Quarta-feira, 23 de maio de 2012 12:16

O melhor da Xuxa



Por Josiel Botelho*


Todo o muito que já foi dito ainda é pouco perto da gravidade do assunto. Na noite de domingo, na TV aberta, a revelação de abusos sofridos pela apresentadora Xuxa Meneghel, até os 13 anos, trouxe à tona questão que merece atenção permanente por parte de todos. Pessoa pública, endinheirada, estrela da televisão brasileira, não é de impressionar a repercussão de trecho da entrevista em toda a mídia impressa, eletrônica e nas redes sociais. Independentemente da espetacularização do drama, o fato é que abusos dessa natureza devem ser combatidos com força e coragem. Nunca fui fã da Xuxa. No entanto, reconheço a sua força e o seu valor, às vesperas de completar 50 anos.


Na segunda-feira, entre os amigos de bem, não houve outro assunto. Ainda mais por parte do Genilson, inflamado quando a conversa é a violência contra crianças. Nosso amigo, taxista, é “tolerância zero” com estupradores. Genilson não esconde nem breve passagem pela polícia. Nos anos 1990, em Santa Efigênia, ele flagrou um sujeito de meia idade com as calças no chão, abusando de um garoto de 8 anos. Ele bateu tanto no abusador que foi parar na delegacia, fichado. O tarado, todo quebrado, fez a família deixar o bairro de tanta vergonha. “Os pais do infeliz, ricos, eram pessoas muito boas, os irmãos também. Eles não deram conta de encarar os vizinhos depois da atitude do filho”, diz Genilson.


Genilson revela que depois que o abusador se mudou de Belo Horizonte, apareceram outras duas famílias com o mesmo problema causado pelo mau elemento. “Um ano depois, soubemos que o sujeito havia sido preso pelo mesmo motivo e amanheceu morto num presídio do interior de São Paulo”, conta. Triste fim para uma história que se repete em todas as classes sociais. A Sueli, que também acompanhou a revelação bombástica da Xuxa, diz saber de caso próximo, de gente muito querida, semelhante ao da apresentadora. “As crianças, meninos e meninas, não entregam o abusador, quase sempre, por medo do que a família pode pensar. Chegam até a se sentir culpados pela violência sofrida”, diz.


O Adelson traz para Bandeira Dois ponto de vista polêmico, debatido por ele, recentemente, com um psicanalista, passageiro das antigas. “Depois de tudo o que ouvi sobre o caso do maníaco do Bairro Anchieta, o tal Pedro Meyer, anote aí, Josiel… esse é um problema que pode se repetir. O abusador costuma ser um sujeito que foi abusado na infância. Como escreveu Freud: ‘A criança é o pai do homem’. Disse-me o Dr. René”. Será mesmo que Freud dá conta de explicar a quantidade de gente doente espalhada pelo mundo, capaz de abusar de nossos pequenos, Adelson? O assunto vai render.


O que sei, pai de família, é que não dá para baixar a guarda em relação às companhias de nossos filhos. Temos que ser vigilantes sempre. Como na história da Xuxa, que, alegre, falante na infância, de repente tornou-se calada, o mal pode estar muito mais perto do que a gente imagina: entre parentes, amigos, professores e vizinhos. É preciso denunciar. Lugar de quem maltrata a inocência é atrás das grades. No ideal em construção, pelo qual toda gente do bem trabalha, não há espaço para quem não tem coração. Com tanto tempo de TV, enfim, Xuxa trouxe à cena um pouco do seu melhor: a coragem.


*Josiel Botelho é colunista do jornal Aqui e taxista em Belo Horizonte

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Segunda-feira, 21 de maio de 2012 09:55

Entre amor e sexo na Bahia



Estrada deserta, noite fria, na volta para Belo Horizonte. Vendas fracas na Bahia. Parada no boteco do Posto Barão, café amargo e cigarro de palha. Na solidão dos faróis, o pensamento caçava novos rumos para vida. Em Ilhéus, Oseias arranjou problema crônico na cabeça e no coração. No peito, Joana, a mulher companheira, mãe do pequeno Hugo, de 2 anos, com quem estava junto desde o supletivo, em 2007. Já na falta de razão, as loucuras vividas nos últimos dias com Ariane, baiana de boas carnes, de 34 anos, divorciada e sem filhos.


No botequim às margens da rodovia, o jovem atendente cochila junto ao balcão. No caixa, o homem barrigudo faz palavras cruzadas. Comenta o sono do colega: “Esse aí tá virado tem dois dias. Nasceu o filho dele anteontem. Tá todo besta. Deixa ele. Se o senhor quiser alguma coisa é só me pedir”. Oseias pediu pão com linguiça para tapear o estômago e voltou a pensar em como encarar Joana. Por mais que tentasse evitar, nas idéias, o corpo monumental e a fala macia, quase doce da bela baiana. O cheiro de Ariane ainda estava no vendedor viajante. Ali, Oseias fechou os olhos para suspirar a amante.

 

Foi logo no primeiro dia, no Quiosque da Jandira, que ele conheceu o pecado de decote em vestido rodado. Ela chegou e mandou na lata: “Conheço você”. Oseas ficou sem entender e nada disse. “Seu nome é Oseas e você vende bolsas e sandálias na região. Você gosta de misturar cerveja na coca-cola e fuma cigarro de palha. Acertei?”, sorri e, charmosa, apresenta-se: “Ariane. Fui casada com o Tobias, da Rua do Porto. Ele já comprou muito na sua mão. Posso me sentar?”. “Sim. Claro...”, ele respondeu. Fogo à primeira vista. O encontro foi parar em casinha de onde se ouvia o mar. Lá, na rede, na varanda e no porão, sexo como o sujeito nunca teve na vida. E assim, no suor dos quadris por noites seguidas, o viajante foi vencido pela semana.

 

O pão com linguiça, do jeito que estava, no prato ficou. Oseas pagou e pegou novamente a estrada para encarar a volta para casa. Estava decidido a chutar o pau da barraca e o amor de Joana. Com ele, enfeitiçado, brecha apenas para o sexo de Ariane. O sol já estava a pino quando Oseas desligou o motor da caminhonete em frente ao portão de ferro, no Bairro Jardim Alvorada. Na suíte do casal, Joana, dava banho em Hugo, que gargalhava. Ele esquadrinhou a casa decorada e, por dentro, chorou os retratos felizes da família.

 

O vendedor respirou fundo em busca de coragem e só encontrou o amor pela mulher companheira. Não resistiu ao sorriso sincero, de saudade, de Joana e almoçou em família como se nada tivesse acontecido. Oseas conversou com o patrão e mudou de rota. Nunca mais voltou a Bahia.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho


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Quarta-feira, 16 de maio de 2012 07:52

É triste o filme das drogas



Por Josiel Botelho*

Quando a turma toda se reúne é conversa boa para mais de metro. A cervejinha tem lá os seus efeitos de inteligência. Falo sério. O Adelson, por exemplo, mais reservado, tímido até, é só tomar uma cervejinha, que só traz para a roda assunto de intelectual. No último domingo, carros guardados na garagem, é claro, fizemos um churrascão na casa do Osmar. Uma farra inesquecível entre amigos. Nunca vi tanta boa gente, junta, por metro quadrado. Foi aniversário do irmão caçula do Osmar, o Mauro. Ele acaba de voltar dos Estados Unidos. Passou 15 anos lá, na peleja, como garçom, pintor e motorista. “A situação na América já não é mais a mesma para os brasileiros faz tempo…”, lamentou. O Osmar, bom irmão, cheio de saudade, resolveu fazer uma homenagem surpresa. Uma beleza de emoção! O Mauro estava muito feliz. Não é para menos: nesses 15 anos, o moço só esteve no Brasil uma vez, em 2004, quando o pai morreu.

Meus amigos gostam de boa prosa. E como gostam. Entre tanto assunto papeado, O Adelson – tinha que ser ele – estava bastante bem impressionado por um filme nacional, em cartaz nos cinemas da cidade. Chama-se Paraísos artificiais, de Marcos Prado. Também gosto do filme. Não o acho tão bom quanto o Adelson, mas, realmente, chama a atenção pela bela fotografia, direção de arte, trilha sonora e interpretações. Luca Bianchi e Nathalia Dill convencem até nas cenas mais difíceis, de sexo,
dirigidas com bom gosto. O roteiro, na minha opinião, é que tem lá umas brechas e, em algumas passagens, deixa parecer legal o uso das drogas – mesmo matando uma belíssima personagem e encarcerando o mocinho da história. Bom, é uma opinião apenas. O Adelson, taxista, quase um filósofo, acha que tinha mesmo que parecer muito legal, “porque é uma realidade construída. No fundo, é feio como a morte”.

Faz sentido. O que sei é que o assunto rendeu. O Mauro não viu o filme, mas disse que nos EUA teve grandes amigos que trabalhavam em festas. Inclusive, contou que fez alguns bicos como barman por uns dólares a mais. “Não esqueço. Trabalhei numa festa que rolou muita droga. Fiquei com tanto medo da polícia aparecer por lá, que pedi desculpas para o meu amigo que descolou o trampo e sartei fora quando a coisa começou a esquentar”. Mauro falou de música eletrônica, luz colorida e ecstasy na cabeça na moçada. Chega a ser parecido com o que acontece no filme do Marcos Prado. Paraísos artificiais mostra um pouco do rumo do sem rumo. Um retrato da triste contradição – dependência/liberdade – daqueles que não sabem lidar com limites.

Sueli ficou curiosíssima para ver o filme. Ela já perdeu uma pessoa muito amada para o mundo das drogas. “Era o melhor sujeito que conheci na vida. Ficamos uns dois anos juntos… aí, ele começou a usar maconha. E a vender… tive que sair da vida dele… nunca mais tive notícias”. Em casa, mais tarde, ao lado da mulher amada, uma conclusão: “É muito triste o filme das drogas”.

*Josiel Botelho é colunista do jornal Aqui e taxista em Belo Horizonte

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Segunda-feira, 14 de maio de 2012 12:15

O melhor amor do mundo


Aline e Vitória, nascida com 620 gramas. Mãe e filha são só carinho depois do maior aperto

É o da mãe. Não há dúvida. Vida Bandida, hoje, segunda-feira de maio, pausa o absurdo que há na realidade para homenagear o amor de mãe. Seja o filho do bem ou do mal, trabalhador ou vagabundo, esteja em casa ou em cana, é ela quem está sempre a oferecer o colo em qualquer circunstância. Vez por outra, é verdade, nasce uma mãe à toa. É exceção. Em maioria encantadora, as mãe são espetaculares e dariam a vida pelos seus.

Na semana passada, estive no Hospital Sofia Feldman (HSF), no Bairro Tupi, Região Norte de Belo Horizonte. É a maior maternidade de Minas Gerais. Lá, por 24 horas, na companhia de Juliana Flister, mãe, grávida e fotógrafa profissional, acompanhamos o nascimento de 21 bebês. Haviam 125 mães em atendimento. Cleise e Camila, funcionárias do HSF, foram excelentes anfitriãs nessa longa jornada amor afora. Inesquecível os momentos passados no complexo dirigido pelo obstetra Ivo de Oliveira Lopes.

Aqui, segue pequena dose do amor e dos milagres da vida que testemunhamos no HSF. As mamães escutam a enfermeira. É a reunião da tarde. Na sala, envoltos pelo aconchego das mantas e dos colos, 14 recém-nascidos. Nas mulheres, o cansaço e alegria se confundem. Não é para menos. Todas trouxeram os filhos ao mundo nas últimas 24 horas. Em pauta, cuidados. Fala-se em planejamento familiar – ali, não é tão raro, moças pobres, de vinte e poucos anos, costumam ter meia dúzia de filhos.

Entretida, Morgana Sueli de Oliveira, de 21, segura cheia de mimo o pequeno Adriano, de 44cm e 16 horas, nascido com 36 semanas de gestação. Destaca-se entre as outras mães pelo sorriso aberto que bem lhe cabe na boca. Sentada, faz dançar o tronco para embalar o tão querido Adriano. Forte, não parece ter enfrentado 15 horas de trabalho para o parto natural. “Nem soro tomei. Foi muito difícil colocar ele pra fora… agora, tô feliz demais!”.

Já para Dayse Deiró, de 22, foram nove semanas com a bolsa rompida. Em Contagem, com 23 semanas e quatro dias de gestação, a baiana ouviu que o melhor seria abortar Davi. Ela disse não e foi encaminhada às pressas para o HSF, onde, guerreira, amparada pela maternidade, segurou o rebento por 63 dias, até que ele estivesse pronto para nascer. No último dia 4, o presente, “força do destino”. No colo, emocionada, exibe Davi.

Bem perto de Dayse, mãe e filha, num só carinho: Aline Santana Oliveira, de 21, e Isabela Vitória, nascida com 26 semanas e 620 gramas. “Ela ficou 56 dias na UTI”, conta. Aline não desgruda de Vitória. Mimo para afastar o terror vivido em 8 de março, quando em dois hospitais – em Matozinhos e em Pedro Leopoldo –, ouviu que se insistisse na bebê corria sérios riscos de morte. Prevaleceu Vitória.


Morgana não desgruda de Adriano. Na sala de reunião, a mais radiante entre as mamães


Dayse suportou a bolsa rompida por 63 dias

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14/5/12
Fotos: Juliana Flister/Esp. EM

Leia a reportagem "Casa da vida":
http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/dia-das-maes/2012/05/13/noticias_internas_diadasmaes,293989/em-passa-24-horas-em-maternidade-e-homenageia-as-novas-mamaes.shtml#comentarios

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Segunda-feira, 07 de maio de 2012 10:16

A bandeira do abraço



Antonio Edson, o Edinho, de 43 anos, mecânico dos bons lá do Bairro Guarani, na Região Norte de Belo Horizonte, andava enfrentando a maior barra com os males do coração. Tanto que, agora, fim de madrugada, com o sol pronto para rasgar o horizonte, estava em lágrimas, abraçado ao taxista bigodudo de sorriso amarelo, na Praça da Estação.

Antes, para o amigo leitor entender o inusitado da cena, é preciso voltar horas no tempo, no cair da noite, na Rua da Bahia. Quando Edinho, andante, peito de amor doído, resolveu perambular sozinho, desgarrado, para espairecer a ideia abatida. Entrou no Teatro da Cidade, sempre de portas abertas, e viu drama de morte severina. No fim da peça, derramou o molhado dos olhos que a seca bebe e desceu a rua para matar a sede de aguardente.

Antonio Edson passou pelo restaurante lotado, 24h, mas não queria movimento. Preferiu entrar no Edifício Maletta e vencer a escada de aço escangalhada. Sorriu sem graça para o sujeito desdentado e arranjou mesa no canto, afastada. O rádio tocava qualquer coisa de fossa feita por um tal Vander Lee. Música boa, porém, de doer a alma. Edinho acendeu cigarro picado só para contrariar o pavor pelo fumo Tragou fundo como se quisesse incendiar as próprias vísceras. Virou uma, duas, três doses de pinga barata e suspirou como quem quer ver Jesus.

Amargurado, Edinho observa mesa de grupo fanfarrão e não dá mole para a alegria. Deixa nota amarelada na mesa sem se preocupar com o troco. Faz gesto seco para o dono do estabelecimento e volta ao rumo da rua. Desce desnorteado, atravessa a Avenida Afonso Pena e acaba indo parar na parte mais baixa, no quarteirão das putas tristes. Lamentou a sorte dos homens sós, dos casados traíras e esquadrinhou os hotéis fedorentos. A madrugada avançava quando Edinho, por fim, achou melhor tomar carro de aluguel e voltar para casa. Amargou mais meia hora vazia até conseguir parar sedan branco de placa luminosa, com o motorista gordão em cara de sono.

Edinho, descasado e sem filhos, olhou para o taxista e disse num só sopro, dando liberdade a voz do espírito: "Amigo, eu pago a bandeira. Mas não precisa partir... só quero um abraço... bem apertado. Um abraço apenas". E, ali, no Bulevar Arrudas, o mecânico carente e o taxista auxiliar ficaram unidos por hora: como dois irmãos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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Segunda-feira, 30 de abril de 2012 09:55

A mulher do capeta

Fala-se muito no diabo. Mas pior que o coisa ruim é a mulher dele. Quem já viu de perto sabe bem da flor que não se cheira e se repete - de tempos em tempos nasce uma praga disfarçada de rosa. São do tipo que, nos assaltos, atiram sem dó, com a vítima rendida. E no final do século 20, num redemoinho na Região Hospitalar de Belo Horizonte, nascia Demolina. Feia não tinha a cara da maldade. No entanto, os mais antigos percebiam sem demora, no fundo do olho em trevas, tratar-se do cão chupando manga.

 

A mãe, coitada, nada teve a ver com a semente do mal. Embarrigou-se do vento em noite de bebedeira. Logo depois do parto, a pobre mulher teve o ventre seco e morreu de colapso sem explicação. Findou-se, simplesmente, no dia em que trouxe à luz a pequena diaba. Indigente, sem pai ou qualquer parente presente, Demolina foi parar no colo de assistente social, cinquentona viúva, solitária, cheia de boa intenção. A mulher, Iracema, até que teve dúvida. Por fim, não resistiu e tomou para si o mal em corpo de criança.

 

Adormecida, a fêmea do capeta cresceu na criança até o corpo feito de mulher. No aniversário de 18 anos, a menina comum se transformou da noite para o dia. Dona Iracema, a mãe adotiva, soube logo pela manhã a falta de coração da sujeita. Do nada, como o ventre seco da progenitora morta, a assistente social sentiu aperto no peito que fez arder a alma. Mesa posta para duas, como de costume: pão e frutas em toalha bordada à mão. Ali, Demolina fulminou Iracema: infarto. A mulher definhou sem a menor atitude da filha de criação.

 

Herdeira da casa e de todos os pertences da viúva, Demolina tratou enterro barato e botou tudo fora pelo dinheiro que apareceu, vindo das mãos de enviado de irmão de dona Iracema. Um tio distante, pastor, que nunca se enganou com a figura. Logo que a irmã apresentou a menina à família, Agenor foi quem disse na lata: “Besteira. Isso aí não presta”. O homem juntou esposa, filha recém-nascida e sumiu rumo ao Espírito Santo. “Não vamos ficar por perto para ver crescer a desgraça”, foi como se despediu da irmã. 


Iracema sepultada, Demolina ajeitou mudança e fez de inferninho casa velha no Bairro Floresta. Lá, indecente, por seis meses, acabou com a vida de todo sujeito casado que encontrou pela frente - chegou a enterrar dois no fundo do quintal. A  diaba saiu do armário e decidiu também ferrar as moças. Virou ao avesso o quadril de ao menos uma dúzia das mais fracas. Até que, por obra do destino, se engraçou com a filha do tio pastor. A menina tinha acabado de chegar do Espírito Santo para estudar medicina. Quando soube, Agenor não titubeou: comprou 38 na Grande Vitória e descarregou tambor na mulher do capeta.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 30/4/12

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Segunda-feira, 23 de abril de 2012 10:22

Sem roupa, sem documento


Não era fácil para a Lucinha viver com o Lima. No início até que não foi tão sofrido, mas, poucos meses depois do enlace na capelinha de São José, o que era doce teve desfecho trágico. O camarada, de 37 anos, era sujeito bicho-homem no pior sentido da espécie. Não podia ver um rabo de saia para se portar feito galo dono de terreiro. E o Lima tinha um talento incrível para atrair galinhas. No encalço dele, tão cheio de penas, uma dúzia da mesma plumagem para as indecências sem compromisso.

Não era o caso de Lucinha, mulher à moda antiga, em busca de amor e sexo num só coração. Filha de pais apaixonados, em Bodas de Diamante, farmacêutica, Lucinha havia completado 28 anos quando conheceu o Lima, instrutor de academia das mais chiques. Foi numa festa junina. Ela já estava sozinha há quase dois anos, depois de sofrer grande desilusão nas mãos de outro sujeito besta, taxista, estúpido e mulherengo. Como sempre, mesmo sem grandes vaidades, estava linda.

Lucinha nem precisava usar nenhum tipo de maquiagem para exibir o rosto perfeito, com olhos grandes, castanhos claros, e lábios carnudos. Nariz desenhado a mão, orelhas pequenas e cabelos cheios para o alto. Usava vestido florido, rodado e bem comportado. Ainda assim, impossível não deixar à mostra a perfeição do corpo negro. O personal, todo enrolado com uma porção de donas moderninhas, ali, só teve olhos para a Lucinha.

Chegou macio, galante, como só ele sabia e ganhou a doutora, carente, muito afim de encontrar novo amor. O Lima ficou maluquinho pela “moça pra casamento” – foi o que disse ao colega de salão de ginástica. “Chega uma hora que a gente quer é um pouco de paz. A vadiagem também cansa, né não, Marcelão!?” O amigo recém-casado, feliz da vida, deu a maior força para o Lima. “É isso aí, Limão!”.

A fidelidade do Lima durou sete meses e 18 dias. Bastou pintar uma periguete da Zona Sul, chegada num sexo casual, para o instrutor chifrar a Lucinha. Daí, trair e coçar foi só começar. Lima, casado, voltou ao velho esquema dos quadris mais oferecidos. Lucinha descobriu e ficou em frangalhos. Chorava todas as noites mais uma desilusão no amor. No entanto, não tinha coragem de tocar no assunto. A paixão tem suas lá as suas tolices.

Chegou a pensar que o problema estava nela e tentou fazer de tudo para salvar o casamento. Comprou novas lingeries e aprendeu a fazer novos pratos para o Lima comer cada vez melhor em casa. Nada. Cachorrão, o sujeito queria mais e mais fora de casa. Esgotada, fora de si, a farmacêutica aplicou sonífero no suco de gabiroba em jantarzinho especial. Amarrou o sujeito nu na cama e cortou-lhe sem dó os documentos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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Quarta-feira, 18 de abril de 2012 08:59

Depois do cinema, o 'Buteco'


 Ainda que eu prefira os cinemas, não dá para negar que o Comida di Buteco é uma beleza. Nesta edição, o queijo (foto) é o ingrediente obrigatório nas criações. Sábado passado estive com alguns passageiros entendidos do assunto. O chef Fábio José Pires, de 29 anos, conta com satisfação os 59 pratos vendidos na estreia do Bar Casa Velha. “Nas tranças da imaginação”, por R$ 22,90, feito com lombo, queijo, batata, molho de alecrim e cebola, fez a alegria da banda Timbalada, que compareceu à Rua Além Paraíba, no Bairro Lagoinha, depois de show pelo Axé Brasil. Só na primeira noite de festival, das 17 às 0h, a comerciante Márcia Moreira, de 45, calcula 400 pessoas na esquina de Rua Jequery, em ponto da família desde 1973. O prato do chef promete.

O vendedor de automóveis Marco Aurélio Gonçalves, de 43, acompanha o evento desde sua primeira edição, em 2000, quando eram apenas 10 bares, e diz que o melhor é o profissionalismo que existe hoje entre os concorrentes. “A cerveja agora é mais gelada e o tira-gosto é mais caprichado. Sem falar que o atendimento melhora e os banheiros nunca foram tão limpos”, compara. Reclamação mesmo só com os preços que, para ele, “estão cada vez mais salgados”. Com o livrinho do festival no bolso da camisa florida, estufada, o comerciante já se programou para viver verdadeira maratona até 13 de maio. “Primeiro, procuro prestigiar os estreantes. Tem muita gente boa, desconhecida”, diz.

No Bairro Caiçara, na Região Noroeste de Belo Horizonte, parece Copa do Mundo para o Bar do Véio, campeão de 2007 e vencedor de higiene (2003 e 2004) e atendimento (2005). A tarde de sábado de sol é de casa cheia, gente bonita e exigente. Por volta das 15h30, mesa livre só mesmo na calçada da Rua Itaguaí. A estudante de Administração, Iara Silveira Rodrigues, de 22, saiu do Bairro São Geraldo para experimentar a mais recente invenção da casa: “Espetando Bolinha no Bar do Véio” – prato com almôndegas empanadas e espetinhos de frango com queijo.

Para Iara, o melhor deste ano é o queijo minas como ingrediente obrigatório. Luisa Duarte Pimenta, de 27, do Bairro da Graça, há três anos acompanha o festival e aprovou o prato do concorrente do Caiçara. A professora vê no evento grande oportunidade de valorização das “boas coisas de Minas”. Já para a estudante de odontologia, Bárbara Gonçalves, de 20, o melhor é que a competição apura não só a qualidade dos botecos, mas, também, o paladar da clientela, cada vez mais exigente. Violeta e eu já anotamos o endereço de 10 bares concorrentes. Vamos com os amigos conferir o que eles armaram para esta edição. Depois de um cineminha, claro.

Confira a lista completas da 13ª edição do Comida di Buteco 2012:
http://www.comidadibuteco.com.br/belo-horizonte/botecos/

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 18/4/12

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Segunda-feira, 16 de abril de 2012 12:39

O açougueiro de Iaiá



Só dava homem naquele frigorífico de Belo Horizonte. Dos quase dois mil funcionários, meia dúzia de gatas pingadas na folha de pagamento. Todas no escritório, secretárias da diretoria. Até que em dia de inscrição para a vaga de especialista em cortes de picanha, linda, surge pitel candidata, de 20 anos, que fez virar a cabeça da fila de cem açougueiros barbados. “Boi da cara preta! O que é isso, meu pai?”, quis saber o gigante Mandruvá, logo atrás da gostosíssima concorrente.

Iaiá, filha de produtor rural no Triângulo Mineiro, cresceu muito bem criada entre as vacas. Na região em que morava não havia quem dobrasse um boi pelo chifre como a garota, jeitosa com os animais. Abandonada no altar por noivo boiola e brigada com a família – porque não quis seguir medicina –, Iaiá saltou a porteira e, sem olhar para trás, se mudou para Belo Horizonte. Magoada, não quis centavo de parentes. Vendeu o jipe, único bem em seu nome, e juntou trocados para se garantir por uns tempos.

No quarto de hotel na Praça 7, nos classificados, o anúncio do frigorífico, em negrito, chamou a atenção de Iaiá. Ela colocou sua roupa mais bonita e seguiu em direção ao escritório da empresa às margens do Anel Rodoviário. Tomou condução na Avenida Afonso Pena e causou o maior reboliço no busão azul. No fundo, até gostou de se sentir desejada. O trocador baixinho não conseguiu tirar os olhos do quadril indecente da mulher espetáculo, de mais de metro e oitenta e dentes perfeitos.

Foi difícil para o motorista balofo tirar os olhos do retrovisor, porta retrato do belíssimo colo de Iaiá. O cheiro da beldade tomou conta da lotação e fez todo mundo ficar feliz – cheiro bom de mulher alegra, é verdade, até quem não gosta. O velho desdentado, viúvo sofrido, sorriu; a dona de casa gorda e mal amada também; e o advogado rabugento, enfim, decidiu sair do armário. De pé, apoiada em barra de ferro, Iaiá se sentiu importante e cheia de vida. Ainda mais depois que ouviu o sussurro do evangélico engravatado: “Que Deus me perdoe, mas você é tudo de bom!”.

Na fila para a vaga do frigorífico, o clima não foi diferente. O Mandruvá já nem se importava com a vaga. Queria mais era sentir o perfume cítrico da mulher. Mas, excitada Iaiá ficou foi com o sujeito franzino, de óculos, reservado, logo à sua frente, primeiro da fila, de pastinha laranja debaixo do braço. “São duas vagas… Uma é sua, moça! Tenho certeza!”, disse Rubião, tímido, simpático e profético. Não teve para ninguém mais da fila: contratados, Rubião e Iaiá fizeram carreira na casa e na vida.

Quis o destino, função para os dois na mesma bancada. O amor brotou ali, entre as melhores carnes da seção. Fora do expediente, juntos, foi a fome e a vontade de comer. Do noivo baitola, enrabichado com caminhoneiro baiano, Iaiá nunca mais teve notícias.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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Quarta-feira, 11 de abril de 2012 07:43

Made in China



Por Josiel Botelho*


Gosto dos chineses. Muito. Não entro no assunto da falsificação ou do contrabando. Menos ainda se os produtos vindos de lá prejudicam o comércio neste ou em qualquer outro país. Não sou economista, empresário e, menos ainda, especialista em comércio internacional. Sou cidadão trabalhador, pagador de tributos, que, aos 8 anos, começou a vender jornais nas ruas para ajudar a família. E é justamente na questão da labuta que me identifico com os chineses.


Do pouco que sei da cultura dos mocinhos e mocinhas de olhos apertados, não receio em dizer: é gente que jamais faz corpo mole. Heng, meu amigo chinês, de 32 anos, é das pessoas mais exemplares que conheço. Diferentemente de muitos brasileiros – que adoram um barranco e uma mamata –, os chineses não fogem à luta. Nisso, eles têm a minha admiração. Não se esforçam por necessidade, simplesmente. E sim, por brio e vocação.


Envergonha-me ver a quantidade enorme de jovens brasileiros, preguiçosos, encostados nos pais, sem se importar com o duro que estes sujeitos dão para não deixar faltar comida e boa educação à mesa. Domingo, fui almoçar na casa do Aldeir, no Bairro Dona Clara. Ele é divorciado e pai de dois marmanjos de mais de 20 anos. Com prazer e alegria, meu amigo passou a manhã na cozinha, preparando o almoço para os filhos e seus convidados.


Violeta e eu ajudamos com as carnes, com a salada e com a massa. Enquanto isso, a juventude, que levantou só lá pelo meio-dia, fervia no videogame. De pernas para cima, à espera de tudo na mão, a tempo e a hora. Caramba. Não pode estar certo. Nem deram as caras na cozinha para oferecer ajuda. Minto. Foram até lá. Para detonar a geladeira e deixar ainda mais sujeira para o pobre do Aldeir limpar.


Aquilo me chateou sobremaneira. Mesa farta, toda arrumada no maior capricho pelo amigo descasado, quarentão e bom pai de família. Calado – afinal, estava na casa dos outros –, imaginei que os marmanjos iam, ao menos, ajudar na limpeza da cozinha depois da comilança. Nada. Nem um copo lavado pelas mãos do futuro do país. Aldeir e eu passamos mais de hora para ajeitar as louças. O amigo insistiu: “Deixe disso, Josiel. Você e Violeta são convidados”.


A gente não podia deixar o Aldeir na mão. Era serviço demais para ele sozinho. Quando terminamos, não dei conta e tive que perguntar: “Seus filhos não ajudam, Aldeir?”. A resposta me fez pensar ainda mais nos chineses. O companheiro, boa praça até, sorriu e disse: “Querem é aproveitar a vida, Josiel. São incapazes de passar uma vassoura na casa. Não peço. Fico na esperança de um dia eles acordarem pra vida. É a juventude de hoje, meu amigo”.


Estamos perdidos. É o que posso crer. Que juventude é essa que não tem noção da importância dos menores gestos de ajuda dentro da própria casa? Heng, amigo chinês em Belo Horizonte desde 2010, ainda não domina o português. Mas soube o suficiente para conversar comigo sobre o assunto na segunda-feira. Disse-me que a falta de atitude assim, como lá na casa do Aldeir, é uma vergonha para o povo chinês. “Todos se ajuda, Josié! Todos!”.


Falou e disse, Heng. Salve a China!


*Josiel Botelho é colunista do jornal Aqui e taxista em Belo Horizonte

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