Blog da Conceição


Segunda-feira, 08 de fevereiro de 2010

crônica da cidade


Fantasia de Plano Piloto





Na Sapucaí




Na madrugada da próxima segunda-feira, entre 2h30 e 3h30, Brasília vai entrar na Sapucaí. Tenho ouvido, aqui e ali, brasilienses dispostos a vaiar a Beija-Flor, como se assim estivessem protestando contra o escândalo das propinas. Calma lá: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.




Desde que a escola decidiu cantar os 50 anos de Brasília no desfile de 2010, me preparei para, pela primeira vez, participar de um desfile de escola de samba do Rio de Janeiro. Uma amiga e eu estávamos planejando comprar uma fantasia menos rebuscada, com menos adereços, para não prejudicar a escola com eventuais perdas de plumas pelo caminho.




É certo que me incomodava desfilar numa escola cujo desfile custara R$ 300 mil pagos pelo dinheiro público. Mas admiti que estava sendo xiita demais. Não é de hoje que o maior espetáculo da Terra se transformou num balcão de compra e venda. Brasília estaria na avenida e eu queria estar no meio dela, rodopiando minha fantasia de braços abertos para o Rio de Janeiro.




Depois que a Polícia Federal abriu a Caixa de Pandora, perdi inteiramente a vontade de entrar na avenida. Minha amiga e eu nem chegamos a conversar a respeito. Foi uma decisão mútua e tácita. O assunto morreu.




Porém, a ideia de que a Beija-Flor pode ser vaiada na Sapucaí, e com a ajuda de brasilienses na arquibancada, me entristece. Mais uma vez, a cidade vai pagar por um crime que não cometeu. Mais uma vez, os brasileiros vão confundir Brasília com o Brasil. É bem mais confortável supor que a estranha cidade plantada a meio caminho dos quatro pontos cardeais é responsável pela roubalheira que ocorre de norte a sul e de leste a oeste. É mais trabalhoso aceitar a ideia de que a corrupção é endêmica e está mais próxima de cada um de nós do que gostaríamos de admitir, aqui ou alhures. É mais prático pôr a culpa numa instância difusa e distante chamada Brasília. Brasília não saiu de dentro da Caixa de Pandora e nem se resume ao que de podre há lá dentro.




Começo a acreditar que os brasileiros só vão entender o que a construção da capital moderna significou e significa para o fortalecimento da ideia de Nação quando o Brasil superar suas mais terríveis mazelas. Aí então o brasileiro se libertará do preconceito contra a capital e terá olhos para reconhecer a grandeza que há na invenção desta cidade. Mas este dia está longe.




Até lá, vou esperar a Beija-Flor entrar na avenida cantando “Sou candango, calango e Beija-Flor! / Traçando o destino ainda criança / A luz da alvorada anuncia! Brasília, capital da esperança”. Não vou aplaudir, porque não estou para festas. Mas vou ficar mais uma vez orgulhosa de viver em Brasília, mesmo que a escola seja vaiada. Tolos, eles não sabem o que fazem.

 

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Segunda-feira, 01 de fevereiro de 2010

crônica da cidade


Brasília, 1960, foto de Thomas Farkas



A festa possível





Depois que o bolo queimou e um monstrengo enlameado se sentou na mesa de centro da sala, o aniversário de 50 anos perdeu a graça. A comemoração agora terá de ser de outro modo: menos festiva, mais reflexiva. É esse o espírito de um belo presente que Brasília acaba de ganhar: o número 56 da revista Humanidades.




Bonita edição. A economia de recursos gráficos descansa os olhos e deixa o leitor livre para fruir texto e fotos. BrasíliaCidadePensamento é o título da edição, toda ela dedicada à cidade. Nas páginas 4/5, um espanto: uma foto de Thomas Farkas, a Esplanada em construção, entre um céu do tamanho do mundo e um chão do tamanho da Terra.




Logo em seguida, o leitor fica sabendo o que o espera. Textos de craques do pensamento e da crítica: Mário Pedrosa, Paulo Emilio Salles Gomes, Paulo Herkenhoff, Olívio Tavares de Araújo, Vladimir Safatle, entre outros, alguns inéditos, outros não. O de Herkenhoff, fera na crítica de arte, começa com uma provocação. Ele pergunta, como quem não quer nada, o que teria ocorrido se, em vez de Lucio e Oscar, os criadores de Brasília fossem arquitetos como Affonso Eduardo Reidy ou Vilanovas Artigas, arquitetos modernos em plena atividade no período em que se deu o concurso. Um desses dois, ou outro, teria impedido o “apartheid social que se implantou a partir do modelo do Plano Piloto?”.




Lucio Costa já respondeu a essa provocação: Brasília está pronta. Quem quiser que faça outra. De todo modo, digo eu, o exercício da especulação intelectual não tira pedaço. Pelo contrário, expande o pensamento, amplia o olhar. Mas, desde já aviso, se você é a-pai-xo-na-do por Brasília, aperte o cinto. Herkenhoff joga duro: “Pensada para o poder, Brasília oscilou entre um plano de exclusão, dimensão da higiene social da futura Capital Federal, e uma acrítica visão desenvolvimentista que legitimasse seu grandioso projeto”. Depois, ele parte para analisar o lugar da obra de Athos Bulcão e Rubem Valentim na nova capital.




O professor Vladimir Safatle bate devagar e assopra com afeto. Dedica-se a entender por que a cidade “sempre foi um corpo estranho no interior do Brasil”. Safatle expressa o desconforto que o brasiliense sente só de ser brasiliense: “Talvez nenhuma outra capital no mundo seja, de uma certa forma, tão desconhecida, tão incompreendida por seu próprio povo como Brasília”. Ele levanta a hipótese de o estranhamento ter nascido da utopia que não se realizou. Não se realizou, mas continua latente, nos diz Safatle, abrindo uma fresta de esperança a quem dela precisa.




A revista traz um conto, Brasília, de Mário de Andrade, escrito em 1921 [1943], e publicado em Obra imatura (Agir, 2009). Apresenta poemas de João Cabral de Melo Neto, Anderson Braga Horta e Rui Rasquilho. Reapresenta impressionante obra de Rosângela Rennó (que havia tempos eu procurava) na qual a artista plástica presta homenagem aos candangos desaparecidos na construção de Brasília. Rosângela reproduziu 40 fotos 3 x 4 de operários. Homens, mulheres, garotos, velhos, velhas, engravatados e maltratados, louros e negros, cafuzos e mulatos, brasileiros.




A Humanidades nº 56 é o presente que Brasília estava precisando. Sem bolo nem festa. (A revista está à venda na livraria da universidade (campus, ao lado da agência do Banco do Brasil) e na livraria da Universidade no aeroporto.
 

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Terça-feira, 26 de janeiro de 2010

crônica da cidade


A vida solta nos pilotis, foto de Breno Fortes


Boa notícia





O escândalo das propinas em bolsas, envelopes, cuecas e meias escondeu uma boa notícia para Brasília e para os que verdadeiramente gostam desta cidade. Em 15 de dezembro de 2009, a 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça proibiu, por unanimidade, o uso de grades nos pilotis dos blocos das superquadras do Plano Piloto. As grades ferem o tombamento, entendeu o STJ.




A decisão foi provocada por uma ação ordinária do condomínio do bloco G da SQN 304, que gradeou o pilotis para proteger o bloco de depredações e atos de vandalismo. Um juiz de primeira instância autorizou o uso das grades e o Tribunal Regional Federal confirmou a decisão. Os defensores do gradeamento das superquadras argumentaram que o Iphan tem poderes limitados quando se trata de propriedade privada. E o de que as grades não alterariam o estilo arquitetônico e paisagístico da cidade.




Ao decidir pela retirada das grades, o STJ considerou que elas alteram os princípios basilares do projeto de Lucio Costa para as superquadras — ideia, ressalte-se, admirada e estudada por grandes urbanistas e arquitetos brasileiros e estrangeiros.




Os ministros do STJ não apenas devem ter lido como apreendido a concepção do projeto das superquadras. Os blocos de seis andares, sobre pilotis, liberam o chão para uso coletivo tanto dos moradores do bloco quanto da vizinhança e de toda a cidade. Como se a rua e a praça esperassem pela cidade o tempo inteiro. Acima delas, suspensas por pilotis, as moradias, a intimidade, a propriedade privada. É o coletivo que se impõe sobre o individual sem, no entanto, deixar de tratar com enorme senso de humanidade a habitação familiar.




Haverá quem argumente, de pronto, que no tempo de Lucio Costa a violência não nos esperava debaixo do bloco. O urbanista apostou num mundo melhor e o futuro foi implacável: a um país que não distribui a renda, a violência. O que o condomínio do bloco G da 304 não percebe é que as grades não os protegerão do Brasil real. Ele estará à espera, do lado de fora das grades.




O que poderá salvá-los da violência é acreditar, como Lucio Costa, que é possível morar bem, em blocos de seis andares entremeados de praças e jardins, cercados de quadras comerciais e unidades de vizinhança (como queria o projeto original). E, ao mesmo tempo, respeitar e proteger um projeto que tem tudo pra continuar servindo de inspiração a quem se propõe generosamente a pensar não apenas em seu patrimônio pessoal e na própria segurança. As superquadras são a crença numa habitação coletiva e democrática, bela e ajardinada, humana e bucólica. São o melhor do projeto de Lucio Costa.




Quem defende as grades não entendeu o projeto ou não concorda com ele ou até concorda desde que ele lhe traga vantagens pessoais. Como diz uma amiga, o brasiliense do Plano Piloto se acostumou com o bem-estar pessoal de modo tal que quer mais, mais e mais. A ponto de não conseguir pensar que pode abdicar do excesso de bem-estar pessoal em nome de um bem-estar coletivo.
 

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Quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

crônica da cidade


Infelizmente, não consegui encontra nem a identificação nem a autoria da foto



Mamãe sumiu




A história que vou contar é de uma filha que se perdeu da mãe quando tinha sete anos e se sentiu desamparada como uma florzinha que se descola da árvore e vai ao chão. A menina já é uma mulher de 40 anos, mãe de adolescente, dona de si e valente para enfrentar o mundo. Vou chamá-la de Iara, bonito nome para uma doce bravura.




Iara se perdeu da mãe novamente e voltou a se sentir como uma flor abandonada. Foi no último sábado. Aconteceu assim: mãe e filha saíram para passear por Ceilândia. Pegaram o ônibus, desceram três pontos adiante e seguiram até um self-service. Depois do almoço, desceram de volta para o ponto. “Mãe, lá vem o ônibus”, avisou Iara. Com a chegada de mais de um coletivo ao mesmo tempo, houve pequena aglomeração de passageiros.




Como de hábito, a mãe entrou pela porta dos fundos, como cabe aos de terceira idade. A filha, pela porta do motorista. Iara ainda não tinha passado pela catraca quando desconfiou que a mãe não havia entrado no ônibus. Quando a reconheceu dentro do outro ônibus. Só deu pra ver que não era uma viação de Brasília, portanto, era de Goiás. Perguntou apressadamente ao motorista: “Moço, por favor, aquele ônibus vai pra onde?”. Pra Morada da Serra, um bairro de Águas Lindas.




Iara começou a chorar compulsivamente. Ela não tem celular, a mãe, menos ainda. Não havia como pedir ajuda de nenhum amigo, nenhum deles tem carro para seguir o ônibus. Iara só sabia chorar como se alguém tivesse arrancado do peito dela um pedaço dela mesma.




Como uma mulher que há mais de 20 anos está em Brasília, que criou um filho sozinha, conquistou uma casa, defende seu emprego com galhardia, como essa mulher de 40 anos chorava como uma garotinha que se perdeu da mãe? Chorava tão desbragadamente que um passageiro mais engraçadinho brincou: “Quer um lencinho, quer, dona?” Ao que ela reagiu: “Me respeite! Eu não te conheço!” E buá-buá-buá. O motorista do ônibus sugeriu que ela fosse até o terminal do Setor O e de lá ligasse para o terminal de Águas Lindas para saber se havia uma mãe perdida dentro de um ônibus.




Foi o que fez. Mas até chegar ao ponto final, Iara continuou aos prantos. Não sabia quem era mesmo que chorava, se a mulher de 40 anos, a menina de sete, ou as duas. Pensou na vida, nos erros que cometeu, nas coisas desimportantes a que deu importância, das vezes em que não teve paciência com a mãe — chorando, chorando, chorando. Quando chegou ao terminal do Setor O, ligou para o terminal de Águas Lindas. Foi atendida por uma mulher paciente que pediu para ela aguardar a chegada dos próximos ônibus. Na terceira ligação, Iara soube que uma passageira que havia se perdido da filha tinha acabado de chegar. Que ela não se preocupasse, que a senhora seria muito bem tratada e que viesse buscá-la.




Quando viu Maria Gonzaga, Iara sentiu raiva pelo desespero que havia passado. “Mãe, vê se presta mais atenção!”. A mãe prometeu que de agora em diante não vai se importar quando Iara gritar, lá da outra ponta do ônibus: “Maria Gonzaga, tu tá aí?” Mesmo que o grito provoque uma reação em cadeia: “Uhhh!” “Xiiii!”, “Cade tu, Maria Gonzaga?”, “Maria Gonzaga, ha-ha-ha.”


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Segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Haiti não é só devastação








O Haiti hoje arrasado tem uma forte tradição de arte naif e uma grande proximidade com os naifs brasileiros. Nos anos 1960, a dita arte primitiva haitiana virou moda nos Estados Unidos. As galerias passaram a exibi-las, os preços subiram, jovens haitianos passaram a se dedicar mais intensamente à produção artística até que o surto de delumbramento americano passou e os artistas, esquecidos. Em 2008, o Itamaraty promoveu uma exposição itinerante na qual era possível identificar as semelhanças entre a arte naif do Haiti e a do Brasil, por suas proximidades culturais, étnicas e sociais. O Haiti produziu, diz o texto da curadoria, pintores mundialmente conhecidos como Hector Hyppolite, Pierre-Joseph e Prèfète Duffaut.  






Catedral Episcopal Saint Trinité, Prèfèf Duffaut, 2005




Gurison au son du tambour, Wilson Bigaud, 1972




Baron Samedi, Pierre Joseph Valcin, 1968

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Sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

crônica da cidade


Arte naif do Haiti

O que fazer?





Nada é mais insignificante e desnecessário nesta hora que escrever uma crônica. As imagens da terrível tragédia no Haiti se sucedem na tevê e na internet, e deixam uma sombra de lamento e impotência no peito. Tudo perde a importância diante do sofrimento dos haitianos. A urgência perdeu o sentido para quem tem casa, comida, teto e um chão seguro para sustentar os pés. Urgente é oferecer água aos que têm sede, comida aos famintos, tratamento médico aos feridos, colo aos bebês órfãos, ombro aos desesperados. O que fazer, além de escrever toscas linhas num pé de página?




O Ministério da Defesa do Brasil informa que há condições de organizar doações de alimentos, água, roupas, remédios, brinquedos ou qualquer outro material que possa servir aos haitianos. A melhor forma de ajudar o Haiti neste momento é por meio de doações de qualquer valor. São esses os endereços disponíveis:




Comitê Internacional da Cruz Vermelha (HSBC, Agência: 1276, conta corrente:14526-84, CNPJ: 04359688/0001-51.




Movimento Viva Rio (Banco do Brasil, agência: 1769-8, conta corrente: 5113-6, CNPJ: 00343941/0001-28.)




ActionAid. Doações podem ser feitas pelo Apelo Haiti, fone 0300 789 8525.




Cabreira com os não raros casos de desvio de doações (no Brasil, pelo menos), hesito antes de decidir pelo depósito em dinheiro. Percorro os sites à procura de mais informações sobre as entidades acima citadas, todas elas conhecidas por suas ações em defesa dos desabrigados, refugiados, doentes e desassistidos do mundo.




A Cruz Vermelha é uma organização humanitária que nasceu em 1863 para socorrer prisioneiros de guerra. Com o tempo, expandiu sua ação para o atendimento a vítimas de guerra, sejam civis ou militares, socorro a refugiados e a populações atingidas por grandes calamidades.




O Movimento Viva Rio nasceu como uma resposta da sociedade civil carioca à violência crescente no Rio de Janeiro. Desde que foi fundado, em 1993, o Viva Rio tem ampliado sua atuação junto às populações jovens das favelas e periferias pobres. Nove brasileiros integrantes do Viva Rio estavam atuando em projetos sociais no Haiti quando ocorreu o terremoto. Apesar de a sede da ong ter sofrido rachaduras, nenhum deles ficou ferido. A casa agora está servindo de abrigo para vítimas.




Presidida pela atriz Emma Thompson, a ActionAid é uma organização não-governamental inglesa que atua em mais de 40 países com o propósito de tentar vencer a pobreza extrema e garantir a proteção aos direitos humanos. Em 2007, ela foi incluída na lista das 20 ongs mais competentes do mundo. A ActionAid está no Brasil desde 1998.




Fica a sugestão.
 




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Quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Deu na Folha





O Haiti já estava de joelhos;
agora, está prostrado



Omar Ribeiro Thomaz




No dia 12 de janeiro de 2010, o mundo ruiu em Porto Príncipe. Um mundo já frágil e parcialmente em ruínas foi-se abaixo. O Haiti já estava de joelhos. Agora, com a destruição de sua capital, está prostrado.



Os principais edifícios desabaram, entre eles o palácio nacional, vários ministérios e a catedral; no segundo dia da volta às aulas, jovens estudantes de escolas e universidades procuravam seus amigos entre feridos e mortos nas calçadas e choravam aqueles soterrados.



As operações de resgate são, até o momento, uma promessa, e é evidente que as forças internacionais da ONU não estavam preparadas para lidar com uma calamidade desta natureza.



Sem Estado e diante da inoperância da ONU, os haitianos estão entregues à própria sorte. Após o terremoto, as ruas da capital e as vias que a conectam com os subúrbios e com Pétionville, ficaram absolutamente obstruídas. Carros foram soterrados por muros e prédios; também foram abandonados nas vias estreitas de uma cidade que já possui um trânsito caótico.



Na hipótese da existência de ambulâncias ou veículos de resgate, não teriam como passar. Mortos e feridos se aglomeram nas calçadas, indivíduos correm horas e horas para chegar em sua casa e ver como se encontram os seus, outros parecem andar e correr sem destino.



Diante da falta absoluta de ação de qualquer instância para atender uma cidade subitamente transformada num campo de refugiados, os saques são inevitáveis, e escutamos tiroteios em distintas partes da cidade.



A comoção inicial, traduzida em cânticos e em clamores para "Jesu" e "Bon Dieu", cede pouco a pouco a uma sensação de frustração sem limites, de raiva. Historicamente, o mundo insistiu em ignorar o Haiti e sua grandeza.



Ao embargo político e intelectual secular -como definir de outra forma o ostracismo ao qual foi relegado o Haiti após sua vitoriosa revolução que culminou com sua independência em 1804?- sucederam-se intervenções e ocupações que sempre procuraram negar aos haitianos o sentimento do orgulho dos seus feitos; e, por fim, o golpe de misericórdia, a imposição de uma agenda ditada pela Guerra Fria, que, entre os anos 1950 e 1980 destruiu o Estado haitiano (ao contrário do que pensam alguns, o Haiti possuía um Estado, nem melhor nem pior do que os seus congêneres latino-americanos e caribenhos), fragilizou suas instituições, criminalizou os movimentos sociais e arrebentou seu sistema econômico.



Não foi a interferência americana que destruiu o plantio de milho e interrompeu as conexões existentes entre o camponês, os fornos e os consumidores? Ou outra intervenção que promoveu a eliminação do porco crioulo, base econômica de famílias? Ou o embargo internacional que promoveu o golpe final nas reservas florestais impondo o uso indiscriminado de carvão vegetal?



Diante da fúria da natureza não cabe outro sentimento que o de uma frustração que deita raízes numa história profunda e que subitamente pode ganhar cor: o mundo dos brancos nos destruiu; o mundo dos brancos diz que quer fazer alguma coisa, mas o que faz, além de nutrir seus telejornais com fotos miseráveis que só fazem alimentar a satisfação autocentrada dos países ditos ocidentais?



Não são poucos os agentes das organizações internacionais que anunciam que a "comunidade internacional" estaria cansada do Haiti. Após escutar os haitianos ao longo de anos, de tentar entender o sentido de sua história, digo que são os haitianos que estão fartos das promessas daqueles que dizem representar a "comunidade internacional". Afinal, por que estão aqui? Após seis anos de ocupação, os hospitais e as escolas ruíram. Depois da tragédia de Gonaives -quando essa cidade foi soterrada na passagem de um furacão, em 2004-, não teríamos de estar minimamente preparados para a gestão de uma calamidade?
Não: a gestão foi entregue aos haitianos e haitianas, e, por que não dizer, ao "Bon Dieu". 




OMAR RIBEIRO THOMAZ, 44, é antropólogo e professor da Unicamp

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Terça-feira, 12 de janeiro de 2010

crônica da cidade


Dom Bosco, em seu escritório


O pesadelo de Dom Bosco




Há uma ópera de rua pronta para ser encenada, o Auto do Pesadelo de Dom Bosco, do maestro Jorge Antunes. A peça se desenvolve em único ato e único cenário, uma mesa para o juiz e um engradado representando a cadeia.




O título da peça é um achado, o Pesadelo de Dom Bosco. Expressa o que os brasilienses estamos vivendo por esses dias. O sonho do padre salesiano de encontrar uma civilização onde jorraria leite e mel transfigurado num pesadelo, o de uma cidade onde jorra o dinheiro podre da corrupção e da propina.




Sabemos que o sonho de Dom Bosco foi moldado para ser adaptado ao desejo de Juscelino de transformar o projeto de construção da nova capital num ideal divino. Não bastava que Brasília fosse um propósito longamente cultivado pelos brasileiros. Era preciso que ele tivesse o aval de Deus ou de algum de seus representantes, no caso um padre salesiano que gostava de registrar seus sonhos.




A bem da verdade, não foi Juscelino quem primeiro recorreu ao sonho de Dom Bosco. Monteiro Lobato citou o salesiano em 1935: “Até um santo já afirmou que o petróleo existe, só nossos ‘técnicos’ dizem que não’”, escreveu o escritor, conforme página 101 de Memória da Construção, de Lourenço Fernando Tamanini.




O italiano havia sonhado, em 1883, que percorria a América do Sul, tendo um anjo como guia. Nessa viagem, a dupla via, dentro das montanhas e no subsolo das planícies, minas de metais preciosos e abundantes depósitos de petróleo. Em determinado trecho de sua narrativa, João Bosco contou que “entre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada bastante extensa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago”. Nesse trecho da viagem, uma voz anunciou ao padre que, quando se escavassem as minas escondidas que havia em meio aos montes apareceria “a terra prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”.




A criação de um lago artificial na altura do paralelo 15 foi a deixa para que a partir de então o sonho de Dom Bosco passasse a ser usado como a letra de Deus na construção da nova capital. (É preciso citar, porém, que antes de Juscelino, o goiano Alfredo Nasser já havia citado o sonho em artigo em defesa da transferência da capital do país para Goiás.)




Desde então, Dom Bosco passou a fazer parte do oratório de devoção dos candangos. O sonho ajustado para caber direitinho no projeto Brasília foi dos pecados, o menor.




O pior seria revelado 50 anos depois. A profecia do salesiano acabou se realizando pelo avesso: a riqueza que se concentra em Brasília é inconcebível. O dinheiro jorra como leite e mel na capital da ostentação. Dinheiro e poder se misturam promiscuamente numa relação incestuosa de tráfico de influência, troca de favores e proteção mútua. Um lago de lama sob os pés da gente poderosa de Brasília, um pesadelo para os brasilienses.


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Quinta-feira, 07 de janeiro de 2010

crônica da cidade


                                                                                                                                                                 

Sangue frio



Fiquei oito dias fora de Brasília, entre o Natal e o Ano-novo. Saí sob o fervor da indignação provocada pelas denúncias de propina nos três poderes da cidade. Voltei e a cidade parecia ter recuado no tempo. Como se nada tivesse acontecido. Cadê o espanto, a ira, a fervura no peito, que deixei aqui? Uma semana de feriados, seguida do começo do período de férias, e o sangue dos indignados pareceu em processo de esfriamento. (Espera-se que   momentâneo).
A ilha da utopia, de Thomas Morus



Até os e-mails de protestos desapareceram. Ontem, por exemplo, apenas um caiu na minha caixa postal dando conta de um adesivo que estaria circulando nos carros do Rio: “Bala perdida é desperdício. Vá para Brasília e acerte o alvo!”. Frase de efeito de péssimo gosto, registre-se.




Os envolvidos na denúncia contaram os segundos para a chegada das festas de fim de ano, as férias de janeiro, o Carnaval, o aniversário de Brasília. Ao que parece, o calendário aderiu ao time dos corruptos, pelo menos dentro do quadradinho. Quem passou as festas de fim de ano fora de Brasília, no entanto, trouxe notícias de que à beira da praia perdura a indignação contra os políticos da capital do país (fartamente nomeados — quem não os conhecia pelo nome passou a conhecê-los). Menos mal, por pior que seja para a imagem preconceituosa que os brasileiros, há muito, cultivam de Brasília.




A cidade que os corruptos sujaram de lama tenta se reconhecer em si mesma, na sua história, na sua rotina, no sobe e desce debaixo do Eixão, nos pardais que nos perseguem, nas chuvas de dezembro, no veranico de janeiro, na entrada dos cinemas, nas missas na Igrejinha, na estátua de Juscelino acenando pra cidade, no sol que fere os olhos no fim da tarde, no kibeirute com ovo, na urbana confusão das entrequadras, nas escadas rolantes sujas da Rodoviária, na fachada do Conjunto Nacional, na feira da Torre e até na frieza do morador do Plano Piloto.




Os brasilienses que continuam no quadradinho neste janeiro estão padecendo de desiludida solidão. Há alguém aí?, nos perguntamos, tentando encontrar no gesto ao lado uma convocação para a ira, a indignação e o protesto. Por que deu tudo errado se tudo foi feito para que tudo desse certo?, temos nos perguntado. Somos filhos da utopia e este é um privilégio para poucos. A utopia é o céu que não se alcança, mas que está ali para nos elevar, inspirar, para expandir nossa ideia de viver em cidade.




Os que aqui estamos há tanto tempo, nos alimentando desse projeto irrealizável de sociedade ideal, sabemos que, desde os anos da construção, Brasília é infiel a seu próprio sonho. Mas ele persiste como inspiração, como herança e perspectiva, como história para alimentar netos e bisnetos com um sonho hoje habitado. As imagens da dinheirama escondida em sacos de papel, bolsas, calças, cuecas e meias, exaustivamente transmitidas, ameaçam nos roubar o que temos de mais precioso, a utopia. A menos que, passada as férias de janeiro, o sangue dos brasilienses briosos volte a queimar nas veias.
                                                                   

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Quarta-feira, 06 de janeiro de 2010

Superquadra de passarinho (2)







Bancário por profissão, fotógrafo por paixão, Jorge Diehl foi atrás da superquadra que um joão-de-barro está construindo na 28 do Lago Sul e que este blog divulgou um mês atrás. Diehl teve a dupla sorte de encontrar dois supostos arquitetos da obra em concerto matinal. Transformou a foto em cartão de boas festas. Jorge Diehl fotografa há cerca de 20 anos, faz parte do Candango Fotoclube de Brasília e tem imagens publicadas em jornal e revistas, entre elas a francesa Photo. 


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