A ocupação da cidade pelos candidatos às próximas eleições nos impõe, entre outros sacrifícios democráticos, o de ficar refém do novo sentido que se dá às cores. Cansada de ter de explicar, na eleição passada, que vestia verde, mas não votava em Arruda, Ana Maria agora não pode mais usar azul nem vermelho. Ela mesma é quem conta e me autoriza a publicar: “Numa bela noite de uma terça-feira fui com um blazer azul ao concerto da orquestra sinfônica quando um amigo, culto, músico erudito e cheio de láureas, veio com a piadinha: fazendo propaganda pro Roriz, hein?”
Constrangido, o blazer cor de céu, de mar e de anilina voltou ao armário e pediu à dona que por favor o deixasse por lá até outubro, pelo menos.
Na quinta-feira seguinte, Ana Maria — que pelo visto tem intensa (e colorida) vida cultural, abriu o armário para escolher a cor que a levaria ao Clube do Choro quando, diante de um sedutor pulôver vermelho, teve receio das piadinhas — “Virou petista, é?”. Pediu desculpas ao lindo e caloroso agasalho e procurou alguma outra cor que a deixasse mais livre para ouvir o choro. Teve vontade de desfilar o casaquinho amarelo, havia tempos que não se vestia com a cor do sol. Tentou se lembrar de algum candidato a distrital ou a federal que tivesse adotado na campanhas os tons da incandescência, mas não se lembrou de nenhum. Mesmo assim, preferiu se conter. “Vai que eu vou ouvir alguma coisa sobre Reguffes e Rolembergs?”
Ana Maria saiu de casa vestindo cinza, quando poderia ter vestido azul, como fazia o Simonal. Cinzenta, ela quase não conseguiu fruir do som da guitarra do Armandinho. Pensava que, em sendo brasileirinha, tinha de usar as cores fortes que haviam ficado reclusas no armário. Pensou num hai-cai (azul?) da Angélica Torres, na ternura e na bravura (verde?) do Nicolas Behr, no “amarelo gritante como o Sol do inverno brasiliense”, no mosaico de cores do Gougon.
E fez um libelo a favor das tintas fortes que revestem a superfície do viver. As cores, Ana Maria me escreveu, “são nossas, do povo verde de fome, do povo roxo de raiva, dos que têm vida cor de rosa, dos ipês amarelos, dos flamboyants alaranjados.” Sob o céu galáctico que nos envolve, e como na Canção do Exílio, nossa vida tem mais cores, nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores. Brasília é uma cidade de pigmentos fortes, desde a terra até o firmamento. Brasília é vermelha como a caliandra, amarela como o pequi, azul como o amanhecer, verde como o horizonte.
Esta coluna, portanto, se solidariza com o protesto de Ana Maria para quem as cores não são propriedade dos políticos. E sugere que ela liberte o pulôver vermelho, o blazer azul e o casaquinho vermelho do armário e, da próxima vez que alguém lhe perguntar se ela está com Roriz ou com Agnelo, que ela devolva a pergunta com um “o que você acha?” e, enquanto o interlocutor estiver pensando numa resposta inteligente, mude de assunto e puxe uma prosa bem colorida.
Vamos com calma. Tudo bem que o mundo está mudando numa rapidez atordoante, que a internet está inventando um novo homem, uma nova humanidade (sabe-se lá qual será), que a Terra já não possui nenhum território inexplorado, que a biotecnologia caminha para a criação de humanos replicantes, que o planeta está esquentando e o sangue das gentes virando gelo, que não há mais paredes para a privacidade, que tudo tem de se transformar em espetáculo… até aí tudo bem.
Mas daí a se descobrir uma estrela 250 vezes maior que o Sol é demais. Até então, dava para assimilar, um pouco mais, um pouco menos, todas as mudanças de dimensões astronômicas acontecidas no mundo nas últimas décadas. Mas o Sol continuava a ser o corpo celeste supremo, cêntrico, imperturbável, esplendoroso, em torno do qual os humanos giram a própria vida e sem o qual nada existiria — ou o Nada existia.
Há coisas sobre as quais é dispensável saber. Essa é uma delas. A notícia de que o Very Large Telescope e o Huble identificaram uma estrela à qual deram o nome de R136a1 (bem feito, uma identificação impessoal, gelada). O tal R qualquer coisa brilha dez milhões de vezes mais que o Sol. E tem massa 265 vezes maior que a massa solar.
Quer dizer então que existe um outro Sol capaz de aquecer outra Terra ou outras 265 Terras num universo desconhecido e que pode haver vida brotando de um aquecimento dez milhões de vezes maior que o Sol?
Decididamente, a ideia da existência um outro Sol tão fantasticamente maior do que este que nos protege me deixou na escuridão. Suponho que tive atordoamento parecido com aquele que os humanos experimentaram quando Copernico mostrou evidências de que a Terra girava em torno do Sol e que, portanto, ela não era o centro do universo e, mais portanto ainda, que nós humanos não estávamos com essa bola toda. A bola toda é o Sol.
Depois que Copernico dissolveu nossa arrogância geocêntrica, aprendemos a olhar com ainda mais respeito e devoção para o Sol. Se eu tivesse de eleger um Deus, seria ele. Giro em torno dele, mudo de estação pela vontade dele, esfrio se chove, esquento quando faz calor, escureço quando anoitece. Por pior que seja a temporada, se o Sol me acorda sigo alegremente os seus passos, heliocentricamente, segura de que, se ele está sobre minha cabeça, tudo de bom pode acontecer — e se não acontecer no Sol de hoje, acontecerá no de amanhã. E o bom pode ser tão-somente tê-lo de volta.
Por tudo isso, me senti traída com a notícia da existência do tal R não sei mais o que. Quando consegui me acalmar, descobri que os astrônomos estão prevendo vida curta ao fulano. Pelas fotos do Hobble, ele é bem feinho, sem graça, tosco mesmo. Dizem que não tem contornos definidos — ou seja, nem personalidade o cara tem. Foi aí que me acalmei (por que mesmo que me atordoei?) Hoje tem Sol das 6h38 às 17h57, na cidade mais ensolarada do país.
A pedra da renitente desigualdade social da capital da utopia ainda ardia na garganta (e, segundo projeções, ainda arderá por muito tempo) quando uma pernambucana me alertou para o óbvio: Brasília é uma cidade que acolhe, sem preconceito, os diversos e deliciosos sotaques brasileiros. Alguma democracia nos envolve, menos mal. Fenômeno que não ocorre, por exemplo, no Rio e em São Paulo, mais neste que naquele, metrópoles onde o nordestino é forçado a abdicar de sua pronúncia de raiz. A melodiosa e singular dança dos fonemas faz, por exemplo, do baiano, do mineiro, do gaúcho, do paraense um sujeito que só de abrir a boca registra a sua diferença, diz de onde veio.
É um traço (quase) genético da nova capital do Brasil. Nascida do encontro de várias brasis, Brasília se acostumou, desde nascença, a ouvir o acento diferencial que floresce neste território tão vasto, tão diversificado, tão rico. Aqui, o maranhense não precisa esconder a inflexão do NH como em quiNHentos. O baiano não se sente forçado a engolir a entonação que o faz transformar a língua portuguesa num dialeto dengoso e preguiçoso. O goiano não se vê constrangido a engolir o seu falar interiorano. Brasília anistiou os sotaques e legitimou a subversão fonética que faz do Brasil um caldeirão fumegante de dialetos.
Invejo, boquiaberta, os brasilienses aqui chegados de há muito e que ainda cultivam, com zelo e altivez, o sotaque que trouxeram da terra. Quando aqui cheguei, já vim desidratada de minha entonação regional. Minha passagem por Goiânia esterilizou meu modo de falar. Tomei as providências que aqueles desejosos de aceitação costumam fazer: rapidamente, abandonei meu sotaque paraense — o NH, a segunda pessoa do singular do pronome pessoal, o “pai d’égua”, a “laranjada” e outras tantas expressões das quais infelizmente já nem me lembro.
A democracia dos sotaques não surgiu espontaneamente, na capital do país, como se é tentado a concluir. Relatos de professorinhas candangas revelam que os primeiros nordestinos alunos das salas de aula modernistas sofriam o preconceito por sua entonação incomum. Os cariocas eram a maioria entre os servidores públicos. Daí, talvez, o estranhamento inicial. Mas a força descomunal das diferenças, todas chegando ao mesmo tempo agora, impôs a Brasília ouvidos educados para acolher os fonemas mais assim ou mais assado.
Dizem os estudiosos que o brasiliense ainda não tem um sotaque. Eu tenho cá a minha modesta opinião, de quem anda pelos quatro pontos cardeais do quadradinho: o filho da terra vermelha tem um sotaque que é uma mistura de nordestinês, goianês e carioquês, salvo, claro, influências mais sulistas. Mas não é um híbrido -- é outra coisa, é uma miscigenação fonética, um falar que às vezes desliza para outros sotaques, que se abre ao Brasil, quase imperceptivelmente. Com um adendo: nas proximidades das fronteiras com Goiás, o sotaque do brasiliense tem uma incisiva porção goiana. Encantadora, diga-se.
Cena de Garapa, documentário de José Padilha sobre a fome no Brasil
Sabado é dia
Sábado é dia de churrasco num gramado na borda da pista que separa o Sudoeste do Cruzeiro. Faz alguns sábados que a festa se repete. Moradores de rua, todos homens, não mais de seis, se reúnem em torno de uma placa de concreto que deve cobrir algum equipamento de água ou esgoto e fazem o churrasco do fim de semana. Acendem o fogo, põem a carne para assar, juntam as garrafas de cachaça e passam boa parte do dia desfiando histórias.
Há naqueles homens perdidos uma liberdade que nós não temos. Eles não têm modos nem talheres, nem realidade, nem sonhos. Vivem numa dimensão inacessível a nós, os integrados à civilização. Queria muito saber o que dizem, mas tenho medo deles. Nós, que temos algo a perder, nos amedrontamos diante de quem já perdeu tudo. Mas há algo que eles ainda têm — a necessidade um do outro. Aqueles homens desnorteados têm precisão dos outros homens desnorteados. Agarram-se aos fiapos de humanidade que ainda lhes restam. Um homem só precisa desesperadamente de outros homens sós.
Eles ficam em volta da placa de cimento. É a mesa dos condenados da Terra, como dizia Franz Fanon. Compartilham a exclusão e o desconforto, não respondem a nenhuma lei, não têm nada a provar a ninguém, não têm de obedecer às horas do dia, nem conferir o extrato bancário à noite. Aqueles homens parecem só ter um compromisso de agenda, o churrasco de sábado.
Para nós os vencedores (temos teto e emprego e compromisso e dentes e sabonetes), eles são menos do que vira-latas. São de alguma espécie próxima à nossa e vem daí nosso maior estranhamento: são bípedes, são falantes, usam roupas (há deles que têm sapatos), até fazem churrasco aos sábados, mas vivem sem paredes, sem agenda e sem futuro. Tento me lembrar da expressão do rosto de algum deles, mas só consigo recuperar de memória os cobertores sobre os ombros, a barba desgrenhada e os pés inchados.
Aos olhos deles, deveríamos ser exemplo de humanidade. Mas não é em nós que os andarilhos encontram a lembrança de que ainda são humanos. São entre eles mesmo. É no ajuntamento de seus desacertos que eles se humanizam. No churrasco de sábado, nas histórias que contam ao redor do fogo, na garrafa de cachaça que roda de mão em mão, na placa de cimento sobre obra de saneamento, os homens sem nome e sem cidadania só têm um ao outro e mesmo assim num fio de companheirismo que pode se romper a qualquer momento (não é pequeno o número de homicídios e lesões corporais entre moradores de rua).
Se tudo der certo, neste sábado, eles estarão de volta ao churrasco. A placa é grande, quase do tamanho de uma mesa quadrada de oito lugares. Quando passar por eles, vou pensar que o único compromisso que têm debaixo do lindo sol de julho é esticar a prosa e a cachaça até quando lhes der na telha. Sábado é dia de humanidade para meia dúzia de perdidos da Terra que fazem churrasco sobre o esgoto.
O varal de lençóis tremulantes nos quintais, as mulheres conversando nos labirintos dos tecidos, a mãe gritando ‘lá vem a chuva, corre e tira a roupa’, as modas e intimidades coloridas da família entregues ao sol, tudo são lembranças das infâncias nos bairros populares e nas cidades do interior. As roupas de hoje passam a vida espremidas em varais de apartamento — nem todas, porém.
Há uma novidade na paisagem das cidades ao redor do Plano Piloto e até bem próximo dele. As roupas perderam a discrição impostas pelas grandes cidades de prédios colados um nos outros e casas sem quintal e voltaram a se expor aos dias ensolarados do Planalto Central.
Descobri a novidade na última visita que fiz à Estrutural, a vila inquieta e teimosa que estende sua pobreza e sua valentia a menos de 15 quilômetros do Palácio do Planalto. As casas da Estrutural não têm quintal nem varada. Todo o lote é ocupado pela moradia, quartos, cozinha, sala. (Visitei uma casa, faz algum tempo, onde o banheiro ficava na sala e sem paredes nem cortina. O vaso sanitário exibia-se aos visitantes como uma escultura moderna e escatológica).
De volta aos varais. A Estrutural está secando suas roupas na fachada da casa. Assim: o morador estende um varal na altura das janelas e do meio da porta e pendura as roupas, como bandeirolas de um Brasil que sempre dá um jeito no difícil viver. Alguém inventou a moda e ela já se espalhou pela vila. Varais de roupa colorindo a entrada das casas. Seria um produto made in Estrutural?
Não, não é. Encontrei no Varjão a mesma fórmula doméstica para secar rapidamente as roupas da família. Na Ceilândia, já vi calças jeans, camisetas e bermudas penduradas na janela, com as pernas soltas no ar — bandeirolas na fachada de um prédio de apartamentos. Anteontem pela manhã encontrei mais roupas na janela de uma casa no Cruzeiro Velho, o varal empinando-se para o lado de for a. A roupa secava ao alcance de um suposto ladrão, mas uma moça e uma garota brincavam na calçada, como quem disfarçadamente vigia o precioso tesouro das modas caseiras.
Há muito os varais de roupa estão se deitando nos gramados das superquadras e do Sudoeste. Moradores de rua esticam suas becas nos jardins e áreas verdes da capital do país. Num involuntário ato de desobediência civil, eles transformam o patrimônio da humanidade no quintal de uma pequena cidade interiorana — roupas quarando nas manhãs ensolaradas de Brasília.
A dança colorida dos varais nas fachadas das casas, nas janelas dos apartamentos e nos gramados revela também que a democracia chegou ao guarda-roupa. A indústria da moda conseguiu nos transformar em consumidores compulsivos e a preços possíveis para a Estrutural, por exemplo. É pano demais pra pouco espaço. Então, os varais de roupas saíram da área de serviço e estão oferecendo a Brasília um pouco mais de cor e de balanço.
O mais recente estudo de desigualdade social divulgado pelo Ipea dá um bofete em Brasília, repetido bofetão: a capital da utopia é a unidade da federação mais desigual do país e é a única onde aumentou a distância entre ricos e pobres entre 1995 e 2008. A constatação levou Marcio Pochamann, presidente do instituto de pesquisa, a declarar no Correio de ontem: “O Distrito Federal é um caso singular. Foi um dos menores desempenhos em redução da pobreza. Aparentemente é um modelo de expansão econômica concentrador de renda”.
Irônica e tragicamente, o Distrito Federal foi a unidade da federação que apresentou maior crescimento econômico e ao mesmo tempo aquela onde houve menor distribuição de renda. Ou seja, não basta aumentar o Produto Interno Bruto, é preciso que ele cresça de modo menos perverso.
A Brasília projetada para um novo país, mais confiante em si, mais audaz, mais integrado, menos litorâneo, mais brasileiro, se perdeu nos projetos corporativos da casta do funcionalismo público, na ganância do empresariado e na falta de políticas públicas locais de proteção aos mais pobres.
A rigidez da concentração de renda se revela na ordenação espacial da cidade. É quilométrica a distância geográfica que separa os ricos dos pobres. Vivendo num arquipélago de contrastes sociais, o brasiliense é um ilhéu isolado em guetos de bonança ou de penúria. O brasiliense convive pouco ou quase nada com a diferença social — no máximo, entre a cozinha e a sala de jantar, nos semáforos ou nos estacionamentos. Brasília do Plano Piloto não conhece a Brasília das cidades-satélites, e elas, por sua vez, só vêm à área nobre para ganhar o de cada dia — ou para os shows na Esplanada, o território democrático da capital do país. Brasília ainda espera por uma geração de brasilienses que seja capaz de pensar na cidade como um projeto coletivo. A nova capital do país caiu na própria armadilha. Juntou num mesmo território a elite política e a elite do funcionalismo público, expulsou os pobres para longe do Plano Piloto e fez (e continua a fazer, como revela o Ipea) a festa dos que correm atrás do primeiro milhão e depois dele em quantos milhões couberem no saco sem fundo da ambição.
Então, da próxima vez que nós, brasilienses, formos propagandear a alta qualidade de vida de que usufruímos, é melhor reduzir o tamanho da vantagem. A vida é boa para quem mora no Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, em algumas outras áreas nobres e até mesmo em setores de classe média de algumas cidades-satélites, mas, não dá pra esquecer que existe um oceano de miséria ao nosso redor.
Brasília é uma cidade partida, entre a utopia e a realidade, entre o Plano Piloto e as cidades-satélites, entre ricos e pobres. Do ponto de vista da qualidade de vida do conjunto de seus habitantes, dos que moram nas 30 regiões administrativas, Brasília é a anti-Brasília.
Patinador no Setor Comercial Sul, foto do Breno Fortes
Seria, se não fosse
Um dos muitos flanelinhas do Setor Comercial Sul traz no peito um rico colar de chaves de carro. Cada chave é um carimbo de confiança no vigia de carro. Um outro flanela grita com o filho adolescente: “Pode pegar a casca da banana no chão e jogar no lixo. Ali, ó, não tá vendo!”. O garoto obedece, meio desconcertado porque cercado de amigos. Já passa das onze da manhã e, quase em frente ao Banco Safra, outros quatro meninos dormem quase colados uns aos outros. Um outro, quase bebê, come um pastel com refri, coberto por um cobertor da cabeça aos pés, como um fantasminha que perdeu o caminho de casa.
Na quadra 4 do Setor Comercial Sul há um edifício muito modesto, talvez o mais modesto de todos, que leva o nome de Bernardo Sayão. Pelas letras pintadas à mão, a fachada é a mesma desde a inauguração. O SCS está tão velho que já não se orgulha de seu urbanismo moderno. Mas a forma original está lá, pedindo pra ser valorizada, aproveitada, admirada. Veja a larga passarela que começa na W-3 e desce, ampla, em escadas intermitentes, até bem perto da Galeria dos Estados. Ela é um convite à convivência, ao ir e vir prazeroso a caminho do trabalho.
Os camelôs fazem falta, davam vida à passarela. É certo que havia um excesso, uma desorganização perniciosa e perigosa. Por que não revitalizar a portentosa passarela que corta o SCS da primeira à última quadra com quiosques padronizados, floriculturas, bancas de revista, pequenas lanchonetes e serviços de urgência? Com a retirada dos ambulantes, restaram os sapateiros e os engraxates.
Desço o Setor Comercial Sul até os edifícios de 16 pavimentos construídos como peças de dominó — lado a lado e intercalados por áreas de convivência, hoje quase todas elas ocupadas por estacionamentos. O nome do conjunto de prédios altos são nomes bastante conhecidos pela população mais antiga da cidade: União, Maristela, Antônio Venâncio da Silva, JK, Ceará, Camargo Corrêa, Baracat, Morro Vermelho, Central, Alvorada, Denasa, Márcia e Gilberto Salomão. Houve ali uma clara disposição de liberar o chão ao pedestre. A precisa distância entre um prédio e outro faz com que cada um deles derrame sua sombra sobre a área térrea que os contorna. O efeito é de um grande guarda-sol.
Valem parênteses de cunho arquitetônico: os edifícios Camargo e Corrêa e Morro Vermelho se destacam vivamente dos demais, como se tivessem sido construídos décadas depois. São obras de Lelé, o João Filgueiras Lima. As torres gêmeas têm elementos pré-fabricados leves, painéis decorativos, cores na fachada e azulejos de Athos Bulcão, como me informa o Guiarquitetura Brasília. O Denasa é obra de Oscar Niemeyer, assim como o edifício Oscar Niemeyer, que se diferencia dos demais pelos gigantes brises-soleirs de concreto. O Gilberto Salomão é de Sérgio Bernardes.
O Setor Comercial Sul termina no Eixinho Leste. Dele se chega à Galeria dos Estados e por ela se vai ao Setor Bancário Sul. Não fosse o muito desacerto na urbanização de Brasília, esse encadeamento de setores, o chão livre, as passarelas, as calçadas largas, as pracinhas, conduziriam o pedestre, docemente, pela área central de Brasília, como imaginou Lucio Costa.
Repórter não é flor que se cheire. Quando soube da morte do Clésio, gritei de onde estava para o Zé Carlos, editor do Diversão& Arte: ‘Zé, você já está sabendo que o Clésio morreu?’. Ele arregalou o olho, suspendeu a respiração e devolveu a pergunta: ‘Que Clésio?’ Me desfiz em pedidos de desculpa. Para o Zé Carlos, o Clésio não era apenas um personagem da cidade, uma notícia do dia. Era o irmão do Climério e do Clodo, um trio que no final dos anos 1970 ajudou a acalentar Brasília, naqueles anos de sufoco. Era um pedaço da juventude do Zé.
Conhecia o Clésio de música, de fotos e de vê-lo por aí nos cruzamentos da vida. Tentei descobrir quem ele era — músico, poeta, professor de língua portuguesa e de texto, pai, avô e bom de copo. Porém, o que pairou sobre todas essas suas qualificações, foi um atributo raro nesta era insana, Clésio era um homem bom. A Dad Squarisi chorou para falar dele. Lágrimas discretas e elegantes em se tratando de Dad. Ela se lembrou que a mãe dos três músicos a acolheu quando ela chegou a Brasília, acolhimento cheio de afeto. Tal mãe, tal filho. Dad disse que o Clésio, seu colega de UnB, era um cara sensato, lúcido, calmo — alguém com quem sempre se aprendia e sem dor. Ele ensinava e acalmava. Severino Francisco comentou que os três irmãos pareciam três anjos piauienses pousando no cerrado.
Quando chegou esse texto do Paulo José Cunha, então eu conheci um pouco mais o Clésio.
“Lá nos anos 70, quando nós ainda sabíamos caminhar sobre as nuvens, toda vez que os meninos do Piauí iam lançar um disco levavam a fita demo pra gente ouvir em primeira mão lá em casa. Fatinha fazia uns tira-gostos, a gente bebia uma cachacinha e o bolachão estava batizado. Uma vez, embriagados até o deslimite da embriaguez, vimos o fantasma de Torquato Neto passando da sala pra cozinha. Outra vez a americana Ellen, que morava no apartamento de cima e havia chegado, atraída pela algazarra, resolver provar cachaça e plantou bananeira no meio da sala até vir abaixo, num estrondo que acordou metade da Asa Norte, enquanto ríamos de sua falta de jeito com a bebida mais nacional do Brasil. Foi assim com São Piauí, primeiro bolachão deles. E o batismo regado a cachaça Mangueira e boa conversa se repetiu nos demais discos, virou uma espécie de ritual, uma simpatia pra que tudo desse certo. E dava. Até que me separei de Fatinha. Até que eles se esperaram, cada um com sua carreira solo. Até que nos reencontramos, todos, na Fac-UnB , dando aulas, tomando café nos intervalos, rindo de nós mesmos. Naquela época, num artigo escrito sobre São Piauí para o Correio Braziliense, eu me referia ao Clésio como “aquele menino bom”.
E assim foi que ele se guardou em mim: um menino bom, de riso franco, eternamente com aquele cigarrinho no canto da boca, a barba rala, os olhos miúdos, sagazes, atrás dos óculos. E uma sensibilidade destamanho, expressa nas letras de simplicidade marcante. E a voz do Clésio? Pequena e claudicante, mas ele não forçava nada, mantinha-se nos limites de suas possibilidades (como Nara Leão). A cada encontro ou reencontro, a efusão da alegria, a festa do abraço, a explosão do bem-querer. É. O planeta ficou um tantinho menor, sem aquele bom menino.”
Essa formosura de ipê exibe seu esplendor no início da Asa Norte, em frente ao prédio dos Correios, no canteiro central do Eixinho Norte. A foto é da Heliete Bastos, feita nesse domingo.
Vou lhe dar um conselho, que já tenho idade pra isso: concentre-se no bebê, não fixe sua atenção no Bruno, nem no Macarrão nem no ex-policial, nem no J., nem mesmo na Eliza ou no pai dela. Se você ficar muito ligado nos detalhes estarrecedores do crime vai sentir o gosto da amargura na garganta, ou vai ser tomado pela vontade de ser a dona da vida e da morte dos envolvidos na perversidade praticada.
Pense no bebê. Esqueça o Bruno, caso ele seja tudo o que até agora se diz que ele é. Não deixe que seu espírito grude no espírito da ruindade. Não tente entender como funciona a cabeça de um ser humano que torturou um outro (e lembre-se há mais torturadores pelaí do que somos capazes de admitir). Desvie sua alma daquela que estrangulou, esquartejou e, supostamente, entregou os pedaços do corpo de Eliza para cães selvagens.
Ouça meu conselho. Não tente entender a razão de tamanha perversidade. Melhor não ter acesso ao território onde vigora o mal. Há na maldade um poder insidioso que aterroriza os bons ou aqueles que se esforçam para sê-lo ou pelo menos para não ser tão ruim assim. A maldade consome a bondade. Pense que o que é ruim é notícia, o que é bom fica protegido pelo anonimato.
Também não se esforce para saber quem foi Eliza, ou quem é Eliza, nunca se sabe. Por que ela se expôs tanto, por que fez tanto estardalhaço com o que poderia ter se resolvido na discrição dos corredores da Justiça? Não se angustie com essas perguntas. Eliza provocou o mal sem saber que ele era tão terrivelmente execrável. Ninguém sabe o que se esconde dentro de uma carcaça humana.
Feche a porta para todos eles e mire o bebê. Ponha-o no colo, observe a perfeição de seu pequeno corpo humano e imagine que todo ele é uma promessa de vida. Ele é, em si mesmo, a vitória do bem contra o mal, da vida contra a morte. Teria sido muito fácil matar o bebê, mas alguma fagulha de sanidade na cabeça infame dos supostos criminosos salvou a vida dele.
O bebê está vivo. Pense nele. Bruno, Macarrão, Camelo, J., o ex-policial, se comprovada a participação deles, são o fracasso do projeto de humanidade. Mas não pense que estamos piores do que sempre fomos, desde que o ser humano venceu a guerra pela sobrevivência da espécie e pelo domínio da Terra. A escuridão esconde atrocidades iguais ou piores, das quais jamais saberemos. A internet e as outras grandes redes de informação apenas amplificam um ou outro caso que vem à tona.
Por isso, digo, concentre-se no bebê. Pense que ele vai aprender a andar, a balbuciar, a mastigar. Vai se encantar com o cheiro de quem dele cuidar, vai rir dos brinquedos coloridos que serão pendurados no berço, vai tropeçar nas próprias pernas para aprender a trilhar seu próprio caminho. O bebê vai experimentar o que lhe é de direito, a vida, toda ela. E se algum grão de bondade permitiu que o bebê continuasse vivo, é porque nem tudo está perdido. Mire o bebê.