Nem tudo que é torto é errado, veja as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado, diz o poema do Nicolas Behr. A tortuosidade das pernas do marido de dona Elza era um desafio anatômico. Como aqueles dois arcos, um côncavo e outro convexo, puderam juntos dançar um balé tão espetacular quanto o que me vem aos olhos da memória nesse instante? Mesma surpresa se tem quando as árvores do cerrado ganham seus brincos de flores. Como brotou tanta beleza de tanta feiúra? Antes que os muitos apaixonados pelo cerrado me mandem e-mails de desagravo, esclareço que, a bem da verdade, acho lindas as árvores encarquilhadas e todo o conjunto da obra. Mas demorei a descobrir a beleza delas. Pra quem vem da Amazônia, ou da região de Mata Atlântica, as árvores do cerrado são um arremedo de vegetação. Essa espantosa feiúra foi a responsável pelos séculos de desprezo que o país teve e a rigor até hoje tem por sua savana. Ao primeiro olhar, o cerrado é um triste espetáculo da natureza. Descobrir a beleza das árvores carapinhas, por exemplo, é um processo longo. Começa por você conviver com elas todos os dias. Acompanhar suas mudanças de humor — de verdejantes a acinzentadas, de acinzentadas a nuas em pêlo, de nuas em pêlo a inteiramente floridas. Saber que a casca grossa e caroquenta que recobre os troncos pernas-de-Garrincha são uma espécie de cortiça e que elas têm um sentido de sobrevivência. Acreditam os cientistas que o cerrado, como as muitas savanas do mundo, coexistem com os incêndios naturais, seja de raios, muito comuns nas regiões abertas, de atividades vulcânicas, desde tempos remotos. Para resistir às queimadas, as árvores foram criando uma casca grossa — nisso, árvore do cerrado é igual gente. Crispada na sua absurda tentativa de se manter viva, a árvore do cerrado tem de enfrentar a seca bruta dos meses de maio a setembro. Então, busca água no mais fundo da terra. Por isso tem raízes longas, perfurantes, insistentes, como aquelas pessoas que padecem muito e catam forças das profundezas. Árvore do cerrado brota de um solo ácido, com poucos nutrientes, o que a deixa baixinha e retorcida. Quase-anã, tortinha, ressequida, feiosa, mesmo assim a árvore do cerrado é a mais resistente no mundo das árvores. Reanima-se rapidamente depois de um incêndio e produz flores as mais delicadas. Por isso é que quando vi as fotos do solo de Marte, exibidas ontem nos online, fiquei pensando que o cerrado se negou à esterilidade, à ausência absoluta de vida, e saiu das entranhas áridas do chão vermelho para compor uma obra das mais sofisticadas da natureza. Mas é preciso paciência para descobrir a beleza do cerrado. É mais fácil gostar da Amazônia.
|
|
|
