
DAD SQUARISi // dadsquarisi.df@dabr.com.br
O assunto não varia. À mesa do bar, à entrada do cinema, nas reuniões de trabalho, nas rodinhas da academia, a pergunta é inevitável: “Você é a favor ou contra a intervenção?” Os grupos se dividem. Uns apoiam a medida. Outros a rejeitam. Poucos ficam em cima do muro. Mas todos têm argumentos sólidos. O desafio é pô-los na balança e ver pra que lado o prato pende.
Os favoráveis alimentam senhora esperança — que o interventor acabe com a corrupção que se dissemina pelos poderes da capital. Ele seria capaz de dar passos capazes de pôr fim ao estado de coisas que expõe as vísceras malcheirosas desde outubro. O primeiro: fechar os ralos por onde escorre o dinheiro público. O segundo: apontar os bolsos, as bolsas, as meias e as contas beneficiados. O último: limpar a área para a posse do novo inquilino do Buriti e os novos moradores da Câmara Legislativa.
Os contrários não questionam a necessidade da faxina. Questionam a eficácia da medida. O super-homem assume, troca os gestores, promove auditorias, propõe ações, etc. e tal. Tudo, vale lembrar, em poucos meses. Enquanto ele age, a campanha eleitoral corre solta. Em 1º de janeiro, o ungido toma posse. Vale a questão: algo mudará além do carimbo e da assinatura? Em Memórias póstumas de Brás Cubas, há um capítulo que responde à pergunta.
Nele, o personagem relata o delírio que antecede a morte. Montado num hipopótamo, vai à origem dos tempos. Vê o desfile dos séculos. No início, com interesse. Depois, com irreprimível monotonia. Desde sempre o espetáculo é o mesmo porque os protagonistas são os mesmos. O desfile da nossa história tampouco muda. Basta lembrar Collor. O impeachment do presidente acendeu esperanças de que se abriam as portas para o diferente. A frustração não tardou. Mensalões, obras superfaturadas, loteamento do Estado continuam vivinhos da silva.
Moral da história: o modelo se reproduzirá enquanto se mantiver o sistema vigente. Cortar-lhe a raiz implica mudar as regras que o mantêm vivo. Judiciário ágil, exigência de ficha limpa, redução dos cargos de confiança, transparência nos atos, licitações via internet, fiscalização profissional…e cadeia. Sem alterar as regras, o banquete permanece. Só mudam as moscas.
Ao passar em frente a um clube social, vi afixada a seguinte faixa: " Parabenizamos todas as mulheres do Brasil pelo o seu dia". Está correta a frase?
Nossa! Quanto desperdício! Todas as mulheres? Basta as mulheres. Pelo o? O o está presente em pelo (per + o). A homenagem mereceria nota 10 se estivesse assim escrita: Parabenizamos as mulheres pelo seu dia.
"…com a prisão, precisou ser interrompido o processo de fisioterapia recomendado pelos médicos para os quatro meses seguintes à operação do tornozelo que Arruda foi submetido no ano passado", escrevemos na pág. 27. Ops! Cadê a preposição? Quem é submetido é submetido a alguma coisa. Assim: …precisou ser interrompido o processo de fisioterapia recomendado pelos médicos para os quatro meses seguintes à operação do tornozelo a que Arruda foi submetido no ano passado.
Você acompanha Viver a vida? Então deve ter levado um baita susto. Na segunda, Dia Internacional de Mulher, a recém-separada Malu recebeu belo buquê de flores. Ficou excitada. Quem lhe teria feito a gentileza? Ao abrir o envelope, lá estava mensagem pra lá de brega de fã pra lá de indesejado. Ela desabafou: "Prefiro ter o Marcelão de volta do que o Gustavo no meu pé". Acertou no conteúdo, mas tropeçou na forma. Quem prefere prefere uma coisa a outra ou alguém a outro alguém: Prefiro ter o Marcelão de volta a ter o Gustavo no meu pé. Prefiro rosas a cravos. Prefiro sair a ficar em casa.
Por falar em preferir…
Antenas ligadas, por favor. Não prefira mais (prefiro mais cinema a teatro). O mais é redundância. Prefira simplesmente.
Em 8 de março comemora-se o Dia Internacional de Mulher. Flores, chocolates, cartões, e-mails, vale tudo pra homenagear as ilustres senhoras e senhoritas. Nilcéia Freire, a representante das mulheres na Esplanada dos Ministérios, ocupou a telinha no horário nobre. Entre elogios, balanço de realizações e rasgados elogios às representadas, soltou esta: "Mais mulheres buscam gerir seus próprios negócios". Exagerou. O seus sobra. Melhor: Mais mulheres buscam gerir os próprios negócios.
Mais
À medida que Nilcéia falava, o texto aparecia na tela. Eis um trecho: "Para o combate a violência, temos a Lei Maria da Penha." Ops! Cadê a crase? Na dúvida, basta substituir o nome masculino por um feminino. Nem precisa ser sinônimo. Se no troca-troca o ao pedir passagem, é a vez do à. Veja: Para dar combate ao agressor, temos a Lei Maria da Penha. Logo: Para dar combate à violência, temos a Lei Maria da Penha.
Há meses o Distrito Federal está no noticiário. Um nome não sai de cartaz. Ora os repórteres se referem à Câmara Legislativa. Ora, à Câmara Distrital. E daí?
O Legislativo do Distrito Federal tem duas funções. Uma: de câmara de vereadores. A outra: de assembleia legislativa. A denominação sugere os dois papéis — Câmara Legislativa.
Alguns preferem falar em Câmara distrital. Serão entendidos. Mas o adjetivo distrital não faz parte do nome. Escreve-se com a inicial pequenina.
"Chegamos bem cedo e mesmo assim acho que está tarde. Queremos pegar o melhor lugar para curtir tudo de perto. Nunca pensei que eles viessem tocar em Brasília. Como não tinha idade para ir ao Rock in Rio, a chance é agora. Será o show do ano", escrevemos na capa do Diversão&Arte. Reparou na confusão de tempos? A pessoa foi ao show. Fala de fato passado. Melhor: Chegamos bem cedo e, mesmo assim, achamos que estava tarde. Queríamos pegar o melhor lugar para curtir tudo de perto. Nunca pensei que eles viessem tocar em Brasília. Como não tinha idade para ir ao Rock in Rio, a chance era aquela. Foi o show do ano.
Que coisa, hein? Adriano se meteu em confusão de novo. Brigou com a namorada em um bar do Rio. O pega pra capar chegou à pancadaria. E, claro, mereceu destaque na imprensa de Europa, França e Bahia. Ele sumiu. Com 8kg acima do peso, reapareceu no clube 11 dias depois. Não treinou. Procurou a presidenta do Flamengo e confessou que é dependente de álcool. Surgiu, então, a questão. Ele é alcoólatra ou alcoólico?
Vale a lembrança. Antes, a sigla AAA significava Associação dos Alcoólatras Anônimos. Depois, passou a chamar-se Associação dos Alcoólicos Anônimos. A razão: o drama é o mesmo. Mas alcoólatra tem carga de rejeição social muito grande. Alcoólico é mais tolerável. Quer ser generoso? Diga que Adriano abusa de bebida alcoólica.
Meninos e meninas, preparem-se. Dia 31 o bolso sofrerá. A razão? Os remédios vão ter os preços reajustados. A pancada varia de 4,45% a 4,83%. A notícia mereceu destaque em jornais, rádios e tevês. Foi aí que a porca torceu o rabo. "Os preços vão ficar mais caros", disseram desavisados. Nada feito. "Preço", diz o dicionário, "é a quantidade de dinheiro necessária para comprar um produto ou serviço". Assim, o preço aumenta ou diminui. Fica mais alto ou mais baixo. Caro e barato se referem ao produto: O remédio vai ficar mais caro. O preço, mais alto.
Maria é cuidadosa leitora de jornais. Presta atenção às notícias. Mas não se descuida da língua. Grafia, concordância, regência, nada escapa da moça pra lá de exigente. Outro dia, ela leu esta frase: "Deputado reavê velho estilo". Arrepiou-se. Mais um descuidado tropeça no reaver. É que o verbo arma baita cilada. Nela, tropeçam as melhores famílias. Jornalistas também.
Você consegue identificar a falha que enfureceu Maria?
a. Ao escrever "reavê", o repórter desconheceu a origem do verbo. Pensou que reaver fosse derivado de ver (eu vejo, ele vê).
b. O significado de reaver não é adequado à frase. Recuperar cai melhor.
E daí?
Escolheu a letra a? Acertou. Reaver parece derivado de ver. Mas não é. O pai dele é haver. O danadinho significa haver de novo. Em outras palavras, recobrar, recuperar. Por isso se fala em reaver o tempo perdido, reaver os bens, reaver a amizade.
Conjugação
Filho de peixe sabe nadar. Reaver só se conjuga nas formas em que o v, de haver, aparece. Nas demais, ele não tem vez. O presente do indicativo tem duas pessoas. Uma: reavemos. A outra: reaveis.
Sem a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o presente do subjuntivo inexiste. Não caia na esparrela do "reaveja". "Reaveja" não existe. Em vez desse horror, diga recupere, recobre.
Olho vivo
O perigo mora no pretérito perfeito. Os distraídos o flexionam como se o pobrezinho descendesse de ver. Não falta quem escreva "reaviu". Cruz-credo! O pretérito perfeito de haver é houve. De reaver, é reouve, reouveste, reouve, reouvemos, reouvestes, reouveram.
Moleza
Os demais tempos e modos são moleza: reavia, reavíamos, reaviam; reouvera, reouveras, reouveram; reaverei, reaverás, reaverá; reaveria, reaveríamos, reaveriam. E por aí vai.
Teste
Está pra lá de certa a frase:
a. Talvez ele tenha reavisto as jóias roubadas.
b. Talvez ele tenha reavido as jóias perdidas.
Acertou?
Moleza, não? O particípio de haver é havido. De reaver, reavido.
"O partido fez as contas e descobriu que o PT só lhe apoia pra valer em três estados", escrevemos na pág. 4. Ops! Tropeçamos na regência. Apoia-se alguém. Transitivo direto, o verbo pede objeto direto. O pronome que desempenha tão nobre função é o ou a (o lhe é objeto indireto). Melhor: O partido fez as contas e descobriu que o PT só o apoia pra valer em três estados.
Canja de galinha é redundância? É. Toda canja é de galinha. Basta canja. "No DEM há um agravante", escreveu o jornal. Wilson Ximenes pergunta: agravante não é palavra feminina? O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Wilson, é pra lá de concessivo com agravante. Diz que a palavra joga nos dois gêneros. Pode ser feminina (a agravante) ou masculina (o agravante). Nós escolhemos
Viva! Hoje é dia de glamour e charme. Atores, diretores, maquiadores, figurinistas, roteiristas estão na torcida. Todos querem o Oscar. A estatueta abre portas. Atrai público para os cinemas e projeta o agraciado. A festa traz ao cartaz dois verbos. Um: assistir. O outro: premiar.
Assistir tem duas regências que confundem gregos e troianos. Com a preposição a, significa presenciar (assistir ao filme, assistir ao show, assistir à aula). Sem preposição, prestar assistência (assistir o doente, assistir os flagelados, assistir os alunos com baixo rendimento).
Premiar pertence à equipe de maquiar. Um e outro são regulares: eu premio (maquio), ele premia (maquia), nós premiamos (maquiamos), eles premiam (maquiam).
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"A larva pode se proliferar", anunciou o Bom-Dia, DF de quinta-feira. A matéria falava do avanço da dengue em Brasília. Chamava a atenção para o risco da água parada. O Aedes aegypti fica de olho no líquido. Lá cresce, aparece e se multiplica. Pois é. O repórter se esqueceu de um pormenor apenas. Proliferar é verbo solitário. Não aceita o pronome nem coberto de ouro, rubis e esmeraldas: A larva pode proliferar.
"Ar-condicionado e ventiladores matam o mosquito. Mentira. Estes aparelhos apenas apontam o mosquito", escrevemos na pág. 32. Tropeçamos no demonstrativo. No caso, o pronome indica referência anterior. É a vez do esse: Ar-condicionado e ventiladores matam o mosquito. Mentira. Esses aparelhos apenas apontam o mosquito.
Hillary Clinton andou por aqui. Visitou Brasília e São Paulo. Na capital da República, conversou com Lula e Celso Amorim. Sorridente, deu recados. Um deles: o Irã está enganando o Brasil. Quer construir a bomba atômica, mas finge que só quer a tecnologia para fins pacíficos. O outro: os caças americanos são melhores que os franceses e suecos. Devem merecer a preferência verde-amarela. Presidente, ministros, embaixadores & 180 milhões de brasileiros ouviram a envolvente secretária de Estado americana. Cada um representou o papel pra lá de bem. Ela sugeriu aos brasileiros que não pensassem com a própria cabeça. Eles fingiam acreditar. No fundo se divertiam. Riam para o umbigo. O ministro das Relações Exteriores falou em nome de todos: "Eu não creio que os Estados Unidos pense…" Ops! Olha a cilada! Cadê o plural? Nome próprio escrito no plural tem manhas. Com ele, o artigo canta de galo. Se estiver no plural, o verbo vai atrás. Se no singular, idem. Assim: Os Estados Unidos sabem o que quer o Irã. Os Andes estão sujeitos a terremotos frequentes. Os Alpes ficam na Europa. O Palmeiras é o time dos italianos paulistas. O Democratas perdeu o único governador da legenda.
Há outro jogador no time dos nomes próprios plurais. Trata-se do sem-artigo. Como ele fica? No singular. Eis a prova: Minas Gerais é a terra de políticos que fizeram escola.
A moçada afra
Em São Paulo, Hillary conversou com a moçada da Faculdade Zumbi dos Palmares. A maior parte dos alunos é negra. Muitos querem se classificar de afrodescendentes. Inspiram-se nos americanos. Os filhos de Tio Sam não gostam do termo negro. Preferem recorrer ao afro. Nós os imitamos. Vale, por isso, ficar atento ao dissílabo. Ele muda de classe como a comissão de frente da Tijuca muda de roupa.
Ora é substantivo. Aí, flexiona-se como os irmãozinhos dele (o afro, os afros, a afra, as afras). Ora, adjetivo (cultura afra, culturas afras, cabelo afro, cabelos afros). O arteiro pode, também, ser prefixo. No caso, pede hífen quando indica nacionalidade. No mais, dispensa o tracinho: afro-brasileiro, afro-inglês, afro-cubano, afro-japonês, afrodescendente.
Tanto faz
Os estudantes queriam notícias do andamento da política de cotas nos States. Cotas ou quotas? As duas grafias figuram no dicionário. Com elas, não há erro. É acertar. Ou acertar.
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Em tempos de panetones, mensalões, descrença nas instituições, um nome ganha destaque. É Chico Xavier. No centenário de nascimento, o médium mineiro se torna protagonista de livros, filmes e documentários. Mereceu a capa da revista Época da semana. Trata-se de modismo? A história diz que não. Ele tinha 5 anos. Até então, a vida corria normal. Aí, aconteceu. A mãe desencarnou. O pai distribuiu a filharada entre os parentes. Chico parou na casa da madrinha. Lá, começou a ter visões e a receber mensagens dos espíritos. Explicar a paranormalidade? Não conseguia. Apanhava todos os dias por manter contato com as almas do outro mundo.
Tempos depois, o pai casou-se outra vez. Primeira providência: reunir a família dispersa. Juntos, costumavam passear pelas ruas da interiorana Pedro Leopoldo. Nas idas e vindas, ele descobriu a diferença entre mãe e madrasta: "A mãe anda a nosso lado. Dá-nos a mão. A madrasta vai na frente". Ao longo da vida, Chico caminhou ao lado dos semelhantes. Estendeu-lhes a mão. Consolou os aflitos. Socorreu os carentes. Seguiu, sem recuos, a lição de Jesus: ama ao próximo como a ti mesmo. Praticou o lema do espiritismo: fora da caridade não há salvação.
Manteve a porta sempre aberta. Por ela passaram mães desesperadas. Glória Perez andou por lá. Buscava consolo para a tragédia que lhe roubara a única filha. Mulheres sofredoras chegavam a qualquer hora. Maria, Luíza, Joana, todas eram acolhidas com imenso amor. Pais desempregados, sem saber como matar a fome dos filhos, voltavam com pão, leite, arroz, feijão. Viciados, bêbados, prostitutas encontravam abrigo e consolo.
O mundo artístico e político conhecia o endereço. Roberto Carlos foi atrás da resposta para a perda da mulher amada. Mário Covas e dona Lila receberam mensagem da filha que partiu na frente. JK não arredava pé de Uberaba. Itamar Franco condecorou o médium com a Medalha da Inconfidência. Augusto César Vannucci inspirou-se em psicografia de Chico e Divaldo Franco para encenar a peça Além da Vida. A todos Chico tratava como irmãos. Sem vassalagem ou privilégios.
Li na revista Veja: "Você é corajoso para falar a distância e covarde para falar de frente". Falta crase na locução "a distância"? (Carmem Barca)
Não. A locução a distância tem tratamento pra lá de especial. Ela só ganha o acentinho indicador da crase quando a distância for determinada. Compare: Viu Luciana Gimenez a distância. Viu Luciana Gimenez à distância de uns 200m.
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Charlie Sheen pode voltar para trás das grades ou para atrás das grades? (Júlia Rafaela)
Júlia, guarde isto. Com preposição, só trás tem vez: Olhou para trás. Viu-o por trás das cortinas. Veio de trás.
Ops! A terra tremeu. A luz se apagou, o telefone emudeceu, o lustre ficou no cai não cai. As pessoas demoraram a entender a brincadeirinha sem graça. Um senhor terremoto abalou o Chile. Matou quase 800 pessoas. Instalou o caos. Deu passagem ao pânico. O epicentro ocorreu no mar. Ondas gigantescas se levantaram. Ameaçaram outros países banhados pelo Pacífico. Os cientistas falaram em tsunami. Tiveram um cuidado: respeitaram o gênero da palavra. Ela é masculina sim, senhor.
Estragos
O terremoto matou e feriu. Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. Mas uma coisa é certa. Os quase 800 mortos são vítimas. Mas não são vítimas fatais. Por quê? Fatal é o que mata. O terremoto é fatal. O morto, coitado, joga em outra equipe. Ele não matou. Morreu.
Olhinhos puxados
Nem só de sushi e saquê vive o japonês. A língua do povo amarelo de cabelos lisos e olhinhos puxados enriqueceu o léxico português com outros vocábulos. Um deles: tsunami. A palavra tem duas partes. Uma: tsu. As três letrinhas querem dizer porto, ancoradouro. A outra: nami. A dissílaba significa onda, mar. Em bom português: tsunami são ondas marítimas gigantes que têm origem bem conhecida. São provocadas por movimento de terra submarino ou erupção vulcânica. Valha-nos, Deus, da fúria da natureza!
"Atuar é realmente a única coisa que me interessa. Inclusive, se tivesse que fazê-lo no teatro da paróquia por toda vida, faria com o mesmo prazer", escrevemos na pág. 8 de Diversão&Arte. Cadê o artigo? Sem o pequenino, o todo significa qualquer. Não é o caso. Ele quer dizer totalidade. Melhor: toda a vida.
Antes que a indesejada das gentes lhe batesse à porta, conjugou dois verbos. O primeiro: ler. Ele leu, leu muito. O segundo: doar. Doou quase metade da coleção à Universidade de São Paulo. Ambos os verbos sofreram com a reforma ortográfica. Ler deixou pra trás o acento que exibia na 3ª pessoa do plural. Agora, eles leem sem lenço e sem chapeuzinho. Doar entrou na onda do oo. Nas paroxítonas, perdeu o acento: eu doo, voo e perdoo.
"Não faço nada sem alegria", anuncia o ex-libris das obras que o bibliófilo acariciou. Cheio de alegria, bom humor e espontaneidade, ele tratava funcionários, amigos e familiares. Com o sorriso aberto e olhos luminosos de sempre, Mindlin chegou ao céu no domingo. Lá encontrou a mulher, Guita. Ao vê-la, repetiu dedicatória que Drummond fizera pra ele, e ela adorara: "Procuro no dicionário. Falta rima para corpo. Não é nada extraordinário. Sua rima é outro corpo".
Paixão incurável
Mindlin era bibliófilo. Tinha paixão pelos livros. As partes que compõem a palavra são velhas conhecidas. Biblio quer dizer livro. O dissílabo aparece em biblioteca, biblioteconomia, bibliografia. Filo significa amor, paixão, "compulsão irresistível". Daí filosofia, o amor à sabedoria.
É assim
O contrário de bibliófilo? É bibliófobo — horror aos livros.