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<category>Blog Dzai</category>
<description>blog para quem ama ou gostaria de amar Brasília</description>
<copyright>UAI - Nenhum é tão você. Todos os direitos reservados</copyright>
<title>Blog da Conceição</title>
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<title>Blog da Conceição</title>
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<language>pt-br</language>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=105223</link>
		<pubDate>Sun, 20 May 2012 02:30:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="5">Não mais que os outros</font> <br> <br>Sempre volto à entrevista de Freud ao jornalista norte-americano George Sylvester Viereck. O fundador da psicanálise estava com 70 anos e padecia de um incômodo câncer na boca. Um dos pensadores mais importantes da civilização suportava as dores de um mortal qualquer e reagia com a humildade dos homens comuns. Ele sabia que nenhum de seus grandiosos feitos nem nenhum reconhecimento o livrava de sua pobre condição humana. <br> <br>Quem me lê há muito tempo já deve ter passado por trechos dessa entrevista neste pé de página. Leio, releio, publico e republico fragmentos dessa entrevista, como quem volta a um poema, a uma grande obra literária, a uma canção, a uma obra de arte. O modo com que Freud entende a vida e a aceita me reconcilia com desconfortos do viver. O que ele sente e pensa sobre vida e morte é o penso e sinto, e isso é quase motivo de alegria e orgulho. E me sereniza com a vida. <br> <br>O jornalista quer saber se Freud acha que o destino foi injusto com ele. (O psicanalista está doente, foi perseguido pelo nazismo, incompreendido por muitos e abandonado por discípulos). "Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de 70 anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas — do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?" <br> <br>O homem que abriu um clarão sobre os mistérios da alma humana não desejava a imortalidade ou a reencarnação. "Quem identifica as razões egoístas que se escondem sob o comportamento humano não tem a menor vontade de voltar. A vida, movendo-se em círculos, ainda seria a mesma. Além disso, mesmo que o eterno retorno de todas as coisas, como disse Nietzsche, nos vestisse com roupas novas, que utilidade isso poderia ser sem a memória?" <br> <br>Quando chega ao reino dos bichos, Freud confirma o que a civilização já intui há tempos. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana. Eles são muito mais simples. Não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homen de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico". O animal, "é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele". A maldade é "o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura." <br> <br>Ao fim da entrevista, o entrevistado pede ao jornalista que não o retrate como um pessimista ou um infeliz. "Eu não desprezo o mundo. Expressar insatisfação para com o mundo é só uma outra maneira de cortejá-lo, para conseguir plateia e aplauso! Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! (…)E não sou infeliz — pelo menos não mais do que as outras pessoas."  <br></div> <br>   
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=105222</link>
		<pubDate>Sat, 19 May 2012 02:30:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">Sobre o silêncio</font> <br> <br>Dia desses, uma aluna de jornalismo me perguntou como era o de criação da crônica. Citei alguns recursos dos quais me utilizo e enquanto espichava a resposta com blablablá vazio de sentido, me dei conta de que a crônica nasce da solidão e do silêncio. Percebi que é na ausência de mim mesma que emerge o que sei sem saber que sei, o que procuro sem saber que procuro. É habitando o lado escuro da Lua que chego à claridade do sentido —ou não chego, nunca sei onde essa cega aventura vai acabar.  <br> <br>Estamos vivendo uma época por demais barulhenta e opiniuda (com o perdão do neologismo). Emitimos incessantes e virulentos juízos de valores, em movimentos ansiosos dos dedinhos nos teclados. Quanto mais opiniões ouço ou leio, mais cansada vou ficando dos excessos humanos. O subjetivo que existe em cada um de nós perdeu a compostura e pôs o bloco na rua. Tudo está sendo dito ao mesmo tempo agora, como se não houvesse mais nenhuma parede protegendo o lado de dentro do lado de fora. <br> <br>Há uma cena no adocicado <span style="font-style: italic;">Comer, rezar, amar</span> em que a personagem da Julia Roberts pendura no peito um aviso de que está em período de silêncio. Não há mais lugar no mundo para a mudez voluntária. Fala-se o tempo inteiro — de viva voz, ao celular, nos torpedos, nas redes sociais, fala-se, fala-se, fala-se. Tanto e tanto que não sobra espaço para verdadeiramente se ouvir e ouvir o outro. Estamos todos afundando na orgia das palavras ditas ao léu.  <br> <br>Vai daí que, em alguns dias, saio de casa disposta a não abrir a boca, exceto quando profissionalmente necessário ou para o exercício da cordialidade corporativa. Exceto nas horas que antecedem a crônica, não consigo manter largo tempo de convivência exclusiva comigo mesma em ambiente de trabalho. Não chego a ser um Bentinho que se irritava com a conversa no bonde, mas tenho minha porção Dom Casmurro — preciso de silêncio como o peixe de água.&nbsp;&nbsp; &nbsp; <br> <br>O silêncio me acalma, me revela e revela o outro a mim. O silêncio me conduz ao que de mais importante preciso saber. O silêncio regenera minhas feridas, acalma a ressaca de minhas marés, reconstituí meus pedaços num só corpo, o silêncio é a morte que me devolve a vida. Preciso morrer pelo menos uma vez por dia (no carro, no banheiro, na cozinha, na caminhada, no computador) para continuar viva.  <br> <br>Se, no divã, a palavra puxa outra que puxa outra que puxa o inconsciente, no silêncio a palavra falada se recolhe à sua temporária insignificância e dá lugar ao que o corpo e alma estão perscrutando em si mesmos e no mundo.  <br> <br>Não sei para onde vou, não sei para onde o mundo vai, nem sei mesmo se darei conta de responder a esta era tão implacável em suas exigências e tão confusa em seus valores, mas sei que se um dia for decretada a inviabilidade do silêncio, eu decreto a minha morte. Ou vou me embora para o fundo do mar.  <br></div> <br>   
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=104939</link>
		<pubDate>Thu, 17 May 2012 02:01:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br></div> <br> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 405px; height: 306px;" src="http://www.dzai.com.br/static/conteudos/2012/05/16/18/18744/posts/0b07a2d123f01294e526b96c9bd0505f.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp; Torre de Babel</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 465px; height: 279px;" src="http://www.dzai.com.br/static/conteudos/2012/05/16/18/18744/posts/dbd9cbafa874121fde0bd6cee15a8a53.jpg"> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp; Torre de Tevê de Berlim</span> <br> <br> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/conteudos/2012/05/16/18/18744/posts/97f6ce79d1331889a2a032058cf22dae.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp; Torre Vasco da Gama, Lisboa</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br><font size="5"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5">A torre e os deuses </font> <br> <br> <br>A Torre Digital, que tem atraído tantos brasilienses desde a inauguração, não é exatamente uma torre bonita. Nem causa espanto. Precisei de certo tempo para entender isso — a arquitetura, como as artes plásticas, exige alguma aproximação com a linguagem estabelecida para que se possa fruir suas emanações estéticas. (Mas o conhecimento, por si só, não garante a fruição da beleza).  <br> <br>Apesar de ter sido construída para abrigar a nova tecnologia de transmissão de imagem, a mais recente obra de Oscar Niemeyer já nasceu com 50 anos. Ela tem a idade tecnológica de Brasília, é do tempo em que o concreto armado era a grande inovação construtiva, o titânio da arquitetura moderna. É estranhamente agressiva, rotundamente deselegante e desajeitada. <br> <br>Mas, se não tem a genialidade de um Palácio da Alvorada ou de um Itamaraty, obras que além de excepcionalmente belas, mantêm uma atualidade incontestável, a Torre Digital tem uma qualidade que supera o projeto arquitetônico. Ela oferece aos brasilienses a oportunidade epifânica de comer com os olhos todo o Plano Piloto. Comer no sentido mesmo antropofágico, saborear a harmonia volumétrica das superquadras, se deliciar com a racionalidade elegante da Esplanada, sorver a desenvoltura do lago e experimentar o encontro do urbanismo e da arquitetura com a representação terrena do Divino, o céu, o horizonte, as chapadas, a sucessão de morros da Apa do Cafuringa, o escoar majestoso e ao mesmo tempo delicado do cerrado.  <br> <br>Não é de hoje que os homens constroem torres para se aproximar de Deus. Mais que isso, para se sentirem imanados pelo divino. A Torre de Babel foi o mais célebre projeto humano, segundo a narrativa bíblica, de alcançar o céu e com isso se ombrear com o onipresente. Esperto, Ele mandou parar a obra e castigou a humanidade criando línguas diferentes, para que nunca mais ela se entendesse nem quisesse ser mais do que é.  <br> <br>A punição não deu os resultados esperados, a Torre de Babel ficou pela metade, mas os homens continuaram a erguer pontes verticais para alcançar o céu. Chineses e japoneses construíram pagodes que, apesar do nome, são torres de caráter religioso. Na Idade Média, a arquitetura religiosa adotou a torre em igrejas para aproximar o terreno do celeste. A torre também teve importante função de defesa de território, e a solução acabou sendo adotada como símbolo do poder estabelecido — os palácios eram todos adornados com soberbas estruturas verticais para sinalizar o endereço de quem mandava no pedaço. <br> <br>As torres continuaram a sobrevoar nossas fantasias de subida aos céus. Quando projetou Brasília, Lucio Costa fincou a Torre de Tevê numa elevação do terreno entre o Praça Municipal (o Buriti) e a Rodoviária, "tratada como elemento plástico integrado na composição geral". É um de seus raros projetos arquitetônicos na cidade. Com base de concreto armado, sua estrutura de ferro lembra a Torre Eiffel, da Paris que tanto inspirou Lucio Costa na invenção de Brasília.  <br> <br>Com a Torre Digital, Brasília ganhou mais uma ponte para o céu. Bom seria se ela nos concedesse milagres. <br> <br> <br></div> <br>   
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=104877</link>
		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:46:53 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6"> <br>O mocotó da vizinha <br> <br></font>Era quase hora do almoço do domingo das mães. A vizinha chegou perto do portão e pelas grades me perguntou: "Você gosta de mocotó?". Não tive dúvida: "Adoro!". A senhorinha ordenou: "Então, venha cá." Pedi a ela tempo para me trocar. Eu não estava vestida para atravessar a rua, mas ela nem quis ouvir meus argumentos. "Deixe de história, venha". <br> <br>Segui a mulher que todas as tardes se senta à calçada para prosear com a vizinhança. Não temos muita intimidade. Sou meio forasteira, recém-chegada à rua onde todos moram há mais de 15 anos. Carrego o sem-jeito meio esnobe de quem morou mais de duas décadas no Plano Piloto. Mas era domingo, dia das mães, eu estava de pés e mãos sujos de terra, já tinha tomado uma long neck — tudo conspirava a favor do mocotó. <br> <br>Segui a anfitriã, entrei porta a dentro até a cozinha e fui contemplada com a imagem de duas panelas fumegantes: numa, a de pressão, emergia um mocotó já molinho, quase todo ele já descolado dos ossos, flutuando em caldo grosso, de uma cor acastanhada e um cheiro de minha mais saborosa saudade. Ao lado, numa panela menor (as duas de alumínio reluzente), um arroz da cor de açafrão, oferecia-se em graões luminosos e quase saltitantes. Na bancada da pia, uma tijela acolhia largos pedaços de uma mandioca amarela recém-saída do fogo. <br> <br>Eu ali sem jeito, numa casa onde não havia entrado antes, ao lado de uma senhorinha a quem eu dava bom-dia, boa-noite e debulhava conversas vadias sobre o tempo, a violência, os cachorros, os gatos da rua, o resultado da loteria e mais um ou outro assunto cotidiano.  <br> <br>Ainda estava desconsertada, quando ela pegou uma vasilha de plástico e nela despejou generosas conchas de mocotó e dois portentosos pedaços de mandioca. Tentei impedir que ela pegasse outro vasilhame para abarrotá-lo de arroz, mas não consegui — fui vencida em todos aqueles sucessivos movimentos de afeto, despretensão e bondade. <br> <br>Voltei para casa com as duas porções de hospitalidade e ri de mim para mim: eu havia reencontrado um tesouro que havia tempo se perdera. Brasília, nesse aspecto, me roubou o à-vontade de antes. O excesso de racionalidade urbanística, a perniciosa proximidade com os poderosos, a exaltação dos bons modos, tudo isso e mais alguma coisa nos tirou um de nossos mais caros bens — o convívio de igual para igual com todos e qualquer um. <br> <br>De certo modo, a monumentalidade de Brasília se infiltra na nossa alma e nos impõe uma altivez que se avizinha da arrogância. Pois o mocotó da vizinha liquidou com minha falta de jeito. O arroz amarelinho e irrequieto riu de minha metidez e a mandioca macia e um tantinho adocicada não deu bola para minha cerimônia.  <br> <br>No fim da tarde, a senhorinha do mocotó se sentou, como de hábito, na calçada e de lá gritou: "E aí? Estava bom?". Respondi à brasiliense: "Estava ótimo."&nbsp; Podia ter respondido à goiana: "Estava bom demais da conta!" Seria uma resposta à altura do gesto de minha vizinha.&nbsp; &nbsp; <br></div> <br>   
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		<title><![CDATA[Aquarelas brasilienses]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=104876</link>
		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:42:01 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br> <br>O artista plástico Joaquim da Fonseca entende de cidades. Ilustrou textos de Luis Fernando Verissimo sobre Nova York, Roma, Paris, Porto Alegre, Madri, Japão. Expôs, recentemente, na Câmara dos Deputados, 33 aquarelas sobre Brasília e não somente sobre o Plano Piloto. Pintou Samambaia, com sua extansiante amplitude, a Praça do Relógio de Taguatinga, com sua atmosfera de cidade comum, a Praça da Feira Central de Ceilândia, com suas árvores adultas e seus largos canteiros ou a surpreendente caple de São Francisco de Assis, no alto de uma colina no Gama. Desvelou a paisagem brasiliense para além da área tombada, mostrando que a maior parte das cidades-satélites são herdeiras do urbanismo moderno, com as largas avenidas, o vasto céu e os imensos vazios.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br> <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/conteudos/2012/05/16/18/18744/posts/2b8ccacada10e40e5cdf1d068dc76263.jpg"> <br>Praça da Feira Central de Ceilândia <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/conteudos/2012/05/16/18/18744/posts/1a0b5344681c513f2d5176d654d407de.jpg"> <br>Capela de São Francisco de Assis, Gama <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/conteudos/2012/05/16/18/18744/posts/30ddcbc82156f772567f46577eef6c69.jpg"> <br>Samambaia <br></div>   
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		</item>
		<item>
		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=104379</link>
		<pubDate>Thu, 10 May 2012 02:01:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="5">Debaixo da praça</font> <br> <br> <br>Num desses fins de semana de céu cálido e ventos leves, estive no Espaço Lucio Costa. Havia tempos, não revia o museu que se esconde debaixo da Praça dos Três Poderes. O lugar é um dos mais visitados de Brasília. O largo projetado para encadear os três poderes da República parecia vazio, embora saibamos que é necessária considerável multidão para cobrir todas as pedrinhas portuguesas. <br> <br>Surpresa total: no tempo em que lá estive — entre duas e três horas de uma tarde de sábado —, as escadas do espaço estiveram sempre em movimento. Turistas subindo e descendo rumo ao esconderijo de Lucio Costa. Tivesse contado as cabeças que passaram pela maquete e pelos desenhos do urbanista, teria chegado aos 500 visitantes. <br> <br>Um homem de bermuda para diante da foto germinal de Mário Fontenelle, aquele do cruzamento dos dois eixos num cerrado virginal. O homem põe o dedo na intersecção das duas vias, olha para o rapaz que o acompanha e diz, com altivez professoral: "Aqui é o marco zero de Brasília, é onde fica a Rodoviária." Depois, para diante do desenho do Plano Piloto, generosamente ampliado, e ensina: "Aqui é a Asa Norte, aqui é a Asa Sul, aqui é o Eixo Monumental e esse aqui é o Eixão". <br> <br>Logo, uma criança pergunta a outro homem: "Pai, esse desenho é rascunho, né?", apontando para os croquis feitos a lápis, expostos nas paredes do prédio. Ao que ouve a resposta: "É, sim, filho. Depois Lucio Costa fez os desenhos definitivos". Todos saem satisfeitos e doutor Lucio, por certo, deve ter sorrido da versão do prestimoso pai ao curioso filho. <br> <br>Passados 55 anos, o projeto vencedor do Plano Piloto continua a espantar os que o veem em seu risco original. Lucio Costa desenhou a nova capital em folhas avulsas de papel, com lápis grafite e seus traços aparentemente hesitantes, efetivamente delicados. Seria um rascunho, como pretendeu o pai visitante? Só podia ser. Ninguém projeta uma cidade em folhas de papel avulsas, em traços econômicos, em linhas manuscritas, como um artista que esboça a futura obra de arte. "É um rascunho", mas é a projeção genial de uma cidade. <br> <br>Debruçados sobre o parapeito, os visitantes conferem a maquete do Plano Piloto — todo ele ao alcance dos olhos, como se deuses fôssemos diante da criatura criada. Não fomos nós quem a criamos, mas compartilhamos, diariamente, com as dimensões do corpo e as extensões dos sentidos, a obra criada. No Espaço Lucio Costa, nos deusificamos ainda mais: aquela que nos abriga se estende toda à nossa frente, como se o universo deitasse diante de nós. <br> <br>Escondido debaixo das pedrinhas portuguesas, o museu tem a discrição do inventor de Brasília. Mas os visitantes vão chegando, talvez movidos pelo desejo de encontrar uma sombra naquele largo inclemente que é a Praça dos Três Poderes. Encontram abrigo para o corpo e alimento para o espírito. &nbsp; <br></div> <br>  
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		</item>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=104324</link>
		<pubDate>Wed, 09 May 2012 15:55:01 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="5"> <br>Mais que tudo</font><font size="5"> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3">Demorei a desnudar a verdade. O tempo todo ela fugia de mim, me fazia acreditar que era de um jeito quando era de outro. Foram necessários muitos maios, mais de vinte sucessivos maios, para que eu enfim conseguisse retirar a bruma que escondia a veracidade do que eu sentia. Era demasiado, é demasiado, o que me movia e move. Era maior do que eu pensava.</font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Até então, acreditava piamente que eram as obras humanas que me alumbravam em Brasília — e continuam a me alumbrar, por certo. O incrivelmente rápido surgimento da cidade, obra de arte edificada a céu aberto, dilatava meu espanto, como um jabuti a cada vez que sai de dentro de si mesmo para vir ao mundo. </font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Como costuma acontecer nas descobertas fortuitas, foi quase num acaso que eu tive contato com a mais genuína verdade sobre meu caso com Brasília. Quando deu-se o clarão, tive o ímpeto de fechar os olhos e tapar os ouvidos. Cheguei a prender a respiração: Não quero saber! Não chegue perto! Está bom do jeito que está! Está tudo resolvido. Já sei o que precisava saber. Já olhei atrás do espelho. Não venha desarrumar o que demorei tanto tempo pra ajeitar — cada coisa em seu lugar.</font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Teimosa que é, a verdade não arredou pé de mim, jabuti. Quando eu punha a cabeça de fora, ela me engolfava num clarão inescapável, revelação insidiosa do que se disfarçava em forma de objetos de concreto armado e em tramas urbanas elegantemente desenhadas. </font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Mas uma verdade, por si só, não dissolve a outra. Elas podem habitar o mesmo espírito, incidir sobre sobre a mesma alma. Não raras vezes, esse entrelaçamento de verdades costuma confundir os jabutis existencialistas.</font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Como eu dizia, a descoberta brotou de um acaso. Lendo um post de Bruno Medina, dos Los Hermanos, no qual ele relata seu deslumbre com o céu de Brasília, cedi à insistência da verdade: Brasília não seria nada sem o domínio monumental do firmamento. </font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Sabedores de que seria uma competição desigual entre a obra do gênio humano e a invenção esplendorosa dos deuses, Lucio e Oscar desenharam a cidade e os palácios especialmente para o agrado dos deuses que vivem acima das nuvens.</font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Os dois arquitetos pediram licença ao cosmos para deitar sua genialidade sobre a Terra. Construíram reverências em concreto armado. Até onde se sabe, Lucio Costa só pisou no território onde a capital seria construída depois que seu projeto foi aprovado. Sendo assim, alguém deve ter soprado em seus ouvidos a grandiosidade do céu no lugar destinado a Brasília. </font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>Niemeyer construiu arquitetura flutuante e concisa nas bordas do mar sobre nossas cabeças. Fossem católicos praticantes, teriam construído preces. Criaram elegias para cultuar o manto formado por todas as luzes do arco-íris, aquilo que chamamos de céu e que nos chega azulado e que nos recobre, aos brasilienses, com a mesma grandiosa beleza do dia em que o mundo foi inventado.</font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="3"> <br>É de Brasília que eu gosto, mas é o céu que me faz gostar tanto assim de Brasília. E, dizendo isso, não estou ofendendo nem Lucio nem Oscar. Estou entendendo o que eles entenderam quando da criação da cidade. </font> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=102996</link>
		<pubDate>Sat, 21 Apr 2012 03:00:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">Todo dia ela me ensina</font> <br> <br>Com ela, descobri que o Brasil tinha arquitetura; nela, conheci Lucio Costa; a partir dela, descobri as casinhas com varanda e as igrejas singelas e branquinhas do período colonial. Ela me ensinou o que era um combogó e que esse nome é um anagrama dos nomes dos inventores desse sistema de ventilação.  <br> <br>Em seus infinitos vazios, pude descansar meu coração aflito. Sob o esplendor azulado de todo dia, descobri o privilégio de habitar a divina invenção do universo. A partir dela, conheci a delicada e ao mesmo tempo rude vegetação do cerrado. <br> <br>Nela, conheci muitos brasis. Todo dia, encontro alguém que veio de uma cidadezinha do mais profundo sertão brasileiro. Nela, me surpreendo com as gírias regionais, me enlevo com a cantoria dos sotaques, reencontro minha brasilidade.  <br> <br>Ela também me tirou ilusões, me fez ver o quanto a proximidade com o poder corrompe as almas. Dela, se pode testemunhar o lodo correndo quase aos nossos pés. Nela, entendi que é preciso renunciar às vaidades, é necessário dizer não às tentações, para se prender ao essencial da vida. <br> <br>Nela, aprendi o que é escala, talude, curva de nível, urbs, civitas e aprendi Lelé é o apelido de um arquiteto de primeira grandeza, que dedica sua vida a criar projetos de arquitetura social. Foi ela quem me levou à delicadeza de Athos, à genialidade de Oscar, à inventividade de Zanine. Com ela, aprendi a conhecer o mobiliário brasileiro, a admirar a conjunção da arquitetura com a arte, a cruzar o Plano Piloto tentando identificar a mão de Lucio Costa nos caminhos por onde passo. <br> <br>Foi ela quem me apresentou a delicadeza moderna e erudita dos poemas de Joaquim Cardozo e a angústia atordoada dos contos de Samuel Rawet, engenheiros-calculistas dos palácios da cidade. Por causa dela, me apaixonei pela conformação das cidades. Se ela tinha uma história tão à mão, tão presente na superfície do tempo, que tanto de história não haveria por trás das cidades mais antigas?  <br> <br>De descoberta em descoberta, fui me urbanizando e com isso descobrindo novos sentidos ao que antes passava em branco. Assim como eu não nasci do vazio, ela também nasceu de uma longa história de urbanização das cidades. O bom de tudo é que não precisava ir tão longe para tê-la na palma da mão. E mesmo assim, dia após dia, descubro cantinhos até então desconhecidos, e brasileiros ainda desprovidos da casca que cobre os que se acham importantes. <br> <br>Além de me ensinar tudo isso e o que mais aqui não cabe, ela me empresta ânimo e esperança, quando habito o tempo em que ela foi construída. Ali os homens eram melhores. A construção de Brasília abriu um clarão de coragem, de alegria e de senso de coletividade em quem aqui estava. Eu estava, não de corpo presente, mas na transposição desejosa de mim mesma para o tempo e o lugar em que ela nasceu.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=102951</link>
		<pubDate>Fri, 20 Apr 2012 15:35:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br><font size="6">Dá a volta por cima</font>  <br>  <br>  <br><a href="http://www.youtube.com/watch?v=BI8dBBDL0CU"><span style="font-style: italic;">"Chorei, não procurei esconder, todos viram. Fingiram pena de mim, não precisava. Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. Um homem de moral não fica no chão. Nem quer que mulher lhe venha dar a mão. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". </span> </a><a href="http://www.youtube.com/watch?v=BI8dBBDL0CU"> <br></a>  <br>Uma de nossas mais belas canções, e que traduzem à perfeição a alma brasileira, completa este ano meio século de existência. De autoria de Paulo Vanzolini, foi recusada por Inesita Barroso, que não viu nela apelo comercial, e gravada em 1963 pelo inesquecível Noite Ilustrada.  <br>  <br>Não haveria melhor música para consolar e reanimar os brasilienses em mais uma rasteira das circunstâncias. Que rasteira e que circunstâncias.   <br>  <br>Durante dias, matutei um jeito de escrever a respeito do desgoverno a que estamos submetidos. Passei do atordoamento para a lassidão e dela para o desânimo -- "ali onde eu chorei qualquer um chorava". Fui e voltei várias vezes a cada um desses estados paralisados d'alma até que reencontrei o caminho da minha vontade de existir -- e muito bem existida.   <br>  <br>Levantei, sacodi a poeira vermelha e dei a volta por cima. Reagi ao massacre dos recentes acontecimentos sobre o ânimo dos brasilienses.   <br>  <br>Os motivos para o desalento não são poucos e só aumentam: a greve de professores que já chega aos 40 dias e deixa milhares de crianças desassistidas, o fracasso administrativo da cidade, a cachoeira de suspeitas , os mortos na UTI do Hospital Regional de Santa Maria, a violência urbana sem precedentes, a greve dos metroviários e as demais paralisações e ameaças de greve que fazem 2,5 milhões de reféns. No subsolo dessas explosões, há uma disputa de vida e morte pelo poder. Uma guerra sangrenta para ver quem mantém o domínio sobre a galinha dos ovos de ouro -- pobre Brasília.   <br>  <br>Então, pensei nas cidades que sobreviveram às guerras, às epidemias, às catástrofes naturais. Pensei em Lisboa pós-terremoto; Paris, pós sucessivas revoluções e contra-revoluções, Berlim, pós-Segunda Guerra; Nova York, pós violência e caos urbano; Barcelona depois da guerra civil espanhola… há fartura de exemplos.   <br>  <br>Pensei nos movimentos da sociedade civil -- no Adote um distrital, nos movimentos contra a corrupção, nos muitos movimentos em defesa da área tombada, pensei nos estudantes universitários, no vigoroso movimento hip-hop da periferia, nos documentaristas, nos artistas plásticos, nos poetas, nos arquitetos,&nbsp; nos movimentos culturais espalhados pelas cidades-satélites. Pensei nos homens e nas mulheres de bem que, como eu, estão assombrados.  <br>  <br>E me pedi paciência. E entendi, mais uma vez, o limitado alcance do meu braço. Mas com ele eu ainda posso fazer muita coisa. Escrever, por exemplo. Soprar baixinho nos ouvidos ao meu redor a crença na face clara da Lua e me juntar aos que compartilham comigo dessa fé. Por enquanto, não há muito onde se segurar, mas qualquer fio de algodão já é um começo.  <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade ]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=102879</link>
		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 15:46:33 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="3"> <br><font size="6">Dois amigos</font> <br> <br> <br>Era uma solidão escandalosa aquela. Entrava dia e saía noite e o homem cruzava o portão sozinho, entrava no elevador desacompanhado e abria a porta despovoado de companhia. Tinha uma rotina severa, o homem. Acordava pontuamente às seis, dormia às exatas onze, almoçava na aridez da uma da tarde e não jantava. Fazia check-up uma vez ao ano, ia ao dentista de seis em seis meses, conferia o extrato bancário de dois em dois dia, checava a validade dos alimentos todos os sábados e cortava as unhas do pé aos domingos. <br> <br>Tinha emprego público, casa própria, plano de saúde, previdência privada, seguro de vida, seguro contra incêndio, aplicações em renda fixa, mas nenhum deles lhe fazia companhia. Não tinha carro e essa foi a sua salvação, como se verá daqui a pouco. <br>Comentava-se que o solitário tinha temperamento difícil. Queria ter razão em tudo e até tinha, dada a sua racionalidade e sua lógica severas — eram intensas as relações de amizade entre eles. Tudo era motivo para discurso de protesto, o que o fazia saltar de indignação em indignação, como se o chão da Terra fosse feito de ferro e fogo. <br> <br>Quem ficaria ao lado desse homem incandescente, quando ele envelhecesse? Familiares, colegas de trabalho, amigos distantes, ex-mulheres, porteiro do prédio se perguntavam a cada vez que a misantropia do homem cruzava seus caminhos.  <br> <br>O que nenhum deles percebera é que o eremita era imperfeito. Ele tinha um amigo quase invisível aos olhos viciados do senso comum. O parceiro do homem ermo o acompanhava havia mais de dez anos. Era o taxista do ponto próximo à sua casa. <br> <br>A amizade — sim, eram amigos — começou vagarosamente. Só depois do primeiro ano de corridas constantes, do trabalho para casa, da casa para o trabalho, taxista e passageiro mantiveram o primeiro diálogo. Foi num sábado pela manhã: "Estou meio febril. Você pode passar numa banca e me trazer algumas revistas e jornais?". Vê-se que era um homem antigo, que gostava de leituras em papel.  <br> <br>Vieram outros pedidos — trazer uma sopa da padaria, buscar a faxineira em dia de greve de ônibus, providenciar um bombeiro-hidráulico, levar documentos ao trabalho num dia de gripe forte. Estavam estabelecidas as condições para uma conversa mais pessoal: "Passei o fim de semana sem água no banheiro, vê se pode?". Ou: "Fazia tempo que uma gripe não me derrubava, cruzes". Ou ainda: "Aquela padaria já fez sopa melhores". Ou seja: reclamações, reclamações, reclamações. Mas, enfim, um diálogo. <br> <br>O paciente taxista começou a sentir um misto de comiseração e afeto por aquele casmurro brasiliense. Só então descobriram que eram corinthianos até os poucos fios de cabelo. Daí em diante, taxista e misantropo fortaleceram os laços de afeto a ponto de o motorista ter a chave da casa do solitário. "Moro sozinho, de repente me acontece alguma coisa e eu não tenho a quem recorrer. Você se importa?", perguntou o quase ex-eremita.  <br> <br>Neste fim de semana, casmurro vai almoçar na casa do taxista. Aceitou se sentar à mesa com a mulher do amigo, os quatro filhos, três netos, dois cunhados, uma avó e dois agregados. Soube que ontem à tarde ele pesquisava na internet qual a melhor doceria de Brasília. Quer levar a sobremesa. <br></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=101893</link>
		<pubDate>Sat, 07 Apr 2012 19:50:53 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">A paixão e a redação</font> <br> <br>Sexta-feira da Paixão, e cá estamos. Eu e mais uns 50 colegas, coleguinhas, como dizem os jornalistas. Seja a Páscoa, o Carnaval, o Natal, o Ano Novo, seja o feriado que for, a gente está sempre aqui. Queira ou não, a redação passa a ser um compartimento de casa. Em plantões assim, a Redação, ou talvez as redações, recupera um pouco da velha atmosfera dos tempos da máquina de escrever.  <br> <br>Duvido que haja melhor lugar para trabalhar do que uma redação de jornal. Ainda é um espaço de liberdade, por maior que tenha sido a mudança do mundo e das redações. A economia de mercado exige que sejamos mais competitivos e vigilantes, e nessa onda perdemos muito do viço quase irresponsável das redações de antigamente.  <br> <br>Já vi de tudo numa redação — devo ter passado por umas dez, aqui e em Goiânia. Em todos esses anos, já vi jornalista dormindo, esmurrando, berrando, cantando, dançando, protestando, uivando, atirando máquina no chão, tomando cerveja, fumando um cigarro atrás do outro, subindo na mesa, deitando debaixo da mesa.  <br> <br>Desde os tempos de faculdade, redação passou a ser a minha casa física e simbólica. Nela, eu encontrava a minha turma, me protegia do mundo — vejam que ironia, era sob o fogo cruzado da realidade que eu me sentia segura. A profissão me servia de escudo. E, de certo modo, me afastava do núcleo selvagem do viver. Como se eu estivesse parada no alto da roda-gigante, observando (e anotando) a sucessão de acontecimentos no parque de diversões — nem tão divertido assim. <br> <br>Apesar das mudanças do mundo tecnológico e altamente competitivo, ainda assim conseguimos manter algo da atmosfera atrevida e desobediente dos velhos tempos. Nada que se pareça com as redações de até meados dos anos 1990. Quando o deus mercado começou a ditar as novas regras do capitalismo, ele nos avisou que as redações nunca mais seriam as mesmas. E os relatos que ouço, em Brasília, nos grandes centros, ou nas pequenas redações do Norte e Nordeste, é a de que elas ficaram muito bem-comportadas. <br> <br>Mas… quando chega o plantão, (ou a sexta-feira à noite), a redação recupera algo do atrevimento dos velhos tempos. A garotada talvez não entenda muito bem. Eles já vêm para o trabalho preparados para a guerra pela conquista de um lugar ao sol. Foram treinados pela economia de mercado; aprenderam a afiar as unhas para enfrentar a competitividade; parecem estar sempre a postos para o próximo movimento no jogo de xadrez. Talvez se sintam mais desprotegidos diante do dragão em que se transformou o mercado de trabalho.  <br> <br>Apesar de tudo, ainda dá pra ouvir uma gargalhada, um xingamento, uma piada infame, uma gritaria súbita. Redação é bom demais.  <br> <br> <br> <br>&nbsp; <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=101792</link>
		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 13:27:31 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6"> <br>Santo silêncio <br> <br></font>Era de terra cor de areia a estrada que me levou ao meu destino nessa terça-feira. Nela cabiam tão-somente as rodas de um carro. Em toda a borda da trilha, à esquerda e à direita, uma imensidão de cerrado deitava-se ao céu. À direita, ao fundo, colado no horizonte, via-se o Morro da Baleia. De um ângulo muito mais generoso do que aquele se vê da rodovia de São Jorge. Baleiona regugitando nuvens e rindo solidões.  <br> <br>À esquerda, uma muralha de pedra me olhava com acolhedora (e silenciosa!) severidade. Entre o horizonte à direita e o à esquerda, tudo era alumbramento: vastas campinas cor de clorofila, debruadas com veredas de buritis; porções de mata de galeria protegendo um rio e demorados jardins de chuveirinhos amarelados. <br> <br>Tudo era belo, silencioso, imenso e solitário no caminho até o meu destino naquela terça-feira. Ninguém dava opinião, fazia manifesto, contava fofoca, confrontava convicções; ninguém chorava e muito menos gargalhava (talvez a Baleia sorrisse). Ninguém computava lucros, arquitetava manipulações, investigava crimes, ninguém se decepcionava nem se iludia. <br> <br>Não havia sinal de celular e, quisera Deus, o facebook, o tuíter e outros barulhos estivessem inalcançáveis. Pouco me importava se amanhã eu estaria viva, se ontem eu fiz o que devia, se hoje as coisas dariam certo. Não queria contar o que eu estava fazendo não queria postar a foto da baleia não me lembrava de ninguém nem queria nada. <br> <br>Havia um destino me esperando, mas ele só demarcava o meu ponto de chegava. Eu nem queria chegar nem partir, nem compartilhar nem curtir. Todo o meu ao redor se sobrepunha ao meu tosco existir. Eu não era nada, não queria ser nada e nada mais me importava. <br> <br>Houvesse a chance, eu teria me dissolvido em baleia, em chuveirinho, em pedra, em campina, em buriti. Queria existir sem disso ter conhecimento; queria me diluir no silêncio; nunca mais abrir a boca, jamais anunciar um acontecimento, não mais registrar um desagravo, declarar um afeto ou desafeto. <br> <br>Então eu não precisaria tentar entender o mundo nem me esforçar para aceitar as minhas e as vossas imperfeições. Nem teria de engolir sapo nem exultar felicidades. Não teria necessidade de conferir minha existência. Nem ter medo do dia da minha morte.  <br> <br>Entre a rodovia e o meu destino passaram-se dezesseis quilômetros de cerrado, 16 milhões de anos-luz no mais perfeito silêncio. Por um curto espaço de tempo real, não mais de duas horas, me libertei da vida como ela é. Entre mim e o que existia fora do meu corpo havia a plenitude. Ela não estava em mim. Era uma dimensão extra-corpórea. Talvez ali eu, só então, tenha compreendido o que é viver.  <br>&nbsp; <br>&nbsp;</div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=101776</link>
		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 13:22:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>  <br><font size="6">Faixa da humildade</font>  <br>  <br>   <br> Muito mais que uma conquista urbana, o respeito à faixa que hoje  <br> completa 15 anos é uma conquista simbólica para Brasília. Em si mesma, ela se reduz – e já não é pouco – ao respeito ao pedestre e à convivência civilizada entre o corpo do homem e o corpo do carro. O respeito à faixa de pedestre ganhou múltiplos sentidos, inclusive o de representar o fracasso brasiliense no convívio urbano.  <br>   <br> Respeitamos a faixa no Plano Piloto, porém o fazemos com tanta obediência nas cidades mais distantes. E uma das razões é que, fora da área tombada, ela está esmaecida, reduzida a vestígios do que um dia foi. O que representa a diferença com que administração pública trata a área nobre das áreas não-nobres.  <br>   <br> O respeito à faixa de pedestre é a lembrança de que um dia pretendemos oferecer ao país e ao mundo um projeto de convívio urbano menos selvagem. O respeito à faixa é o registro de que, quando o poder público, os meios de comunicação e a sociedade civil se unem, é possível mover montanhas de maus costumes.  <br>   <br> O respeito à faixa é um fio que une o desalento à esperança. Se  <br> conseguimos fazer com que milhares de motoristas passassem a respeitar uma seqüência de grafismos horizontais pintados no asfalto, bem mais poderíamos conseguir, se quiséssemos.  <br>   <br> O respeito à faixa ensina, ou pelo menos deveria ensinar, ao  <br> brasiliense a paciente e solitária arte da humildade. Aquele a quem eu espero atravessar sou eu mesma desarmada, fragilizada, reduzida a um grão de areia numa praia de máquinas insolentes.  <br>   <br> O respeito à faixa nos convoca à humanidade. O mais importante não sou eu, nem meu precioso tempo. O mais importante é aquele outro, que pode ser mais bonito, mais rico, mais jovem, mais velho, mais pobre, melhor ou pior do que eu, mas naquele instante eu cedo minha vez a ele, eu paro pra ele prosseguir. Naquele instante, se quebra a lógica do mais forte. É o mais fraco quem vence. O pronome muda de lugar – deixo de repetir o insistente e insuportável eu/eu/eu e pronuncio o generoso:  <br> ele/ele/ele, mesmo contra a minha vontade, mesmo xingando o pedestre pela demora em concluir a travessia.  <br>   <br> O respeito à faixa de pedestre se instalou bela e perigosamente no inconsciente do brasiliense. Quando estamos fora de Brasília, somos tentados a automaticamente atravessar a faixa como se todos os motoristas do país (ou do mundo) fossem brasilienses.  <br>   <br> O respeito à faixa é um quase-nada para tantos outros respeitos&nbsp; que nos faltam no convívio urbano. Ele é, repito, ao mesmo tempo a representação do nosso fracasso e do nosso sucesso. Fomos exemplarmente bem-sucedidos no respeito à travessia do pedestre, mas muito mal-sucedidos em tantas outras dimensões do convívio urbano. O respeito à faixa é a utopia que sobrou como memória do que ainda não aprendemos a respeitar.  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=101775</link>
		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 13:16:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br><font size="6">Bia e Resa</font>  <br>  <br>Há uma dor brasiliense salgando o peito de quem mora no quadradinho. Tem dois nomes, essa dor com gosto de nunca mais. Uma delas se chama Resa e outra, Bia. Não doíam, os dois. Muito pelo contrário. Acalentavam com humor e música, talento e afeto, paixão e compromisso com a paixão. Não tive proximidade com nenhum dos dois, mas acompanhava a distância suas presenças no mundo. Admirava-os.  <br>  <br>A morte de Bia e Resa compôs uma nuvem de brasiliense tristeza que me deixou comovida como o quê. Como eram queridos esses dois, como ajudaram, cada um com sua arte, a reforçar nossa identidade brasiliense, ainda tão frágil e mutante.   <br>  <br>De Resa, com quem convivi rapidamente sob o mesmo teto do <span style="font-weight: bold;">Correio</span>, me lembro que era um belo homem, altivo e sorridente. Tinha a envergadura dos homens de ideias e convicções. Impressão que se confirma com o depoimento do jornalista e poeta Luís Turiba à repórter Nahima Maciel: "Na revista, quando não gostava de um poema que nós tínhamos interesse que fosse publicado, ele rasgava e jogava pela janela. Aí tínhamos que descer e catar cacos de poemas". Turiba se referia ao período em que editaram a <span style="font-style: italic;">Bric a brac</span>, revista cultural de vida curta, sete anos, e perenes lembranças.  <br>  <br>Enquanto convivia com o câncer, Resa fabricava gaiolas — estava preso na dor. Quando percebeu a proximidade do fim, abriu o peito para preparar o próprio velório. Os amigos se reuniram na casa do artista no Lago Norte para uma despedida celebrada com cerveja e rock.  <br>  <br>De Bia Reis, conhecia a voz. Quando ligava o rádio e ouvia o "memória musical", me dava uma saudade que eu não sabia de onde, nem do quê, nem de quem. Era um sentimento de ausência acompanhada: sinto uma falta que ama, como dizia o Drummond, mas não estou sozinha nesse vazio. Há uma voz que sabe o que sinto, porque deve sentir do mesmo modo.   <br>  <br>Na entrevista a Bia Reis, Paulinho da Viola disse que a música que havia marcado a sua vida era Vou vivendo, de Jacob do Bandolim. "Porque as três primeiras partes são perfeitas", explicou o compositor. "Mas eu não saberia explicar por que gosto tanto." Não há explicação suficiente para o gostar. Bia parecia saber disso, daí que puxava pela memória do afeto para tentar contornar mais de perto o mistério.   <br>  <br>Nos dois últimos fins de semana que se sucederam à morte de   <br>Bia, o <span style="font-style: italic;">Memória musical</span> se dedicou à sua criadora, produtora e apresentadora. É tamanha a saudade que transbordou das duas últimas manhãs de domingo que parece criar uma ponte de fios de nuvens ligando Brasília ao céu de Bia. O lamento profundo e ao mesmo tempo contido percorre as ondas do rádio e funda o luto no coração do ouvinte.  <br>  <br>Que Bia danada de bem-amada!   <br>  <br> A morte de Bia e de Resa reforçou laços de identidade brasiliense. Só depois do ponto final é que a frase se completa.  <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=101774</link>
		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 13:12:49 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="7">O meu Millôr</font> <br> <br> <br>Também tenho um Millôr na minha vida. Ele me acompanha desde que eu, menina, e folheava a revista <span style="font-style: italic;">O Cruzeiro </span>que o pai largava pela casa. Minha leitura era pouca e de pouquinho eu lia as palavras mais adocicadas para meu alfabeto: Pif-paf. (Mas o que eu mais gostava era do cabeção sem pescoço e malvado, o Amigo da Onça!). <br> <br>Maiorzinha, guardei um desenho de Millôr, sem saber que ele era o mesmo do <span style="font-style: italic;">Pif-Paf</span>. Era um desenho a bico-de-pena, publicado a propósito de alguma catástrofe recente. Era a imagem de um homem ameaçado pela ira da natureza. Ele num barquinho flutuando num mar furioso e num céu impiedoso. Ao lado, a frase: "Viver é impreciso…" <br> <br>Guardei por muito tempo esse pedaço de jornal. É possível que ele ainda exista. Talvez esteja imprensado em alguma caixa de papelão.  <br> <br>O primeiro Millôr do qual eu tive saudade depois que ele morreu foi aquele a quem eu temia e admirava, admirava e temia, temia, temia e admirava. No tempo da ditadura, eu lia Millôr (em duas das primeiras páginas da <span style="font-style: italic;">Veja</span> de então), e me sentia representada, mas ao mesmo tempo, me sentia uma formiguinha diante de um titã com um olho gigante na testa, decifrando os acontecimentos do período e, muito mais, transformando em triste comédia nossa pobre condição humana.  <br> <br>Millôr era um personagem que eu nunca gostaria de ter entrevistado. Perguntar o quê? Pra mim, Millôr sempre foi de uma sobre-espécie humana. Era uma inteligência que humilhava a minha. Eu até podia entender o que ele estava sacando, e na maioria das vezes, entendia, mas eu ficava paralisada com a sua potência de pensador.  <br> <br>Era nas entrevistas do <span style="font-style: italic;">Pasquim </span>que o Millôr se humanizava um pouco mais aos meus olhos. Se ele fazia perguntas ao entrevistado era porque se igualava a eles. Então, ele ganhava dentes, unhas, cacoetes, coceiras, tudo o que era pateticamente humano. E até aparecia na foto. <br> <br>Dos brasileiros do meu tempo, Millôr foi o mais inteligente entre os que pude ler e acompanhar. Talvez por que fosse uma inteligência exuberante e facilmente difundida em jornais e revistas. Millôr abria janelas na fachada cega do meu entendimento da vida. Não poucas vezes, demorava séculos para entender (ou aceitar) o que ele dizia. "Não existe pensador católico, não existe pensador marxista, existe pensador, preso a nada" é uma delas. "Às vezes você está discutindo com um imbecil… e ele também" é outra.  <br> <br>Só depois que Millôr morreu foi que consegui humanizá-lo. Lendo Janio de Freitas, Danuza Leão,&nbsp; Ziraldo e outros que, amigos, deram testemunho de sua reles humanidade, sem desconhecer a sua genialidade, me fizeram aceitar que o desenhista do homem no barquinho constatando a imprecisão da vida também tinha sido vítima da precisão da morte.&nbsp; &nbsp; <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=101442</link>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2012 21:29:29 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">O meu Millôr</font> <br> <br> <br>Também tenho um Millôr na minha vida. Ele me acompanha desde que eu, menina, folheava a revista <span style="font-style: italic;">O Cruzeiro </span>que o pai largava pela casa. Minha leitura era pouca, e de pouquinho eu lia as palavras mais adocicadas para meu alfabeto: Pif-paf. (Mas o que mais gostava era do cabeção sem pescoço e malvado, o Amigo da Onça). <br> <br>Maiorzinha, guardei um desenho de Millôr, sem saber que ele era o mesmo do Pif-Paf. Era um cartum a bico-de-pena, publicado a propósito de alguma catástrofe recente. Era a imagem de um homem ameaçado pela ira da natureza. Ele num barquinho flutuando num mar furioso e sob um céu impiedoso. Ao lado, a frase: "Viver é impreciso…" <br> <br>Guardei por muito tempo esse pedaço de jornal. É possível que ele ainda exista. Talvez esteja imprensado em alguma caixa de papelão.  <br> <br>O primeiro Millôr do qual tive saudade depois que ele morreu foi aquele a quem eu temia e admirava, admirava e temia, temia, temia e admirava. No tempo da ditadura, eu lia Millôr (em duas das primeiras páginas da <span style="font-style: italic;">Veja</span> de então), e me sentia representada, mas ao mesmo tempo, me sentia uma formiguinha diante de um titã com um olho gigante na testa, decifrando os acontecimentos do período e, muito mais, transformando em triste comédia nossa pobre condição humana. Talvez fosse cedo demais para tamanha desilusão. <br> <br>Millôr era um personagem que eu nunca gostaria de ter entrevistado. Perguntar o quê? Pra mim, Millôr sempre foi de uma sobre-espécie humana. Era uma inteligência que humilhava a minha. Eu até podia entender o que ele estava sacando, e na maioria das vezes, entendia, mas eu ficava paralisada com a sua potência de pensador.  <br> <br>Era nas entrevistas do <span style="font-style: italic;">Pasquim</span> que o Millôr se humanizava um pouco mais aos meus olhos. Se ele fazia perguntas ao entrevistado, era porque se igualava a eles. Então, o titã ganhava mais um olho, dentes, unhas, cacoetes, coceiras, tudo o que era pateticamente humano. E até aparecia na foto. <br> <br>Dos brasileiros do meu tempo, Millôr foi um dos mais inteligente entre os que pude ler e acompanhar. Talvez porque fosse uma inteligência exuberante e facilmente difundida em jornais e revistas. Millôr abria janelas na fachada cega do meu entendimento da vida. Não poucas vezes, demorava séculos para entender (ou aceitar) o que ele dizia. "Não existe pensador católico, não existe pensador marxista, existe pensador, preso a nada" é uma delas. "Às vezes você está discutindo com um imbecil… e ele também" é outra.  <br> <br>Só depois que Millôr morreu foi que consegui humanizá-lo. Lendo Janio de Freitas, Danuza Leão,&nbsp; Ziraldo e outros que, amigos, deram testemunho de sua reles humanidade, sem desconhecer a sua genialidade, me fizeram aceitar que o desenhista do homem no barquinho constatando a imprecisão da vida também tinha sido vítima da precisão da morte.&nbsp; &nbsp; <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=100987</link>
		<pubDate>Thu, 22 Mar 2012 11:48:34 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">Amor a quatro</font> <br> <br> <br>Dina amava Eusébio que amava Dina e estava muito bom desse jeito. Negra valente, Dina aprendeu desde menina que quem tem a sua cor da pele não tem "boa aparência". Ela mesma diz: "Ninguém gosta de contratar negro". Daí que, quando conseguiu um emprego de caixa numa grande rede de supermercado, Dina sentiu um gosto de vitória como nunca dantes havia saboreado. Passado algum tempo, porém, ela percebeu que as chances de ascensão na empresa eram mínimas e que ela precisava encontrar um caminho que a levasse a novas conquistas. <br> <br>Trocou a carteira assinada pelo empreendedorismo. Abriu lojinha de roupas novas e usadas no Riacho Fundo I. Quase ao mesmo tempo, conheceu Eusébio, um pedreiro garboso, de pele da mesma cor e bondade em tons profundos. Não demorou para Dina perceber que havia chegado a hora de se atar a um projeto afetivo a dois. Eusébio era valente como ela e com uma qualidade que arrefecia certo defeito dela. O noivo era ponderado, paciente. Bastava observar o jeito que ele assentava o tijolo — parecia um escultor amansando o concreto. <br> <br>Juntaram as camas, os móveis e as louças num barraco só e tocaram a vida na construção civil e na lojinha. Depois do primeiro filho, alguma coisa não-sabida começou a atrapalhar aquele amor da cor da noite. Um exagerado ciúme dele, uma excessiva impaciência dela e bebedeiras insanas nos fins de semana foram roendo os fios do pacto que os unia. Separaram-se depois de um quebra-quebra num sábado de muita cachaça. <br> <br>Não demorou e os dois já estavam novamente acasalados, Dina com um brancão bem-ajeitado, Eusébio com uma morena de coxas grossas e boca vermelha. Os ex-amantes de mesma pele quase não se viam. Ele havia se mudado da parte sul do quadradinho para o extremo norte, Vila Buritis. O pedreiro só aparecia de vez em quando para ver o filho. <br> <br>Perto do Natal passado, num domingo de manhã, Eusébio apareceu no Riacho Fundo I com duas sacolas de presentes para o filho e para a ex-mulher (brincões coloridos). Dina mandou buscar umas cervejas, acendeu o fogo da churrasqueira, Eusébio desligou o celular e a noite só terminou quando o dia já era outro. Desde então, os dois passaram a ter encontros às escondidas e, como era um exercício muito complicado de desfarçatez, decidiram aproximar os casais.  <br> <br>Dina, Eusébio, o atual marido de Dina e a atual mulher de Eusébio começaram a sair juntos, a ir pros fórros a quatro, a fazer churrascos em conjunto, até que não deu mais pra manter a vida quádrupla.  <br> <br>Dina deixou o marido, Eusébio largou a mulher e os dois voltaram a viver juntos. Pouquíssimo tempo depois, souberam que o ex dela e a ex dele estavam juntando os panos. Os quatros têm sido vistos nos shows sertanejos do Riacho Fundo I, de Planaltina, de Ceilândia e de Santa Maria. Cruzam o quadradinho para uma vida social a quatro e amores a dois. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=100865</link>
		<pubDate>Tue, 20 Mar 2012 19:48:12 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">Boneca de pano</font> <br> <br> <br>Mora na minha cabeceira uma boneca de pano. Terá mais de 100 anos. Não é a idade do tecido ou da costura nem mesmo a de quem a fez. É o tempo de sua ancestralidade. Ninguém entende por que bibelô tão pálido, de tecido desbotado, cosido com pontos rudes de linhas toscas, cabelo retorcidos, como dreads, sobrancelhas, boca e nariz riscados a carvão, ninguém entende por que ela ocupa lugar tão nobre no meu lugar de dormir. <br> <br>Cobicei a boneca de pano numa ida à Cidade de Goiás. Passeava por uma rua distante do centro histórico, quando vi uma senhorinha negra, sentada numa cadeira tão velha quanto ela, na varanda de terra batida de uma casa torta e esquecida. Pedi pra entrar na moradia daquela mulher tão antiga quanto a memória da escravidão. Percebi, então, que ela via muito pouco, pelo modo como se levantou e caminhou até a porta para me conduzir à pequena sala. A dona da casa disse que tinha mais de 90 anos, não sabia a conta certa. Morava sozinha. <br> <br>Fiquei diante de um sofá puído e esburacado, de uma mesa de madeira, de uma prateleira com a imagem de uma santa (já não me lembro qual) e diante da bonequinha de pano que, por falta de pernas, se sustentava num copo de massa de tomate. O copo estufava a roda da saia da boneca de pele branca. Sem prurido, pedi à senhorinha o brinquedo de pano. Por alguma razão, eu precisava daquela boneca. Ela me dizia coisas àquela altura indecifráveis. <br> <br>Faz mais de cinco anos que a boneca de pano vigia o meu sono. Mais de uma faxineira já estranhou presença tão insignificante no meu criado-mudo. Antes azul, bem antes mesmo, a pele da formosa está quase branca, diáfana, eu diria. Ela é só um espectro de alguma coisa que algum dia teve algum sentido. Não é mais uma boneca, é quase um trapo. Mas continua garbosa em seu copo de massa de tomate e me olha, com sua lonjura calma.  <br> <br>Faz todo sentido pra mim.  <br> <br>Minha boneca de pano não é de hoje nem de ontem. É antiga em demasia. Foi feita com os escassos recursos de quem vivia à margem da industrialização do mundo, de quem aproveitava roupas rasgadas para costurar bonecas de cabelos longos (e pele branca!).  <br> <br>A essa altura, a doçura anda precisando de um banho, mas temo que ela se dissolva na água e sabão.  <br> <br>A boneca de pano feita por senhorinha negra de quase 100 anos, que foi criada pelos patrões para servir de empregada doméstica, é meu fio-terra com a sabedoria silenciosa das escravas. A bonequinha que vela meu dormir e meu acordar me conta as coisas esquecidas de mim mesma. De que eu não sou só esta que nasceu há nem tanto tempo assim, que eu não começo nem termino no meu agora, que a tecnologia é reluzente, mas artificial, que os pontos feitos à mão são riscos do bordado da artista, que alguém inventou uma boneca a partir de quase nada e cuidou dela até que eu cheguei.  <br> <br>A senhorinha está lá, eu sei. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99854</link>
		<pubDate>Tue, 28 Feb 2012 13:53:14 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"> <br>Brasília poética</font> <br> <br><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Na sexta-feira passada, o site <span style="font-style: italic;">w<a href="http://www.brasiliapoetica.blog.br/site/">ww.brasiliapoetica.com.br</a> </span>completou cinco anos, tempo suficiente para publicar 36 mil poemas sobre a capital do país. Criado pelo jornalista José Rangel, o site se transformou num banco de dados sobrte a história da cidade — um acervo lírico, musical, iconográfico, multimídia, virtual, do que foi a construção de Brasília e, principalmente, de como (e o quanto) ela foi cantada por escritores, poetas, compositores desde que surgiu no ermo do Planalto Central. <br> <br>O <span style="font-style: italic;">brasiliapoetica</span> é claro e amplo como os palácios modernistas da cidade. É simples, arejado, eficiente. Talvez lhe falte certa edição na seção Dia-a-dia da Construção, na qual se alinham as datas mais importantes da saga brasileira acontecida entre os anos 1956/1960.  <br> <br>Sobram encantamentos, como no poema de Joaquim Cardozo <span style="font-style: italic;">("este ser que se compõe de adjacências/E de cimento claro e matinal,/ Tem nos seus nervos finos transparências/De luz se alimenta. Fala cristal"). </span>Os versos do engenheiro calculista de algumas das mais importantes obras de Niemeyer na cidade acompanham uma foto translúcida do Palácio do Planalto.  <br> <br>Está lá, no <span style="font-style: italic;">brasiliapoetica</span>, a reprodução em pdf da edição de 1991, esgotada, do <span style="font-style: italic;">Relatório do Plano Piloto de Brasília</span> (a de capa preta, onde está manuscrito 'Brasília, cidade que inventei'). Aliás, é esse o epíteto, com a letra de Lucio Costa, do site construído para homenagear os 50 anos da cidade.  <br> <br>O criador do site, José Rangel, anuncia agora uma mudança no caráter do brasiliapoética. O tema mais importante não será mais a construção da cidade. "Agora vamos tratar do que é viver em Brasília, uma cidade sem igual e que desafia seus moradores com sua configuração urbana e humana e práticas cotidianas que estão sendo experimentadas nesse espaço." <br> <br>A mudança é bem-vinda, mas de algum modo o site já vinha espelhando a Brasília real, a cidade pós-utopia. Como na publicação do rap de Dino Black,<span style="font-style: italic;"> O concreto já rachou,</span> no qual <br>o rapper da Candangolândia canta o "<span style="font-style: italic;">cartão-postal da cidade terceira ponte JK/ Novidade pra elites e nada pra cá/Daqui pra lá só asfalto daqui pra cá so buracos/As margens da Estrutural sem ensinamento básico." </span> <br> <br>Como escreveu José Rangel, na apresentação do site, Brasília ainda é um enigma para a maioria dos brasileiros. O país continua preso à ideia de que a cidade começa na Torre de Tevê e termina no Congresso Nacional. Que seus moradores já nascem com o vício da corrupção e que a cidade é responsável por todos os males do Brasil.  <br> <br>Brasília é "o caldeirão miscigenado que se formou com gentes vindas de todos os cantos do país", escreveu Rangel. Parece óbvio, mas a obviedade às vezes se desmancha no ar e é preciso reafirmá-la até que se torne visível e palpável. É o que vem fazendo o brasiliapoetica, agora com um novo projeto, o de se dedicar ao modo de viver dos brasilienses que, por certo, é tão singular quanto a cidade em que vivemos. <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99518</link>
		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 02:10:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		 <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 296px; height: 436px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/29cb8f973e0589a76405c3efa822e98e.jpg"> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6">Segredos do beco</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Quase toda cidade tem seus esconderijos, becos, galerias, travessas e passagens pra nos proteger dos excessos das ruas e avenidas. Eles existem desde as cidades medievais, quando não havia carros — só os de boi — e as cidades eram feitas para as pernas. Vielas soturnas e tortuosas serpenteavam as casas e acolhiam segredos os mais incríveis. Os becos eram lugares de amor e de morte, de práticas espúrias e de acontecimentos inéditos.  <br> <br>Brasília nasceu desprovida de escondidinhos. Aqui, tudo é claro e aberto, não há abrigo para nos proteger da claridade invasiva. Mas há exceções. Na W3 Sul, entre blocos de casas, há ruinhas ajardinadas, porém inexplicavelmente desertas. Em Sobradinho, no Guará 2 e no Gama, sobraram algumas ruelas que não foram invadidas nem ocupadas pelas casas vizinhas. Há alguns deles que foram arborizados pela vizinhança. Em Ceilândia, os becos foram destinados pelo GDF à moradia de policiais militares. <br> <br>Ruinhas, vielas, becos, travessas são parentes em primeiro grau das passagens subterrâneas do Eixão. Trilhas urbanas estreitas e curtas, destinadas a sossegar a aflição cotidiana dos habitantes das grandes cidades. Não sei antes, mas desde que moro em Brasília, há quase 30 anos, as 16 passagens da Asa Sul e da Asa Norte que cortam a via expressa por debaixo da terra não receberam dos governos o devido cuidado. Se o Eixão é um equívoco do urbanismo moderno (uma via de velocidade partindo ao meio uma cidade), as passagens subterrâneas são o colete salva-vidas que Lucio Costa deixou aos brasilienses. <br> <br>O sentido delas não é, porém, apenas utilitário. O mergulho das passarelas por debaixo da via expressa tem uma inesperada intenção lúdica. O tatu-pedestre habita, por instantes, o subsolo de Brasília. Poderia ser uma experiência claustrofóbica, mas nem de longe. As passarelas do Eixão abrem-se para o céu em duas ocasiões. Em cada uma delas, o pedestre reencontra o clarão de Brasília.  <br> <br>Depois dos últimos graves acidentes no Eixão, o GDF prometeu revitalizar as passarelas. Cada novo governo faz a mesma promessa, numa espiral que começa, não termina e volta ao ponto de partida a cada quatro anos. Desta vez, instituiu-se um concurso em parceria com o IAB-DF, o instituto de arquitetos da cidade, para escolher o melhor projeto de renovação das passarelas.  <br> <br>Em si mesmo, o concurso não é garantia de execução da ideia. Outros já foram feitos, em outros governos, com o propósito de dar mais segurança ao Eixão e de revitalizar a W3 Sul. Perderam-se na inoperância. Anuncia-se para o próximo 21 de abril o anúncio do vencedor do concurso. Com a promessa de execução em 90 dias. <br> <br>Se eu não fosse jornalista e tivesse talento pra arquitetura, bem gostaria de pensar num projeto para as passagens subterrâneas do Eixão. Há nelas um encanto urbano, ao mesmo tempo medieval e moderno, lúdico e utilitário, que deve servir de inspiração aos arquitetos que gostam de Brasília.  <br> <br> <br> <br> <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99535</link>
		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 13:15:05 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 294px; height: 392px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/75613ced821d8a614f5cc99f01c15cc9.jpg"> <br><div style="text-align: justify;"><font size="5">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <font size="2"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Frida Kahlo</span></font> &nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></font></div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br><font size="6">Felicidade é para os corajosos <br></font> <br> <br><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Frase de dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia, virou refrão de música gravada por Jorge Vercillo. "Ser feliz, disse a baiana de 104 anos, é pra quem tem coragem! Coragem é um dote. Coragem é pra quem pode!" <br> <br>Fosse um mineral, a felicidade não seria diamante nem ouro. Seria grãos de areia. A felicidade é granulada, pode estar numa garrafinha ou numa praia. É para quem tem coragem, mas não apenas os destemidos experimentam a plenitude do viver. Há quem seja feliz e nem saiba disso.  <br> <br>A felicidade pode ser um dote. Há quem tenha tudo para ser feliz e viva arrastando infelicidade pela vida. E quem consegue se equilibrar, vibrantemente, entre abismos. A felicidade é uma vocação. <br> <br>Mas quem não nasceu com o gene da felicidade não está condenado ao sofrimento eterno. Aprende-se a ser feliz. Uma das primeiras aulas de curso de bem-estar é ensinar ao aluno a arte (corajosa) da renúncia. <br> <br>Ninguém tem tudo, nunca. Daí que essa insana busca por riqueza carrega consigo a condenação à infelicidade. Não há dinheiro que compre a felicidade e disso, no escondido de si mesmo, sabem os muito ricos. Os excessivamente pobres nem têm tempo nem estômago para pensar na felicidade. Estão completamente concentrados na luta pela sobrevivência. <br> <br>Ser uma celebridade também não garante a felicidade. Vejam as mortes trágicas, as internações e as perturbações de muitos dos que conseguiram o sucesso de público. Riqueza, poder e fama são terrenos escorregadios. Ricos, poderosos e famosos correm o contínuo risco de perder o chão, de achar que podem tudo, que a realidade a eles se curva, por bem ou por mal, para o bem e para o mal. <br> <br>Dia desses, conheci uma executiva de grande empresa da cidade que está largando a carreira bem-sucedida para, temporariamente, cuidar da família. Ela me disse que o importante na vida não é só a carreira nem só a família nem só viagens e diversões. A vida, ela já aprendeu, é o conjunto de tudo aquilo que nos é essencial. E que agora o que ela mais precisa é de ficar perto da família.  <br> <br>Ser feliz é colecionar grãos de areia. É preciso ter coragem e paciência para tirar da roda-viva aquilo que verdadeiramente nos é indispensável. E saber que areia não dá lucro, não traz poder nem reconhecimento. E, se trouxer, é acessório.  <br> <br>A alegria exultante é fugaz como a alegria do carnaval. É extasiante, é libertadora, vale enquanto incide seus efeitos sobre nós, mas passa. O gosto pela vida não se reduz ao carnaval, à riqueza, ao poder, à fama. Pode até, em algum momento, passar por uma dessas instâncias, mas não se reduz a ela.  <br> <br>A felicidade se espalha, em grãos quase invisíveis, pelo decorrer da vida — em períodos de mais escassez ou de mais fartura. Ela é uma conquista que depende de coragem para reconhecer nossos limites e nossa finitude, para perceber que fomos honrados com o milagre da vida e que o que é importante pra você pode não ser importante pra ninguém mais. E daí?  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99321</link>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2012 12:49:55 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6c9af7b591119f35d279fe27e9c419b8.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Núcleo Bandeirante, no tempo em que era Cidade Livre</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Mitos do Bandeirante</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Procurando na internet pistas sobre o surgimento da Divinéia, bairro do Núcleo Bandeirante, encontrei uma sequência de comentários ao blog de Álvaro Alvares que são, em si mesmo, uma deliciosa crônica sobre os tipos urbanos da antiga Cidade Livre. A conversa virtual ocorreu em março de 2010 e surgiu a propósito da publicação, no blog, da notícia da morte de Shaolin, catador de latas muito conhecido e querido pelos moradores do Bandeirante. Shaolin foi assassinado a facadas por um homem de 80 anos. Segue a crônica-comentários. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>EP — Shaolin era um grande exemplar da mitologia bandeirantense. Com certeza, nossa cidade perdeu parte de sua graça.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>RR — Sim… De fato ele era um dos maiores representantes da mitologia do Bandeirante, mas deixou um vasto legado. Doido é que não falta aqui. Quando forem estudar História da Divinéia I e II, na UnB, vão ter que aprender mais sobre a vida dele.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>AA — História da Divinéia é boa. Kkkkkkk!!!!</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>EP — Aê, Chapa, acho que chegou o momento de escrever o livro que sempre planejei. Mitologia do Núcleo Bandeirante. Vai ser material obrigatório nas cátedras História da Divinéia I e II. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>RR — E não podemos esquecer nos anexos do livro. História da Bica da Metro (Metropolitana, bairro do Núcleo Bandeirante), as origens da Rua das Lavadeiras, o fenômeno C., descrevendo a história de uma família de doido que só se reproduz entre si e sai todo mundo pancado… É muito assunto…</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>EP — Vai ter um capítulo demonstrando a geografia bandeirantense: Escadão, Beco da Cirrose, 11, Fliperama do Edmundo e tantos outros locais que fazem do Bandeirante um feudo. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>EP — Minha lista de mitos: Faca, Lila, Beato Salu, Mcfley, Pintado (tb conhecido como Coxinha), Mulher que ama demais, Eu preciso, Peterfléuri, Uei (o cara do chapéu), Shaolin, Sinval, Japa da Marina. O Bandeirante é a Atenas de Brasília!!!</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>JS — Fora o falecido Didi (da farmácia), os Nogueira, Boca, Nanico, o vendedor de verdura (óóóólha a verdura), o Faca e adjacentes!</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>EP — Esqueci do Monstrinho e do Tio da Pamonha que tocava uma buzina tipo Chacrinha.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>TRS — Add aí o glorioso Presunto. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>EP — Carai, o Presunto. Kkkkkk.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>JS — Caraca, estamos esquecendo de uma das figuras mais mitológicas de todas. Bebia vinho pá carai, andava com uma garrucha escondida sob a roupa e tem uma edificação religiosa que leva o seu nome. <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">EP — Sacanagem falar assim do Padre Roque. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>JS — Kkkkkkk.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99230</link>
		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 02:10:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		 <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/896a5701e899aa5edfa01d16cecce8c2.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> Passageiros à espera do metrô</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Estamos órfãos</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A morte de Marcelo Dino, o filho do presidente da Embratur, somada à de Duvanier Paiva, o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, ressoa em todos os brasilienses como a confirmação da orfandade. Ainda não se sabe qual a responsabilidade do hospital na morte do menino de 13 anos, mas o que já sabemos é suficiente: estamos desprotegidos diante do sistema de saúde de Brasília, seja ele público ou privado. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A orfandade não se reduz ao atendimento médico, o que já seria desproteção demasiada. Estamos habitando um território sem lei, onde o poder de polícia se mistura ao da política e produz acontecimentos assombrosos. A topografia do poder em Brasília parece se sustentar sobre solo perigosamente pantanoso. Ou, como disse um irônico leitor à coluna Desabafo: "Não sorria. Você já foi filmado." </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Diariamente, somos atirados a um trânsito caótico, sem que se vislumbre a existência de um poder de mando capaz de, pelo menos, minimizar o desconserto. Os usuários do metrô e dos ônibus urbanos estão sujeitos a acidentes, paralisações, sabotagens, atrasos, numa sucessão descontrolada de pequenas e grandes tragédias. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Onde foi parar a cidade que se pretendia igualitária? O que fizeram com o sistema modelo de saúde, que prenunciou o atendimento universal em filtros que começavam nas cidades-satélites e terminavam, se necessário, no projetado centro de excelência de saúde, o Hospital de Base, que, apesar de tudo, ainda continua sendo referência na rede seja pública ou privada? </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Na coluna Grita Geral dessa quarta-feira, a leitora Ester Paiva Monteiro anunciava a sua orfandade e a de todos os moradores da cidade ontem mora: "Aqui em Brazlândia, todos os dias os moradores ficam sem água. Com frequência, a Vila São José e o Novo Assentamento ficam sem abastecimento. Passei o fim de semana inteiro sem água. Não sabemos o que fazer." Provocada, a Caesb respondeu que a água acaba quando falta energia, "de modo que sempre que o fornecimento elétrico é suspenso o abastecimento (de água) fica comprometido". Um novelo sem fim.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Desamparados estamos os brasilienses e Brasília. A cidade deve receber, no mês que vem, a visita fiscalizadora de um grupo técnico da Unesco que vem avaliar a quantas anda a proteção ao tombamento. O primeiro sítio moderno a ser considerado patrimônio da humanidade corre sério risco de entrar na lista dos patrimônios ameaçados. O rol dos desrespeitos às características originais da cidade começa nos puxadinhos e termina na virulenta especulação imobiliária.  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Na página de Marcelo Dino no Facebook, há muitas mensagens dos amigos. Numa delas, Maíra Amorim escreveu: "Volta para mim, melhor amigo! Não tem graça sem você!!! Não me deixa."</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A garota clama por Marcelo. Perdeu o amigo e a graça de viver, pelo menos por enquanto. Nós, brasilienses, perdemos um brasiliensezinho de 13 anos e estamos perdendo, dia após dia, a confiança de que exista alguém, em algum lugar, capaz de cuidar da cidade e dos que nela moram</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99229</link>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2012 20:21:02 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/055882a209aa2d0d214873dabedd6b51.jpg"> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/80a6e8ee566b0974906597730b0e9e11.jpg">  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/638b3ef16a53afbe11bb48066ce86472.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> Fotos de Leonardo Wen</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Concreto e lírico</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Admito, não sem constrangimento, que um dos meus modos atávicos de aferição de qualidade de um livro é a fisgada de inveja que sinto diante dele. Foi assim com um título recentemente lançado, <span style="font-style: italic; font-weight: bold;">APTO</span>, do fotógrafo Leonardo Wen. Não pelas imagens, não é minha área. Fui engolfada pela cobiça diante do tema: Wen se dedicou a visitar e a documentar os apartamentos do primeiro bloco de apartamentos das superquadras de Brasília.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Belíssimo, o resultado; imagens de dentro e de fora dos apartamentos dos 11 blocos da 108 Sul; edição elegante, delicada e bem-acabada. E um condutor de leitura: o fotógrafo escolheu as moradias que não haviam sido descaracterizadas pelas reformas modernosas. Quis conferir como os apartamentos modernos foram ocupados e cotidianamente humanizados pelos seus moradores. Há, em todas imagens internas, uma atmosfera de década de 1960 e 1970, quando muito 1980. </span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Em entrevista à Nahima Maciel (edição de 24 de janeiro de 2012), Leonardo Wen diz que "a priori as imagens não têm nenhum conflito, não têm uma coisa que chame a atenção. Queria tentar descobrir a poética disso". O fotógrafo fez poesia concreta sem perder o lirismo. Foi João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade ao mesmo tempo: apresentou a estrutura dos objetos e o canto que eles emitem. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O olhar de Leonardo Wen, mais um motivo para invejá-lo, não idealiza, humaniza. Até na foto que retrata uma janela sem cortina e o cobogó do apartamento em frente, um cigarro que parece ter sido aceso e apagado após uma tragada nos faz entender que, por mais friamente moderno que seja o bloco, há gente para sujar de vida a vida planejada na prancheta. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Na cidade cantada e decantada em verso, prosa e tudo o mais, Wen conseguiu fugir à obviedade, às platitudes e ao ufanismo. A cortina de padronagem antiga, a foto torta da moça com roupa e cabelo dos anos 1960, o porta-retrato com a mesma moça já adulta, dançando com um homem (seu marido?), compõem o retrato da passagem do tempo.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>São apenas 40 fotos. Queria mais. Queria percorrer mais longamente o interior dos apartamentos da 108 Sul que não foram alterados pelas reformas extremas. Pegar carona no cotidiano de quem passou a ser moderno no começo dos anos 1960 e continua habitando o moderno até hoje, com a folhinha com a imagem do Coração de Jesus, a televisão sobre um paninho de crochê, a cozinha de azulejos brancos e armários de alumínio, os adesivos coloridos de criança colados ao lado da mesa. Evidências de uma vida demorada que começou exultante e que foi se aquietando na sequência ininterrupta dos dias.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Quase não há imagens de moradores. E quando surgem, só quem os conhece os identifica. Nem assim, nem de longe, <span style="font-style: italic; font-weight: bold;">APTO </span>é um livro asséptico. Leonardo Win registrou as pegadas dos humanos nas paredes, nos armários, nas cozinhas, nos banheiros (num deles, o conserto da tubulação deixou um desenho de cobra em concreto bruto), nas janelas. Humanos que habitam o desejo de Lucio Costa de aprimorar o projeto moderno de moradia. Com seus acertos e seus desconcertos.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99171</link>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2012 02:10:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>  <br><font size="6">Deixem Niemeyer em paz</font>  <br>  <br><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span>  <br>  <br>Imagens recentes do arquiteto de 104 anos merecem o desagravo público de todos quantos reverenciam um dos grandes gênios da arquitetura moderna. E até de quem não reconhece as qualidades da obra de Niemeyer. Em dois momentos, o arquiteto foi exibido em praça pública. A primeira, uma semana atrás, quando acompanhou o prefeito Eduardo Paes num passeio de carrinho de golfe pelo Sambódromo, no meio de um dia de sol implacável num Rio de Janeiro de 40º à sombra. Numa das fotos, via-se um rapaz segurando o corpo frágil do arquiteto.  <br>No domingo, ele voltou ao mesmo cenário, desta vez acompanhado da mulher, Vera. O arquiteto surge nas fotos com expressão de cansaço, ou talvez de ausência. Não há, por certo, nenhum sinal de que esteja fruindo da festa político-carnavalesca-oportunista e, acima de tudo, desrespeitosa.   <br>Somos, os brasileiros, em especial os brasilienses, devotos de Oscar Niemeyer, pela sua excepcional capacidade de projetar obras de arte em concreto armado, mármore e vidro. Ainda que não se goste desta ou daquela obra, que se tenha experimentado a falta de funcionalidade de seus projetos, a arquitetura que ele produziu é espantosamente bela. Niemeyer fez poesia com areia, brita e cimento. Criou uma paisagem para a nova capital, mostrou arquitetura moderna de todo o mundo que o Brasil sabia ser racional e delicado, sinuoso e solene.   <br>  <br>Em 1996, Oscar Niemeyer esteve em Brasília depois de certo tempo de ausência. Fui pautada para acompanhá-lo a uma visita à Catedral, sugestão feita a ele pelo jornal. O arquiteto estava, então, com 89 anos, e àquela altura eu já temi pelo que pudesse lhe acontecer na rampa escura que leva à nave da igreja. Niemeyer andava vagarosamente e reagiu, como de outras poucas vezes em que o entrevistei, com uma sisudez indiferente. Foi por deliberada vontade, claro. À época, pretendia construir novos projetos em Brasília.&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;  <br>  <br>Há mais de 70 anos que Oscar Niemeyer é reverenciado no Brasil e no mundo. Aos 40 e poucos anos, tinha chamado a atenção da arquitetura moderna com o projeto de uma igreja em forma de montanha, uma casa de baile flutuando num espelho d’água e um cassino arejado e elegante. Aos 50, desenhava os prédios mais importantes da capital do seu país. Nos anos de chumbo, Niemeyer foi projetar edifícios na Europa, na África e no Oriente Médio. Chegou a ter um escritório em Paris.  <br>  <br>Com a redemocratização do Brasil, o arquiteto recuperou seu prestígio no país. E desde então, depois de Pelé, não há brasileiro mais reverenciado em toda a história. Boa parte dos grandes profissionais de arquitetura do mundo que visitam o Brasil procuram o escritório de Niemeyer. Ele tem obras em quase todos os continentes e em mais de 15 estados brasileiros.   <br>  <br>Deve-se considerar que o arquiteto tem discernimento para ir aonde quer e não ir aonde não quer. Ainda assim, aos 104 anos, com a vista comprometida e o corpo frágil, Oscar Niemeyer tem de ser protegido, respeitado e admirado — à distância. Oscar Niemeyer tem de proteger Oscar Niemeyer.   <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99170</link>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 18:49:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 511px; height: 223px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e9e695f6b2aaa24dded579bc10a15243.jpg">  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" href="http://www.venhaparabrasilia.com.br/guia-oficial/aproveite/ponto-turistico/palacio-da-alvorada"> Foto retirada deste site</a><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br><font size="5">  <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br><font size="6">Soube envelhecer  <br></font><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span>  <br>  <br>O arquiteto Rafael Viñoly, uruguaio sediado em Nova York, disse em entrevista à revista <span style="font-style: italic;">Wish Casa</span>, que "Brasília é a única cidade onde a arquitetura moderna envelheceu bem". Com escritórios em Londres, Abu Dhabi e em quatro outras cidades norte-americanas, Viñoly afirmou, sem que fosse diretamente provocado, que Brasília é "um lugar simplesmente espetacular."  <br>  <br>Tentei, há alguns dias, um contato com a assessoria de imprensa   <br>do arquiteto, mas até agora nada. Mesmo assim, não dá pra perder a chance de especular sobre a ideia de que a arquitetura moderna em Brasília envelheceu bem, ao contrário do que aconteceu em outras cidades, ainda segundo Viñoly. Na mesma entrevista, o uruguaio alerta para os riscos do uso exagerado da tecnologia de construção. Desde que o norte-americano Frank Gehry fez escultura com placas de aço para dar forma ao Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha, arquitetos do mundo inteiro começaram a coçar as mãos e a fazer da tecnologia a invenção em si mesma.   <br>  <br>Há muito que o concreto armado é uma tecnologia ultrapassada. Sua última e grandiosa celebração foi em Brasília. A essa altura, era de se esperar um cheiro de mofo. Não foi o que aconteceu. Como bem apontou Viñoly, a arquitetura da cidade soube envelhecer. Fenômeno que se deve, quero crer, à leveza dos palácios de Niemeyer plantados na imensidão do cerrado. Posso apostar que o arquiteto uruguaio se lembrou do Alvorada quando pensou no envelhecimento saudável de Brasília.  <br>  <br>Ponha-se, lado a lado, o Guggenheim de Gehry, o espetacular edifício que o holandês Rem Koolhaas está construindo em Pequim (que parece uma projeção de um vídeogame) e o Palácio da Alvorada. Difícil imaginar que alguém não se comova com a simplicidade solene e audaciosa da obra de Niemeyer. É uma arquitetura dos anos 1950, moderníssima para a época, feita de concreto, vidro e mármore. A diferença, volto a dar palpite, é que o arquiteto brasileiro não se deixou dominar por devaneios de grandeza. Soube curvar-se à história do país ao qual o palácio iria representar, sem abdicar da obrigação de ser moderno para época. Pelo meu gosto, o Alvorada é a mais bela obra de Niemeyer e uma das mais belas da arquitetura moderna.   <br>  <br>Quando Viñoly fez o elogio a Brasília não deve ter levado em conta a dupla Museu da República/Biblioteca Nacional, obras datadas dos 1950 e inauguradas em 2006. São projetos que já nasceram caducos, como se fossem cenários de um filme de época. Além de ter nascido cheio de rugas, o Museu da República cometeu a deselegância de dar uma chave de pescoço na belíssima Catedral, para usar expressão da professora Sylvia Ficher em artigo que deu o falar.   <br>  <br>Quem fez o Palácio da Alvorada, a Catedral, a Igrejinha, o Itamaraty está eternamente perdoado e será eternamente lembrado.&nbsp;&nbsp;   <br>  <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99169</link>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 18:41:00 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5199048eb4397d3437dd302961bd96f8.jpg">  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> Como teria sido a Babilônia</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A cidade divina</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">As cidades nasceram, por volta de 5 mil anos antes de Cristo, para ser a sede das classes dominantes, enquanto o campo continuaria a ser o território das classes subalternas. A cidade não é uma aldeia que cresceu. Elas surgiram com um objetivo definido. Foram criadas para ser a sede da autoridade, enquanto a aldeia seguiria como o local de convívio dos que plantavam, coliam e criavam animais.  <br>&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">As cidades planejadas não são uma invenção moderna. As primeiras cidades surgiram de um plano piloto, para usar uma licença poética brasiliense. Vejam Babilônia : Ela foi planejada por volta de 2 mil anos antes de Cristo como um grande retângulo de 2,5 mil metros por 1,5 mil metros, dividido em duas metades pelo rio Eufrates. "Toda a cidade, e não somente os templos e os palácios, parece traçada com regularidade geométrica: as ruas são retas e de largura constante, os muros se recortam em ângulos retos", escreveu o italiano Leonardo Benevolo em <span style="font-style: italic;">História</span> <span style="font-style: italic;">da Cidade</span>. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Já deu pra perceber que Brasília não nasceu de um estalo de dedos da arquitetura moderna. Sabemos que ela tem inspiração renascentista e dos terraplenos da China pré-histórica. O que eu não sabia é que há outras raízes milenares. </span>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Veja-se a descrição que Benevolo faz das cidades construídas para os deuses, espécies de monumentos mortuários: "A cidade divina é construída de pedra, para permanecer imutável no curso do tempo, é povoada de formas geométricas simples: primas, pirâmides, obeliscos, ou estátuas gigantescas como grande esfinge, que não observam proporção com as medidas do homem e se aproximam pela grandeza, dos elementos da paisagem natural; é habitada pelos mortos, que repousam cercados de todo o necessário para a vida eterna, mas é feita para ser vista de longe, como o fundo sempre presente da cidade dos vivos." (<span style="font-style: italic;">História da Cidade</span>, página 44).</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Formas geométricas, monumentos, escala monumental, feita para ser vista de longe — é espantoso o parentesco de Brasília com as cidades divinas.  <br>&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Faltou-nos aprender mais com os exemplos milenares. Na mítica Atenas, as casas eram simples, porque a vida era vivida do lado de fora, como descreve Benevolo: "….durante a maior parte do dia vive-se ao ar livre, no espaço público ordenado e articulado segundo as decisões tomadas em comum pela assembleia."</span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Como os índios, os atenienses viviam menos para si, mais para o coletivo. Brasília tem sua porção ateniense nas superquadras: pilotis para o convívio, áreas verdes contínguas, sistema viário interno protegido da aceleração da via expressa. Faltou-nos a rua, invenção das cidades que perdurou ao longo dos últimos sete milênios, mas que o urbanismo moderno preferiu esquecer. Imperdoável pecado.&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=99168</link>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 18:19:17 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 362px; height: 220px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6f4096113e8e0bdbb2dafa3fd159ab95.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">Jesus te ama</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Severino Francisco</span> <br>&nbsp;</div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Fui resolver uma pendência administrativa na W3-Sul e quando passava em  frente a uma loja, uma senhora olhou para mim de maneira estranha. Segui em  frente, mas ela veio atrás e perguntou com voz firme: "O senhor tem alguns  segundos para eu lhe dizer uma coisa?". Respondi que sim. A senhora fechou os  olhos, se concentrou como se fosse receber um santo e esperou alguns segundos,  fazendo suspense. Depois da impressão dramática do silêncio, em tom épico,  bíblico, profético, inapelável e inescapável, me fulminou, escandindo as  palavras quase sílaba a sílaba: "O senhor é pro-fun-men-te de-pres-si-vo. Mas  tenho uma boa notícia para o senhor: Jesus te ama".</p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Com os olhos irradiando o brilho alucinado dos profetas, ela me observava  atenta, aguardando o efeito causado por suas palavras devastadoras. Estava com  pressa, um tanto aflito para chegar ao trabalho, mas, mesmo assim, ainda tive  tempo de comentar: "Olha, a senhora só acertou na parte de Jesus. Mas depressão  é algo que passa longe de mim". Ela ficou um tanto decepcionada com a minha  convicção antidepressiva e reduziu o tom apocalíptico, sem dar inteiramente o  braço a torcer: "É, mas o senhor me parece um pouco aflito". </p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Como saí voado rumo ao trabalho, naquele instante, gostaria de dizer, fora do  frenesi das ruas, algumas palavras para aquela alma pura. Minha senhora, fiquei  muito honrado com a distinção que me conferiu, mas minha verdadeira vocação é  para a alegria. Todavia, pensando bem, a senhora não se equivocou inteiramente  em seu diagnóstico exasperado. Algumas coisas me deixam em fundo e cavo estado  de depressão. </p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Menciono, por exemplo, o acidente envolvendo dois ônibus velhos e  malconservados ocorrido na EPTG, circulando com o dobro da idade permitida, que  feriu 60 passageiros, na sexta-feira. É uma situação de calamidade pública  denunciada, exaustivamente, pela imprensa , mas que continua se arrastando há  várias décadas, sem solução, comprometendo o futuro da cidade. Parece que os  donos das empresas de ônibus mandam mais do que o governador ou os governadores.  </p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Essa omissão criminosa deveria ser alvo de uma investigação do Ministério  Público ou da Câmara Legislativa. Contudo, aí nos deparamos com outro motivo  para uma abissal depressão. Brasília possui uma galeria de pessoas nobres,  imbuídas de consciência coletiva, devotadas a causas sociais, ilustradas,  animadas por ideais elevados. No entanto, a nossa Câmara Legislativa abriga  precisamente alguns dos piores e das piores crápulas brasilienses. Dá profundo  desalento saber que outros brasilianos votaram nessa gentalha. O mundo e o  submundo da política brasiliense parecem um pântano sem fim. </p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Mas como não tenho o menor talento para a depressão, logo a transformo em  indignação e, se possível, em alguma pequena ação. Empenho-me em fazer o que me  cabe, seguindo a máxima kardecista: "Ajuda-te que os céus te ajudarão". E que os  deuses joguem seus dados. Algumas vezes, a melancolia e o luto são necessários  ao desencantamento de nossas ilusões ou a uma decantação de experiências  delicadas. No entanto, mesmo quando, por alguma razão, fico triste ou abatido,  se a alegria bater à porta ou roçar no meu corpo, se insinuando, pode ter a  certeza de que me encontrará de braços abertos. Xô, satanás, xô depressão!</p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98928</link>
		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 02:10:00 GMT</pubDate>
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/f59a4f0a50b3a60e019c03a931a9ab4d.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Cena do filme de animação <span style="font-style: italic;">Paths of hate</span>, de Damian Nenow <br> <br><font size="5"> <br></font><font size="6"> <br>Ódio machista</font> <br> <br><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Pouco antes do fim do ano, tive muito medo de um homem que vende balinha nos semáforos do Plano Piloto. Era meio da tarde e eu estava parada no cruzamento ao lado do Tribunal de Justiça, em frente à Praça do Buriti. Ele bateu levemente no vidro para me oferecer seus produtos. Balancei a cabeça para avisar que não estava interessada na oferta. Ele continuou batendo no vidro: “Boa-tarde, senhora”, e voltava a bater: “Boa-tarde, senhora”, “boa-tarde, senhora”.  <br> <br>Percebi que ele estava ficando cada vez mais irado e eu, amedrontada. O vendedor de balinhas, de uns 30 anos, decentemente vestido, não me olhava nos olhos. Mirava o vazio e continuava a bater no vidro do carro: “Boa-tarde, senhora”. Imaginei que ele poderia dar um soco no vidro, me ferir e se ferir também. Foi quando o sinal abriu e me vi livre daquela odienta ameaça. Ainda pude perceber o homem praguejando algo inaudível. <br> <br>Passei boa parte da tarde oprimida pelo ódio que aquele homem havia me destinado e pelo medo do que pudesse ter acontecido. <br> <br>Há poucos dias, voltei a encontrar o vendedor de balinhas, dessa vez no semáforo da N1, ao lado do Brasília Shopping. A cena se repetiu: toc-toc-toc, “boa-tarde, senhora”, toc-toc-toc, “boa-tarde, senhora”. Tentei cruzar meu olhar com o dele para que ele soubesse que eu não estava interessada nas balinhas, mas ele continuava olhando para o vazio, o corpo quase colado à porta do motorista, as batidas cada vez mais vigorosas em ódio crescente. Agora, sim, que eu não abriria o vidro. <br> <br>Antes que o sinal ficasse verde, o homem desistiu e praguejou novamente (“miserável dos infernos” foi só o que consegui decifrar da leitura labial). Deu a volta pela frente do carro, praguejou mais um pouco, cuspiu no capô e foi assediar o motorista ao lado que, como eu, não abriu o vidro. Por um instante, imaginei, com certo alívio, que ele iria transferir o ódio de mim para o homem, mas não foi o que aconteceu. O vendedor de balinhas não reagiu ao desinteresse do motorista e voltou-se para mim com os olhos ainda faiscando de ódio. <br> <br>Entendi então o que estava acontecendo: eu tinha sido vítima, por duas vezes, de machismo explícito no semáforo. Para aquele homem praguejador, as mulheres vieram ao mundo para serem aos homens subjugadas. Pertencemos a uma subespécie e, nessa condição, eu teria de obedecer ao mando do toc-toc-toc. Aquele homem odeia a sua própria condição, acha-se injustiçado pela vida e não admite que uma mulher não ceda a seus mandos — o toc-toc-toc é uma ordem.  <br> <br>Em duas oportunidades recentes, pude experimentar vagamente o sentimento de desproteção e indignação das mulheres vítimas de agressões de fundo machista.  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98926</link>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 19:42:44 GMT</pubDate>
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		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"> <br></font><font size="6"> <br>Gerações</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Jaqueline Gomes de Jesus</span> <br> <br>Não tenho filhos, mas adoro crianças. Em minha formação como psicóloga não me aprofundei em desenvolvimento infantil. Nos últimos anos, tenho refletido, lido e assistido em diferentes fontes assuntos sobre como criar crianças felizes, o que me fez ver a forma como filhos têm sido criados por pais ultimamente, e me apavorei. Darei um exemplo, a partir de uma experiência recente. <br> <br>Voltando de avião a Brasília, de uma oficina que ministrei em Salvador, reservei a janela, como sempre faço quando é possível. Estava ocupada por uma garotinha entre 5 e 6 anos de idade. Disse-lhe, sorrindo, que aquele era meu assento. Ela se negou a sair. Perguntei-lhe sobre seu pai, ela não sabia onde estava.  <br> <br>Logo, postei minha bolsa e algumas sacolas no banco do meio e me sentei no do corredor, aguardando o adulto. Enquanto isso, a animadíssima menina me apresentou seu tablet, e as dezenas de fotos com efeitos especiais que tinha tirado: dela mesma, da mãe, do irmão e do pai. Algumas em momentos íntimos da família.  <br> <br>Primeira lição: falta de privacidade e domínio tecnológico caminham juntos. <br> <br>O pai chegou, e pediu, repito, pediu que sua filha saísse, o que me chamou a atenção. Ela não aceitou o pedido e ele deixou por isso mesmo, agradecendo-me pela indulgência de ceder meu lugar. Fui condescendente, errei. Não foi a atitude correta para uma cidadã. Eu deveria ter pedido que o pai tirasse a criança da poltrona que eu reservara, mas abri mão de meu direito para não desagradar a pequena que se divertia. Isso não foi bom para mim, para o pai, nem para ela.  <br> <br>Como adulta, eu também era responsável pela garota, mas me eximi disso, culpando o pai por quaisquer problemas que adviessem, e não demoraram. Mal decolamos, ela pediu para ir ao banheiro. Pacientemente arrumei minha bagagem para que eles passassem. Acho que o adulto notou o contratempo gerado, mas parecia continuar aceitando a normalidade da situação. Eles demoraram a voltar.  <br> <br>O pai tirou o tablet das mãos da menina para ler seus e-mails e alguns jornais. No meio da viagem começamos a conversar sobre a política local em Brasília, lembrando do episódio recente em que o diretor da Polícia Civil foi demitido por críticas ao governador. Ele me revelou ser médico, e acusou os meios de comunicação da capital federal de, entre outras coisas, de não tratar bem a sua classe profissional. <br> <br>O inesperado aconteceu. A menina tossiu seco e regurgitou sobre si mesma. O pai, assustado, acorreu com uma sacolinha de plástico e acionou o comissariado, que não podia atender porque passávamos por uma turbulência. Ele inquiria: “Por que não me avisou, filha?"  <br> <br>Quando a situação se acalmou, perguntei o que estava acontecendo com a garotinha. Ele me explicou que ela sempre tem náuseas quando viaja, de carro ou de avião. Pensei: se ele sabia disso, e sendo médico, por que a deixou ficar na janela? Daí por diante ela ficou muito triste e calada, e o pai, incomodado. Pousamos. Comentei com meu marido sobre o ocorrido.  <br> <br>Segunda lição: os pais orientam seus filhos, dentre outras razões, para protegê-los de decisões que possam prejudicá-los e a terceiros. Refletindo sobre o episódio, nós nos perguntamos o quanto uma geração pode crescer sob o amor permissivo. As crianças são inocentes; os adultos, não.  <br> <br>Precisamos amadurecer como cidadãos, parar de culpar “quem é de fora”, “os políticos” ou “a mídia” pelas mazelas da nossa sociedade. Também temos responsabilidade quando, para não desagradar, silenciamos. Se quisermos um bom futuro para nossa cidade, precisamos atentar para como estamos cuidando uns dos outros e para os exemplos que damos às gerações futuras.  <br> <br>Termino a crônica compreendendo que a comecei com uma inverdade. Na vida em sociedade, todos nós temos filhos. Somos mais ou menos responsáveis pelos adultos que eles se tornam. Filhos não são apenas os que geramos, mas também os que criamos. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98918</link>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 19:26:11 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/42fe4e46b1fa1428706abf39d4b751fe.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">Meu iaia, meu ioiô <br></font><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Naqueles tempos era assim: ouvíamos Chico Buarque e cantávamos Wando. Chico embalava os ideais de amor erudito e Wando, de paixão suburbana. Chico era a música dos ambientes acadêmicos. Wando caía muito bem num pé-sujo, numa boate de periferia ou na solidão dos amores perdidos. O Wando do começo era apenas romântico, não cheirava calcinhas nem insinuava obscenidades. Não era melhor nem pior do que o mais recente, era o que aqueles tempos pediam.  <br> <br>Wando tinha o biotipo do brasileiro pobre. Pele quase negra, lábios carnudos, nariz achatado, era idêntico aos outros frequentadores das boates de zona que, naqueles tempos, a militância estudantil se vangloriava de frequentar. Não nos bastava a atmosfera universitária; queríamos conhecer os segredos da diversão na periferia, tínhamos uma simpatia visceral pelos excluídos, especialmente pelo lumpemproletariado, para usar um jargão da época. Se íamos mudar o mundo, tínhamos que conviver com ele. É certo que, para ouvir Wando, nem era preciso deixar o mundinho de classe média. As rádios tocavam de um tudo. De Chico a Roberto Carlos, de Pixinguinha a Wando.  <br> <br>Com Wando, nos perdíamos de amor em botequins de periferia onde, a certa altura, arrastávamos as mesas e dançávamos ao som de "moça, sei que já não és pura…" A virgindade era um mito que estavámos derrubando com a mesma tenacidade com quem tentávamos derrubar a ditadura. <br> <br>Com Wando e alguns outros soubemos que o amor na periferia se expressa muito mais caudalosamente que na classe média e nos pavimentos superiores. O amor no subúrbio é desavergonhado. A paquera, o ciúme, as fofocas, as disputas — tudo se expressa de modo mais intenso e desbragado. Quem já conviveu com as trabalhadoras do sexo sabe o quanto elas sofrem e se descabelam e disputam e correm atrás do amor de suas vidas. As prostitutas acreditam no único e verdadeiro amor mais do que qualquer outra espécie feminina. Acreditam e esperam por ele. <br> <br>Tanto quanto Chico, Wando entendia a alma feminina — a alma feminina da periferia, a que toma sol na laje, compra bolsa Louis Vuitton no camelô e nunca está sozinha. (Solidão é fenômeno de classe média e acima da média. O subúrbio não fica sozinho, está sempre acompanhado).  <br> <br>Wando é um Brasil que o outro Brasil rejeita. Wando é a representação do Brasil que agora começa a ser reconhecido porque passou a fazer parte do mercado consumidor. Wando é antiliterário, piegas, obsceno e, com todo esse arsenal brega, tem muito a ensinar aos homens sobre a alma feminina. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98793</link>
		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 20:53:09 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/a3e2b02fee81f45fadb2472150e9b1fa.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Niemeyer, Vinicius, Tom e Lila Bôscoli nos  <br>&nbsp; bastidores de <span style="font-style: italic;">Orfeu da Conceição</span>/Foto de José Medeiros</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Assombro moderno</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></font> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Em 1922, a ideia de transferir a capital para o interior do Brasil estava adormecida. O último grande gesto havia sido a Missão Cruls, em 1892/1894. Em 1922, a arquitetura brasileira ainda não tinha acordado para as novidades europeias. Foi em 1928 que o arquiteto Gregori Warchavchik construiu aquela que é considerada a primeira casa moderna, em Vila Mariana, São Paulo.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Mas a Semana de 1922, que neste fevereiro completa 90 anos, tem tudo a ver com Brasília. Quando Mário, Oswald, Anita, Menotti, Villa-Lobos, Tarsila e outros montaram o fuzuê que livrou o Brasil da fanfarronice beletrista, abriram-se largas frestas para que o sopro de renovação na arquitetura europeia chegasse ao país e aqui ganhasse características brasileiras — um certo lirismo, alguma sinuosidade, improvável leveza.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Os modernos receberam Brasília com espanto e entusiasmo. Mario Pedrosa dedicou-se longa e profundamente sobre o urbanismo, a arquitetura e as artes plásticas da nova capital (Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília). Foi uma espécie de crítico modernista e filósofo da cidade recém-construída. Clarice Lispector produziu certamente a mais bela crônica já escrita sobre Brasília. Ninguém conseguiu expressar tão bem o assombro diante da inexplicável cidade. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O iracundo João Cabral de Melo Neto dedicou poemas à arquitetura da capital. (“<span style="font-style: italic;">Eis casas-grandes de engenho,/horizontais, escancaradas,/onde se existe em extensão/e a alma todoaberta se espraia”</span>). Nelson Rodrigues escreveu crônica indispensável sobre a reação dos brasileiros diante da cidade inaudita (<span style="font-style: italic;">A derrota dos cretinos</span>). Bem antes de morar na cidade, Guimarães Rosa escreveu dois contos sobre Brasília. Num deles, narra o espanto de um menino que vem conhecer Brasília. (Para quem sentiu água na boca, os dois estão em <span style="font-style: italic;">Primeiras estórias</span>). Em 1958, Augusto de Campos e os irmãos Décio e Haroldo Pignatari escreveram Plano-piloto para a poesia concreta, espécie de manifesto dos poetas que transformaram a poesia em objeto. </span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">No ano em que começou a desenhar os palácios da capital, Oscar Niemeyer fez o cenário de <span style="font-style: italic;">Orfeu da Conceição</span>, peça de Tom e Vinicius que transpôs para as favelas cariocas um texto do teatro grego. O engenheiro que calculou algumas das principais obras de Niemeyer em Brasília, Joaquim Cardozo, é considerado um dos mais importantes poetas modernistas brasileiros. Drummond não ficou lá muito entusiasmado com a transferência da capital, mas escreveu alguma coisa. O poema sobre Ceilândia é a mais conhecida delas.</span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Brasília foi a mais contundente e concreta representação da modernidade brasileira. É o mais completo e condensado exercício de urbanismo, arquitetura e artes plásticas modernos em todo o planeta. Dito hoje, quando o Brasil conquistou lugar expressivo entre os grandes, nem parece assim tão espetacular. Mas, no fim da década de 1950, foi de tirar o fôlego. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98792</link>
		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 20:40:01 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7d63986e7091115f8e5c77a3f105ab08.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Centro de Convenções</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Arquitetura anabolizada</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Não é uma moda exclusivamente brasiliense, mas aqui ela está provocando danos terríveis. Trata-se da arquitetura feita com anabolizante. Aumentam os músculos dos edifícios e, tal como ocorre com os homens, tiram-lhe a naturalidade e a harmonia. Vem de algum tempo o gosto pela arquitetura ostentatória — feita à imagem e semelhança da espetacularização do mundo. Em Brasília, a tendência começou há mais dez anos quando, sem quê nem por quê, construíram um portão romano, no estilo Arco do Triunfo, no Pontão do Lago Sul. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A cidade cuja arquitetura nasceu apontando para o futuro merecia obras contemporâneas. Brasília deveria ser o território das experiências arquitetônicas surpreendentes, mas é o que menos ocorre. Depois que plantaram um esqueleto vermelho, à época chamado Blue Tree, ao lado da peça mais preciosa, elegante e delicada da arquitetura moderna na cidade, deu pra perceber que não havia mais limites para o mau gosto.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Quando não se perde em excessos exibicionistas, a arquitetura brasiliense pós-anos 60 e 70 quer ser mais bonita, maior e mais vistosa que a noiva. É o caso da Ponte JK. Ela despreza a escala da cidade. Suspeito até que seus arquitetos quiseram-na mais potente que todas as obras de Niemeyer e de Lucio Costa. Não há nenhuma inovação arquitetônica na Terceira Ponte, mas ela tem sua beleza, ainda que seja agressiva para com a cidade. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Compare-se a JK com a Costa e Silva, projeto de Niemeyer. É o mesmo que cotejar a asa de um avião com a asa de um passarinho. A primeira tem robustez, é imperial. A segunda tem fluidez, é sublime. Toca levemente o espelho d'água, entre longos vãos. Parece voar — quem a projetou pensou na cidade à qual serviria, respeitou os demais volumes ao redor, pediu licença para entrar.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O Centro de Convenções veio na onda e provocou danos irreparáveis à harmonia de volumes tão bem projetada por Lucio Costa. O monstrengo pousou grotescamente num dos eixos da cidade, interceptou o horizonte e, como um asteróide caindo num jardim de flores do campo, feriu a paisagem de modo irreversível. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Os novos blocos das superquadras seguem a mesma onda. São muito mais volumosos que aqueles construídos entre as décadas de 1960, 1970 e 1980. A pretexto de querer aparentar prosperidade e imponência, são cafonas com suas muralhas de vidro e suas fachadas anabolizadas. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A mais recente grande interferência arquitetônica na cidade já exibe sua grandeza de volume a oeste do Eixo Monumental. É o novo estádio. Não dá pra negar que é espantosamente grandioso e pelo que se vê até agora e pelas maquetes do projeto, será uma edificação portentosa e ao mesmo tempo leve para a função a que se propõe. Nesse caso, e inevitável o desrespeito às escalas harmoniosas de Brasília, mas só nesse caso. No mais, a arquitetura que, em geral, se pratica na cidade patrimônio da humanidade representa certa elite que nela vive. Arrogante, exibicionista e pobre de espírito.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98606</link>
		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 12:08:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 514px; height: 291px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/86650bb7c1ef064797627338372df3bc.jpg"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp; Gotham City</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Cidade das tentações</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A lama continua a escorrer pelos vãos dos vídeos, revelando, em ondas intermitentes, como se faz política em Brasília. Nesse contexto, nada mais me indigna ou surpreende.Tão cedo a cidade não se livrará do vírus insidioso e voraz que contamina todas as instâncias da vida pública brasiliense.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Mas há perspectiva ao alcance dos olhos. A cidade não se reduz ao circuito do poder. Em Brasília, o horizonte está em todo lugar. Seremos nós, os sem-poder, que vamos fazer a assepsia da cidade. Contudo, será preciso, antes de tudo, resistir às tentações — Brasília é a capital das tentações. O patrimônio da humanidade é generoso com as ambições. O circuito do poder é pequeno, o dinheiro é farto, as chances são muitas. Será preciso dizer não aos pequenos conluios, ao tráfico de influência, à subserviência diante dos poderosos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Os mais antigos contam que, no tempo da construção, o pagamento dos operários era feito em espécie. A dinheirama farta enchia o cofre-forte num subsolo da velha Novacap, na Candangolândia. Mas havia uma causa coletiva para, de algum modo, conter a ganância dos mais afoitos. O desejo dominante de construir uma capital para fortalecer o sentido de Nação constrangia, de certo modo, os inescrupulosos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Passado meio século, o cofre saiu do subsolo e passou a funcionar a céu aberto. Brasília se transformou na capital das oportunidades de vencer, vencer e vencer —&nbsp; as chances de se deixar corromper aumentam exponencialmente na cidade que abriga os três poderes. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Faz alguns anos, um grupo de delegados da Polícia Civil iniciou um movimento para que o tratamento a eles destinado passasse a ser o de Sua Excelência. É bisonho, mas foi levado a sério por algum tempo. Era um sinal evidente de que as ambições de poder estavam corroendo perigosamente a segurança pública da capital do país. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>A longo prazo, o mais recente vídeo do lamaçal brasiliense terá, como os demais, um efeito saneador para a cidade. Não será amanhã nem depois que Brasília terá os homens públicos que sua história merece. Mas, repito, a mudança parece não estar tão longe que os vivos não possam vê-la. A força de mobilização das redes sociais tem surpreendido meio mundo. Já levou milhares às ruas da cidade contra a corrupção.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Temos o tempo a nosso favor. Uma cidade de 50 anos ainda não é verdadeiramente uma cidade. Como já escrevi há pouco aqui, a história de Paris demonstra que são necessários séculos, milênios, para transformar um aglomerado de bárbaros num povoamento urbano razoavelmente bem-resolvido, numa das cidades mais admiradas do planeta. E mesmo assim com avanços e recuos subsequentes. A história de Paris ensina que quem faz e melhora a cidade são seus intelectuais, artistas, estudantes, a gente anônima, os personagens urbanos e suburbanos, os loucos, os errantes, os que transformam um amontoado de prédios e vias numa cidade verdadeira.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div>  <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98626</link>
		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 12:05:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e92c2a4dfe4524698f81590b9a0589ad.jpg">  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Rubem Braga em auto-retrato</span>  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> (Divulgação/Arquivo Roberto Saljan Braga)</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Viu que não é fácil?</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">  <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Quando subi os dois lances de escada de acesso à redação, senti uma sombra suave cobrindo meu peito. Não foi preciso me debater, eu sabia que minha apreensão devia-se à volta a esse pé de página. Diagnóstico apressado diria que cansei da Crônica da Cidade, mas eu desconfiava que a resposta não era tão simples assim. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Não demoraria muito pra eu decifrar o sentido da sombra e o fiz com a ajuda dos três cronistas que me substituíram nas últimas quatro semanas, Severino Francisco, Sergio Maggio e Chico Neto. Ao contrário do que parece, escrever crônica não é moleza. O cronista tem, por dever de ofício, descarnar o peito a cada vez que toca o teclado para compor quatro ou cinco parágrafos. Não nos é permitido o uso de anestésico — crônica anestesiada pode ser qualquer coisa, menos crônica.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Numa crônica, mesmo as impressões mais superficiais estão carregadas de pessoalidade. O cronista nunca se ausenta nem se esconde. O gênero ao qual está submetido, o da crônica, o obriga a pagar pra ver, a comprar a briga, a pôr o dedo na ferida, a abrir as janelas da alma. Não importa se há feridas querendo tempo, se as ideias estão enevoadas, se o cronista está cansado, nada disso interessa. O pé de página está lá, todos os dias, à espera de ser lido, admirado, criticado, odiado, desprezado.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Severino Francisco contou, em crônica, que o mestre Rubem Braga disse que escrever crônica todos os dias é uma loucura. Que ele já acordava desesperado diante do imperativo da crônica diária. O desespero do maior cronista brasileiro me serviu de alento, mas não desanuviou a sombra que me recebeu na volta das férias. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Chico Neto ouviu de um amigo: de onde você tira inspiração para tanta crônica? E ficava aflito diante da possibilidade do vazio.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Sergio Maggio arrastou a cadeira para perto de mim e me revelou o quanto a tarefa de escrever uma crônica a cada dois dias o deixava angustiado. É muita exposição, ele me disse. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Os que gostariam de ocupar esse pé de página não levam isso em conta. A ideia que se tem é que um cronista vive no paraíso do jornalismo diário: não tem pauta, escreve o que quer, dá palpite em tudo e ainda pode exercitar uma suposta vocação literária.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Ah-ah-ah, digo eu. Escrever crônica é escavar a terra com as unhas. Há dias em que o garimpo lacerante resulta num texto razoável; há dias em que do chão só brotam ideias comezinhas, sentimentos vagos, frases boquirrotas, constatações levianas. Sem contar os emails raivosos que estalam na caixa de mensagem, impondo mais peso à sombra que já nos acompanha.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Quando voltei de férias, estava sobre minha bancada um envelope pardo, sem remetente, com uma tira de papel enfeitada com um origami em forma de borboleta. Dizia assim: "A vida não tem paetês, a gente inventa o brilho". A frase é atribuída a Elis Regina. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Escrever crônica dói, mas é bom.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98527</link>
		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 17:30:06 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 504px; height: 377px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6eb3e91cc1b13d51113be1906953f110.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">É este o segredo</font> <br> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Passei boa parte das férias em Paris — virtualmente em Paris, lendo o catatau escrito pelo norte-americano Andrew Hussey sobre a história secreta da mais desobediente e reluzente cidade ocidental. A exaustiva pesquisa conduz o leitor a uma longa linha do tempo desde mil anos antes de Cristo até 2005 da era moderna, para tentar entender como surgiu a cidade que inventou a revolução popular, que mudou a história do mundo ocidental e que criou uma espécie bastante singular — o parisiense. <br> <br>O autor percorre os quase 3 mil anos de ocupação do vale do rio Sena de olho nas alterações urbanas, no surgimento dos prédios e na vida dos renegados — prostitutas, ladrões, vigaristas, pobretões, bárbaros, anarquistas —- e dos poetas, estudantes, pintores e intelectuais que estremeceram Paris desde que a cidade era um povoado romano e se chamava Lutécia. Antes até, quando a tribo dos parísios se aproximou do Sena para fazer negócios com outras tribos. <br> <br>Paris nunca foi bem-comportada, sempre expressou sua rebeldia e de modo brutal. Paris foi destruída mais de uma vez, em consequência das disputas de poder ou de revoltas populares espontâneas. Paris foi feia, lúgubre, pantanosa, infectada por ratos, exalando odores pútridos e disseminando doenças. Paris foi dominada por monarquias megalomaníacas e fanatismos religiosos. Esteve sob o domínio romano e muito mais tarde sob as garras de Hitler. Antes, havia armado a gilhotina para o Terror que se sucedeu à revolução de 1789. Paris já foi a capital da prostituição, das orgias e das drogas; Paris foi racista e libertária.  <br> <br>A longa viagem pelas 580 páginas de <span style="font-style: italic;">A história secreta de Paris</span> me deixou com saudades dos próximos 3 mil anos de Brasília. E armou meu bumerangue para enfrentar as próximas 3 mil críticas que ouvirei sobre a cidade. A história de Paris é a história de como surge uma cidade. Ela será fruto da resistência de seus habitantes, do desejo de nela permanecer, da vontade de nela se derramar. <br> <br>Não se trata, a título de esclarecimento, de projetar um futuro parisiense para Brasília. Brasília é Brasília e Paris é Paris. Trata-se, isso sim, de entender que uma cidade depende das camadas de tempo para firmar seu jeito de ser; que uma cidade é a soma de sua topografia, sua conformação urbana, seus acidentes geográficos e da ação de seus habitantes.  <br> <br>Pelo que narra Andrew Hussey, os parisienses nunca renegaram sua cidade. Pelo contrário. Defenderam-na com a insolência própria dos descendentes da tribo parisii. Reagiram até em interferências modernizadoras, como a urbanização desenvolvida pelo barão Georges-Eugène Haussmann, no século 19, que abriu largas vias destruindo construções medievais e expulsando os pobres para mais longe. Defendendo causas justas ou injustas, os parisienses nunca comeram mosca. Mesmo quando comiam ratos, como ocorreu em períodos tenebrosos de sua história antiga. <br> <br>Paris sempre foi dos parisienses, e mesmo sob o domínio do turismo devorador, eles sempre encontram um modo de defender a cidade. Talvez seja o que nos falta, em larga escala. <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Suave guerreira]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98404</link>
		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 20:48:43 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		 <br><span style="font-style: italic;">Por Chico Neto</span> <br> <br>Sob a aura de Brasília, flanam almas muito boas. Algumas delas, em sua trajetória de vida, ajudam a manter a cidade bem-amparada espiritual e afetivamente. A artista plástica Naura Timm está nesse time. A mestra da linguagem gestual — seus traços ganham movimento nas telas ou demais texturas que ela escolhe para pintar — tem com a capital uma relação muito singular. Naura é uma afinada interlocutora da cidade.  <br>Gaúcha que viveu muito tempo no Rio, voou para Goiás e de lá abraçou Brasília, a artista é presença conhecida na cidade. A começar por sua vizinhança. Certa vez, rolou mal-estar porque ela resolveu usar como tela a porta de seu apartamento. Ali pintou, desenhou belas histórias e compôs, na estrutura de madeira, uma espécie de portal encantado. Os vizinhos do prédio em que ela morava, na Asa Norte, rangeram os dentes. Naura, nem aí. Encarou a polêmica com serenidade, mas inarredável na decisão: não haveria por que deixar de usar aquela porta, do imóvel de sua propriedade, como veículo. A arte dela já passeou por outras portas, como a da cozinha, e não tem preconceito de pouso. Naura é mulher de muita interação. Interage com a natureza de Brasília, com as estrelas, o sol, a chuva, o seca, o céu zodiacal todinho. <br>Não terá sido aquela a primeira vez nem a última em que essa mulher de voz mansa e convicções firmes esteve no alvo de quem a tentou enquadrar em saia-justa. Mas isso ela tira de letra. Como o “mago que é capaz de libertar a si próprio”, ela transita por todas as correntezas, praticamente imune à possibilidade de alimentar estresse com o vizinho, com a sociedade ou com o semelhante, principalmente se algum desses age como aquelas pessoas que Sartre tão sabiamente enquadrou na conclusão de que “o inferno são os outros”.  <br>Em Naura, que também já se chamou Shirinsk e por certo incorporou diversos outros nomes em circunstâncias relativas ao seu próprio caminho, o estranhamento alheio, se for frequente, é tratado como eventual; se ocorrer eventualmente, é ignorado feito mosca que se afasta com um único movimento de mão. É assim a autora do curioso O Tarô de Shirinsk, um dos mais ricos exemplos de sua atitude artística de linguagem tão rica.  <br>A artista é tão determinada que não dispensa o espaço da palavra: escreve como fala, algo que Clarice Lispector fazia e alguns poucos podem praticar sem cair no ridículo. Com ela, a palavra, no caminho percorrido pelas letras, chega a ter som. Viajada, Naura conhece mais de meio mundo, mas não perde o leme na viagem que considera fundamental: a convivência consigo mesma, com o que alguns chamam de fantasmas e outros tratam como o templo interior. A noção de que nosso corpo é nossa mais legítima casa própria é tão bem desenvolvida pela veia artística de Naura que sua residência propriamente dita é uma galeria em exposição permanente. Arte viva, nem mais nem menos. <br>Ela&nbsp; não perde nenhuma oportunidade de confrontar — seja com sua realidade interna, como é próprio das almas sensíveis empenhadas em ser melhores a cada instante; seja com o próximo, toda vez que for preciso. O confronto, no sentido de enfrentamento puro e simples, não de agressão gratuita, faz parte do que compõe o combustível para as criações de Naura Timm.&nbsp; É ao confronto, enfim, que ela costuma atribuir o resultado de sua arte, que brota em pinturas, gravuras e poesia dedicadas a inúmeros temas.  <br>Ah, sim. Naura escolhe cada temporada de exposição de acordo com o tema. Como a arte é sua linguagem, ela compõe, em sequências que ninguém no Sistema Solar além dela saberia repetir, histórias bem-estruturadas em cada uma de suas mostras. Nenhuma exposição aparece sem que todas as peças estejam firmemente encadeadas em uma história maior, um conto. Por isso, sempre há espaço para a arte de Naura Timm, nos lugares mais variados. Ninguém que a conhece vai estranhar se um dia surgir um convite de uma exposição sua em um trem-fantasma, na calçada de um bar ou em um cerimonioso salão como o da Câmara dos Deputados — local que, à primeira vista, nada tem a ver com o espírito irreverente da artista. É, enfim, uma cidadã universal. E nisso carrega muito do que o cidadão brasiliense, nativo ou não, tem de mais original. <br> <br> <br>   
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		<title><![CDATA[Não vire o rosto]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98286</link>
		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 18:48:06 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<span style="font-style: italic;">Por Chico Neto</span><br style="font-style: italic;"><br style="font-style: italic;">Toda vez que passo perto do Memorial JK, algo de muito bom, luminoso e saudável toma conta de meu pensamento. É uma sensação que não se descreve — até porque o que é muito bom não costuma se prestar a descrições exatas —, mas estou certo de que tem a ver com a aura daquele fantástico cidadão representado por uma imponente escultura, acenando para o horizonte: Juscelino Kubitschek. Já ouvi dizer que aquele ponto, próximo à Praça do Cruzeiro e ao Palácio do Buriti, é uma espécie de portal por meio do qual circula uma energia muito preciosa.  <br>Minha ignorância nesse ramo do saber me impede de desenvolver qualquer raciocínio a partir de tal informação, mas meu coração, esse que passa ao largo do conhecimento teórico,&nbsp; quase pode assegurar que o Memorial JK é mais do que um ponto muito especial nesta Brasília tão marcada por pontos singulares. Que existe ali uma energia boa e forte, capaz de abrir caminhos nos horizontes de nosso ilimitado pensamento, isso existe. Só não me peça para provar, por A + B ou 1 + 2, tal possibilidade. Esta sensação faz parte do mundo que não pode ser medido, pesado ou aferido de qualquer outra forma exata. Apenas sugiro: passe alguns instantes por ali, sem pressa, com desprendimento suficiente para fechar os olhos e deixar o pensamento agir, sem programação. <br>Quando o monumento foi inaugurado, em 12 de setembro de 1981, os restos mortais do ex-presidente, falecido em 1976, foram transportados para um mausoléu de mármore negro construído no segundo andar do Memorial. À época, dona Sarah Kubitschek declarou: “Ele (o Memorial JK) será um polo cultural, um marco histórico indicador do caminho da democracia e do entendimento entre todos os brasileiros. Assim desejaria JK, que é a própria encarnação da vida e da energia”. Em seu rápido discurso de saudação, ela deixou claro que, no seu entender e com base no trabalho de Juscelino, aquela obra é muito mais do que um monumento.  <br>&nbsp; E assim tem sido, ao longo desses mais de 30 anos, dentro e ao redor daquela área de quase 30 mil metros quadrados que inclui a Praça do Cruzeiro — de onde ainda se tem, nos dias de hoje, uma visão de 360 graus de parte do Plano Piloto. Além de abrigar um museu que recompõe a história de Juscelino Kubitschek por meio de documentos e objetos pessoais, o Memorial, que tem projeto assinado por Oscar Niemeyer, é uma referência concreta aos ideais de bem viver esboçados por JK para o Brasil.  <br>Lá está ele, nosso presidente-fundador de Brasília, acenando para o horizonte e olhando na direção da Esplanada dos Ministérios. Ainda bem que, no trajeto percorrido por seu olhar, a descaracterização da capital não encontrou muito caminho para fazer metástase. Estivesse aquela estátua de mais de 4 metros de altura olhando na direção oposta, tenho dúvidas se ela gostaria de presenciar a transformação de uma região sagrada para os índios, encostadinha no Parque Burle Marx,&nbsp; em um empreendimento bilionário efusivamente anunciado como o primeiro “bairro ecológico” da cidade. Ecológico em que sentido, se sua instalação pressupõe a destruição de tanta área verde e de um santuário indígena?  <br>JK, até onde me é dado saber, sempre soube olhar na direção certa. Sugiro que não mudem jamais aquela estátua de posição. Tem muita coisa feia que ela passaria a “ver”. Mas, na medida em que estátuas efetivamente não “veem” nada, segue outra sugestão: respeitem o que aquela obra encerra de tão representativo de Juscelino Kubitschek, um homem que dificilmente compactuaria com os caminhos abertos aos predadores de Brasília pela pressão dos novos tempos.  <br>Gente das mais diversas orientações filosóficas, existenciais e culturais visita a área compreendida entre o Memorial JK e a Praça do Cruzeiro. Já viraram tradição as saudações ao pôr do Sol feitas pela galera mais jovem, que costuma se reunir para presenciar o espetáculo e aplaudir o astro-rei quando ele se vai. Mesmo padecendo de manutenção decente — não dá para fingir que aquela pracinha é bem-cuidada —, o local tem algo de especial que chama as pessoas a chegar mais perto. Que cada salva de palmas dirigida ao crepúsculo se converta em um feixe de vibrações de boa cidadania ao Memorial. Assim como dona Sarah lembrou que aquela obra é mais que um monumento, Juscelino foi muito mais do que um presidente. <br> <br> <br>   
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		<title><![CDATA[Socorro, JK]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=98189</link>
		<pubDate>Thu, 26 Jan 2012 17:47:05 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<span style="font-style: italic;">Por Chico Neto</span><br style="font-style: italic;"><br style="font-style: italic;"><br style="font-style: italic;">Voltava eu de um mês de férias quando, ainda meio sonolento na poltrona do avião, ouvi o piloto anunciar que dentro de instantes pousaríamos no Aeroporto Internacional de Brasília. Era um início de tarde, e eu, que sempre apreciei olhar do alto a imagem de pássaro formada pelo Plano Piloto, tratei de colocar o carão na janela da aeronave para me deleitar com a vista. O aglomerado urbano que vi lá de cima me dificultou enxergar os contornos do desenho que desde criança eu aprendera ser o que caracteriza a capital. Parecia uma cidade como outra qualquer, ou melhor, como muitas outras que, tendo perdido o senso mínimo de qualidade de vida, viraram um amontoado de construções. <br>&nbsp;Esfreguei os olhos e pedi um copo d’água à comissária de bordo. “Pensei ter ouvido que iríamos aterrissar em Brasília”, disse a ela. “Sim, já estamos nos preparando para a aterrissagem. Olha o aeroporto lá embaixo”, me respondeu a simpática e muito maquiada funcionária da companhia aérea. Olhei mais uma vez e, sim, lá estava o Aeroporto Juscelino Kubitschek. Senti um alívio que infelizmente foi fugaz: era mesmo o aeroporto, porém, ao redor dele, eu não reconhecia a cidade onde vivo há quase 17 anos. Será que apenas 30 dias foram suficientes para terem mudado tudo? <br>Respirei pausadamente por longos segundos, esfreguei as mãos e as coloquei paralelas a meu rosto para sentir o calor emanado. É um exercício que aprendi a fazer quando me sinto estressado ou confuso, e funciona que é uma beleza. Tanto que meu mal-estar pareceu se dissolver feito um comprimido efervescente jogado em um copo d’água. Tratei de pedir outro copo d’água, para retomar, em tempo hábil, um mínimo de tranquilidade.  <br>Desembarquei, recolhi as bagagens e corri para o táxi. Ao ver o tamanho da fila, pensei: vou ter de esfregar as mãos novamente, desta vez com mais força, e refazer o exercício para desestressar. E refiz o ritual. De repente, senti uma luzinha no cérebro: ora, é só ligar para um táxi daqueles que dão desconto. Prontamente, peguei o celular e comecei a discar aquele número tão fácil de guardar, que as empresas concorrentes se encarregaram de copiar da frota que concede descontos. Uma gravação avisou: “Ligação não permitida deste local”. Um frio na espinha me sinalizou: no aeroporto, só é permitido utilizar os táxis locais.  <br>A essa altura, eu já suava frio. Liguei, então, para um amigo de toda hora, daqueles enviados por Deus para nos apoiar nos momentos em que nos descabelamos de desespero por algum motivo. “Por favor, me quebre um galho, brother. Pode me buscar no aeroporto?”, solicitei, com a voz trêmula. Em menos de 20 minutos, lá estava meu amigo, meu herói. Notei-lhe o semblante um tanto tenso, mas atribuí ao efeito paranoia que se apossara de mim naquela estranha chegada de férias. No caminho, ele pouco falava. E eu, a cada trecho percorrido, sentia aumentar minha angústia: aquela não era, de jeito nenhum, a cidade que eu deixara há um mês.  <br>“Cadê o Zoológico?”, perguntei a meu amigo, quando passamos perto do zoo e ele havia se transformado em um gigantesco canteiro de obras. “Calma, amigo”, tentou me consolar meu anjo da guarda. “Pra tudo tem jeito.”&nbsp; Fiquei arrepiado. Pegamos o Eixão e eu pedi para ele passar pelo Parque da Cidade, o fundamental pulmão verde de Brasília, meu oásis e de tantos outros cidadãos. Nesse momento, meu amigo é que engoliu em seco. “Pelo amor de Krishna, o que foi feito do Parque?”, perguntei, o coração aos pulos. Meu amigo começou a chorar. Quando olhei, o Parque da Cidade se transformara em um futuro condomínio de luxo, já todo cercado. Senti a vista escurecer, o coração fisgar e abri o bocão para gritar, o mais alto que pudesse: Socorro! Mas a voz não saía. Meu amigo soluçava, aos prantos. Em um ato de desespero, abri a porta do carro e resolvi me atirar, sair do mundo.  <br>Ao longe, aproximando-se aos poucos, ouvi uma música familiar que costumo utilizar… no despertador do celular, my sweet Lord! Acordei, muito suado e com zilhões de batidas cardíacas por segundo. Ufa, o Parque da Cidade continua como está. Minhas férias só chegam daqui a quatro meses. E na volta, se Deus quiser, Brasília não terá sido devorada pelo apocalipse especulatório. A poderosa aura emanada por JK e por seus reais seguidores ainda vivos é mais forte que o cultivo subsidiado da ganância. <br> <br> <br>   
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		<title><![CDATA[Mais que dois lados]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=97809</link>
		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 21:10:40 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<span style="font-style: italic;">Por Chico Neto</span> <br> <br>“Prezados, por que estão colocando essas fotos de placas feias e pichadas em um quadro de excelente visibilidade das belezas da capital do Brasil?”, pergunta, em um e-mail, o leitor Luciano Verano, referindo-se à seção Isto é Brasília, que diariamente publica imagens da capital na página Tome nota, no caderno Cidades. Temático, esse espaço, atualmente, foca nos comércios locais das quadras, os CLs. “Existem muito mais coisas bonitas do que isso em Brasília”, argumenta o leitor. É verdade.  <br>Brasília precisa do amor de seus moradores, sejam eles nativos e com casa própria ou inquilinos, temporários ou eternos. Traz bem-estar perceber que o leitor é um desses seres necessários à manutenção da harmonia da cidade: ele demonstra carinho e admiração por ela. Por isso, defende o bem e o belo que compõem tantas características do DF. Creio que também pense assim a maioria dos cidadãos amigos desta terra. Mas a cidade não tem apenas um lado.  <br>Tanto quanto ao leitor Verano, aos milhares de amigos de Brasília incomoda ver tantas placas em mau estado e pichadas, espalhadas por qualquer canto. E é aí, amigo leitor, que a gente se reencontra. Do lado de cá do que você lê, trabalhamos para abrir canais entre o leitor e a cidade, intensificar a interação de ambos. É preciso mostrar como anda a saúde do espaço urbano de que desfrutamos e pelo qual pagamos tributos. Assim, é importante que nossos olhares acompanhem, também, o que anda sendo feito de uma cidade tão querida. <br>Quanto mais gente vir (ainda que não seja novidade) imagens de descuidos, malfeitos, da decadência que abre caminho toda vez que o senso cidadão cochila, maior será o estímulo para que cada um se engaje na corrente contrária — a do zelo, da prática do amor por uma cidade da qual todo morador é tão íntimo. A Brasília que nos abraça e da qual tanto gostamos não é uma instalação urbana unilateral. Se as moedas têm dois lados, a cidade tem muito mais. A Brasília dos cartões-postais nos orgulha a todos, mas não se pode afirmar que a beleza, a criatividade dos traços arquitetônicos e outra série de singularidades admiráveis da capital sejam aspectos predominantes. A descaracterização de tudo de bom que foi e vem sendo feito por aqui escapa, muitas vezes, pelos tentáculos do crescimento desordenado. <br>Gente como o leitor Verano é essencial para ajudar a manter a saúde da cidade. Ele deve ser daqueles como eu, que, quando vejo uma árvore em processo de poda, num primeiro momento, me deixo levar pela indignação e acho que é maldade de quem faz. Meus olhos fuzilam. Pelo amor de Dom Bosco, entendo que muitas árvores têm de ser derrubadas, ou por estarem com as raízes apodrecidas ou por terem contraído um tal besouro que bota nos troncos zilhões de ovos destrutivos, etc. Só estou me situando perante o leitor e a mim mesmo. <br>A cidade é o retrato de seus cidadãos. Mas muitos de nós não nos estamos bem-representados por eventos destoantes, como as placas pichadas que chamaram a atenção do leitor. “Toda vez que, mesmo diante do sinal de vida feito pelo pedestre, o motorista acelera e cruza a faixa, Brasília morre um pouco. Toda vez que percorro um novo bairro, criado sem a mínima infraestrutura, apenas para enriquecer quem já é milionário, o amor acaba”, disse o jornalista Carlos Marcelo Carvalho, no artigo “O amor acaba aos 50”, publicado na semana do cinquentenário da cidade. Carlos Marcelo, hoje editor-chefe do Estado de Minas, em Belo Horizonte, foi editor-executivo do Correio, morou em Brasília desde a adolescência anos e foi uma das vozes que cantaram a cidade com o melhor trato das letras.  <br>Brasília quer mostrar a cara e respirar, manter um ritmo de vida mais saudável, ser, enfim, uma cidade bem-cuidada. E todo mundo que quiser contribuir para a causa é bem-vindo pelo coração da cidade. <br> <br> <br> <br>   
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		<title><![CDATA[Saudosa camicase]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=97525</link>
		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 19:58:01 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		 <br><span style="font-style: italic;">Por Chico Neto</span><br style="font-style: italic;"><br style="font-style: italic;">Há datas que dispensam anotações no calendário; por alguma razão, são automaticamente gravadas na memória das pessoas. Quinta passada foi uma dessas marcas difíceis de esquecer: 30 anos sem Elis Regina. Natural. Ninguém cantou tão intensamente como ela, que, além de cantora, era intérprete capaz de conjugar talento e paixão com disciplina. Aos 36 anos, em 1982, Elis saiu de cena. Era 19 de janeiro, dia em que nascera Janis Joplin, morta em 1970, aos 27 — mesma idade que Amy Winehouse tinha quando se foi. E o que teria uma coisa a ver com as outras, além do aperitivo de conjugações numerológicas?  <br>Janis, cantora americana marcante nos anos 60 e contemporânea de uma geração que, de diferentes maneiras, tinha certeza de que iria mudar o mundo, morreu de overdose. Amy Winehouse, igualmente, construiu sua autodestruição nesse caminho. Em torno de Elis, a controvérsia sobre a causa mortis, supostamente farta mistura de cocaína com bebida alcoólica, rendeu capa espalhafatosa a uma revista. Com a imagem de Elis cantando, o fundo todo negro, lá veio a manchete: “A tragédia da cocaína”. Algo como se fosse o caso de uma traficante que eventualmente tivesse virado cantora. Coisa feia, não precisava. <br>Outra revista mandou melhor em sua capa: “Agora, eu sou uma estrela”. É que a polêmica era companhia frequente do que se especulava sobre a vida de Elis Regina — que, nada chegada ao baile cotidiano de máscaras, dizia o que pensava. E não costumava pensar só em si. Por várias vezes, nos tempos da ditadura, esteve em Brasília participando de reuniões sobre direitos autorais dos músicos, uma causa que abraçara com dedicação. Foi além, ajudando a divulgar a importância da anistia política, por meio da música O bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, que fazia menção ao exílio de Betinho, o “irmão do Henfil”. Pouco antes de morrer, Elis filiou-se ao PT. Em tempo: ao PT de 1981.  <br>“Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé” — eis uma das frases emblemáticas dos momentos em que a biografia de Elis Regina comparece, em pinceladas, à mídia. Não dá para não recorrer a ela: faz muito sentido, quando quem acompanhou pelo menos parte da carreira dessa intérprete intensa pensa em “ouvi-la” através de suas citações eternizadas. A pessoa inteira de Elis está imortalizada, como lembraram, quinta-feira última, matérias especiais no Correio, em outros jornais, na tevê, no rádio e na internet.  <br>Muita gente, por certo, se lembra da comoção que foi para todo o Brasil a morte de Elis Regina. O Brasil amanheceu órfão da voz que, naquele momento, era uma das melhores traduções da brasilidade. Fico imaginando que grande mesmo há de ter sido a dor dos mais chegados; e imensurável, o choque sofrido pelo filho mais velho da cantora, João Marcelo (do primeiro casamento, com Ronaldo Bôscoli, jornalista e produtor musical que já se foi). À época adolescente, foi ele quem teria encontrado Elis morta, no quarto dela. De lá até nossos dias, as luas passaram, cada um costurou seu rumo e todos vivem na música. Carlos Marcelo é produtor musical e César Camargo Mariano é músico, como o são Maria Rita e Pedro, seus filhos com Elis.  <br>Nem se pode dizer que foi intenso o rastro que Elis Regina deixou por aqui, em uma curta passagem de 36 anos. Intenso, ele é, no tempo presente. Sua obra não se resume à música de qualidade e ao registro de uma voz com a ela fazia o que quisesse. Também merece aplausos em qualquer tempo, na vida prática de Elis, seu engajamento na causa dos músicos. Foi das primeiras intérpretes a fazer questão de divulgar sua banda, investir nos artistas de seu instrumental. Sabia como era boa para todos essa interação. Trinta anos sem ela é marca para a gente comemorar, agradecendo pelo que essa mulher veio fazer pela história da cultura brasileira.  <br> <br> <br> <br> <br>   
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		</item>
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		<title><![CDATA[Luz no subterrâneo]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=97201</link>
		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 22:54:39 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<div><font face="Arial" size="2">Luz no subterrâneo </font></div> <div>&nbsp; <br><span style="font-style: italic;">Por Chico Neto</span> <br></div> <div><font face="Arial" size="2">Cidadania é uma espécie de estado de ser, estar e  interagir que apresenta, a todo momento, claros sinais de como funciona. É  quando nos sentimos, por exemplo, representados na cena social, ainda que não  estejamos nela. O dia em que um grupo de estudantes fez um mutirão de faxina na  passagem de pedestres que vaza os eixos da altura da 209 Norte foi um evento no  qual me senti plenamente representado, mesmo não tendo estado entre aquela gente  tão alto-astral. <br>O trabalho transcorreu de maneira organizada, eficaz o  suficiente para permitir espaço de manifestações artísticas paralelas. Eles  decoraram a passarela subterrânea com faixas, depois colocaram velas e, findo o  faxinão, ficaram por lá, com violões e cantoria durante um bom tempo. Policiais,  no início do movimento, circulavam curiosos pelo local. Foi fácil perceberem que  se tratava de intervenção urbana do bem. <br>A garotada que arregaçou as mangas  para dar um trato naquele singular espaço público — esse recurso para pedestres  atravessarem vias movimentadas não é comum em outras capitais — foi até lá de  peito aberto e sorrisos de satisfação. Aqueles jovens da faixa dos 20 e poucos  anos estavam ali para exercer algo importante como respirar: a cidadania. É o  apreço em forma de atitude.  <br>O faxinão na passarela subterrânea da 209 Norte  abrange uma esfera maior do que o mérito de amar Brasília em atitudes concretas.  Significa a vibração boa de uma geração que gosta de viver e age de forma gentil  — a civilidade é irmã da gentileza para consigo mesmo e para com o próximo. A  galera do mutirão fez bonito, e a cidade agradece.  <br>Brasília tem nessa turma  parte dos anjos da guarda que de algum jeito (ou de vários) vibram pelo  bem-estar da capital. São muitos. Um desses pode ser visto no alto, garboso,  acenando com um das mãos em monumento erigido com seu nome, ali pertinho do  Palácio do Buriti. Juscelino Kubitschek tinha essa energia poderosa. <br>Depois  de JK, que a gente pode considerar a preciosa pedra fundamental de Brasília,  felizmente a cidade não parou de receber pessoas que, seja ao longo de uma vida  inteira ou durante um tempo qualquer vivido aqui, demonstram interagir com a  capital. Possivelmente, anos antes de JK, outros seres marcaram presença no que  hoje é uma metrópole regional pega de surpresa pelo inchaço demográfico.  Brasília respira, dá amor e precisa que a amem. E é um alento encontrar essas  pessoas que, em seu dia a dia, exercem o amor pela cidade.  <br>Gente assim me  torna muito mais bem-representado do que fui, ao longo da vida, ora aqui ora  acolá, quando dei meu voto a algum candidato político que, ao assumir o cargo,  destoou em sua prática da teoria aplicada para convencer tanta gente a elegê-lo.  Essa má experiência faz parte, ensina a gente a ser mais cidadão. <br>&nbsp;De  cidadãos que tratem o próximo como gostam de ser tratados e que cuidem da cidade  como se fosse a casa deles, enfim, é que Brasília precisa para ser feliz. A  garotada que participou do faxinão na 209 Norte faz parte dessa turma, e merece  meu mais sincero aplauso. Quando crescer, quero ser um deles. Graças a Deus,  acredito que crescer não tem idade específica. É pra vida toda. </font></div>   
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		<title><![CDATA[Sensível concreto]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=97110</link>
		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 18:17:56 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<span style="font-style: italic;">Por Chico Neto <br></span>O fato de ter sido planejada não impede Brasília de surpreender seus moradores. Pelo menos de vez em quando. Noite dessas, na primeira semana do ano, foi a vez de ficarem surpresos dois amigos paulistas, um domiciliado aqui há mais de uma década e outro no garimpo de conexões para vir morar na capital. Era Dia de Reis, uma sexta-feira, 6 de janeiro, data em que se apagaram as luzes do presépio de Brasília, muito visitado no ano que passou. Mas aquela sexta-feira também tinha outra atração legal no calendário da cidade: um belo espetáculo pirotécnico de despedida da temporada luminosa de fim de ano, no Conjunto Cultural da Caixa. E foi para lá que lá rumaram meus amigos.  <br>Os dois se divertiram feito crianças na Escola de Ajudantes do Papai Noel. Pelas fotos, percebi que eram os mais velhos do recinto — logo eles, um que se aproxima dos 30 anos e outro um pouco à frente dos 40. Mas ali ninguém tinha idade: ambos interagiram na maior desenvoltura com o público infanto-juvenil que foi prestigiar o último dia da escolinha. Democrático, esse inédito aprendizado — o de auxiliar o barbudão do bem a distribuir os presentes — contempla alunos de todas as faixas etárias. E meus amigos, após percorrer as seis etapas do último dia de “aula” da escolinha, saíram de lá zerados de adultescências. Mas o melhor viria depois: o espetáculo dos fogos de artifício, no mesmo local.  <br>Atento, um de meus amigos filmou tudo com o celular. Tivesse visto aquelas imagens sem identificação, eu poderia jurar que se tratava de um centro internacional de diversões sofisticadas. Foi um inesquecível show de luzes e de música, com movimentos que riscavam de colorido o prédio e o céu da noite do Dia de Reis. Tudo de graça, ao ar livre. “Que pena ter perdido isso”, pensei. Mas valeu ter visto, em primeira mão, as imagens captadas com precisão pela vista sensível de meu amigo. Parecia uma festa realizada em uma incubadora de cometas, tamanha a beleza da profusão e luzes e cores. <br>“Feliz esse público que está assistindo algo tão grandioso”, começava eu a imaginar, quando a voz de um de meus amigos surgiu na gravação: “Só tem duas pessoas na plateia”. Como assim, criatura? Pois era fato, me asseguraram. Tamanho espetáculo foi presenciado in loco, se não apenas pela animada dupla, por gente pouco numerosa que deve ter se escondido das atentas vistas deles. Mas isso pouco importa. Valeu foi o presente que a produção desse evento deixou para a cidade no início de um ano que, segundo expectativas de diferentes fontes de análise, estudo ou orientação filosófica, pode ser o último da Terra.  <br>Por si só, o Conjunto Cultural da Caixa já é um regalo para os olhos, bem como um alento para o ser-estar do brasiliense. Diversificado, em linhas enxutas e de bom gosto, o prédio nos recebe em uma espécie de varanda-terraço onde um café convida a algum trago — um aperitivo ao que aquele espaço oferece de bom. Com os fogos da noite do Dia de Reis, o edifício fez saudável reverência ao ano-novo da cidade. O prédio inteirinho tornou-se, naquele momento, mais humano que nunca.  <br>Meus privilegiados amigos paulistas assistiram a uma quase metamorfose: uma grande estrutura de concreto demonstrou linguagem própria e integrou-se ao que a intervenção humana pôde apresentar de mais criativo. E ainda tem gente que destila desdém ao referir-se a Brasília como “cidade de concreto”. Cinquenta e dois anos depois, a alma do que permeou a arquitetura da capital — tanto Niemeyer quanto Lucio Costa, até onde me é dado saber, conceberam obras com vida própria — diz presente. E isso soa feito música em meio ao rugido da especulação, cada vez mais destruidora. <br> <br> <br>&nbsp;<span style="font-style: italic;"> <br> <br></span>   
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		</item>
		<item>
		<title><![CDATA[Do livre falar]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96829</link>
		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 18:21:15 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		Por <span style="font-style: italic;">Chico Neto <br> <br></span><div><font face="Arial" size="2">Uma das peculiaridades de Brasília é a facilidade  com que qualquer pessoa instala, em local a seu gosto, uma faixa ou placa de  tamanho a escolher sobre o tema que lhe dê na veneta. No trajeto eventual de  quem caminha pelas ruas do Plano Piloto, é comum encontrar essa interferência  instituída. São frequentes desde coisas como “Vendo apartamento nesta quadra  urgente” a “Reformo seu sofá”, passando por “Eletricista fogão encanador” e  outros bordões comerciais.  <br>No Setor Gráfico, brotam essas faixas, mas com  recados dirigidos: cursinhos preparatórios para concursos, vagas de garagem,  salas e apartamentos no Sudoeste e no Noroeste, principalmente. O mesmo se pode  ver em outras áreas residenciais e comerciais, tanto no Plano Piloto quanto nas  cidades que compõem o Distrito Federal.  <br>Isso aí, e não estamos falando em  questão subjetiva, é propaganda ilegal que ajuda a poluir a cidade. Já vi gente  parar o carro na minha frente, à noite, e, na entrada da quadra onde moro,  cortar com a tesoura uma dessas faixas. Aplaudi o cara por dentro, que também  não sou de abrir o janelão do carro tarde da noite pra bater palma, ainda que  seja a Tina Turner cantando Break every rule na porta do meu trabalho. Acho que  ele agiu como cidadão. <br>Se é assim tão desregrada no dia a dia, Brasília, em  eventos de grande mobilização pública, fica apinhada de faixas e cartazes  protestando por isso e por aquilo. Nesses dias específicos, mensagens de  reivindicação acompanhadas por vários símbolos de agremiações trabalhistas ou  políticas tomam conta do visual do Eixo Monumental. Vistas de cima, essas  manifestações costumam proporcionar curiosos espetáculos visuais para quem  sobrevoa a cidade na parte em que ela ainda se parece com um avião.&nbsp;  <br>Há  ainda aquelas faixas com intervenções da esfera pessoal. Essas, embora a lei  possa considerar do mesmo rol da propaganda irregular, até são toleráveis com  prazo de vencimento. Nesse caso, lembremos, são mensagens elaboradas em um  circuito estritamente pessoal —&nbsp; e, se em nível de esfera pública não interessa  nada do plano pessoal, pelo menos quem gasta dinheiro confeccionando uma  mensagem dirigida a alguém não está sugerindo a ninguém que compre nada.  <br>Ou  você acha que não merece desconto gente que, por amor, dispara, em quadras  residenciais, faixas com mensagens como “Laurineyde, parabéns pelo vestibular”;  “Que bom que você voltou, Dudu. Papai e mamãe estavam com saudades”; “Procura-se  uma yorkshire creme de nome Melissinha”; ou, simplesmente, “Eu te amo”, como já  vi em alguns postes que dão a volta ao Parque da Cidade?  <br>Brasília, a cidade  planejada que não escapou do furacão criado pelo fluxo ocupacional humano, tem,  entre suas singularidades, a da cultura da manifestação aberta. De vez em  quando, tal abertura ensaia e pratica uma escorregadinha vARbrw ladina para o  oportunismo, no caso da propaganda poluente de área pública (seja irregular ou  legalizada, pois cochilos acontecem). Estamos de olho. Já em outro momento, a  relativa permissividade encontrada por quem quer se manifestar mostra a  tendência de compartilhar informação num universo social. E isso, moçada, ocorre  em Brasília bem antes de a internet estender sua confortável rede. </font></div> <br>   
		]]>
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		</item>
		<item>
		<title><![CDATA[Brasília das folhagens]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96706</link>
		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 21:19:51 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<span style="font-style: italic;">Por Chico Neto <br>Seja pelo calendário gregoriano, utilizado na maioria do planeta, ou por outra leitura sobre a idade da civilização ou a contagem do tempo, todo ano-novo traz aperitivos. De uma hora para outra, vibramos&nbsp; por boas mudanças, novas realizações. O melhor é quando nos percebemos alimentados pelo combustível das razões que temos para agradecer à vida. Este 2012 me traz vontade de comemorar outra data que merece festa, o Ano-Novo das Árvores. É como se chama, em português, Tu Bishvat, um belo festejo original da cultura judaica.  <br>Como o calendário judaico é lunar e também conta o transcorrer dos dias de maneira diferente do mundo gregoriano, a cada ano Tu Bishvat ocorre em um dia da escala ocidental de medir o tempo. Este ano, que para os judeus é o de 5772, o Ano-Novo das Árvores cai em 8 de fevereiro — para eles, 15 de Shvat. Não é a data que importa. O que chama atenção nessa data judaica é sua universalidade. Vai dizer que árabes, irlandeses, argentinos, aborígenes ou russos não têm por que comemorar a existência das árvores?  <br>Acostumados que estamos à seca anual, que se despediu há mais de dois meses, agora vivemos um dos períodos em que as árvores e o contingente habitacional verde de Brasília estão em um de seus momentos de esplendor. No fim da Asa Sul, a maioria das pequenas transversais da W3 que levam às quadras 700 e 900 viraram alamedas com copas entrelaçadas. É um festival de vida e beleza, ao ar livre, para o cidadão.  <br>Em Israel, onde o costume em Tu Bishvat é plantar árvores nos bosques e saborear frutas e frutos típicos — uvas, figos, romãs, tâmaras, azeitonas —, recita-se uma prece de agradecimento antes de comer a dádiva que cresce na árvore. Em qualquer canto do mundo, esse bem que poderia ser um gesto de cada um de nós: uma menção de respeito ao universo das raízes, troncos e folhas. Com frutas ou flores ou mesmo puramente cobertas de verde, as árvores de Brasília fazem diferença na qualidade de vida do cidadão. As da W3 Sul formam um belo corredor verde (que vai desaparecer com o VLT), também presente em boa parte da W3 Norte, bem como nos eixinhos, nas W2 e nas W4. As do Parque da Cidade, diversificadas, são outro show. Aqui e acolá, sinalizam de verde o dia a dia brasiliense.  <br>Pra 2012, na verdade com foco em muito mais tempo, aproveito os primeiros dias do ano, quando o verão se espreguiça sobre a cidade bem regada com a amenização do período seco, e confraternizo com as árvores. Elas são tão “gente”, no sentido de centelha boa de alma, quanto qualquer um de nós. Ou, quem sabe, mais um pouco. <br>&nbsp; <br> <br></span>   
		]]>
		</description>
		</item>
		<item>
		<title><![CDATA[Instrumentos do divino]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96612</link>
		<pubDate>Fri, 06 Jan 2012 21:51:14 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		Por Chico Neto <br> <br>Todas as vezes em que alguma circunstância me instiga o instinto reclamão, algum anjo da guarda me abre os olhos e mostra, de maneira bastante clara, que tenho muito mais motivos para agradecer. É a esse anjo, instrumentalizado sob inúmeras formas, que devo agradecer pelo zelo em manter meu empenho em ser uma pessoa menos mesquinha. Agradeço principalmente pela frequência maior desse sopro divino em meu caminho, pois, ultimamente, ele tem vindo nos mais diferentes momentos.  <br>Ontem à tarde, no caminho para o trabalho, um desses anjos deu sinal e inundou de luz meu dia inteiro. Após alguns minutos à espera de uma brecha para contornar o balão próximo à Legião da Boa Vontade e tomar a pista que leva ao Sudoeste e ao Setor Gráfico, consegui entrar no fluxo e, logo adiante, parei na fila de um semáforo. Quando o sinal abriu, o carro que estava na minha frente ligou as luzes de advertência. Em um dia comum, talvez eu ficasse irritado com o imprevisto. Mas não deu tempo, o anjo da guarda agiu mais rápido.  <br>O motorista saiu do carro, fez sinal com a mão pedindo um tempo, abriu o porta-malas, tirou de lá um par de muletas e entregou a um homem que há mais de 10 anos pede esmolas naquele semáforo. É Ivanildo, um alagoano de cerca de 40 anos, deficiente físico desde uma paralisia que sofreu na infância e dono de um coração todo feito de bondade. Personagem conhecido naquela região, ele se locomove em uma prancha com rodinhas, o que chama a atenção de todo mundo que passa por ali.  <br>Mas sua lição de superar dificuldades vai além dessa solução criativa: com o pouco que tem, Ivanildo dedica-se a ajudar quem tem menos ainda. No ano passado, arrecadou doações no Dia das Crianças para distribuir aos pequenos e numerosos carentes da comunidade onde vive, em Céu Azul, distante 45km do Plano Piloto. E as muletas que ganhou ontem, certamente, não são para ele, que não tem firmeza nem consistência nas pernas para usá-las: Ivanildo, com certeza, recolheu o donativo para encaminhar a quem dele poderá se valer.  <br>Fiquei de cara. Meu coração vagabundo agradeceu profundamente ao doador das muletas e a Ivanildo, que a elas dará o destino mais acertado. Hoje, Dia de Reis, é mais do que apropriado para destacar a majestade dos gestos do motorista anônimo e de Ivanildo. Não tenho dúvida de que ambos são instrumentos do divino para ajudar o Universo a prosseguir jornada. A existência de gente assim, por si só, representa um inequívoco sinal de que o mundo tem jeito. Nem Ivanildo nem o dono do Renault Clio que parou à minha frente têm ideia do quanto fizeram meu dia feliz. E a saúde do Universo agradece. <br> <br>   
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		<title><![CDATA[E se tivesse sido eu?]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96611</link>
		<pubDate>Fri, 06 Jan 2012 21:47:11 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		Por Chico Neto <br> <br>Desde o primeiro dia do&nbsp; ano, não se fala em outra coisa: quem será o sortudo de Brasília que dividirá o prêmio da Mega-Sena com quatro ganhadores de outros estados? Mais de R$ 35 milhões vão para a conta dessa pessoa que acertou o jogo da virada do ano. As especulações pipocam. E, enquanto se tenta localizar o ganhador ou ganhadora, aproveito para divagar: e se tivesse sido eu o acertador? <br>De coração, logo declaro: largar o trabalho não faz parte dos meus planos, pelo menos em médio (tendendo a longo) prazo. Claro que a possibilidade de ter tanto dinheiro em minha conta me faz sonhar com um tanto de realizações. Mas sonhar sempre fez parte de meu cardápio cotidiano, tanto durante o sono quanto de olhos bem abertos. Sou da turma dos que acreditam no imponderável, desconsideram a obrigação “inquestionável” de ser pé no chão 24 horas, aprendem no dia a dia a respeitar que ideias mudam, ainda que tentemos firmar algumas delas como nossa marca registrada.  <br>Daí que, mesmo apaixonado pela possibilidade do dolce far niente muito bem-remunerado, não consigo me imaginar descompromissado do exercício profissional para o resto da vida, nem diante do fato de já ter vivido mais de 50 anos e estar habilitado para, daqui a algum tempo, pensar em aposentadoria. Assim sendo, posso assegurar que, tivesse sido eu o ganhador da Mega-Sena da Virada, mudaria, sim, várias situações em minha vida — mas jogar o trabalho para o alto assim tão facilmente, não.  <br>Por mais de uma vez cheguei a pensar que deveria ter me esfolado de estudar para ser aprovado em um desses concursos capazes de garantir tranquilidade financeira até o último de meus dias. Em todas essas idealizações, ao refletir com maior profundidade sobre o assunto, sempre concluo: o trabalho demandado pela profissão que escolhi faz parte do conjunto de situações que me tornam um homem feliz. Em outras palavras, a cifra do salário que eu poderia receber se aprovado em um concurso público desses tão cobiçados seria sempre menor do que o prazer de fazer o que faço a partir de minha vocação. <br>Continuo a achar simpática a possibilidade de um dia ganhar em jogo lotérico, como a maioria dos mortais comuns. Não sou daqueles para quem “dinheiro não traz felicidade”, pois, se a grana não traz, o imposto de renda bem que sabe levar. Sonho com um futuro tranquilo? Sim, por certo. Mas, na prática, sou uma espécie de míope: me ocupo mais é de enxergar o presente.  <br>E é com os pés firmes, aí sim, nesse tempo do indicativo, que garanto: não tem preço, nada paga a felicidade do aqui e agora. Me interessa mais exercer meus defeitos e qualidades no presente do que me programar para ser melhor em um futuro qualquer. O desafio de ser melhor do que tenho sido, enfim, é minha companhia preferida nos dias de hoje. Dá trabalho? Bastante. Mas a aposentaria do trabalho interior, do garimpo de mim mesmo no tanto que tenho a me superar, não me seduz.&nbsp; Para o ano ser feliz, ganhar na Mega-Sena, é claro, ajudaria. Mas fundamental é a gente não se perder do tesouro maior que nos foi confiado, quem sabe aquele que nasce com cada um de nós e que merece nossos melhores cuidados todos os dias.  <br> <br>   
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		<title><![CDATA[Até a volta ]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96407</link>
		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 20:25:02 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Saio de férias por 30 sagrados dias. Sérgio Maggio, Severino Francisco e Chico Neto vão se revezar na Crônica da Cidade. <br> <br><font size="5"> <br></font></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96351</link>
		<pubDate>Sun, 01 Jan 2012 01:59:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 273px; height: 383px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/2d5b952e867043185664639b31c8c534.jpg">  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Paul Klee</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Minha gratidão</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Sou leitora atenta dos textos de agradecimentos nos livros. Quando maior a lista de pessoas a quem o autor agradece, mais aguçado fica o meu desejo de ler o livro. Um dos textos do gênero que mais me impressionaram nas leituras de 2011 foi o de Benjamim Moser na introdução da melancólica biografia de Clarice Lispector. O biógrafo da mais consagrada escritora brasileira destina quase duas páginas (salvo engano, não estou com o livro aqui) a manifestar sua gratidão a todos os que o ajudaram a reconstituir a história da vida de tão bela, intensa e intrincada personagem e aos que deram palpites no texto e na edição.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Os textos de agradecimento dos livros me ensinam — coisa que preciso aprender — que ninguém faz nada sozinho. Que a solidão é egoísta, imperfeita e incompleta. Não falo da solidão criadora, do gosto de saborear a si mesmo como companhia — e nem esta solidão é inteiramente sozinha. Como diz o meu amigo Rosualdo Rodrigues, ninguém existe sem o outro. O outro confirma a existência do um. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Daí que quero começar 2012 agradecendo aos leitores. Parece demagogia barata, mas — creiam — não é. Nesses dez anos de pé de página a vontade de agradecer a quem me acompanha nesses 180 cm² de letrinhas diárias nunca chegou aos dedos desse modo tão impositivo. Claro que é alentador receber e-mails e telefonemas de quem compartilha comigo dúvidas, constatações, encantos e desencantos, buscas e encontros. E, mesmo quando o e-mail é desconfortável, quando supero o instante de rejeição e antipatia, os argumentos do leitor ressoam no meu ouvido me perguntando, afinal, se ele tem razão. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Entre os pardais implacáveis que cruzam meu caminho, há um leitor das crônicas no blog, que se identifica como Zé Mané, que se dedica a me espinafrar do pé à cabeça com razóavel frequência. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Tenho certa dificuldade — confesso — em ler o que ele me escreve. Costumo ir até a primeira frase, sempre ofensiva, e deleto o comentário. Entre os meus projetos para 2012 está o de ler o Zé Mané até o a última linha. Pra ficar mais forte, pra aceitar o contraditório, pra aprender a conviver com o inimigo. Até aprender a rir de seu admirável e leal ódio a mim. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>A estrada que leva quem escreve a quem lê é uma via esburacada, cheia de mal-entendidos, cortada por crenças, preconceitos, humores e idiossincrasias mil. Ainda assim, essa via tem me levado a compartilhar instantes os mais preciosos.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Quando ficar velhinha, terei muito o que lembrar. Obrigada.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96321</link>
		<pubDate>Sat, 31 Dec 2011 13:11:50 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/749b53b11ce38cec127c418c7f124a0b.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> Leonilson</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Só o essencial</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Nunca fui de querer muito, nunca sonhei em ficar rica, não fiz planos para a vida adulta, nem mesmo pensei muito sobre a profissão que queria ter. O que de bom e de ruim me aconteceu devo, em grande parte, ao acaso, e talvez a uma certa intuição que me guiou sem que eu disso tivesse consciência. Com a maturidade, os objetos flutuantes do meu viver se aquietaram em seus lugares certos e com suas mudanças incertas. Deixo-os ir, aceito que fiquem, danço a música que sai do silêncio misterioso que conduz nossas vidas.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Nunca gostei muito de viajar. Um certo medo de perder o chão, de me desorientar em geografia desconhecida.Uma matutice. Até que, sem que tivesse planejado, passei uma semana em Barcelona com meu filho. Foi a mais plena felicidade que já me coube sentir.&nbsp; No voo de volta, falei no ouvido dos céu: Já posso morrer. Aos olhos dos que muito viajam, minha alegria foi uma tolice. Foi não. Posso comparar a experiência com o gosto do primeiro sorvete com casquinha de chocolate ou com a raspadinha de groselha na hora do recreio. Só que com o sabor elevado à potência infinita.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Prefiro aproveitar os horizontes que se abrem ao acaso que os projetos de longo prazo, o que não me assegura experiências reveladoras nem encontros rotineiros com o essencial da vida. Porém, já deu pra perceber que, pelo menos comigo, não dá pra agendar a vida de acordo com o calendário gregoriano. Por certo, devo ter perdido muito nesse caminhar ao léu, mas sei que percorri estradas surpreendentes que talvez não tivesse percorrido caso tivesse focada, para usar uma terminologia da moda, num específico projeto de vida.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Não era esse o tema da crônica. Era, como diz o título, sobre o que é essencial para a vida e, por extensão, para a vida em 2012. Como vive repetindo meu guru Severino Francisco, é me concentrar no que é essencial e essa lista não ocupa todos os dedos da mão. Essencial é cultivar a saúde, a família, os amigos, lavrar as palavras, apurar os sentidos, conversar com as estrelas, rir do que é de rir, chorar do que for de chorar. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Essencial é ter a consciência de que, se estou aqui neste instante (são três horas e cinquenta e cinco minutos da tarde do penúltimo dia de 2011), se estou aqui, em mais este instante, é porque se fez um milagre. O de continuar viva na tormentosa vida urbana, nas ameaças visíveis e invisíveis que cruzam nosso caminho, na escuridão das incertezas. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Não sei quem é Deus, mas ele me concedeu os sentidos para apreciar o milagre da vida. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96226</link>
		<pubDate>Thu, 29 Dec 2011 10:44:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 312px; height: 385px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4aa8b1e208d52b4407a3d29c72ead32a.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Renoir</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A goianinha e os romances</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Uma goianinha de Campinaçu está passando uns dias na Ceilândia. Veio visitar parentes e trouxe consigo a paixão pelos livros. Anikele, 17 anos, preenche os espaços vazios do dia lendo romances. Histórias como O sonho escocês, Romance proibido, Um presente de Natal, Admirador secreto retiram a garota da opacidade cotidiana e a conduzem ao reino encantado das grandes paixões. Anikele não sabe quantos títulos já leu nem guarda nome do autor. Também não tem um de sua preferência. Lê romances populares que estão ao alcance da roça onde mora.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O gosto pela leitura surgiu de uma atração casual. Anikele quis conhecer os segredos guardados dentro dos livros empilhados na prateleira da escola rural, à qual chamavam de biblioteca. Leu o primeiro, o segundo, o terceiro e, passados mais de cinco anos, já deve ter ultrapassado a marca dos cem títulos lidos, ela não sabe ao certo. Foram tantos que ela ganhou uma toalha de banho da escola como prêmio por ter sido a aluna que mais livros retirou da prateleira — aquela à qual dão o nome de biblioteca.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Anikele lê nas duas horas em que passa dentro do ônibus para ir à escola e dela voltar, lê no intervalo entre as aulas, lê nas propragandas entre as novelas, lê depois do almoço, lê andando, lê sentada, lê deitada, lê com sol, lê com chuva, lê de dia e lê de noite. Desde que veio para Brasília já leu um romance de 400 páginas — devoradas em quatro dias. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Anikele sonha em conhecer uma biblioteca de verdade — a única que conhece é a prateleira "igual à de farmácia". Não tem acesso a computador nem tem celular. A única tecnologia de informação de que dispõe é a tevê. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Quando não está dentro dos livros, Anikele imagina o que quer da vida. Pensa em ser dentista e psicóloga. Dia desses, viu um desenho um casal abraçado e se encantou com a possibilidade de se representar o amor com lápis e papel. Acrescentou à lista de desejos o de ser desenhista. A goianinha dos livros nunca namorou de verdade. Por enquanto, vive intensamente a paixão dos romances populares de autores pouco conhecidos no meio literário.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Anikele antecipa um dilema: tem muito medo da violência da cidade grande, mas sabe que se quiser construir um futuro profissional e frequentar bibliotecas de verdade terá de deixar a roça onde nasceu e se mudar para Brasília. "Aqui não é muito ruim", ela diz, querendo se acostumar com a ideia de trocar a vida vagarosa e os livros já lidos pela vida apressada e cheia de novos títulos.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=96203</link>
		<pubDate>Wed, 28 Dec 2011 14:03:15 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">Para Kelly</font> <br> <br> <br><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas </span> <br> <br>Até semana passada, só nos conhecíamos de vista, mas desde a morte do seu pai passei a te conhecer muito mais. Não pelo que você é, pelo que viveu e desejou, pelo que gosta ou desgosta, pelo que é e quer ser. Disso tudo sei muito pouco. O que sei de você é o que você está vivendo agora.  <br> <br>Quando tinha 15 anos, perdi meu pai com a rapidez trágica de um instante. Com a mais implacável urgência, passei de filha mais velha a chefe de família. Parecia um fardo, mas foi de onde tirei forças para tocar a vida sem a vitalidade motora de meu pai. <br> <br>Fixe os olhos no seu pai. Ele não era apenas uma existência corpórea. Tanto não era que ele está em você. Diz a ciência que o corpo humano tem a substância que compõe a poeira cósmica. Disso não sei, mas já deu pra perceber que eu não sou uma unidade que começa e termina em mim. Somos a soma de todos os que viveram antes de nós, daqueles de quem herdamos o gene, dos que não herdamos e do mais remoto exemplar de homo sapiens que habitou esta Terra de meu Deus. <br> <br>Mas não é só a genética que nos aproxima, você, eu e o homem das cavernas. É o amor que recebemos, a convivência que compartilhamos, o colo que nos acolheu, a voz que nos serenou, o olhar que nos protegeu. Por certo, você tem em si mesma mais de seu pai do que você é capaz de identificar. Com o tempo você vai perceber o quanto dele há em você. Nos gestos, nos valores, nas escolhas, no paladar, no modo de se sentar à mesa, de levar o corpo de cerveja à boca, de rir, de andar… O seu viver será, a partir de agora, o viver de seu pai. Será em você, nos seus irmãos, na sua mãe e em todos aqueles que conviveram com o Bosco que ele renascerá dia após dia até o último dia do último de nós. <br> <br>Assim é porque assim somos, os humanos. Como num eterno jogo de passa-mão, vamos transferindo de uns para outros a poeira cósmica que coube a cada um de nós. Não somos uma unidade, somos a estranha, rica, indecifrável e infinita soma de todos quantos já viveram, vivem e viverão.  <br> <br>A psicologia moderna condena o "não vivo sem você" por acreditar que o sentimento expressa dependência emocional de alguém a outro alguém. "Não vivo sem você" é lindo, Kelly. Não vivo sem o que você me ensinou, não vivo sem o amor que você me dedicou, não vivo sem o Norte que você me apontou, não vivo sem a lembrança de tudo o que compartilhamos juntos, não vivo sem habitar o sentimento de proteção infinita que sentia só de saber que você existia. Existia e continua a existir, agora sem a representação física, sem a paisagem sublime de sua presença.  <br> <br>Tenha paciência com sua dor que aos poucos ela vai se diluir e essa fluidez vai se solidificar numa Kelly muito mais Bosco do que ela jamais imaginou que pudesse ser. Dois em uma.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[Aviso]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95876</link>
		<pubDate>Tue, 20 Dec 2011 03:00:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Este blog estará de férias até 28 de dezembro de 2011.</span> <br>  
		]]>
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		</item>
		<item>
		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95857</link>
		<pubDate>Tue, 20 Dec 2011 02:01:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/f4e1bccfefa616b84f3c1a4a25989e0c.jpg">  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Stroget, Copenhague</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Presente de leitor</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">  <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Nesses tantos anos, os leitores vivem me ensinando, mais que qualquer outra coisa, a difícil arte da humildade. Para um jornalista, não é fácil. Fomos criados para ser donos da verdade — e de certo modo, antes da invenção da internet, éramos os eminentes proprietários da última palavra. Foi um avanço e tanto.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>A lição deste fim de ano veio embalada em papel de presente. É um livro, Cities for people, de Jan Gehl. Não conhecia nem a obra nem seu autor. Lamentável para quem se dedica a, de algum modo, entender a cidade onde vive e compartilhar com os leitores esse aprendizado e as dúvidas que o acompanham.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>O autor de Cities for people é um urbanista dinamarquês, dono de um escritório, o Ghel Architects, que se dedica a pensar em como melhorar as cidades para as pessoas que nelas vivem. A escala de Jan Gehl é inteiramente humana, do tamanho do corpo e das necessidades do homem. As cidades têm de ser planejadas e replanejadas para a convivência humana — parece óbvio, mas não foi essa a preocupação predominante do urbanismo moderno.&nbsp;&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Jan Gehl começou a ficar conhecido quando lançou L<span style="font-style: italic;">ife between buildings</span> (A vida entre prédios). O livro narra, discute e acompanha a história de uma importante via de Copenhague, a Stroget. Até o início dos anos 1940, a avenida vivia cheia de pedestres, mas, com a hegemonia dos carros sobre os habitantes, tendência urbana dos anos 1950, as pessoas desapareceram da Stroget. </span>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Na década de 1960, o governo da cidade anunciou o fechamento da via para o trânsito de veículos. Foi um auê, especialmente na grande imprensa. Argumentavam que o clima da Dinamarca não estimulava as pessoas a flanar pelas ruas. Um ano depois de o calçadão de pedestres ter sido criado, ficou provado que o dinamarquês gosta de circular a pé pela cidade, basta que haja lugar para tanto. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>A partir do estudo de caso, Jan Gehl passou a se dedicar a projetos baseados na experiência da Stroget — que resultou, por exemplo, no aumento de usuários de bicicleta e foi o começo de uma vocação que transformou Copenhague numa das cidade com maior número de ciclistas no planeta. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Em resumo, o dinamarquês propõe misturar ciclistas e motoristas em ruas de trânsito compartilhado e, em vez de construir mais vias, abrir mais ciclovias. Em vez de planejar bairros distantes, reocupar o centro velho das cidades. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Lições que valem para cidades de todo mundo, especialmente para Brasília, a capital de inspiração rodoviária. Ao leitor, minha gratidão. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br><span style="font-style: italic;">P.S. Saio de recesso natalino. Volto dia 28. Sergio Maggio, Cristine Gentil, Gustavo Torres e Carlos Tavares se revezarão neste pé de página. Que o Natal nos inspire a continuar renascendo todos os dias do ano.&nbsp; </span></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95740</link>
		<pubDate>Fri, 16 Dec 2011 15:51:30 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/652c2869dcabd1363911aef53109ffea.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;&nbsp;</span><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="2"> Dona Ana e o neto</font> <br></div> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6"> <br>Como poderei viver...</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-style: italic;"> <br> <br>Na Rua do Mato, estradinha bucólica que desce da DF-150 e se enrosca aos pés dos não mais de mil moradores, vive uma mulher que amassou e moldou 2,5 mil tijolos de adobe para construir a casa onde morou por quase meio século. Dona Ana tem a pele clarinha, o rosto afilado, tem cabelos que descem até a cintura e uma memória que percorre as muitas eras que viveu em seus 76 anos.  <br> <br>Desde que se deu por gente, a menina Ana foi juntando na memória os acontecidos. Lembra-se do areião que a família teve de atravessar, a pé e a cavalo, para fugir da miséria de Irecê, na Bahia, e alcançar alguma esperança de prosperidade no Centro-Oeste. Lembra-se dos sete cavalos, das cangalhas e das broacas que ajudaram os oito meninos, o pai e a mãe grávida na penosa viagem sobre o chão arenoso onde as gentes e os animais atolavam pés e patas, como se a Terra os quisesse engolir.  <br> <br>Sentada no sofá da sala, na casinha simpática, colorida e florida da Rua do Mato, dona Ana vai puxando as palavras do fio da memória sem saudade nem lamento, apenas como quem conta uma história. A seu lado, um menino moreno, de olhos adocicados e sorriso suave, ouve a prosa de dona Ana, desligado do resto do mundo. Lá fora, os outros garotos continuam a fazer o que estavam fazendo quando o carro do jornal chegou. Só o menino moreno, adocicado e suave se interessou pelas histórias da avó. <br> <br>A família de dona Ana tinha destino mais distante, o Mato Grosso. Mas precisou parar em Planaltina para que a mãe das oito crianças desse à luz ao filho de número nove. Corria o ano de 1946. Em pouco tempo, o pai conseguiu juntar algum dinheiro, plantando, colhendo e vendendo — à meia. Dois anos depois, pôde comprar uma terra num pé de serra perto d'água, no Vão do Buraco, que faz parte da Rua do Mato.  <br> <br>As garotas da família foram se casando com os garotos da outra família que vivia no mesmo pé de serra. "A gente bota o chapéu onde alcança o braço", diz dona Ana, emendando uma história na outra e na outra, sob o olhar atento do neto. "Esse aí não me larga", ela diz, quando observo que o menino está ligado no que diz a avó. <br> <br>Saímos para fazer a foto na casa que dona Ana construiu com os adobes que ela mesma fabricou. É um monumento da arquitetura vernacular do Brasil colonial. Casinha miúda, de duas águas, paredes que terminam bem antes do telhado, caibros aparentes, cozinha um degrau abaixo, córrego ao fundo, chão de imaculado cimento vermelho e paredes de impecável azul-xadrez.  <br> <br>Ao final da conversa, dona Ana conta que, numa das novenas de Nossa Conceição da Conceição, quando o padre começou a cantar "como pode um peixe vivo viver fora d'água fria…", ela apontou para o neto e completou: "Como poderei viver, como poderei viver, sem a sua, sem a sua, sem a sua companhia".  <br> <br>E novamente se pergunta cantarolando e apontando para o garoto: "Como poderei viver…?" O neto responde com um sorriso de água doce.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95552</link>
		<pubDate>Tue, 13 Dec 2011 12:38:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;   <br>  <br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; <img style="width: 410px; height: 387px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/98f52547d5a6ff5f99de4651c186d7e7.jpg">  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> Escher</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Enganada, de novo</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Não há dia em que eu não me sinta enganada por alguém, por alguma crença que se revelou ilusão e por mim mesma que, mais mais vez, por tanto querer acreditar, caí na esparrela. Os enganos ocorrem nas mais variadas instâncias, desde as mais cotidianas até as de dimensão macroscópica. Mais recentemente, descobri que não adianta mais usar um velho truque meu que consiste em mostrar à pessoa que eu estou sendo absolutamente verdadeira e honesta com ela, para, desse modo, constrangê-la a não ser falsa e desonesta comigo.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Bem ingênuo esse truque, não? Mas continuo acreditando nele, como um modo de crer que tenho poderes para mudar uma pessoa. (Bem onipotente essa minha crença.) </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Vivo sendo enganada pela carinha boa das pessoas, pelas promessas que me fazem, pelos olhos fundos com que capturam minha fé. Sou facilmente enganada por um sorriso e por acreditar que sei distinguir um riso falso de um verdadeiro. Dentes branquinhos alinhados em expressões infantis dissolvem minhas resistências.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Faz muitos anos, uma mulher com forte sotaque goiano, acompanhada de um menino de 6,7 anos, de um bebê de colo, de uma sombrinha e de uma bolsa me parou na saída de um restaurante numa comercial da Asa Sul. A imagem daquela senhorinha de aspecto frágil, vestida à moda interiorana, com duas crianças à tiracolo e sob o sol indiferente de agosto, demoveu todas as minhas defesas.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Parei para ouvir a história que a mulher contava com um sotaque fortemente goiano. Ela relatou uma sucessão de infortúnios — desemprego, doenças, aluguel atrasado — e me pediu dinheiro para o ônibus até a Rodoviária. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Levei os três até o centro da cidade, dei-lhes R$ 50 e, depois que eles desceram no carro, caí no choro. Era minha impotência em estado de desespero. Contei essa história numa crônica e recebi, nos dias que se sucederam, uma série de e-mails e telefonemas de mulheres que haviam caído no mesmo golpe, muito provavelmente aplicado pela mesma mulher. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Não me ofende ter sido enganada por aquela mulher. Era uma atriz mambembe tentando ganhar uns trocados com os recursos de que dispõe. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Houve enganos muito piores, como, por exemplo, o de eu ter acreditado que a privatização das estatais brasileiras era um modo de ser avançado, que a presença do Estado na economia era um atraso, como professou tão febrilmente o neoliberalismo. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Meu título de eleitor, então, coitado, foi muito mais enganado do que eu. Diria até agora ele mais se enganou do que acertou, desde que votei, pela primeira vez, e ajudei a eleger Iris Rezende para o governo de Goiás, na primeira eleição do período democrático pós-64.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Continuei, continuo e continuarei sendo enganada. Mas a sucessão de ciladas não roubará a flor do meu jardim. Continuo acreditando na gente anônima que sustenta o mundo com sua silenciosa bondade. E nos discretos gestos grandiosos que me ocorre testemunhar aqui e ali. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95430</link>
		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 02:00:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<img style="width: 416px; height: 294px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/30f4897873a1ee29032c2a06c4913601.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<font size="2"> &nbsp; &nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <font size="3">Projeto de Lelé para Fundação Athos Bulcão</font></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Museus de arte</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Severino Francisco</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Li a notícia de que o governador Agnelo Queiroz e a ministra da Cultura, Ana Hollanda, pretendem construir mais três museus na Esplanada dos Ministérios, visando proporcionar opções culturais aos visitantes estrangeiros durante a realização da Copa do Mundo de 2014. Quase caí das nuvens, o que, segundo Machado de Assis, é melhor do que cair do terceiro andar. Em princípio, é ótimo que se criem novas instituições para a cultura. No entanto, antes, ou quem sabe, simultaneamente, seria necessário um plano para dar condições dignas aos espaços culturais e museus que já existem. Sem isso, eles ficam reduzidos à situação de verdadeiros elefantes brancos sem oura função que a de compor o cartão-postal da paisagem. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Infelizmente, a maioria está funcionando na base da gambiarra. É o caso da Biblioteca Nacional de Brasília, que virou um ponto turístico do vexame, pois não dispõe de nenhum livro físico para ser consultado ou emprestado. Não sei se vocês se lembram, mas, depois de concluído o Memorial dos Povos Indígenas, o governador José Aparecido saiu com o seguinte comentário: “É bonito demais para ser museu do índio”. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Em entrevista concedida a Maria de Souza Duarte, à época decretária de Cultura do DF, o mestre em Brasil Darcy Ribeiro argumentava que o Memorial teria a função de mostrar o que há de mais original no Brasil: a criatividade indígena: “Um estrangeiro não encontraria sentido em ver um museu de artes, porque lá fora eles têm museus de artes muito melhores. Se, em vez de Memorial dos Povos Indígenas, o espaço fosse transformado em museu de artes, seria um museu de artes bem vagabundo. É importante ir civilizando esse pessoal para perceberem que estão diante de uma civilização original”.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Mas eu ainda gostaria de mencionar o caso da Fundação Athos Bulcão, que abriga as obras do mais importante artista de Brasília, alvo de uma situação que deveria envergonhar todos os brasilienses, principalmente os poderosos. A instituição foi expulsa do prédio ao lado da Petrobras e, atualmente, ocupa uma pequena sala em uma quadra comercial. O arquiteto e parceiro Lelé Filgueiras desenhou um belíssimo projeto para a sede da Fundação Athos Bulcão no Setor de Difusão Cultural, no Eixo Monumental.  <br> <br>No entanto, tudo permanece emperrado na burocracia e na falta de recursos. É incrível, o Ministério Público está cobrando aluguel pelo tempo que a FAB ficou no edifício, enquanto notórios ladrões de carteirinha continuam soltos sem devolver nenhum centavo do que rapinaram do erário. Uma das coisas que deixavam o Athos mais feliz era ver a sua fundação povoada de adolescentes trabalhando em projetos de arte-educação, os únicos capazes de tirar crianças e jovens da rota da violência e das drogas. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Só o prédio do Lelé para o amigo Athos já seria uma atração. No entanto, além disso, a Fundação tem acervo próprio doado pelo próprio Athos e mantém uma agenda permanente de atividades relacionadas à arte-educação. É um casa que já nasce com alma. Com certeza, não seria mais um elefante branco ocioso compondo o roteiro do vexame na Esplanada dos Ministérios. É excelente a iniciativa de construir outros museus, mas, antes, vamos arrumar os que já existem e priorizar a sede da Fundação Athos Bulcão. Ninguém mais do que Athos merece uma casa digna nesta cidade.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;&nbsp;</span>  </div>
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		</item>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95399</link>
		<pubDate>Sun, 11 Dec 2011 02:00:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 412px; height: 289px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/3c7564460ff52720859fc1499594b2f5.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp; Palácio da Alvorada, Arquivo Público do Distrito Federal</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Síntese concreta da utopia</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Ele é elegante e despojado, sólido e leve, residencial e público, requintado e simples. Assim, o jornalista, cronista e professor universitário Severino Francisco adjetiva, com precisão, a casa onde hoje mora a presidente Dilma Roussef. A obra mereceu o recém-lançado <span style="font-style: italic;">Palácio da Alvorada, majestosamente simples,</span> lançado anteontem no Museu da República. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Os adjetivos são muitos, mas ainda não poucos. A obra-prima de Oscar Niemeyer tem "qualidade estética" e "significado civilizacional" que o mundo ainda não conseguiu entender, escreve Severino Francisco, a partir de entrevista com Cláudio Queiroz, professor de arquitetura da UnB."Ela (a obra) é representativa de nossa condição de brasileiros, mestiços, multiculturais. É o marco de uma nova civilização moderna", continua Queiroz. </span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">O Palácio da Alvorada tem a pureza de Mies Van der Rohe e a poética de Le Corbusier, mas não tem o peso desse nem a frieza daquele, observa, ainda, Cláudio Queiroz. O Alvorada tem as curvas que surpreenderam o mundo. A curva é o jeito brasileiro de se desviar de um obstáculo, e de não enfrentá-lo. As colunas do Palácio da Alvorada são a representação da multiculturalidade brasileira. Não mais as colunas da arquitetura clássica grega, mas uma outra, delgada e de quadris largos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O professor da UnB lembra que em Nova York, onde o multiculturalismo é tão apregoado, os sino-americanos, ítalo-americanos, nipo-americanos, hispano-americanos vivem em guetos. No Brasil, não existe essa separação. "Nós somos a utopia deles. Nós já somos multiculturais. E o multiculturalismo se desoculta nestas colunas do Palácio da Alvorada. Elas são um atestado de uma nova civilização", diz Queiroz.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O diretor do Iphan/DF, Alfredo Gastal, reforça essa interpretação: o Alvorada lembra uma casa grande e, portanto, tem a mão do branco, do negro e do índio. Niemeyer é requintado e simples no Alvorada. "Embora utilize mármore e latão brilhante, tudo é colocado de uma maneira singela e incorporado ao espaço de uma forma absolutamente natural", escreve Severino. O que costuma causar um mesmo efeito nos visitantes estrangeiros, espantados com a composição majestosamente simples e acolhedora.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A joia diáfana da arquitetura moderna brasileira foi muito pouco entendida e admirada pelos presidentes que a habitaram. Jânio, o sucessor de Juscelino, odiava Brasília e a solidão do Planalto Central. A mulher de Jango, Tereza Goulart, reclamava da falta de privacidade da piscina. Castelo Branco, o primeiro presidente da ditadura de 64, achava o palácio monumental demais. Garrastazu Médici passava os fins de semana, com a família, na Granja do Riacho Fundo. Geisel gostava da imponência do palácio. Figueiredo logo se mudou para Granja do Torto. Collor preferiu a alegórica Casa da Dinda.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Os dois últimos presidentes, FHC e Lula, e a presidente Dilma devolveram ao Alvorada o reconhecimento e os cuidados que ele merece. O livro de Severino Francisco reforça, com vontade, o lugar da obra-prima de Niemeyer na representação da identidade brasileira. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">I <br>nteressados no livro devem ligar para 3321 9922. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95429</link>
		<pubDate>Sat, 10 Dec 2011 02:00:00 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/71bd30c948a4c39f4280c11e2d5efb50.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Foto de Peter Scheier, acervo IMS</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">História que reluz</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Quando escurece, o Palácio do Planalto se descola da Terra e oferece aos nossos olhos uma geometria de estrelas. É sempre um susto sublime reencontrar a caixa estrelada na ponta leste do Eixo Monumental. Para quem também é apaixonado pela obra de concreto, mármore e vidro que reluz no vértice norte da Praça dos Três Poderes, e para quem se dispõe à paixão, sugiro a leitura imediata de <span style="font-style: italic;">Palácio do Planalto, entre o cristal e o concreto</span>, de Graça Ramos, com fotos de Graça Seligman, lançado anteontem no Museu da República.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Trata-se de um misto de reportagem histórica com ensaio de arquitetura escrito por alguém que se deixou envolver pela transparência reluzente de um dos mais belos palácios de Niemeyer. “A caixa de vidro que parece suspensa na paisagem devido ao conjunto de colunas que a apoiam e também ajudam a erguê-la” — escreve a autora — “resulta de desenho que alia ‘simplicidade e nobreza’, nas palavras de Niemeyer.” As colunas revestidas de mármore branco texturizado “são em si elementos visuais ao evocar redes, velas de barco, que se movimentam no ar”.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>É arquitetura e é obra de arte, é estrela e é barco, mas também pode ser rede. Balança, voa, reluz e, ao mesmo tempo, abriga a sede do Poder Executivo. E é em suave balanço que a autora vai conduzindo o leitor na visita à caixa de vidro, desde a paisagem que o contorna, subindo a rampa, passando por todos os andares até chegar ao subsolo onde Graça Ramos encontra a telefonista Georgina Zanetti Câmara, que, desde 1958, trabalha no Executivo. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A autora revela que o palácio foi construído com enorme quantidade de cristal. Boa repórter que é, Graça Ramos descobriu a informação no programa que o colunista social Ibrahim Sued organizou para as solenidades de inauguração de Brasília. Desse programa, constava um anúncio da empresa Conrado Sorgenicht S.A., no qual se informava que 5 mil m² de cristal foram utilizados no edifício, “proporcionando visibilidade sem distorção”.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Nos seis capítulos do livro, Graça Ramos percorre a história da construção do edifício, com a preciosa ajuda do engenheiro-chefe da obra, Amadeo Francisco Favale; descreve como cada um dos presidentes que sucederam Juscelino se relacionou com a caixa de vidro; pontua as alterações no projeto, desde a primeira maquete, de 1958, até a recente reforma. E descreve algumas risíveis dificuldades para se habitar uma caixa de vidro, como o dia em que o chefe da Casa Militar foi usar o banheiro e descobriu que as janelas eram transparentes. Foi preciso providenciar um biombo para assegurar a privacidade dos usuários.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O Palácio do Planalto se alimenta de luz, como escreveu o poeta e engenheiro calculista Joaquim Cardozo. Graça Ramos soube escolher a lâmpada certa para iluminar tão admirável história. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Informações sobre como obter o livro pelo fone 3321-9922.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[ARTIGO]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95258</link>
		<pubDate>Wed, 07 Dec 2011 13:22:00 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 337px; height: 256px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6d27010bf01f55299c94e407e54a518c.jpg">  <br>  <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6">O rei está nu!</font>  <br>  <br><span style="font-style: italic;">Por Frederico de Holanda</span>  <br>  <br>As mortes no Eixo Rodoviário de Brasília – a via expressa que atravessa a cidade de sul a norte – voltaram às manchetes, o que se repete a cada nova fatalidade. Reinstala-se o debate, fala-se na velocidade dos veículos, em imprudências de motoristas ou pedestres, na precária fiscalização. Alguns reconhecem problemas de urbanismo, mas as soluções aventadas são novas passarelas subterrâneas, melhorias das existentes, muretas de concreto na faixa central etc. São mais do mesmo, não contribuem para melhor qualidade de vida na cidade.  <br>  <br>As sugestões são ruins porque pertencem à lógica da “capital rodoviária” (palavras de Lucio Costa): supunha-se que pedestres limitar-se-iam ao espaço interno das superquadras ou de outros setores urbanos. Fora daí, toda prioridade ao fluxo de veículos – idealmente sem cruzamentos. Mas nunca foi assim: para lazer, trabalho ou serviços muitos caminham entre quadras e setores, cruzam vias arteriais urbanas. O percurso mais controverso é o que atravessa o “Eixão”.  <br>  <br>As reações contra mudanças no Eixão esgrimem a preservação dos atributos essenciais do projeto. Mas quais? Parecem ignorar que o projeto de Lucio Costa sofreu mudanças antes mesmo de começar a ser construído. Das mais importantes foi Brasília ter “engordado”: o caráter linear da cidade perdeu força ao acrescentarem-se novas fileiras de quadras paralelas ao Eixo Rodoviário – as “400”, “600”, “700” e “900” não existiam no projeto. A W-3, importante via comercial, idem. As mudanças intensificaram os fluxos transversais de pedestres (na direção leste-oeste) e só agravaram o problema.  <br>  <br>Contudo, soluções aventadas até agora não se libertam da lógica rodoviarista. Que tal revertê-la? O Eixão poderia ser uma bela avenida urbana, com sinais de trânsito a permitirem o cruzamento de pedestres na superfície. No lugar da atual faixa central, hoje não utilizada, um canteiro arborizado, gramado, florido, calçado com pedras portuguesas. O fluxo veicular teria velocidade baixada a razoáveis 60 km/hora. Tecnologias como “ondas verdes”, já implantadas com sucesso em outras avenidas da cidade, otimizariam o fluxo. Ele seria, sim, reduzido, pois os veículos não mais seriam donos exclusivos do pedaço, como reza a cartilha rodoviarista. (À guisa de exercício, contrastem isso com a pavorosa mureta de concreto aventada, a dividir ao meio o espaço lindamente povoado pelos pedestres aos domingos!)  <br>  <br>Sim, teríamos um novo atributo urbano, todavia não contraditório com o estatuto do tombamento: sua essência não é o rodoviarismo da cidade, são suas escalas: a gíria local para os quatro tipos essenciais de configuração que organizam a paisagem urbana – monumental, gregária, residencial, bucólica. Em nada o novo Eixo, arborizado e semaforizado, teria reduzida sua força como macroelemento estruturador da imagem urbana. Pelo contrário, sua amigabilidade para com os pedestres fá-lo-ia mais memorável, até mais compatível com a escala residencial onde está inserido. Não sejamos, pois, sectários. Preservar a forte identidade da cidade, suas qualidades essenciais justamente reconhecidas internacionalmente, sim, é fundamental. Não seus problemas, principalmente quando eles envolvem vítimas fatais.   <br>&nbsp;  <br>Não estou sendo original. Nos anos 1990, o Instituto de Arquitetos do Brasil (Departamento do Distrito Federal) realizou concurso de ideias sobre o Eixão, aberto a toda a população. Analogamente à historinha do rei nu, a proposta vencedora foi de adolescentes, que propuseram modificações similares às sugeridas aqui. A solução apontada é a mais óbvia e natural, uma vez revertida a lógica rodoviarista – o que aliás está acontecendo no resto do mundo onde um dia ela prevaleceu, inclusive em cidades brasileiras como Rio e São Paulo. Nova prioridade é concedida a pedestres e transporte público. Os adolescentes tinham razão. E nós? Vamos continuar fingindo enxergar as belas vestimentas do rei?...  <br>  <br><span style="font-style: italic;">(*) Frederico de Holanda é arquiteto, professor aposentado da Universidade de Brasília</span><br style="font-style: italic;"></div>  <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=95190</link>
		<pubDate>Tue, 06 Dec 2011 13:29:33 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/2ecdb150dcb1eb305a385e2e6f306ea7.jpg"> &nbsp;&nbsp;  <br><div style="text-align: justify;">&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">revistacrescer.globo.com&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"> <br>Desventuras na piscina</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span>  <br> <br>Prezada Conceição, escrevo para lhe contar uma história que vale uma crônica. Acho que me meti numa fria. Melhor até, numa gelada. E trouxe comigo toda a minha família, que não é pequena. Tenho quatro pimpolhos, de 3, 5, 9 e 11 anos. Explico: sou filha única de pais idosos. Tive uma infância muito solitária e cheia de mimos numa casa espaçosa numa rua tranquila do Guará I. Cabia até uma piscininha de montar e desmontar.  <br> <br>Quando me casei, ficou decidido com meu marido que teríamos seis filhos, coisa de maluco, né? Mas ele também era filho único, ficou órfão de mãe muito cedo e foi criado por duas tias solteironas numa casa de quintal do inteiro de Minas. Já viu, né? <br> <br>Nos primeiros 13 anos de casamento, vivemos em apartamentos pequenos. Primeiro de aluguel, depois, financiado. Era o que dava para comprar. Mas, sempre que possível, a gente ia pra algum riozinho próximo, ainda não poluído, pra todo mundo cair na água.  <br> <br>Há dois anos, finalmente, conseguimos vender o apartamentinho e compramos um maior, de três quartos, num condomínio vertical fechado. Piscina, playground, academia, sauna, espaço gourmet, área verde, tudo o que tive e o que não tive na minha infância. Havia chegado a hora de a família aproveitar bem os poucos momentos em que conseguimos ficar juntos. <br> <br>Eu não fazia ideia do que viria. <br> <br>Cito o exemplo mais gritante: minhas crianças não podem pular na piscina, não podem gritar, não podem brincar de bola dentro d´água (!). Você vai achar que estou mentindo, mas elas não podem brincar de espalhar água (!!!) — aquela brincadeira que toda criança faz quando está na piscina.  <br> <br>Existe um regulamento imeeeenso pendurado na área de lazer que nunca consegui ler por inteiro. Acho que pra não me aborrecer mais do que já tenho me aborrecido. Lá está escrito que as crianças não podem perturbar o descanso dos moradores dos andares mais baixos, que ouvem tudo o que se passa na piscina. <br> <br>Ninguém, nem adulto nem criança, pode beber nem comer nada perto da piscina, nem refrigerante de latinha, nem água de garrafinha. Meu marido, que trabalha feito um boi de carga e que adora uma cervejinha, se irritou de cara e nunca mais apareceu na piscina. <br> <br>Enquanto continuamos pagando o financiamento, em prestações que fazem um rombo no orçamento doméstico, saímos nos fins de semana para cidadezinhas próximas (quando sobre algum). É quando as crianças podem esparramar água na piscina (!!!!) e meu marido pode tomar sua latinha com meio corpo dentro d'água, como ele tanto gosta ("Não dá ressaca", ele diz).  <br> <br>Já nos passou pela cabeça vender o ágio do apartamento e tentar comprar uma casa no Guará (meu sonho!), mas ainda é cedo.  <br> <br>Tenho medo de que quando o dinheiro der, as crianças já não queiram mais pular na piscina com papai e mamãe por perto. <br>Prezada Conceição, precisava fazer esse desabafo depois de mais um fim de semana vigiando menino na área de lazer.&nbsp; Acho que caí no conto do vigário. <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94846</link>
		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 21:56:21 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 415px; height: 298px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/196c6e900b36d6a5913594f427dcb494.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Debret</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Jornalismo e racismo</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Quando eu era repórter de polícia, há um bom tempo, havia um delegado bonachão, corpulento, de pele muito branca, muito vaidoso, que eu considerava minha fonte. Costumava entrar no gabinete dele sem pedir licença. E ele sempre me abastecia com notícias, o canto da sereia para o jornalista. Um dia, entrei na sala do delegado-minha fonte e ele estava ao telefone, em pé, de costas para mim. Dizia algo assim: “Que repórter? Aquela neguinha? Do jornal O Popular?”. Parei na soleira da porta. Se houvesse um espelho ali, eu teria me voltado a ele para me certificar de quem eu era —- mas eu não sabia quem eu era.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Saí de fininho, antes que ele me visse, e continuei minhas buscas por notícia. Mas alguma coisa havia me desorganizado e eu não sabia exatamente o quê.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Nos meus mais de 30 anos de Redação, tratei dos temais sociais mais variados: esquadrão da morte, maus-tratos em manicômios, moradores de rua, situação dos presídios, crianças e adolescentes infratores, prostitutas (ou trabalhadoras do sexo, como queiram), travestis e transexuais. Nunca, porém, me passou pela cabeça sugerir uma pauta sobre racismo. Escondi aquele flagrante em algum canto soturno de mim mesma, e tantos outros que fiz de conta que não vi.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Foram quase 30 anos de reportagem que eu não chamaria de “racista” porque seria muito dura comigo, mas posso dizer que foram três décadas de jornalismo incolor. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Não sei exatamente em que momento eu quis procurar minha lata de tinta. Suspeito que tudo começou quando a UnB começou a divulgar o programa de cotas. Não foi sem estranhamento que acompanhei os debates, tentando entender afinal o que significava a reserva de vagas para alunos afro-descendentes, mas continuei tão perdida quanto aquele dia na porta do delegado.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Há um ano, às vésperas do 20 de novembro, sugeri uma pauta sobre a experiência de ser negro e morar na capital do poder. Depois de mais de 20 horas de entrevistas, finalmente atravessei a soleira da porta do delegado e comecei meu aprendizado de negritude.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Nós, jornalistas, temos enorme dificuldade para tratar desse assunto. É um tema espinhoso. É uma ferida crônica na alma brasileira. Desde aquelas matérias, vira e mexe alguém vem me consultar sobre o uso desta ou daquela palavra ou expressão que se refira a negro em título ou texto. O que me deixa em maus lençois, porque a tintura na minha pele ainda precisa de mais demãos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><span style="font-style: italic;">P.S. Pretendia ler esse texto num debate sobre Mídia e Racismo, ao qual fui convidadua, e não pude comparecer.</span></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94661</link>
		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 19:09:11 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 334px; height: 349px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/a4db2bd4ebac2e1e4e2f9f0074c6b045.jpg"> <br> <br> <br> <br><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><font>Pessoa inesquecível</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><font><font>Por Severino Francisco</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Na última sexta-feira, fui convocado a participar da minha primeira sessão de  autógrafos pelo fato de ser um dos autores do livro <i>Mercados de ferro do  Brasil — Aromas e sabores</i>. Confesso que fiquei bastante aflito e, no  desespero, cheguei a cogitar a saída de Rubem Braga. Certa vez, o grande  cronista, inimigo feroz de qualquer badalação, compareceu, compulsoriamente, à  sessão de autógrafos de um dos seus livros, em uma livraria de Copacabana.  Contudo, lá pelas tantas, avisou que ia ao banheiro e não voltou mais. </font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Cansado, no entanto, dos meus devaneios de fuga, resolvi enfrentar a  situação. E, para minha surpresa, comecei a gostar da brincadeira, lançando no  papel as dedicatórias em forma de garranchos nervosos de minha escrita tão  intrincada e indecifrável quanto os labirintos egípcios.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Estava compenetrado, cumprindo o meu árduo ofício, quando uma senhora  elegante se postou diante de mim e disse com voz firme: "Severino, você está me  reconhecendo?" Respondi, desconversando: "Vagamente". E ela: "Eu sou a  Almerinda. Li no jornal que você estaria aqui e vim para te ver. Fui a sua  primeira professora, te ensinei a ler e a escrever".</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Senti um abalo silencioso se irradiar pelo meu corpo. O que mais me  impressionou foi a pergunta se eu me lembrava dela. Meu Deus, como esquecê-la?  Nos últimos tempos, me indagava onde estaria Almerinda e até se ainda se  encontrava neste planeta. Apesar da diferença de idade e do respeito por ela,  não havia distância entre nós, mesmo sendo eu, à época, apenas um projeto de  gente. Não me lembro de a ter chamado nunca de "tia", era simplesmente  Almerinda.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Evocava que, sem fazer pose de moderna, ela era jovial, de cabeça arejada,  bem-humorada e de postura delicadamente firme. Tudo fluía naturalmente sob o seu  comando invisível. Não me recordo de que tenha desferido nenhum grito para  estabelecer a autoridade. E, sem grande esforço, descobri que, de repente, sabia  ler e escrever. Isso me abriu as janelas de vários mundos .</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Primeiro, o mundinho da sala, onde passei a ganhar quase todos os concursos  de redação, uma espécie de Prêmio Nobel de Literatura em esfera local.  Recordo-me que, durante um passeio ao zoológico, enquanto todo mundo se  divertia, eu estava tenso, observando cada detalhe e imaginando como escreveria  a narrativa. Sem que soubesse, aquela foi a minha primeira reportagem especial.  Na verdade, sonhava em me tornar um craque de futebol, mas, sem habilidade, com  muito esforço, consegui ser um jogador razoável.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Depois, descobri que por meio da leitura poderia conversar com os espíritos  mais luminosos de todos os tempos, vivos ou mortos. Sempre tentando roubar  talvez umas lasquinhas de luz. Me dei conta, ainda, que poderia reinventar ou  recontar, à minha maneira, tudo que havia lido ou vivido.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Soube que, ao ver a nossa alegria do reencontro, um amigo meu afirmou a  Almerinda que, na verdade, a minha mulher escrevia todos os artigos, crônicas e  livros que eu assinava. Perdoai-lhe. É mentira sórdida movida apenas pela inveja  de não ter o privilégio de ser aluno de Almerinda. </font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Almerinda não ganhou nenhuma estátua nem se tornou uma celebridade. No  entanto, é uma daquelas educadoras por vocação que fazem a diferença em nossas  vidas. Bem ou mal, sobrevivi da palavra. Saiba, Almerinda, que devo muito a você  do pouco que consegui ser. Você soube extrair o que havia de melhor em mim.  Tenho muitos defeitos, mas não chegam ao ponto de cometer o crime de esquecê-la.  Por favor, Almerinda, peço apenas a gentileza de que, ao me encontrar em alguma  esquina da vida, não me pergunte se me lembro de você. Porque você é  inesquecível.</font></font></p> <p><font><font>&nbsp;</font></font></p> <br> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94671</link>
		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 12:56:07 GMT</pubDate>
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		 <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 453px; height: 319px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/fd2d8543a57517f7f7626b72a3bfe5f6.jpg"> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 417px; height: 312px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/ba51f7c9a197f978e96615766eeef497.jpg"> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp; <img style="width: 415px; height: 323px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/88c205159f72361c4f87c5aa8a25983f.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"> <br></font> <br><font size="6">A melhor de todas</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>A melhor cidade do mundo pra se viver não tem arranha-céus, tem calçadas seguras, largas e pontilhadas de cafés e restaurantes (lá, o puxadinho é permitido!). Há ruas de comércio inteiramente fechada para os carros.  <br> <br>A melhor cidade do mundo pra se viver tem avenidas arborizadas , extensa rede de ciclovias e sistema de transporte urbano (metrô/bonde/ônibus) que funciona. Tem um centro histórico tombado pela Unesco, 1,7 milhão de habitantes, imensos parques públicos e extensa rede de ciclovias. Tem 23 bairros designados por números de 1 a 23 e também por nomes — como o distrito 15 que se chama RudolfsheimFüfhaus.  <br> <br>A cidade onde Freud nasceu tem admirável infraestrutura urbana e bom serviço público de saúde. Viena teve tempo para aprender a ser melhor — foi fundada em torno de 500 anos antes de Cristo. É uma cidade católica e ateia. Quase 50% dos habitantes seguem o catolicismo e 25% são ateus.  <br> <br>Está em Viena uma das mais impressionantes igrejas góticas medievais, a Stephansdom, Catedral de Santo Estevão. Ela fica na confluência de ruas exclusivas para pedestre. Na melhor cidade do mundo pra se viver, o carro é acessório. <br> <br>A cidade de Strauss é também, claro, a cidade do rio Danúbio com suas águas azuis cortando a área urbana da capital da Áustria. A Torre de Tevê de Viena é uma roda gigante do Parque Prater. Foi construída em 1897 para uma feira mundial e nunca mais foi desmontada.  <br> <br>A melhor cidade do mundo pra se viver também sabe ser moderna. Os edifícios feitos com sofisticada tecnologia de construção e formas estranhas também chegaram a Viena. Eles se concentram num canto da cidade, ao norte do rio Danúbio. Mas há desobediências temporais, como a do prédio espelhado construído em pleno centro antigo em 1990. Dizem que causou o maior fuzuê mas, duas décadas depois, já se incorporou à cidade. <br> <br>Houve outros momentos de turbulência arquitetônica, como, por exemplo, quando foi construído o chamado prédio da Secessão, obra em art nouveau construída em 1989. Secessão foi um movimento vienense que se pode comparar com a Semana Modernista de 1922 no Brasil.  <br> <br>A melhor cidade do mundo pra se viver tem um imenso largo à frente do Palácio Schönbrumm (com 1.441 quartos) que lembra a Praça dos Três Poderes, mas sem as grades de metal. Viena tem arquitetos inovadores (e lúdicos!) como Friedensreich Hundertwasser que projetou um condomínio vertical de formas irregulares (que vagamente lembra as paredes de Gaudí) e pintou as fachadas de diversas cores fortes. O condomínio se tornou um dos pontos turísticos de Viena. <br> <br>Ninguém está aqui comparando Viena com Brasília. Apenas tentando conhecer um pouco mais da melhor cidade do mundo pra se viver e com ela aprender a viver melhor na cidade que nos coube. <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94358</link>
		<pubDate>Thu, 24 Nov 2011 14:19:05 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/c8c625a4640b576a68cdbda0a44c21ef.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Dom Pedro Casaldáliga, padre e poeta</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Os mais felizes</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A partir de pesquisa feita pela Universidade de Chicago que enumera as profissões que dão mais felicidade, o jornal </span><span style="font-style: italic; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">El Pais</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> fez uma comparação com outra pesquisa, da cadeia de televisão CNBC, que apresenta os dez ofícios mais odiados. As que propiciam maior bem-estar são, pela ordem: sacerdote, fisioterapeuta, escritor, professor de educação especial, professor, artista, psicólogo, corretor de seguros e investimentos e operador de máquina pesada. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Na lista das&nbsp; que produzem infelicidades estão, também pela ordem de mais a menos infeliz: diretor de tecnologia de informação, diretor de vendas e marketing, gerente de produção, web design, técnico especialista, técnico em eletrônica, secretário jurídico, analista de suporte técnico, maquinista, gerente de marketing.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Retirem-se das duas listas a dúvida que a cronista não soube solucionar (técnico especialista é especialista em quê?). A imprecisão, porém, não altera o claro indicativo da pesquisa. As profissões a serviço do ser humano produzem sensações de bem-estar. Profissões a serviço do mercado ou da tecnologia produzem humanos infelizes. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Segundo o <span style="font-style: italic;">El Pais</span>, 80% dos padres entrevistados disseram se sentir “muito satisfeitos” porque seu ofício é o de ajudar pessoas. Os fisioterapeutas repetiram a explicação dos religiosos e acrescentaram um bônus: a interação social que sua tarefa permite.</span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Mesmo que a remuneração esteja muito aquém da desejada, os escritores consideram-se felizes em sua profissão porque têm autonomia para escrever o que lhes vêm aos dedos. Os professores, em geral, se sentem felizes no início da profissão, mas pelos menos 50% abandonam o ofício antes de completar cinco anos de exercício profissional, dadas as situações de conflito em sala de aula.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Até aqui, dá pra entender. Mas, de onde vem o contentamento dos corretores de investimento? Os pesquisadores acreditam que a alegria deles se deve ao rendimento que pode superar os 90 mil dólares ao ano com uma carga de 40 horas semanais.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Os operadores de máquinas pesadas se sentem muito bem manejando escavadoras e, com a falta de profissionais qualificados, a eles não falta emprego, em tempos de crise econômica.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Os infelizes com a profissão são também os que recebem melhor rendimento e têm mais reconhecimento social.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Pesquisas do gênero não podem ser levadas ao pé da letra. Mas podem abrir clarões de entendimento sobre a estrada que escolhemos para ir ao encontro do futuro. Nas minhas andanças de repórter e de cidadã, já consegui perceber que os humanos mais inteiros e bem-aventurados que encontrei não são necessariamente os mais bem-sucedidos na profissão nem os mais ricos. Arrisco dizer que poucos, entre aqueles a quem não faltam dinheiro nem sucesso, me parecem verdadeiramente de bem com a vida. Talvez seja meu olhar que admira mais os que têm menos e os que têm mais compromisso com o bem-estar do outro. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94302</link>
		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 13:27:30 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b4891bcbdaf5cd3bf4ea2dab9a3db8a7.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;<span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp; Lapa</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">Cultura ou crack</font> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><font>Por Severino Francisco</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> <br></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Brasília é uma cidade elegante</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>nascida sob o signo da arte</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>mas desde os tempos da ditadura</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>entrou na contramão da história,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>da arte, da cultura e da memória,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>em um longo desinvestimento</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>que levou a um sucateamento</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>dos seus espaços culturais</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>e produziu silencioso baque.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Como diz o José Damata:</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>"É cultura ou é crack."</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>&nbsp;... <br></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>No antigo reduto boêmio da Lapa</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>não se respeitava nem o Papa,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>pois em razão do abandono,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>havia virado terra sem dono,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>onde imperava a bandidagem,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>o tráfico de drogas, a prostituição,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>a violência, a sujeira e a vadiagem.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Mas a prefeitura do Rio de Janeiro</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>decidiu revitalizar o bairro inteiro.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Com a reforma, vieram os bares,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>o policiamento, o pipoqueiro,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>o cachorro quente, as luzes da cidade,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>o comércio, os sinais de urbanidade </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>e foi expulsa toda a bandidagem.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Hoje, o que mais se vê é gente jovem,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>o lugar recuperou o antigo destaque.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Como diz o José Damata:</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>"É cultura ou é crack"</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>... <br></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>E agora vamos dar um pulo</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>à megalópole São Paulo</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>onde meia dúzia de grupos teatrais</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>reconquistaram o espaço dos marginais</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>encastelados na Praça Roosevelt</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>bem no centro da capital paulista</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>superando a previsão mais otimista</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>graças a muito suor, talento, engenho,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>investimento, tenacidade e empenho,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>sem soltar bomba, tiro, soco ou tapa,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>no mesmo processo de urbanização</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>que revitalizou o bairro da Lapa.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Além disso, uma antiga estação </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>foi redesenhada em um voo de beleza</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>e virou o Museu da Língua Portuguesa</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>incorporando toda a signagem virtual</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>em um moderno ciber centro cultural</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>superando a situação de debacle. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Como diz o José Damata: </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>"É cultura ou é crack."</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>... <br> </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Em Brasília, é desoladora a situação</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>dos teatros Galpãozinho e Galpão,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>no Centro de Criatividade da 508 Sul.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Na Ceilândia um centro cultural, </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>apelidado de Castelo de Grayskfull;</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>no Gama, o Cineclube Porta Aberta,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>todos com o sinal amarelo de alerta.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Os nossos mais tradicionais espaços</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>estão quase todos caindo aos pedaços.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>O Castelo de Grayskfful é o melhor exemplo</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>da política sistemática de desinvestimento</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>que grassa no DF há muito tempo, </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>mirem, vejam e analisem vocês:</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>começou a ser erguido em 1986</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>mas, sob o argumento do preço alto</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>paralisaram todas as obras </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>e o espaço foi tomado pelo mato</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>e pelos traficantes de drogas.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>O barato acabou saindo muito caro</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>pela ignorância e pelo despreparo.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>É preciso retomar o espírito da arte</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>que inspirou a criação da cidade,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>o resultado do desinvestimento</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>se vê e se sente em toda parte.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>É pura ignorância essa mania</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>de achar que cultura é perfumaria;</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>a cultura é um instrumento</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>do lazer e do conhecimento,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>da urbanização e de civilidade,</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>que insuflam alma em uma cidade.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Chega de tanta cascata</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>e de mil promessas de araque.</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Como diz o José Damata: </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>"É cultura ou é crack"</font></p><div style="text-align: justify;"> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94301</link>
		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 13:16:23 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 323px; height: 239px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/dfd8c618219b4fe9caf085b69a31b31d.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6">Danielle morreu</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">&nbsp;</span> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mundo ficou pior para quem acredita nos princípios humanitários, na igualdade entre os povos, no amor incondicional. Morreu Danielle Mitterrand, 87 anos, viúva de François Mitterrand. Defensora incansável dos direitos humanos, dedicou os últimos 25 anos de sua vida à Fundação France Libertés, de onde criticava duramente “um capitalismo que se destrói a si mesmo, vítima de sua desmesura totalitária e de seu desapreço aos valores humanos não mercantilizados.” <br>&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp; Quando, nos anos 1980, o marido assumiu o governo da França, Danielle começou a mostrar ao povo francês que ela não seria uma primeira-dama decorativa. Seguiu fazendo o que sempre fez, desde os tempos em que, com o companheiro François, arriscou a vida na resistência à ocupação nazista. Quando os dois francesinhos se casaram, a socialista era ela. Quando ele assumiu o governo, ela manteve o norte: financiou a construção de escolas em El Salvador, defendeu junto a Fidel Castro a libertação de dissidentes políticos, acusou o regime indonésio de promover uma campanha de terror no Timor Leste… <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp; Em suas memórias, Danielle conta que teve uma grande rival em seu casamento, a política. Soube disso desde o dia da cerimônia. Ao fim do banquete, François se aproximou, impaciente, e disse que precisava sair para uma reunião de emergência. Danielle largou os convidados e, vestida de noiva, acompanhou o marido. Sabia também que François era um sedutor: “Percebo também que ele brilha como sedutor de jovenzinhas”, contou, nas memórias.  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp; No sepultamento de Mitterrand, Danielle mostrou o quão grandiosa era. Aceitou a presença da filha que o marido havia tido numa relação extraconjugal, o que provocou a ira dos franceses. Pouco tempo depois, ela escreveu uma carta ao povo francês. O texto é uma lição de coragem, humildade,&nbsp; elegância, sabedoria e capacidade de amar. “Não é um pedido de desculpas”, ela esclareceu de pronto. E não era mesmo. <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre a intensa e longa convivência com Mitterand, ela disse: “… tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as variações de sua pessoa e não de seu caráter…”. (Danielle não julgava, amava). “Quem entende ou, pelo menos, luta para compreender as variações do outro, o ama realmente. E nunca poderá dizer que foi enganada ou que jamais enganou. Não nos enganamos, nos confundimos quando nos perdemos da identidade vital do parceiro, familiar ou irmão”.  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A sabedoria de Danielle vai longe: “Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente. Não somos o centro amorável do mundo do outro (genial!).” <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conclui Danielle: “É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores, aos paranóicos azedos que teimam em sujar tudo. Espero que as pessoas sejam generosas e amplas para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades, divisões e pequenas paixões.” <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sabedoria em estado puro. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94300</link>
		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 13:10:01 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 508px; height: 230px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/dd44b18f59e5b7fcdbcb27edeb191e14.jpg"> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"> <br></font> <br><font size="6">Injustiça americana <br></font> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Sergio Jatobá*</span> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palestra do aclamado e premiado crítico da revista <span style="font-style: italic;">The New Yorker</span>, Paul Goldberger, no Seminário Arq.Futuro atraiu grandes nomes da arquitetura brasileira como Jorge Wilhein, Ruy Ohtake e Isay Weinfeld, dentre outros. E parece que eles concordam com os posicionamentos de Goldberger, principalmente quanto a necessidade de maior valorização dos espaços públicos urbanos e não somente de edifícios frutos de uma arquitetura cenográfica. Brasília, segundo ele teria dito, foi pensada mais para servir como um belo cenário do que para ser funcional (transcrição de trecho de reportagem do site Terra de 21/11/11).  <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não creio que Goldberger tenha sido justo com Brasília. A monumentalidade de Brasília não deve ser confundida com a deliberada cenografia de intervenções urbanas contemporâneas, destinada a promover o marketing urbano e a valorização imobiliária de áreas urbanas economicamente degradadas. Aqui o plano urbanístico de Lucio Costa e a arquitetura de Niemeyer se casam perfeitamente em um conjunto urbano magistral, reconhecido como patrimônio da humanidade.  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reconhece-se, contudo, que os espaços públicos em Brasília têm sofrido com o descaso do poder público e da própria população. Uma das razões pode ser a concepção modernista de espaço público na qual extensas áreas verdes tornam a sua manutenção cara e o seu usufruto restrito e disperso. De fato, Brasília carece de espaços públicos mais constituídos como nas cidades mais densas e compactas, o que facilita o convívio social, os deslocamentos a pé e o uso dos transportes coletivos. Mas mesmo nessas cidades, de urbanismo mais tradicional, os espaços públicos também não têm recebido tratamento adequado, para ficar restrito ao caso brasileiro. Ao contrário, em cidades européias se percebe uma valorização dos espaços públicos urbanos (agora ameaçada pela crise), mas que está objetivamente ligada aos interesses turísticos e imobiliários. No Brasil, mesmo com Copa do Mundo e Olimpíadas, parece que nem o interesse econômico motiva investimentos do poder público e dos empresários.  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O traçado urbano de Brasília, portanto, não é a principal razão para a má qualidade dos seus espaços públicos. Mesmo que a morfologia urbana dispersa gere dificuldades para melhor qualificar e cuidar dos espaços públicos, parece ser a nossa cultura mais inclinada ao patrimonialismo do que ao coletivismo uma explicação mais apropriada para esta falência do espaço público nas cidades brasileiras e não só em Brasília. <br> <br>*Arquiteto urbanista <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94261</link>
		<pubDate>Tue, 22 Nov 2011 17:54:05 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/3c1ff4d8e93a68e3424f9ca5cdc1b649.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Veneza <br> <br> <br><font size="6">Cidade irreal</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Arquitetura para os humanos comuns e não para os arquitetos é o tema que tem motivado reflexões entre os profissionais da arte e da ciência de construir edifícios e projetar cidades. A arquitetura de qualidade, diz o arquiteto Fernando Serapião, deve priorizar o pedestre. Serapião é o curador da primeira edição do seminário Arq. Futuro que começou ontem em São Paulo. Um ilustríssimo representante da arquitetura de Brasília, João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, está entre os palestrantes. <br> <br>Também participante do seminário, Paul Goldberger, crítico da revista <span style="font-style: italic;">The New Yorker</span>, diz que a arquitetura contemporânea tem duas caras: "Somos capazes de construir prédios extraordinários, mas não sabemos organizar cidades e seus edifícios mais comuns". Essa foi a grande fratura do modernismo, aponta Goldberger. Soube fazer edifícios-esculturas, mas fez vista grossa para a convivência urbana nas grandes cidades. <br> <br>A arquitetura moderna não acabou, como se acreditava. "A estética modernista é mais forte agora do que era há 25 anos", diz Goldberger. Com uma diferença fundamental: "Hoje há um novo entendimento surgindo e mais respeito pelo cenário urbano."  <br>O arquiteto norte-americano é duro com Brasília: "É uma enorme coleção de belos objetos, mas eles não compõem uma cidade real", afirmou ele à <span style="font-style: italic;">Folha de S. Paulo</span>.  <br> <br>Não há como discordar do americano, por mais que a crítica arranhe a garganta desta e de tantos outros apaixonados por Brasília. O projeto urbanístico da cidade maltrata o pedestre. Os largos vazios e as longas distâncias desprezam a escala humana e a falta de rua nos afasta uns dos outros. Nenhuma outra capital brasileira sente tão brutalmente o domínio do carro sobre o corpo.  <br> <br>Com um porém alentador: Brasília é uma cidade, não é uma maquete. O que mais nos esmorece não é a hegemonia do asfalto sobre a calçada, nem a sofreguidão da vias expressas sobre o convívio múltiplo e contínuo das ruas. Uma cidade é um organismo vivo, que me perdoem o lugar comum, e o que a torna fascinante é exatamente sua capacidade de aderir aos novos tempos. Brasília não é Veneza, que está paralisada pelas águas que não param de subir.  <br> <br>Seria fácil, não fosse o grave impedimento: a cidade está subordinada aos interesses do mercado imobiliário. Qualquer tentativa de humanizar a relação dos habitantes com o espaço urbano será atropelada pela ganância das construtoras e pela incapacidade e/ou desinteresse dos governantes em implantar um sistema de transporte urbano, de ciclovias e de calçadas e em equipar parques e áreas de convívio.  <br> <br>O urbanismo no qual se acreditava no final dos anos 1950 era submisso às quatro rodas. Hoje, é submisso às forças ocultas, para citar uma expressão daquele presidente que odiava Brasília. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94232</link>
		<pubDate>Tue, 22 Nov 2011 13:22:58 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 331px; height: 313px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/923d518ffc670b384a3e956169682a4f.jpg"> <br> <br> <br><font size="5"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">O pipoqueiro da fonte</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Daniel Cariello</span> <br> <br>(<span style="font-style: italic;">www.danielcariello.com.b</span>r) <br> <br> <br>Passeando com dois amigos que, como eu, também moraram em Brasília e estavam de passagem pela cidade, acabamos parando em uma pracinha nos fundos do Memorial JK. A idéia era ver o pôr do sol, espetáculo mais deslumbrante na capital do Brasil do que em qualquer outro lugar que conheço. <br> <br>Ao chegarmos lá, dupla decepção. A primeira pelo tempo, que fechou de uma hora pra outra e tapou a visão do sol. A segunda pela conservação da tal pracinha. Mesmo localizada ao lado de um dos mais importantes pontos turísticos da cidade, estava abandonada, cheia de lixo e sem nenhuma vida. Logo ali, de onde se tem uma visão de 360º do céu, que alguém já descreveu como “o mar de Brasília”. <br> <br>Com um misto de tristeza e decepção pelo estado do lugar, começamos a fazer uma lista do que, acreditávamos, poderia mudar por ali. <br> <br>_ Esse fosso em torno da praça tá vazio. Tem que colocar água. <br> <br>_ E os patos. Cadê os patos? <br> <br>_ Precisa arrancar esse mato também. <br> <br>_ Pra mim, o que falta é um pipoqueiro. – Disse. <br> <br>_ Pipoqueiro? – Perguntaram os outros. <br> <br>_ Isso. Um pipoqueiro é a síntese de tudo isso. Para um pipoqueiro vir até aqui, o lugar precisa estar bem conservado, limpo, agradável. Enfim, precisa atrair gente, principalmente crianças. Se tem criança e pipoqueiro, o ambiente é alegre e o ponto turístico é sem dúvida um sucesso. – Completei. <br> <br>_ O problema é que Brasília não é feita para o turismo, ninguém pensa nisso por aqui. <br> <br>_ É verdade. – Conformamo-nos todos. <br> <br>Voltamos para o carro pensando nessa história do pipoqueiro e continuamos nosso giro pela cidade onde crescemos, tão saudosos que estávamos de Brasília e principalmente uns dos outros. Ao passar pela Torre de TV, percebemos perplexos que a famosa fonte luminosa estava ligada. Nenhum de nós três havia jamais visitado a fonte, que passara anos desativada. Sem hesitar, sugerimos quase em coro. <br> <br>_ E se parássemos ali? <br> <br>Encostamos o carro e ficamos surpresos pela segunda vez: o lugar estava lotado! Olhamos uns para os outros, comentando que ali nem parecia Brasília. Nesse instante, como se tudo fizesse parte de um grande plano para nos ensinar a olhar com outros olhos o que já conhecemos, o espetáculo começou: a fonte passou a jorrar água nas mais variadas formas, em pequenos e grossos esguichos que se entrelaçavam, em nuvens de vapor, em chafarizes menores que moldavam o líquido como se fossem chamas (não me pergunte como faziam isso). Tudo sincronizado com luzes e música, chegando ao requinte máximo de haver projeções de imagens e filmes nas cortinas formadas pelas minúsculas partículas de água. <br> <br>Nosso espanto tornou-se ainda maior quando um de nós reparou em algo que os outros ainda não tinham notado. <br> <br>_&nbsp; Vejam, o lugar está cheio de pipoqueiros. Quem quer um saquinho? <br> <br>Peguei um da salgada e continuei a observar a fonte, cercado de crianças. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94117</link>
		<pubDate>Fri, 18 Nov 2011 12:03:57 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<img style="width: 479px; height: 335px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e1bfb31be8478f51f4e3e57a2933a8e4.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Foto de Aldori Silva/1986 <br> <br><font size="6"> <br>Sonso silêncio</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Passou em sonso silêncio o aniversário de 55 anos do Catetinho. A data numericamente forte, graficamente plástica e sonoramente melodiosa merecia um rol de comemorações que reacendesse no brasiliense o gosto pela história da cidade. Há um ingrediente heróico, mítico até, na construção do Palácio de Tábuas. Concluído em dez dias (ou um pouco mais), num lugar sem estradas de acesso, sem o Catetinho passou a representar a faísca de possibilidade de Juscelino construir e transferir a capital em menos de quatro anos. <br> <br>Poderia ser uma casa insossa de tábuas, Niemeyer desenhou um palácio sobre pilotis. Trouxe o traço da arquitetura moderna para o sertão goiano e, com madeira e prego, ergueu um edifício ao mesmo tempo elegante e singelo. O Catetinho fortaleceu a crença na louca ideia de se construir Brasília em tão pouco tempo e em lugar tão desprovido de recursos materiais e humanos. <br> <br>Há, no Palácio de Tábuas, uma simbologia brasiliense concentrada em madeira e em móveis e objetos dos anos 1950. Nele, convivem a mais rude tradição interiorana brasileira (do fogão a lenha, do bule de alumínio, do chão de cimento queimado) com as novidades da arquitetura e do mobiliário moderno. <br> <br>Nele, se concentram o destemor e a inventividade do operário brasileiro, a lealdade e a intrepidez dos amigos de Juscelino, a boa vontade dos goianos e a mão decisiva do primeiro herói brasiliense, Bernardo Sayão. Ou seja, o Catetinho foi o ensaio do que viria a ser a construção de Brasília. Um exercício retumbante de capacidade brasileira para suportar dificuldades, improvisar soluções e produzir beleza.  <br> <br>A construção do Catetinho (e a de Brasília) foi uma demonstração da doce ingenuidade brasileira. Sem a crença no improvável, sem a inteira confiança em Juscelino, não seria possível erguer em dez dias um casarão sobre pés de palito no meio do mato, a mais de 50 quilômetros da cidade interiorana mais próxima. O espírito aberto dos brasileiros foi fundamental para levar adiante projeto tão inverossímel quanto o Catetinho e Brasília.  <br> <br>Nada disso, porém, parece motivar os responsáveis pela proteção do Catetinho. Sabe-se que a Secretaria de Cultura lançou edital para a reforma da edificação, mas que estava tento dificuldade para conseguir encontrar uma empresa com capacidade para proceder a restauração. Procedimentos adotados às vésperas do aniversário de 55 anos. <br> <br>Quem, por dever de ofício, deveria se lembrar do aniversário de 55 anos do Catetinho, em 10 de novembro passado, fez de conta que não tinha nada a ver com isso. O mais importante monumento em madeira da capital continua fechado à espera de uma reforma que deveria ter sido concluída, segundo havia anunciado a Secretaria de Cultura, a tempo das comemorações.&nbsp;&nbsp;  <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=94116</link>
		<pubDate>Fri, 18 Nov 2011 11:59:09 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 275px; height: 583px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7b60ee7eb4b5721176867f3d0faa3588.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-style: italic;">Drury</span>, Gustave Doré</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Terrível humilhação</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Nenhuma outra imagem traduz com mais nitidez o modo como Brasília trata seus habitantes do que as escadas rolantes da Rodoviária. Ontem pela manhã, por volta das 10h, só uma das oito escadas estava funcionando. Uma única para mais de 600 mil usuários do mais importante terminal de ônibus de Brasília.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Vinte minutos, não mais que isso, são suficientes para testemunhar as mais humilhantes situações a que são submetidos os passageiros de ônibus na Rodoviária. Em especial, aos muitos deficientes físicos, velhinhos e grávidas que têm de vencer os 52 degraus que separam os pontos de descida da plataforma de acesso aos setores centrais da cidade. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Vinte minutos nos quais a indignação alcança intensidade insuportável — para quem ainda se compadece com o sofrimento dos cidadãos comuns. Uma mulher de aparentes 50 anos, com uma grave corcunda que faz seu meio corpo ficar permanentemente inclinado para frente, tem de descer do mezanino à plataforma inferior da Rodoviária. Carrega duas sacolas, dois saquinhos plásticos e uma sombrinha. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A única escada rolante em funcionamento está correndo para cima, da plataforma inferior ao mezanino, em sentido contrário ao da mulher. Ela parece não esperar por alguma facilidade para a sua locomoção de um andar a outro. Desce pela escada de pedra preta (26 degraus), agarrando-se ao corrimão. Só ela sabe o risco que corre de cair e é por isso que tenta manter o equilíbrio deslizando quase abraçada ao corrimão de aço inox.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Há décadas que as escadas rolantes da Rodoviária não funcionam direito. Desde que moro aqui, há quase 30 anos, que elas vivem quebradas. Se antes era apenas uma ou outra, agora sete das oito estão paradas. Argumenta-se que o equipamento é antigo, que não há peças de manutenção. Os brasilienses engolimos essa lengalenga desde a década de 1980, pelo menos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Então, tá. Mas, de onde vieram os recursos para comprar e instalar out-door (destinados à publicidade) na parede diante das escadas que vão do mezanino ao primeiro andar? É a iniciativa privada, se dirá. Por que não achar saídas também para o essencial — a locomoção de usuários de ônibus, especialmente de deficientes físicos?</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A humilhação a que são diariamente submetidos os brasilienses que precisam da Rodoviária se consuma com um recém-instalado out-door eletrônico. Arrastando-se pelas escadas sujas, o usuário acompanha as campanhas publicitárias faiscando no vídeo gigante. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>As escadas rolantes da Rodoviária são a mais cruel representação da capital do país. Uma cidade que despreza e humilha as populações pobres, os deficientes em particular, até mesmo no elementar direito de subir e descer as escadas que existem desde a inauguração da cidade.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
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		<pubDate>Fri, 18 Nov 2011 11:53:36 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 414px; height: 352px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/09cd0c7355d2875e050f6f35b4d9aef6.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Lucien Freud <br><font size="5"> <br></font> <br> <br> <br><font size="6">Cronista em crise</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br>Informo a quem interessar possa que a cronista deste pé de página está em crise e tem se perguntado afinal qual o sentido de tudo isso.  <br> <br>Sentido não há, sentido se inventa. Tem gente que tem uma facilidade incrível para dar sentido às coisas do mundo. A outros não resta saída a não ser lutar com as unhas e os dentes para se manter vivo. Há quem tenha o dom de se enganar ou de se contentar com a capa das coisas. Há quem viva sentado num bar à espera de que o sentido se aproxime e leve-o pelas mãos até o oráculo do mundo. <br> <br>Boiando no rio de minhas desolações, lembro-me de Raduan Nassar, o estupendo autor de Um copo de cólera que, no auge do sucesso, em 1984, largou a literatura foi cuidar de uma fazenda na cidade onde nasceu, Pindorama. (Dizem que já voltou a morar na cidade de São Paulo. Está com 75 anos).  <br> <br>Descubro, no percorrer solitário de minhas divagações, que Arnaldo Jabor também está meio solto no ar. Em suas crônicas publicadas no Estadão, vem desenrolando o novelo de suas memórias de infância. Na de ontem, o cineasta-cronista-polemista se pergunta o que afinal está procurando: “… na vida que levo, comentando política, fiquei ultimamente com desejo de tocar em alguma coisa relevante, alguma coisa que (pareça) ‘real’ e que (pareça) revelar o mistério inalcançável da existência (oh, esperança inútil…).” <br> <br>É isso! Um cansaço do blablablá ressoante do noticiário político daqui e de alhures, um enfado diante do conversê compulsivo das redes sociais, um vazio diante dos excessos de opiniões, razões, juízos e jurisprudências sobre isso, aquilo e aquilo outro. “Esta é a sensação de vazio que me toma ao ver o mundo tão cheio de acontecimentos bombásticos, mas cada vez mais longe do ‘humano’ originário”, escreve Jabor.  <br> <br>Se já não era fácil lidar com a implacável realidade, ficou bem pior agora que a internet nos empurra goela a dentro, em tempo real, as misérias e as tragédias humanas acontecidas em Cabrobó e no mais distante país asiático. A rede está nos roubando o oxigênio onde respiram os sonhos. Como se não houvesse saída: ou nos tornamos pragmáticos ou adotamos o cinismo como tática de sobrevivência ou, os mais frágeis, nos entregamos à loucura deambulante.  <br> <br>Leio Jabor e me consolo, como quem diz: ‘Não sou só eu que está achando tudo absurdo e oco’. O diretor de Eu te amo está esburacado de incertezas: “Do meu canto, diante de tantas ‘certezas’ modernas, também quero voltar-me para as ‘coisas vagas’ de que falava Valéry, as ‘coisas ausentes’, sem as quais é impossível viver. E as ‘coisas vagas’ talvez estejam em nossa mínima experiência pessoal.” <br> <br>Quanto a mim, falta-me o invisível, o aparentemente desimportante, o que não dá lucro; o que não faz sucesso; falta-me o anônimo, o verdadeiro, o que vem sem maquiagem, sem dissimulações; falta-me a crueza mineral, a inteireza dos bichos, a experimentação humana; falta-me encontrar o que está debaixo da casca do mundo.&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
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		<pubDate>Fri, 18 Nov 2011 11:49:39 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 430px; height: 435px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/7e51a5853c553ec40e9732057ae12934.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Foto de Marcel Gautherot <br> <br><font size="5"> <br></font><font size="6"> <br>Reais e surreais</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Severino Francisco</span> <br> <br> <br>Brasília é uma cidade partida <br>ela está rigorosamente dividida <br>em três classes sociais: <br>os que ganham em merrecas, <br>em reais e em surreais. <br>&nbsp; <br>Os que ganham em merreca <br>sempre ouvem o som da cuíca  <br>roncando de fome na barriga <br>e por isso partem para a briga <br>vendem bala e cafezinho barato,  <br>fita pirata e churrasquinho de gato  <br>fazem malabarismos nos sinais <br>sem cartas para entrar no jogo <br>engolem vento e cospem fogo <br>em atividades parainformais <br>se metendo em altas virações <br>revirando os lixinhos e os lixões <br>vestidos em andrajos ou seminus <br>disputando com os urubus <br>restos de ossos e de maçãs  <br>sem saber o que comer amanhã <br>com um sorriso e o coração aflito <br>sempre repetindo o verso: <br>"Dinheiro no meu bolso  <br>é língua de mosquito."  <br> <br>Os que ganham em surreal <br>a moeda paralela da capital  <br>trafegam em Mercedes importada <br>suntuosa e fartamente equipada <br>com borbulhante cascata artificial  <br>golfinho acrobático especial  <br>janelas de proteção com vidro fumê  <br>site de fofocas projetado em 3D  <br>e mordomo de filme inglês de suspense <br>numa gravidade que beira o nonsense  <br>em postura hierática e pose glacial  <br>se abanando com o Diário Oficial. <br>Compram imponentes castelos <br>mudam a cor dos cabelos  <br>usam tênis com air bag duplo <br>ar refrigerado anti-chulé cêntuplo  <br>controle da base do movimento  <br>e sensor de estacionamento.  <br>Sugam da cidade a carótida <br>como se fossem Dráculas <br>sem devolver nada em troca <br>não sabem o que é trabalhar <br>a não ser que se nomeie trabalho <br>o ofício nefando e parasitário  <br>de fazer lobbie, especular e roubar.  <br>&nbsp; <br>Os que ganham em reais <br>não têm as benesses e as regalias <br>dos que faturam em surreais <br>precisam matar um leão por dia <br>e ainda levam respingos da fama <br>construída pela nefasta minoria <br>dos que jogam suspeita e lama <br>na frágil imagem de Brasília  <br>com suas inúmeras falcatruas <br>desvios, fraudes, desfalques, <br>mensalões e trambiques. <br> <br>Felizmente, a imensa maioria <br>da população de Brasília <br>constituída por quase 7 milhões <br>não aprova e nem compactua <br>com os desmandos e as falcatruas <br>dessa laia de pilantras e ladrões. <br>Por favor, não confunda Brasília <br>com meia dúzia de quadrilhas <br>que faturam serviços em surreal <br>e entraram pela porta errada <br>deviam adentrar na Papuda <br>e foram parar na Câmara Distrital <br>ou nos gabinetes da Esplanada. <br> <br>Brasília é uma cidade partida <br>ela está rigorosamente dividida <br>em três classes sociais: <br>os que ganham em merrecas, <br>em reais e em surreais. <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
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		<pubDate>Fri, 11 Nov 2011 14:03:02 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4cc85bfd4940f4c234b25b3bdde08fce.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Foto de André Bonacin</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A última crônica</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Se eu tivesse de escrever a última crônica, sabendo que seria a derradeira, o que escreveria? A pergunta me convoca a fincar pegadas no fundamental de minha vida de cronista da cidade. O exercício não é levianamente beletrista. É um modo de experimentar a finitude, de me lembrar que tudo muda o tempo todo no mundo, de me acostumar às curvas do destino. De aceitar que eu termino pra assim deixar que o gostoso da vida permaneça em mim por mais tempo. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Se esta fosse a minha última crônica, escreveria sobre a noite em que, aos três meses de idade, dormi num hotel de madeira da Cidade Livre. Que terá ficado desse sono cercado de tábuas que eu não sei?</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Escreveria sobre a terra cor de ferrugem, as árvores cor de coruja, o céu cor de mar e sobre a procura desesperada das cores na cidade de vazios transbordantes.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Escreveria sobre a exasperada necessidade de dar sentido aos vãos infinitos de Brasília. Escreveria sobre o confronto que cada um de nós, brasilienses, temos de enfrentar diariamente. O embate consigo mesmo, diante de uma paisagem excessiva — de verde, de céu, de horizonte, de carro, mas avarenta de gente, de calçadas, de improvisações urbanas, de espantos miúdos. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Escreveria sobre a natureza do casamento com Brasília. É um pacto que nos obriga a conhecer muito bem as idiossincrasias do parceiro. A entender que os defeitos não são poucos, mas a existência da cidade, por si só, nos fortalece, amplia em cada um de nós a identidade brasileira. Qualquer ideia de Brasil que não leve em conta Brasília não para em pé. O casamento com a extraordinária cidade do Planalto Central nos permite apreender a Nação a partir de um ponto central que nos interliga com todo o território nacional em igualdade de condições. Brasília iguala o Brasil.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Se esta fosse a última crônica, eu escreveria sobre a Brasília que ainda está no futuro. Sobre o desejo de forjar uma nação partindo de um núcleo de incandescente saber, planejado no auge de uma arquitetura racional, econômica, ousada, de inspiração estrangeira sob o domínio da genial inventividade brasileira. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Se fosse a derradeira, escreveria sobre a pobre Brasília, ocupada e dominada por uma gente que só quer se apoderar do tesouro esparramado sob o céu.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Brincar de morrer é muito arriscado, vai que algum anjo acorda com a pá virada? </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Mas não se arriscar também é morrer silenciosamente.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 17:14:27 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 375px; height: 290px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/23c09a6249b79a9f3be827713ee38c94.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">Mané Garrincha</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Severino Francisco</span> <br><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="2"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" size="2"><p>Quando livro o computador e começam a saltar faíscas, uma nuvem de fumaça  envolve o ambiente e ouço um sonido de disco-voador, eu já sei que é Nelson  Rodrigues tentando enviar um e-mail mediúnico. Ele quer comentar a ideia da  mudança do nome do Estádio Mané Garrincha para Estádio Nacional de Brasília:  "Amigos, que nos distingue a nossa condição de humanos é o espanto. Sem ele, nós  nos reduzimos androides, bestas quadradas com um chip em lugar da alma,  verdadeiros quadrúpedes de 28 patas. A insistência na mudança do nome do Estádio  Mané Garrincha para um anódino Estádio Nacional de Brasília é um fato que  deveria nos provocar a mais funda estupefação e indignação. </p> <p>Mas, vamos com calma, examinemos as alegações dos cartolas responsáveis pelo  ato administrativo insensato. Eles argumentam que Garrincha é uma referência  afetiva da comunidade brasiliense, mas a designação "Nacional" imprime uma  dimensão maior de capital do país. Santíssima ignorância, antes de Garrincha e  Pelé, o brasileiro tinha medo de ser laçado pela carrocinha que pegava cachorros  vadios nas ruas. Foi o futebol que nos deu, pela primeira vez, o orgulho de  sermos brasileiros, a consciência de que poderíamos vencer pelo talento.  Garrincha é nacional, internacional e cósmico. Ele representa o futebol  brasileiro mais do que ninguém. </p> <p>Eu já escrevi que o videotape é burro, não tem imaginação, mas tenho de me  retificar. Além de burro, ele é negligente, relapso e cego, pois só registrou  uma parte mínima das diabruras que o Mané fazia pelos estádios do Brasil e do  mundo. Eu vi tudo pelo radinho de pilha. Na Copa de 1958, os russos analisaram  no computador todos os passos do Mané e chegaram à conclusão genial: Garrincha  só driblava para a direita. Mas, vejam só a ironia, quando começou o jogo, ele  deixou os beques russos sentados, só faltou Chopin e Zeca Pagodinho de fundo  musical .Garrincha driblou até as barbas de Rasputin. </p> <p>Parece que os cartolas têm vergonha do nome Garrincha. Não deveriam ter. Mané  é uma das pessoas que mais contribuíram para criar a mística do futebol  brasileiro, fonte de tanto lucro para os marqueteiros. Não sou contra o  marqueting; sou contra o marketing burro, que atenta contra a nossa soberania  futebolística. Daqui a pouco, os cartolas fazem um acordo com uma multinacional  e mudam o nome para Estádio Nacional de Brasília Hans Fritz Phillips McDonads  Budweiser Emirades Chucrutis. </p> <p>Não existe melhor imagem do que a do Garrincha. Antes dos jogos, bastava  botar no telão os dribles do Mané para ouvir a gargalhada cósmica da massa. Ele  era o Charlie Chaplin ou o Sobrenatural de Almeida de chuteiras. Meu Deus, se  Garrincha estivesse vivo, o Mano Menezes poderia colocar a Cida Barbosa,  subeditora do caderno de esportes do Correio, de centroavante. Ela ficaria  fazendo palavras cruzadas, lendo revistas com fotos dos jogadores italianos e  ainda seria artilheira. </p> <p>Não acredito que vamos entrar nesta Copa em nossa casa andando de quatro e  lambendo as botas dos velhinhos gagás da Fifa. E precisamente no momento em que  começamos a nos livrar do complexo de vira-latas e falar de igual para igual com  as grandes nações do mundo. Essa tentativa de mudança de nome do estádio Mané  Garrincha é um crime hediondo contra a memória do futebol brasileiro. Por que  não, Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha? Deixem o santo nome do Mané em  paz." </p></font> <br>  </div></div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93769</link>
		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 16:41:47 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 289px; height: 399px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/3b5896011b70c3f9243929e1ca7dd201.jpg"> <br><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Abdias em cena</span> <br><font size="5"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">O preto Abdias</font> <br><span style="font-style: italic;"> <br> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Nelson Rodrigues gostava de repetir, só pra provocar: “Abdias é o único preto do Brasil”. Isso, bem antes de o país começar a ter coragem de reconhecer que a tinta da pele brasileira é muito mais escura do que era capaz de admitir. “O que eu admiro em Abdias do Nascimento — dizia o dramaturgo — é a sua irredutível consciência racial. Por outras palavras, trata-se de um negro que se apresenta como tal, que não se envergonha de sê-lo e que esfrega a cor na cara de todo o mundo.” <br> <br> <br>Ao tempo do apartheid, Abdias queria iniciar um movimento no Brasil contra a presença da África do Sul numa das Olimpíadas. Outras nações ensaiavam reivindicação semelhante. Nelson o desestimulou por completo: “Não conte com o Brasil, não conte com o brasileiro. Ninguém aqui fará nada por negro nenhum”. Abdias, escreveu Nelson, era “o único negro com plena, violenta, trágica consciência racial. Era um negro exultante de o ser. A cor era a sua perene embriaguez.” <br> <br> <br>Três décadas depois, ao receber o título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia, Abdias deu provas de que continuava expressando sua “trágica consciência racial”. Em seu discurso de agradecimento, o homenageado não suavizou: “Recebo um título de doutor da mesma academia que há décadas venho questionando e contestando por sua postura de marginalizar, humilhar, desprezar e discriminar o povo afrodescendente. Pois reitero: continuo questionando e contestando a academia brasileira.” O novo doutor honoris causa citou, então, as pesquisas do médico Nina Rodrigues na UFBA, nas quais considerava a religião afrobrasileira como “uma manifestação de patologia mental”, segundo palavras de Abdias.” <br> <br> <br>Era assim (e a realidade não mudou muito) que os brasileiros não-negros tratavam os negros. Mas, desde os anos 1930, o paulista Abdias do Nascimento, filho de uma doceira e um sapateiro, foi militante “irredutível” da negritude brasileira, artista plástico, poeta, escritor, dramaturgo, duas vezes senador (assumiu a suplência de Darcy Ribeiro), uma vez deputado federal, já em 1938 organizou um inimaginável Congresso Afro-Campineiro, em Campinas (SP), para articular um movimento de resistência ao preconceito racial. Em 1941, por haver resistido a agressões racistas, foi condenado e levado ao Carandiru. Três anos depois, fundou o Teatro Experimental do Negro.  <br> <br> <br>Até sua morte, em 24 de maio deste ano, aos 97 anos, Abdias nunca deixou de denunciar o racismo brasileiro. Indicado em 2010 ao Prêmio Nobel da Paz, o líder negro disse, em entrevista à Folha de S. Paulo, que a tese segundo a qual o Brasil é um país miscigenado é uma “cobertura moral para o racismo”. <br> <br> <br>Por tudo isso, e o mais que não cabe neste pé de página, receber o 1º Prêmio Abdias doNascimento, na categoria mídia impressa, foi a maior honraria que minha longa vida profissional me concedeu. Obrigada. <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93711</link>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2011 16:30:50 GMT</pubDate>
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		 <br><img style="width: 427px; height: 279px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5d3e9df88c67f44900ce52672c95b6bb.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="2">Ed Alves/DA Press</font> <br> <br> <br><font size="6"></font> <br> <br></div><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5">A batalha perdida contra as cigarras </font> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Sérgio Maggio</span> <br> <br> <br>Esta é a primeira primavera de Júlio em Brasília. Ele não sabe bem o que foi a seca de umidade de rachar os lábios. Chegou aqui num dia de temporal que lavou a grama esturricada pelo sol. Não viu os ipês roxos e amarelos florescerem. Não sentiu o desespero pela falta de chuva, nem a beleza do Cerrado que dribla a natureza e mantém-se digno sem água a banhar suas raízes. O rapaz, que veio para cidade a fim de enfrentar a maratona de concursos públicos, anda triste e arranhando as paredes do apartamento de tanta raiva. Não consegue encarar a sinfonia diária e ininterrupta de cigarras que fazem um concerto na árvore, cuja copa quase entra na sala de estar. <br> <br> <br>Nos primeiros dias, Júlio ficou tão nervoso que descarregou dois tubos de inseticida aerosol sobre as folhas da árvore. Tudo em vão. As cantantes, alheias à tentativa de genocídio, soltaram normalmente a voz. O que deixou o rapaz ainda mais enlouquecido.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desesperado, ele resolveu montar uma espécie de espantalho e colocar na janela. Viu isso em algum desenho animado da infância. Pegou um melão e enfiou num cabo de vassoura, vestido com um abadá do último carnaval em Salvador. Pintou os olhos, abriu, com uma faca, uma bocarra ameaçadora e pôs o mostrengo amarrado na janela com vista para a superquadra. <br> <br> <br>Quase um milagre ocorreu. As cigarras pararam por alguns minutos. Júlio começou a bailar de felicidade pela casa a sua dança da vitória. Mas eis que, segundos depois, o “sisisisissi” foi retomado com intensidade nunca ouvida, como se as bichinhas estivessem gargalhando do ato patético de Júlio. Nervoso, o homem arrancou a carranca da janela com tanta força que o melão se desprendeu do cabo de vassoura e espatifou, em mil estilhaços, o vidro caríssimo da janela. <br> <br> <br>Descontrolado, Júlio seguiu para o aparelho de som e despejou toda a sua coleção de heavy metal sobre o chão da sala. No corre-corre, cortou o pé. Quando pulava que nem um saci desgovernado de tanta dor, sentiu que as cigarras aumentaram o tom. Ali, decidiu levar a questão para o campo pessoal. Mesmo com o dedão pingando sangue, ele derramou sobre o piso a coleção de heavy metal. Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple foram lançados sobre a lajota branca e manchada de vermelho-sangue. <br> <br> <br>Com as mãos trêmulas de ódio, lançou o primeiro CD em volume total. As cigarras respondiam à altura. O embate seguiu horas a fio. Ninguém parecia dar trégua. Júlio mergulhado nos acordes de guitarras e os insetos poderosos em seus agudos e graves.  <br> <br> <br>De repente, a porta do apartamento foi posta abaixo. Policiais, bombeiros, síndicos, pioneiros aposentados e até uma patronesse da alta sociedade adentraram no recinto enfurecidos. Júlio sem entender nada, Júlio jogou-se no chão. Alguém gritou que ele estava drogado e tinha tentado suicídio. A patronesse desmaiou quando viu o chão riscado de sangue. O homem foi imobilizado, levado ao hospital para exames e, depois, à delegacia para ser autuado como perturbador da ordem pública. Os polícias lacraram a porta, desligaram o som e a normalidade enfim voltou àquela superquadra com o doce e insistente “sisisisisi” das cigarras. <br></div> <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93707</link>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2011 13:51:38 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 437px; height: 289px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/20f89e420434cb4cba975fd526515287.jpg"> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"> <br>A chuva</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Josenilson Veras</span><br style="font-style: italic;"> <br>&nbsp; <br>Ouvir a chuva, seu barulho de chuva. Barulho que só chuva faz. Sentir o cheiro que a chuva despertada na terra aquecida e desejosa de água. A presença da chuva sempre me leva a pensar em bonança, em riqueza brotada da terra com generosidade e sempre me leva a agradecer.  <br> <br> <br>Agradeço e penso com um pouco de culpa no mal que fazemos a nosso tão delicado planeta azul. Nessa esfera em que vivemos, um pequeno, frágil e caprichoso equilíbrio natural nos permite a vida em sua superfície. Não conseguiríamos sobreviver nem muito abaixo nem muito acima dessa pequena porção de sua massa que é como uma pele. E nós que nos sentimos os tais, a ponto de provocar radicais mudanças nesse ambiente.  <br> <br> <br>Pois tudo isso ela me traz: alegria, culpa, melancolia e sempre um quê de agradecimento pela sua presença bem vinda. Para mim, que sou sertanejo, e a chuva um artigo de luxo, impressiona-me a pontualidade da estação chuvosa aqui no Brasil Central. No sertão não temos isso. Tem anos que chove e outros que não. Nunca é certeza a presença dessa senhora benfazeja e solidária.  <br> <br> <br>Sei que a chuva tem sua face ruim, como tudo na natureza e na vida. Desde uma inconveniente goteira em casa até a mais triste inundação. Mas não olhemos esse lado. Pela sua riqueza e alegria em nos molhar, ela mais merece nosso beijo que nossa cara feia.  <br> <br> <br>Lembro a alegria de quando menino, no sertão, em tempo quente, a chuva chegava de repente e mudava a face do mundo! Lembro dos banhos de chuva, meninos nus, divertindo-se nas bicas do quintal de casa. Não faz muito, em visita a casa de meus pais, vi meu pai, aos oitenta e tantos anos, fazer isso com imensa alegria... mas vestido!  <br> <br> <br>Percebo que a chuva tem vários coadjuvantes no seu show: A brisa gostosa que às vezes a antecede, o barulhinho no telhado, o seu cheiro e, muita vezes, para a coisa toda ficar apoteótica, o arco-íris! Não tem como não gostar da chuva tropical, desse espetáculo formado a partir de sol, umidade e água em abundância. <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93391</link>
		<pubDate>Thu, 03 Nov 2011 13:48:40 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">Rubem e Eliane</font> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/0940d46aea471d4daa1feee91f124d02.jpg"> <br> <br><font size="5">&amp;</font> <br> <br><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/6fc663d0102dae210b82349b642c38b9.jpg"> <br> <br> <br>Dois textos lidos nos últimos dias acalentaram minha alma por vezes tão desconsolada diante dos males do mundo e dos meus próprios. Os dois escritos tratam da finitude e da urgência de viver. Um deles foi a crônica de despedida de Rubem Alves, colunista da Folha de S. Paulo. Aos 78 anos, o articulista decidiu que não queria mais ocupar o nobre espaço que o jornal lhe destinava uma vez por semana. O outro foi um perfil da jornalista, escritora e agora documentarista Eliane Brum, feito por Milly Lacombe. <br> <br>Rubem e Eliane tomaram decisões dramáticas. Aos quase 80 anos, o cronista decidiu não mais ocupar o nobre espaço que o jornal lhe destinava uma vez por semana. Aos 45, a escritora largou o emprego na revista Época, já faz algum tempo, para ser sua própria chefe. “Queria trabalhar onde bem entendesse, ir ao cinema segunda à tarde e escrever domingo à noite.”  <br> <br>O cronista suspeita que perdeu o juízo. Afinal, comenta, dois dos maiores sonhos de todo escritor é virar best-seller e ter seus textos publicados num jornal importante. Mas Rubem Alves está cansado. “Meus 78 anos estão pesando”. Quer se ausentar do mundo em vida, quer renunciar à “obrigação de brilhar”, não quer ser convocado a escrever quando sente que já disse tudo, mesmo que não seja assim.  <br> <br>Cita o místico Ângelus Silésius quando disse que os nossos dois olhos vêm mundos diferentes, um vê as coisas efêmeras e o outro, as eternas. “Jornais, diz o cronista, são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas.” Rubem Alves, então, se despede. “E é por isso que vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha alma anda pelos caminhos do Robert Frost (poeta norte-americano), porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente.” <br> <br>Foi para ter tempo para o que verdadeiramente interessa que Eliane Brum deixou o emprego e decidiu trabalhar pra si mesma. Antes, havia acompanhado a história de Alice, paciente terminal de câncer. Com ela aprendeu a exata importância do agora. “A Alice me disse uma frase que ficou em mim: ‘Quando tive tempo, meu tempo tinha acabado’. Com mais de 40 prêmios de jornalismo, Eliane decidiu largar o emprego numa das mais importantes revistas semanais do país. “Me dei conta de que precisava me reapropriar do meu tempo.”  <br> <br>Eliane e Rubem esticaram o braço e tocaram na morte, na finitude da vida. Perceberam, cada um na sua hora, que não existe o depois, e — no meio do voo — mudaram o roteiro da viagem. Ele decidiu se ausentar das obrigações (uma delas, a de fazer sucesso a cada crônica). Ela escolheu o país da autonomia, onde quem manda nela é ela mesma ou quem ela aceitar como chefe temporário. “Quero chegar ao fim do dia e achar que vivi bem aquele dia. Que amei bem. Que trabalhei bem. Que estava lá”. <br> <br>A liberdade entristecida do Rubem e a liberdade atrevida da Eliane alargam o peito, renovam o ar, acolhem a alma. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93400</link>
		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 12:42:53 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<img style="width: 419px; height: 277px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/245346a376521667d992660338578fd0.jpg"> <br> <br> <br> <br><img style="width: 266px; height: 407px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/f5286ed3bf2b9913476433b653d936b4.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Hotel das Nações <br> <br> <br><font size="6">Morte em Brasília</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>A implosão de dois hotéis, o das Nações e o Alvorada, no Dia de Finados tem um doloroso sentido simbólico: os prédios são dois dos últimos representantes da arquitetura moderna dos anos 1960 e 1970 no Setor Hoteleiro Sul. Como a lei do tombamento protege somente as escalas de Brasília (o que não é pouco, é fundamental), as edificações vão virar pó sem que nada possa ser feito para evitar o sepultamento de duas peças do patrimônio histórico da nova capital. Logo, não haverá o registro do tempo histórico no SHS. Será um setor sem passado, sem raiz, sem lastro cultural. <br> <br>As grandes metrópoles europeias parcial ou inteiramente destruídas durante a Segunda Grande Guerra tiveram o cuidado de recuperar o patrimônio histórico sem impedir o surgimento de novas tecnologias de construção e de nova arquitetura. A reconstrução de Berlim, no pós-guerra, levou em conta a imagem que a população havia guardado de sua antiga cidade. Era preciso recuperar a identidade do lugar para reencontrar a si mesmos após o caos. <br> <br>O mesmo princípio, com variações de intensidade, norteou a reconstrução de outras capitais europeias. Tanto assim que, apesar de reduzidas a escombros depois da guerra, elas mantêm representações de várias camadas de tempo, das arquiteturas de períodos distintos, dos longínquos e dos mais recentes. Era preciso inventar um novo mundo, consertando o presente e projetando o futuro, mas só seria possível seguir adiante recuperando pelo menos parte do que a guerra havia destruído.  <br> <br>Sem passado, homens e cidades são fantasmas ocos de sentido.  <br>Brasília não passou por nenhuma guerra, mas o Setor Hoteleiro Sul vem sendo bombardeado pela arquitetura pós-moderna, seja lá o que for isso. Com exceção do Hotel Nacional, obra importante do arquiteto Nauro Esteves, o SHS enterrou praticamente toda a arquitetura do período inicial de Brasília. Na cidade que tem um turismo cívico e arquitetônico intenso, o desmanche das edificações que representavam o período inaugural de Brasília é, no mínimo, um constrangimento, é a declaração de um fracasso cultural.  <br> <br>A morte do Hotel das Nações, obra de 1965, e do Alvorada Hotel, projeto de 1975, está sendo tratada com indisfarçável contentamento, pelo ponto de vista dos tecnocratas da implosão e dos construtores de prédios. Informa-se que as duas novas unidades teriam 17 pavimentos, contra os 12 dos projetos hoje sepultados. Como, se a lei do tombamento protege os gabaritos? O superintendente do Iphan em Brasília, Alfredo Gastal, diz que o número original de andares deve ser mantido.  <br> <br>A sucessão de fatos tem mostrado que as construtoras exercem um poder descomunal sobre os destinos de Brasília. Nenhum poder constituído parece disposto a barrar a voracidade dos devoradores da história e da identidade da capital-patrimônio da humanidade.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93347</link>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2011 15:28:08 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/21a384fbd2bdf4e10664a0606f3f4914.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">Nelson Cavaquinho</font> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><font> <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><font>Por Severino Francisco</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Saíram tantas matérias na passagem dos 100 anos de Nelson Cavaquinho, que só  me restou a opção sobrenatural de realizar uma entrevista mediúnica com o genial  sambista. Fala, mestre!</font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>—<b> Você nasceu no mesmo dia de Garrincha e vem sendo chamado de Garrincha  do samba. O que pensa sobre isso?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>Quando esteve na terra, você bebeu todas e foi bastante  irresponsável…</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Eu não sei porque tu falas mal de mim, se eu tenho defeito, Deus me fez  assim. Sempre fiz o bem, hei de ter o que mereço, a felicidade deve ter meu  endereço.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>É verdade que, certa vez, você ficou muito doente, os amigos o  abandonaram e foi parar no hospital? E a única pessoa que o amparou foi uma  certa Dona Carola?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Hoje, eles fogem de mim, mas não faz mal. Amigo é só pra levar meu capital.  Se não fosse Dona Augusta e a Dona Carola, eu saía do hospital de camisola.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>—<b> Por que, quando ganhava dinheiro, você torrava tudo com os boêmios e os  mendigos na rua?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Não sei negar esmola a quem implora caridade, me compadeço de quem tem  necessidade. Embora possa sofrer ingratidão, não negarei um pão, eu nunca pude  evitar de praticar o bem porque eu posso precisar também. Não me arrependo de  pensar assim, pois amanhã não sei o que será de mim.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>Quando você foi traído por quê não desceu o braço nas mulheres como era  costume no morro?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Vingança, meu amigo, eu não quero vingança, meus cabelos brancos me obrigam  a perdoar uma criança.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>Você acredita na reencarnação. O que dirá quando voltar a terra?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Sei que amanhã quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha bom  coração. Alguns até hão de chorar e querer me homenagear fazendo de ouro um  violão. Mas depois que o tempo passar sei que ninguém vai se lembrar que eu fui  embora. Por isso é que eu penso assim, se alguém de quiser fazer por mim, que  faça agora.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>É verdade que fez um belo samba em parceria com Cartola e ele ficou  bravo porque você vendeu e ele viu um sujeito tocando a música no outro dia em  um bar?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Que injustiça, eu só vendi a minha parte. </span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>Você ainda se considera pessimista e um poeta da melancolia e da  morte?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">Graças a Deus, minha vida mudou, quem me viu, quem me vê, a tristeza  acabou. Com ela, aprendi a sorrir. Organizaste uma festa em mim, é por isso que  eu canto assim.</span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <b>Você acha que o Juizo Final fará justiça ou será algo  destruidor?</b></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font> </font></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>— <span style="font-style: italic;">O sol há brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações. Do mal será  queimada a semente, o amor será eterno novamente. </span></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><b></b></font> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><strong>Poderia dar uma mensagem final para os leitores do Correio?</strong></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>—</font><span class="421032516-01112011"> <span style="font-style: italic;">T</span></span><span style="font-style: italic;">enha paciência, meu amor, a fé é  tudo neste mundo, estamos com nosso senhor. Deus, o criador do céu da terra e do  mar há de dar forças para a gente caminhar. Vamos prá bem longe da maldade, Deus  que nos guie em direção à bondade.</span></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93135</link>
		<pubDate>Fri, 28 Oct 2011 11:35:41 GMT</pubDate>
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		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br><font size="6">A culpa é de Brasília </font> <br> <br><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>O leitor Ernandi Rodrigues Siqueira viu a camiseta com a inscrição “Sou brasiliense, mas sou inocente” e, indignado, ligou para a Redação. “Achei meio pejorativo, é uma provocação”. Há razões sanguíneas para a revolta de Ernandes: ele é filho de pioneiro, nasceu em Brasília no ano da inauguração da cidade, é casado com uma brasiliense e tem um casal de filhos brasilienses. O pai dele, o pernambucano José Alves Siqueira, veio para a nova capital em 1960 junto com a Câmara dos Deputados, do qual é funcionário. <br> <br>É contra o estereótipo que Ernandi se indigna. À venda na Torre de Tevê e na nova Rodoviária, a camiseta faz um humor perverso, preconceituoso e ofensivo. Parte do pressuposto que todo brasiliense é, em princípio, culpado. Ao mesmo tempo, retira dos acusados a sua verdadeira origem natal. <br> <br>A lista de envolvidos em corrupção das últimas temporadas de denúncias é geograficamente bem distribuída: há brasileiros das mais diversas naturalidades. Consultem-se as investigações em andamento na Polícia Federal, os processos nos tribunais superiores e nos tribunais estaduais. O mapa do Brasil está lá, todo demarcado. A corrupção é uma doença endêmica no território nacional.  <br> <br>A camiseta tenta passar Q-Boa na sujeira coletiva: culpa os brasilienses e livra a cara dos demais brasileiros. E nos atira, a todos os 2,6 milhões de habitantes, na vala suja da imoralidade cívica. ‘Sou brasiliense, porém, contudo, todavia não sou corrupto’, diz a frase com a conjunção adversativa perversamente colocada depois da vírgula.  <br> <br>A sujeira é uma condição genética de quem nasce em Brasília, é o que insinua a camiseta. Somos todos estragados, à exceção de quem veste a camisa traiçoeira. Esse, sim, está salvo, à custa de acusar os demais de sermos, todos, eticamente adulterados.  <br> <br>Mesmo nos mais devastadores episódios de corrupção no Rio, em São Paulo, em Salvador, em Manaus, não se tem notícia de que se tenha fabricado em série camisetas com a inscrição: ‘Sou carioca, mas sou inocente’, ou ‘Sou carioca, mas sou trabalhador’, ou ‘Sou baiano, mas não sou preguiçoso’, ‘Sou paulistano, mas não sou arrogante’, ‘Sou gaúcho, mas não sou machista’.  <br> <br>Como se houvesse certo constrangimento em ser brasiliense. Como se aceitássemos a pecha que nos é lançada sempre que aparece a imagem do Congresso Nacional na tela da tevê e o casal Bonner-Fátima começa a ler as últimas da corrupção tupiniquim. O imaginário brasileiro faz uma colagem de imagens: Esplanada/corrupção, Brasília/culpa. E a camiseta supracitada assina embaixo. <br> <br>Se Brasília tem culpa, é a de abrigar, por dever de ofício, corruptos de todo o país.  <br>&nbsp; <br>&nbsp;</div>
		]]>
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		</item>
		<item>
		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=93090</link>
		<pubDate>Thu, 27 Oct 2011 16:39:31 GMT</pubDate>
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		 <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/aba374c0a2df5d876b885e7cb02e58ac.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<font size="2"> <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">cheiros do Pará, no Ver-o-Peso</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">O cheiro da priprioca</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Priprioca é palavra de entonação erótica, de cheiro sensual e de origem botânica. Priprioca é o apelido de três espécies de plantas da Amazônia: a <span style="font-style: italic;">Cyperus articulatus</span>, a <span style="font-style: italic;">Cyperus prolixus</span> e a <span style="font-style: italic;">Cyperus rotundus</span>, a priprioca, o pripriocão e priprioquinha. Desde bem cedo, o aroma sedutor da priprioca invadiu o espaço aéreo de minha quarta-feira. Vasculhei os arredores de minha bancada de trabalho para tentar localizar de onde vinha a fragância, até finalmente descobrir que era a minha saudade quem aspergia o perfume.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Se assim era, que fosse. Eu estava disposta a matar essa charada. Saí em busca da priprioca, onde quer que houvesse, em Brasília, um sachê da planta. Encontrei numa loja de produtos da Amazônia. Desde então tento descobrir o que as reminiscências aromáticas querem me dizer. Quais são as suas intenções? Por que, do nada, o perfume que exala das barraquinhas do Ver-o-Peso invadiu meu dia útil com a evocação de alguma coisa que não sei o que é, nem o que pretende. </span> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A priprioca não veio sozinha. Trouxe com ela o cheiro de patchuli, de cedro, de sândalo, de sementes de cumaru, de pau-de-angola, ervas cheirosas do Pará. O aroma proustiano/caboclo da infância em Belém do Pará. Perfume indiscreto que representa uma das mais incisivas singularidades culturais do país, a do Norte do Brasil. Não se sabe com exatidão a origem do cheiro do Pará, mas é possível acreditar que se trata do entrelaçamento das três identidades formadoras do povo brasileiro, a africana, a cabocla e a portuguesa, os banhos dos rituais afrobrasileiros, a cultura popular do caboclo e as festas juninas originárias da tradição lusa. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Identidade — é essa a palavra que o cheiro forte de priprioca me trouxe sem quê nem por quê. Ninguém é exatamente isso ou aquilo, assim ou assado, mas pra ser uma unidade entre bilhões é preciso ser fiel ao que de fundamental te constitui como indivíduo. Leal até mesmo a seus erros e a suas dúvidas, até mesmo às suas imprudências, fiel aos seus devaneios, às suas intuições, ao que te provoca e convoca. Mesmo que as substâncias definidoras de sua singularidade estejam fora de moda, sejam de outra geografia, pertençam a outra cosmogonia. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Priprioca é uma das ervas do banho de cheiro do Pará. A receita vale para outras simpatias similares: esfrega-se as ervas nas mãos, dentro de uma vasilha d’água. Quando os aromas se abrirem e a água ficar cor de castanha, chegou a hora do banho que, reza a crença popular, limpa problemas do corpo, afasta o mau-olhado, atrai o amor, purifica a alma. A pele ficará impregnada de um forte aroma amadeirado. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Houve um tempo em que eu não dava importância ao cheiro do Pará. Achava-o adocicado demais, vulgar demais, supersticioso demais, turístico demais. Mas esse sachê de priprioca quer me conduzir a um lugar seminal — não sei se terei estofo para chegar até lá ou se haverá um caminho por onde possa, mesmo tateando, a ele chegar. É um cheiro essencial. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92999</link>
		<pubDate>Wed, 26 Oct 2011 14:14:00 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 374px; height: 326px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/5c15d668687985d33a7e9119fb75634e.jpg">  <br>  <br>  <br><font size="5">  <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>  <br><font size="6">O cão cidadão</font>  <br>  <br><span style="font-style: italic;">  <br>Por Conceição Freitas</span>  <br>  <br>  <br>Passava das duas da tarde, havia azul no céu e eu procurava uma crônica em Brasília. Pensei em ir ao Conjunto, ao Conic ou a Rodoviária — meia hora num desses lugares certamente me ofereceriam um tema para esse pé de página. No que fazia o retorno na Rodoviária, rumo a Oeste, vi o vira-lata em apuros. Ele tentava cruzar a via Norte do Eixo Monumental em direção ao Teatro Nacional. De porte médio, pelo preto e curto, focinho comprido, usando coleira, o cão-cidadão avançou uns dois metros na faixa e, diante do movimento de carros, rodopiou em torno do próprio corpo e voltou ao meio-fio.  <br>  <br>Não parecia um cão sem dono. O pelo espesso era homogêneo, como se tivesse sido lustrado. Nenhuma laceração nas orelhas nem nas patas. O focinho estava seco e intacto. Não era magro nem gordo, nenhuma costela fazia relevo sobre o pelo e a barriga tinha volume de quem havia se alimentado há não muito tempo. Nem de longe, o cão-cidadão era famélico.  <br>  <br>Alguém cuidava dele e era em busca do dono que tentava o improvável para um canino: atravessar, sozinho, o Eixo Monumental. Depois da primeira tentativa fracassada, o cão-cidadão farejou a grama do canteiro central. Parecia ter desistido da perigosa travessia, mas logo voltou à faixa de pedestre. O sinal estava verde para ele (e eu, agora, o acompanhava pelo retrovisor, tentando não perder meu inacreditável personagem de vista!). O cão-cidadão fez nova tentativa de vencer o asfalto insano, avançou umas oito patadas, deu meia-volta e voltou ao canteiro central.  <br>  <br>Cronista-sem-cidadania, pisei no acelerador, xinguei o semáforo que me obrigou a parar no retorno em direção à Asa Sul, contei os infindáveis segundos que separava o verde do vermelho, odiei todos os carros à minha frente, quis fazer picadinho do ônibus rabugento à minha esquerda e, finalmente, consegui voltar à faixa de pedestre onde havia deixado o cão-cidadão.   <br>  <br>Ele havia desaparecido! Olhei para a direita, para a esquerda, procurei por ele nas proximidades da plataforma inferior da Rodoviária, na calçada norte, onde dormem os moradores de rua, tive medo de vê-lo morto no asfalto, e então lamentei ter perdido o meu personagem, a minha crônica e a minha inquieta e fugaz felicidade.  <br>  <br>Os caninos que rondam a arquitetura moderna são parceiros da anti-modernidade, os moradores de rua. Companheiros no desamparo, eles peregrinam pelos longos vazios da cidade planejada como quem atravessa um tumultuado deserto. Há solidão, distância e indiferença na amplitude da capital do país.&nbsp;   <br>  <br>Onde estaria o cão-cidadão? Pesarosa, fiz a curva para retomar meu caminho, quando o vi no gramado perto dos arbustos ao lado do Teatro Nacional. Era ele sim! Não podia ser outro! É raro ver um cachorro sozinho no Plano Piloto. Preto, lustroso, bonito. O cão-cidadão tinha conseguido o improvável: a travessia, em quatro patas, do Eixo Monumental. Continuava sozinho, mas parecia tranquilo. Estava deitado entre as flores de um canteiro de flores. Por certo, esperava pelo dono.&nbsp;   <br>  <br></div>  <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade ]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92956</link>
		<pubDate>Tue, 25 Oct 2011 14:00:37 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 442px; height: 321px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/ab9ae3bef68df666d793d969fd7eaf3c.jpg"> <br> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6">A morte do pipoqueiro</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Durante muito tempo, o candango Liberato Osvaldo das Neves ficou esperando as honrarias merecidas por ter cavado buraco, vendido bolo, feito carpintaria nas obras do Congresso Nacional. “Depois, eu pensei assim: ‘A gente é pequenino, não tem significado. Vou é cuidar da minha vida, criar meus filhos.’” Liberato criou três filhos e ajudou a cuidar de quatro netos até quarta-feira passada quando morreu, aos 82 anos. <br> <br>Toda a Universidade Católica de Brasília conheceu Liberato — era o pipoqueiro que estacionava seu carrinho na entrada do bloco K. Durante quase 30 anos, aspergiu o cheiro apetitoso de pipoca nas proximidades das salas de aula dos cursos de comunicação. Goiano de Nerópolis, veio para Brasíia bem no comecinho da construção da cidade, em 1956. Tabalhou de carpintaria na Novacap até se transferir para uma empresa que fazia perfurações para saneamento básico, a Civilsan.  <br> <br>Depois, foi vender marta-rocha, o bolo de fubá com nome da miss Brasil 1954, que era servido num pedaço de papel-manteiga. “Eles comiam o bolo o gritavam: ‘Tô comendo a calcinha da Marta Rocha!”, contou o pipoqueiro, um dos personagens da série Bravos Candangos, publicada no <span style="font-weight: bold;">Correio</span> durante as comemorações dos 50 anos da cidade. <br> <br>De tão querido que era na Católica, Liberato motivou um abaixo-assinado quando a universidade se mudou da Asa Norte para Taguatinga. Mais de um mil alunos assinaram o pedido para que a universidade permitisse que Liberato estacionasse seu carrinho na cidade-satélite. A mobilização levou o reitor a chamá-lo ao gabinete: “Seu Liberato, o senhor é mais importante do que eu.  <br>Eles querem que o senhor fique e querem me mandar embora!”. <br> <br>Liberato era um pipoqueiro que sabia contar histórias. Nunca esteve numa sala da aula, mas sabia ler, escrever, fazer conta e uma enorme fluência na linguagem oral. “Não tem mês que não vem um aqui me entrevistar. Sobre a construção de Brasília, sobre clonagem, sobre Mercosul, sobre internet…” Liberato vai ter muito o que contar quando chegar ao céu. <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92955</link>
		<pubDate>Tue, 25 Oct 2011 13:55:57 GMT</pubDate>
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		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br></div> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6">Brasília, partitura musical</font> <br> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>A propósito da anunciada visita de representantes da Unesco para avaliar o grau de desrespeito ao tombamento do Plano Piloto, reproduzo aqui trechos de um seminário da arquiteta Maria Elisa Costa, apresentado no Rio de Janeiro, sobre o tema.  <br>“Importa, antes de mais nada, perceber quais os ingredientes que fazem de Brasília o que ela é, e quais as características físicas cuja preservação é indispensável para que a identidade diferenciada da capital permaneça”, escreve a filha de Lucio Costa.  <br> <br>Quais são essas características e o que delas deve ser preservado? A cidade do jeito que era quando foi inaugurada ou a cidade que era quando do tombamento (1987)? “A resposta, a meu ver, é simples: trata-se de preservar o que, do Plano Piloto original de Lucio Costa, sobreviveu na cidade atual”. <br> <br>Então, Maria Elisa faz uma comparação lírica — como cabe a uma obra de arte: “Preservar a identidade original de Brasília é preservar uma partitura musical — arranjos são possíveis, desde que não comprometam a partitura”. Esse foi o princípio do tombamento, a preservação das escalas urbanas. (monumental, residencial, gregária e bucólica).  <br> <br>“A preservação do diálogo entre as quatro escalas — continua Maria Elisa — permite que se mantenha, ao longo do tempo, a identidade original de Brasília, mesmo que todas as construções não protegidas individualmente sejam demolidas e reconstruídas — basta que os critérios de ocupação e gabaritos em altura permaneçam os mesmos, e se recorra ao paisagismo nos termos da proposta original.” <br> <br>(Por esse princípio inegociável, a criação da 901 Norte, com seus supostos espigões destinados à hotelaria, seriam a pior das muitas agressões que a cidade vem sofrendo desde que a especulação imobiliária aguçou seu apetite sobre os espaços vazios da capital. Ou as agressões à margem do Lago Paranoá, ocupado por condomínios particulares.)  <br> <br>Voltando ao seminário de Maria Elisa, o diálogo entre as escalas — ou seja, a coexistência de escalas diferentes num mesmo espaço físico — é possível desde que “as características e parâmetros de uso e ocupação dessas inserções sejam determinados pela escala que rege a área onde se situam”. Ou seja, o Projeto Orla ou as áreas dos clubes são inserções de caráter gregário “dentro da área regida pela escala bucólica” e devem obedecer, “necessariamente, às limitações de taxas de ocupação e gabaritos imposta pela sua localização”.  <br> <br>Finalmente, Maria Elisa Costa aponta urgente necessidade de se delimitar o entorno da área tombada, para evitar o surgimento de paredões de prédio no horizonte do Plano Piloto — um dos mais preciosos patrimônios de Brasília. Para inventar a cidade, Lucio Costa levou em conta o anel de chapadas que nos acompanha e o céu que nos fortalece.  <br> <br>A presença da Unesco pode, quem sabe, constranger os predadores.&nbsp;&nbsp;  <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92795</link>
		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 17:23:12 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 423px; height: 280px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/9b5103e90882675d100ff1ae0e5eec01.jpg"> <br> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6">Mestre Brannca</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br> <br>Comemorava-se o aniversário de 30 anos da filha de uma amiga. Anunciou-se uma surpresa para 1h da madrugada. Com vista para a Ponte JK, a boate oferecia aos convidados uma música cujo gênero não sei identificar. Mas os convidados da aniversariante dançavam numa coreografia autômata, levando o corpo de um lado a outro, do outro a um. Até que o DJ foi chamado ao descanso e ouviram-se tambores. Era a bateria da Aruc entrando no salão, com seu uniforme azul, sua pele negra e parda, bem mais negra do que parda, (havia uma loirinha, mas não parecia ser de nascença). <br> <br>O grupo, de 15 ou 16 integrantes, dos quais dois puxadores de samba e duas passistas, era liderado pelo Mestre Brannca, diretor de bateria da escola.  <br> <br>Mudou tudo. O balanço da garotada (de 30 anos!), o ânimo dos garçons, o consumo de cerveja, a alegria da aniversariante, o amor do namorado da aniversariante, a felicidade dos pais da aniversariante, a batida no meu peito. O toque do tambor recupera sons ancestrais presentes na formação do povo brasileiro. Isso não é antropologia barata de cronista. É experiência que o corpo registra e a alma confirma.  <br> <br>O pedaço de bateria da Aruc que desceu do Cruzeiro para perto da Ponte JK era a representação simbólica de parte importante da formação do povo brasiliense. Eram filhos e filhas de candangos que vieram do Rio de Janeiro e trouxeram o sangue, o suor e o samba.  <br> <br>Era uma festa pequena, o que podia permitir um certo à vontade para a bateria da agremiação. Foi aí que me surpreendi. Sob o comando de Mestre Brannca, os músicos se comportavam com a disciplina de um desfile decisivo de carnaval. De pele negra como as asas da graúna, Brannca conduz a bateria como se estivesse em comunhão com os deuses do samba. Com os olhos semi-cerrados, o queixo levemente levantado, ele abre os braços, tremula as mãos, aciona o apito, para um grupo de obedientes integrantes da bateria. Em alguns momentos, o olhão quase fechado parece proteger o sono do mestre — é ele, incorporado inteiramente ao batuque que forjou a mais bela entre todas as invenções brasileiras. <br> <br>É hora de partir. A bateria agradece e sai, com a mesma serena elegância com que entrou no salão da boate. <br> <br>P.S. Hoje a Aruc comemora seus 50 anos. Antes do samba na quadra, a Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro será homenageada pela Câmara Legislativa. Entre os convidados da festa na quadra, Monarco e a Velha Guarda da Portela, Grupo Luz do Samba, Dorina, Marquinhos Diniz, Samba do Karrapixo, Evandro Barcellos, Makley Matos e a Bateria Nota 10. O ingresso é a doação de 2kg de alimentos não perecíveis.  <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92727</link>
		<pubDate>Thu, 20 Oct 2011 13:40:07 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 468px; height: 279px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/c44b5212f29b642d30e6935afddccb08.jpg"> <br><div style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Frida Kahlo, <span style="font-style: italic;">Roots</span></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><font size="6"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A mulher que já morreu</span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Mora dentro do quadradinho, numa casa afastada das áreas urbanas, uma mulher que já morreu. Ela não gosta de se lembrar de sua morte. Só o marido e os parentes mais próximos sabem que ela bateu as botas quando ainda era adolescente. E todos obedecem à proibição tácita de não tocar no assunto.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A mulher que morreu já é uma senhora, casmurra senhora que se enclausurou em si mesma desde que virou defunto. Fala pouco, quase não ri, nunca se soube que ela tivesse dado uma gargalhada, nunca se ouviu ela cantalorar uma música de igreja, que fosse. Recolhe-se ao silêncio de sua morte não morrida.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A morta tinha 13 anos quando se foi. O caminho para o fim começou com uma febre contínua e crescente, acompanhada de calafrios, erupções na pele e inapetência, sintomas que, juntos, resultaram em delírios e alucinações. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A defunta morava numa roça de um interior esquecido do sempre pobre Maranhão. Depois de usar todos os recursos de que dispunha, de obrigar a filha a tomar chás amargosos, a banhar-se em infusões mal-cheirosas, a se entregar à fé das rezadeiras e benzedeiras, a mãe da morta conseguiu trazer um velho médico de uma cidade distante.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Quando o doutor chegou, a garota estava desfalecida. O homem tentou auscultar o coração da doente, mas não conseguiu ouvir nenhum batimento, nem um leve tum-tum-tum. Procurou o pulso e só encontrou uma pele fria e inerte. O velho médico declarou:&nbsp; ‘Sua filha está morta’. E orientou a desesperada mãe a providenciar um enterro rápido, por suspeitar que a garota havia sido vítima de uma peste desconhecida.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O corpo da menina morta foi deitado num cobertor sobre a mesa, de onde a rarefeita vizinhança pode apreciar a defunta e as carpideiras puderam chorar seu choro cantado. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Até que se ouviu um grito: ‘Olha lá! A defunta se mexeu!’.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A desfalecida havia levado a mão à cabeça e, em seguida, abriu os olhos.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Foi um deus-nos-acuda. Toda a vizinhança saiu correndo: “Uma assombração!”.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A mãe ficou. De início, não teve coragem de se aproximar. Quando conseguiu recuperar a voz e o movimento das pernas, balbuciou: ‘Filha? É você?’</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>A ex-morta respondeu: ‘Mãe…’, e chorou e gemeu como um bebê sofrido.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Algum tempo depois, já recuperada do mal que a matou, a moça inerte foi embora do Maranhão. Veio para Brasília, para nunca mais se lembrar do dia de sua morte.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92636</link>
		<pubDate>Tue, 18 Oct 2011 20:17:55 GMT</pubDate>
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/37058713fc6a00e255be5618e0dee341.jpg"> <br><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Cassiano Nunes</span> <br> <br><img style="width: 278px; height: 349px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/64391c07ad78e7d10f8f118f12148b83.jpg"> <br><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Oswaldino Marques</span> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"> <br> Encontro de poetas</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Ezio Flavio Bazzo</span> <br> <br> <br> <br>Cassiano Nunes morreu quatro anos, cinco meses e dois dias após a morte de Oswaldino Marques. Duas figuras respeitáveis da literatura e da poesia brasiliense. Apesar de em vida nunca terem se relacionado lá muito amistosamente, os acontecimentos da existência de um e de outro guardam semelhanças e diferenças curiosas. Por exemplo: ambos morreram com 86 anos e de câncer. Oswaldino morreu no meio da tarde de um dia 13, uma terça-feira e foi cremado num dia 15. Cassiano morreu no meio da tarde de uma terça-feira, também de um dia 15.  <br> <br>Ambos eram professores aposentados de literatura na Unb. Os dois nasceram em cidades portuárias. Oswaldino em São Luis (MA) e Cassiano em Santos (SP). Ambos foram trazidos para a Universidade de Brasília na década de 1960 e por dois outros escritores. Oswaldino foi trazido por Ciro dos Anjos e Cassiano por Drummond de Andrade. Oswaldino deu aulas de literatura na Madson Wisconsin (USA) e Cassiano na New York University.  <br> <br>Cassiano gostava de traduzir aqueles que considerava grandes, Oswaldino verteu para o português nada mais nada menos que W. Blake e que T.S. Eliot. Se Oswaldino tinha quase uma obsessão pela obra de Cecília Meireles, Cassiano não a tinha menor pela obra de Monteiro Lobato. Ambos viviam em casas repletas de livros e quase transformadas em bibliotecas. Oswaldino foi marxista e ateu radical até a morte. Cassiano foi liberal e idealista até o último momento. Oswaldino optou por um funeral discreto e laico, foi cremado com a presença apenas da família.  <br> <br>Cassiano não dispensou o ritual tradicional da capela e da lápide.  <br>Como dizem que os poetas quando morrem vão para o limbo, foi lá que esses dois senhores se encontraram na última semana. Quando Cassiano surgiu do meio das nuvens para a entrada do limbo, deu de cara com Oswaldino que fazia uma “revisão” de seu livro Acoplagem no espaço. Olharam-se desconfiados e foi o Oswaldino quem quebrou o gelo de tantos anos. <br> <br>Oswaldino – Seja bem vindo camarada Cassiano! <br> <br>Cassiano – Olá, Oswaldino. Que grata surpresa! Continuo chegando sempre depois de você... <br> <br>Osw. – A ordem dos fatores não altera o produto. Ou altera? Retrucou Oswaldino, para em seguida perguntar: qual foi sua causa mortis? <br> <br>Cas. – A mesma que te trouxe para cá. Câncer. <br> <br>Osw. – Então a medicina continua a mesma balela e a mesma baboseira? <br> <br>Cas. - Tudo igual. Quimioterapia aqui, cobalto ali, exames acolá, farmácias para todos os lados. Acho até que isso já faz parte de uma espécie de extrema-unção laica.  <br> <br>Osw. – Curiosamente, sempre acabamos junto com nossas míseras economias... E as multinacionais dos medicamentos estão sempre lá, de plantão na sala dos oncologistas e na porta das UTIS... <br> <br>Cas. – Pois é. E o pior, é o desgaste que se é obrigado a ter a vida inteira à procura de um bom médico... Como dizia Câmara Cascudo – na escolha entre os gatunos inteligentes e os jumentos honestos.  <br> <br>Osw. – Alguma novidade por lá? Algum novo poeta? <br> <br>Cas. - Tudo igual. Na poesia também o mau caráter está em ascensão e a honradez em decadência. O tédio vai tomando conta até das pedras. O mesmo lirismo e o mesmo cinismo de sempre na poesia. De vez em quando um chato publicando um poeminha aqui, um cineasta fazendo um filminho ali, alguém declamando suas baboseiras na entrada dos teatros, os jornais fazendo uma resenhazinha acolá ou reeditando os antigos cadernos literários. Mas nada transcendente.  <br> <br>Osw. – Sempre a mesma merda! Pelo menos depois de mortos temos que admitir que nossa área e o mundo da literatura foi sempre um duelo, uma verdadeira cloaca de invejosos e de delirantes. E disso nos lembrou muito bem um escritor mexicano. “Sabemos — escreve Ponce —, que Tolstoi acreditava firmemente que Dostoievski era um malvado e que com a sutileza dostoievskiana este foi prostrar-se de joelhos diante de Turgueniev com o genial propósito de que o homenageado se sentisse humilhado. Sabemos que Dickens professava um ódio aberto por Thackeray e que este, por sua vez, estava convencido de que seu companheiro, em todas as histórias da literatura inglesa, era um vilão. O desprezo de Goethe precipitou Holderlin na loucura. A tentativa amorosa entre Verlaine e Rimbaud terminou em balaços. Melville confessou que a elogiosa dedicatória de Moby Dick a Hawthorne ocultava a malvada intenção de humilhá-lo. Proust não lia Joyce e Joyce não lia Proust. Lawrence criticava Huxley. Virginia Woolf atribui a admiração de T.S.Eliot por Ulises, à sua anemia. Gide ironizava a posição puritana de Claudel. Hemingway agradeceu a proteção literária de Sherwood Anderson ridicularizando-o em The torrents of spring e como troco, Sherwood acusou-o de ter iniciado sua carreira como impotente. Os surrealistas expressaram em massa sua opinião sobre as opiniões políticas de Ehrenburg, mediante o sugestivo recurso de enchê-lo de porradas, e assim, a história poderia prolongar-se ad-infinitum... <br> <br>Cas. – É verdade. O mundo é uma idiotice repleta de sujeitos supérfluos! Ah, finalmente concluíram o Complexo Cultural da República. Lembras? Aquele monumento em forma de glande? Outra das falácias do velho Niemeyer... Está lá, como uma tartaruga albina e imobilizada pela burocracia. Como demorou 45 anos para sair do papel, é de se esperar que demore outros 45 anos para ter algum sentido. E por falar em burocracia, o governador atual baniu por decreto o gerundismo. Mas veja que tragédia cultural: 99% da população nem sabia de que se tratava. Novidade mesmo é que abriram um novo Beirute, lá nas 107 Norte, bem em frente a uma igreja...  <br> <br>Osw. – Num lado a cachaça e no outro o ópio... <br> <br>Cas. - Pois é, agora vamos ver quem é que catequiza quem. Olhando para os lados, Cassiano perguntou: que tal este lugar? O Papa de plantão não havia excluído o limbo? <br> <br>Osw. – Excluiu, mas só no papel. Isto aqui tem que ser extinto mesmo, pois é mais tedioso que Brasília. Procurei por Samuel Rawet, mas sabe onde ele está? No inferno. Cassiano moveu-se involuntariamente ao ouvir essa palavra e Oswaldino aproveitou para perguntar-lhe sobre a experiência do funeral. <br> <br>Cas. - Não quis ser cremado como você. Cheguei até a pensar nessa hipótese, mas o forno e o fogo me deram mais medo que o caixão e que a tumba. As três ou quatro horas que fiquei exposto naquela capela foi uma experiência importante. As pessoas iam entrando, algumas sérias, outras transtornadas e visivelmente angustiadas, vinham até meu cadáver em absoluto declinío, rezavam alguma oração e se iam. Um impulso sádico dentro de mim ia pensando: a esse aí arrumei um bom emprego; esse outro “papei” várias vezes; a esse dei um empurrão para que sua tese fosse aceita; esse outro também “papei”; a esse emprestei uns trocados, esse me roubou uma câmera fotográfica, esse quis transformar-me num pai substituto; esse me afanou três livros etc. Por falar em livros, o que fizeste com tua biblioteca, Oswaldino? <br> <br>Osw. – Continua intacta, — respondeu-lhe com polidez — como uma relíquia, no mesmo lugar. Tentei doá-la, mas as universidades não manifestaram o mais mínimo interesse. O negócio deles é promover grandes licitações e fazer negociatas diretamente com as editoras, não é verdade? Hoje tenho consciência que querer fazer com que os outros leiam ou que “amem” os livros é, além de um idealismo babaca, também uma forma de impostura. E o teu acervo? <br> <br>Cas. – Por enquanto também está lá no mesmo lugar. Os jornais estão fazendo o maior alarde a respeito de seu destino, mas tudo conspira para que acabe dentro de caixotes no porão de alguma universidade ou de alguma secretaria. Estão até falando em 30 mil exemplares, quando na verdade não chegam a 20. Matérias repetitivas dizem que fui o maior poeta da cidade, que vou fazer a maior falta, que era, além de simplório, a erudição ambulante etc, etc. <br> <br>Osw. – Ah, disseram as mesmas coisas sobre mim. Só sabem dizer isso e mesmo assim, só quando o sujeito morre. Uma espécie de prestação de contas e de exorcismo da culpabilidade cristã. Mesmo aqui do limbo é frustrante ver que ninguém se atreve a fazer verdadeiramente um estudo de nossa obra. Não compreendem que, apesar de mortos, essa ladainha de misericórdias e esse teatro de benevolência não nos interessam para nada. <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92444</link>
		<pubDate>Fri, 14 Oct 2011 12:54:10 GMT</pubDate>
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/e893afa7af16e3be18c6db9361c4a154.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Cidade Velha <br> <br> <br> <br><font size="6">Da janela da jardineira</font> <br><span style="font-style: italic;"> <br> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Foi com o coração querendo escapulir do peito que, pela primeira vez, andei sozinha de ônibus urbano. A lata velha, curta, gorducha e redonda me levava do meu bairro para o centro da cidade. Numa ponta, as palafitas à margem do Rio Guamá; na outra, a cidade colonial, de palácios suntuosos e mangueiras exorbitantes.  <br> <br>Eu já conhecia o centro da cidade, mas da janela do ônibus foi que pude tê-lo vagarosamente aos meus olhos. As jardineiras daquele tempo eram preguiçosas e as ruas da Cidade Velha, estreitas, condições que me permitiam admirar cada janelão das casas antigas, cada portal imponente dos prédios coloniais.  <br> <br>Era abrupta a mudança de cenário. Rapidamente, a jardineira deixava para trás as casas de madeira, coladas umas nas outras, e recortava as ruas magras e longas da cidade de mais de 300 anos. Da janela demorada, me deixava impregnar de arquitetura colonial, sem saber o que era arquitetura nem o que era colonial. <br> <br>Eram tão delgadas as ruas e as calçadas que, se meu braço fosse um pouquinho mais longo, poderia tocar na fachada do prédio. Essa proximidade corpórea com os velhos casarões de Belém do Pará construiu em mim a cronista que muito mais tarde eu viria a ser. A feroz mudança de ambiente também abriu clareiras de espanto em minh’alma.  <br> <br>A experiência só se transformava em epifania de criança quando eu estava sozinha. E era quase sempre desacompanhada que eu ia para a escola ou dela voltava. Antes de chegar ao centro antigo, a jardineira passava por uma rua paralela ao rio e, da janela, eu o via em fendas de paisagem liquefeita até que sumia por detrás dos casarões.  <br> <br>Sempre que me perguntam como eu virei cronista, me lembro da janela da jardineira. Foi ali que comecei a admirar, entre fascinada e temerosa, as mutações urbanas. Palafitas, rio, rua estreita, casarões, portais, lustres, gárgulas, balaustres, colunatas, mangueiras centenárias e uma gente cabocla que se diferenciava dos rostos que eu via nas fotonovelas e nas incipientes telenovelas. E um sotaque forte, cheiros contundentes e sabores incisivos. <br> <br>A Amazônia urbana era demais para a menina na janela do ônibus. Sorte dela é que a lata velha rangia lentamente os ossos de ferro e me dava tempo para incorporar cada uma das novidades que a janela me oferecia. Foram três anos na janela da jardineira. Depois, a vida me trouxe para o Planalto Central, os ônibus ficaram mais apressados, a paisagem perdeu o excesso de sentidos e então tive de buscar o que havia perdido. Virei cronista, por sorte e por necessidade. <br> <br> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92398</link>
		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 16:21:03 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 422px; height: 281px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/96039ea8b84e32c65bd9c7be6dc43058.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"> <br>Vladimir e o produtor</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Severino Francisco</span><br style="font-style: italic;"> <br> <br>Há alguns meses, o cineasta Vladimir Carvalho sentou-se em frente ao computador para dar uma olhada nos e-mails, mas, ao ligar a máquina, ouviu um estrondo. Descargas elétricas faiscaram no ar, uma nuvem de fumaça cobriu a área do HD e um forte cheiro metálico pairou na estratosfera do escritório. Vladimir levou um tremendo susto, deu um pulo para trás, mas é um paraibano de rocha e com espírito de cangaceiro resolveu enfrentar a parada.  <br> <br>Aos poucos, a fumaça foi se dissipando, ele conseguiu ligar o computador, abriu a caixa de mensagens e recebeu um e-mail que lhe despertou uma viva curiosidade. É que um produtor norte-americano, o mesmo que coproduziu, nos Estados Unidos, filmes de diretores brasileiros famosos, estava interessado em conversar sobre o documentário Rock Brasília — A era de ouro. Vladimir vibrou, pois, como vocês sabem, apesar de alguns alardearem uma era triunfal do mercado, o cinema nacional vive de pires na mão, não tem espaço nas telinhas de tevê e só ocupa uma fatia ridícula nas salas de exibição, dominadas de maneira avassaladora pela produção hollywoodiana.  <br> <br>O misterioso produtor sugeriu que o encontro fosse em um terreno baldio da Asa Norte, tendo como única testemunha uma coruja boêmia, e Vladimir começou a ficar desconfiado: “Parece cenário de crônica de Nelson Rodrigues, não vou pagar esse mico”. Contudo, o produtor contra-atacou que a negociação precisava ser sigilosa, pois, nos dias de hoje, com as novas tecnologias, qualquer bisbilhoteiro poderia filmar tudo pelo celular, colocando a negociação a perder. “Está bem, só aceito isso em nome do cinema brasileiro”, concordou, afinal, Vladimir. <br> <br>Na hora marcada, meia-noite em ponto, sob o canto lúgubre das corujas do cerrado, lá estava Vladimir, com sua angústia paraibana. O produtor disse que havia gostado muito do documentário Rock Brasília, mas que o filme ficaria ainda melhor e com mais possibilidades de agradar ao público se tivesse mais música: “Será que não daria para você incrementar uma pegada de videoclipe?” Ao que Vladimir retrucou: “Não sou roqueiro e nem clipeiro. Minha pegada é política. Eu só quis fazer uma crônica light para mostrar o óbvio, ou seja, a história do rock de Brasília, de viva voz, por quem a fez. Nada tenho contra clipes, mas não é a minha praia”. <br> <br>Contudo, o produtor insistiu que tinha muita grana e compraria tudo; Vladimir que desse o preço. Ante a ênfase e a insistência, o cineasta ficou irritado e fulminou: “Não vendo a minha alma ao diabo por preço nenhum. Me deixe fazer o meu cineminha político e vá para o inferno. Não sou rico, mas, graças a Deus, me viro”.  <br> <br>Ao ouvir essas palavras, o suposto produtor começou a passar mal, o rosto se crispou, as corujas entoaram um canto gótico. Os elfos, os pirilampos, os duendes e as sílfides contratados como coadjuvantes especiais para compor o cenário se volatizaram, assustados. Vladimir sentiu um cheiro de enxofre no ar, formou-se uma onda de fumaça, o suposto produtor entrou em um daqueles redemoinhos de poeira típicos de Brasília e sumiu na noite espacial.  <br> <br>Claro que não preciso dizer que era o próprio Belzebu em carne e osso na pele do suposto produtor. “Bem que eu devia ter desconfiado quando ele me propôs o encontro nesse cenário de crônica de Nelson Rodrigues”, comentou Vladimir: “Que ingênuo eu fui. Deveria ter me lembrado daquela música de Jackson do Pandeiro que eu ouvia na Paraíba: 'Quando o diabo não vem, manda o secretário’…”.  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=92299</link>
		<pubDate>Tue, 11 Oct 2011 15:07:41 GMT</pubDate>
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/388d27741eca32bacbf1d7f7d82bd0cb.jpg"> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="2">Lan house gigante montada nos EUA para evento em 2008</font> <br> <br> <br> <br><font size="6">Ficção científica</font> <br><span style="font-style: italic;"> <br> <br>Por Severino Francisco</span> <br> <br>Eles chegaram de mansinho, sem alarde e, a princípio, ninguém percebeu nada de especial. Não tinham um olho no meio da testa, uma luz piscando nas costas, um número de identificação no peito ou quaisquer outros sinais que os distinguissem dos outros mortais. A um observador desatento parecia apenas que estudavam, trabalhavam, conversavam, compareciam a festas e se divertiam. Aos poucos, no entanto, o comportamento deles começou a provocar uma incômoda sensação de estranheza, indefinível e difusa, mas persistente e angustiante. O que estaria acontecendo?  <br> <br>Não foi fácil pegar algum fio da meada. Contudo, alguns chegaram a levantar uma pista de especulação. É que, segundo essa hipótese, eles tendiam a transferir a lógica do custo-benefício da economia para todas as ações da vida cotidiana. Por exemplo: não desperdiçavam o trivial bom-dia com qualquer um. Antes, era preciso passar por um cálculo rápido e saber: “O que eu posso ganhar com isso?”. No estágio, na escola, no trabalho, nas festas e nas relações afetivas, imperava o mesmo princípio, agindo de maneira insidiosa e subterrânea. Na cidade onde que moravam, não andavam de ônibus para não se misturar com a plebe: “Metrô, eu só uso na Europa”. <br> <br>Essa atitude se tornou uma espécie de instinto a comandar a vida deles. Claro que a concentração permanente teve o seu preço. O cálculo levou a uma sedimentação do sentimento de indiferença e a uma perda da capacidade do espanto. Em face das obras mais admiráveis ou dos acontecimentos mais inusitados era típico o comentário: “Normal, normal…”. Se alguém apresentasse uma ratazana em uma bandeja, eles murmurariam, com um ar entediado : “Normal, normal…”. Por isso, era necessário sempre uma dose maior de estímulos artificiais e aditivos químicos para elevar o nível da adrenalina.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br>Diferentemente de outras gerações, os novos personagens não contaram com nenhuma bíblia para iluminar o seu caminho. Pelo contrário: se havia algo que os caracterizava, era a inexistência de princípios norteadores e eles formaram as suas referências precisamente no território nebuloso do caos ou da ausência de valores. Enquanto o mundo não desabasse, valia tudo para se divertir ou vencer.  <br> <br>Concebiam todos os projetos de vida sob uma perspectiva de um eu mínimo: meu carrinho, meu espacinho, meu projetinho, minha maconhazinha e meu prazerzinho. Fora disso, nada existia para eles. “Cada um com os seus problemas” era o lema preferido. A ironia é que essa perspectiva minimalista transformava a busca obsessiva pela felicidade, quase sempre, em infelicidade, pois questões irrisórias eram amplificadas até o limite do absurdo.  <br> <br>Podia ser o tamanho do nariz, do seio ou da bunda, em permanente desacordo com modelos de perfeição dos deuses.  <br> <br>A perda da capacidade de espanto se refletiu nos olhos, que perderam o brilho e passaram a ostentar uma luz fria, melancólica e opaca. Nada disso constituía problema, o importante era funcionar bem. Eles consideravam isso uma sabedoria e se achavam, com justa razão, seres de uma outra espécie, talvez superior, pois não sabiam que, no lugar da alma, alguém havia instalado neles um chip de última geração.  <br> <br> <br>&nbsp; <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91887</link>
		<pubDate>Thu, 06 Oct 2011 12:12:57 GMT</pubDate>
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		<img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/b308535e5ed8aad80f26f71923ac9078.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">O que quer o BB</font> <br> <br><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Uma imagem me persegue, desde que li, na semana passada, a notícia de que parte significativa da máquina burocrática do Banco do Brasil está de mudança para São Paulo: o personagem de Reginaldo Farias, da janela do avião, dando uma “banana” para o país, no último capítulo de Vale tudo. O escárnio, na vida real, é com Brasília e com o dinheiro público. <br> <br>O desejo dos executivos do BB de subir no avião e levantar o antebraço para a cidade resume, afinal, o que certa elite brasileira pensa da capital do país: uma cidadezinha inventada no meio de Goiás por um presidente com ambições faraônicas, sem a atmosfera cosmopolita de São Paulo, com uma população meio jeca e serviços de péssima qualidade. <br> <br>Os do BB querem a Avenida Paulista, e, até a enrascada em que a economia norte-americana se meteu, sonhavam com uma sala em Wall Street. Querem ficar perto da economia de mercado, a parede e meia dos donos de boa parte do PIB nacional e distância regulamentar do Brasil profundo.  <br> <br>Fosse uma instituição privada, não haveria nenhuma decepção. Mas o Banco do Brasil? O das camisetas amarelas das torcidas do vôlei e do basquete? Aquele que foi criado pela família real para fortalecer as finanças da colônia? O banco que conseguiu, ao longo de sua história, transmitir aos brasileiros um sentimento de orgulho pelo vigor renovado da instituição?  <br> <br>Tem sido assim desde a transferência da capital: os deputados e senadores estrilaram com a falta de conforto inicial, o Itamaraty e o Supremo Tribunal Federal resistiram enquanto puderam à ideia de trazer o fraque e a toga para o sertão de Goiás. O país circunscrevia seu desenvolvimento ao Sudeste e às capitais litorâneas das outras regiões. Do lado de dentro, havia uma gente semisselvagem, era o que imaginavam os do lado de fora, e esta é uma ideia que continua grudada na alma da elite econômica tupiniquim. <br> <br>Servir ao país é uma honra, desde que resguardadas as conveniências e os confortos de quem serve — é assim que devem pensar os executivos do BB que já marcaram no calendário a data da mudança para São Paulo. Sejam quais forem as justificativas formais e as conjecturas informais, a tentativa de mudança revela o desprezo que sentem pelas profundezas do Brasil.  <br> <br>Com todas as suas fraturas, a segregação espacial, o exercício imoral da atividade política e econômica, Brasília é a representação do Brasil. Ela é o que o Brasil é — transverso, às vezes generoso, outras vezes cruel, criativo, combativo, corrupto, desigual.&nbsp;  <br> <br>A essa altura, não adianta espernear. Brasília é a capital dos brasileiros e a terceira maior área de influência regional do país. Mas certa elite até hoje não se conforma com isso, quer juntar a família real e levar de volta à corte.  <br> <br> <br>  </div>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91774</link>
		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 16:49:16 GMT</pubDate>
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		<div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br><font size="6">Doralice do caixa</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Conceição Freitas</span> <br> <br> <br>Sábado de minutos contados, fila no caixa do supermercado, espera inquieta pela passagem dos quatro carrinhos à frente. De onde vem tanta demora? É fácil descobrir, vem da moça do caixa. Garota de pele cor de Brasil, cabelos negros e lisos, feições meio indígenas, sorriso de dentes miúdos, ela puxa conversa com os clientes e com os produtos. Para com o xampu no ar, lê o rótulo, confere o preço e segue apreciando cada item que passa pela esteira. Diante de uma embalagem de salaminho, constata o preço e comenta: “Nossa, que caro!” <br> <br>Segura um saquinho com mangas e tenta descobrir a qualidade da fruta — se rosa, se adem, se palmer. Saboreia o perfume — humm —, confere na folha de papel impressa, não acha a resposta. Pergunta à cliente, com um sorriso cativante: “Que manga é essa?”&nbsp; A mulher tenta dar uma resposta agradável, mas parece inquieta como eu. “Não sei, chame alguém”, responde, indelicada. <br> <br>“É manga espada, olhe a pontinha bicuda dela”, diz a senhora que está logo atrás. “No meu tempo, a gente catava essa manga na rua”, continua a mulher de lenço no cabelo. “Só não é mais cheirosa que a manga rosa”, prossegue.  <br> <br>Estarei numa fila de supermercado ou num bate-papo na internet? me pergunto, mudando o apoio do corpo de um pé a outro. Tenho pressa, estou atrasada, é só o que consigo perceber e me dizer. Que caixa enrolada, digo a meu impaciente silêncio. <br> <br>Finalmente, alguém confirma: é manga rosa. Segue a fila de produtos, e a caixa continua a curtir/compartilhar cada novidade saída das gôndolas do supermercado. “A carne moída está em promoção. Hoje vai ter boi ralado lá em casa”, ela diz, sempre sorrindo.  <br> <br>Chega a vez da senhorinha que acertou a qualidade da manga. A cliente, que por algum descuído não estava no caixa preferencial, engata nova conversa com a caixa. “Esse leite de soja é muito sem graça… Mas minha nora quer porque quer que eu tome, diz que faz bem para os hormônios, abaixa o colesterol. Na minha idade, não tem mais o que baixar nem o que subir”. A moça do caixa pergunta a idade da cliente: “Estou chegando aos 90”. A conversa parece não ter fim: “Nossa! Não parece de jeito nenhum. A senhora está muito bem!”  <br> <br>Realmente, não parece, mas estou com pressa!, continuo a me dizer, com os olhos faiscando de raiva.  <br> <br>Finalmente, chego ao caixa. A moça me dá bom-dia, pergunta se quero CPF na nota, e começa a passar os produtos. Pra meu azar, havia três revistas no meio das compras e a cada uma a caixa destinou demorada atenção. Sempre sorrindo, como se vivesse na mais vagarosa cidadezinha do Brasil profundo.&nbsp;  <br> <br>Quando consegui me livrar da moça do caixa, da fila do caixa, do caixa, olhei para o crachá e vi o nome dela: Doralice. E me dei conta que me tornei muito mais apressadamente urbana do que gostaria.  <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91328</link>
		<pubDate>Wed, 28 Sep 2011 16:19:43 GMT</pubDate>
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		<img style="width: 423px; height: 280px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/82685d8da895049ab854484cd3883af4.jpg"> <br> <br> <br><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br><font size="6">A biblioteca careca</font> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;"> <br>Por Severino Francisco</span> <br> <br></div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Há em Brasília uma particularidade</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>ela é no mundo a única cidade</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que por falta de amor à cultura</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>e por uma política de merreca</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>possui uma biblioteca careca.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Calma, porque eu explico,</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>é que o teatrólogo Ionesco</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>escreveu uma famosa peça</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>intitulada <i>A cantora careca</i>.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Ocorre que na referida peça</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>não havia nenhuma cantora</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>e muito menos que fosse careca.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Igualzinho à nossa Biblioteca</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Nacional de Brasília desenhada</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>pelo traço de Oscar Niemeyer</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>em área nobre da Esplanada.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Nos espaços do elegante prédio</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>não se tem acesso a nenhum livro</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>nem que seja para caso de remédio.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>O Museu da Língua Portuguesa</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>no centro da cidade de São Paulo</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>é o melhor exemplo das inovações</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>de novas tecnologias virtuais</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>para transformar instituições</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>em modernos centros culturais.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Mas não é isso o que se encontra</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>nos espaços da nossa biblioteca calva</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>só há computadores, telas e mouses.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>afinal, o enorme investimento</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>de dinheiro, tempo e talento</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>era para instalar uma lan house?</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Não é culpa da sua direção</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>e tampouco dos funcionários</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que sem recursos orçamentários</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>não dispõem de meios para evitar</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que um virtual centro cultural vivo</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>se reduza a um depósito de livros.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>O contraste é deveras exasperante</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>enquanto os deputados distritais</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>refestelam-se em suas cadeiras</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>com dispositivo antitranspirante</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>na novíssima sede da Câmara local</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>de preço superfaturado em surreal</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>a biblioteca esconde o seu rico acervo</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>por falta de recursos para dispositivos</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que garantam a segurança dos livros.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Atormentado pela perplexidade</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>sobre o destino da Biblioteca Nacional</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>e dos espaços culturais da cidade</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>acionei a internet espiritual</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>para falar com o poeta Zé Limeira</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>habitante do outro lado do astral</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>e meu consultor preferido</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>quando o assunto é absurdo.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Do seu notebook mediúnico</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>ele logo entrou na pauleira:</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>"Se o povo tivesse memória</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>saberia que em toda a história</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>o livro é de todos os objetos</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>de longe o mais perseguido</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>como dizia o padre Antônio Vieira,</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>sem qualquer mágica ou cabala,</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>o livro é um cego que vê, um surdo</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que ouve e um mudo que fala.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Em Brasília, os políticos fogem dele</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>como o Conde Drácula da cruz</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>porque temem as chispas de sua luz</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>em pleno século 21, querem o povo </font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>imerso nas trevas medievais</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>para ordenhar milhões de votos</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>na lama dos seus currais eleitorais.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>Com tudo isso, não se admira </font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que por falta de amor à cultura</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>e por uma política de merreca</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>soframos essa particularidade</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>que seja no mundo nossa cidade</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><font>a única com uma biblioteca careca.</font></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br> <br> <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91327</link>
		<pubDate>Wed, 28 Sep 2011 14:28:35 GMT</pubDate>
		<description>
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		<img style="width: 417px; height: 311px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/d90397fef39d499a7b04c2989f18d83d.jpg"> <br><font size="5"> <br></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"> <br></font><font size="6"> <br>Lições de afeto</font> <br> <br><br style="font-style: italic;"><span style="font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span> <br> <br>A última coisa que Vladimir Carvalho disse para o público de mais de 1, 2 mil almas antes de descer do palco da Villa-Lobos foi: “Eu te amo, Brasília!”. A exibição do documentário ainda não havia começado e eu miudava: Os brasilienses precisamos o tempo todo reafirmar nosso afeto pela cidade. Acossados pelo resto do país e pelos maus-tratos continuamente causados à cidade, precisamos defendê-la tanto quanto defendemos o que nos é mais caro. Brasília é uma cidade corporificada, um castelo a ser defendido, uma joia a ser protegida. <br> <br>Depois que o documentarista desceu do palco, abriu-se longa sessão de reencontro com a cidade que tentam sem descanso nos roubar. Apesar de ser tão roqueira quanto um hipopótamo é bailarino, Rock Brasília, a era do ouro, me enterneceu. Mais que isso. Aqueles quarentões do Capital Inicial, da Plebe Rude e da Legião, reatando acontecimentos da adolescência, reencontrando o passado — e reencontrando a si mesmos — levou o milhar de espectadores da Villa-Lobos , cada um com sua história, a colar pedaços do passado.  <br> <br>Se, para os brasilienses que aqui estavam quando tudo aquilo aconteceu, o documentário do Vladimir reanimou o já vivido, para quem estava do lado de fora, o filme recupera o passado que em nós não existia. Rock Brasília nos deixa mais brasilienses e nos aproxima mais uns dos outros. A cidade está presente o tempo todo, é o personagem principal. É de rock, de juventude, da história recente do país, de Renato Russo, da formação das bandas da era do ouro que se fala, mas antes de tudo o cineasta trata de Brasília e com essa escolha nos envolve numa sensação reconfortante de pertencimento.  <br> <br>Do mesmo modo que não se consegue pensar em Machado de Assis sem o Rio de Janeiro e em Dalton Trevisan sem Curitiba, do mesmo modo não existe Legião, Capital Inicial e Plebe Rude sem Brasília. Continente e conteúdo se confundem e se realizam um no outro. Vladimir mostra isso, em um fino cordão de lembranças, de depoimentos e imagens.  <br> <br>Pode-se dizer que faltou isso, sobrou aquilo, poderia ter sido assim ou assado — os críticos existem para isso —, só não se pode negar que o documentário do paraibano-brasiliense reforça a formação da identidade brasiliense. Somos feitos de grandes histórias, desde a primeira, passando pela história do rock, pela criação da UnB (três temas de Vladimir), e por outras tantas histórias esparsas, já perdidas em tão pouco tempo, 51/55 anos. <br>Já ao final do filme,&nbsp; o vazio do canteiro central da Esplanada vira uma arquibancada horizontal, atulhada de gente, para assistir ao histórico show do Capital Inicial em 2008. Dinho Ouro Preto lembra que os limites do anfiteatro eram as obras de Niemeyer.&nbsp;  <br> <br>O filme é perpassado por um vazio oculto nos depoimentos, um vazio que não explica como surgiram Renato Russo e o rock brasiliense da era do ouro. É o mesmo vazio que atordoa quem não sabe que Brasília é a busca de sentido, aquele que os adolescentes do final dos anos 70 e começo dos anos 80 sentiam debaixo do bloco e dele fizeram o melhor rock brasileiro.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <br> <br> <br></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91287</link>
		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 13:46:50 GMT</pubDate>
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		&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 267px; height: 400px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/10581d522f6f221667b27b037ff2d3c6.jpg"> <br> <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/4796a17cf1642a144fa3823f91c4bc6d.jpg"> <br>&nbsp;  <br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <img style="width: 505px; height: 258px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/8a11811b03e390ce80fd98fc8e7d0d90.jpg"> <br><div style="text-align: justify;"><font size="2">&nbsp;&nbsp;&nbsp; <span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Fotos de Katia Ribeiro,</span><a style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;" href="http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=890144"> retiradas daqui</a></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A pior das noites</span></font> <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Conceição Freitas</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">No célebre poema atribuído a Maiakovski mas que é do brasileiro Eduardo Alves da Costa, à primeira noite se sucedessem outras mais invasivas que a anterior. A noite que se desenha no horizonte édas piores, senão a pior que até agora caiu sobre o projeto de LucioCosta. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>As noites ficaram soturnas quando Jânio se elegeu e quis fazerpicadinho da capital construída por seu antecessor. Pensou-se (e articulou-se) até a volta da capital para o Rio. Depois veio a ditadura, com sua madrugada de pesadelos. É certo que os militares consolidaram a nova capital, mas a um custo altíssismo – entre os quais, o recrudescimento de certa antipatia dos brasileiros pensantes para com a cidade construída no distante Planalto Central.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Passada a fase de total isolamento, Brasília começou a crescer desarvoramente e a chamar a atenção do empresariado mais ganancioso. Descobriu-se, a certa altura, que a capital de Lucio Costa era um tesouro a céu aberto, pronto para ser explorado por quem chegasse primeiro.&nbsp; Os pioneiros mais espertos perceberam isso logo de início.Aos poucos, as noites foram desfigurando o projeto do Plano Piloto – o antigo Blue Tree, com seu vermelho-invasivo, a invasão das margens doParanoá pelos moradores, a construção de condomínios fechados num lago que surgiu para servir a toda a população e que deveria ter suas bordas bucolicamente protegidas.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>As noites foram se transformando paulatinamente em pesadelos: volumesem escala arrogante e desrespeitosa foram e continuam sendo construídos nos setores próximos ao centro da cidade, para alegria de uma elite sem formação cultural, sem conhecimento do que representa oPlano Piloto para o país e para a arquitetura e urbanismos mundiais.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Em mais uma noite, se ergueu o novo Centro de Convenções, edifício de falsa fachada (que dá a impressão de ser o que não é), e numa escala invasiva – como se alguém pusesse um elefante num jardim de flores miúdas.Mais uma noite e se pretende construir uma quadra residencial quase à margem do Eixo Monumental. </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>Mais uma noite até que a pior das noites se aproxima: anuncia-se a transformação da quadra 901 em mais um setor hoteleiro com gabaritos que desrespeitam, flagrantemente, as escalas de Brasília.“Trata-se da mais contundente agressão ao Plano Urbanístico do Plano Piloto de Brasília”, protestam arquitetos urbanistas em abaixo-assinado que corre pela cidade. “Havia diversas alternativas para ampliar o número de leitos e que não foram consideradas pelo GDF”, dizem os arquitetos.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> <br>O abaixo-assinado relembra, para quem não quer ser lembrado, “a importância e os valores universais de Brasília, por simbolizar acapacidade de realização coletiva do povo brasileiro, por seu urbanismo inovador e pela qualidade de sua arquitetura” (...).A pior das noites se aproxima em ameaça, mas o abaixo-assinado dos arquitetos urbanistas é um sopro de luz na escuridão.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div> <br>  
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91260</link>
		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 11:49:00 GMT</pubDate>
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		<![CDATA[
		<div style="text-align: justify;"><font size="5"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Os trajetos   <br>no corpo</span></font>  <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; font-style: italic;">Por Jaqueline Gomes de Jesus</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">  <br>Meu marido é carioca. Há anos perguntou aonde podíamos ir para comprar</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> uma estante de metal. Eu não sabia. Busquei a resposta com amigos e </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">eles também não sabiam. Rodando pela cidade encontramos ótima opção no SIA.   <br>&nbsp;</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Outra vez ele queria indicação de mecânico, nenhum conhecido   <br><font size="2">O corpo do homem e a EPTG  <br></font>&nbsp;  <br>tinha&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">algum de confiança, exceto a nossa diarista, que mora em Anápolis, mas</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> conhecia um amigo do primo de um irmão dela que tinha uma oficina aqui&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">no Plano.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">A W3 Norte foi uma descoberta entusiasmante para o meu marido, pela&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">quantidade de serviços de qualidade a custos baixos que há ali.&nbsp;   <br><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Taguatinga também, e lhe lembrou o comércio frenético do subúrbio do</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> Rio. Por outro lado, a quantidade de serviços ruins, caros, porém</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> frequentados por clientela fiel em Brasília o apavorou.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Desde então tornamo-nos fregueses de móveis encomendados na Torre de&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">TV, das castanhas e frutas desidratadas da Feira do Paraguai e de</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> eventuais cafés da manhã na do Guará. Sempre com o empecilho de</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> distâncias inevitáveis, porque não há transporte público que chegue a</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> determinados lugares ou que seja confortável.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Essa experiência me fez perceber o quanto ignorava a minha falta de&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">vivência com a cidade. Na minha cabeça o corpo da cidade é enorme e</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> fluido, entretanto, na prática não o vivo na plenitude, e sei que&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">outros moradores daqui também não. A relação dos brasilienses com o</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> corpo de Brasília é distante, alienada até. Sabemos pouco sobre o que</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> há no trajeto entre nossa casa e o trabalho, não exploramos o&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">potencial da cidade. Tornamo-nos acomodados com o que aí está.&nbsp; </span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Desatentos para estimular o que é melhor.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Essa falta de conhecimento de onde achar o que se quer em Brasília&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">teria a ver com uma visão limitada sobre a cidade? Seria uma falha de </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">quem se interessa apenas pelo que está ao lado, não olha para além da</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> sua quadra ou da sua região?</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Talvez seja provincianismo, que já foi visto como pejorativo por aqui,&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">não mais. Décadas atrás uma amiga reclamava de como Taguatinga lhe era</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> provinciana. Recentemente, uma autoridade exaltou o Guará como uma</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> “cidade interiorana e provinciana”.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">Além da multiplicação de cidades na cidade, quer-se criar orgulhosas&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">comunidades de interior, e provincianas, na capital federal? Parece</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> contraditório, quando se lembra que estamos em uma, repito, capital</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> federal, sede de representações internacionais e terceira maior</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> metrópole do país, com 3 milhões e quinhentos mil habitantes.</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">O provincianismo faz sentido quando se percebe que esse é o rosto que&nbsp; </span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;">alguns de nós querem para a parte de Brasília onde vivemos, e que nos</span><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> lembra uma comunidade. Aonde chegaremos?</span><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><br style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></div>  <br>
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		<title><![CDATA[crônica da cidade]]></title>
			<author><![CDATA[Conceição Freitas]]></author>
		<link>http://www.dzai.com.br/blogdaconceicao/blog/blogdaconceicao?tv_pos_id=91281</link>
		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 11:27:00 GMT</pubDate>
		<description>
		<![CDATA[
		<p style="text-align: justify;"><font><a name="Save1"></a><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"></span></font></font></p><font><font size="6"><span style="font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><img src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/9ba14779663bf30811ee67a97775d299.jpg"> <br> <br> <br><img style="width: 280px; height: 441px;" src="http://www.dzai.com.br/static/user//18/18744/df531edd63202e8e9bba796f0ec3eda4.jpg"> <br> <br> <br>Machado e a Caixa </span></font></font><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><span style="font-style: italic;">  <br></span></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font><span style="font-style: italic;">Por Severino Francisco</span>  <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>  <br></font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>"Prezado cronista,</font></p><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>  <br></font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Estava aqui no outro lado da vida conversando com o Nelson Rodrigues e ele me  disse que o senhor publica e-mails mediúnicos. Por isso, me animei a lhe enviar  também alguns comentários sobre o incidente com <a href="http://www.youtube.com/watch?v=10P8fZ5I1Wk">a propaganda da Caixa</a> em que Machado de Assis aparece interpretado por um ator branco. Devo admitir  que a sacação dos publicitários foi muito boa: eles descobriram que Machado era  correntista da Caixa em pleno século 19. Contudo, cometeram uma tremenda rata,  Machado está parecendo efetivamente um inglês ou um sueco. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Quando estava na Terra, sempre impliquei com Machado, pois achava que em uma  sociedade escravocrata, como era a do século 19 no Brasil, ele fazia uma  literatura para agradar as moças da elite carioca branca e rica, as filhas dos  barões. Machado era um homem de sala, amoroso das coisas delicadas, sem uma  grande, larga e ativa visão da humanidade e da arte. Ele gostava das coisas  decentes e bem postas, da conversa das meninas prendadas, da garridice das  moças. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Exasperava-me o seu amaneiramento de estilo, o tom ligeiro de crônica, as  tintas da galhofa fácil e certa dose de pieguice. Tudo embalado sob medida para  agradar ao público feminino das revistas e jornais familiares, lidos em voz alta  durante os serões e saraus. Estávamos saindo da opressão brutal da escravidão.  Os negros foram libertos pela Abolição sem direito do acesso a escolas, sem  trabalho e sem comida, soltos feito bichos nas ruas, se acomodando em cortiços e  se acotovelando nas primeiras favelas. Machado me parecia imoral; em face dessa  situação dramática, ele não assumia nada. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Pelo contrário: queria embranquecer, limpar a sua origem de mulato filho de  negra escrava e, finalmente, se despojar também da brasilidade e se tornar um  inglês. Que maravilha, Lord ou Sir Machado, o escritor reverenciado pelos  poderosos, amado pelos frívolos e respeitado pelos graves, os dois pilares da  opinião pública, como ele mesmo escreveu. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Seguimos em direções diametralmente opostas. Afrontei a sociedade racista da  minha época, frequentei os piores botecos, tomei todas até ficar alcoólatra e  terminei encerrado no manicômio, o cemitério dos vivos. Eu me ferrei (Machado  jamais usaria esta palavra, preferia o tom solene) e ele se deu bem, recebeu  todas as honrarias de um escritor oficial e até fez poupança na Caixa. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Não me arrependo de nada do que fiz e nem renego as minhas críticas, mas  hoje, depois de reler Machado, percebo o quanto fui burro. Sim, e como a burrice  maior é não admitir o erro, reconheço o equívoco. Não entendi que ao cortejar a  atenção da boa sociedade, Machado desferiu uma crítica ácida à perversão da  elite brasileira, jamais deixando de molhar a sua pena na tinta da ironia. Não  era um yuppie do século 19, como eu pensava. Era oblíquo e dissimulado como  Capitu. Escreveu, com todas as letras: aos vencedores, as batatas. </font></p><div style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"> </div><p style="text-align: justify; font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;"><font>Mas, voltemos ao anúncio da Caixa Econômica, Machado era contraditório,  metade mulato e metade inglês. No entanto, os movimentos organizados de negros  têm razão de reclamar. Não faz sentido que ele seja representado por um ator  branco em uma reconstituição documental e histórica. O inconsciente racista  brasileiro falou mais alto. Embaixo da pose de inglês, no fundo da alma, no  ferver do sangue, Machado era um mulato carioca e um moleque brasileiro gozador.  Atenciosamente, Lima Barreto, mulato, pobre e livre." </font></p>  
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