Cultura em cena


Quarta-feira, 21 de março de 2012 04:12 pm

Gil e sua camerata pop

Por Adriana Amorim, Sérgio Vilar e Edilson Braga
publicado originalmente no Diário de Natal em 21 de março.

Entrevista // Gilberto Gil
"A pirataria é uma denominação genérica a algo que representa tantos fenômenos"

Gilberto Gil vem aí e, com ele, seu show de 2010 que Natal ainda não teve a oportunidade de assistir. Será no dia 31 deste mês, no Teatro Riachuelo. E vem com ele uma harmonia ainda mais completa, ao lado do filho Bem Gil e do maestro Jaques Morelenbaum, convidado especial para o projeto Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo. Com eles, outros dois grandes nomes se misturam ao show pop com elementos eruditos: Nicolas Krassik, herdeiro da famosa tradição francesa de violinistas de jazz dedicado a música brasileira, e o percussionista Gustavo di Dalva, que aos 15 anos já acompanhava Gil. O concerto surgiu depois que Gil convidou seu filho, o guitarrista Bem Gil, para juntar-se a ele no aclamado show de voz e violão Gil Luminoso em 2006 e de gravar com ele o álbum Banda Dois em 2009. E, com as máquinas de ritmo, o espetáculo caminha na fluidez do movimento do encontro entre o moderno e o antigo. São canções conhecidas do público e apenas uma inédita, o que promete bons momentos de nostalgia, mas com uma pegada clássica, revelando mais um aspecto da versatilidade de Gil. No auge de seus 69 anos de idade, o ex-ministro da Cultura falou ao Diário de Natal um pouco sobre um muito, sobre cultura, arte, política, direitos autorais, pirataria e até mesmo Natal, cidade que lhe traz à lembrança velhos amigos como Chico Miséria e Dora Cortez, sem falar dos sabores e lugares, nos idos anos 1980. Tal como o show que já percorreu o Brasil e diversos países, a entrevista vem carregada de nostalgia, crítica e, sobretudo, de um olhar revolucionário.

Qual o critério para montagem do setlist do show? Você analisou quais canções estariam mais aptas ao formato mais acústico proposto?
A ideia do show em si passou por várias etapas. A primeira, há seis anos, com meu filho Bem Gil; a segunda, com a gravação de Banda Dois, em 2009. Já no terceiro ou quarto anos associados, veio o violoncelo de Nicolas Krassik, rendendo essa concepção de "concerto de cordas". Depois, o Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmos teve a adição de dois músicos. E o repertório herda os dois projetos anteriores e acrescenta uma canção inédita.

Com arranjos construídos por Bem Gil, seu filho, suas músicas soaram mais
modernas depois?
Não sei dizer se trata-se de uma questão de modernização. É como se fosse uma camerata pop, unindo música clássica com pop. Usaria o termo "camerístisco", já que o projeto traz a formação de música de concerto, erudida. E usaria o termo "camerata popular", já que são canções com versões de música popular, apostando um desejo mínimo de contemporinização dessas canções, dessas versões.

Caetano também tem procurado se renovar em parcerias com Maria Gadú ou novos arranjos em canções para Gal. De certa forma os últimos álbuns de Chico Buarque também parecem descompassados com sua trajetória. É uma forma de perpetuação musical de vocês?
É o meu trabalho, que se refere a todos os estágios anteriores presentes. Creio que seja um fenômeno da música popular isso que você mencionou, mas não posso deixar de compreender a minha visão. A leitura que faço de como se movimentam os agentes realizadores parte do que se vivencia no decorrer das  gerações e de todos elementos aí inseridos. De alguma forma, também se espelha no que eles fazem. De alguma maneira, há uma certa produção semelhante. E tem a forma de atualização, de dizermos como somos hoje, o que fazemos agora, de alternativas. Faço muita coisa, vários projetos, como o Banda Larga Cordel, que foi, de certa forma, uma retomada da música nordestina. Depois outros dois projetos. Estou sempre me movimentando, circulando, em busca de uma herança tranquila do que recebo do trabalho anterior, seja como compositor, como intérprete, é tudo isso, sempre focando no novo momento. De certa forma, é um modo de manter o desejo de decorrência de tudo o que foi feito.

Por falar em elementos, você traz referências dos shows que você apresenta fora do país?
Os festivais, de uma maneira geral, misturam música popular, jazz, folk, música africana. Não tem como não absorver experiências com eles, assim como levo colaborações a vários. São mais de 35 anos indo e vindo. Muita coisa volta para casa com a gente, interações que são estabelecidas, estímulos que são proporcionados. E a gente leva muita coisa também, fragmentos, elementos, experiências.

Quando virá um CD de inéditas seu?
Não faço ideia. Não tenho intenção, no momento, de formar repertório de inéditas. O que tenho feito para mim é parcial, vou registrando em celular, são embriões, melodias, ritmos, ideias. Bases experimentais para a criação de canções. Não tenho me dedicado a finalizar canções. O que fiz foi para Rita Martnália, Preta Gil, cerca de quatro ou cinco canções nos últimos meses.

A música tem ganhado a velocidade inerente aos dias atuais? Ela tem sido cada vez mais efêmera ou válida apenas por um carnaval?
Depende muito do ponto de vista do que se queira olhar, observar a criação, o fenômeno da criação. A música para abastecer o circuito de rápido consumo é algo que toma conta do Brasil. A música pop é feita para tocar no rádio, nas casas, nos computadores, telefones celulares, nas baladas, na noite. Tudo isso é o carnaval. A música que prevalece é muito direcional, propositada, mas, ao mesmo tempo, existe uma quantidade grande de experimentalismo, variações com fragmentos de várias linguagens, gente experimentando novidades. Quando se refere a música popular, devemos ver o mercado internacional, que mistura híbridos. E tudo isso se popularizou muito através do mercado de reprodução, difusão, televisão, canais direcionados, produção, programas de concursos de todos os lugares, disco que se desdobra, a música eletrônica e, claro, da internet.

Falando em experimentalismos, a geração de artistas da qual você se insere imaginava que existiria esse processo de criação infinito? Em algum momento, se achava que o processo criativo se esgotaria?
Sempre se soube que viria mais e mais. Esse era o desejo que estava na ideologia de quem fazia música nas decadas de 1960, 1970, 1980. Sempre se enxergou a sociedade e suas complexidades sociais e econômicas. Era o desejo de autores e intérpretes que trabalhavam nessa perspectiva. Por outro lado, a máquina produtora que dava sentido a isso também respondia e sempre aperfeiçoando sua maneira de produzir. Essa forma de produção, tal como acontece hoje, sempre foi muito desejada. E os agentes mantiveram esse desejo, a importância da música no entretenimento, na formação de uma cultura contemporânea. Uma coisa que transborda, um processo civilizatório. A música é um aparato importantíssimo.

Em 2008, você foi primeiro artista brasileiro com um canal exclusivo no YouTube. Como é sua relação atualmente com a internet?
Na internet, sou um observador autônomo, independente, sou um entusiasta, busco formas de compreensão cada vez mais agudas. Na internet, conflitos, lutas e choques de interesse são amplificados. Por outro lado, sou um consumidor. Sou um barco na internet. Uso pouco para troca de informação, mas utilizo para acessar sites de músicas, blogs relativos. Como consumidor moderno, sou atento e interessado.

Como avalia o Ecad e toda essa questão dos direitos autorais?
O Ecad é uma instituição que vem do tempo da hegemonia da cultura analógica, da teledifusão, que representava grandes produtores de música que criavam produtos para milhões de consumidores. O Ecad vem dessa cultura da centralidade da difusão. E, portanto, é modelo que defronta com o ciberespaço, de reprodução de cópias e produção, quando milhões de consumidores estão consumindo milhões de produtos. O mundo hoje vivencia a blogosfera, a possibilidade de conexão a partir do celular, de câmeras portáteis, enfim, da rápida acessibilidade. Então, são questões que precisam ser reavaliadas, a questão da autoralidade, da remuneração do autor, o que é o autor hoje em dia. Não é o Ecad simplesmente, mas todas as instituções que representam os direitos autorais, todas se confrontam com essa hiper-abundância. E tem todas as dificuldades de interpretar, estimular novos modelos de negócio, de admitir uma certa flexibilidade, toda essa ideia de compartilhamento e da "pirataria", como alguns preferem chamar.

Sobre o que se chama de "pirataria", qual o significado disso para você, enquanto artista?
São múltiplos significados. Para alguns, é uma ameaça aos objetos e produtos culturais, às formas culturais, como no caso do disco, do livro, dos objetos convencionais. No outro aspecto, a pirataria é outra coisa, não é apenas a reprodução digital de cópias com acessibilidade múltipla, e que não pode ser vista como pirataria. É o hiperativo da própria criação do mercado, decorrência da circulação e como ela se dá hoje em dia. Não pode culpar a invenção do avião pelo seu uso militar. E há ainda uma terceira dimensão, a da desobediência civil. A pirataria, nesse contexto, se assemelha aos movimentos sociais como Ocupy e MST, que reivindicam a divisão das fronteiras, que almejam uma mudança na divisão da riqueza simbólica. E quando se permitem algo o fazem no sentido da desobediência civil. Então, a pirataria é uma denominação genérica a algo que representa tantos fenômenos.

Não dá pra fugir do assunto político quando Gil já foi ministo da Cultura. Você classifica a gestão de Ana de Hollanda como de continuidade ou renovação?
É uma outra visão, outra gestão, com outra intervenção governamental, que traz para a pauta do ministério outras questões que acompanham a modernidade. E é uma gestão que é acompanhada pela sociedade e de todas as cobranças feitas. Existe uma insatisfação nessa pauta. Durante a minha gestão, minha pauta satisfazia.

Recentemente, um grupo de intelectuais publicizaram uma carta pedindo a saída da ministra. O que você achou do gesto?
Acho que eles tinham lá suas razões e manifestaram suas iras.

Se, por acaso, você fosse convidado novamente para chefiar o MinC, aceitaria?
Não.

Por quê?
Porque não quero, não tenho vontade nenhuma de me dedicar a um projeto de gestão pública.

Até que ponto o cargo de ministro da Cultura atrapalhou o trabalho do compositor e cantor?
Não vejo que atrapalhou. Tive o cuidado, de certa forma, de preservar meu trabalho como artista. Me permitia licenças periódicas que me eram autorizadas dentro da regra. Durante esta fase, dois discos foram gravados: Etroacústico, que foi premiado pela Acacemia Americana com o Grammy, e Banda Larga Cordel. Ainda compus com Jorge Mautner e outros parceiros. Então, não houve interrupção. Mantive minimamente abastecido meu fã-clube e minhas composições.

O ministério lhe deu a percepção do quanto o artista brasileiro é carente de incentivos governamentais?
Sim. Fiquei muito mais familirizado com a questão, com a ausência de expansão, de atenção governamental para o âmbito da criatividade brasileira e dos setores excluídos. E tudo isso com olhos mais vivos, o que se pode fazer e o próprio convívio. As representações nos fóruns internacionais também me obrigavam a apurar um discurso, uma palavra sobre o Brasil. O MinC foi um momento enriquecedor nesse sentido.

Você hoje iria às ruas para protestar contra o governo por não ter uma política voltada para a cultura?
Não sei se é preciso ir às ruas. A disposição fisica para uma pessoa mais velha já não enxerga a rua dessa maneira. E não precisamos ir somente às ruas para protestar. As ruas estão internacionalizadas nos circuitos da vida jornalística, da imprensa, das redes sociais. De casa mesmo você acessa a rua, cria a rua através de blogs, sites, cartas ao leitor. Sendo assim, sim, continuo propenso a ir às ruas.

Só para fechar esse assunto político, algum recado a Jair Bolsonaro?
Não (risos). Ele já tem lá seu debate com a Preta (Gil). A família está bem representada!

Você fez show em Natal há cerca de três anos. Se existe, qual sua ligação com a cidade?
Gosto muito de Natal. Durante anos, durante as excursões pelo Nordeste, sempre passava por Natal, onde fiz muitos amigos. Lembro muito de Chico Miséria e Dora Cortez, companheira de trabalho por muitos anos. Tenho lembranças boas de Ponta Negra, na casa de amigos. A comida, a macaxeira, a carne de sol, as idas a Mossoró, as águas quentes. Tenho boas recordações.

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Quinta-feira, 08 de março de 2012 04:35 pm

Dia Internacional da Mulher

Por Mônica Costa, jornalista

 

Vai, corre menina

Você precisa saber o que vai ser quando crescer

Estudar química, física, a fórmula de báskara

X é igual a mais ou menos b2? Os dois

Ufa! O funil do vestibular é passado

 

Vai, corre menina

Estudar ética, os caminhos da universidade

Os encantos da profissão

Um universo de sentimentos

Os amores, primeiros

É preciso entrar no mercado de trabalho

Um estágio, um projeto, a efetivação

 

Vai menina, corre

A colação de grau, o adeus

A juventude passando pela janela

O amor entrando pela porta

O casamento, os filhos

A onipotência da maternidade

O sentimento de ser mulher maravilha

 

Vai mãe corre

A creche ou a babá?

A dor do leite se perdendo no peito

A dor do leite se acabando no peito

O filho na escola, o horário de entrada, o choro da ausência

Como ser criativa e produtiva no primeiro dia de aula do filho?

Ele aprendeu a ler

Ela já não precisa de rodinhas na bicicleta

Ele quebrou o braço no jogo de bola

Ela vai começar um intercâmbio no Japão

 

Vai senhora, corre

O mercado de trabalho é ágil

Novas tecnologias, transculturalidades, multidisciplinaridades

Estudar, aprender coisas novas

Ser avó e ser gostosa

Comemorar 30 anos de casamento como se cada dia fosse uma lua-de-mel

 

Vai, senhora. Corre

Prestar atenção às taxas

De juros, de colesterol (LDL e HDL), glicose e triglicerídeos

A obrigação da atividade física

Arrumar aquela bicicleta das crianças

Esquecida na garagem desde que elas tiraram a carteira de motorista

A aposentadoria, um novo adeus aos amigos

O mesmo, dado na colação de grau

 

Vai senhora, ande com cuidado

Preste atenção aos degraus

A osteoporose não perdoa ossos, especialmente os femininos

Daqueles corpos que, um dia cheios de curvas

Vão tornando-se retilíneos, pela falta dos estrogênios

 

Vai mulher, corre

A beleza de ter nascido com duplo X

Não cabe em apenas um dia, mesmo que seja um dia internacional

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