
Certa vez, um ex-deputado comentou comigo: "Não pense que está tudo calmo no PT. Nós vamos arrumar um jeito de nos enrascarmos outra vez". A frase foi dita numa conversa logo depois do escândalo do mensalão. Dia desses, alguém me cantou a bola: o PT não iria abandonar Cabral à própria sorte jogando o governador do Rio de Janeiro na teia da CPI sobre Carlos Cachoeira. Mas um grupo do partido estava numa vontade danada de deixar Sérgio Cabral tão enfraquecido ao ponto de não poder ser candidato a vice numa hipotética chapa capitaneada por Lula. E, nesse contexto, estava resolvido: O Blog de Anthony Garotinho fez esse serviço para os petistas (informação que usei como mote para a coluna que está no post abaixo).
Nem precisou muito tempo para isso. Cãndido Vaccarezza, ex-lider do governo, tropeçou ao ponto de deixar todo mundo desconfiado: por que é preciso proteger Cabral? Quando uma criança não sabe andar, ficamos cheios de cuidados quando ela dá os primeiros passos, ficamos ali, do lado. E vez por outra dizemos "vem, meu amor, não se preocupe, estou aqui para proteger você, pode ficar tranquilo".
Ocorre que, quando a criança adquire segurança para caminhar, não precisa mais de proteção. Nem dizemos a ela, "não se preocupe, você é nosso", ou coisa parecida. Quem tem segurança não precisa de uma mensagem como a captada pelo câmera do SBT para se sentir protegido. Por isso, quase sem querer, Vaccarezza deixou todo mundo meio desconfiado em relação a Cabral. Mais uma vez, o PT tropeça, sem que ninguém coloque o pé na sua frente ou puxe o seu tapete. Só que, nesse episódio, quem estava inseguro era Cabral, do PMDB. E, se continuar nesse ritmo, podem apostar que os governadores não ficam mais 15 dias fora do cenário, nem que seja como "testemunha" de defesa de seus governos.
Se aparecer algo que mereça a convocação dos governadores, os acordos vão ruir. No Congresso, vale a máxima: é melhor jogar um ao mar do que terminarem todos afogados
Em tempos de CPI, muitos personagens acabam abalroados sem precisar sentar-se no banco dos depoentes para aparecer na TV com aquela cara de quem não está confortável na cadeira. O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), por exemplo, atingiu um de seus objetivos antes de levar o adversário à luz da comissão que investiga as relações do contraventor Carlos Cachoeira. Bastaram as imagens postadas em seu blog para que o PT, em suas conversas mais reservadas, decretasse que o governador do Rio, Sérgio Cabral, se inviabilizou como candidato a vice numa (ainda) hipotética chapa capitaneada pelo ex-presidente Lula em 2014. Afora os óbvios, ele é o primeiro a sair arranhado.
Cabral, enquanto governador, foi apresentado como os heróis em ações policiais cinematográficas nas favelas do Rio. Entre uma viagem e outra a Paris, cuidava da sua imagem nos morros cariocas. Era o rei da segurança pública. Nesse contexto, o zeloso governador chegou a ser citado como o primeiro da fila numa chapa, caso Lula fosse candidato.
É fato que o PT tenta preservar o governador do Rio como aliado. Ontem a CPI terminou a semana com cara de acordão para tirar Marconi Perillo (GO), Agnelo Queiroz (DF) e Cabral do banco de depoentes — mesmo que seja no papel de testemunhas. Mas, nos bastidores, garantem que esse processo deixará o governador em débito com o PT.
A imagem de Cabral confraternizando com Fernando Cavendish, o ex-dono da Delta, e o fato de não demonstrar os gastos de todas as suas viagens tiveram o mesmo efeito que um balde de água raz teria se jogado sobre uma bonita pintura. É verdade que ele ainda tem tempo para se explicar em relação às viagens, e não é crime beber um vinho em Paris com amigos. No caso de um governador de estado, desde que pague por ele e não deixe o empreiteiro bancando a sua conta, está tudo certo.
Só para situar quem não tem acompanhado essa novela, dadas as idas e vindas de humor da presidente da República, Dilma Rousseff, existe uma turma dentro do PT torcendo para que Lula seja candidato. Seus expoentes não vêem a hora de tirar o PMDB da vaga de vice e entregar o lugar de Michel Temer a Eduardo Campos, presidente do PSB e governador de Pernambuco. Essa conversa já é conhecida de quem lê a coluna. A novidade é que agora os petistas já estão cuidando de direcionar a candidatura a vice. E apostam no climão de CPI para jogar no mercado futuro.
Por falar em Dilma…
A própria Dilma terminou candidata por esses lances que vão, aos poucos, deslocando quem está mais à frente na fila de uma candidatura presidencial. Ela só conseguiu ser candidata porque toda a cúpula do PT ruiu na esteira do mensalão e as ondas que o processo trouxe. José Dirceu e Antonio Palocci, por exemplo, viviam uma guerra de bastidores sobre quem seria o sucessor de Lula. Hoje, os dois são aplaudidos apenas nos encontros do próprio partido onde o conceito de “malfeito” varia de militante para militante, como se fosse um elástico.
A aposta do PT que torce pela volta de Lula é a de que Dilma está nessa briga com a classe política e colocou o PMDB em ministérios de periferia justamente para limpar o caminho a um terceiro mandato de Lula. Embora o ex-presidente diga dia e noite que não pretende voltar, ninguém acredita. O problema é que a briga de Dilma com a classe política a fortalece a cada dia. E a CPI, embora ainda relute, vai terminar desaguando em desvendar malfeitos dos políticos, seja de qual partido for. A impressão que se tem é a de que, nesse contexto, Dilma sequer desmanchará o penteado ou terá problemas com a maquiagem. Ela parece ser dura como o velho laquê que nossas avós usavam.
Por falar em CPI…
A comissão parece finalmente ter encontrado um caminho nessa investigação sobre os negócios de Cachoeira. A lavanderia internacional parece ser um achado e tanto. E, sinceramente, conforme eu conversava ontem pela manhã com um amigo ao telefone, é difícil acreditar que essa lavanderia na Coreia do Norte tenha sido ideia do próprio Cachoeira. Alguém apresentou esse esquema a ele. Cabe descobrir quem foi. Hora de chamar a Interpol e a CIA para nos ajudar a desvendar esse mistério.
Quanto aos governadores, bem... Em outras CPIs tentaram-se diversos acordos para salvar A, B ou C. Alguns vingaram, outros não. Esse processo sempre depende do que vem pela frente. No mesmo caso está a matriz da Delta, no Rio de Janeiro, preservada ontem da quebra de sigilo. Se aparecer algo que mereça a convocação dos governadores ,os acordos vão ruir. No Congresso, vale a máxima: é melhor jogar um ao mar do que terminarem todos afogados
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Vetar um projeto de lei e editar uma medida provisória em seu lugar para repor o que o governo deseja ainda vai dar o que falar no Supremo Tribunal Federal. E essa discussão esquentará quando Dilma vetar o Código Florestal
A presidente Dilma Rousseff ainda nem anunciou o que fará a respeito do Código Florestal aprovado pelo Congresso e as excelências já põem uma nova polêmica na Praça dos Três Poderes: se é válido o Poder Executivo anular o que foi feito pelos parlamentares e, no lugar do que foi anulado, editar uma medida provisória para repor o que considera correto. Por exemplo, alguns dizem o seguinte: suponhamos que os parlamentares tenham aprovado uma lei dizendo que o lindo pôr do sol de Brasília é vermelho. Aí, vem o chefe do Executivo, seja homem ou mulher, veta essa lei aprovada pelo Congresso e edita uma medida provisória, que tem força de lei, para definir que o pôr do sol é lilás.
Ok, o exemplo aí de cima não é lá essas coisas e nem vai acontecer algo assim. Mas, em outras palavras, é mais ou menos isso mesmo que os chefes do Executivo andam fazendo de uns tempos para cá. A Constituição não proíbe esse tipo de coisa. Ao se referir às matérias sobre as quais não cabe a edição de medidas provisórias, não trata desses casos específicos. O assunto vai dar polêmica. O artigo 62, em seu parágrafo primeiro, inciso IV, diz que não cabem MPs sobre matéria “já disciplinada em projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional e pendente de sanção ou veto do presidente da República. Ou seja, Dilma deve primeiro vetar o que receber do Congresso e publicar os vetos para, depois, editar uma medida provisória a respeito.
Por falar em polêmica…
Não se enganem. Se Dilma vetar as partes do texto que os deputados repuseram na última votação sobre o Código Florestal — e, ao mesmo tempo, editar uma medida provisória repondo o que foi decidido pelos senadores —, é bem capaz de os ruralistas seguirem em bloco para o Supremo Tribunal Federal (STF). E não sem razão, uma vez que o Supremo está aí para dirimir dúvidas e impasses em relação ao texto constitucional e outros quesitos.
Nesta segunda-feira, por exemplo, a bola está com o ministro Celso de Mello. Cabe a ele decidir se Carlos Cachoeira, que a esta altura do campeonato já dispensa apresentações, deve ou não comparecer à CPI que investiga o bicheiro e suas relações com as autoridades públicas. Concordo com o deputado Luiz Pitiman quando ele fala da simbologia da presença de Cachoeira como fundamental para que a CPI retorne aos trilhos. E tem mais: hoje, o sujeito pode ir e ficar calado para não gerar provas contra si. Essa moda, que ainda não era adotada nos tempos da CPI PC-Collor, obrigou muitos a falar por ali. Se agora os sujeitos não precisarem mais nem comparecer, as CPIs vão perder mais força ainda.
Por falar em força…
Essa história de marcar depoimento em fase inicial de CPI tem apenas a função de promover um evento, uma imagem para as emissoras de tevê, jornais e revistas. Para dizer que a CPI é forte, chama delegado e coisa e tal. O que esse pessoal da CPI deveria mesmo fazer era estar na tal sala secreta lendo tudo o que tem de documentos. Em outras palavras, estudar, fazer o dever de casa. Quem sabe, inspirados por ontem, Dia das Mães, eles se lembrem daquelas que sempre recomendam aos filhos que aproveitem a semana para estudar. Aí sim, informados, podem chamar depoentes para esclarecer dúvidas ou acrescentar alguma informação.
Hoje pela manhã, entretanto, alguns integrantes da CPI não vão poder se dedicar a esse trabalho. Os peemedebistas têm compromisso logo cedo: uma sessão do Senado em homenagem ao PMDB. Não por acaso, muitos planejavam desembarcar hoje pela manhã em Brasília. Afinal, como me lembrou o deputado Pitiman ontem, será a primeira sessão presidida por José Sarney (PMDB-AP) depois do cateterismo a que foi submetido em São Paulo. Na sessão de hoje, já que não tem nada, será a hora da simbologia, de o partido tentar demonstrar à presidente Dilma que consegue reunir bastante gente no Congresso Nacional, mesmo numa segunda-feira, na hora do almoço. O PMDB não vê a hora de demonstrar sua força congressual perante o governo, hoje diluída porque a pauta não tem nada que seja caso de vida ou morte para o governo Dilma. Só o fez no Código Florestal ao retomar o texto da Câmara. E esse projeto é um dos poucos que, este ano, ainda causará muita polêmica. Pode apostar.
O Coaf não tem como enviar servidores à CPI do Cachoeira porque não tem pessoal. São 10 analistas de informações financeiras para verificar uma média de cinco mil comunicados que chegam diariamente ao Conselho
Ô FILHA, VEJA O COAF
Dona Dilma Jane, sempre me disseram que a sua filha faz tudo o que a senhora pede. Ou quase tudo. Por isso, neste Dia das Mães, eu pediria, por favor, que a senhora intercedesse junto à sua filha em prol de um órgão prá lá de importante da administração pública, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Não é de hoje que o Coaf identifica a turma do “malfeito”, maneira que a sua filha se refere a casos de corrupção. Já pegou muita gente por aí. Mas o Coaf está no limite. A senhora é capaz de chorar se ler a resposta do presidente do Coaf, Antonio Gustavo Rodrigues, ao senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), presidente da CPI que investiga os negócios do bicheiro Carlos Cachoeira.
O senador pediu ao presidente do Coaf que lhe indicasse dois servidores para ajudar a desvendar o rastro do dinheiro que andou para lá e para cá nas águas desse Cachoeira. Antonio Gustavo Rodrigues aproveitou para desabafar. Disse que se sentia honrado em colaborar com o trabalho, mas, depois de um floreio danado, avisou que ceder gente para ficar na CPI tempo integral não vai dar.
Por falar em pessoal…
Rodrigues conta, no ofício enviado ao senador, que o quadro de pessoal do Coaf é de 42 servidores, “dos quais apenas 10 desempenham atividades de análises de informações financeiras. E detalhe: a situação é a mesma desde 2005. Ele lembra que a ampliação do quadro foi inclusive “objeto de recomendações da CPMI dos Correios”, aquela que investigou o mensalão.
Depois desse preâmbulo, ele diz que designar dois servidores à CPI “prejudicaria substancialmente a capacidade operacional do órgão, já fortemente desafiada com o crescente número de comunicações recebidas dos setores obrigados pela legislação”. Desde 1998, bancos e outras instituições informaram mais de seis milhões de ocorrências ao Coaf. Só em 2011, confome Antonio Gustavo Rodrigues informou ao senador, foram 1,2 milhão, ou seja, uma média de 5 mil comunicações por mês. Ou seja, dona Dilma Jane, trabalho é que não falta para esses dez bravos cidadãos que trabalham na análise de informações financeiras.
Por falar em trabalho…
Alguns relatórios do Coaf, dona Dilma Jane, ficaram famosos ao longo da sua história. Em maio de 2011, o jornal O Estado de S. Paulo publicou que, seis meses antes de estourar o caso Antonio Palocci, o Coaf havia alertado a Polícia Federal sobre o apartamento de R$ 6 milhões que o ex-ministro da Fazenda havia comprado em São Paulo. Na época em que a informação chegou à PF, a sua filha, dona Dilma, era presidente da República eleita e estava montando o governo. Aposto uma tarde num Spa, com direito a massagens de pedras quentes e relaxantes, como a senhora teria dito para a presidente Dilma não nomear Palocci ministro da Casa Civil se soubesse dessas coisas.
Este ano, por exemplo, soube-se que o Coaf também andou recebendo informações de movimentações suspeitas de funcionários do Poder Judiciário de vários estados. Tanto é que, por conta disso, no início do ano, a confusão foi grande. Mas isso, infelizmente, a senhora não tem como interceder porque se trata de outro poder, onde a fiscal é a doutora Eliana Calmon.
Por falar em interceder…
Dona Dilma Jane, o Coaf não precisa de luxo, vinhos Cheval Blanc ou coisa que o valha. Só quer ampliar o seu quadro de homens e mulheres capacitados para fisgar aqueles que fazem lavagem de dinheiro obtido ilegalmente. É de se estranhar que um órgão tão importante esteja com a mesma estrutura desde 2004, como diz Antonio Gustavo Rodrigues. Enquanto isso, a gente vê por aí a criação de ministérios só para que tendências do PT ou integrantes de partidos aliados possam desfilar de carro oficial. Ah, dona Dilma Jane, se levarmos ao pé da letra, há de tantas estruturas que podem ser reduzidas a um departamento do tamanho do Coaf ou menor até. Essa cartinha também poderia ficar por aqui. Mas, ficaria incompleta se não lhe desejasse um feliz Dia das Mães. À senhora, à sua filha e a todas as brasileiras. Em especial, às bravas mães dos servidores do Coaf. Feliz Dia das Mães a todos!
Não adianta a presidente Dilma Rousseff escolher ministros ou vice-presidentes do Banco do Brasil para tentar ajudar os petistas em várias capitais. Os políticos não querem misturar essas estações, embora considerem natural trocar cargos por votos no Congresso
O tempo vai passando e o 1º de maio ainda rende histórias no plenário da Câmara. Esta semana, por exemplo, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical, pré-candidato a prefeito de São Paulo, contava uma para quem quisesse ouvir. Numa roda de deputados, comentava que, na festa paulistana para comemorar o Dia do Trabalho, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad chegou logo lhe estendendo a mão. Paulinho, por sua vez, passou as suas duas mãos na própria camisa e nas pernas e, diante de um Haddad perplexo, foi direto: “Fernando, você nunca me deu a mão, nem me recebeu quando era ministro. Eu tinha que, agora, limpar a minha mão para apertar a sua”. Haddad sorriu amarelo naquele instante. Mas os deputados que estavam em volta de Paulinho esta semana deram risada.
A cena serve para ilustrar como não adianta a presidente Dilma Rousseff escolher ministros para tentar ajudar os petistas em vários estados. Nem mesmo nomear César Borges, do PR, para o Banco do Brasil garante que o partido fique ao lado de Haddad ou de outro nome petista nas capitais, nem mesmo Salvador. Os políticos não querem misturar essas estações, embora achem natural trocar cargo por votos no Congresso. Prova disso é que um dia depois do anúncio do nome de Brizola Neto (PDT-RJ) ser anunciado como novo ministro do Trabalho, lá estava Paulinho, deixando o pré-candidato do PT a prefeito de São Paulo constrangido e sem graça. E isso ocorreu antes de o Ibope divulgar que Haddad mantém 3% das intenções de voto paulistanas, enquanto José Serra (PSDB) aparece com 31%.
Haddad não era mesmo de dar muita atenção aos políticos, tampouco gastava solas de sapato percorrendo eventos de seu partido no período em que ficou no Ministério da Educação. Tinha o comportamento inverso ao do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que não deixa dar o ar da graça em eventos do PT, especialmente em São Paulo. Agora, ao se “enturmar” com a base, soa falso. Chegou-se a situação que, ou Lula entra logo em campo, ou o petista pode não ter tempo de virar o jogo a seu favor.
Por falar jogo…
Líder nas pesquisas, José Serra tem entre seus aliados os maiores entusiastas da CPI que investiga as relações do bicheiro Carlos Cachoeira. Afinal, enquanto a CPI estiver dominando o noticiário, menos espaço haverá na mídia paulista para a exibição das movimentações de Haddad, que precisa de exposição.
Para completar os problemas do PT, se Haddad se mantiver concretado nos 3% por mais tempo, ficará difícil seu partido conseguir que os demais integrantes da base da presidente Dilma Rousseff desistam de lançar candidatos a prefeito, como pediu Lula no início do processo. Hoje, a sensação entre os petistas é a de que a vida de Haddad realmente não será fácil daqui para frente: uma profusão de candidatos, numa cidade onde Lula jamais conseguiu transferir prestígio para eleger candidato a governador ou a prefeito.
De quebra, ainda vem por aí o julgamento do mensalão e as agruras na CPI, hoje imprevisíveis. Nada garante que o caso ficará restrito ao senador Demóstenes Torres, aos deputados que já foram citados ou ao governador de Goiás, Marconi Perillo, como se calculava no início do processo.
Por falar em agruras e CPI…
A compra da Delta Construções pela JBS sem colocar dinheiro merece mesmo uma lupa. Não ouvi um só empresário ou político dizendo que essa compra era, digamos, um negócio da China. Vejam só a situação da JBS, por exemplo. A empresa estava lá quieta no seu canto. Bastou anunciar a compra da Delta para que ressurgissem o financiamento recebido do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os projetos políticos de um dos sócios do grupo, José Batista Júnior, pré-candidato ao governo de Goiás. Para muita gente, a forma vapt-vupt com que o grupo controlador da JBS tomou conta da Delta terminou por fazer dos compradores um novo veio para se trilhar na busca de desvendar as intrincadas relações da política de Goiás, de onde saíram Cachoeira; o ex-tesoureiro do PT e réu do mensalão Delúbio Soares; entre outros.
Lá só não é território de Fernando Cavendish, o ex-dono da Delta que a turma da política aposta que está pronto para deixar o Brasil. Afinal, nada impede que ele viaje para onde quiser. Quem conhece desse traçado, garante que basta o empresário comprar uma rede de postos de combustíveis nos Estados Unidos, gerar empregos e, assim, solicitar um green card. Houve um tempo em que os filmes citavam o Brasil como refúgio de americanos enrascados com a justiça estadunidense. Hoje, ao que parece, a rota está a um passo de se inverter. Vamos aguardar.
Os deputados andam meio entristecidos, olham para a popularidade de Dilma como algo que não é compartilhado com eles, cada vez mais distantes do poder
O governo está bombando junto ao eleitorado, a presidente Dilma Rousseff segue lépida e fagueira, liderando sua equipe rumo aquilo que se propôs. O PT, então, é só felicidade, certo? Errado. Os petistas estão infelizes e não é de hoje. No plenário, não é raro ver os deputados em conversinhas meio de lado, com cara de quem não está muito contente. E isso tem motivo: Dilma simplesmente quer que eles compartilhem do seu sucesso, mas sem dividir o poder.
Ontem, eram o líder Jilmar Tatto e o deputado Ricardo Berzoini, ambos do PT paulista, falando sobre reuniões a respeito de vários assuntos. Uma aproximação da imprensa e as conversas cessam. Nenhum dos dois fala de um encontro entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega; o presidente da Câmara, Marco Maia; e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), para tratar do futuro do Banco do Brasil, juros ou poupança, tema que a presidente espera apoio total do PT. No BB, mudanças de diretores deixaram Maia irritado no passado e continuam incomodando.
Por conta dessas e outras troca de comando sem que os políticos sejam, ao menos, comunicados com antecedência, o PT nos bastidores se mostra tão infeliz quanto o PMDB ou outros partidos no que se refere à ocupação de espaços. Não se cansam de repetir a frase que Dilma disse numa reunião logo na largada de seu governo e que eles simplesmente não levaram a sério: “Na área de bancos e de energia quem manda sou eu”. Esse é um dos motivos da infelicidade do PT.
Por falar em bancos...
A presidente deixa transparecer aos políticos que é ela a grande comandante da economia e Mantega apenas o executivo que segue aquilo que a chefe determina. Quando ele fala nas reuniões, Dilma logo emenda: “Ele quer dizer que...” e dá a sua explicação a respeito de qualquer proposta. Foi assim no encontro para explicar as mudanças na remuneração da poupança. E, esta semana, Mantega levou oficialmente ao PT a notícia sobre o afastamento de Ricardo Oliveira do Banco do Brasil.
Os deputados andam meio entristecidos. Olham para a popularidade de Dilma como algo que não é compartilhado com eles, cada vez mais distantes do poder. Aos poucos, conforme Dilma avisou na primeira reunião, vão saindo da Petrobras e da área de energia como um todo. Foi em meio à saída de Sérgio Gabrielli da presidência da petroleira, que o secretário executivo do ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, se filiou ao PMDB para ser apresentado como futuro ministro se for preciso.
Por falar em entristecidos...
Nem mais no quesito liberação de recursos os deputados se sentem importantes. As emendas ao Orçamento da União, que fazem a alegria dos políticos em levar recursos para suas bases eleitorais, vêm perdendo importância junto aos prefeitos desde o governo Lula. Isso porque recursos para saúde, educação, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e programas de governo como um todo seguem diretamente para os municípios sem precisar passar pelo crivo dos deputados. Ou seja, Lula e, agora, Dilma restabeleceram uma relação direta com as bases.
E, para completar a tristeza dos políticos — do PT e dos partidos aliados — não existe hoje na Casa uma proposta em debate que sirva para derrotar o governo de forma acachapante e, ao mesmo tempo, dar aos deputados a oportunidade de posar de mocinho perante o eleitor deixando à presidente Dilma o papel de vilã.
Por falar em papéis...
Nessa novela, com a maioria dos políticos no papel de meninos levados, eles apenas aguardam o dia em que a “dona da pensão”, no caso, Dilma, precisará deles para tirar um “gato” do telhado, consertar a “antena” da TV a cabo. Se esse pedido não vier na CPI do Cachoeira, a janelinha pode ser a Lei de Diretrizes Orçamentárias, uma proposta que sempre passa sem muita confusão no Congresso. Desta vez, a ideia dos partidos é usá-la para dar um susto no governo.
Quando não há nada que possa incomodar para valer um presidente da República, seja ele quem for, os partidos sempre inventaram algo. A diferença é que, até o início do governo Dilma, todos os outros presidentes compartilharam o poder com o seu partido e os aliados. Dilma parece disposta a romper essa tradição.
Vida de candidato do PMDB não é fácil. Que o diga o deputado Paulo Piau (PMDB-MG). Pré-candidato a prefeito de Uberaba, ele tem assistido seu colega de partido e atual prefeito, Anderson Adauto, réu no processo do mensalão, anunciar o apoio ao petista Adelmo Carneiro. Tudo para agradar a Lula. Aliados de Piau pediram intervenção no diretório municipal.
Graças à CPI do Cachoeira, a Câmara decidiu colocar em pauta os projetos que calam fundo na alma do contribuinte. Tudo para mostrar que a Casa se preocupa com a “pauta do bem”
O Brasil seria outro se a cada seis meses se abrisse uma Comissão Parlamentar de Inquérito como essa que engatinha no Congresso Nacional. Isso porque, para mostrar que não estão preocupados ou que o mundo não se resume a isso, parlamentares colocam em pauta vários projetos de interesse e de repercussão social. Não fosse a CPI que hoje investiga os negócios de Carlos Cachoeira e respinga no parlamento, a proposta de emenda constitucional (PEC) que pretende punir de forma severa os promotores do trabalho escravo, por exemplo, dificilmente estaria em debate na Câmara dos Deputados.
Desde a semana passada, quando a CPI saiu do papel, a pauta da Câmara ganhou ares mais sociais. Foram aprovados, entre outros, o projeto que acaba com a exigência de cheque-caução para atendimento hospitalar. Também saiu da gaveta a proposta que amplia as possibilidades de exame de DNA para reconhecimento de paternidade.
Essa semana foi a vez da PEC do trabalho escravo. Essa PEC pretende a desapropriação de terras ou imóveis urbanos onde for detectado o trabalho escravo, sem direito a indenização pela propriedade. Tramita na Câmara desde 1995. Hoje, a multa para quem tem um trabalhador em regime análogo à escravidão varia de R$ 400 a R$ 4 mil.
De acordo com o deputado Cláudio Puty (PT-PA), presidente da CPI do Trabalho Escravo, hoje ainda há pessoas inescrupulosas que fazem a conta: se o lucro for maior do que a multa, correm o risco de manter trabalhadores nessa situação, seja no campo nas cidades. Até porque a fiscalização é precária, por causa da falta de pessoal.
O difícil é conseguir fazer vale essa proposta, uma vez que a poderosa bancada ruralista — que já derrotou o Código Florestal defendido pelo governo — é contra, porque considera que os fiscais cometem abusos na hora de definir as situações análogas à escravidão. Reclamam que até a espessura dos colchões é motivo para aplicação de multas.
Por falar em reclamações...
A CPI do Trabalho Escravo não tem um décimo dos holofotes que se debruçam sobre a CPI dos negócios do bicheiro Carlos Cachoeira. Mas ficará devedora da CPI do Cachoeira, hoje o motor do Congresso e da “pauta do bem”. À CPI de Cachoeira se deve ainda o fato de o Conselho de Ética do Senado correr para analisar o destino do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). E o fato de não haver um voto contrário à abertura de processo já é um sinal de que o senador goiano dificilmente conseguirá se segurar no mandato.
Há quem diga que, se Demóstenes for cassado por quebra de decoro, a CPI terá cumprido seu papel e não precisará chamar governadores para depor. O problema é que Demóstenes já foi, ou seja, sobre ele, se tem a clara sensação de que não há muito mais a apurar. O julgamento político já foi feito e dificilmente a defesa poderá mudar alguma coisa nesse sentido — daí, a tentativa de recorrer ao Supremo Tribunal Federal. Se não der em nada, pelo menos, Demóstenes ganhará tempo.
À CPI agora cabe avaliar outras pontas, por exemplo, as obras do Ministério dos Transportes, os negócios de Cachoeira com a Delta Engenharia e a relação dele com os governadores e com demais parlamentares. Se a comissão não o fizer, deixará a desejar e o eleitor, na certa, vai achar que as excelências empastelaram a CPI. E não haverá pauta do bem que coloque os deputados e senadores como mocinhos nesse filme. E aí, a CPI, hoje santificada como a esperança de muitos, vai virar o inferno e, seus integrantes, assistentes de malfeitos. Bem... Como tudo é um jogo sem “santinhos”, pode começar a fazer as suas apostas. A minha é a de que a CPI dure muito tempo. Só assim as excelências colocam em pauta os projetos que interessam diretamente a você e não ficam apenas no rame-rame das medidas provisórias. Como diria o menino prodígio, santa CPI, Batman!
O veto de Dilma Rousseff ao Código Florestal será a senha para que ela seja ovacionada pelos ambientalistas na Rio+20. Lá, pelo visto, o único constrangimento, se nada mudar, poderá vir da parte do governador Sérgio Cabral
Tudo indica que a presidente Dilma Rousseff conseguirá pular mais um obstáculo que parte da sua própria base aliada tentou colocar na sua frente. Ao se preparar para anunciar uma penca de vetos ao Código Florestal aprovado na Câmara, ela começa a produzir uma doce limonada para substituir o limão azedo que a esperava na Rio+20, isso para não dizer o troféu motosserra de ouro — o mesmo que o senador Blairo Maggi havia recebido dos ambientalistas quando era governador do Mato Grosso.
Grupos de ambientalistas pretendiam entregar o troféu à presidente brasileira na Conferência de Desenvolvimento Sustentável da ONU, no Rio de Janeiro, mesmo se a Câmara ficasse com o projeto do Senado — fruto de acordo entre governo, ruralistas e ambientalistas com assento naquela casa. E essa proposta Dilma teria que sancionar praticamente sem vetos — talvez houvesse algum por conta de uma vírgula mal colocada, mas não seria nada que comprometesse o corpo da proposta. Estaria assim presa na armadilha das vaias e manifestações contrárias a ela na Conferência de junho. Agora, não está mais.
O veto de Dilma ao Código Florestal será a senha para que ela seja ovacionada pelos ambientalistas. Assim, o que era para ser negativo será positivo. E, para completar, ela ainda terá ali a companhia do presidente eleito da França, François Hollande, que toma posse no próximo dia 15. Ou seja, pelo andar da carruagem, o único constrangimento que Dilma terá na Rio+20 pode ser mesmo a companhia do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Isso, se até ele não conseguir explicar suas viagens ao exterior nos últimos quatro anos.
Por falar em CPI…
Na época da Rio 92, a CPI sobre o esquema PCCollor estava apenas começando. O presidente ainda detinha o controle da situação e pôde fazer bonito perante os demais chefes de estado. Dilma Rousseff, pelo menos até onde a vista alcança, parece não ter o que temer em relação à CPI. Não se sabe se o mesmo ocorrerá com o governador do Rio, Sérgio Cabral, que até o momento não deu um chega pra lá nas especulações sobre suas despesas no exterior em companhia de Fernando Cavendish, o ex-dono da Delta Engenharia.
Cabral ainda tem um mês e meio antes da Rio +20. Basta demonstrar que pagou suas despesas e ponto. Não se fala mais nisso. Se fizer isso, será feliz igual Henrique Hargreaves, que, citado na CPI dos Anões, voltou mais forte para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil no governo Itamar Franco e virou exemplo de boa conduta. Por enquanto, a sala “inviolável” da CPI ainda não recebeu os documentos relativos à Delta Engenharia, muito menos sobre as obras da empresa no Rio. Mas é só questão de tempo até que esse material seja requisitado.
Por falar em felicidade…
A eleição de François Hollande foi vista com muita simpatia no Palácio do Planalto. Ali, houve quem comparasse a vitória dele à eleição de Lula, em 2002, que chegou ao poder prometendo mudanças radicais. Ocorre que Lula não mudou à época as bases da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso. E não se sabe se Hollande terá esse poder de mudar alguma coisa nessa seara na França, embora o país seja hoje a quinta economia do mundo. Os franceses estão atrelados ao Tratado Europeu, que prevê austeridade e amarra certas decisões. Da mesma forma, as preocupações com o futuro do Real representaram um freio no projeto que Lula apresentara em sua campanha. Por isso, no Brasil, o crescimento foi retomado aos poucos, graças a um bom cenário internacional no início do governo Lula e à capacidade de preservar várias ações do governo anterior. O que o governo brasileiro espera de Hollande é que ele tenha o mesma sorte para poder servir de inspiração a outros países europeus. O desafio está lançado.
Muitos que saem de conversas com o ex-presidente petista acreditam que ele se prepara para voltar à Presidência num futuro próximo. Quem convive com ele garante que isso só vai ocorrer se os ventos favoráveis à Dilma mudarem a direção
DENISE ROTHENBURG
As cenas só não são simultâneas porque é preciso pegar um avião ou algumas horas de carro no complicado trânsito de São Paulo para chegar até ele. Sim, o “ele” em questão é quem você está pensando: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os políticos não param de visitá-lo. Desde que os médicos decretaram o desaparecimento do tumor na laringe da ex-presidente, nem d. Marisa, sempre vigilante, consegue mais barrá-los. E, invariavelmente, vão reclamar de Dilma.
Dia desses, até o deputado Valdemar Costa Neto, que ainda manda no PR, apareceu em São Bernardo para saber da saúde do ex-presidente, falar da campanha municipal em várias cidades de São Paulo e… reclamar de Dilma. Na conversa, segundo se comenta em Brasília, teria ouvido de Lula que estava na hora de o PR voltar ao governo. O partido está na geladeira desde que Alfredo Nascimento deixou o Ministério dos Transportes.
Por falar em reclamar…
Lula evita falar em ser candidato. Só escuta e diz que os estilos dele e de Dilma são diferentes e que quem manda agora é ela. Em suma, trata todo mundo bem, é solidário a todos que o procuram, mas em nenhum momento é desleal com a presidente que ajudou a eleger. O problema é que, nessas conversas, muitos políticos já vêem um vislumbre de futuro. Todo mundo sai achando que ele será candidato a presidente. E a agenda dele, nesses últimos dias, de exposição total, alvoroçou mais ainda os bastidores. Em dois dias, Lula teve dois eventos públicos no Rio de Janeiro. Discursou nas duas oportunidades. Aos poucos, vai… aquecendo a voz.
Dilma o acompanha sempre que pode. Como já dissemos aqui, erra — e erra feio — quem achar que existe uma briga de foice entre eles ou uma vaidade de Dilma de ser candidata à reeleição a qualquer preço. Ela aprendeu muito cedo, desde os tempos da luta contra ditadores brasileiros, que o projeto é maior do que o indivíduo. Se for para o bem do projeto petista, ela volta pra casa numa boa em 2015, desde que seja para passar a faixa presidencial a Lula.
Por falar em voltar…
Para aqueles que torcem pelo retorno de Lula em breve, o problema é justamente esse: Dilma, ao se mostrar desapegada da classe política, conquista cada vez mais o coração dos eleitores. E, pelos cálculos de alguns integrantes do PT, funciona assim: os 57% que hoje desejam o retorno de Lula votarão em Dilma. E quem está satisfeito com o governo dela representa um contingente maior do que esse. Logo, ela, se candidata, não estaria longe de vencer no primeiro turno uma eleição presidencial, coisa que até hoje nenhum petista conquistou.
Por isso, até o presente momento, uma recandidatura de Lula é mais torcida daqueles que sentem saudades dos convescotes palacianos do que projeto real do PT. Mas se está claro que Lula conquistou votos com o Bolsa Família e com o jeito afável de tratar os políticos, é de se supor que Dilma se consolida junto ao eleitorado pelo jeito brigão com que trata os políticos, aqueles que não fazem o serviço direito, os bancos…Lula só voltará se essa fórmula falhar daqui pra frente.
Por falar em falhas…
Desde que assumiu o cargo, a presidente Dilma Rousseff não deu o ar da graça na Expo Zebu, em Uberaba (MG), a maior do mundo. Só compareceu como candidata. No ano passado, cancelou sua participação na abertura por conta da gripe. Esse ano nem se deu ao trabalho de confirmar. Este ano, no dia da abertura, quinta-feira, Dilma estava ocupada, tratando de explicar as mudanças na remuneração da poupança ao Conselho Político e dizendo aos banqueiros que chegou a hora de baixar taxas de juros ao consumidor. Foi representada na tradicional feijoada na fazenda de Jonas Barcelos pelo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro. Os políticos mineiros raramente faltam à abertura da exposição. Lula, que nem é mineiro, não perdia essa festa. Mais uma prova da diferença de estilos.
Se Dilma conseguir fazer com que a população entenda ser necessário mexer na remuneração da poupança para baixar ainda mais os juros, inclusive os do cartão de crédito, não restará aos partidos aliados outra saída, senão obedecer a chefe
Parece incrível, mas os políticos ainda conseguem ficar boquiabertos com algumas reações da presidente Dilma Rousseff. Ontem, foi um desses dias. Ao reunir o conselho político, ela colocou os objetivos com os quais pretende marcar seu governo e falou dos nós que pretende desatar no país. Reclamou das “tarifas estarrecedoras dos bancos”, dizendo que “isso é roubo”. Disse ainda que a taxa do cheque especial “é uma vergonha”, bem como as taxas dos cartões de crédito. Falou ainda sobre as mudanças da poupança — a reunião era para isso. O que não estava no script eram as “broncas”.
Para aliviar o olhar meio desconfiado da turma da base aliada com as mudanças na remuneração da caderneta de poupança, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, arriscou falar sobre projetos da presidente: “Mas, para compensar, vem aí o novo combate à miséria e…”. A reação foi imediata: “Para, Arlindo! Não fala! É segredo ainda, não está fechado! Vou lançar no Dia das Mães. Não é para falar agora!”.
O líder recolheu os flaps. A partir daí, ninguém mais colocou senões às mudanças na remuneração da poupança, à exceção de Francisco Dornelles, ex-ministro da Fazenda, que disse que era preciso ir com cuidado nessa seara. Renan Calheiros concordou com tudo. Henrique Eduardo Alves não abriu a boca a reunião inteira. E assim, o Conselho, sempre falante no governo Lula, entrou mudo e saiu calado. Mais por medo de levar um passa fora público do que por qualquer outro motivo.
Por falar em medo…
A sensação entre os políticos é a de que discordar da presidente da República ou contrariá-la em público soa sempre como o detonador de uma bomba. Como crianças que se intrometem nas conversas dos adultos, os líderes levam logo um passa fora. A impressão que eles têm é a de que se trata daquela mãezona que se impõe mais pelo medo do que pelo diálogo direto com os filhos.
Até aqui, eles não têm sequer argumentos para discordar dela em público. Até porque, a popularidade presidencial está lá em cima. A forma como Dilma enquadra e deixa sem ação as experientes raposas da política rende a ela e a seu governo pontos que se superam a cada pesquisa de opinião. E ela está surfando na onda de enquadrar quem lhe passa pela frente. Ontem, por exemplo, saíram os políticos, entraram os banqueiros, prontos para ouvir: “No que se refere às taxas que vocês cobram dos correntistas, está na hora de baixá-las”.
Por falar em sensações…
Os líderes voltaram ao Congresso meio cabisbaixos. Sabem que, se Dilma conseguir fazer com que a população entenda que precisa mexer na remuneração da poupança para baixar os juros, não restará a esses partidos outra saída, senão obedecer. Afinal, com a popularidade que ela tem, Dilma está com a bola toda. E, se ela conseguir somar à queda dos juros uma baixa nas taxas cobradas pelos bancos a seus clientes, certamente, as mudanças na caderneta de poupança não vão afetar a relação dela com o eleitorado.
No momento, ela só está desgostando mesmo a classe política. O PT inclusive. Os petistas ficaram furiosos na semana passada ao saber que o nome escolhido para diretor de Engenharia da Petrobras foi Richard Olms, técnico da preferência da Graça Foster, e que não passou pela aprovação do partido. O PP também não gostou de perder a Diretoria de Abastecimento da estatal. Ontem, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, falou que falta mudar dois diretores, Almir Barbassa, da área financeira, e Jorge Zelada, da área internacional. Zelada ficará mais um mês. Barbassa esteve com um pé fora da diretoria, mas Lula intercedeu em seu favor.
Até o ex-presidente acha que Dilma está criando frentes demais. O problema é que, ao abrir tantas frentes com os políticos, Dilma corre o risco de, se escorregar numa casca de banana qualquer, não ter um líder para lhe estender a mão. Sobrará então o povo. Não por acaso, vem aí mais um novo programa de combate à miséria voltado às mães. É com a ajuda delas e de seus filhos que Dilma tem colocado os “meninos da política” de castigo. Até agora, deu certo. Não por acaso, tem entre eles o apelido de “mãe das mães” ou “dona da pensão”.
Desde que vieram à tona os negócios de Carlos Cachoeira e, por tabela, suas ligações com o antigo proprietário da Delta Engenharia, Fernando Cavendish, o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) denuncia as relações de Cavendish com o governador do Rio, Sérgio Cabral. Daqui a pouco, ele colocará mais lenha na fogueira.
Garotinho irá à tribuna da Câmara para falar a respeito das obras de R$ 56,8 milhões que o empresário Georges Sadala tem no Rio de Janeiro e do apartamento em Miami, com direito a uma Ferrari na garagem.
E mais: vai voltar ainda à eleição suplementar de 2006, de Campos, quando Geraldo Pudim foi candidato a prefeito. Garotinho contará a rspeito de uma visita ao apartamento de um advogado no Rio, onde foi chamado também o então presidente do TRE, Roberto Wider. "Num dado momento, Wider se levantou para ir ao banheiro e o advogado me fez uma proposta. Disse que Widder tinha dois votos prontos, um a nosso favor, outro dizendo que os candidatos estavam irregulares. Por US$ 500 mil, ele daria uma decisão em meu favor. Eu não aceitei a proposta e ele deu um voto nos esculhambando"., contou Garotinho ao blog agora há pouco, antes do pronunciamento.
Wider hoje está afastado do Tribunal por denuncias favorecimento a amigos e não foi encontrado para responder às acusações de Garotinho. Pelo visto, GArotinho quer que a CPI vá muito além de Cachoeira. A conferir.
Entre os senadores, há hoje uma vontade implícita de recuperar a imagem do Senado. Diante de tanta confusão e fios de meada na CPI de Carlos Cachoeira, o pedido de cassação de Demostenes soará como um “nós somos legais”
PEGA NA MENTIRA
Se depender do relatório do senador Humberto Costa (PT-PE) ao Conselho de Ética, o senador Demostenes Torres (sem partido_GO) pode se preparar para, num futuro não muito distante, curtir as suas garrafas de Cheval Blanc sem se preocupar com as sessões do Senado no dia seguinte. Ou aproveitar para se dedicar a lições de gastronomia na cozinha nova de seu apartamento. Isso porque, a depender do que se dizia ontem nas conversas reservadas, Demostenes cairá como todos aqueles que o antecederam e, sem o aval de seus respectivos partidos, terminaram cassados porque “faltaram com a verdade” na tribuna do Senado. Ao discursar, ainda em março, Demostenes dissera não ter nada a ver com Carlos Cachoeira e, menos de uma semana depois, estava clara a ligação entre eles coberta de presentes, inclusive um telefone celular.
Costa tomou ainda o cuidado de não usar as gravações que Demostenes tentou anular por intermédio de seus advogados. Uma forma de tentar evitar que, a partir de hoje, o senador tente anular o relatório na Justiça. O cuidado é válido, mas é sempre bom lembrar que a Justiça nunca se meteu nesse campo de tentar segurar um mandato quando o Conselho de Ética considera que deve ser cassado. Ali, entre as excelências, o julgamento é político e o que serve de válvula de escape no mundo jurídico nem sempre funciona.
Todos os demais sendores que foram cassados ou que renunciaram para escapar do cadafalso estavam no ponto em que Demostenes se encontra hoje: sem apoio dos partidos. No caso de Luiz Estevão, por exemplo, que foi cassado por conta das apurações da CPI do Judiciário, era quase como um zumbi. Ele dise ao plenário que não tinha nada a ver com a Incal, a empresa enrolada no caso do TRT de São Paulo. E, mais tarde, um contrato de gaveta o coocou no epicentro da trama. Por isso, perdeu o mandato. À época que Estevão ainda circulava pelos corredores, um de seus ex-colegas de partido chegou a me dizer certa vez que o então senador pelo PMDB precisa entender que a “roda da fortuna girou e ele foi espirrado”.
José Roberto Arruda, outro caso notório do Distrito Federal, não chegou a passar pela cassação. Renunciou antres disso, poupando trabalho aos senadores. Mas, seu processo de desgaste entre os colegas não foi diferente. Arruda foi á tribuna dizer que não tinha nada a ver com a violação do painel eletrônico. Jurou pelos filhos. No dia seguinte, estava lá de volta, mudando tudo o que dissera no dia anterior. Foi a conta. Não tinha clima para mais nada. O PSDB lhe mostrou a porta de saída do partido. Alguns que antes eram apenas sorrisos diante dele, fechavam a cara quando ele passava.
Por falar em fechar a cara…
Com Demostenes não é diferente. Mesmo aqueles que o cumprimentam de forma cordial não deixam de soltar um comentário quando ele vira as costas. O mínimo que dizem é que ele vestia um personagem no Senado, mas, de fato, era outra pessoa. O próprio senador goiano chegou a dizer “não sou mais o Demostenes”. Precisa mais, para se ter a certeza de que o parecer a ser apresentado hoje será em favor da cassação? Politicamente, neste momento, Demostenes está liquidado. Digo neste momento porque, como dizia o ex-senador Heráclito Fortes (DEM-PI) ao ver Arruda governador anos depois, “em política, muitas vezes o fundo do poço tem mola”. Vejam aí Fernando Collor hoje de integrante da CPI. Quem diria…
Entre os senadores, há hoje uma vontade implícita de redenção. Diante de tanta confusão e fios de meada na CPI de Carlos Cachoeira, o pedido de cassação de Demostenes soará como um “nós somos legais”, ou seja, não estão ali para acobertar A, B ou C. Bem… Pelo menos aqueles que não têm respaldo partidário ou que não foram flagrado contando uma versão a seus pares que não se sustentou. O líder do PMDB, Renan Calheiros, por exemplo, passou por um escãndalo envolvendo seu nome. Em nenhum momento, Renan negou que houvesse feito o pagamento de uma pensão alimentícia por intermédio de um amigo, funcionário de uma construtora. Por manter a sua versão — e não a ver desmentida — ficou por ali. Perdeu a presidência do Senado, mas não a solidariedade da Casa. Com Demostenes, ao que tudo indica não será assim. A partir de hoje, dizem muitos senadores, é só questão de contar os prazos para que ele seja um ex-senador com tempo para várias garrafas de Cheval Blanc. Vamos aguardar.
Nem só de Paris e Mônaco vive o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Na semana Santa, ele estava no Vaticano. E quem presenciou as cenas da quinta-feira Santa, em plena Praça de São Pedro, garante que faltou digamos... respeito. Para desespero de padres e bispos brasileiros, a mulher dele, Adriana, saiu da missa durante a homilia. Sair da missa durante qualquer homilia é feio. Na missa celebrada pelo Papa então... Brasileiros presentes ficaram constrangidos com o que consideraram falta de tato da primeira-dama do Rio. Para completar, Adriana ainda falou ao telefone durante a missa, pedindo mais um casaco. Santo mico, Batman!
Enquanto a CPI esquenta seus motores, a preocupação básica da presiente Dilma Rousseff é a economia. Hoje, ela reúne o Conselho político para anunciar as mudanças que pretende fazer nas regras da caderneta de poupança, de forma a preservar os fundos de investimento em meio à queda dos juros, o mais novo cartão de visitas de Dilma.
A presidente já fez chegar aos presidentes de partidos e líderes que a pauta da reunião de hoje será "economia, assuntos diversos". Ou seja, que ninguém vá ao Planalto pensando que ela está preocupada com a largada da CPI ou com o Conselho de Ética.
Dilma também não planejava, pelo menos até ontem, tratar do tema Código Florestal. Afinal, o assunto está encerrado no Congresso. Ela ainda não recebeu oficialmente o texto final aprovado na Câmara, mas já determinou aos ministérios afins que analisem o projeto e encaminhem sugestões ao Planalto. Dlima sabe que, com os vetos, vão surgir "buracos negros" na proposta, ou seja, pontos que podem ficar sem regulamentação. Por isso, há no governo quem aposte na edição de medidas provisórias para resolver pendências. A conferir.
O PP, o PMDB e o próprio PT saíram perdendo com as mudanças promovidas na diretoria da Petrobras agora há pouco,, durante reunião do conselho de administraçāo. Para a diretoria de Abastecimento, até então ocupada por Paulo Roberto Costa, ligado ao PP e ao PMDB, foi o técnico Paulo Cesar Cosenza. A diretoria de Engenharia ficará a cargo de Richard Olms. O diretor que está de saída é Renato Duque, ligado à corrente petista Construindo um Novo Brasil (CNB). A presidente da Petrobras, Graça Forster, já havia tentado emplacar Olms no comando da Transpetro, mas não conseguiu tirar Sergio Machado, ligado ao PMDB dos senadores José Sarney e Renan Calheiros. Os peemedebistas tentaram sem sucesso indicar um novo diretor para a área Internacional. O atual diretor, Jorge Zelada, também indicado pelo partido, ficará apenas mais um mês no cargo. Sinal de que a briga por essa diretoria ainda nāo terminou.
Há uma turma da ala majoritária do PT que se sente completamente escanteada no governo Dilma. E, no partido, há quem diga que, mais cedo ou mais tarde, essa corda vai arrebentar
Todo mundo conhece a história de São Sebastião. No século III, ao servir ao imperador Diocleciano, num tempo em que os cristãos eram perseguidos, terminou amarrado em uma árvore, todo flechado por não negar a sua fé diante do imperador. Muitas imagens o retratam com duas flechas no peito e uma perna. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) pode não ter nada de santo. Nem nasceu em 20 de janeiro, dia do santo. Mas entre os petistas, há quem veja flechas em seu peito, cravadas pela presidente Dilma Rousseff. Daí, a comparação.
A primeira delas o atingiu no peito, quando o então líder do governo se viu obrigado a desistir da disputa pela presidência da Câmara, em dezembro de 2010. Na época, o atual líder do governo, Arlindo Chinaglia, saiu da corrida para apoiar o gaúcho Marco Maia. Depois, foi a briga pelo lugar de Luiz Sérgio (PT-RJ) na Secretaria de Relações Institucionais.. Lá estava Vaccarezza cotado para o posto. Terminou perdendo a vaga no primeiro escalão para a ex-senadora Ideli Salvatti (SC).
Há menos de dois meses, Vaccarezza foi apeado da liderança do governo na Câmara para dar lugar justamente àquele que desistiu da disputa em favor de Marco Maia. Essa semana, Odair Cunha (PT-MG) assumiu a relatoria da CPI que irá investigar as relações entre Carlos Cachoeira e autoridades públicas. Mais um flecha em direção a Vaccarezza. A turma dele está anotando tudo no caderninho.
Por falar em turma…
Vaccarezza teve papel importante na condução do PMDB da Câmara para o governo Lula, logo depois do processo do mensalão. Ajudou a construir a vitória de Arlindo Chinaglia a presidente da Câmara no início de 2007, primeiro ano do segundo mandato de Lula. Foi um dos fiadores do compromisso de apoio ao nome do PMDB para suceder Chinaglia no biênio seguinte. Assim, Michel Temer virou presidente da Câmara e dali à vaga de candidato a vice na chapa de Dilma foi um pulo. Talvez por isso Dilma o olhe tão de soslaio, às vezes.
O ex-líder governo é visto como alguém que nos últimos tempos trabalhava mais para o PT do que para o governo. Algo que muitos presidentes não toleram. No Planalto, houve quem tivesse receio de que Vaccarezza, entre o PT e o governo, ficasse com o PT. Odair Cunha, além de ser sangue novo no pedaço sem tantos laços com o PMDB, é mais de trabalhar nos bastidores e é visto como bastante talentoso nessa seara.
O problema é que, dentro do PT, aquela velha guarda que protegeu e ajudou Lula no período pós-mensalão — e que foi fundamental para ajudar o partido a reconquistar a presidência da Câmara em 2007 — está se sentindo meio escanteada no governo Dilma. A impressão que parte do PT tem é a de que Dilma, não se sabe se com o aval de Lula ou não, faz um processo de transferência do bastão petista a uma nova geração, dando um chapéu na turma que pretendia adquirir mais protagonismo dentro das hostes partidárias. Isso explicaria ainda a substituição do presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, e alguns diretores.
Por enquanto, essa turma do PT que se sente meio de lado não tem armas, nem espaço para se impor. Mas a vontade de ganahr um lugar no palco está grande. Eles apenas aguardam a hora certa de tentar cavar esse espaço. Por enquanto, apenas registraram a saudade que sentem de Lula. Mas ações virão. O tempo é de observar.
Por falar em saudade…
Quem viu o documentário “Pela primeira vez”, do fotógrafo Ricardo Stuckert — sobre o emocionante momento histórico da posse de Dilma e a saída de Lula com uma popularidade estratosférica — não deixou de perceber o sumiço de Antonio Palocci nas imagens da posse. O então ministro da Casa Civil que, naquele 1 de janeiro de 2011, era o mais importante do governo, simplesmente, ficou de fora, como muitos demitidos ao longo do último ano.
Mas o filme tem nesse momento um mérito político, muito além das belíssimas imagens em 3D, da emoção da posse de Dilma, da despedida de Lula e do encontro entre José Sarney, Lula e José Alencar — que não participou da posse porque estava hospitalizado. O documentário vem bem a calhar como forma de recordar a todos os petistas, inclusive àqueles que se sentem flechados, que Dilma e Lula, por mais que tenham estilos diferentes, são partes de um mesmo projeto que está em curso. E, na visão de Lula, cabe a todos ter juízo e não comprometer essa construção para o futuro. Dilma é hoje a timoneira desse projeto e não — como ela sempre diz, ironizando, “uma mulher dura, cercada de homens meigos” ou santos.
Os petistas não negam a saudade que sentem do ex-presidente e do seu jeito leve de se relacionar com os políticos. Alguns confessam que só estão ao lado de Dilma por Lula e por pragmatismo: melhor um presidente da República petista, ainda que seja de mau humor, do que um governo de oposição
A chegada de Lula a Brasília soou como uma lufada de ar político para os petistas que andam com muita saudade dessa brisa. Foi tanta conversa que o lançamento do filme Pela primeira vez, do jornalista e fotógrafo Ricardo Stuckert, terminou em segundo plano. Foi esse lançamento que levou Lula à capital da República. Afinal, Stuckert acompanhou todo o período de governo do ex-presidente e, agora, retrata a eleição da primeira mulher eleita para comandar o país. Lula, invariavelmente leal ao amigos, não faria desfeita a ele.
O assunto principal da viagem, entretanto, foi bem outro. Primeiro, o almoço com Dilma Rousseff, onde discutiram a CPI do Cachoeira, a economia, eleição municipal, a popularidade da presidente criada por Lula ao longo de seu segundo mandato presidencial. É fato que Dilma e Lula têm visões diferentes sobre vários pontos da administração pública e ela está mais popular do que seu próprio criador. Mas errará feio quem apostar num rompimento ou numa relação de desconfiança ou de profundo mal estar entre os dois. Dilma e Lula vão muito bem, obrigado. Com mais alegrias do que dissabores na convivência.
O que “pega” nesse bolo é o PT. Ontem mesmo, Lula nem tinha desembarcado em Brasília, mas os petistas já estavam em festa à sua espera. Ficaram frustrados ao saber que o programado almoço com a bancada tinha sido cancelado em nome de um encontro restrito a poucos convidados, no Palácio da Alvorada. Em conversas reservadas, muitos no PT dizem que Dilma precisa tirar “a carranca”. Comentam que, ao lançar o programa no Nordeste, ela não deixou de lado a expressão de impaciência. O mesmo ocorreu no Palácio do Planalto, quando do anúncio do PAC da Mobilidade Urbana, na última terça-feira.
Por falar em PT...
Diante de tanta expressão de mau humor, associada à falta de convites para aquela conversa mais descontraída, mas nem por isso menos importante, os petistas não negam a saudade que sentem de Lula e do seu jeito leve de se relacionar com os políticos. E, diante disso, eles chegam a confessar que hoje só estão ao lado de Dilma por causa de Lula. E por Lula. E, também porque é melhor alguém do PT, ainda que seja de mau humor, do que um governo de oposição.
De olho na permanência no poder, os petistas não negam fôlego na hora de defender o governo Dilma no plenário. Ontem, por exemplo, nos bastidores da sessão que tratou da votação do Código Florestal, muitos comentavam à boca pequena que estava cada vez mais clara a existência de uma disputa entre PT e PMDB. Enquanto os petistas cerravam fileiras em prol do texto aprovado no Senado, defendido pelo governo, Henrique Eduardo Alves, o líder do PMDB, bradava a plenos pulmões o voto em favor do texto do deputado Paulo Piau (PMDB-MG).
Por falar em PMDB...
A defesa do texto de Piau coloca Alves em sintonia com a expressiva bancada ruralista da Casa, que contará votos na hora de escolher o sucessor de Marco Maia (PT-RS) no papel de comandante. Mas o afasta de parte do PT e da presidente Dilma. Não por acaso, ontem no plenário da Câmara, houve quem avaliasse a votação do Código como um embate entre Dilma e o vice-presidente Michel Temer. Não vamos chegar a tanto, mas a distância entre PT e PMDB está cada dia maior.
De olho no esfriamento da relação, os peemedebistas vão marcar um jantar das duas bancadas para a semana seguinte ao feriado de 1º de maio. É hora de “amarrar os bigodes”. Os peemedebistas também têm saudade dos tempos em que ocupavam melhores espaços na Esplanada: o governo Lula. Nesse sentido, PT e PMDB têm muito em comum: gostam do poder e estão com saudade de Lula. Não é à toa que a festa no Museu da República ontem a noite reuniu tanta gente. É saudade dos tempos em que a política cantava no Palácio da Alvorada. Agora, para os políticos, resta a CPI instalada ontem, um colegiado que ninguém ainda é capaz de dizer para onde irá.
Por falar em CPI...
Uma excelência comentava dia desses que iria dizer à “dona da pensão”, no caso, Dilma, que a CPI seria um tiro no pé do PT. A resposta dela foi: “E eu com isso?” O assunto CPI na sala presidencial terminou ali.
O 2012 político começa hoje com as posses no Judiciário e a criação da CPMI, onde o PMDB colocará personagens acostumados a jogar tanto na defesa e quanto no ataque. Eles farão um ou outro papel dependendo do que for mais proveitoso para o partido.
Essa semana marca a largada oficial da política do ano. Se pensarmos bem, até aqui, nada de muito importante tinha ocorrido nessa seara, salvo a melhora de saúde do ex-presidente Lula. Nem mesmo a saída de Fernando Haddad ou o anúncio de José Serra como candidato a prefeito de São Paulo podem ser apontados como fatos que deram início à política nesse ano. Até aqui, a sensação que se tinha era a de que 2012 ainda não havia “acontecido” no meio político. Uma pasmaceira geral. E, pelo que se vê, a política versão 2012 chega mais perto daquilo que a sociedade deseja, em vários níveis.
Nas últimas 72 horas, tivemos a posse da presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Cármen Lúcia — a mulher que irá reger o processo eleitoral deste ano, o primeiro com a validade da Lei da Ficha Limpa. De quebra, liderar a sessão que decidirá o futuro próximo do PSD de Gilberto Kassab, um dos personagens políticos que merece ser acompanhado de perto por todos que se interessam pelo tema.
Ontem, outros dois eventos concluíram o que pode ser chamada a abertura oficial da temporada política deste ano. De manhã, a presidente em exercício do Congresso, deputada Rose de Freitas (PMDB-ES), declarou criada a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigará as relações do empresário do jogo do bicho Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. À tarde, a posse do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Britto, com a promessa de finalmente julgar o mensalão do PT.
Por falar em Ayres Britto...
O novo presidente do STF não está brincando quando diz que a Suprema Corte precisa julgar logo o mensalão. Ele já demonstrou não ter medo de polêmicas. Foi relator da liberação de pesquisas de células-tronco embrionárias e do reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo.
E, se levarmos ao pé da letra o ditado de que se conhece o sujeito logo na chegada, pelo arriar da mala, Ayres Britto segue no sentido de aproximar o STF da população. Ao dizer que o Judiciário “é o poder que não pode jamais perder a confiança da coletividade, sob pena de esgarçar o próprio tecido da coesão nacional”, o novo presidente do STF deixa claro por onde seguirá. Aliás, não será de todo ruim se todos os poderes se aproximarem mais dos cidadãos. A criação da CPI vai nesse sentido, assim como a Lei da Ficha Limpa.
Por falar em CPMI...
Quanto à CPMI, não tenha dúvidas, leitor, de que, antes das eleições municipais, os desdobramentos das ações dessa comissão darão o norte para aproximação e/ou o afastamento de aliados no dia-a-dia da política. Pelo andar da carruagem, o PMDB, por exemplo, pretende colocar ali personagens acostumados a jogar tanto na defesa quanto no ataque. Os parlamentares escolhidos farão um ou outro papel dependendo do que for mais proveitoso para o partido.
Inicialmente, os peemedebistas entrarão como zagueiros. Mas, se perceberem que Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro amigo de Fernando Cavendish, dono da Delta, pode se enroscar ao ponto de eles não conseguirem tirá-lo das cordas, os peemedebistas estarão prontos a criar uma confusão capaz de enroscar personagens de outros partidos. O mais importante, leitor, é que, nesse jogo de vai e vem, não se perca o rumo de deixar o Poder Legislativo mais próximo da sociedade. E a sociedade quer mesmo é ver o seu imposto, que (ainda) é alto, transformado em serviços para a população e não em benefícios para alguns.
Por falar em imposto...
Depois da queda dos juros, grande bandeira do ex-vice-presidente José Alencar, já está em franca ascensão nas redes sociais uma pressão por menos impostos. Em tempos de acertar as contas com a Receita e entregar o Imposto de Renda, a tendência é esse movimento crescer.
Ao longo da história ninguém conseguiu controlar uma CPI, mas elas perderam um pouco do glamour desde que o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes disse que não tinha nada a declarar. Terminou ouvindo um “teje preso!” (sic) da então senadora Heloísa Helena
Basta ficar cinco minutos nas salas destinadas aos deputados nos gabinetes de seus líderes para sentir de perto como os parlamentares caminham para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as relações do empresário do jogo do bicho Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Estão todos com cara de “ai, que coisa chata”. Nos bastidores, todos os partidos são unânimes em afirmar que não queriam mexer com isso, mas todos foram levados à comissão que chegará com gostos para todos os paladares.
Quando o assunto surgiu, o PT foi o primeiro a sentir um certo gostinho de coisa boa. No site do partido, o presidente do PT, Rui Falcão, se referia ao evento como a “CPI do Demóstenes”. Citava ainda a necessidade de investigar as relações do governador de Goiás, Marconi Perillo. Falcão chegou a conclamar seu partido a fazer a CPI e acusar o PSDB e o DEM de operação abafa.
Os tucanos não deixaram por menos. Avisaram que a CPI tinha que sair. Ontem, receberam ainda o aval do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nessa direção. De passagem por Brasília, FHC foi homenageado com o lançamento do documentário A construção de Fernando Henrique, do jornalista Roberto Stefanelli. Ao discursar, o ex-presidente mandou um recado claro ao dizer que o Congresso não se cala, não abaixa a cabeça e, em certas ocasiões entende que “isso é maior que nós todos. Isso é o Brasil”. A mensagem estava dada: ou sai a CPI ou se desmoralizam todos.
Por falar em construção…
Em uma semana, os ventos da CPI mudaram antes mesmo de a comissão nascer. De investigações isoladas, restritas a Goiás, espalhou-se para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), espraiou-se pelo Distrito Federal. A empresa Delta, uma das grandes do PAC, viu-se no centro do palco. A Delta obteve um crescimento exponencial de seus contratos com o poder público desde 2003, primeiro ano do governo Lula.
Diante deste cenário, que coloca o PT sobre o fogareiro, a oposição partiu para o ataque. Não por acaso, deputados e senadores do PSDB, do PPS e do DEM fizeram um ato para a assinar a CPI. Ali, já há quem se refira à comissão como a “CPI da Delta”. Há quem suspeite que Cachoeira seja um dos sócios da empresa, mais um enigma que a CPI terá que desvendar.
Por falar em CPI...
Com o PT e a oposição achando possível desgastar um ao outro na CPI — e a população, via redes sociais, gritando para que tudo seja apurado —, a operação abafa ensaiada por alguns foi pelo ralo. É certo que a CPI será instalada. A briga, a partir de agora, será para ver quem controla a investigação. Não por acaso, o PMDB está quieto nesse processo. Seus deputados assinam o pedido de CPI soltando comentários do tipo “é o jeito, não tem saída”. Ontem à tarde, era assim que a banda tocava na liderança peemedebista. Ninguém com muita vontade. Mas todos impotentes para evitar a investigação.
O PMDB sabe que seu peso, já passou por muitas CPIs. E, nesse processo, um dos escalados para compor o colegiado foi o deputado Luiz Pitiman, do Distrito Federal, onde Cachoeira tem ligações e o partido, a vice-governadoria. O outro nome posto, mas ainda não definido, é o da deputada Íris de Araújo, de Goiás, onde Cachoeira nasceu. No PSDB, foi escalado Carlos Sampaio, de São Paulo, e virá ainda um outro nome de Minas Gerais, onde a bancada é expressiva.
A ordem entre os partidos indica que vem por aí um jogo de empurra dentro da CPI. Se o que vai vingar é a investigação sobre os contratos da Delta com o governo, ou as relações de Cachoeira com governos estaduais, só mesmo a dinâmica da comissão irá dizer. Ao longo da história ninguém conseguiu controlar uma CPI, embora um amigo lembre que elas perderam um pouco do glamour desde que o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes disse que não tinha nada a declarar. Terminou ouvindo um “teje preso!” da então senadoras Heloísa Helena, à época do PT. Isso foi na CPI dos Bancos, quando o BC foi acusado de auxiliar os bancos Marka e FonteCindam, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, durante a maxidesvalorização do Real.
Por falar em prisão…
Cachoeira está preso, mas CPIs não costumam terminar assim. Um que restava na cadeia por conta de uma Comissão Parlamentar de Inquérito era Salvatore Cacciola, dono do banco Marka.Ganhou liberdade ontem, depois de cumprir um terço da pena de 13 anos de prisão. Cacciola tem 68 anos. Se Cachoeira ficar na cadeia até atingir essa idade, ficará pelo menos 20 anos.
O PSB, nos bastidores, começa a montar uma coreografia política rumo à Presidência da Câmara. Se der certo, será o primeiro passo para tentar tirar Temer do papel de vice de Dilma em 2014
Enquanto os partidos tentam se segurar na CPI para investigar as relações de autoridades com o bicheiro Carlos Cachoeira, começa na Câmara a montagem de uma coreografia que, se der certo, pode ameaçar o casamento entre o PMDB e o PT. O principal coreógrafo é o PSB de Eduardo Campos. E o primeiro bailarino escolhido para interpretar o mocinho da história é o quarto secretário da Mesa Diretora da Câmara, Júlio Delgado (PSB-MG). PSD e PCdoB surgem como parte do corpo de baile.
O deputado do PSB mineiro vive atualmente o que podemos chamar de fase preparatória, ou seja, o alongamento. Delgado se aquece para uma candidatura ao grande espetáculo que se dará em fevereiro do ano que vem, a escolha do próximo presidente da Câmara dos Deputados. Não por acaso, há menos de uma semana, reuniu num inocente café da manhã, integrantes dos três partidos, PSD, PCdoB e PSB.
O objetivo declarado do encontro também era inocente: A formação de um bloco informal desses três personagens. O pano de fundo, entretanto, era bem outro: um aquecimento para uma candidatura de Júlio Delgado à Presidência da Câmara para concorrer contra o PMDB, leia-se, Henrique Eduardo Alves (RN), o líder da bancada que há anos figura como o nome do partido para presidir a Casa com o apoio do PT.
Por falar em PT...
Os socialistas têm vários motivos para tentar se mobilizar no sentido de lançar um candidato próprio à Presidência da Casa. Primeiro, não é segredo para ninguém a proximidade do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tanto é que o PSB não descarta apoiar Fernando Haddad em São Paulo apenas para não ferir a relação entre Lula e o governador. Enquanto isso, o PMDB segue impávido em carreira solo no cenário paulista.
A verdade é que nunca houve “aquela química” entre Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer como acontecia entre Lula e seu vice, José Alencar; ou entre Fernando Henrique Cardoso e seu substituto imediato, Marco Maciel. A pas de deux deles parece fora de compasso. Cada um dança num ritmo. Há quem diga que não é raro Michel Temer ser o último a saber de parte das decisões dela.
Diante desse cenário — a proximidade entre Lula e Eduardo Campos e as desconfianças que minam a relação PT e PMDB — há quem diga que basta o PSB se lançar rumo à Presidência da Câmara e, de quebra, ganhar adeptos, para que o casamento entre o PMDB e o PT termine. Obviamente, nenhum socialista diz de público que isso está em curso. Tampouco seus aliados citam abertamente as tentativas de tirar Henrique Eduardo Alves da pole position para comandar a Casa no ano que vem. Está tudo como no nome desta coluna, nas entrelinhas.
Por falar em PSB...
A quem pergunta o que ele fará em 2014, Eduardo Campos invariavelmente responde que não cuida desse tema com tanta antecedência. Acrescenta ainda que, no momento, está “agarrado no serviço” de governar Pernambuco. Enquanto isso, em São Paulo, aliados de Lula avisam que o sonho de vice para Lula ou para Dilma em 2014 seria mesmo o governador pernambucano. Ocorre que Dilma já prometeu mais quatro anos de casamento ao PMDB de Michel Temer, se forma mesmo candidata à reeleição. Mas, se a relação degringolar daqui para frente, paciência. Cada um seguirá seu caminho. Talvez por isso o PSB esteja tentando montar uma nova coreografia política que tire o PMDB do palco petista e lhe dê o lugar de Temer, atual marido e noivo de 2014.
Afinal, se Júlio Delgado monta uma candidatura e se lança no plenário da Câmara, atrai de quebra o PSD de Gilberto Kassab. Ele já tem uma aliança com o senador Aécio Neves em Minas Gerais e isso pode ter desdobramentos. O PCdoB se diz fechado com os peemedebistas, mas, informam alguns políticos mais desconfiados, tudo pode mudar. E o PT, bem... Parte expressiva do PT, a pedido de Lula, seguiu com o PSB na hora de fazer de Ana Arraes ministra do Tribunal de Contas da União (TCU). A divisão petista não está descartada e, de quebra, irritaria o PMDB e as conseqüências hoje ainda são tão imprevisíveis quanto a CPI do Cachoeira.
O que se sabe hoje é que a eleição municipal __ assim como a CPI __ vai balançar muitos coretos. E será na Presidência da Câmara onde insatisfações vão desaguar rumo a 2014. Por enquanto, estão todos no aquecimento e o PSB, ao que tudo indica, não quer ficar no fundo do palco.
A CPI de Carlinhos Cachoeira será a primeira sob a égide de redes sociais onde eleitores têm contato direto com os políticos e podem exigir uma apuração do tipo doa a quem doer. O efeito, se brincar, será o mesmo da Lei da Ficha Limpa
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) lançou da tribuna do Senado o que parece ser a esperança de todos os brasileiros que desejam ver esclarecidas a teia de Carlinhos Cachoeira, da turma do mensalão e de quem mais chegar: a necessidade de a população começar a se mexer em prol das apurações como se mobilizou para fazer valer a Lei da Ficha Limpa que, aos trancos e barrancos, vai tomando corpo.
O senador gaúcho costuma enxergar longe. Tem o dom de se renovar e, não raro, está muito mais atualizado do que seus colegas mais novos. Conhecido como o “demolidor” de ministros, Simon já passou por muitas no Congresso. Houve um tempo em que bastava uma autoridade aparecer enroscada ou sugada por alguma encrenca para que um discurso do senador terminasse de vez com a defesa de quem estivesse nessa situação. Que o diga o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, do governo Fernando Henrique Cardoso.
Para quem não se recorda, Mendonça de Barros ocupava o cargo quando surgiram gravações telefônicas (sempre elas!) que indicavam uma ação para direcionar os leilões para venda das empresas de telefonia. O então ministro foi ao Congresso se defender. Fez uma exposição no plenário do Senado aparteado por vários senadores. Quando chegou a vez de Simon falar, Mendonça de Barros ficou tão constrangido que saiu dali direto para redigir a carta de demissão.
Por falar em sair…
De alguns anos para cá, as autoridades parecem meio anestesiadas com discursos de Simon. Mas, na última sexta-feira, na tribuna da Casa, ele apostou que esta CPI para investigar Carlinhos Cachoeira virá com força total porque será a primeira grande Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, daí a sigla CPMI, sob a égide das redes sociais. Twitter, Facebook, e outros instrumentos vão permitir ao cidadão conectado acompanhar de perto e participar diretamente dos debates.
Com base na audiência da TV Senado, que bateu recordes em outras CPIs, Simon é capaz de apostar que você que está aí, lendo este artigo, pode ajudar nos interrogatórios, enviando perguntas para os senadores, denunciando, pressionando. Até aqui, o povo só assistia as CPIs. No máximo, algumas pessoas que conseguiam transitar por ali mandavam um bilhetinho aos senadores via assessores. Agora, não. O cidadão estará conectado à CPMI.
Por falar em conectado…
Simon lembrou ainda que os políticos não queriam a lei da Ficha Limpa. Da mesma forma que hoje estão seguindo para a CPI com um certo receio dos estragos que ela pode causar aos partidos políticos, ao DEM ao PT, como foi amplamente explorado no noticiário dos últimos dias. Mas, se houver uma pressão nas redes sociais e na sociedade civil, essa capacidade de controle será menor. Afinal, reza a lenda quando a população de mobiliza, o resultado se aproxima mais do que o povo deseja. Portanto, às redes!
Por falar em mobilização…
Aqui e ali surgem notícias de que personagens do chamado mensalão têm reclamado que o Supremo Tribunal Federal se mostra sujeito à pressão popular. Há quem diga que, ao garantir a validade da Lei da Ficha Limpa, o STF teria meio que se rendido ao clamor das ruas, uma vez que, na visão de muitos advogados, a lei é inconstitucional e só prosperou porque a população se mobilizou.
Bem, ainda que seja assim, ela está aí e os ministros que votaram a favor não podem ser acusados de rendição. Até porque quem votou a favor dirá ter a convicção de que a lei está correta e esse conjunto foi o que prevaleceu. Vale aqui, a outra face desta moeda: O fato de alguns petistas considerarem que o STF está sujeito ao clamor das ruas pode ser visto também como uma espécie de vacina contra um eventual resultado desfavorável no Supremo tribunal Federal. Assim, se a Suprema Corte considerar que os personagens envolvidos são culpados, eles sempre poderão dizer que foram injustiçados e que o STF se rendeu ao clamor da parte da população que é contrária ao PT. Essa será mais uma batalha que poderá ser travada nas redes sociais no futuro.
Lula enfrentou a CPI do Mensalão. Quase lhe custou o mandato. Saiu dela incólume porque buscou as ruas e os movimentos sociais que, embora briguem com o PT, sempre ficam ao lado dele quando a coisa aperta. Dilma seguirá pelo mesmo caminho
Os governadores desembarcam essa semana em Brasília dispostos a impor uma derrota ao governo Dilma Rousseff. E, pelo menos, no que se refere à correção da dívida dos estados, o governo já descartou a proposta dos secretários de fazenda e a batalha ficou para o Congresso. Ali, pela primeira vez nesses dois anos, os governadores chegam com alguma vantagem sobre o Poder Executivo. Por dois motivos, primeiro, a CPI, onde o governo Dilma terminou atropelado pelo seu próprio partido. Em segundo lugar, porque, nesse embalo, há partidos dispostos a aproveitar a onda para ver se é possível tirar algum fôlego de Dilma.
Explica-se: a “bronca” dos partidos com o governo não passou. Está apenas amortecida, por conta da CPI para investigar Carlos Cachoeira. Nesses últimos dias, eles apenas deixaram de pressionar por mudanças de ministros ou cargos de segundo escalão. Querem primeiro conseguir enxergar o que tem pela frente, antes de retomar essa pressão com força total. E, no atual estágio, de montagem da CPI e com a imprensa a cada dia colocando mais um personagem nesse enredo, não dá para se ter uma noção clara de até onde essa enxurrada terá força.
Mas num ponto, os aliados do governo — e a oposição — concordam: a popularidade da presidente está grande demais e quase se descolando do próprio governo dela, como já se descolou do Congresso. Portanto, na visão dos partidos, é preciso tirar uma lasquinha dos tais 77% acumulados em quase um ano e meio de governo para lá de tumultuado. E uma forma de fazer isso é impor uma derrota a Dilma no Congresso em votações que não prejudiquem a economia como um todo, ou dando um jeito de aproveitar a CPI para jogar uma crisezinha no colo do PT. Como fazer isso, o tempo dirá.
Por falar em economia…
Nesse sentido, avaliam, vem bem a calhar a discussão sobre o índice que deve servir de parâmetro para correção da dívida dos estados. O governo quer usar a taxa Selic. Na última quinta-feira, a equipe de Dilma Rousseff bateu o pé e avisou que não aceitará a proposta dos governadores de usar como indexador o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que os secretários de Fazenda consideram mais vantajoso para as finanças estaduais. Derrotar o governo Dilma nessa discussão, avaliam alguns senadores, não compromete as contas governamentais como um todo e ainda dá uma ajuda aos estados.
Entre os governadores, a oposição e partidos aliados têm mais espaço do que o PT. Os petistas governam o Distrito Federal, e quatro estados — Rio Grande do Sul, Bahia, Sergipe e Acre. Se os senadores ficarem com o governo federal nesse quesito, muitos consideram que a vitória maior será do PT, que já tem uma presidente popular. Portanto, essa votação se mostra hoje escolhida a dedo para dar uma aliviada nas contas estaduais. E pode ser acoplada ainda de uma redução do percentual de receita que os estados devem comprometer com o pagamento das dívidas.
Por falar em oposição…
Não por acaso o senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi para a tribuna da Casa a semana passada defender a correção via IPCA, dentro do que propõem os estados. O discurso foi feito exatamente 24 horas depois de o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, do PSB, passar por Brasília reclamando que o governo federal não tem um interlocutor forte para cuidar dos problemas estaduais. E, já que os governadores se ressentem de espaço para discutir seus problemas em bloco no governo federal, Aécio Neves começa a atirar uma bóia a esses atores políticos, tentando criar pontes para o futuro e um atalho para que eles resolvam suas questões diretamente com o Senado.
A aposta da oposição é a de que o clima entre governo e Congresso só tende a piorar diante da CPI que investigará as relações de Carlos Cachoeira com parlamentares e até governadores. E, embora os oposicionistas também tenham a sua cota nessa seara, quem está no poder central sempre tem mais a perder. Não por acaso, a presidente Dilma correu na sexta-feira para São Paulo em busca dos conselhos de Lula e lhe pediu para ir devagar com o andor porque o santo é de barro. Lula viveu uma onda de CPIs em 2005 que quase lhe custou o mandato. Escapou dela incólume e mais prestigiado porque buscou as ruas e o auxílio dos movimentos sociais que, embora de vez em quando briguem com o PT, sempre ficam ao lado dele quando a coisa aperta. Ele aconselhou Dilma a seguir pelo mesmo caminho.
O problema é que ela só terá recursos para fazer valer os programas de governo e, assim manter o povo ao seu lado, se o Congresso não deslocar recursos do caixa da União para o dos estados, como os congressistas começam a fazer agora. Esse é um forte ingrediente da briga que estará em curso no embalo da CPI.
Senador que não se julga apto a relatar um processo contra seu colega não deveria fazer parte do Conselho de Ética. Muito menos da CPI que investigará as relações do bicheiro Carlos Cachoeira. Simples assim
O sorteio para escolha do senador que relatará o caso Demostenes Torres no Conselho de Ética do Senado nos leva a pensar que algo vai muito mal naquela Casa. Não é possível que cinco senadores, sorteados, recusem a tarefa de apontar se o colega feriu o decoro parlamentar. Afinal, a única tarefa do Conselho de Ética é averiguar o comportamento das excelências. Portanto, quem não se julga apto a essa missão não deveria fazer parte do colegiado. Simples assim.
Por que, então, Lobão Filho (PMDB-MA), Gim Argello (P)MDB-DF), Ciro Nogueira (PP-PI), Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR) — a relação feita aqui apenas segue a ordem de sorteio — estão no Conselho de Ética? Alguns congressistas apostam que a presença deles ali é apenas para evitar que prosperem os pedidos de cassações. Talvez essa visão seja exagerada. Mas, a conclusão, depois do fiasco de ontem, é cristalina: Se não aceitam o papel de relatores, que procurem prestar serviço em outras praias.
Por falar em outras praias…
Na semana que vem, o Congresso vai se distrair escolhendo os senadores e deputados para compor a CPI encarregada de investigar as relações do bicheiro Carlos Cachoeira com o poder público e privado. Se a lógica valesse para a política, em princípio esses senhores que têm tantos problemas de foro íntimo para averiguar se Demostenes tem alguma culpa no cartório não devem se sentir aptos a integrar a CPI. Apesar disso, leitor, eu aposto com você que alguns desses cinco farão força para integrar a CPI do Cachoeira. Aguardemos.
Por falar em apostas…
A parte da base que não se mostra interessada em relatar o caso Demostenes no Senado (PMDB, PP e PTB) dá demonstrações que não faltará à presidente Dilma Rousseff quando o assunto for economia. E é isso o que realmente preocupa o Planalto. Não por acaso, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a alíquota unificada de 4% do ICMS para operações interestaduais envolvendo importados. Os senadores capixabas ficaram contra, os catarinenses também, mas a maioria governista falou mais alto nesse quesito.
A tendência, conforme muitos têm comentado em conversas reservadas, é a de que os congressistas, especialmente, na Câmara, joguem a bola nas contas de Dilma apenas quando for para colocar o governo na fogueira da ética. Não por acaso, os aliados fizeram coro em favor da convocação da ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara. Para você que não se lembra do caso, ela terá que comparecer ao Congresso para explicar a compra de lanchas da empresa Intech Boarding nos tempos em que era ministra da Pesca. A empresa teria doado recursos à campanha do PT em 2010, quando a candidata a governadora de Santa Catarina era a própria Ideli.
Por falar em PT…
O governo não gostou de ver Ideli chamada à Câmara para falar sobre essa compra das lanchas. Mas depois de pesquisar daqui e dali, os governistas concluíram que foi uma operação casada que envolveu a oposição, o PMDB e o próprio PT. Parte dos petistas na Câmara não se sente muito à vontade com Ideli, uma vez que o cargo hoje ocupado por ela escorreu pelos dedos de deputados do partido — Luiz Sérgio (PT-RJ), vale lembrar, também foi ministro da Pesca e deu declarações a respeito das lanchas que ajudaram a colocar lenha na fogueira para a convocação de Ideli.
Mas, entre os ministros de Dilma, a avaliação é a de que não adianta a bancada petista tentar balançar Ideli para ver se a presidente lhes dá o cargo. O Planalto considera que o papel do PT será montar uma corrente de solidariedade e proteção em torno de Ideli Salvatti. Mostrar que ela está fortalecida e não tem naa a ver com o episódio das lanchas, uma vez que a licitação foi anterior ao seu período de ministra.
Ao Planalto, interessa saber, se os congressistas serão agora capaz de praticar o desapego: no caso dos petistas na Câmara, esquecer as desavenças internas, as frustrações e proteger Ideli. E, aos senadores de tantos partidos no Senado, deixar o Conselho de Ética da Casa a cargo de quem não tiver problemas de foro íntimo para relatar episódios como o de Demostenes Torres. Nos dois casos, leitor, a tarefa não é nada fácil para os personagens em questão. Vamos aguardar.
Do PT ao DEM, cada grande partido do Congresso já teve a sua cota de relacionamento com Carlinhos Cachoeira, uns mais, outros menos. Façam suas apostas sobre quem sairá mais desgastado da CPI. O jogo começa em alguns dias
Numa roda, bem no centro do plenário do Senado, o presidente do Senado, José Sarney; o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL); e o presidente da Comissão de Constituição, Eunício Oliveira (CE). Conversavam animadamente sobre os mais diversos assuntos. Enquanto isso, ao fundo, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), explicava a jornalistas sobre assuntos econômicos. De repente, o grupo peemedebista olha para trás e acena para o petista. A expressão era de “Oi, estamos aqui!”.
Em meio à monotonia política que tomava conta do Congresso, com o governo Dilma Rousseff ganhando quase todas e os partidos a ver navios, uma CPI para investigar as relações do empresário do jogo do bicho Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, vem bem a calhar. Para começar, trata-se do imponderável. Do PT ao DEM, cada um já teve a sua cota de relacionamento com Cachoeira. Uns mais, outros menos. Não por acaso, o maior problema ontem era definir o objeto da CPI. É como se personagens de vários partidos estivessem enfileirados, passando uma caneca de leite azedo e talhado, quase transbordando, de mão em mão. Morrem de medo que esse leite derrame, deixando seus ternos manchados e com aquele cheiro ruim que uma simples lavagem não resolve.
Da parte do PSDB, o governador de Goiás, Marconi Perillo, esteve em Brasília ontem e disse ao seu partido que siga em frente na CPI porque ele não tem negócios com o bicheiro. A caneca, garante, não derramará em suas mãos. Em relação ao DEM, seus caciques na Câmara — Rodrigo Maia (RJ) e ACM Neto (BA) — calculavam que não ter mais nada a perder. O terno de Demóstenes Torres já está sujo, o senador foi entregue às feras e ponto. Agora, vão tentar empurrar a caneca Cachoeira, digo, a CPI, no colo do PT. Em especial, sobre as relações de Delúbio Soares, o ex-tesoureiro reintegrado ao partido, que faz política em Goiás.
Por falar em PT…
Os petistas, por sua vez, foram para cima e pediram a CPI de Cachoeira sem que a presidente Dilma Rousseff fosse consultada. Pelo sim, pelo não, fazem seu seguro via internet. O presidente do partido, Rui Falcão, aparece no site do partido pedindo o que chama de “CPI do Demóstenes”, jogando a caneca de novo no colo do senador goiano. Falcão acusa os oposicionistas de patrocinarem uma operação abafa para que os seus não sejam investigados. O comandante petista diz que seu partido defende a apuração de tudo. Dentro do PT, há quem diga que essa CPI poderá ajudar a construir a tese de que o mensalão teria sido uma farsa montada para atingir o Partido dos Trabalhadores.
Ocorre que, como todo mundo sabe, o vídeo em que o funcionário dos Correios aparece recebendo R$ 3 mil — o estopim do caso do mensalão — foi apenas uma pontinha que nada teve a ver com o restante apurado depois, na esteira das CPIs. Não será por aí que os petistas conseguirão anular o processo do mensalão ou evitar seu julgamento este ano. Tanto é que, ontem, ao pensar melhor, alguns integrantes do PT no governo tinham um certo receio para a CPI de Carlos Cachoeira.
Por falar em governo…
Os ministros palacianos consideram não haver nenhum problema nessa CPI que leve ao Planalto. A presidente Dilma Rousseff acredita não dever a sua eleição a atores enrolados com Cachoeira, nem mesmo se forem do PT. Portanto lava as mãos em relação à essa roleta, que pode se voltar contra vários partidos. O que “pega” para o governo é a falta de tranquilidade no Congresso para aprovar medidas econômicas, se houver necessidade.
Em meio a tudo isso, o PMDB só observa, torcendo para que o braço da empresa Delta no Rio de Janeiro do governador Sérgio Cabral esteja “blindado” nesse processo. Por isso, seus caciques olham para os senadores do PT com ares de superioridade, com a certeza de que serão necessários logo ali na frente para ajudar o governo e os petistas a reequilibrar o jogo no Congresso. Afinal, uma CPI invariavelmente significa desgaste para quem está no poder. E a maioria dos congressistas aposta que, com o governo do PT, não será diferente. Bem, leitor, faça sua aposta mas tenha uma certeza: CPI sempre dá bode. Resta saber quem irá atingir.
Há tempos, o Congresso não vive uma temporada em que os governadores tentam sozinhos impor sua vontade. Mas, dada a confusão na base da presidente Dilma Rousseff, talvez encontrem terreno fértil para fazer valer as suas propostas, desafiando os poderes do Planalto.
Estaria de bom tamanho se as indas e vindas da base do governo fossem o maior problema da presidente Dilma Rousseff. Além da falta de uma amarração maior no Congresso, existe um outro segmento político que se sente mais órfão do que nunca: os governadores estaduais. Hoje, o maior canal de conversa que eles têm no Poder Executivo é o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que recebe de acordo com os pedidos de audiência, geralmente, para resolver um problema emergencial. Não existe nada sistematizado em relação aos problemas inerentes a pratiamente todo sos estados __ e diga-se não são poucos.
A pauta com os governadores está cada vez mais extensa. ICMS, royalties, fundo de participação dos Estados, defensoria pública, piso salarial dos professores, salários de policiais e bombeiros. Isso para citar apenas aqueles que estão na ordem do dia estampados nos jornais. Se brincar tem ainda as atribuições na área de saúde, o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal no quesito teto da receita que pode ser aplicado aos salários do funcionalismo. Ou seja, assuntos não faltam.
Em 2003, tão logo tomou posse o presidente Lula chamou todos para um encontro na Granja do Torto e discutir temas comuns, como a Lei Kandir que com´pensava os estados que perdessem recursos com os incentivos á exportação. A presidente Dilma Rousseff, com um ano e três meses de mandato, ainda não os convidou para um encontro desse tipo. Nenhum deles se negaria, por exemplo, a um seminário que dedicasse um fim de semana a debater os problemas nacionais ou aqueles que afetam a todos. Nem existe hoje um ministro encarregado de sistematizar esses pedidos e entregá-los ao governo, uma vez que a ministra de Relações Institucionais, ideli Salvatti, está enfurnada em tentar apagar os incêndios no Congresso.
Por falar em incêndios…
A impressão que se tem entre os políticos — por enquanto, registre-se, é apenas uma impressão — é a de que a presidente Dilma não deseja reunir os governadores com medo de ouvir apenas queixas e pedidos de recursos. O problema, entretanto, é que passou da hora de o governo federal tratá-los como parceiros e não pedintes. E isso, na avbaliação de muitos governadores ainda não foi possível perceber nesse período do governo Dilma.
Não por acaso, os governadores de estados da região Sudeste — Antônio Anastasia (Minas Gerais), Geraldo Alckmin (São Paulo) Renato Casagrande (Espírito Santo) e Sérgio Cabral (Rio de Janeiro) — fizeram aquela reunião na última quinta-feira. Dali, tiraram um princípio fundamental para levar aos demais estados: Não perder receita.
A ideia discutida ali foi deflagrar um movimento para barrar toda e qualquer proposta que represente queda de arrecadação para muitos estados. O projeto de resolução 72, que tenta barrar incentivos com o ICMS de produtos importados terá um impacto forte na contabilidade capixaba. Lá, desde 1971, as empresas têm uma parte do imposto revertida em empréstimos a juros subsidiados. O estado arrecada com esse dispositivo R$ 400 milhões. Outros R$ 600 milhões são divididos com municípios. Com a mudança, as empresas que hoje estão no Espírito Santo, diz o governador, vão para São Paulo, onde não terão mais o custo de transporte dos produtos para o centro consumidor. E certamente, haverá desemprego entre os capixabas, além da perda de receita.
Por falar em receita…
Hoje, váiros governadores estarão no Congresso para discutir esse assunto da receita do ICMS. Se não conseguirem sensibilizar o governo federal, vão levar o tema às bancadas separadamente. Há tempos, o Congresso não vive uma temporada em que os governadores tentam sozinhos impor sua vontade. Mas, dada a confusão na base da presidente Dilma Rousseff, talvez encontrem terreno fértil para fazer valer as suas propostas, desafiando os poderes do PlanaltoMais um problema para a presidente Dilma administrar.
Por falar em problemas…
Pegou mal a declaração do líder Eduardo Braga (PMDB-AM) sobre o fim do toma-lá-dá-cá. Para muitos políticos, ficou a leitura de que no governo Lula era assim e no primeiro ano de Dilma também. Quanto ao PR, hoje vai ter muita gente no partido defendendo o voto favorável à Lei Geral da Copa,. Como forma de recolocar um pezinho na base governista. De quebra, o PMDB vai tentar trabalhar para votar o Código Florestal ainda esta semana. Sabe como é, quando um assunto desgasta a popularidade da presidente e faz com que ela precise dos partidos, todos os interessados tratam de balançar a árvore. Juntando com os governadores, leitor, esteja certo de que está terça não é carnaval, mas é terça-feira gorda.
Se a presidente não entregar obras e serviços à população e deixar cristalizar o sentimento de que o país não caminha a contento, aí sim, ela terá um grande problema
Ninguém perde ao avaliar como as coisas se sucederam no passado para entender o presente e o futuro. E nem precisa ir tão longe assim. Basta remontar ao primeiro mandato do ex-presidente Lula. Naquela época, com o PT exaurido pelo mensalão, Lula tirou José Dirceu da Casa Civil e colocou no lugar aquela que, entre seus ministros, via com maior capacidade de tocadora de projetos. Assim, nasceu a hoje presidente Dilma Rousseff e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Qualquer confusão na área política, ele mesmo resolvia. Na área técnica, chamava Dilma. Ao ponto de ser comparado a Fred Flinstone, personagem famoso do desenho animado que sempre grita Viiillmmaaa! Apagão por conta da chuva, Minha Casa Minha Vida, transposição do São Francisco, hidrelétrica, saúde da família, bolsa família, bolsa de estudo… Tudo ele chamava Dilma para resolver. E sempre passou à população a impressão — na verdade, a certeza (senão ela não teria sido eleita) de que a ministra dava conta do recado. Não por acaso, em 2009, lá estava ele, com Dilma pelo braço como a mãe do PAC, cortando uma faixa de inauguração de casa, visitando canteiro de obra, posando na plataforma da Petrobras. A percepção era a de que o governo pulsava.
Por falar em pulsar…
Vejamos a situação de hoje: No plano político, não se vê a presidente criando soluções. A troca dos líderes, feita para refrigerar a base, prestigiou quem se sentia fora do governo, mas ainda não mostrou a que veio. O primeiro movimento de Arlindo Chianaglia, a Lei Geral da Copa, criou mais confusão do que soluções à base. E olha que ele ainda nem mexeu com o Código Florestal.
No plano da gestão governamental, faz-se malabarismos para ver a presidente Dilma Rousseff visitando uma obra que esteja dentro prazo, com recursos liberados a contento. Dentro do Planalto, tudo é feito de forma silenciosa, não se sente o governo pulsando.. A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, só aparece nas solenidades oficiais servindo de moldura à presidente. É praticamente invisível ao grande público.
Por falar em grande público…
Num país tão grande como o Brasil e tão embalado pela TV, os movimentos atabalhoados do governo na seara política não representam grandes riscos e podem ser resolvidos de forma positiva para o Planalto por causa da popularidade da presidente junto ao eleitorado. Ninguém vai mexer com quem tem 80% da população ao seu lado. Mesmo na seara do gerenciamento de governo, a sensação de paralisia ainda não chegou ao povão. Por enquanto, está confinada na indústria, na classe política, nos governadores e nos jornais.
Os jornais estão fartos de reportagens sobre o país devagar quase parando. No último Sábado, uma notícia preocupante estava estampada na página 14 do Correio Braziliense: A oferta formal de empregos em fevereiro deste ano caiu 56,6% em relação a fevereiro de 2011. Mais um sinal forte da desaceleração da economia. E é aí que mora o perigo.
Brasileiros sem emprego, uma hora ou outra podem jogar suas frustrações na conta do governo. Isso somado ao fato de a presidente não entregar obras e serviços à população, faz cristalizar o sentimento de que o país não está caminhando a contento. E se isso ocorrer, aí sim ela terá um grande problema. Isso porque, são nessas horas de estagnação que a vem a queda da popularidade. Foi assim, por exemplo, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002. Na hora em que crise bateu à porta, a política desandou e a popularidade escapuliu pela janela.
Por falar em política…
Paralelamente aos cuidados com as obras e a economia, que, com razão devem ser a prioridade de Dilma, é preciso que ela escolha grupo de políticos para prestigiar em todos os partidos. Senão, na hora em que vier um solavanco mais forte, não terá ninguém por ela dentro do Congresso. Até o momento, ela demonstrou desprezo pelos líderes tradicionais do PMDB, que perderam a liderança do governo, do PR, que não têm ministério, e da ala majortária do PT, que perdeu o cargo de líder da bancada. Dilma tem todo o direito de mudar e escolher seus líderes, mas ocorre que, ao desprestigiar uns, é preciso colocar no lugar quem faça a diferença no jogo político o que até agora não aconteceu. Pelo menos, os primeiros movimentos dos líderes Eduardo Braga e de Arlindo Chinaglia ainda não levaram a impressão de que ficará tudo bem no Congresso.
Há quem acredite que, ao mudar os líderes governistas, a presidente terminará deixando explícito que o problema da articulação política é no Planalto. Daí, as pressões pela troca de Ideli Salvatti, com quem, como já dissemos aqui, Dilma não irá mexer nem tão cedo. Portanto, ou a presidente Dilma se convence que precisa ser mais sensível na seara política e faz o que Lula fazia, ou escolhe um grupo com trânsito na maioria para fazer esse papel junto com Ideli. Afinal, se a economia salva os votos, é a política que salva a pátria e, por tabela, o governo, quando a economia falha.
Imagine, leitor, Dilma anunciando com sua voz grave que trabalha por um Brasil grande e o PMDB de Renan Calheiros, o PTB de Roberto Jefferson e o PR de Valdemar Costa Neto puxam-lhe o tapete. Com quem você acha que o povo ficaria?
Muito se falou nas últimas 24 horas sobre os alertas que o senador Fernando Collor (PTB-AL) fez no Senado, ao dizer que a presidente Dilma Rousseff incorre no mesmo erro que ele ao desprezar os políticos tradicionais. Vale, entretanto, colocar as declarações do ex-presidente no devido contexto históricos.
Para começar, Collor tinha um partido pequeno, construído em cima das benesses do poder. Dilma tem um partido grande, o PT. Embora uma parte expressiva do partido esteja inconformada com a destituição de Cândido Vaccarezza (PT-SP) do cargo de líder do governo na Câmara, os petistas não vão atear fogo às vestes permitindo que a situação chegue ao ponto de tirar a presidente do cargo para colocar o vice, Michel Temer, do PMDB.
Segundo, vejamos a população. O prestígio de Collor estava em frangalhos quando ele caiu. Isso porque, paralelamente às denúncias de corrupção e à saraivada de contas fantasmas gerenciadas pelo finado Paulo César Farias __ o tesoureiro da campanha collorida __ todos os planos econômicos fracassaram. A decepção se deu logo na largada, com o confisco da poupança. Dias antes do impeachment, Fernando Collor chamou os brasileiros às ruas para apoiá-lo. Na TV, conclamou todos a sair de verde e amarelo em defesa de seu governo. O Brasil se vestiu de preto. Precisa dizer mais?
Por falar em TV...
Imagine, leitor, Dilma na TV hoje pedindo apoio à população porque os políticos tradicionais boicotam seu governo. Ou Dilma anunciando com sua voz grave que sonhou com um Brasil grande e o PMDB de Renan Calheiros, o PTB de Roberto Jefferson e o PR de Valdemar Costa Neto não deixam, puxam-lhe o tapete para retomar o poder. Com quem você acha que o povo ficaria? Dilma, ao tirar Romero Jucá (PMDB-RR), expôs os políticos tradicionais. A classe política está em baixa e a situação não vai melhorar se, daqui para frente, eles inventarem motivos para derrubá-la ou inviabilizar o crescimento econômico.
É certo também que a presidente não pode levar tudo ao estilo “faca na bota” como se diz no Rio Grande do Sul, onde ela fez política. À presidente, cabe resolver diferenças pelo diálogo, de forma cordata e afável. Bater, sem machucar. Ao mesmo tempo, não é possível ceder a tudo que os partidos desejam. O PT, por exemplo, não tem por que brigar. No saldo de Ministérios ainda é o grande vencedor. Não perdeu um milímetro sequer nessa dança das cadeiras, à exceção, é claro, da luta de tendências em São Paulo __ considerado o centro dos males petistas e tucanos.
Por falar em centro dos males...
Ontem, não eram poucos os políticos que citavam a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, como a grande responsável pela maioria das tensões que vive a base governista. Mencionavam como tropeços a retirada da venda de bebidas alcoólicas do texto da Lei da Copa (ontem o governo voltou atrás), a forma como ela tratou o PR na conversa de quarta-feira com o senador Blairo Maggi (MT) e, ainda, as reuniões sobre o Código Florestal.
No Planalto, há quem diga ser bom lembrar que Ideli não dá um passo sem ordem da chefe. Portanto, só sai se não houver alternativa. Dilma teria que estar pra lá de emparedada para tirá-la, o que não é o caso. Os palacianos chamam a atenção ainda para o fato de Dilma ter sido politicamente forjada na guerrilha, nos porões da ditadura onde a lealdade aos companheiros valia preservar-lhes a vida. Não é de seu feitio abandonar quem lhe é leal, nem deixar companheiros pelo caminho. Talvez seja obrigada a mexer na coordenação mais à frente. Mas não o fará agora, nessa fogueira. Ela sabe que outras virão.
