
"Por volta de 23h, cerca de 100 pessoas conseguiram invadir o prédio", escrevemos na pág. 3. Viu? Esquecemos pormenor pra lá de importante. A indicação de horas não sobrevive solitária. Precisa sempre, sempre mesmo, da companhia do artigo. Assim: Por volta das 23h, cerca de 100 pessoas conseguiram invadir o prédio.
Que medão! Traiu? Prepare-se. No novo Brasil, há a ameaça do efeito dominó. O povo pode exigir o mandato de volta. Chegar lá, exige um cuidado. Não confundir mandato com mandado. Mandato é representação. O eleitor escolhe o candidato para representá-lo . Em bom português: para fazer as vezes dele. Senador, deputado, presidente, governador, prefeito e vereador têm mandato.
Mandado joga em outro time. Vem de mando, ordem. Daí mandado judicial, mandado de segurança, mandado de busca e apreensão.
"Todo poder emana do povo", diz a Constituição. Povo? Que povo? Alguns o chamam de povinho. Outros, de zé-ninguém. Massa serve. Povão também. Na França foi denominado de terceiro estado -- t udo que não era clero nem nobreza.
Aqui, ganhou outras especificações. "Apenas um detalhe", rotulou-o Zélia Cardoso de Mello. "É o dono da Praça Castro Alves", cantou Caetano. "É o porta-voz do Senhor", afirmam os pais de santo. E explicam: "A voz do povo é a voz de Deus".
As manifestações que tomam conta das ruas deram recado claro: "Deixem as brincadeirinhas pra lá. O povo é o que diz a Constituição. Aliado às redes sociais, mostra quem é que manda". Presidente, deputados, senadores, governadores, prefeitos & cia. eleita representam os brasileiros. Devem lutar pelo bem comum. Se não o fazem, conjugam o verbo trair.
Luz vermelha
Trair joga no time de sair e cair . O trio se flexiona do mesmo jeitinho: eu traio (saio, caio), ele trai (sai, cai), nós traímos (saímos, caímos), eles traem (saem, caem); eu traí (saí, caí), ele traiu (saiu, caiu), nós traímos (saímos, caímos), eles traíram (saíram, caíram).
E por aí vai.
Flatônio José da Silva
"Primeira fase: o poeta imita modelos célebres. Úlma fase: o poeta imita-se a si mesmo. Naquela, ainda não conquistou a originalidade; nesta, já a perdeu. Não há mais triste elogio que `Não é preciso assinatura, isto é de X`. Esplêndido seria que só se descobrisse que é X pela assinatura." (Carlos Drummond de Andrade)
Caixa
se escreve com x. A razão: se depois de ditongo soa xis, a letra x pede passagem:
baixa, queixa, paixão, peixe, feixe, faixa, caixão.
Olho vivo. O en às vezes soa ein. Ditongo, joga no time do x. Assim: enxergar, enxoval, enxaguar, enxuto, enxofre, enxada, enxurrada, enxerto, enxugar, enxame.
Atenção, marinheiros de poucas viagens. O primeiro mandamento da grafia é o respeito à família. Se o paizão se escreve com ch, cessa tudo o que a musa antiga canta: cheio (encher, enchimento, enchente), charque (encharcar, encharcado).
"Contam também com subsídios da prefeitura, que devem chegam a R$ 1,25 bilhão", escrevemos na pág. 6. Viu? Mais uma traição do olho. Viciado, lê certo. N ão vê a sopa de letrinhas. Melhor ajudá-lo: Contam também com subsídios da prefeitura, que devem chegar a R$ 1,25 bilhão.
Pandora é a Eva dos gregos. Ambas pagam por crime que não cometeram. Eva teria tentado Adão com a maçã. Ele não resistiu. Mordeu a fruta. Resultado: adeus, paraíso.
Pandora, a primeira mulher a povoar a Terra, era linda e cheia de graça. Tinha força e coragem. Sabia negociar, convencer e fazer tudo com as mãos. Bordava, cozinhava, pintava, tocava harpa, piano e violino. Por isso os deuses a chamaram Pandora — pessoa que tem todos os dons.
Antes de vir pra cá, ela ganhou uma caixa. Estava fechadinha. Epimeteu, o maridão, ficou curioso. Abriu-a. De dentro saltaram os males da humanidade. Desde então, doenças, violência, guerras, dores passaram a viver no planeta. Quando viu a bobeira que fez,
ele
fechou a caixa. Prendeu a esperança.
Moral das histórias
A culpa da desgraceira que reina no mundo é a curiosidade dos homens. Depois dizem que a mulher é curiosa.
Carlinhos Cachoeira voltou pra casa
depois de meses na cadeia
. Leva vida discreta mas pra lá de confotável. De vez em quando, vai a praias badaladas. As fotos aparecem em jornais, revistas, tevês e ganham o mundo na internet. Mas, como diz o outro, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. O enredo da história mudou.
Andressa, a mulher do bicheiro, apareceu em desfile beneficente no Palácio das Esmeraldas. Virou notícia, claro. Marconi Perilo não gostou da divulgação. Disse que ela havia entrado sem convite. Em bom português: era penetra. Pra quê?
Em carta publicada no
Diário da Manhã
, Cachoeira ameaçou expor os podres do governador de Goiás. "A caixa que Pandora abriu e permitiu que as desgraças se abatessem sobre os homens será brincadeira de criança diante do que posso perpetrar para defender a honra da minha família."
Que palavra?
A reação do marido da bela mulher gerou dúvida.
N
ão era
questão
moral. Era vocabular. Ao tomar conhecimento da desculpa do governador, Cachoeira ficou raivoso, furioso ou irado? No duro, no duro, ele poderia ficar tomado de fúria ou raiva. Ira é muita areia pro caminhão do ilustre senhor.
As três letrinhas têm
o tamanho do Todo-Poderoso. Ninguém fala em raiva, ódio ou fúria do Senhor. Fala na ira de Deus.
A lei está vigendo? Está vigindo? Nunca sei. (Selma Azambuja)
Viger pertence à 2ª conjugação. Preguiçoso, só se conjuga nas formas em que o g é seguido de e ou i : A lei vige. A MP continua vigendo.
"O discurso serviu para a presidente responder àqueles que atribuíram aos aumentos nos índices da inflação à queda da popularidade de Dilma", escrevemos na pág. 2. Ops! Tropeçamos na regência. Melhor recuperar o prumo: O discurso serviu para a presidente responder àqueles que atribuíram aos aumentos nos índices da inflação a queda da popularidade de Dilma… Em outra ordem: … atribuíram a queda da popularidade aos aumentos nos índices da inflação.
"Aproxima-se o dia 26, quanto a Câmara dos Deputados vai exercer sua principal função", escrevemos na pág. 12. Viu o troca-troca? O olho leu certo, mas a grafia está errada. Melhor corrigir: Aproxima-se o dia 26, quando a Câmara dos Deputados vai exercer sua principal função .
"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira
. B
asta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição." (Artur da Távola)
O amor é lindo? É. É bom? É. Faz bem? Faz. Se tem tantos atributos, por que
foge
? Entendidos dão palpites. Vinicius, cobra que nasceu criada, diz que o amor é efêmero, "infinito enquanto dura". Millôr concorda. "Eterno no amor", jura ele, "tem o mesmo sentido de permanente no cabelo."
Vênus, lá do Olimpo, vai às origens. Responsabiliza Cupido. Com os olhos vendados, o garotinho brincalhão atira a seta envenenada. Acerta o al
v
o errado. Mas, pela lei da probalidade, uma vez ou outra dá uma dentro. É como ganhar na MegaSena.
A vaidosa Exum, cheia de feitiços, põe o dedo na questão. "Há uma barreira entre as flechas e os atingidos." Qual? "
Trata-se do
vocabulário", diagnostic
a
a deusa que conhece as manhas da sedução desde que vivia na África. Existe uma barreira entre
o
sujeito e
o
objeto.
Viver um grande amor? Oba! Pra chegar lá, cuidado com as palavras. No início da relação, os verbos têm uma marca. São transitivos diretos.
Paquerar, abraçar
e
beijar
não admitem intermediários. Para a seta do deus do amor atingir o alvo, eles mandam a preposição pastar longe e lentamente.
Veja:
João paquera Vitória. Vitória paquera João. João a paquera. Vitória o paquera. Rafa abraça Maria. Maria abraça Rafa. Rafa a abraça. Maria o abraça. Carlos beija Teca. Teca beija Carlos. Carlos a beija. Ela o beija.
Olho vivo, pombinhos charmosos. Encontrar a cara-metade é tão difícil quanto acertar na
loteria
Se você encontrou a sua, segure-a. Não diga paquerar com, ou lhe abracei, ou lhe beijei. Uma bobeira… ops! Adeus, grande amor. Vale lembrar: o amor é cego. Mas não é surdo
.
Namoramos com? Ou namoramos simplesmente? No século 21, nada mais antigo do que a vela. Convenhamos: uma criatura no meio do casalzinho desanima, apaga o fogo
, expulsa a paixão
.
Resultado
: deixa o olhar livre para buscar outro olhar. Namorar é livre como o vento. Não aceita preposição nem a pedido dos deuses do céu ou do Olimpo. Melhor deixá-lo fluir. Assim:
Paula namora André. André namora Paula. Paula o namora. André a namora.
Que sejam felizes
.
"Queremos um ensino médio mais inteligente, preparando os nossos jovens para a sociedade do conhecimento e da inovação."
"Indicadores do atual governo escancaram fragilidade dos fundamentos da economia", escrevemos na pág. 7. Reparou no desperdício? O adjetivo sobra. Melhor: Indicadores do governo escancaram fragilidade dos fundamentos da economia.
Qual é o correto: entre eu e você ou entre mim e você?
Guarde isto:
entre
é preposição. Joga no time de
por, de, para
& cia. O comportamento do pronome em relação a todas elas é igualzinho da silva. Você não diz
gosta de eu
. Nem faz o trabalho
por eu
. Tampouco
telefonou para eu.
O
eu
so
f
re de incurável alergia. Pra evitar os sintomas do mal, o
mim
pede passagem. Assim: Gosta de mim. Faz o trabalho por mim. Telefonou para mim. Discussão travada entre mim e você.
Lojas, joalherias, bares, restaurantes estão em festa. É Dia dos Namorados. Em ocasião tão especial, os apaixonados (ou nem tanto) conjugam o verbo presentear. Aí, cercam-se de todas as cautelas. A mais importante é o respeito ao verbo.
A conjugação do desejado das gentes tem manhas nos presentes do indicativo e do subjuntivo. Na primeira pessoa do plural, o caprichoso esnoba o i . Veja: eu presente i o, ele presente i a, nós presenteamos, eles presente i am; que eu presente i e, ele presente i e, nós presenteemos, eles presente i em.
O correto é editor-adjunto ou editor adjunto? Editor-assistente ou editor assistente? Editor executivo ou editor-executivo? A reforma ortográfica caiu bem, mas me deixou com dúvidas demais, sobretudo em relação ao hífen. (Marcelo Henrique)
Você e o mundo, Marcelo, têm dúvidas no emprego do hífen. A culpa não é da reforma ortográfica. Castigo de Deus, o tracinho dá nó nos miolos de gregos, troianos, baianos & mortais que precisam da língua pra ganhar o pão nosso de todos os dias, passar em concursos ou aparecer bem no filme.
Dicionários não respondem à sua pergunta. Na prática, costuma-se respeitar a grafia que aparece na certidão de nascimento do órgão. Se a lei, o decreto, a portaria ou outro documento batizou-o com hífen, assim deve ser escrito. Se sem, o caminho é o mesmo. Nos demais casos, prefira juntar a duplinha com hífen.
"Parecia muito pequeno o ideal de meu pai, naquele tempo, lá. A escola, onde me matriculou também na caixa escolar — para ter direito a uniforme e merenda — devia me ensinar a ler, escrever e fazer conta de cabeça. O resto, dizia ele, é só ter gratidão, e isso se aprende copiando exemplos." (Bartolomeu Campos Queirós)
Oba! Junho é mês de muitos santos. Santo Antônio, São João e São Pedro recebem homenagens e ganham festas. A mais legal é a de são-joão. Adultos e crianças se vestem de caipira e caem na farra: dançam a quadrilha, pulam a fogueira, participam do casamento na roça, pescam surpresas, comem delícias. Ali, a gula não é pecado.
Ninguém precisa resistir à tentação de canjicas, pipocas, churrasquinhos, paçocas, pamonhas, cachorros-quentes, pés de moleque & cia. prazerosa. Na faceirice geral, uma restrição se impõe. Trata-se de respeitar a grafia nota 10. O nome do santo é substantivo próprio. Escreve-se São João. O da festa é substantivo comum. Escreve-se são-joão.
Analogia
As festas juninas são tão boas que avançam no mês de julho. Aí ganham outro nome. São julinas.
