Aconteceu num bairro de classe média de uma das mais desenvolvidas cidades-satélites do DF. A dona da história só me permitiu contá-la neste pé de página depois que lhe dei minha palavra de que não revelaria nomes nem cidade.
Foi num dos sábados de junho. Toda a família estava em casa — mãe, avó, uma adolescente de 16 anos, uma garotinha de 10, um quase-bebê, e a empregada. Uma voz de homem, se dizendo dedetizador, tocou o interfone e disse estar a serviço do condomínio. "Queremos ver se sua casa vai precisar de ser dedetizada".
Não fosse sua irritação, a adolescente teria consultado a mãe antes de liberar a entrada do estranho. Estava colocando os pés na bacia d’água quando teve de atender ao interfone, a pedido da mãe. Emburrada, nem desconfiou de que estava abrindo a porta para o perigo.
O portão se abriu e três homens mascarados e armados entraram aos berros no jardim da casa e em menos de dez segundos (como contar o tempo numa hora dessas?) estavam dentro da casa — ampla moradia de um único pavimento, construída depois de penosos anos de trabalho.
Pelo tom de voz e pela textura da pele da mão não eram adolecentes. Havia brutalidade e nervosismo, mas eles pareciam ter alguma segurança de movimentos. Não eram bandidos atiçados pelo consumo exagerado de drogas.
Logo, todos foram confinados num dos quartos. Cinco mulheres e um homenzinho — um garotinho de 3 anos que ainda toma suco na mamadeira. Dois dos bandidos cuidavam de amarrar as mulheres umas às outras, sentadas no chão e um terceiro vasculhava a casa. "Eu só ouvia o barulho dele abrindo as gavetas, despejando tudo no chão".
Quando faltava apenas uma vítima para ser imobilizada, a mãe do bebê suplicou ao bandido: "Por favor, não amarre ele, não". O mascarado hesitou um instante, largou o menino e disse: "Tenho dois lá em casa". E saiu para ajudar na varredura da casa.
Para desespero da mãe, o menino decidiu acompanhar o bandido. "Mateus, pela-amor-de-deus, vem cá, filho". Mas o garoto desapareceu. Menos de cinco minutos depois (um tempo que passa no ritmo do desespero), um dos bandidos entrou no quarto e o menino atrás dele. "Mãe, quero suco". E ela, aflita: "Filho, vem cá pra perto da mãe, por favor". O garoto não tinha noção do que estava acontecendo: "Tô com sede, mãe". O bandido resolveu agir: "Vem cá, moleque" e saiu com o garoto pela mão.
Um século se passou no coração da mãe do menino quando eles voltaram. O garoto trazia a mamadeira cheia de suco. "Filho, não toma, não. Dá aqui pra mãe, vai". O mascarado, já irritado: "Tá desconfiando de mim, patroa? Peguei o suco da caixinha. Nâo vou envenenar seu moleque não, na boa". Os três assaltantes deixaram o menino, a mamadeira e as mulheres trancados no quarto, a casa de perna pro ar e foram embora. "Mãe, ele é um bandido, é?"
Todo dia, morre um pouco da história. Os pequenos textos em homenagem aos sepultados, que agora acompanham o Obituário do Correio, são a evidência de que a memória de Brasília está virando pó.
Possuída de mórbido fascínio pela morte, passei a acompanhar com ainda mais assiduidade a coluna que informa os sepultamentos do dia anterior. Nos sete dias em que o novo Obituário foi publicado, sem contar o de hoje, a coluna noticiou com destaque a morte de sete pioneiros — sete dias, sete candangos que se foram e levaram junto a memória dos primeiros anos da incrível cidade construída em pouco mais de 1.200 dias.
Cinquenta anos depois, Brasília está perdendo parte preciosa de sua história. Perdeu Victor Pereira, mestre de obras da construção do Ministério da Aeronáutica. Tinha 86 anos, seu Victor. Veio do Rio com a mulher e duas filhas, em 1962, quando essa cidade ainda era um canteiro de obras. Uma de suas filhas, Rosalina Pereira, contou ao Obituário que o pai “era um cidadão brasileiro de pouca instrução que venceu na vida. Um verdadeiro herói”.
No mesmo dia em que o herói de Rosalina foi sepultado, outro pioneiro, José de Souza Garcia, 92 anos, também chegou ao Campo da Esperança. Garcia foi um dos primeiros comerciantes da nova capital. Virou candango em 1961 e começou a nova vida vendendo eletrodomésticos. Foi presidente da Câmara dos Dirigentes Lojista no período em que a W-3 Sul era a rua do comércio de Brasília. História que virou silêncio.
Há uma semana, o Campo da Esperança recebeu o corpo de mais um pioneiro, o piauiense Isidoro Mesquita da Silva, 79 anos. Ele chegou aqui em 1961 para trabalhar como vigilante na Escola Fazendária. Depois, aprendeu o ofício de mestre de obras. Morava no Gama com a mulher. Mais silêncio.
O Campo da Esperança sepultou, no domingo, Antônio Pinho da Cruz, 70 anos. Foi armador da construção da cidade (armador é o cara que prepara as armações das estruturas de concreto). A neta Eglantina disse que o avô acreditava que “ser grande era viver com menos” — rara sabedoria, a de Antônio.
O potiguar Celso Azevedo Neto, sepultado em 23 de junho, morreu jovem, aos 53 anos. Veio bem criança para Brasília, em 1959. Viveu toda a vida em Taguatinga — foi vidraceiro e depois dono da própria vidraçaria, “Celso saiu do nada para conquistar todos os sonhos”, disse a mulher dele, Maria Aparecida.
Pioneiro veio conquistar o próprio sonho e de lambuja participou de um sonho coletivo, inédito na história do Brasil. A lista diária dos mortos e sepultados na capital do país é o álbum vazio de uma história não contada, não ouvida, não escrita, não registrada. A lista do silêncio.
Na subida da ladeira do Sudoeste, encontrei Adelice Pereira da Silva, 58 anos, nascida no Morro do Chapéu, a uma hora de Salvador, no rumo do sertão. Foi uma aparição na manhã de sexta-feira passada. Passava pouco das nove, o sol de fim de junho já garboso, quando vi a mulata de ancas largas saídas dos livros de Jorge Amado. Ela subia o terreno inclinado do Sudoeste, do Parque da Cidade em direção às 300, com uma trouxa na cabeça. Acima da trouxa, uma bolsa.
O conjunto Adelice, trouxa e bolsa renovou a minha manhã recém-começada. Aquela mulher acrescentava elegância ao esforço físico e dignidade ao trabalho. Estava de saia até o joelho, blusa de manga e gola V, tênis e meia. Subia a ladeira candanga com a malemolência baiana. Eram passos firmes, porém vagarosos, braços estendidos ao longo do corpo, cabeça se movendo suavemente, toda ela, Adelice, concentrada em equilibrar a trouxa e a bolsa sobre a cabeça.
O bairro do metro quadrado mais caro da cidade e, por certo, um dos mais caros do país estava sendo visitado pelo Brasil antigo, sábio (ou carregar uma trouxa na cabeça com um porte de princesa não é sabedoria?), pelo Brasil sertanejo, sofrido, corajoso.
Alcancei Adelice antes que ela chegasse aonde ia. Pedi licença para fazer uma foto e ela abriu um sorriso, quase uma gargalhada, mas fez exigência. Precisava de uma paisagem bonita, não podia seria ali no meio da rua. Olhou ao redor, sempre com a trouxa na cabeça, e achou um arbusto do jardim do bloco. Foi até perto dele, fez uma pose de lado, um pé paralelo ao outro, o esquerdo um pouco mais à frente que o direito, braços e mãos tranquilamente estendidos ao longo do corpo, a trouxa incólume na cabeça, e um sorriso de genuína alegria.
A trouxa de Adelice continha uma panela de alumínio, daquelas de restaurante, e dentro dela roupas e material para tingimento de tecidos. A baiana do Morro do Chapéu tinge roupas (cobra R$ 60 a diária). Renova roupas surradas, cozinha para festas e faz congelamento. “Se a pessoa me der liberdade, faço até massagem”, diz, rindo, Adelice, uma evangélica da Congregação Cristã do Brasil que quis me convencer a largar minha vida de pecadora.
Menina, Adelice carregava lata d’água na cabeça para abastecer a casa e lavava roupa e louça na beira do rio – trouxa ou bacia na cabeça. Até hoje, mãe de três e avó de quatro, Adelice põe a rodilha no cocuruto (rodilha é uma rosca de pano sobre a qual vai a trouxa) e sai para o mundo equilibrando a carga do viver com os passos vagarosos de uma coragem tipicamente brasileira.
Quando fui fazer a inscrição ao vestibular, marquei um xis no quadradinho do jornalismo sem ter pensado nisso antes e nem pensei depois. O jornal que o pai trazia todas as manhãs junto com o pão quentinho havia se incorporado tanto à minha vida que eu tinha de entrar dentro dele. Do mesmo modo, eu não havia escrito no meu futuro o projeto de morar em Brasília.
Foi a morte de Mário Eugênio que me trouxe para perto de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, do mar de ponta-cabeça e da vastidão dos espaços. Repórter de polícia, vim participar da cobertura das investigações do crime. Cheguei na noite em que o país soube que Tancredo Neves havia sido internado no Hospital de Base. Desde então, saltei de espanto em espanto nesta cidade que tem tanto a ensinar sobre o Brasil e os brasileiros, no que neles há de pior e de melhor. (E o pior tem estado bem pior do que o melhor, melhor).
Por mais singular que seja, Brasília é uma cidade como outra qualquer na profusão de estímulos que provoca em cada um de seus habitantes e visitantes. Uma cidade grande é um acontecimento contínuo, nela ressurgem diariamente as formas mais inesperadas de vida urbana. Mas Brasília se distancia das demais metrópoles nesse estouro sucessivo de acontecidos porque nela há uma interrupção entre um movimento e outro.
Brasília deixa a gente respirar de estouro em estouro mesmo que o dia seja infernal. O Plano Piloto e as 29 cidades-satélites têm poros abertos de ponta a ponta. Dá pra ficar sozinho mesmo no pior dos congestionamentos. Basta olhar pra cima, pro horizonte, pra arquitetura, pros vazios entre prédios. Brasília dá tempo de a gente se recompor. Ao mesmo tempo, Brasília é provocadora. Nos convida a entendê-la e com isso nos seduz a dela fazer parte.
Somando e diminuindo, já escrevi mais de mil e quinhentas crônicas sobre o mesmo e múltiplo tema, Brasília. Fosse outra cidade, teria escrito tanto? Eu não, mas outras cidades já foram escritas muito mais que mil e quinhentas vezes. Quanto já se escreveu sobre o Rio, Paris, Veneza, Florença? Quanto mais formosa, mas escritos. Porém, não somente sobre elas. Toda cidade inspira escritos, porque nela persistem rastros da história de seus habitantes. Uma cidade é a casa do lado de fora de quem nela vive.
A mim coube a casa-Brasília não por um acaso do destino. Eu a escolhi, eu a quis, insisti e esperei. Não desisti de Brasília, mesmo quando ela me maltratou, me esnobou, disse pra mim nem-te-ligo. Nem quando ela se confunde com as contas clandestinas que nela se escondem. Ou quando se mistura com um certo esnobismo próprio de suas elites. Ou quando é desigual, e o é o tempo todo, de Brazlândia ao Gama.
Quando chega a hora de eu escrever nesse pé de página, Brasília não é uma cidade propriamente dita. É uma inspiração.
Se um dia eu morrer, levo Brasília escrita na palma da mão.
Esqueça as casas, as pontes, as lanchas, os barcos, as garças, os sargaços. Não deseje o píer, abandone as prainhas, abdique do mergulho, esqueça a linha e o anzol. Não pense que ele está sendo privatizado, que se fechou para o conjunto da população, que é privilégio de poucos. Concentre-se unicamente no espelho d’água do Lago Paranoá. Deite os olhos nele, só e exclusivamente nele.
A lâmina líquida que abraça o Plano Piloto de norte a sul tem o mistério das montanhas e a profundidade dos céus. Peço licença ao mar, o deus das águas infindas, para reverenciar a infinitude das águas candangas. São quase 500 bilhões de litros d’água, tantas canequinhas derramadas no vão do Paranoá quanto nossa imaginação não consegue alcançar. Pense numa caixa d’água de cinco mil litros. Agora, imagine um milhão delas. São as águas do Paranoá.
Têm malemolência, as águas do lago. Quando é dia de ventania, dançam em passos miudinhos, de ondas-bebês, umas sobre as outras, umas ao lado das outras, não fazem espuma nem marola. Em dias de pouco vento, elas tremulam docemente, como se lá no fundo alguém estivesse lhes fazendo cócegas. Coceguinhas. Movem-se em círculos concêntricos, nas margens, escorrem em pequenas ondas espumantes.
Há dias em que o espelho d’água do Paranoá fica em estado de descanso. Estende-se calmamente ao redor do Plano Piloto. Não treme, não ondula, não faísca, não corre. Fica em silêncio, mas não está inerte. Nunca está inerte, mesmo quando aparentemente parece não mover um músculo.
As águas do Paranoá nunca têm pressa. Pelo contrário, são indolentes, mas estagnadas, jamais. Uma gota de lago gasta 299 dias para sair do ponto mais diante até alcançar a barragem. Quase um ano nadando vagarosamente. Desconfia-se que seja o ritmo goiano, de quem com calma assunta o novo território. As águas que caem no Paranoá vêm de quatro ribeirões, Torto, Gama, Riacho Fundo e Bananal. Quando chegam ao lago, viram candangas e se transformam no “mais belo monumento da escala bucólica da cidade”, frase que consta do Olhares sobre o Lago Paranoá, biografia ecológica e histórica das águas que nos cercam.
Elas mudam de cor de acordo com a hora do dia ou da noite, da vontade do sol e do humor da lua. As águas do Paranoá ora são azuis da cor do mar, ora esverdeadas como esmeraldas, ficam vermelhas com o pôr do sol ou amarelas com a luz da lua ou cinza com a proximidade das chuvas. São escuras perto dos brejos e emitem uma luz prateada em dias sem nenhuma nuvem.
O espelho d’água do Lago Paranoá é um oceano para meus olhos cansados. Aquelas águas me contam que tem mais coisa pra eu ver, descobrir e aprender nessa cidade que nunca termina, nunca se esgota, nunca é toda escrita e contada. Essa cidade não cabe em mim, vivê-la é muito maior que eu e por isso é bom de doer.
Depois da manifestação dos fiéis que não gostaram dos painéis do Galeno na Igrejinha, agora os que gostaram também vão se manifestar. Os pró-Galeno vão se reunir no próximo sábado, às 14h, na Igrejinha. Brasilienses que querem a permanência da obra nas paredes da mais delicada das igrejas de Niemeyer estão fazendo um abaixo-assinado em defesa do artista e sua simbologia alegre para representar a fé em Nossa Senhora de Fátima. O texto do abaixo-assinado, que já tem 176 adesões, é o seguinte:
“Nós, abaixo-assinados, moradores de Brasília, fomos atingidos pela decisão judicial que suspendeu a pintura dos painéis da Igrejinha de Fátima. Os mais antigos já sofremos com o desaparecimento da obra de Volpi que a prepotência e a ignorância destruíram há décadas sob a alegação de que o artista teria retratado a santa errada e usado uma simbologia alegre demais. Estavam enganados: Volpi estudara o assunto e, apenas, não acreditava que só o sofrimento redime. Agora, novamente querem extirpar a leveza e a alegria dos painéis com que Galeno soube tão bem representar a cena de aparição de Nossa Senhora de Fátima. Infelizmente, a Igreja Católica sempre teve de lutar contra uma vertente interna obscurantista, prepotente e distante da simplicidade do que é caro ao homem comum, aquela que chamou de santa a Inquisição. Obras de arte inovadoras muitas vezes são incompreendidas. Isso se repete ao longo da história dos homens e da arte. Mas o ultraje, a indignação, a interdição judicial não se justificam. Não houve afronta: apenas a visão lírica de um artista da terra para uma cena religiosa da tradição católica. Não é possível que o apego aos velhos conceitos estéticos de uns poucos impeça a fruição dessas obras de arte por todos os brasilienses. Somos, portanto, favoráveis à finalização dos painéis por Galeno.”
A revista Audi Magazine, de junho de 2009, publicou entrevista com o arquiteto Oscar Niemeyer, ilustrada com belas fotos de Jorge Bispo. Uma das respostas é um recado aos brasilienses. É sobre a Praça da Soberania. Ele repete o que já havia dito em entrevistas ao Correio Braziliense, mas para a Audi ele se solta um pouco mais — bem no final. (A entrevista é anterior à apresentação do segundo projeto que foi engavetado depois que o governador José Roberto Arruda disse não ter recursos para construí-lo).
— Ao propor o projeto da Praça da Soberania, no gramado central da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ideia rejeitada no começo do ano pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o senhor pareceu manifestar um antigo gosto pelo risco.
Brasília não tem uma praça que dê uma ideia da importância do país, da tendência de imaginação. Uma praça que você passa e não esquece mais. É uma burrice danada tombar uma cidade. No Brasil, se o Rio de Janeiro fosse tombado, o prefeito Pereira Passos [engenheiro responsável pela modernização da cidade em seu mandato, entre 1902 e 1906] não poderia ter feito a avenida Rio Branco, que cortou o país de lado a lado. Me lembro quando Corbusier chegou aqui e viu essa solução do Passos, abrindo espaços, ele ficou espantado. Todas as cidades foram modificadas. Paris foi modificada pelo Haussmann [prefeito que promoveu um grande processo de renovação urbanística entre 1852 e 1870] ao criar aquelas avenidas enormes. Na Espanha, as cidades foram caminhando para o mar, que era a tendência natural. E todas as cidades, assim, sofreram modificações. De modo que fiquei, assim, meio chateado. Até fiz uma nota quando retirei o projeto [em fevereiro passado]. No meu texto, me permiti dizer que não concordava com eles. Se eles estão tão interessados na ideia de que Brasília deve ser tombada, que se fodam. [Risos].
Meteoro, de Bruno Giorgi, foto de Marcel Gautherot
Os amantes
Brasília é uma cidade que experimenta na pele as delícias de ser muito amada e o desconforto de ser mal-amada. Nasceu sob o peso da crítica e da oposição. É mal falada, odiada, rejeitada, mal entendida, mas inacreditavelmente mantém a auto-estima lá em cima. É fácil explicar: primeiro, porque nasceu de um surto de amor, é filha de uma paixão alucinada. E, desde então, não lhe faltam amantes. Pense numa cidade bem-amada. Vai pensar no Rio, claro — o de antes. Mas ali é um outro tipo de amor; é um deslumbramento instantâneo. Dificilmente, alguém não ficaria boquiaberto diante de Angelina Jolie ou de Scarlett Johansson. (Marlon Brando, santo-pai, não havia mais belo). É assim, o Rio.
O gostar de Brasília é de outra natureza. É aprendido, experimentado, construído. É um amor comprometido. São incontáveis os seus amantes e até podem ser discretos, mas não são clandestinos. Brasília é cidade colecionada, pendurada na parede, guardada na prateleira, fotografada, filmada, versejada, traduzida em romance, em crônica, em quadros. Esculpida, pintada, desenhada. Os amantes de Brasília dedicam-lhes sites, blogs, twitters. Os apaixonados publicam livros dedicados à amada, montam bibliotecas só de títulos sobre a tão querida.
Mesmo antes de ser construída, a bela cidade foi muito cobiçada. Um célebre franco-suíço que por esses dias expõe telas na cidade queria o privilégio de tê-la concebido. Desejava a nova capital do Brasil e disso não fazia segredo. Em carta ao modernista Paulo Prado, ainda em 1929, portanto quase 30 anos antes de Brasília começar a ser construída, Le Corbusier declarou seu interesse em pôr a mão na nova cidade. O arquiteto combinava com Prado o roteiro de sua viagem à América do Sul, nela incluída o Brasil: “Efetivamente, o sonho de “Planaltina” não me sai da cabeça: gostaria de poder construir nesses seus países novos alguns dos grandes trabalhos de que me tenho ocupado aqui, cuja realização a letargia continental certamente jamais permitirá”. Mais tarde, voltaria a cantá-la. Em vão, como se sabe.
Nenhuma outra cidade brasileira e raras no mundo foram tão longamente sonhadas. Brasília já existia mais de uma centena de anos antes de ser construída. Brasileiros desbravadores a queriam, homens libertários imaginavam como seria viver nela e com ela. Quando anunciada, passou a receber a visita de estrangeiros sedentos de vontade de conhecer a cidade com nome feminino, corpo sinuoso e pele cor da paixão.
Os de fora foram embora e escreveram ardentes declarações de espanto e encanto pela cidade e seu movimento arrebatador de homens, mulheres e máquinas sobre um solo até então intocado. Bela, esplendorosa, singular, Brasília até hoje deixa seus amantes perplexos. Brasília guarda um segredo, o de ter sido possível. Daí que tenha tantos amantes. Todos querendo experimentar a vibração que, sabemos, ela guarda no reverso de si mesma.
Está na hora de esclarecer alguns aspectos inerentes à arte e à cultura, quando a pedido de carolas, trazem à cena o Ministério Público Federal para salvaguardar suas vontades e desejos de ver fora das paredes da Igrejinha uma obra de arte autêntica e de valor inestimável, tanto do ponto de vista estético, quanto pelo valor social/cultural que o artista Galeno representa.
A Igrejinha não é propriedade particular dos seus fiéis frequentadores, que lá encontram espaço para o exercício de sua fé. Ela pertence a todos os brasileiros. Ela é parte de um todo. Ela é maior do que a população que a circunda e dela se apropria. O trabalho de arte, que nela está sendo feito, transcende a existência imediatista dos seus frequentadores.
Dessas paredes já foram retiradas as pinturas do genial Alfredo Volpi. Foram vilipendiados os azulejos de Athos Bulcão, transformaram seus arredores em mictórios fétidos. O desejo de retornar as cores azul e branco das paredes refletem muito bem o vazio existente na cabeça dessas pessoas. A igreja católica foi o maior mecenas que humanidade já conheceu. Se esqueceram da Capela Sixtina?
Quem conhece um pouco de semiótica sabe o poder que a imagem tem. A arte é reflexo imediato de uma ação cerebral criativa. O que mais nos aproxima de Deus do que a nossa capacidade de criação? Seria conveniente substituir a obra do Galeno por uma N.S. de gesso? Como ousam destruir o que não conhecem? Essa atitude tomada por pessoas, contrárias ao trabalho tão bom e honesto que vem sendo realizado pelo Francisco de Fátima Galeno (nascido em Parnaíba, Piauí, em 13 de maio de 1956, mesma data em que nasci) nos devolve à penumbra, à escuridão, às trevas e ao obscurantismo recente da nossa história política, quando os poderosos chamavam a polícia para resolver querelas que contaminavam seus interesses particulares comezinhos.
Não é possível em uma cidade como Brasília, cercada de arte por os todos lados e tombada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, se submeta a uma minoria ignorante, limitada e poderosa, sem argumentos, acione o Ministério Público Federal, já sobrecarregado, para se meter numa ação de poucos, que novamente se dispõem a dar um grande chute na Santa, mas dessa vez, como fogo amigo, dando um tiro no próprio pé.