Quarta-feira, 20 de agosto de 2014 04:20 pm

Mais um alemão no circo: quando a justiça é injusta...

Houve um tempo, não muito distante (tá certo, eu adoro começar posts assim) em que, de repente, num meio de temporada, aparecia um piloto com a mala cheia de dólares e tomava o posto de um titular no Mundial de F-1, para o alívio de times médios ou nanicos em dificuldades financeiras. Foi assim que nomes como Giovanni Lavaggi, Zsolt Baumgartner, Tomas Enge ou Robert Doornbos ganharam seus 15 minutos de fama – nada contra os três, que até tiveram trajetórias razoáveis fora do circo – e outros como Antonio Pizzonia, Vitantonio Liuzzi ou Anthony Davidson tiveram a chance de mostrar serviço. Quem sai é obrigado a entender e procurar novos horizontes ou, na melhor das hipóteses, ganha uma chance para retornar mais tarde. E quem entra tenta aproveitar cada minuto do sonho, ainda que seja difícil fazer milagre nestas circunstâncias.

Pois o fim de semana da F-1 na Bélgica, encerrando as já habituais férias da categoria, traz uma situação pouco comum: um craque que tem sua primeira chance, no lugar de outro igualmente talentoso. Porque se há algo que não se pode dizer sobre a oportunidade dada a Andre Lotterer é de que se trata do caso do piloto com a mala cheia.

Depois de ser um dos vários reservas da Jaguar (tem tempo...), o alemão criado na Bélgica que fala um francês impecável e atualmente radicado no Japão certamente já tinha deixado de lado qualquer esperança de um dia... tanto assim que não pensou duas vezes ao ser chamado pela Audi para fazer parte de sua armada nas provas de endurance. Ao lado de Benoit Tréluyer e Marcel Fässler, venceu três vezes as 24h de Le Mans e foi campeão mundial de endurance em 2012 – o detalhe é que Lotterer sempre foi o responsável pela classificação, que exige coragem e talento absurdos. Ainda foi campeão da F-Nippon e disputou uma etapa pela defunta ChampCar. Alguém em sã consciência diria que é injusto?

O problema – e vários internautas já disseram isso – é que aquele a ser substituído, Kamui Kobayashi, mais do que merece continuar na F-1. Basta ver o que disse Sergio Pérez sobre a primeira temporada na Sauber e de como aprendeu com o nipônico. Kamui-San é o tipo de piloto que ganha carisma muito além dos resultados e se torna motivo de alegria geral quando consegue feitos como o pódio em Suzuka'2012, insuficiente para garantir um cockpit no ano seguinte. Tem feito das tripas coração com a Caterham e, ao menos por enquanto, verá as corridas dos boxes – deve voltar ao menos em casa.




         Caterham F1/divulgação

E é praticamente impossível esperar que Lotterer faça algo decente diante das circunstâncias. Por mais que haja simuladores, capacidade de adaptação e improvisação, um F-1 é um animal único, e não são duas sessões de treinos livres suficientes para deixá-lo à vontade, ainda que ele adore Spa. Se conseguir andar à frente do sueco Marcus Ericsson (ele sim não faria grande falta...), terá sido uma façanha e tanto... Se não for sonhar demais (mesmo porque é difícil que a Audi abra mão de um de seus hotshoes ), que tenhamos em 2015 Lotterer e Kobayashi, quem sabe?

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Segunda-feira, 18 de agosto de 2014 04:57 pm

Onde há fumaça, há fogo...

Menos de uma semana depois de a Red Bull garantir os préstimos de Max Verstappen, também conhecido como filho de Jos, não dá para dizer que é exatamente uma surpresa sua efetivação como titular da Toro Rosso em 2015, tornando-se assim o mais jovem piloto da história a estrear no circo e batendo a marca de Jaime Alguersuari – será o primeiro em mais de seis décadas a fazê-lo sem idade para dirigir nas ruas, vejam só. Mas é uma consequência natural do que expliquei no post anterior ("Baby boom nas pistas"). Talvez menos pela idade que, a bem da verdade, assusta, mas pelo fato de que muito simulador e a orientação correta valem hoje tanto ou mais do que a passagem pela GP3, GP2 ou Renault World Series. A atual geração de prodígios não tem qualquer medo ao dar saltos como os do kart à F-3 e dela à F-1 – além de tudo fica muito mais barato, pois se economiza anos e anos de preparação nas categorias de formação.

Por outro lado, a longo prazo, é quase uma sentença de morte para as séries de suporte à F-1, especialmente a GP2. De que adianta pagar US$ 2 milhões por ano para se "aclimatar" às trocas de pneus, à cavalaria abundante e aos procedimentos típicos da F-1, se aparece um menino capaz de queimar todas as etapas e dispensar tamanho investimento? Só me estranha o fato de o holandesinho de 16 anos ser "apenas" o vice-líder do Europeu de F-3 – o francês Esteban Ocon, embora tenha feito trajetória mais convencional, tem, na teoria, a mesma condição de fazer bonito, e também o italiano Antonio Fuoco, protegido da Ferrari, ou seu compatriota e xará Antonio Giovinazzi. Alguém duvida que Max Verstappen, quando de seus primeiros treinos oficiais, em Melbourne, ano que vem, vai se sentir um peixe dentro d'água de cara, com tempos competitivos e tranquilidade de veterano? Volto a dizer que alguns aspectos da formação do filho de Jos me incomodam, especialmente se for verdade (e parece que é) que o pai foi excessivamente agressivo e manteve a disciplina do herdeiro na base dos gritos e coisa pior. O grande teste não será mostrar maturidade para domar 750cv, Kers, ERS e outras coisas mais. O desafio será, pela primeira vez, lidar com um ambiente bem menos "amável" que o familiar, em que tudo era do bom e do melhor; encarar possíveis críticas dos adversários e lidar com a rivalidade de um certo Daniil Kvyat que chegou com 20 anos nas costas, mas sem alarde cavou seu posto com merecimento.

Só para descontrair, um conselho aos pais: arranjem alguma coisa motorizada para seus pequenos com dois, ou três anos de idade, que o velocípede só não basta. Se o sonho é ter um piloto de ponta na família, melhor treinar muito, e desde cedo...

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Sexta-feira, 15 de agosto de 2014 08:14 pm

Agenda animada na telinha e fora dela...

Depois da relativa penúria da semana passada, e ainda à espera que a F-1 conclua as já tradicionais férias e retorne no que é um dos palcos sagrados do automobilismo mundial (Spa-Francorchamps), a agenda da velocidade no fim de semana está mais do que razoável. Parece mentira, mas alguns campeonatos começam a entrar em fase decisiva (a Indy acima de tudo), enquanto outros, como a Moto GP, diante da dominação insolente de Marc Márquez na categoria-rainha, também não demorarão muito até terem sua situação definida. Por aqui, emoção com a Stock Car em Cascavel e a F-Truck em Santa Cruz do Sul...

Internacional

Mundial de Motociclismo: 11ª etapa – GP da República Tcheca (Brno)
DTM: nona etapa - Nurburgring
Auto GP: sétima etapa – Nurburgring
Europeu de F-3: sétima etapa - Nurburgring
Verizon Indycar Series: 13 etapa - GP de Michigan
Nascar Sprint Cup: 22ª etapa - Pure Michigan 400 (Michigan Speedway)
Nascar Nationwide Series: 21ª etapa - Nations Children Hospital 200 (Mid-Ohio)
Nascar Camping World Truck Series: 12ª etapa - Careers for Veterans 200 (Michigan Speedway)
Sul-americano de F-4: terceira etapa – El Pinar (URU)
Europeu de Rali: Barum Rally Zlin (TCH)

Nacional
Brasileiro de Stock Car: sexta etapa – Cascavel (* rodada dupla)
Brasileiro de Turismo: oitava etapa – Cascavel
Brasileiro de F-Truck: sexta etapa – Santa Cruz do Sul (RS)
Copa São Paulo Light de Kart: sexta etapa – Granja Viana

Na telinha
Sábado (16)
8h25   Motociclismo: GP da República Tcheca (treinos oficiais)          Sportv 2
13h30 Nascar Camping World Truck Series: etapa de Michigan         Fox Sports 2 
14h     Brasileiro de Stock Car: etapa de Cascavel (treino oficial)       Sportv
15h     Nascar Nationwide: etapa de Mid-Ohio                                  Fox Sports 2

Domingo (17)
7h15  Motociclismo: GP da República Tcheca (treinos oficiais)          Sportv 2
11h    Brasileiro de Stock Car: Cascavel (rodada dupla)                      Sportv
13h    Brasileiro de F-Truck: Santa Cruz do Sul                                   Band
14h    Nascar Sprint Cup: Michigan                                                    Fox Sports 2
14h30 Brasileiro de Turismo: Cascavel                                                Rede TV

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Tags: Agenda  telinha  TV  velocidade  no  fim  de  semana  blog  Sexta  Marcha  Stock  Car  Cascavel  F-Truck  Santa  Cruz  do  Sul  Brno  Moto  GP  Nascar  Barum  Rally  Zlin  F-3 

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Quinta-feira, 14 de agosto de 2014 06:12 pm

Baby boom nas pistas...

Houve um tempo, no século passado (literalmente) em que a coluna Sexta Marcha era publicada durante a semana no Estado de Minas. E num dos vários textos publicados, eu brincava com a tendência das principais equipes do automobilismo mundial de apostar em pilotos cada vez mais jovens – lembremos que foi muito antes de fenômenos como os de Lewis Hamilton e Sebastian Vettel. Eu dizia que chegaria a hora em que os olheiros das escuderias passariam a procurar por talentos já na maternidade.

Não chega a tanto, mas o fenômeno ganha agora outra feição. E o melhor exemplo, depois do russo Daniil Kyvat, que ninguém mais questiona (muita gente duvidou que ele estivesse maduro o suficiente para saltar da GP3 à F-1), vem novamente da empresa de bebidas energéticas do touro vermelho. A Red Bull gastou mundos e fundos para pagar a rescisão do contrato do holandês Max Verstappen, de 16 anos, com a McLaren – Doktor Helmut Marko esteve pessoalmente no Red Bull Ring, durante etapa do DTM e do Europeu de F-3, para negociar com o filho de Jos, que até o ano passado andava de kart e, agora, se vê muito próximo da F-1, em coisa de um ou dois anos – aliás, diga-se de passagem, que nenhum pai repita o que faz o ex-piloto da Benetton com o herdeiro. Eu vi, na pista, por duas ocasiões, uma cobrança absurda, e muita gente garante que a coisa funciona na base dos tapas, o que eu não posso confirmar.



Voltando ao touro vermelho frio (deixemos a coitada da vaca em paz), sou do tempo em que o caminho até o circo era marcado pelo começo nos monopostos com, pelo menos, 17 anos, e a passagem por F-Ford, dela para a 2000 ou a Renault; F-3, F-3000/GP2/Renault World Series e, para os sortudos eleitos, a F-1. E o habitual era a história de dois anos por categoria – um para aprender, outro para vencer.

Goste-se ou não, isso não existe mais, ou pelo menos não precisa existir. A geração atual convive desde pequena com a telemetria, no kart, treina absurdamente mais, compete muito e, quando bem orientada, consegue dar o salto que Verstappen Júnior deu, direto para a F-3 e, dela, para coisa ainda maior. E nem dá para condenar pais, orientadores e os próprios pilotos. Se não há dificuldade em saltar de 30 para 240cv, realmente de nada adianta tentar na F-Júnior, F-4 ou outras categorias de acesso. Mesmo porque o dinheiro muitas vezes é curto, e quanto menos tempo até o topo, melhor. Só não pode se tornar padrão – querer que todos os aspirantes a campeão sejam tão eficientes a ponto de dispensar as etapas intermediárias. Ou muita gente boa vai se perder sem mostrar do que realmente é capaz...

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Segunda-feira, 11 de agosto de 2014 03:23 pm

Para quem não leu... uma matéria que é pura emoção...

Quem acha que o jornalista deve ser frio e não se envolver com as histórias que testemunha e conta precisa urgentemente rever seus conceitos. Quando você escreve sobre homens e mulheres, pilotos, engenheiros, ou mesmo "apenas" apaixonados por um esporte, espera falar de coisas boas, acompanhar vitórias nas pistas e na vida, ver limites, desafios superados e muitas vezes uma lógica cruel revertida. Como no caso do menino que não teria dinheiro para se aventurar no automobilismo e no motociclismo, mas insiste e vinga.

Por essas e outras que o texto que eu reproduzo aqui, com direito a imagem da página do Estado de Minas, trouxe emoção especial também a mim. Porque é a história de um dos mais vitoriosos pilotos do motociclismo brasileiro que, num dia de novembro de 2012, nos desertos da Califórnia, se preparava para disputar o Rali Dacar como piloto oficial da Honda, um privilégio de pouquíssimos, e sofreu um acidente gravíssimo, de prognósticos bastante pessimistas. Pois esse cara, que talvez não mais andasse, resolveu mostrar toda a sua força numa recuperação demorada, doída, mas vencedora. E há uma semana finalmente teve a chance de subir em uma moto, reencontrar o que era quase uma extensão do corpo, para viver sensações dignas de criança com brinquedo novo, aquele brinquedo dos sonhos. Por essas e outras é que, se você não leu, vale ler a última experiência de Felipe Zanol, esperada, sonhada não só por ele, mas por muita gente que torceu, rezou, mandou energia positiva...

Um reencontro de pura emoção


Rodrigo Gini
Vitória no Rali dos Sertões, octacampeonato brasileiro de enduro,
bicampeonato português e a medalha de ouro nos Seis Dias Internacionais
de Enduro do Chile’2007. Tudo isso se tornou secundário diante do que o
mineiro Felipe Zanol enfrentou a partir de novembro de 2012, quando
treinava para sua segunda participação no Rali Dacar, com a equipe oficial
da Honda, no deserto norte-americano de Mojave. Mais do que a chance de
brigar pelo pódio na mais desafiadora maratona do esporte motor, o que
estava em risco a partir da queda era a própria vida, e tinha início uma luta
mais difícil do que qualquer prova sobre duas rodas.

Uma trajetória de exercícios, reabilitação, muito cuidado para evitar todo
tipo de sequela e pequenas vitórias cotidianos – o convívio com os amigos e incenti-
vadores, que foram pródigos em apoio e energia positiva, as primeiras ped-
aladas e treinos de ciclismo, a volta ao meio do motociclismo, inicialmente
como consultor, agora como chefe de um time de enduro que leva seu
nome e instrutor.

Disciplinado, um dos maiores nomes da modalidade no
país deixou de lado qualquer preocupação em voltar a competir e passou a
saborear as conquistas de um processo longo, consciente de que a vitória
mais importante não teve pódio ou troféu.

Talvez por isso a experiência desta semana tenha sido tão marcante.
Liberado pelos médicos, com o corpo e a alma recuperados, o piloto de 33
anos voltou a subir numa moto e encarar uma trilha, não como desafio ou
na tentativa de provar alguma coisa, mas para sentir de novo uma emoção
antes tão comum. Um passeio em torno do Retiro das Pedras, em Nova
Lima, que tantas vezes foi local de treino.

“Eu tirei um caminhão de dúvidas das costas. Os médicos norte-ameri-
canos não tinham certeza, no início, que voltaria a caminhar por conta
própria. E fui superando cada fase do tratamento, reconquistando a liber-
dade. Não tinha obsessão por voltar a pilotar, mas lógico que, se pudesse,
adoraria viver de novo a experiência. E não só consegui, como encarei as
pedras da trilha numa boa. Quem me vê hoje pode até achar que nada acon-
teceu comigo. Meu pai, Jacy, tem 80 anos e continua andando de moto, é
uma vitória viver isso de novo.”

Futuro

Diante do que ficou para trás, a pergunta é inevitável: o que representa na
verdade o “#zanolvoltou”, postado com orgulho nas redes sociais? “Ainda
não pensei nisso, mas sinceramente não acredito em voltar a competir, a
acelerar. O que quero é me sentir bem. Se andar de moto me ajudar na
minha recuperação, então vou andar todos os dias. Mas o mais legal é poder
dar as aulas do meu curso mostrando na prática como se faz; orientar os
pilotos da equipe, andar com eles. Já está ótimo.”

Felipe Zanol volta a andar de moto

Matéria publicada no Estado de Minas de 9/8/14

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