Alexandre Kalil foi à Rádio Itatiaia nesta segunda-feira dizer que não há crise dentro do Atlético. Claro que não há. Ou não deveria haver. São quatro jogos sem vitórias, mas dentro de campo Dorival Jr. pode corrigir os problemas e disputar o campeonato brasileiro bem. O Flamengo não era favorito ao título em 2009 e nem o Fluminense em 2010. O Atlético não é candidato hoje, mas nada o impede de crescer e brigar.
A entrevista poderia acabar aí. O torcedor saberia que o presidente confia no trabalho e os resultados diriam se a diretoria estava correta ou não na avaliação. Infelizmente não acabou.
Kalil disse que “O presidente do Atlético é o segundo homem mais importante de Minas Gerais” e que “gosta de saber que manda no clube”. Um torcedor disse que o dirigente falava demais e ganhava de menos e foi chamado de bobo alegre. Imagino se o garoto da base se achou um bobo alegre quando seu patrão disse que a contratar ‘muxiba’, ele prefere buscar na base. Curioso como Renan Ribeiro saiu da base para substituir Aranha, Carini, Marcelo e Fábio Costa. Todos contratados por Kalil. Oito meses depois de virar titular, é considerado um dos cinco melhores goleiros do Brasil pelo presidente.
Alexandre afirmou que não precisava falar de seus erros porque isso os torcedores já faziam. Em vez disso, apontou falhas da diretoria do Santos e alertou que o clube paulista “não tem nada” dos direitos econômicos dos campeões da América, diferentemente do que acontece no alvinegro de Minas – o Santos detém 40% de Paulo Henrique Ganso, 55% de Neymar e 70% de Arouca, os três mais valorizados do elenco. Por outro lado, o Atlético fez um acordo com Ricardo Guimarães, para pagar a dívida que tem com o ex-presidente, e 15% da receita líquida de todo jogador negociado vai para o diretor do BMG.
Não penso que Kalil seja mau presidente, pelo contrário. Melhorou a Cidade do Galo e criou ótima estrutura de trabalho. Mudou o patamar de contratações. Ano passado, Cruzeiro e Atlético procuravam um zagueiro. A Raposa anunciou Edcarlos e o Galo, Réver.
A meta do presidente é “entregar um Atlético melhor do que encontrou”. Isso não é difícil e já foi feito. E não foi pelo segundo homem mais importante de Minas Gerais. Foi feito pelo presidente do Atlético, Alexandre Kalil.
Não é fácil a vida de técnico em Minas Gerais. No momento da chegada, o treinador recebe um rótulo e, independentemente do que aconteça, vai carregá-lo até a sua saída. O rótulo é a simplificação de um ser humano complexo, com trabalho nem sempre tão simples. Mas rotular é mais fácil, exige menos observação e é certamente mais engraçado.
Adilson Batista fez dois anos e meio de bom trabalho no Cruzeiro, chegando duas vezes entre os quatro melhores do campeonato brasileiro e com um vice-campeonato da Libertadores, mas sempre foi retranqueiro e “pardal”. Cuca aos poucos mudou o estilo da equipe. Teve a segunda melhor defesa no Brasileiro e foi vice-campeão, depois teve a melhor campanha da história da primeira fase da Libertadores. Ganhou o estadual. Nem assim a fama de pé frio e “vice” o abandonaram.
Celso Roth encontrou um Atlético destroçado em 2009 e o fez brigar para ser campeão brasileiro até as últimas rodadas. Quase salvou o time que havia sofrido 3 a 0 para o Vitória na Copa do Brasil. Mas Roth era o técnico dos volantes e um pobre derrotado do futebol. Luxemburgo chegou e com ele o status de manager. Fez o que quis no Atlético. Apenas quando as rodadas na zona de rebaixamento se repetiam, um outro rótulo, mais recente, veio à tona: Vanderlei é um ultrapassado do futebol. Daqui a pouco irão lembrar dos desentendimentos entre Guilherme e Roni quando Dorival Jr. era o treinador do Cruzeiro. Daí será um pulo para a lembrança da briga com Neymar. Seria Dorival um técnico sem comando?
Joel Santana chegou e perdeu o sobrenome. Só é chamado por Papai Joel. Pouco importa se o trabalho será bom ou ruim. Papai Joel é supersticioso, boleiro e amigo da prancheta. Será muito fácil avaliar seu desempenho. Se for bem, é porque fala a linguagem que o jogador entende e gosta. Se fracassar, Joel tem métodos antiquados e não serve para o futebol moderno.
Outros virão. Vão ganhar, perder e empatar. Acima de tudo: vão trabalhar. Vamos fazer o mesmo ou tentar um atalho e rotular de uma vez, só esperando a confirmação do que já sabíamos há muito tempo?
Reagir faz parte do futebol. O Cruzeiro caiu na Libertadores e não venceu nas cinco primeiras rodadas do Brasileiro. A vitória sobre o Atlético na decisão do estadual garantiu o título, mas não convenceu. Cuca é bom técnico, mudou a forma de jogar que o Cruzeiro de Adilson Batista tinha. Não venceu o campeonato brasileiro por detalhe e conseguiu uma campanha muito acima de todas as expectativas na primeira fase da Libertadores.
O trabalho não era ruim, mas faltou reação. Não é o tipo de situação que ocorreu com o Fluminense em 2009, quando Cuca pegou um barco afundando sem ter culpa e conseguiu a quase impossível salvação. É a situação que acompanha o treinador quase sempre por onde passa. No Flamengo, também em 2009, venceu o estadual e começou mal o brasileiro. O time cambaleou até a 14ª rodada quando Andrade assumiu.
Joel Santana pode mudar o ânimo dos jogadores. Dizer que o novo técnico faz os jogadores se sentirem melhor é discurso ensaiado, mas pode não ser só discurso. O time se mostra inseguro, sem força para matar o adversário que seja. O Cruzeiro perdeu suas convicções quando o Once Caldas marcou o segundo gol.
A equipe não é tão boa quanto se imaginava durante a Libertadores. Não é tão frágil como nas rodadas iniciais do Brasileiro. O mais próximo da realidade é o que acontecia no ano passado, vencendo a maioria dos adversários pela diferença de um gol e contando com Montillo e Fábio.
Joel pode ser importante como Cuca foi. Para isso é preciso reagir.
Dorival Jr. mexeu bem e o time melhorou contra o Atlético Goianiense no 2º tempo. O mesmo aconteceu contra Bahia e São Paulo. Quando a substituição é sempre boa é sinal de time mal escalado. Toró, como armador pela direita, e Mancini, no ataque, rendem pouco. Gilberto, titular no último jogo, ocupou o espaço que naturalmente seria de Serginho, com Dudu Cearense fazendo bem o papel de segundo volante – como já havia realizado nas outras partidas e voltou a ir bem no empate de domingo.
Giovanni Augusto foi o único titular no meio-campo nas cinco rodadas, até por conta das lesões de Filipe Soutto e Richarlsyon. Vem caindo de rendimento enquanto Daniel Carvalho entra bem. Assim como o time que terminou o campeonato mineiro não parecia pronto, o que venceu nas duas primeiras rodadas do brasileiro também não estava.
Dorival tem o direito da dúvida e o dever da observação. O Atlético pode mais do que tem mostrado.
O Santos viaja a Montevidéu na terça pela manhã. Ou tenta viajar. Essa era a ideia antes do vulcão chileno Puyehue começar a expelir cinzas, essa era a programação depois do fenômeno e seguiu com a melhora que houve na situação entre sexta-feira e domingo. Hoje, segunda-feira, vôos para o Uruguai e a Argentina estão sendo cancelados. A delegação santista embarca na terça pela manhã.
O representante do Brasil na CONMEBOL, Ildo Nejar, garantiu, na sexta-feira, que o jogo está mantido para as 21h50 de quarta-feira dia 15. Ildo deu a declaração à tarde, quando os aeroportos ainda estavam fechados e falou: “O Santos precisa se programar caso os vôos não retornem”. Muricy Ramalho não escalou, contra o Cruzeiro, nenhum jogador que começará a partida contra o Peñarol. Os titulares poderiam ter ido no sábado para o Uruguai e ter evitado torcer contra a natureza.
Em maio, o vulcão islandês Grimsvotn fechou o espaço aéreo em vários países da Europa na semana da final da Liga dos Campeões. O que fez o Barcelona? Antecipou a ida a Londres e chegou à cidade quatro dias antes de enfrentar o Manchester United. Vale lembrar que em 2010, o mesmo Barcelona viajou 800 km de ônibus até Milão para enfrentar a Inter, por conta de outro vulcão. Perdeu por 3 a 1 para um time tecnicamente inferior e não conseguiu reverter a vantagem em casa. A distância entre Barcelona e Londres é de 1.500 km e São Paulo está a 1.100 km de Montevidéu.
O Santos poderia ter usado o exemplo do campeão europeu para vencer na América. Escolheu correr o risco.
Palmeiras, Botafogo, Atlético-MG e Grêmio. Desde que o campeonato brasileiro começou a ser disputado por pontos corridos, foram os únicos rebaixados que não caíram novamente em no máximo três anos. O Corinthians está no terceiro ano pós-série B. Vasco, Atlético-GO e Ceará no segundo. A gangorra de sobe e desce do futebol brasileiro não é tão gangorra assim e a lógica é, a não ser no caso dos grandes, quem chega da série B, durar pouco tempo na elite até cair de novo.
A lógica é também não voltar. Foram 26 acessos desde que Botafogo e Palmeiras subiram em 2003, com 25 clubes diferentes – apenas o Coritiba, em 2007 e 2010 conseguiu sucesso duas vezes na série B. A luta de quem sobe é para não cair de novo, ou até para durar o máximo possível na primeira divisão.
O recém-promovido não passa a ter o mesmo poder financeiro de quem já está na Série A há mais tempo. A diferença da receita adquirida com patrocínios e cotas de televisão pode ser diminuída com o tempo, mas só criatividade e trabalho consistente podem prolongar a permanência na primeira divisão.
O América tem a base da série B, que é a mesma da terceira divisão, conquistada há dois anos. Incorporou a ela nomes que pouco acrescentaram aos clubes que deixaram recentemente. Thiago Carleto, Rodriguinho, Kempes, Ânderson, Camilo, etc. Pouca criatividade, pouca consistência.
O diretor vai poder justificar um eventual fracasso com um discurso pronto de que não errou por omissão. Contratar em quantidade não é se mostrar ativo, talvez só reflita o desespero. O histórico de rebaixamentos coloca o América no grupo de candidatos à queda. A forma de pensar futebol da diretoria, principalmente.
Depois de 40 anos, o Uruguai voltou a ser semifinalista de uma Copa do Mundo e Diego Fórlan foi escolhido o jogador do mundial. Depois de 23 anos, uma equipe do país chega à final da Libertadores e nos dois últimos Sul-Americanos sub-20 disputados, terminou à frente da Argentina. O futebol renasce no Uruguai e tem o trabalho de Oscar Tabárez a frente da seleção como base para os resultados recentes. Quem garante é Revétria, ex-jogador do Cruzeiro e que trabalha na empresa que detém os direitos de exploração sobre a seleção e o campeonato local. O ex-atacante é visto como um cartola do bem no país e falou sobre o momento do país nesta entrevista.
O que se passa com o futebol uruguaio neste momento? Começou-se a fazer um trabalho profissional, sobretudo na base. Há mais estrutura e melhor forma de trabalhar a parte técnica e tática dos jovens.
Prova disso é ter ficado a frente da Argentina nos Sul-Americanos sub-20? Sim. E Tabárez está à frente disso tudo. Vemos hoje o Cavani despontar na Europa, isso começou lá atrás quando ele tinha 17, 18 anos. O trabalho foi mantido e estamos colhendo os frutos.
Qual é a importância do Tabárez hoje? Ele é muito estudioso. Foi jogador também e sabe passar o que aprendeu. Tem formação acadêmica como professor, isso ajuda muito.
Como está a saúde financeira dos clubes uruguaios? Não mudou muito, mas melhorou. Especialmente no caso dos clubes grandes como Nacional e Peñarol. Hoje se paga salários em dia, o que já é muito bom. Mas para nós, é melhor que o bom jogador vá cedo para a Europa e pegue outro ritmo para jogar na seleção. Somente Brasil e Argentina podem equiparar os salários europeus. No Brasil nós lamentamos quando perdemos um jogador para a Europa. Você está comemorando, é isso? Exatamente. O jogador que vai jogar na seleção tem outro ritmo. Lá podem oferecer mais do que podemos fazer aqui. O atleta se desenvolve. Perdemos para a Alemanha no final de semana por 2 a 1, mas no 2º tempo eles jogaram só dentro da área. Hoje jogamos diferente.
Quanto à final da Libertadores? Como o Peñarol pode parar Neymar? A questão é exatamente essa. Hoje o jogo é Peñarol x Neymar. Quanto ganha o Neymar? 350 mil dólares? É o que ganha todo o time do Peñarol, mais o técnico. É um dos melhores do mundo hoje. Ainda tem Ganso que está machucado e estamos acendendo velas para que não volte, além do Elano que é experiente. É um time fantástico.
E quem você destaca nesse time do Peñarol? Martinuccio? Martinuccio está bem, Oliveira é um goleador nato e Estoyanoff que entra sempre e é muito rápido, mas a luta é a base do time. Diego Aguirre é um técnico muito motivador. Não se esperava que o time passaria pelo campeão da Libertadores, o campeão chileno e o Vélez que será campeão da Argentina (é líder do Clausura, restando três rodadas para o fim). Eles tomaram gosto pela vitória. Quando se vence, vence e vence, você gosta e se acostuma a ganhar.
Santos ou Peñarol, quem leva? Torço para o meu país, mas o Brasil é uma potência. Seria como o Maracanã de 50 para nós.
Procure o post do jogo entre Santos e Cerro Portenho na semana passada. Parecia claro, a mim pelo menos, que Neymar criaria um gol para o time brasileiro. Fosse com uma finalização, uma assistência ou até falta sofrida. Isso era fácil de imaginar. A novidade foram os três gols sofridos – a primeira vez em 16 jogos sob o comando de Muricy Ramalho. Foi a segunda vez que a equipe marcou três gols depois da chegada de Muricy (a outra, vitória por 3 a 1 sobre o Paulista, com o time reserva). O desempenho ruim da defesa no Paraguai serve de lição, mas é exceção ao time que havia sofrido seis gols em 15 partidas com o treinador. Se quiser aprender com os erros, a equipe vai administrar jogos sem abdicar da partida. Mais um ótimo jogo de Neymar não é exceção. É regra. Contra Peñarol ou Vélez, o Santos chega como favorito à decisão.
O Coritiba chegou à decisão com o respaldo da temporada consistente, apesar do momento ruim. O Vasco tinha ao seu lado a empolgação pelo o que superou em 2011. O equilíbrio da final foi visto no campo, em São Januário. É fato que mais uma vez o Vasco não jogou bem dentro de casa. Assim foi contra ABC, Náutico, Atlético-PR e Avaí – a exceção da partida contra o Náutico, em todas o time sofreu gol. Fora do Rio de Janeiro, foi bem e isso anima os vascaínos.
Por outro lado, a queda de rendimento do Coritiba é evidente. Até a goleada por 6 a 0 sobre o Palmeiras foram 29 jogos com 27 vitórias e dois empates. 81 gols marcados. Depois, uma vitória, um empate e quatro derrotas. Dois gols marcados em seis partidas. O desempenho até o 6 a 0 era surreal, mas a queda logo na sequência pode mostrar que o Coxa não estava pronto para ser a “mira” dos adversários. Contra o Ceará, sofreu pouquíssimos sustos, mas não convenceu porque se esperava mais de quem passou por cima do Palmeiras.
Para vencer a Copa do Brasil, o Coritiba não precisa ser brilhante como já foi em 2011, mas está pressionado como nunca esteve. O Vasco já comeu o pão que o diabo amassou na temporada e chega à finalíssima com a vantagem construída no primeiro jogo. O time de Ricardo Gomes se assusta pouco, porque já viu de tudo.
O equilíbrio persiste e é irresponsável afirmar que o Vasco está com a mão na taça. Mas, além de estar mais acostumado à pressão, tem seu jogo encaixado. O Coritiba vive uma situação nova e precisa re-encontrar o futebol.
A janela para transferências internacionais será antecipada e o futebol brasileiro tende a perder com isso. Espera-se que os clubes possam inscrever jogadores entre 15 de junho e 15 de julho. Neste momento, Corinthians, Grêmio e Botafogo ganham os reforços de Alex, Mirales, Gilberto Silva e Renato por dez rodadas a mais do que se o estipulado previamente fosse cumprido. São três clubes e quatro atletas beneficiados. O número deve ser maior até 15 de julho, mas a tendência é que todos saiam perdendo.
A temporada europeia acabou de ser encerrada e os clubes mal começaram as avaliações de elenco para 2011/12. Negociar com um atleta, mesmo que esteja encostado em uma equipe da Europa hoje, é muito mais difícil do que no final de julho ou início de agosto, quando já se terão definidos os jogadores que serão utilizados na temporada.
É o caso de Henrique, que interessa ao Palmeiras ou Keirrison, nos planos de Atlético-MG e Bahia. Os dois jogadores pertencem ao Barcelona. Henrique estava emprestado ao Racing Santander e ainda não sabe se será incorporado ao time de Pep Guardiola. Caso não tenha espaço na Catalunha, o Barça tentará re-emprestá-lo a algum clube europeu. Em seguida, o Palmeiras. Como convencer os espanhois? Com dinheiro. Muito mais do que seria gasto em agosto. Nada impediria o Palmeiras de fixar uma proposta e esperar o fracasso de outros negócios, podendo subir a oferta eventualmente. Hoje, o Palmeiras não tem o benefício da espera e precisa subir a pedida. O caso de Keirrison é idêntico.
Fora isto, em agosto abre-se também a janela na Europa. Um jogador que for contratado na Itália, Inglaterra ou Alemanha, tira espaço de outro e cria a oportunidade de um negócio de ocasião. Se o Shakhtar Donetsky contrata um centroavante em 20 de julho, encosta Luiz Adriano ou Marcelo Moreno, por exemplo. Os brasileiros que precisarem de um jogador para a posição, terão de chupar dedo e esperar até janeiro.
Se a prematura abertura da janela vai de fato ser ruim para os clubes no Brasil, será impossível cravar. Certo é que se perderá o poder de barganhar bons negócios.