Terça-feira, 14 de abril de 2009 12:00 am

Os afins nem sempre estão a fim

 

 

Beatriz morre de preguiça de escrever. Quando tem de dar um recado, não pensa duas vezes. Telefona. Adora ouvir a voz dos amigos no outro lado da linha. Mas as ligações ficaram cartas. O dinheiro, curto. O pai, durão. Bate pé e nega aumento de mesada. E daí? Sem saída, a alternativa da moça é uma só – economizar.

 

Mas eis que Beatriz encontrou o grande amor. Bonito, charmoso e delicado, o rapaz tem uma mania. Adora mandar e-mails. Ela os responde com cuidado. Sabe que vão longe os tempos em que o amor era cego. Hoje enxerga com lentes de aumento. Uma letra posta fora do lugar pode matar o sonho mais longamente acalentado.

 

Outro dia, o gatão lhe mandou um bilhete eletrônico. Nele, o convite para um cineminha. Ela respondeu-lhe que não estava… ops! A fim ou afim? Mudou a frase. Mas a dúvida ficou. Passado o sufoco, consultou a gramática. Lá estava a resposta.

 

Afim não se escreve coladinha por acaso. É que os iguais se atraem. Afim significa ‘que tem afinidade, semelhança”: Evo Morales e Hugo Chávez têm idéias afins. História e literatura são matérias afins. O espanhol é língua afim ao português. Cunhado é parente afim.

      

A fim , desse jeito, um pedaço cá e outro lá, faz parte da locução a fim de . Quer dizer para : Saiu cedo a fim de (para) ir ao cinema. Mandou e-mail a fim de agendar consulta na Receita Federal. Tirou férias a fim de (para) estudar para o concurso. 

 

Na linguagem da brotolândia, a fim ganha sentido coloquial. Vira com vontade de , como se lê no diálogo de Rafael e João Marcelo:

 

-- Rafael, vamos bater uma bolinha hoje?

 

-- Não estou a fim. Que tal uma azarada no shopping?

 

-- Agora, quem não está a fim sou eu. Fica pra próxima.

 

É isso. O bate-papo dos garotos tem tudo a ver com a dúvida da Beatriz. Ela não estava a fim. PT saudação.  

 

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Segunda-feira, 13 de abril de 2009 12:00 am

Metros e retros

 

 

 

"A cada ação corresponde uma reação", ensina a física. Na língua de camiseta e chinelo, há expressões que dão o mesmo recado. "Bateu, levou", ameaçam os valentes. "Quem diz o que quer ouve o que não quer", afirmam os senhores de estopim curto. "Aqui se faz, aqui se paga", ameaçam os catastróficos.

 

 

A observação nasceu a propósito de metrossexual. A palavra veio ao mundo nos States em 1994. É cria do colunista Mark Simpson. Ele juntou metropolitano com heterossexual. Deu metrossexual. Com a polissílaba, definiu o homem moderno, urbano e extremamente vaidoso. Gasta 30% do salário em cremes, massagens, academias, salões de beleza, cirurgias plásticas. É o objeto de desejo dos publicitários, que vivem de olho em novos filões de consumo.

 

 

Em resposta ao metrossexual, pintou o retrossexual. Retro forma palavras como retrovisor, restrospectiva, retrógrado, retroceder. Elas têm um denominador comum. Olham pra trás. O retrossexual mantém os valores de tempos idos e vividos. Pisa duro, fala alto, usa camisa aberta, dispensa xampus e cremes, chama o garçom com estalo de dedos ou altos brados. Para ele, dividir a conta com mulher é ofensa. Entrar em clínica de estética é coisa de gay. O adjetivo machão soa como música.

 

 

Os termos criaram símbolos. David Beckham é exemplo de metrossexual. Lindo, vaidoso e louco por mulher. Reginaldo Rossi joga no time oposto. Diz-se homem com h maiúsculo. Com excesso de testosterona, não tem medo de mostrar a força e a masculinidade. Não pede. Faz. Mulher dele não tem de ser sensual e amiga. Precisa cuidar da casa e dos filhos.

 

 

Metros e retros parecem viver em polos opostos. Mas só aparentemente. Uns e outros têm um ponto comum. Preferem o sexo oposto. São heterossexuais. Héteros, na língua curta dos termos modernos. Ops! Com acento.  

 

 

 

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Domingo, 12 de abril de 2009 12:00 am

Rito de passagem linguístico


 

A mentira, tantas vezes repetida, vira verdade. A versão se torna fato. E a gente acaba acreditando nela. Políticos, artistas, pessoas poderosas são eternas vítimas. Atribuem-lhes declarações, casamentos, aventuras. As histórias encontram eco em jornais, revistas e tevês. Ganham comentários em colunas. Suscitam entrevistas. Com um pouco de sorte, sentam-se no sofá do Jô Soares. 
 

Ninguém escapa do diz que disse. Nem a língua. Certos usos e expressões adquiriram fama de erradas. É o caso de voltar atrás, não... nenhum, taxar. Foge-se delas como senadores de jornalistas. Quem as emprega candidata-se a críticas e sorrisos desdenhosos. Que injustiça! 
 

É hora da verdade. Na Páscoa, eis o convite. Filhote dos hebreus, a palavra quer dizer passagem. Os pastores nômades comemoravam a primavera. Cantavam e dançavam pela despedida do inverno. Na nova estação, a neve se ia. Os campos se cobriam de pastagens. Os alimentos abundavam. 
 

Mais tarde, os judeus começaram a festejar a Páscoa. Lembram a saída do povo de Israel do Egito. Era a passagem da escravidão para a liberdade. Em 325, foi a vez dos cristãos. Eles exaltam a ressurreição de Cristo. Em outras palavras: a passagem da morte para a vida. Agora, nós. Chegou a ocasião de desmascarar as falsas verdades. É o rito linguístico de passagem. Abram-lhe alas. 
 
 

Falsas verdades  
 

1.Voltar atrás. ‘‘É pleonasmo’’, bradam os repetidores de versões. E explicam: ‘‘Voltar só pode ser atrás. Como voltar pra frente?’’ 
 

A lógica parece perfeita. Mas há um senão. O verbo voltar só adquire o significado de retroceder se estiver acompanhado do atrás. É diferente do subir pra cima e descer pra baixo. Subir é sempre pra cima. Descer pra baixo. Mas voltar nem sempre é retroceder. 
 

2.Taxar x tachar. Essa é velha como o rascunho da Bíblia. Desde que o mundo é mundo, repete-se que taxar significa tributar. É meia verdade. A acepção do verbinho vai além. Atrevido, ele avança no território do tachar. Aí, quer dizer avaliar, julgar, qualificar: Taxou a apresentação de perfeita. Taxou-o de ignorante. Taxou o assessor de corrupto. 
 

Duvida, criatura sem fé? Banque o São Tomé. Consulte o dicionário. Depois, respire fundo. Você sabe que três coisas não podem falhar. Uma delas: luz na sala de cirurgia. Outra: o amado no encontro amoroso. A última: a correção do pai de todos nós. 
 

3. Não ... nenhum. Os inimigos da duplinha apresentam suas razões. Dizem que as duas negativas são redundância. Com agravante: junto, o casal deixa de ser negação. Vira afirmação. 
 

Falsa verdade. O parzinho é filho legítimo da linguinha nossa de todos os dias. Um dos empregos do nenhum exige a companhia da negativa anterior. Veja: Não há nenhum projeto concluído na área social. Não houve nenhum atentado durante a semana santa.
Não vi filme nenhum. Fez as gravações sem que nenhum entrevistado o tenha visto. 
 

Quem não gosta da estrutura casada tem saídas. Uma delas: trocar o nenhum pelo algum. Aí, se livra das duas negativas: Não existe projeto algum concluído na área social. Não houve atentado algum durante a semana santa. Não vi filme algum. Fez as gravações sem que entrevistado algum o tenha visto. 
 

Conclusão: a língua é um conjunto de possibilidades. A gente pode nadar de braçadas. Basta uma dose de coragem. E ousadia.
 

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Sábado, 11 de abril de 2009 12:00 am

O coelho e o macaco -- a gula

 

 

Era uma vez...

 

 

O coelho vivia feliz na floresta. Era amigo de toda a bicharada. Sempre que podia, um animal lhe dava cenoura de presente. Ele arregalava os olhinhos vermelhos, agradecia sorrindo e...glu, glu, glu. Comia a delícia.

 

 

Um dia o macaco levou duas cenouras bem fresquinhas pra ele. Surpresa! O coelhinho não aceitou o presente. Disse que não gostava da amarelinha gostosa. Você acredita? O macaco não acreditou.

 

 

-- Não gosta? Como assim? Você é louco por cenoura.

 

 

O coelho explicou:

 

 

-- Ontem invadi a horta do vizinho. Comi todas as cenouras de todos os canteiros. Sabe o que aconteceu? Minha barriga dóiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Só de pensar na comilança sinto enjoo. Agora preciso fazer dieta, tomar chá e criar juízo.

 
 
*
 
 
Você conhece gente que se comporta como o coelho? Eu conheço. A Ana é louuuuuuuuuuuuuuuca por chocolate. Outro dia, comeu 10 bombons. Sabe o que aconteceu? Isso mesmo. Ela passou mal. Amanhã não vai poder se deliciar com o ovo da Páscoa. Que pena!
 
 
*
 
 
Moral da história: O olho não pode ser maior que a barriga.  

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Sexta-feira, 10 de abril de 2009 12:00 am

Latim, pra que te quero?

 

 

 

Expulsaram o latim da escola há meio século. Não adiantou. Teimosa, a linguinha bate à nossa porta sem cerimônia. Na televisão, o ministro diz que é demissível ad nutum. O jornal anuncia que o presidente recebeu o título de doutor honoris causa. O advogado afirma que vai entrar com pedido de habeas corpus em favor do cliente.

 

 

Mais: a placa do restaurante ostenta o nome Carpe Diem. O professor pede: “Escreva assim, ipsis literis”. O repórter considera sui generis a reação do candidato. O diplomata foi tratado como persona non grata. Dura lex, sed lex, consola o juiz.

 

 

Criaturas tão íntimas merecem tratamento respeitoso. A reverência impõe duas condições. Uma: grafá-las como manda a norma culta. A outra: dominar-lhes o significado. Vamos lá?

 

 

Ad nutum quer dizer à vontade. O empregado sem estabilidade pode ser demitido segundo o humor do patrão -- a qualquer momento.

 

 

Honoris causa significa pela honra . Para ostentar o título de doutor, a maioria dos mortais tem de ralar. Mas pessoas ilustres podem chegar lá sem exame. Tornam-se doutores honoris causa.

 

 

Habeas corpus é o nome da lei inglesa que garante a liberdade individual. Em português claro: que tenhas o corpo livre para te apresentares ao tribunal.

 

 

Carpe Diem dá o recado: aproveita o dia de hoje. A vida é curta; a morte, certa.

 

 

Ipsis literis tem a acepção de textualmente -- sem tirar nem pôr.

 

 

Sui generis : ímpar, sem igual.

 

 

Persona non grata : usada em linguagem diplomática para dizer que a pessoa não é bem-aceita por um governo estrangeiro. Pessoa que não é bem-vinda.

 

 

Dura lex sed lex ? Está na cara, não? É isso mesmo. A lei é dura, mas é lei.

 

 

Reparou? As expressões latinas não têm acento nem hífen. Se aparecer um ou outro, elas perdem a originalidade. Entram, então, na vala comum dos compostos. Ganham hífen. Compare: via crucis e via-crúcis, habeas corpus e hábeas-corpus, in octavo e in-oitavo.

 

 

 

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Quinta-feira, 09 de abril de 2009 12:05 am

Hífen ganha nova função

 

 

 

“Reforma, pra que te quero?”, perguntaram estudantes, professores, jornalistas, profissionais liberais e todos os que suaram a camisa pra entender as manhas da ortografia. Depois de tudo dominado, teriam de desaprender o aprendido e reaprender as novidades. Que coisa! O esperneio cessou quando se anunciou o inimaginável. O emprego do hífen seria simplificado. Reduzir as noventa e tantas regras existentes? Oba!

 

 

Todos correram ao texto do acordo. Procuravam certa racionalidade no vaivém de regras e exceções. Entre as novidades, uma mereceu arregalar de olhos. Trata-se da que amplia a função do tracinho. Além de ligar o pronome ao verbo (vende-se) e formar palavras compostas (beija-flor), o danado invade o território do travessão. Junta palavras sem formar vocábulos novos.

 

 

 Antes, a distinção de papéis era pra lá de clara. De vocábulos independentes, o hífen formava um terceiro, sem parentesco com os originais. Vale o exemplo de beija-flor. Beija é forma do verbo beijar. Flor , o presente colorido que as plantas nos dão. Ligadas pelo traço de união, a dupla dá nome ao pássaro que voa de galho em galho e seduz pela leveza e encanto. O travessão, por seu lado, ligava vocábulos sem formar palavras novas. É o caso de Ponte Rio – Niterói.

 

 

Pois, doravante, cessa tudo que a musa antiga canta. O hífen cassou o grandão. Agora só o pequenino tem vez: Trecho Brasília-São Paulo, Voo Nova York-Tóquio, Ponte Rio-Niterói, Circuito Paris-Roma-Londres, Liberdade-Igualdade-Fraternidade. Etc. Etc. Etc.

 

 

 Atenção, marinheiro de poucas viagens. O travessão só perdeu essa função. As demais se mantêm intocadas. É o caso de introduzir diálogos, dar destaque a termos da frase, substituir os dois pontos ou a vírgula.

 

 

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Quarta-feira, 08 de abril de 2009 03:07 pm

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Quarta-feira, 08 de abril de 2009 03:03 pm

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Quarta-feira, 08 de abril de 2009 12:00 am

Acima do bem e do mal

 

 

 

Quando o mundo nasceu, nasceram muitos deuses. Qual deles seria o deus dos deuses? A decisão foi tomada na luta. Zeus e o titã Cronos ficaram pra final. Depois de 10 anos de guerra, Zeus venceu. Mudou-se, então, para o Olimpo – montanha luminosa que fica pertinho do céu. Lá, com os demais imortais, goza de três privilégios. Um: a invulnerabilidade. Ninguém o pega. Outro: a juventude eterna. Nunca envelhece. O último: a imortalidade. Jamais morre.

 

 

Os deuses são melhores que nós? Não. Eles mentem. Brigam. Matam. Têm raiva. São invejosos. Também são bons e fazem caridade. Enfim, têm os defeitos e as qualidades dos humanos. Zeus, por exemplo, vivia apaixonado. Todos os dias caía de amores por uma garota diferente. Mas não podia dar mole. A mulher dele era pra lá de ciumenta. Ele, então, dava um jeitinho. Pra conquistar as belas, mudava de aparência. Ora surgia como cisne. Ora, como nuvem. Às vezes, como águia. Outras, como chuva. Recebeu, por isso, o nome de deus das mil formas.

 

 

Quem diria! A impermanência de Zeus tem tudo a ver com o hífen. Não de qualquer hífen, claro. Mas do hífen que segue as duas polarizações do universo. De um lado, o bem. De outro, o mal. A regra é simples. Usa-se o tracinho diante de vogal e h. É o caso de bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado, mal-afortunado, mal-estar, mal-amado.

 

 

Fácil, não? Seria não fossem as artes herdadas de Zeus. Há tantas exceções que bem e mal passaram a ser chamados de elementos das mil formas. Aprecie: bem-criado (malcriado), bem-ditoso (malditoso), bem-falante (malfalante), bem-mandado (malmandado), bem-nascido (malnascido), bem-soante (malsoante), bem-visto (malvisto), bem-vindo (malvindo).

 

 

Diante de tanta variedade, vão-se as certezas. Os mortais, que não gozam dos privilégios de Zeus, só têm uma saída – consultar o dicionário. Com o paizão, não há erro. É acertar ou acertar.

 

 

 

 

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Terça-feira, 07 de abril de 2009 05:18 pm

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Terça-feira, 07 de abril de 2009 12:00 am

Guarde o porta-retrato e salte de paraquedas

 

 

 

Todas as línguas têm suas maldições. A do inglês é a pronúncia. A do francês, os acentos. Do alemão, as palavras coladas. Do russo, o alfabeto cirílico. Do chinês, os milhares de ideogramas. Do português, o hífen. Dizem que, consultado, nem Deus sabe dizer se um prefixo ou radical pedem o tracinho.

 

 

A reforma ortográfica jogou lenha na fogueira. Com texto pouco claro, deu margem a chutes e delírios. Em um dos artigos, diz que o tracinho deixa de existir quando se perdeu a noção da composição. Citou um exemplo – paraquedas. Ora, a regra é subjetiva. Quem perdeu a noção? Eu? Você? A vovó? Sabe-se lá.

 

 

Dois radicais mereceram a atenção especial dos aventureiros linguísticos. Um: para, que aparece em para-raios. Antes da reforma, a dissílaba aparecia com acento. Agora mandou o grampo plantar batata no asfalto. Outro: porta, que figura em porta-malas. Não faltou quem escrevesse portarretrato.

 

 

Em nota, a Academia Brasileira de Letras jogou água na fervura. Avisou que, onde cabem interpretações subjetivas, só vale o exemplificado. No caso do para-, só paraquedas figura no exemplo. Conclusão: as demais duplinhas escrevem-se como dantes no quartel de Abrantes. É o caso de para-choque, para-lama, para-vento, para-raios.

 

 

O mesmo vale para porta. O vocabulário ortográfico da língua portuguesa mantém o tracinho nos compostos que ostentavam o tracinho: porta-retrato, porta-malas, porta-bandeira, porta-luvas, porta-trecos, porta-moedas, porta-documentos.

 

 

Dica: ao lidar com os hifens, seja esperto. Antes de tudo, deixe o complexo pra lá. Depois, aprenda a se virar. Como? Duvide. Duvide sempre. Busque socorro. O dicionário ajuda. E como! 

 

 

 

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Segunda-feira, 06 de abril de 2009 12:00 am

Pan e circum entram na roda

 

 

Que medão! Pã vem chegando. Olhar pra ele dá arrepios. Dividida em dois, a criatura é metade homem, metade bode. Tem o corpo todinho coberto de pelos como as cabras, os cachorros e os macacos. Na cabeça, exibe dois chifres. Os pés não são pés. São cascos. O meio-gente-meio-bicho habita os bosques, pertinho das fontes. Vive cercado de animais, todos loucos por ele. Tornou-se, por isso, a divindade protetora dos pastores e dos rebanhos.

 

 

Mas os humanos...ah, os humanos! Tremiam na base só de lhe ouvir o nome. Com razão. Pã aparecia de repente. Perseguia moças e rapazes porque queria namorá-los à força. Apavorados, todos fugiam. Daí nasceu a palavra pânico. É um pavor enorrrrrrrrrrrme. Os pastores da Arcádia o adotaram como deus. Não deu outra: a fama dele se espalhou pela Grécia, por Roma e pelo mundo. Passou a significar o grande todo, a vida universal.

 

Com essa acepção, desembarcou na nossa língua. Pan virou prefixo. Sempre que aparece, dá idéia de totalidade. Os Jogos Pan-Americanos, por exemplo, agregam os habitantes das três Américas. O movimento pan-arábico junta os povos dos 23 países que falam árabe. Os defensores da pan-negritude buscam a união dos afrodescendentes, espalhados mundão afora.

 

 

Ser tão agregador mereceu atenção especial dos acadêmicos. Na reforma ortográfica, entrou no grupo de circum , que quer dizer em redor de. Ambos se usam com hífen quando seguidos de vogal , m e n: pan-africano,pan-asiático, pan-eslavismo, pan-helênico, pan-hispânico, pan-mágico, circum-ambiente, circum-escolar, circum-hospitalar ,  circum-marítimo, circum-murado, circum-navegação.

 

 

Dica: o Vocabulário ortográfico da língua portuguesa registra pan seguido de b com hífen. É o caso de pan-brasileiro e pan-babilonismo. Fugiu à regra. Cochilo? Parece que sim. Antes da reforma o b pedia o tracinho.

 

     

 

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Domingo, 05 de abril de 2009 12:00 am

Leitor pergunta


 
Minha querida cidade chama-se Campos Altos – um dos mais belos nomes de cidade que conheço. Agora, com a reforma ortográfica, somos os campos altenses, campo-altenses ou camposaltenses?
Weber Luís, Campos Altos

 

 Respire fundo e eleve as mãos aos céus. Você continua campo-altense. O plural, campo-altenses.
 

*
 

Tenho lido com cuidado os posts do blog que tratam da reforma ortográfica. Fiquei com a pulga atrás da orelha em relação ao co-. Há quem o cite como exceção. Sendo assim, co-réu continua com o tracinho?
Jamir de Jesus, Arcos
 

O hífen, você sabe, é castigo de Deus. Requer, por isso, constante consulta. O acordo ortográfico citou o co- como exceção a duas regras.

 

Uma: a que exige hífen quando o prefixo é seguido de h. Assim, em obediência à ordem, escrevemos anti-histórico, anti-histamínico, super-homem, semi-humano, sub-homenagem. Mas: coerdeiro.

A outra: a que impõe o tracinho quando o prefixo é seguido por palavra começada pela mesma letra com que ele termina. É tal história dos iguais que se rejeitam: anti-imperialismo, super-regional, sub-bloco, semi-inglês. Mas: coordenar, coobrigação, coofertar.

Moral da história: com o co- é tudo colado. Para manter a pronúncia original, fica tudo como sempre foi. Dobram-se o r e o s quando houver o encontro de uma dessas letras com vogal. O co- não foge à regra: corréu, corresponsável, semirregional, videorrevista, minissaia, ultrassom.
 

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Sábado, 04 de abril de 2009 08:00 am

A víbora e a cobra d´água

 

 

Era uma vez...
 

A víbora bebia água todos os dias no rio da floresta. A cobra d´água, que morava lá, achava aquilo muito chato. Ela não queria que a outra invadisse o território que era dela. Mas a víbora não desistiu de matar a sede nas águas fresquinhas que não paravam de correr. 
 

Resultado: como não chegaram a um acordo, decidiram lutar. O perdedor iria embora para sempre. Marcaram o dia e lá foram elas. As rãs, que viviam por ali, não gostavam da cobra d´água. Por isso ofereceram ajuda à víbora.
 

Na hora do combate, as rãs gritavam, torciam, davam força pra víbora. Não deu outra. A víbora ganhou. Ao ser declarada vencedora, tomou satisfação das rãs:
 

-- Vocês prometeram me apoiar. Mas só gritaram durante a luta.
 

As rãzinhas responderam em coro:
 

-- Amiga, nossa ajuda não está nos braços, mas nas vozes.
 

***

 

O Vinicius viveu história parecida com a das rãs. Rafael, o irmão dele, ia fazer prova de matemática. Estudou muito, mas estava com um medão danado. Vinicius dava muita força pra ele. No dia do exame, foi junto com o irmão para a escola e ficou torcendo o tempo todo. Resultado: Rafael tirou 10.
 

***

 

 Moral da história: na luta, a torcida é tão importante quanto a ação.
 

 

(Coluna publicada no suplemento infantil Super ,  que circula aos sábados no Correio Braziliense)

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Sábado, 04 de abril de 2009 12:00 am

Isso é grego

 

 

Você sabe como é que se diz “pra mim isso é grego”, em grego? Diz-se “pra mim isso é árabe”. Em inglês também se diz que parece grego, mas em algumas regiões da Inglaterra, diz-se que parece double Dutch , isto é, duplamente holandês . Os judeus asquenaze dizem que parece aramaico, a língua materna de Cristo.  

 

Os tchecos dizem “ pra mim isso é espanhol”, os espanhóis dizem que parece grego, os gregos dizem que parece árabe, e os árabes dizem que parece hindustani.

 

(Colaboração de Roberto Klotz)

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Sexta-feira, 03 de abril de 2009 12:00 am

Burro com pele de leão

 

 

Um burro muito simpático vivia na floresta. A bicharada gostava muito dele. Adorava lhe tocar o pelo, montar no lombo amigo, acariciar as orelhas um tanto estranhas. Certo dia, o quadrúpede achou uma pele de leão. Não teve dúvidas. Vestiu-a. E passou as assustar os animais do pedaço. Coelhos, ratos, veados, porcos-espinhos tremiam de medo quando viam a fera. Aí, não dava outra. Fugiam.

 

Feliz com a nova aparência, o farsante foi dar uma voltinha. Encontrou um lenhador. No início, o homem levou um baita susto. Depois, viu as duas orelhas esquisitas debaixo do corpo de leão. Resultado: ficou com a pele do rei da floresta e ainda deu belas palmadas no fingidor por causa do susto que o mentiroso lhe pregou.

 

Reparou? O mundo está cheinho de gente que quer passar pelo que não é. A língua também. Certas palavras se escrevem iguaizinhas a outras. Mas pertencem a classe gramatical diferente e têm significados diferentes. Como evitar a confusão? A criatividade correu solta. Inventa daqui, palpita dali, eureca! Decidiram pelo acento diferencial. Assim, ele pára, do verbo parar, teria o agudo para distingui-lo da preposição para (vou para São Paulo).

 

Eram poucos vocábulos. Minoria, todos sabem, não tem força. A reforma ortográfica veio e passou a tesoura em grampos e chapéus cuja função era distinguir palavras homógrafas – as que se escrevem do mesmo jeitinho, mas não têm parentesco nem distante. De agora em diante, polo, pera, pelo, pela, para se grafam sem distinção. Assim: Vou ao Polo Norte jogar partida de polo. O ônibus que vai para o Rio para aqui. O burro com pele de leão arrepiou o pelo dos bichos que passeavam pelo caminho do asno.

 

Atenção, muita atenção. Dois diferenciais permaneceram pra contar a história. Um: pôde, passado do verbo poder. Ele não quer confusão com pode, presente. O outro: pôr. O pequeno escapou porque é monossílabo. A reforma só atingiu as paroxítonas.

 

 

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Quinta-feira, 02 de abril de 2009 05:11 pm

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Quinta-feira, 02 de abril de 2009 12:00 am

Nota fúnebre

 

 

 

Machado de Assis, Eça de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Clarice Lispector (in memoriam), José Saramago, Lígia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Millôr Fernandes, Roberto Pompeu de Toledo, Luís Turiba, Paulo José Cunha e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do trema.  

 

 

Vítima de abandono e maus-tratos,   deixa a família verbal enlutada. Os amigos se unem nesse ato de piedade cultural e protestam contra tão prematura e insubstituível partida. João Ubaldo é o mais veemente. Em alto e bom som, diz a quem tem ouvidos para ouvir. “Vou continuar a usar o sinalzinho. Se o revisor quiser, que o tire”. Tirou.

 

 

Consequência, eloquente, cinquenta, linguiça, tranquilo, aguenta & cia. perderam a charmosa distinção. Mas mantiveram a pronúncia. Mesmo sem a duplinha sobre a cabeça, o u continua a soar ü. Você poderá se perguntar como agir diante de palavra nova, jamais ouvida antes. A resposta é simples como andar pra frente – consultar o dicionário. O pai de todos nós indicará a prosódia do vocábulo.

 

 

Cá entre nós. Ficou mais fácil, não ficou? As crianças que estão se alfabetizando poderão ocupar a cabeça com outros assuntos. E nunca mais tropeçarão no verbo arguir. O danadinho tinha três caras na conjugação. Ora aparecia com trema. Ora com acento. Ora sem nada. Agora é tudo peladão: arguo, argues, argue, arguimos, arguem.

 

 

Viu? Não só o u perdeu os anéis e manteve os dedos. Arguir, averiguar, apaziguar também deixaram algo pra trás na reforma. O acento agudo que se usava nas formas argúe, averigúem, apazigúes, enxagúe & cia. também entrou na degola. Rezemos por ele. Passado o luto, adeus, tristeza! Adeus, saudade! Viva a simplificação.

   

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Quarta-feira, 01 de abril de 2009 12:00 am

Sem terra mas com elo

 

 

Eta criatividade. Eles foram remediados. Viraram pobres. Passaram a miseráveis. Aí apareceram os carentes. Seguiram-se os despossuídos. Depois os descamisados vieram com força total. A construção de Itaipu criou os sem-terra. As águas invadiram a propriedade de pequenos proprietários rurais. O governo prometeu indenizá-los. Não o fez. José Rainha e Pedro Stedile tomaram a frente do movimento. Deu no que deu.

 

 

O sem virou histeria. O desabrigado é sem-teto; o desamparado, sem-justiça; o político vira-casaca, sem-partido. Xuxa fala nos sem-brinquedo. Millôr se refere aos sem-vergonha. Elio Gaspari, aos sem-limite. Edir Macedo, aos sem-religião. O papa, aos sem-Deus. A liberação das tarifas bancárias deu origem aos sem-banco. A crise financeira logrou unanimidade – os sem-dinheiro.

 

 

O sem deu filhotes. Sem-terrinha têm se manifestado aqui e ali. Está se falando no movimento dos sem-celular, sem-computador, sem-internet, sem-micro-ondas, sem-carro importado, sem-marido, sem-ficante. Enfim, a criatividade anda solta. Até sem-picanha andou frequentando as páginas de revistas e jornais. O Atlético Paranaense importou os jogadores Nowak e Piekarski. Eles se entopem de churrasco todos os dias. “Na nossa terra”, explicam, “éramos sem-picanha. Tanta carne junta só tínhamos visto no pasto. Mugindo.”

 

 

  Há limite para o sem? Há. Quando formam substantivos ou adjetivos, as três letrinhas gozam da inseparável companhia do hífen. Fora isso, grafam-se como as demais preposições do universo de Camões, Pessoa ou Machado: Saiu sem pedir licença. Sem dinheiro, nada de compras. O crime se classifica em culposo ou doloso. O doloso é o cometido sem intenção de matar.

 

 

Olho vivo. Sem é sem-flexão. Sem masculino e sem plural, é tudo igual.

 

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Terça-feira, 31 de março de 2009 08:35 am

Não agressão à não governamental

 

 

Você gosta de ouvir um redondo não? Ninguém gosta. Mãe, pai, marido, mulher, namorado, ficante, chefe, subordinado, todos perdem o humor diante das três letrinhas. Nem os bebês ficam imunes. Dizem que a criança que escuta muitos nãos nos primeiros meses de vida grava a negação na mente. Aí, Deus a acuda. Candidata-se ao título de adulto infeliz. Para alegria do psicólogo, claro.

 

O leitor e o ouvinte também têm horror a esse advérbio. Fazem tudo para ignorá-lo. Muitas vezes, passam batido por ele. Aí, ops! Entendem o recado pelo avesso. Para evitar traumas e distorções, há saídas. A melhor: fugir do não. Use uma linguagem positiva. Diga o que é, nunca o que não é. Não chegar na hora é chegar atrasado . Não ser necessário é ser dispensável. Não vir à aula é faltar à aula . Não acreditar é duvidar. Não saber é ignorar. Não lembrar é esquecer. Não alterar é manter.

 

A aversão ao não cresce dia a dia. Ultrapassou a fronteira humana e chegou à linguística. Mais precisamente: atingiu o hífen. Ao tomar conhecimento de que haveria mudanças na grafia das palavras, o tracinho se ajoelhou diante dos acadêmicos. “Por favor”, suplicou ele, “afasta de mim esse cálice.” Comovidos diante de tanto sofrimento, Suas Excelências disseram sim. O acordo ortográfico cassou o hífen diante do não.

 

Adeus, indesejado das gentes e das palavras. Doravante, sem elo, é um lá e outro cá. Assim: não agressão, não alinhamento, não conformismo, não fumante, não intervenção, não participação, não alinhado, não beligerante, não combatente, não conformista, não engajado, não intervencionista, não ferroso, não verbal, não viciado.

 

Ufa!

 

 

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Segunda-feira, 30 de março de 2009 06:44 pm

Fale Certo

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Segunda-feira, 30 de março de 2009 08:30 am

O amor e a língua

 

 

Chora, pé de moleque. Cai, tomara que caia. Geme, dor de cotovelo. Vocês pagam o preço da efemeridade da língua. Há pouco se sustentavam em poderosos hifens. Agora estão soltos. A reforma ortográfica lhes cassou o traço de união. Inspirou-se na definição de Vinicius. “O amor”, escreveu o poetinha, “é infinito enquanto dura.” Encontrou reforço na analogia do Millôr: “Eterno no amor tem o mesmo sentido que permanente no cabelo”.

 

Assim, com a certeza de que tudo passa, o hífen também passou. Deu adeus aos compostos por justaposição com o termo de ligação. São em geral três palavras que, soltas, nada têm a ver uma com as outras. Mas, juntas, formam um terceiro vocábulo. É o caso de pé de moleque. Pé designa parte do corpo. Moleque, menino sapeca. A preposição de os junta. O trio dá nome ao doce que não pode faltar nas festas juninas.

 

 

Exemplos de criaturas desamparadas não faltam. Eis alguns: mão de obra, dia a dia, dor de cotovelo, folha de flandres, faz de conta, quarto e sala, lua de mel.

 

 

Ops! Cuidado com a precipitação. O adeus não atinge todas as palavras assim compostas. As que designam bicho ou planta conservam o tracinho. Mantêm-se como dantes no quartel de Abrantes cana-de-açúcar, ipê-do-cerrado, joão-de-barro, bem-te-vi, bem-me-quer, porco-da-índia, canário-da-terra. E por aí vai.

 

Por falar em adeus, vale lembrar. Tão só, tão somente e à toa se grafavam coladinhas. Agora estão livres e soltas. Sem lenço nem documento, frequentam os textos sem dar nó nos miolos dos falantes. É bom. A reforma, afinal, não se inspirou no Chacrinha. O velho guerreiro dizia que não estava no palco pra explicar, mas pra complicar. No caso, a mudança descomplicou. Viva!    

 

 

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Segunda-feira, 30 de março de 2009 08:00 am

O que era e deixou de ser

 

 

 

Hermes vivia no Olimpo. Um dia, viu a mulher mais linda que havia pisado a morada dos deuses. Era Afrodite. Ele olhou pra ela. Ela olhou pra ele. Não deu outra. Apaixonaram-se. Casaram-se e tiveram um filho. Que nome lhe dar? Sugestão daqui, pesquisa dali, gostaram da mania brasileira. Chamaram-no Hermafrodito. Um pedacinho vem de Hermes. O outro, de Afrodite.

 

 

O garotão era belo como a mãe, mais conhecida por Vênus. (Ela mesma, a deusa do amor.) Ninguém resistia aos encantos do gatão. A ninfa Salmaris caiu de amores por ele. A paixão era tal que comoveu os deuses. Dona de mil truques, a mocinha conseguiu que eles fundissem os dois num só corpo. Daí nasceu a palavra andrógino.

 

 

A androginia tem tudo a ver com a reforma ortográfica. Antes das mudanças que entraram em vigor em 1º de janeiro de 2009, certos prefixos tinham preferências meio indefinidas. Ora exigiam hífen. Ora dispensavam-no. Vale o exemplo do co-. Ele pedia o tracinho quando o segundo elemento tinha vida autônoma na língua. Era o caso de co-autor, co-herdeiro, co-réu.

 

 

Mas sobravam exceções e faltavam certezas. Coirmão, comistura, coobrigação e tantas e tantas outras grafavam-se coladinhas. Os maltratados fregueses da língua portuguesa arregalavam os olhos, abraçavam a cabeça e arrancavam os cabelos. Depois faziam o que tinham de fazer -- consultar o dicionário.

 

 

Ninguém pense que o co estava feliz com a indefinição. Ao tomar conhecimento das articulações em torno do acordo ortográfico, ele se inspirou em Salmaris.   Pediu aos acadêmicos que o livrassem do hífen para sempre. Em troca, respeitaria a pronúncia dos vocábulos que a ele se unissem. Por isso, quando seguido de r ou s, dobra as duas consoantes.

 

 

Viva! Adeus, dúvidas. Agora é tudo junto: coautor, coerdeiro, corréu, correpresentante, comorador, coinquilino, correpresentante, coprodução, cossecante. Etc. Etc. Etc.       

 

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Domingo, 29 de março de 2009 06:00 am

Os diferentes se atraem

 

 

 

É lugar-comum? É. É tão antigo quanto o rascunho da Bíblia ? É. É tão sabido quanto a tentação de Adão e Eva? É. Mas vale repetir. O amor é lindo. É lindo e faz bem. Abre o sorriso, melhora a pele, torna o sol mais luminoso, o dia mais claro, o céu mais estrelado. Deuses, ninfas, serafins, fadas e bruxas abençoam o encontro do olhar e da pele. Cupido, então, joga a flecha envenenada. Acerta o coração dos mortais. Oxum, dona dos feitiços aprendidos na África, acaba o trabalho. Junta os loucos pra se juntar.

 

 

Quem são eles? São muitos. No Olimpo, Cupido e Psiquê. Em Troia, Helena e Páris. Na ópera, Orfeu e Eurídice. Na tragédia, Romeu e Julieta. No romance, Ceci e Peri. Na nossa vida de todos os dias, eu, você, ele, todos nós. Na língua, os prefixos que encontram a cara-metade. Eles têm uma idiossincrasia. Só se casam com os diferentes. Em bom português: os prefixos terminados em vogal ou consoante diferente da vogal ou consoante com que se inicia o segundo elemento é união certa.

 

 

Exemplos não faltam: aeroespacial, agroindústria, agronegócio, aeroespacial, antieducação, antidemocrático, autoescola, autodidata, autoanálise, coedição, coautor, infraestrutura, semiaberto, semiobscuro, semicircular, miniolimpíada, minianálise, microbiologia, microavanços, subalterno, subsolo, sobremaneira, neoobjetivo, neoescolar, psicoanálise.

 

 

A paixão pode ser enorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr rrrme. Mas tem limite. A fronteira é a individualidade Um e outro se fundem, mas mantêm a pronúncia. Por isso vogal que encontra r ou s duplicam o r e o s: antirrábico, antissocial, biorritmo, contrassenso, infrassom, microssistema, minissaia, multissecular, neossocialismo, semirrobusto, ultrarrigoroso, correu, corresponsável.

 

 

Moral da opereta: o amor é cego, mas não é surdo.

 

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Domingo, 29 de março de 2009 12:00 am

Oços do ofíssio

 


Gabriel Perissé


No dia 28 de março comemoramos o Dia do Revisor. Tal como o goleiro no futebol, o revisor, na editora, é aquele que evita o pior (o gol adversário, o erro de digitação, a escorregada gramatical, a incoerência que ninguém percebeu etc.). N o entanto, é também o revisor quem mais sofre com as derrotas de um texto. Ele é o último homem (ou a última mulher) a ler o livro antes da fase de impressão gráfica, quando não há retorno...

 

Monteiro Lobato dizia que a tarefa do revisor era das mais ingratas. Que o erro ou a falha se escondiam durante o processo de confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta, como um saci danado, pulando, debochando do revisor.

 

O revisor é um caçador de distrações. Uma de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar despercebidos. O revisor revisa com amor.

 

O revisor sai de manhã, caneta em punho, em busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas. O revisor revisa com dor. O revisor chega em casa, à noite, com o coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.

 

O revisor revisa com ardor. O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato moem o vento de palavras que o vento não leva. Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes, noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das ciladas armadas sabe Deus por quem.

 

O revisor entrega o seu trabalho bem suado e abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: Quem mexeu no meu texto?!

 

O mérito da frase perfeita é do autor. O crime do erro cometido será do revisor. O revisor, porém, não se considera um injustiçado. O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia. O verdadeiro revisor, como o goleiro no futebol, sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de todas, para agarrar centenas de bolas difíceis, e, talvez, deixar passar a mais fácil de todas.

 

(colaboração de Paulo José Cunha para leitores do blog)

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Sábado, 28 de março de 2009 12:05 am

Os iguais se rejeitam

 

 

 

Situações constrangedoras? Há muitas. Uma delas: bancar o par de vasos. Imagine a cena. Socialite chega majestosa à festa. Cabeça erguida, ombros eretos, barriga chupada, bumbum encaixado, chama a atenção de homens, mulheres, gays, lésbicas e simpatizantes. Ninguém resiste ao ímã. Os sentimentos variam. Alguns se excitam. Outros reverenciam a aparição. Há os que experimentam o gostinho da inveja. Não faltam os que bancam a raposa do La Fontaine. Sem poder alcançar as uvas, a faminta as desdenhou. Disse que estavam verdes.

 

 

De repente, não mais que de repente, a elegante se vê diante de um clone. Outra convidada veste roupa igualzinha à dela – modelito Channel, na mesma cor, mesmo tecido, mesmos dourados. Nada mole, convenhamos. O que fazer? Os manuais de boas maneiras ensinam: “Mostre-se simpática e jovial. Faça um comentário leve do tipo “que ótimo termos o mesmo bom gosto”. Depois, mude de roda.

 

 

A história se repete na língua. No universo dos prefixos, os iguais se rejeitam. Quando duas letras iguais se encontram, ops! Pinta o constrangimento. A saída é uma só. Chamar o hífen e deixar uma lá e outra cá. Assim: contra-ataque, anti-inflamatório, semi-irregular, mini-internato, auto-observação, micro-ondas, hiper-rico, inter-racial, sub-bloco, super-romântico.

                  

 

Olho vivo! A Constituição diz que todos são iguais perante a lei. Mas sabemos que existem os mais iguais e os menos iguais. Na ortografia também ocorre essa discriminação. O sub- pertence ao time maioral. Além do b, rejeita o r. Por quê? Com o hífen, dá um recado aos falantes. O r não forma encontro consonantal como em abraço. Deve ser pronunciado (sub-raça, sub-região, sub-rogar).

 

 

Os pequeninos co-, re-, pre- e pro se juntam ao segundo elemento mesmo quando ele acaba com a mesma letra: coordenar, coobrigação, reeleição, preencher, proótico (e derivados).

 

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Sábado, 28 de março de 2009 12:00 am

A coruja e as aves -- a aceitação

 

 

Era uma vez...

 

As aves se reuniram na floresta. Queriam escolher o rei da bicharada que tem bico e pena. O vencedor seria o mais chamoso. Papagaios, periquitos, galinhas, patos, canários, bem-te-vis, joões-de-barro e as outras penosas se animaram. Todos queriam ganhar a coroa. Levaram dias se arrumando. Tomaram banho, alisaram a plumagem, fizeram maquiagem e tantas outras coisas que tornam as criaturas mais bonitas. A coruja viu como as conorrentes estavam lindas. Ela, coitada, se sentiu muito feia. 
 

Teve, então, uma ideia. Recolheu penas caídas das outras aves e fez um manto maravilhoso. Ficou muito mais charmosa que tdas as concorrentes juntas. Resultado:  ganhou o concurso. As outras aves não perdoaram o jogo sujo. Foram até ela e tiraram pena por pena de todas as que não pertenciam a ela. A coruja voltou a ser coruja. Não levou a coroa.
 

*

Outro dia, a escolinha do João Marcelo e do Rafael fez um concurso. O tema era a paz. Cada aluno deveria fazer um quadro sobre o assunto. O mais bonito ficaria pendurado na parede da diretoria. Já imaginou? A meninada pôs mãos à obra. Apareceram trabalhos muito criativos. O Jó não acreditou que poderia concorrer com os colegas. Foi à livraria e comprou um cartaz pronto. Foi uma pena. Ele nem pôde concorrer. 
 

*

Moral da história: Não diga que alguma dos outros é sua. Cedo ou tarde alguém descobre a mentira.
 

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Sexta-feira, 27 de março de 2009 10:00 am

Prefixos chega pra lá

 

 
 “O que é certo na vida?”, perguntaram certa vez a Confúcio. “A única certeza é que tudo passa”, respondeu o sábio. Porque tudo passa, alguns preferem ver a vida rolar de longe. Não fazem amigos pra não se decepcionarem. Não namoram pra não serem traídos. Não se casam pra não se separarem. Não têm filhos pra não perdê-los mais tarde. Não viajam pra não enfrentar atrasos em aeroportos e rodoviárias. Não mudam de emprego pra não precisar se adaptar a novos chefes, novos colegas, novo ambiente. Em suma: “afasta de mim esse cálice”, repetem ao longo das décadas.  
 

Na língua também existem criaturas que se mantêm distantes. Não aceitam apenas o espaço para separá-las das demais. Querem algo mais. O hífen, então, entra na jogada. Ele funciona como placas encontradas aqui e ali pra afugentar aventureiros e indesejados. “Área de segurança nacional”, dizem umas. “Cão feroz”, outras. “Cerca eletrificada”, mais umas. Por trás das ameaças estão os sufixos ou falsos sufixos que não abrem mão do tracinho nem a pedido dos orixás. 
 

Muitos são pra lá de conhecidos. Intolerantes desde sempre, ficam imunes a reformas ortográficas. É o caso do ex. As duas letrinhas dão recado claro. Dizem que o ser antecedido por elas foi, mas deixou de ser. É o caso do ex-marido. Ele dividiu o leito nupcial com a mulher. Não divide mais. É o caso também de ex-presidente. Sua Excelência se sentou na cadeira-mor do Palácio do Planalto. Não se senta mais. E os outros? Eis a lista dos senhores chega pra lá:
 

Além, aquém, ex, pós, pré, pró, recém, sem, vice, soto, soto, vizo: além-mar, aquém-muros, ex-presidente, pós-graduação, pré-primário, pró-reitor, recém-chegado, sem-terra, vice-presidente, sota-piloto, soto-mestre, vizo-rei.

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Sexta-feira, 27 de março de 2009 09:00 am

Cercadinha

 

 

Nas leis, nada de bobeira. A data vem entre vírgulas: O Decreto 156 , de 20.3.09, trata de assunto de interesse geral. A Medida Provisória 45, de 6.6.92, fez alterações no cálculo das mensalidades escolares.  A Lei 1.342, de 9.9.01 , trata do trabalho infantil

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Sexta-feira, 27 de março de 2009 08:05 am

A diferença

 

 

Vinte e cinco anos fazem a diferença? Faz a diferença?  O verbo fazer, no caso, é vira-lata. Concorda com o sujeito. O que faz a diferen ça? Vinte e cinco anos. Ora, sujeito plural, verbo no plural:  Vinte e cinco anos faz em a diferença.

 

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