1975. Na época eu ganhava a vida fazendo teatro para crianças. Adaptei para o palco o conto "O Anão e a Fiandeira", dos Grimm: O soberano de um reino falido ouve basófias de um sapateiro: "Minha filha é tão habilidosa que pode transformar palha em ouro." Convoca a donzela ao seu palácio e diz: "Se você não transformar esse paiol de palha em ouro, enforco seu pai". Desesperada e trancada no paiol recebe a visita de um duente chamado Rumpeltistekin. Como todo duente é meio sacana, ele faria palha virar ouro com a condição de ficar com o primeiro filho da moça que se casaria com o rei. Sem saída ela faz a promessa. Tudo se passa como previsto. Casada com o rei, dalí um ano tem um filho que é reclamado pelo duende sacana. Chora que chora, ele concorda em abrir mão do filho se ela descobrir o seu nome. Um nome danado, não concordam? Rumpeltistekin. Ao final de muitas buscas e peripécias ela acaba descobrindo e o duende se vai fulo de raiva. Bate o pé no chão com tanta força que a terra se abre e ele desaparece nas profundezas.
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Pois na adaptação coloquei dois personagens risíveis, um ministro das finanças bêbado e um chefe de segurança robótico. Eles davam uns pitacos, discutiam umas bobagens. Malandragem de dramaturgo pra divertir as crianças, pois um bêbado e um robô propiciam boa comicidade. E fomos apresentar o ensaio geral para a Censura.
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Funcionava assim: a gente mandava o texto pro Departamento de Censura Federal. Eles liam, marcavam o que podia e o que não podia e depois assistiam o ensaio geral. Sentavam-se três censores no teatro e passávamos toda a peça. Ao final davam o veredicto.
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__ Seu personagem bêbado é uma crítica ao ministro Mário Henrique Simonsen.
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Resultado: "O Duende e a Fiandeira" foi proibido para menores de 18 anos.
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Adeus, crianças. Adeus, temporada. Foi um baita prejuízo. Mas devo confessar que os dois personagens eram mesmo uma metáfora. Tinha veneno mesmo.
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Hoje, depois de tanto tempo, gente que ficou caladinha, anda falando de censura como se houvesse.
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O Estadão teve a cachimônia de dizer que está sob censura. E a corporação apoiou. E pensar que naqueles idos de chumbo todo jornalão ficou gostosamente censurado. Tempo atrás um deputado que ficou bem caladinho à época da ditadura disse que dava uma surra no presidente. Ai, que gostosura. Queria ver alguém falar que dava uma surra no Médici, ou chamar o Geisel de carola.
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Hoje é fácil, hein rapaz?
A presidência da república criou um blog: http://blog.planalto.gov.br/
Dizem que é o Blog do Lula.
Mas nem blog é.
O que caracteriza um blog é a interatividade. O titular deixa lá suas escritas e os leitores comentam.
Pois bem, no blog do Lula não há como deixar comentários e não é ele mesmo quem escreve.
Por conta disso recebe muitas críticas, inclusive esta.
Blog que não aceita comentários devia se chamar Púlpito. De cima dele o padre prega, sermoa, aconselha, abençoa e ninguém diz nada.
Os portais podiam fazer esta distinção.
Quem não quiser comentários faz um Púlpito ao invés de um Blog.
Pode se expressar à vontade sem ninguém para aporrinhar-lhe a paciência, mas não se chame blogueiro.
Isto não quer dizer que os blogs são exemplos de democracia.
Há blogs muito cabulosos, blogs censores.
Exemplo, o jornalista Ricardo Noblat: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/
Este blog aceita comentários, mas só publica aqueles que concordam com a opinião dele. É um blog “Sim, senhor”. Censura o contraditório.
Eu, por exemplo, estou censurado lá.
Censura acontece em muitos outros blogs.
Acontece no Josias (http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/ ), no Alon (http://www.blogdoalon.com.br/ ).
Cito estes como exemplos, pois são jornalistas que nos próprios posts dizem-se defensores da liberdade de expressão.
Mas Ricardo Noblat, Josias de Souza, Alon não são blogueiros de verdade, não merecem esta denominação.
Deveriam estar num Púlpito onde não seriam contrariados em suas opiniões.
Não estou dizendo que o blogueiro deve aceitar todos os comentários.
Infâmias, xingatórios, agressões, palavrões, ofender mãe, calúnias devem ser mesmo destinados ao lixo.
Mas o contraditório deve ser aceito.
É a lei máxima não expressa da blogsfera: a Lei do Contraditório, ou a Democracia na Expressão.
Os que não agem de acordo com ela deveriam ir para o Púlpito.
Miriam Leitão (http://oglobo.globo.com/economia/miriam/ )tem muitos posts criticados, mas não censura nenhuma das críticas. Aceita ironias, fortes contraditórios e publica todos.
Eu não concordo com a maioria dos artigos que ela publica, mas ela nunca censurou nenhum dos meus comentários.
Miriam é um exemplo de blogueira que expõe o que pensa e aceita o contraditório.
Miriam é blogueira de verdade.
Merece ser blogueira.
Agora o presidente do meu time – Cruzeirão véio de guerra – o negociante Zezé Perrela, criou o seu blog: http://www.dzai.com.br/1921/blog/zezeperrella
Todos os comentários que o parabenizam, elogiam sua opinião ou concordam com ela são publicados. É mais um Blog “Sim, Senhor” ou Blog “Parabéns”. Os contraditórios são censurados.
Zezé Perrela foi deputado pelo PFL, tem pedigree daqueles que apoiaram a censura durante a ditadura – a pestilenta Arena, depois PDS, depois PFL, agora DEM - não é blogueiro.
Não respeita a lei da blogsfera, deveria ir para o Púlpito.
Toda criança tem energia sobrando, né? Quando fica muito quieta, vai saber, ta doente. Do corpo ou da alma.
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“Esse menino tem parte com o capeta!”, desesperava-se minha tia Lurdinha, coitada, quando me pegava pulando da ponte sobre o rio Paraopeba nas águas crescidas da enchente das Goiabas.
Na escola levava cocão, puxão de orelhas, varada nas pernas. Quase todos levavam, tirante umas garotas e o Bené, rapaz mais velho e quieto, que morava na roça, era preto e muito tímido. Depois dona Neusa, a professora, contava pro meu pai e ele dizia: “Pode bater, na escola a senhora é a mãe dele.” Chegava em casa e ainda levava uns tapas.
Com tudo isso, fui um dos melhores alunos, orador da turma, e lembro com um misto de riso e saudades das travessuras, das reprimendas, de dona Neusa.
Só me arrependo de ter subido na mangueira que havia no portão do Grupo Escolar e mijado na professora substituta, dona Maria Helena, moça bonita, que ensinava história e dizia Telemacho. Era o grego Telêmaco, mas como a grafia vinha “Thelemacho” ela se atrapalhava.
No dia seguinte meu pai me levou à escola, arrastado pela orelha esquerda, meio que pendurado, andando na ponta dos pés, com as pernas marcadas de vergões de tanta varada que mãe teve de banhar depois com água e sal.
O coração me aperta quando imagino, hoje, a humilhação que deve ter sido pra ela. Nunca me disse uma palavra depois daquilo. Não me bateu, não deu parte à diretora, não reclamou quando a meninada ria às escondidas. Isso acabou comigo. Quando a encontrava , me encolhia, queria ficar invisível. Coragem pra me desculpar, nunca tive.
Virei outro, não totalmente, mas tomei por hábito avaliar meus atos antes de executá-los. Dei de ser menos aparecido.
Na formatura, nosso paraninfo foi o professor Antônio Lara, pai do Otto Lara Rezende que, após a solenidade me chamou de banda e me entregou um livrinho: “O Caçador sem Medo”, uma adaptação para crianças do Guilherme Tell, de Schiller.
Dentro havia uma dedicatória de dona Maria Helena me desejando sucesso na vida.
Olhei amedrontado a ver se ela estava presente.
Não estava.
Em 1958, no dia da decisão do mundial da Suécia, eu me escondi no fundo do quintal quando tomamos um a zero. Minha mãe foi me buscar lá, toda sorridente, quando empatamos. Uma alegria só! Imensa! Borbulhante! Lembro de enfiada e decorado o time todo: Gilmar, De Sordi (Djalma Santos que entrou na final) e Belini; Nilton Santos, Zito e Orlando; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Assim era dada a escalação. Torci muito e vibrei também em 62, chorei com o fracasso de 66 na Inglaterra. Daí por diante meus sentimentos pela seleção foram se diluindo. Em 70, mesmo com Tostão e Piaza que jogavam no meu Cruzeiro, senti um alheamento. Saldanha tinha sido posto pra fora, o Médici dava palpites, o Zagalo e os dirigentes acatavam, os jogadores ficavam de bico calado, meu tio Paulo estava preso e sendo torturado, eu mesmo andava com muitos medos. E como aquela gente que eu não gostava se derretia pela seleção, eu ia fazer par com eles? Ia é nada. Torci por dentro, quieto, acanhado.
Daí por diante, deixei de lado a seleção e não sei quando esse afastamento se transformou em antipatia, nem quando esta antipatia pela seleção brasileira se transformou em antipatia por todas as seleções.
Cada seleção é a seleção da Liga do país, como a brasileira é da CBF e dos seus interesses mercadológicos, revestindo-se de um patriotismo que os cronistas mais lúcidos tentam disfarçar. E toda mídia faz uma força danada para reanimar uma paixão que, suspeito, já subiu no telhado há muito tempo. Restam somente os negócios, negócios.
Agora estão incentivando este Brasil e Argentina. Vai render boa audiência. Os negociantes vão ganhar bom dinheiro.
Pelo Cruzeiro ainda carrego umas farinhas de paixão, não sei se duradouras. Ele se transformou, também, num balcão de negócios.
FUTEBOLÊS
Rapaz, as metáforas guerreiras, médicas e policiais ditas e escritas por narradores e jornalistas esportivos merecem estudo.
Há caçadas, explosões, bombas, roubos, almas e corações dentro da fantasia dos locutores e cronistas.
Vê só:
E, por fim, “Agüenta coração.”
Não é engraçado? Os locutores conseguem falar diretamente para um órgão.
NO LIMITE: A PESTILÊNCIA
Com o reality show No Limite, a TV Globo procura alcançar níveis de audiência gigolando instintos primários de seu público televisivo. Um apresentador bronzeado e com cara de bom moço latino incita os participantes – moças e rapazes bonitos – a práticas saídas de ferozes latrinas criativas.
É boa praça e carismático.
“A mocinha terá de triturar um peixinho vivo com os dentes e comê-lo em seguida”.
“Será que tem coragem?”
Dentro de um cenário de paraíso tropical – verdes, areia e mar – leva-se a cabo a luta por pontos contra outra porcaria televisiva exibida pela TV Record.
Os rufiões bonitinhos – moças e rapazes escolhidos a dedo – formam-se em bandos para cometer as miseriazinhas ferozes propostas como desafios.
As câmeras da TV Globo enfiam-se nos escabrosos detalhes.
Um pinto mastigado ao deixar o ovo.
“Quem vai comer?”
O resultado são pontos do Ibope recolhidos à audiência alimentada com realismo e pestilência.
A TV Globo e as demais emissoras, não só no Brasil, têm, isto não se pode negar, clara consciência de seus deveres para com o público e procura cumpri-los da melhor maneira, nunca os decepciona. Serve-lhes doses diárias de beleza cenográfica, ações asquerosas e rasas reflexões.
No horário várias vezes apregoado na própria TV (também na internet, em jornais de papel e out doors) os brasileiros ligam seus aparelhos no canal como viciados reunidos numa cracolândia eletrônica e divertem-se com as perversidades.
São homens e mulheres, velhos e jovens que em outras horas também apreciam estupros, mortes, assaltos e se comovem com os benefícios do Criança Esperança, depravando-se gostosamente.
A culpa é toda da TV?
Acredito que em parte, pois ela delinque ao se esmerar no serviço da embalagem que exibe as experiências mais degradantes e asquerosas como supra sumo da diversão onde os pequenos rufiões que participam da trama, criam-se em passageira fama, tornam-se referências de comportamento. Degradam-se e tornam-se heróis da cultura global.
E os demais? Aquele bando de outros tristes rufiões pervertidos que grudam-se às telinhas, comentam seus atos e dão-lhes pontuação extraordinária nos índices de audiência.
Nenhuma culpa lhes cabe?
Talvez.
À sua frente está a miríade de sombras na caverna pestilenta.
A vida está ali.
E nós a admiramos.