O bairro de Hackney, no leste de Londres, é vizinho de Stratford, onde foi construído o Parque Olímpico. Por décadas, simplesmente um subúrbio nos limites da City (centro econômico de Londres) que não teve atenção de ninguém, mas que criou silenciosamente uma tradição de arte de rua. Até que um dos artistas locais ganhou notoriedade e virou uma celebridade internacional: Bansky.
Ele criou imagens hoje icônicas como a de um garoto que parece lançar um coquetel molotov, mas, na verdade, tem um buque de flores nas mãos; ou a de Mickey Mouse e Ronald McDonald sorrindo e segurando a mão da menina vietnamita nua em desespero de uma das fotos mais famosas da história. E o East End ganhou status de lugar cool, com baladas e lojas descoladas.
Para conhecer uma grande parte do trabalho inicial de Bansky é preciso ir a Hackney. A melhor coisa é ir ao metro Old Street e caminhar pelas ruas até a estação de Shoreditch High Street, ou vice-versa. Essa
reportagem
da De Zeen Magazine é um excelente guia.
Para os Jogos Olímpicos, Bansky criou duas novas obras. Em uma delas, um saltador com vara tenta ultrapassar uma cerca de arame farpado. Na outra, um lançador, em vez do dardo, tem nas mãos um míssil.
Ninguém sabe exatamente quem é Bansky, sua cara ou voz. Nem mesmo se é um artista solitário ou um grupo que trabalha sob o pseudônimo. Uma obra essencial para entender melhor o artista é o documentário
Exit Through the Gift Shop
.
Londres tem tantos grandes e espetaculares museus – National Gallery, Tate, Natural History, Victoria and Albert, Imperial War, etc. - que o visitante normalmente não tem tempo ou interesse em conhecer as pequenas galerias da cidade. É um erro. Além de ocupar menos tempo no dia, esses espaços “escondem” atrações que não devem passar batidas.
Três pequenos museus, em especial, são imperdíveis. O primeiro e provavelmente mais indispensável é a Courtald Gallery, localizada no palácio neoclássico Sommerset House, na Strand, em que durante os Jogos Olímpicos está instalada a Casa Brasil. Engraçado é que comentei sobre a galeria com vários dos colegas que estão trabalhando em Londres nessas semanas e a maioria nem tinha ideia de que ela existia.
Reunida pelo milionário da indústria Samueal Courtald (1897-1947), a coleção merece a visita pela grande quantidade de impressionistas e pós-impressionistas: Monet, Renoir, Gauguin, Cézanne, Van Gogh, Picasso e por aí vai. Para mim, o quadro mais belo é “Un bar aux Folies Bergère” (1881-1882), de Edouard Manet, em que uma melancólica garçonete nos olha, cansada, enquanto pelo espelho do bar vemos a agitação da Paris do fim do século 19.
Em Marylebone, está outra coleção construída por um milionário, Richard Wallace (1818-1890), colecionador de artes e filantropo. Na Wallace Collection, há mobiliário histórico, cerâmicas, esculturas e enorme coleção de armas, mas são mesmo as pinturas o mais atrativo. Vão do século 14 aos 19, com destaque para as obras do barroco (Rubens, Hals, Rembrant, Velázquez, Van Dyck), do romantismo e do rococó, em especial a considerada obra-prima de Jean Honoré Fragonard, “
L'Escarpolette
”.
Para quem prefere obras contemporâneas a pedida é a Saatchi Gallery, em Chelsea, criada pelo publicitário de origem iraquiana Charles Saatchi. Aberta em 2008, a galeria expõe uma coleção permanente e conceituadas exposições especiais.
Do norte de para o sul de Londres. Bem longe de badalada Camden Town, está outro bairro que não perdeu o ritmo urbano durante os Jogos Olímpicos: Brixton. Mas diferentemente do local onde Amy Winehouse vivia, esse não está nos guias turísticos convencionais. A região das comunidades africanas e caribenhas – principalmente da jamaicana - na capital inglesa é famosa pelas baladas de dancehall e de reggae, e atrai todos os fins de semanas um público noturno fiel.
Brixton ganhou fama no começo dos anos 1980 por causa dos confrontos da comunidade com a polícia. Os
Brixton Riots
ocorreram em um clima de desemprego, pobreza e violência. A polícia, com a justificativa de coibir a criminalidade, passou a parar e revistar as pessoas nas ruas, sem necessidade de justificativa. Em cinco dias de abril de 1981, mais de mil pessoas foram abordadas.
O confronto começou pouco depois, quando a população se revoltou e milhares saíram às ruas e iniciaram uma batalha, que resultou em dezenas de carros queimados, prédios danificados e quase 300 policiais de feridos. Em 1983 e 1985, episódios similares ocorreram.
Esse clima foi retrado pelo The Clash – mas não os confrontos em si, como costuma-se pensar – na música
The Guns Of Brixton
. A primeira composição do baixista Paul Simonon para a banda saiu no clássico
London Calling
, de 1979. Em uma voz que procura exprimir a raiva dos oprimidos, Simonon canta, de forma premonitória: “Quando eles baterem na sua porta; Como você sairá?; Com as mãos na cabeça ou no gatilho da sua arma? ... Você podem nos esmagar/ Vocês podem nos bater; Mas terão a resposta também; Oh, as armas do Brixton”.
A música, um reggae pesado e direto, é uma das melhores de um dos melhores discos de todos os tempos. E virou a marca de Simonon, que conseguiu sair da sombra de Mick Jones e Joe Strummer.
Hoje, Brixton comemora tempos de paz e o sucesso de Usain Bolt nos Jogos de Londres, apesar de a presença policial nas ruas e os becos escuros, refúgio de mendigos e drogados, lembrarem que as marcas dos passado não foram completamente apagadas.
Muitos bairros londrinos têm vivido duas semanas estranhas durante os Jogos Olímpicos. É que o prefeito, Boris Johnson, pediu, diversas vezes, para que os turistas não-olímpicos ficassem longe da cidade nesse período. Anunciou o caos. E as pessoas escutaram. Os lojistas do West End, onde fica a maior concentração de atrações, como o Big Ben, a Abadia de Westminster e o PIcadully Circus, estão indignados. Um taxista até me disse que tem horas que Londres parece uma “cidade fantasma”.
Bem mais ao norte a coisa não está assim. Não que lá esteja tendo um monte de eventos relacionados aos Jogos. Pelo contrário, não há nenhum. Mas a vida boêmia nunca para em uma cidade como Londres. Em Camden Town, bairro que viu nascer e morrer a cantora Amy Winehouse, o bares e boates de rock, reggaes e eletrônica não diminuem o ritmo.
O problema para quem não é local é justamente a quantidade de bares e boates ao longo da Camden High Street e suas afluentes. São dezenas, um atrás do outro, e acaba ficando meio como um jogo de advinha acertar entre um lugar verdadeiramente cool e uma baladinha meia-boca para pegar turistas.
Melhor, portanto, começar pelo essencial. Se a ideia, por exemplo, é sentir o clima que cercava a vida de Amy, a primeira parada é o pub The Hawley Arms, o preferido dela e que hora virou uma referência graças cantora. Do lado de fora, há até um grafite de Bansky com a imagem dela. Depois que ela ficou famosa, passou a fazer show no
Koko
, clássica casa de shows e festas da região.
O Devonshire Arms é o local para ver (verdadeiros) cyberpunks, enquanto o Elephants Heads tem uma galera mais tardicional. Para escutar soul e blues e ainda jantar, a pedida é o Blues Kitchen. Aos fanáticos por cervejas especiais, há o Brewdog, bar exclusivo da clássica cervejaria de Aberdeen.
Enfim, as opções são intermináveis e a questão é sentir o clima e ver se agrada. O ideal é ir mais cedo para o bairro, dar uma boa passeada nas enorme e famosa feira de rua e depois esticar em algum dos pubs.
Com uma semana de Jogos realizados, há várias lições que o Brasil pode tirar de Londres para realizar uma Olimpíada ao menos digna no Rio de Janeiro, em 2016. O transporte é o que mais impressiona, e, mesmo com mais de 20 linhas de trem e metrô espalhadas pela metrópole, ainda assim há problemas de atrasos e filas. Simplesmente não consigo imaginar algo tão eficiente em terra brasileira. E pela quantidade de gente circulando, isso preocupa demais.
Mas, quem sabe, com faixas olímpicas exclusivas nas vias e uma utilização massiva de ônibus especiais seja possível evitar um vexame? Em outro aspecto, porém, não tenho nenhuma esperança de que o Rio possa superar Londres: a música dentro dos estádios e arenas. Obviamente, não é que não tenhamos música boa; problema é que não costumamos respeitá-la devidamente.
Não ocorre na Inglaterra. Aqui, eles sabem que fizeram o melhor rock do mundo, e não têm pudores de exibi-lo (alguém ouve nossos melhores sambistas em eventos de massa?). Assim que os Jogos de Londres soam maravilhosos para quem é do ramo.
Stones, Beatles, Bowie, The Who, Clash, Queen, Floyd, Blur, etc., etc. etc.
We Will Rock You
, por exemplo, é usado quando se pede o apoio do público, que acompanha a música com palmas; enquanto
Song 2
sempre aparece após uma grande atuação,
Deixa-me especialmente feliz escutar The Kinks. Para mim, uma banda da grandeza de Beatles e Stones, mas pouco apreciada nesse nível nos círculos de roqueiros do Brasil. E eles tocam os Kinks incessantemente nos Jogos Olímpicos. É simplesmente lindo!
O coração da banda é formado pelo irmãos Ray e Dave Davies, que nasceram e foram criados em Londres. Entre 1964 (Kinks) é 1971 (Muswell Hillbillies), a banda lançou nove discos, todos merecedores de atenção. Para os não iniciados – além do clássico
You Really Got Me
- , a trilogia The Kink Kontroversy (1965), Face to Face (1966) e Someything Else by The Kinks.
Há dois anos, quando visitei um amigo em Sydney, ele me apresentou o som de Sixto Rodríguez, um cantor hispano-americano de Detroit que lançou um disco no começo dos anos 1970 e desapareceu da vista de todos. Ao longo dos anos, a obra, Cold Fact, transformou-se em sucesso cult, com destaque para a música
Sugar Man
, e Rodríguez, pouco a pouco passou a ser chamado para algumas turnês.
A redescoberta do cantor está sendo consolidada agora com o lançamento do filme
Searching for the Sugar Man
, do diretor Malik Bendjelloul, em cartaz nos cinemas de Londres e recebendo excelentes críticas da mídia especializada inglesa. Em alguns meios, como na Time Out, a obra foi aclamada como um novo
Buena Vista Social Club
– pela qualidade e também pelo teor antropológico-musical.
Infelizmente, é bem difícil que chegue aos cinemas de Brasília. Então, ainda não seja o ideal, é perfeito para entrar na lista de futuros downloads.
Nas Olimpíadas de Londres, o ônibus que transporta a imprensa do Parque Olímpico, em Stratford, no leste da cidade, para o centro, termina sua rota na Russel Square. É lá que desço quase todos os dias, lá por volta da meia-noite. E não há uma única vez que não passo uma pequena tentação. Ao lado da praça, está o British Museum, o pai de todos os museus, podemos dizer, fundado em 1759, desde sempre público e gratuito.
No caminho para o Soho, onde ainda dá tempo de comer alguma coisa nos restaurantes chineses ou indianos (os pubs fecham sempre às 23h), passo pela gigantesca fachada, que alberga a maior coleção existente sobre a cultura humana – 8 milhões de peças, dizem ter contado. Para quem gosta de história, é uma perdição. E não é possível, logicamente, ver tudo em um dia só.
Tudo isso não vem sem controvérsia. Queridas amigas gregas sempre detonam o British Museum. Lá está uma coleção imensa das esculturas de mármore do
Partenon
,
devidamente roubadas pelos ingleses. Milhares (milhões?) de outras peças chegaram de forma similar, fruto do colonialismo do império onde o Sol nunca se punha. Os britânicos se recusam a devolver. Dizem que, na verdade, salvaram tudo isso da destruição pelo abandono.
Há objetivo de centenas de civilizações que já povoaram a terra. Não vale a pena nem começar a citar aqui. Entre tantas coisas, porém, a Pedra de Roseta merece menção. É o objeto que permitiu ao homem moderno decifrar os hieróglifos egípcios. Pode ser, digamos, o ponto de partida para uma longa viagem... Marcada para logo depois dos Jogos Olímpicos.
Fora do circuito turístico clássico de Londres, o bairro de Islington, no norte da cidade, é excelente opção para saídas noturnas e compras. E passa longe de qualquer tumulto olímpico nesses dias de julho e agosto. A Upper Street, que corre entre as estações de metrô de Angel e Islington, é cheia de pubs e lojas interessantes. Arrisque-se pelos arredores dela também, que podem esconder brechós e lojas de vinil espetaculares.
A estrela da região, porém, não atrai de cara a atenção do visitante desinformado. Aparentemente uma igreja comum, se olhada do lado de fora, a Union Chapel é um dos locais de shows mais bonitos de Londres. A igreja, sim, funciona normalmente, e ainda serve de abrigo para pessoas sem teto, mas também é palco de shows de rock e de
stand up comedy
.
Os artistas se apresentam debaixo de lindos vitrais com uma iluminação que ressalta ainda mais a beleza do lugar. Como dentro da igreja não se pode fumar ou beber, os organizadores ainda improvisaram um bar do lado de fora, como se num anexo do prédio principal, os espectadores ainda têm esse especo, meio lounge, para conversar e aguardar os shows. Foi votada como o melhor lugar para concertos na edição deste ano da Time Out. Não é pouca coisa em uma cidade com centenas de espaço de música.
Não sei se pelo cansaço do público após horas de espetáculo, pela antecipação que estragou a surpresa ou porque não comove como um dia já comoveu, mas a verdade que a participação de Paul McCartney na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos não foi a apoteose que o diretor Danny Boyle e o ex-Beatle esperavam.
Como fez nos vários shows realizados no Brasil nos últimos anos (com muito mais sucesso, aliás), Paul tentou animar o público, pediu para cantar “only the boys”, depois “only the girls”, mas não conseguiu que todos no Estádio Olímpico o seguissem no “nananana, hey Jude”. O que era para ser um fim espetaculoso teve um pequeno quê de anticlímax.
O espetáculo dos ingleses não foi ruim, nem de longe. Na verdade, provavelmente é a melhor coisa que Boyle fez desde
Trainspotting
. Foi realmente bacana. E eu tentei contribuir para que o fim com
Hey Jude
fosse o mais legal possível, mas a galera não foi ao delírio, como se esperava.
Para minha satisfação, o minúsculo trecho de
Satisfaction
, durante um clipe com clássicos ingleses dos anos 1960 aos 2000, levantou mais o público. Deviam ter chamado os Stones para encerrar a festa... Aliás, parece que até chamaram, mas eles recusaram. Estão de férias. E uma simples festa de abertura não é razão o suficiente para estragar algo tão sagrado.
Hoje todos estarão ligados no Parque Olímpico, nas surpresas de Danny Boyle e em sir Paul McCartney. Uma galera, digamos, mais fashion de Londres, contudo, está bem mais interessada em outra “Cerimônia de Abertura”que chega à cidade neste verão. Primeiramente no Covent Garden – como uma espécie de teaser – e depois na King Street, a loja Opening Ceremony, motivo de peregrinação de loucos por roupas descoladas em Nova York, Los Angeles e Tóquio, finalmente será aberta na capital inglesa.
A história de sucesso da Opening Ceremony é curiosa. Os fundadores e donos, Carol Lim e Humberto Leon, tiveram a ideia da loja em viagens para a Ásia. Com um olho fino para moda, sacaram que poderiam lucrar vendendo marcas (até então) desconhecidas ao sedento público consumidor de moda de Nova York (a Top Shop, por exemplo, foi levada aos Estados Unidos por Kim e Leon). Abriram em 2002 e a loja virou uma sensação imediata.
Hoje, além de trazer peças de fora, a Opening Ceremony produz coleções próprias, de designers consagrados e desconhecidos (que rapidamente passam ao outro grupo). A atriz Chloe Sevigny é uma das fãs mais ilustres da loja e já fez quatro coleções para o grupo. O diretor Spike Jonze a cantora MIA também estão entre os fãs que viraram parceiros da loja, que deve deixar marcas mais duradouras que a festa no Parque Olímpico no dia-a-dia de Londres.