
“na quarta parte nova os campos ara;
e, se mais mundo houvera, lá chegara”
Esses dois versos do Canto VII, estância 14, de Os Lusíadas, vieram até mim hoje pela manhã numa visita à História da Terra e do Homem do Planalto Central, de Paulo Bertran. O livrão do Bertran é pra se ler como se lê um almanaque da história da região que nos abriga, cheio de ricas descobertas e de ilustrações de época.
Desde há muito aprendi de cor esse trecho do longo e monumental poema épico de Camões. Não tinha prestado muita atenção ao sentido, apenas o havia decorado O trecho vinha no cabeçalho do Correio Braziliense, desde Hipólito José da Costa, mas faz algum tempo migrou para o expediente ao pé da página de Opinião.
Foi então que hoje parei novamente diante do “na quarta parte nova os campos ara; e, se mais mundo houvera, lá chegara” e percebi o óbvio: até a era dos descobrimentos, o mundo conhecido eram três: a Europa, a Ásia e a África. As Américas eram a nova quarta parte. “E, se mais mundo houvera, lá chegara”.
O trecho denuncia o entusiasmo de Camões diante da expansão dos domínios portugueses, mas se encaixa muito bem na mudança da capital do Brasil — longo processo que começou no século 18 e que foi revelando aos brasileiros, pouco a pouco, o Planalto Central praticamente desconhecido. Vale lembrar aos mais jovens que Hipólito foi um dos primeiros brasileiros a defender a mudança da capital para o interior do país.
Os dois versos fazem parte do Canto VII estância 14:
“Mas, entanto que cegos e sedentos
andais de vosso sangue, ó gente insana,
não faltarão cristãos atrevimentos
nesta pequena Casa Lusitana:
de África tem marítimos assentos;
é na Ásia mais que todas soberana;
na quarta parte nova os campos ara;
e, se mais Mundo houvera, lá chegara.”
Mundo havia, aqui chegamos e hoje somos 2,5 milhões de almas brasilienses.
Os herdeiros do cometa
Vive em Brasília uma família descendente do cometa Halley. O mais célebre e esfuziante corpo celeste que perambula pelo Sistema Solar e que a cada 76 anos nos faz uma visita fugaz, porém esplendorosa, deixou herdeiros na capital do país. Numa das passagens pela Terra, o rei dos cometas causou tão forte impressão num adolescente que ele decidiu, algum tempo depois, incorporar o cometa à sua vida.
Manoel Vieira de Melo tinha 14 anos quando, em 1910, o Halley relampejou nos céus de Nazaré da Mata, cidade próxima ao Recife. Sua cauda gasosa de 100 milhões de quilômetros estendeu-se de uma ponta a outra do horizonte e amedrontou os humanos que esperavam, em pânico, pelo fim do mundo.
A Terra continuou a girar placidamente em torno do Sol, mas a vida de Manoel seguiu um caminho um pouco mais tortuoso. Algum acontecimento nunca desvelado provocou um rompimento na família Vieira de Melo. Há indícios de que por essa época Manoel tenha se alistado no Exército e trocado de nome. Passou a assinar Manoel Vieira Halley.
Daí então Manoel se tornou parente de Edmund Halley, o astrônomo inglês que em 1695 mapeou a órbita do cometa, calculou o tempo que ele gastava para voltar ao mesmo ponto e avisou que em 1759 o poderoso voltaria a cortar os céus da Terra. Daí então o cometa ganhou o nome do astrônomo. Nada mais merecido: o cara havia mapeado todas as passagens anteriores do bichão, desde o ano 240 a.C.
Trinta e seis anos depois da passagem do cometa, Manoel Halley se casou no Rio de Janeiro. Já era um homem de 50 anos, era moreno, tinha envergadura de atleta e parecia ser bem mais jovem.. Gostava de ouvir música erudita, vestia-se com primor, falava e escrevia igualmente bem, mas era tímido. E os acontecimentos que o levaram a romper com a família era assunto que o aborrecia. Por isso, pouquísismo se sabe a respeito.
Dois meses depois do casamento, Halley morreu vítima de um aneurisma na aorta abdominal. Deixou a mulher grávida. O filho, José Luiz Halley, vive em Brasília, e foi quem me contou essa história. Halley filho muito se orgulha do sobrenome e ficou mais garboso ainda depois que a filha Anna Luiza passou a assinar Anna Halley em sua atividade profissional. Anna diz que seu nome causa estranhamento. Alguns acham que ela tem descendência britânica, ou perguntam se tem a ver com a mítica Harley Davidson, mas ela explica, com o mesmo orgulho do pai de onde vem o sobrenome. Há mais dois descendentes do cometa em Brasilia, Gustavo e Rodrigo.
Halley filho espera que Halley pai, que a essa altura deve ter contato bem próximo com os mistérios da criação do mundo, e com quem o criou, facilite as coisas aqui na Terra para que a família Halley tenha descendentes até, pelo menos, a próxima visita do cometa, no distante 2062.
Marília Pera e Fernando Ramos da Silva em Pixote
Mamãe é cabulosa
Para quem vive no olho da barbárie, a violência é uma possibilidade sempre presente. Lá, nenhum ombro delicado suportaria o espetáculo bárbaro do cotidiano. Por isso, a mulher que vou chamar de Asdfg tem muita coisa a ensinar às mães. Empregada doméstica, cria o filho sozinha desde que ele nasceu, um adolescente a quem darei o nome de Qwert, 16 anos.
Desde garoto, Qwert teve de aprender a conviver com a violência sem por ela se deixar contaminar. Mas não aprendeu sozinho, a mãe o ensinou. Para delimitar as fronteiras do território sagrado de sua pequena família, Asdfg teve de ser mãe e macho, os dois sentidos da palavra sendo exercidos ao mesmo tempo e ela aprendendo enquanto agia, movida pelo desejo de ver o garoto virar gente.
Teve uma época que um moleque grandão, com pinta de mala, vivia batendo nas crianças menores com chutes no peito. Asdfg ficou sabendo disso e, como passava boa parte do dia no trabalho, decidiu se antecipar ao perigo. Chegou no garotão, fez uma pose de macho e disse, apontando o dedo indicador para o peito do malinha: “Olha aí, cara, você vai se dar muito mal se se aproximar do meu filho. Ele tem mãe, e ela é muito macho, é bom não se esquecer disso”. E saiu pisando firme (mas todo o corpo tremendo que nem passarinho molhado). O candidato a mala é hoje um mala de verdade, mas andou muito tempo sumido da quadra de Asdfg.
No ano passado, o filho de Asdfg recebeu ameaças virtuais de uma gangue porque estaria namorando uma ex-namorada de um deles. Asdfg vestiu a melhor roupa, calçou um salto e foi à escola do filho. Sem se fazer anunciar, entrou na sala de aula, pediu licença à professora e disse: “Sou mãe de Qwert e vim conhecer a sala onde meu filho estuda”. Qwert pôs a mão no rosto pra se esconder do mico. “Huuuuuhhhh”, reagiram os alunos. “Huuuuhhhh quer dizer o quê?”, ela perguntou, com a voz mais macha que pode inventar. Silêncio total. E ela: “Professora, qualquer coisa que acontecer, aqui está meu telefone, é só me ligar. Muito obrigada e até logo”.
Asdfg queria que todos ali soubessem que o filho dela “não é um cão sem dono”. Qwert não gostou nem um pouco: “Mãe, a senhora é a maior vexa!”, e ficou emburrado por alguns dias. Mas as ameaças cessaram.
Ao contrário do que se pode imaginar, Qwert não se comporta como um filhinho da mamãe. Tem pose de macho, precisa dessa pose pra não ser engolido pelos malas. Bate papo com eles, trata-os como chegados, mas leva uma vida de adolescente bem cuidado e orientado. Asdfg é conhecida na escola como uma mãe cabulosa. Tudo o que as crianças e os adolescentes à beira do abismo do crime precisam. “Muita mãe tem medo do filho. Não pode. Não sou mãe moderninha. Converso muito com meu filho, mas ele me chama de senhora, não diz palavrão na minha frente e me pede a bênção. E até agora meu filho é um menino de ouro”.
Caminhando pela história de Formosa, à procura das reminiscências da história de Brasília, encontrei no livro de Gustavo Chauvet (Brasília e Formosa, 4.500 anos de História) um poema que é um canto sertanejo dos mais bonitos (e tristes).
Há um capricho do autor na escolha das palavras, na representação do lugar e das coisas do sertão. Virou música. Foi gravado pelos preciosos Zé Mulato e Cassiano no disco Meu Céu, ganhador do prêmio Sharp de música sertaneja de 1998, segundo informa o mesmo Chauvet.
A capital de ousadas linhas modernas surgiu num chão sertanejo e, como recém-chegados que somos, temos de reverenciá-lo.
Lembrança de carreiro
Antonio Victor
Tarde da vida, quando se amontoam os anos,
Debruçado em desenganos da minha desilusão,
Fico espiando da janela do presente,
Retalhos de antigamente que me dói como um ferrão.
Vai, boi Penacho, puxa o carro, boi carreiro,
Companheiro de viagem nas quebradas do sertão,
Leva carga, rasga o barro do caminho,
Se couber, leva um pouquinho de mágoa deste peão.
Peão que chora quando vê o Sol baixando,
E um carro de boi cantando seu gemido de paixão,
Sai num suspiro meu gemido solidário
E desfio o meu rosário em contas de solidão.
Sou um carreiro vencido pelo cansaço,
Mas me lembro do chumaço, da chaveia e dos cocão,
Eixo e fueiro, cabeçaio, cheda e mesa,
Velho tempo de riqueza que virou recordação.
Ainda me lembro o recavém e o pigarro,
Cunha nas roda do carro, cambota, arreia e meião,
Chapa, esse, cravo, canzil, brocha e tamboeiro,
O ajoujo, a tiradeira, argola, canga e cambão.
Vai, boi Penacho, puxa o carro e vai embora.
Já venceu a minha hora, terminou minha missão.
Leva essa carga de tristeza que me invade,
Se couber, leva a saudade que me aperta o coração.
O Bezerrão
A propósito de Bezerrão, Seleção, Kaká e Cristiano Ronaldo, o estádio é obra de um grande arquiteto modernista, o paulista Ruy Ohtake, filho de dona Tomie, autor do Brasília Shopping e do Blue Tree, que hoje se chama Brasília Alvorada Hotel. Ruy é um dos arquitetos de renome mais claramente ligados a Niemeyer. Em entrevista a o site www.arcoweb.com.br, Ruy conta lembra o período da inauguração da cidade e o jeito como se aproximou de Niemeyer.
“… em 1960, Brasília foi inaugurada e esse foi um momento efervescente. Considero-me um privilegiado por ter vivido naquela época. Quando o Rio ainda era capital, eu ia lá sempre que podia para visitar o escritório de Niemeyer. Claro que um estudante no início do curso, como eu, não ia perguntar se ele podia me atender. Ligava só para saber se ele estava no Rio, pegava o ônibus na noite da sexta-feira, viajava sete horas pela Dutra, que tinha só uma pista, e chegava na raça Mauá pela manhã. Fazia uma horinha, ia de lotação até Copacabana, subia até o escritório e ficava esperando que Niemeyer chegasse.
Da primeira vez, ele entrou e foi direto para as reuniões, e eu lá fora, esperando. De vez em quando ele vinha trazer alguém na porta e me via lá. Numa das vezes, perguntou o que eu queria, expliquei, e ele me mandou entrar. Disse que não poderia falar comigo naquele momento, mas que se eu quisesse poderia esperar. Fiquei vendo as pessoas que desenhavam e às seis da tarde ele disse: “Você ainda está aqui? Espere mais um pouco e jante comigo aqui perto”. Para mim, foi a glória jantar com Oscar Niemeyer e ouvi-lo falar. Eu estava no primeiro ano e não tinha a menor condição de manter um diálogo sobre arquitetura. Era um monólogo mesmo, mas eu só queria ouvi-lo. Então, na minha formação, além de Artigas (Vilanova Artigas, um dos mais excepcionais arquitetos brasileiros), de alguns professores e colegas mais adiantados, esses primeiros contados com Niemeyer foram muito importantes”.
A transferência da capital para o interior do país foi defendida com muito mais ardor do que eu supunha até escarafunchar livros, relatórios e documentos de época. Acreditava-se que mudar a capital para a região ainda não desbravada era um dos caminhos para a formação da identidade nacional. E disso o poeta Olavo Bilac (foto) fala com muito calor em texto publicado na coluna Registro, do jornal A Notícia. Bilac estava na Europa, em 1905, e de lá sentiu a vibração do debate que ocorria no Brasil sobre a transferência da capital. O texto é um deleite, mas de época, vale avisar. O poeta começa falando de uma onça que apareceu no Rio e daí envereda pelo Brasil selvagem e desconhecido.
"Dizem os jornais que em Guaratiba apareceu há dias uma onça.
Uma onça em Guaratiba, ali adiante na encosta da serra do Bangu, em pleno território da civilizada capital da República! Não acham que é um assunto merecedor de registro e comentário?
Este caso é uma espécie de memento, dirigido à nossa filáucia. Chegando até o seio da nossa civilização, esse imprudente felino, que pagou com a vida a sua imprudência, veio lembrar-nos o que é o Brasil ainda hoje, ao expirar do ano da graça de 1905: um território imenso e despovoado, cheio ainda de florestas virgens.
É essa uma coisa de que nunca nos lembramos… Embebidos na contemplação da nossa vida social, muito contentes com a nossa luz elétrica, com as nossas avenidas, com os nossos teatros, com o nosso parlamento, com as nossas academias, muito satisfeitos com o povoamento e o progresso desta faixa do litoral do Brasil, achamos que todo o Brasil é isto, e vivemos, numa doce ilusão, acreditando que a nossa pátria já é um país, uma nação.
E eis que, de repente, uma onça aparece bem perto de nós, como a dizer-nos:
"Sabem vocês quem eu sou? Eu sou a vida selvagem, eu sou a natureza bruta, eu sou a mata virgem, eu sou a era primitiva!"
Não nasci e não vivo em Goiás, ou em Mato Grosso, ou no Amazonas: nasci e vivo aqui, pertinho de vocês, da sua luz elétrica, das suas avenidas, da sua civilização. Isto quer dizer, meus amigos, que a mata virgem não está somente lá dentro, no âmago dos apartados sertões: não! A mata virgem está aqui, no litoral, no seio da capital da República.
Compreendem vocês? Se aqui, no Distrito Federal, há ainda selvas brutas e onças, imaginem vocês o que haverá por estes matagais do Brasil, que nunca mais acabam, e onde até o Judeu Errante seria capaz de perder as botas, e onde até Satanás seria capaz de perder os chavelhos!
Meus amigos, eu bem sei que vocês não gostam de ouvir conselhos: mas ouçam sempre este conselho, que é de onça matreira e experimentada… Vocês devem tratar quanto antes de explorar, de desbravar, de povoar, de fecundar este país imenso e inculto… Porque, reparem: isto é tão grande, isto é tão bom, isto é tão rico, isto é tão apetecível, que não falta quem o apeteça….
Tomem tento, e não fiquem somente na Providência Divina!
Oh! que onça de bom senso! Oh! que onça de juízo!
Infelizmente aconteceu-lhe o que sempre acontece a quem se mete a dar conselhos aos que não gostam de recebê-los: apanhou meia dúzia de tiros, e perdeu, na aventura, a vida… e a pele que foi vendida por trinta mil réis".
Um porteiro da SQN
Só os porteiros
Só os porteiros das superquadras puderem ser felizes, diria Lucio Costa, diante do fracasso de seu sonho de juntar o ministro e o motorista no mesmo bloco. Desde os primeiros tempos, as superquadras foram ocupadas pela classe média e de média pra cima. Só os porteiros ficaram, se bem que morando naqueles cubículos do pilotis, mas ficaram. E seus filhos estudaram na escola classe e fizeram cursos de música na escola parque. E brincaram nos parquinhos e puderam dizer: moro no Plano Piloto.
Todo filho de pioneiro, criado debaixo do bloco, tem um porteiro no álbum das lembranças mais remotas. Um bloco de superquadra não existe sem pilotis e sem porteiro, a maioria deles candangos vindos do Nordeste.
O porteiro da infância do Gustavo se chamava Zé. Era analfabeto, tinha um sotaque engraçado e uma ingenuidade de quem ainda não tinha se dado conta dos males do mundo. Morava num quarto bem pequeno e passava o dia enganando a fome com bolachas cream cracker. Um dia, Zé acordou sem conseguir falar e morreu no seu cubículo sufocante. Todo o prédio desceu, comovido, para ver o Zé morto.
O Diego também tem um porteiro na sua história. Numa das primeiras vezes que usou um terno para trabalhar, Diego ouviu uma voz no elevador: — Oi, Diego! Tô te vendo aqui pela câmera. Queria falar com você depois. Aldo contou que estava procurando outro emprego, que queria “subir na vida”, mas que para isso precisava de um terno. Diego até quis emprestar um dos seus para o Aldo, mas ele era mais gordo e mais baixo. Não deu muito certo.
O porteiro da Marina também é safo. Aproveita as noites para percorrer as superquadras do final da Asa Norte atrás de apartamentos para alugar. Faz uma lista e repassa as informações aos interessados. Ou saí à procura de imóveis para seus clientes. Basta dizer que tipo de apartamento se está procurando, em que quadra, por que preço e esperar. Se seu José não encontrar o que o cliente procura, é porque o que ele procura não existe. O porteiro da Marina cobra pelo serviço, claro: em média, R$ 300 por apartamento encontrado.
Seu Raimundo, porteiro de um bloco na 402 Norte, persegue baratas. Luta em vão. Dedetiza-se o prédio, as bichinhas somem e dias depois, lá estão elas, enlouquecendo seu Raimundo, um homem silencioso, discretíssimo, que se faz ouvir pelos assobios que o embalam durante as limpezas dos corredores e pilotis.
O fato de morar no cubículo do pilotis não transforma o porteiro num igual. Pois vejam o que aconteceu com o porteiro do Maggio: uma das moradoras bateu à porta do quartinho do Chagas no horário de almoço. O porteiro abriu a porta com uma toalha enrolada na cintura. A moradora quis que o síndico o demitisse ou o advertisse pelo que considerou um atentado ao pudor. A toalha do porteiro rendeu uma reunião de condomínio e decidiu-se que não havia razão para repreendê-lo. O bloco fica no Sudoeste Econômico.
Esse é um só um exemplo de como era improvável o sonho da igualdade nos blocos do Plano Piloto.
Na crônica de ontem, no Globo, Verissimo fala da Catedral de Estrasburgo e do quanto é impossível vê-la por inteiro ao rés do chão porque, como diz ele, ela é como um Pão de Açúcar num pires. Fui atrás da Catedral e fiquei impressionada não apenas com a monumentalidade gótica, mas também com o fato de ela estar plantada num pedacinho de praça. Pelo jeito, ela nasceu primeiro e as casas vieram depois e sufocaram a grandeza da Catedral. Guardadas as diferenças, do mesmo modo que o Museu da República roubou a cena da Catedral de Brasília. Um pecado de Niemeyer contra o próprio Niemeyer.
O Bandeira
Histórias do dedão do pé
Severino Francisco
O Brasil possui três manés geniais: Manuel Bandeira, Mané Garrincha e Manuel de Barros. Mas Manuel de Barros, o poeta pantaneiro, sintetiza os outros dois manés: o despojamento radical (Manuel Bandeira) e o espírito de invenção (Mané Garrincha). Vejam se este verso de Manuel de Barros não parece um drible de Garrincha? “Não era normal o que tinha de lagartixa na palavra paredes”. E o despojamento, a ascese e a celebração das coisas simples da vida em Manuel Bandeira também são partilhados pelo xará de Mato Grosso do Sul: “Só as coisas pequenas me celestam”.
É engraçado porque, à medida que envelhecem, os poetas costumam assumir um ar grave e, muitas vezes, tornam-se deliberadamente acadêmicos, usando fardão e camisola, no corpo e na alma. Às vezes, se transformam em múmias militantes. A trajetória de Manuel de Barros é diametralmente oposta. Ele tem noventa e lá vai fumaça e, quanto mais avançado na idade, mais a criança que fundou a sua poesia assume o comando e se multiplica em vôos de fantasia verdadeiramente geniais.
O de Barros
Manuel escreveu vários poemas em que estabelece uma afinidade entre as figuras do poeta e da criança. Em um deles, ele diz: “O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa./Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada./Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. Era uma enseada./Acho que o nome empobreceu a imagem”.
O artista plástico Evandro Salles realizou um vídeo de animação, intitulado Histórias do dedão do pé do fim do mundo, baseado em textos de Manuel de Barros, especialmente para a bela exposição Arte contemporânea para as crianças, em cartaz no CCBB. A história de um menino que tem o hábito de carregar água na peneira e fazer outras operações absurdas é um pretexto para uma iniciação à poesia, que é a arte de fazer a língua pegar delírio, a arte de inventar novos sentidos para as coisas.
Como diz Manuel de Barros em um poema: “As coisas não querem ser vistas por pessoas normais/Elas querem ser vistas de azul/Que nem um girassol que você olha de ave”.
O vídeo realiza uma tradução criativa de poesia verbal em poesia animada. As palavras e as letras viram personagens, mas sempre para celebrar a poesia, o silêncio, a singularidade do menino poeta. De noite, o silêncio estica os lírios. Um ponto final interrompe o vôo das garças. A criança entra em estado de árvore e faz amizade com as borboletas. A poesia de Manuel é de comunhão e promiscuidade com a natureza. Ele é o nosso Rimbaud sertanejo, a misturar os sons, os perfumes e as cores do pantanal.
Atualmente, as crianças estão expostas a um inacreditável lixo cultural. O vídeo sobre Manuel de Barros vai na contramão dessa avalanche. É impressionante como irradia, em cada detalhe, esmero, delicadeza, cuidado e respeito pela inteligência das crianças. A voz da narradora Bidô Galvão empurra a história para o território do sonho. O vídeo captou muito bem o espírito de menino experimental da poesia de Manuel de Barros. Ele parece aquele gato zombeteiro de Alice no país das maravilhas, que desaparece, mas sempre deixa o sorriso sozinho parado no ar: “Hoje, eu desenho o cheiro das árvores”.

O das pernas tortas

Tiradentes Esquartejado, obra de Pedro Américo pouco conhecida
Pesquisando a história da idéia da transferência da capital para o interior do país, longa história, cruzei com Pedro Américo, o pintor que também era escritor, poeta, pesquisador, professor e deputado constituinte de 1890. Paraibano de Areia, PA começou a labutar muito cedo. Aos 11 já acompanhou o naturalista inglês Louis Jacques Brunet em viagens pelo Nordeste. PA desenhava a flora e a fauna para o viajante estrangeiro.
Mas o que interessa aqui é o tal achado. Vejam trecho de um discurso de PA defendendo a mudança da capital para o interior e atacando a corrupção no Rio de Janeiro, "terrível cidade tão saturada de elemntos nocivos à vida moral". Pra fechar a boca dos que dizem que a corrupção nasceu em Brasília. Parece absurdo mas é a lengalenga de muita gente por aí. Vamos ao PA:
“A respeito da mudança da Capital da União também creio que se poderia tratar do assunto de modo menos vago do que até aqui se tem feito, pelo menos quanto ao prazo concebido para essa mudança. É absolutamente necessário suprimir-se, quanto antes, a maléfica influência desta terrível cidade tão saturada de elementos nocivos à vida moral da Nação, que acostumou-se à contínua absorção, à endosmose intelectual do que de si expande a antiga Capital do Império. Esses elementos influem, igualmente, sobre o Governo da União, pela pressão constante dos interesses puramente individuais, e sobre todo o país, pela expansão incessante da corrupção em todos os sentidos.
Que o fenômeno da imoralidade pública do Rio de Janeiro não é somente devido ao acaso, e que, pelo contrário, parece ser o efeito de um plano preconcebido para enfraquecer a austeridade nacional dos costumes, disse-o eu em um opúsculo estampado em 1882, cujo trecho relativo não ousarei ler para não abusar da vossa benevolência”.
(em Anais da Câmara dos Deputados, 1891, volume III, página 226, sessão de 27 de janeiro de 1891)