentos contra a corrupção, nos muitos movimentos em defesa da área tombada, pensei nos estudantes universitários, no vigoroso movimento hip-hop da periferia, nos documentaristas, nos artistas plásticos, nos poetas, nos arquitetos,  nos movimentos culturais espalhados pelas cidades-satélites. Pensei nos homens e nas mulheres de bem que, como eu, estão assombrados.

E me pedi paciência. E entendi, mais uma vez, o limitado alcance do meu braço. Mas com ele eu ainda posso fazer muita coisa. Escrever, por exemplo. Soprar baixinho nos ouvidos ao meu redor a crença na face clara da Lua e me juntar aos que compartilham comigo dessa fé. Por enquanto, não há muito onde se segurar, mas qualquer fio de algodão já é um começo.

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Quinta-feira, 19 de abril de 2012 01:46 pm

crônica da cidade


Dois amigos


Era uma solidão escandalosa aquela. Entrava dia e saía noite e o homem cruzava o portão sozinho, entrava no elevador desacompanhado e abria a porta despovoado de companhia. Tinha uma rotina severa, o homem. Acordava pontuamente às seis, dormia às exatas onze, almoçava na aridez da uma da tarde e não jantava. Fazia check-up uma vez ao ano, ia ao dentista de seis em seis meses, conferia o extrato bancário de dois em dois dia, checava a validade dos alimentos todos os sábados e cortava as unhas do pé aos domingos.

Tinha emprego público, casa própria, plano de saúde, previdência privada, seguro de vida, seguro contra incêndio, aplicações em renda fixa, mas nenhum deles lhe fazia companhia. Não tinha carro e essa foi a sua salvação, como se verá daqui a pouco.
Comentava-se que o solitário tinha temperamento difícil. Queria ter razão em tudo e até tinha, dada a sua racionalidade e sua lógica severas — eram intensas as relações de amizade entre eles. Tudo era motivo para discurso de protesto, o que o fazia saltar de indignação em indignação, como se o chão da Terra fosse feito de ferro e fogo.

Quem ficaria ao lado desse homem incandescente, quando ele envelhecesse? Familiares, colegas de trabalho, amigos distantes, ex-mulheres, porteiro do prédio se perguntavam a cada vez que a misantropia do homem cruzava seus caminhos.

O que nenhum deles percebera é que o eremita era imperfeito. Ele tinha um amigo quase invisível aos olhos viciados do senso comum. O parceiro do homem ermo o acompanhava havia mais de dez anos. Era o taxista do ponto próximo à sua casa.

A amizade — sim, eram amigos — começou vagarosamente. Só depois do primeiro ano de corridas constantes, do trabalho para casa, da casa para o trabalho, taxista e passageiro mantiveram o primeiro diálogo. Foi num sábado pela manhã: "Estou meio febril. Você pode passar numa banca e me trazer algumas revistas e jornais?". Vê-se que era um homem antigo, que gostava de leituras em papel.

Vieram outros pedidos — trazer uma sopa da padaria, buscar a faxineira em dia de greve de ônibus, providenciar um bombeiro-hidráulico, levar documentos ao trabalho num dia de gripe forte. Estavam estabelecidas as condições para uma conversa mais pessoal: "Passei o fim de semana sem água no banheiro, vê se pode?". Ou: "Fazia tempo que uma gripe não me derrubava, cruzes". Ou ainda: "Aquela padaria já fez sopa melhores". Ou seja: reclamações, reclamações, reclamações. Mas, enfim, um diálogo.

O paciente taxista começou a sentir um misto de comiseração e afeto por aquele casmurro brasiliense. Só então descobriram que eram corinthianos até os poucos fios de cabelo. Daí em diante, taxista e misantropo fortaleceram os laços de afeto a ponto de o motorista ter a chave da casa do solitário. "Moro sozinho, de repente me acontece alguma coisa e eu não tenho a quem recorrer. Você se importa?", perguntou o quase ex-eremita.

Neste fim de semana, casmurro vai almoçar na casa do taxista. Aceitou se sentar à mesa com a mulher do amigo, os quatro filhos, três netos, dois cunhados, uma avó e dois agregados. Soube que ontem à tarde ele pesquisava na internet qual a melhor doceria de Brasília. Quer levar a sobremesa.

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