Tadeu Franco com Paulinho Narciso, Paulo Estêvão e Augusto Vieira(Bala Doce), em visita a Rádio 98
ENTREVISTA: TADEU FRANCO
Por Márcia Vieira
O cantor e compositor Tadeu Franco, faz show em Montes Claros, nesta quinta-feira, 4, dentro da 2° Jornada de Oncologia do Norte de Minas, promovida pela Fundação Dílson de Quadros Godinho.O show está programado para às 21h30h, logo após a solenidade de abertura, no Portal de Eventos. Confira entrevista com o cantor, por ocasião de recente visita a cidade, onde esteve por 3 dias, revendo amigos e divulgando seus trabalhos.
Tadeu Franco, sobre a música Nós Dois: “... Não consigo cantar essa música sem sofrer!...”
Sobre o Clube da Esquina: “...Tinha muita gente querendo chegar nos caras e eles não deixavam...”
Entrevista – Tadeu Franco
Por Márcia Vieira
Geraldo Tadeu Pereira Franca, ou apenas Tadeu Franco, cantor e compositor, esteve em Montes Claros, a convite do amigo de fé Augusto Vieira (Bala Doce). Na bagagem, o CD Pop Roça, saído do forno. Um trabalho que já a partir do nome, coloca em evidência o espírito único do mineiro, com suas crenças e brejeirices. Tadeu reencontrou amigos, fez novos, e de violão em punho, capitulou antigos e atuais sucessos, confirmando porque o seu nome está cravado no cenário musical das Gerais e na memória do país. Franco, mineiro de Itaobim, mora atualmente em Belo Horizonte, onde cumpre agenda de shows em redutos tradicionais da cidade. Em nosso encontro, o mineiro falou do seu trabalho, das dificuldades e alegrias da carreira, vida pessoal e até do “incômodo” de ser perseguido por um dos seus maiores sucessos, a música “Nós Dois”, composta por Celso Adolfo e gravada por ele em meados dos anos 80. Na sua visita de três dias à cidade das formigas, Tadeu destacou a receptividade dos montesclarenses, apresentou o seu trabalho em rádios locais(Rádio 98 FM, Rádio Terra, Unimontes e Rádio Expressão), visitou o Mercado Municipal, foi homenageado por fãs e amigos artistas e fez questão de ressaltar a sua alegria ao encontrar afinidades nas longas conversas sertanejas entabuladas com Paulinho Narciso e Peré Novaes.
MV: O menino Tadeu nasceu em Itaobim (Vale do Jequitinhonha) e....?
TF: O meu pai e minha mãe eram funcionários dos correios. Eu nasci na casa do correio e cresci vendo a minha mãe passar telegramas. Acho que pelo fato da telefonia ser meio ruim, nos escutávamos ela dizer: “p de pato, t de tatu” e tinha que ser uma figura especial e discreta, pois tudo que acontecia chegava por ali. Quando eu estava com cinco anos, nós fomos para Teófilo Otoni, para onde meu pai foi transferido. Minhas lembranças de cheiro, tempero, chuva, terra molhada, brincadeiras e as primeiras namoradinhas são de Teófilo Otoni, onde fui criado. Lá eu fiz as primeiras serenatas, ouvia muito a rádio Tupi. Sentava ao lado do meu pai, espontaneamente, e ouvia programas de adulto, músicas do Gonzagão. Meu pai explicava que o Gonzagão era do nordeste, do sertão. Eu achava aquilo muito bonito. Nós morávamos numa rua com 3 casinhas iguais, que pertenciam ao seu Roberto, dono do Cine Metrópole, que funcionava onde hoje é uma praça germânica em homenagem aos alemães Na cidade existe uma colônia alemã muito grande, então cresci comendo apfelstrudel (iguaria da cozinha alemã, preparada com maçãs) e outras coisas que nem sabíamos pronunciar o nome, mas encontrávamos na padaria. Na cidade havia muitos contrastes, ruas com nomes alemães misturadas a outras com nomes bem brejeiros. Havia também a igreja dos alemães, onde só eles se casavam e se batizavam, e o cemitério dos alemães. E mesmo assim, apesar dessa separação e distância, eles foram muito homenageados pela cidade. Existia ainda uma colônia de árabes muito grande, mas não se via um nome de árabe nas ruas, exceto uma, onde mora o meu irmão. Isso me incomodava e é uma lembrança que tenho até hoje.
MV: Como foi a sua vida em Teófilo Otoni?
TF: Lá em Teófilo Otoni, como disse, fiz as minhas primeiras serenatas e fui embora inclusive por conta disso. Apaixonei-me por uma moça de lá e quando chamei meus colegas para fazermos uma serenata em homenagem a ela, não achei companhia. No entanto, todo cara que terminava namoro, me procurava para fazer serenata. Meu pai estava quase me expulsando de casa. Minha serenata já era um pouco moderninha. Por volta de 1976, eu já sabia música do Fagner e cantava Mucuripe, Penas do Tiê, etc.. Eu cresci em Teófilo Otoni meio convencido de que seria um cantor.
MV: Eu soube que seu pai desaprovava suas pretensões artísticas, é verdade?
TF: Eu já fazia apresentações ainda menino. Ele não gostava que nós saíssemos e às vezes, quando tinha aniversário de um coleguinha, depois dos parabéns eu sempre cantava. Subia em cima de uma mesa e cantava uma música da Ângela Maria (“...tu és a criatura mais linda que meus olhos já viram...”). Devia ser engraçadinho porque menino fala tudo errado, né? (risos). Eu aprendi a letra toda e cantava. Quando meninote, aconteceu um programa de calouro lá em Teófilo Otoni e eu fui participar. Era transmitido pela rádio local. Eu fazia isso, mas nunca imaginava que tinha que ir para Rio de Janeiro ou São Paulo. Daí eu fui para Belo Horizonte, mas não exatamente para cantar. Fui para trabalhar em um emprego qualquer. De repente um amigo me levou a um barzinho e eu cantei, sem nunca ter me apresentado profissionalmente. O dono do barzinho, que tinha também um restaurante no centro de BH, me convidou para cantar. Ele sugeriu que eu almoçasse no restaurante e cantasse no bar nos finais de semana. Cantei e fui ficando.
MV: Tadeu, nessa época as coisas eram mais simples? Essa troca, por exemplo, valia a pena?
TF: Valia a pena. Eu procurei emprego em uma loja tradicional, porque achava que meus pais sentiriam vergonha de mim se eu fosse um cantor de bar. Mas quando cheguei, conheci gente que falava comigo pra procurar a Ordem dos Músicos, que eu nem sabia que existia. Só fui procurar o órgão no Rio de Janeiro, com o Aécio Flávio (músico mineiro), que me falou: “se você não tem a carteira, não vai poder se apresentar profissionalmente”. Então ele me levou na ordem dos músicos pra fazer um teste. O cara me pediu pra cantar, e eu escolhi uma música que eu tinha feito. (Nesse momento Tadeu pega o violão e faz uma demonstração. Modesto, arremata dizendo que na época estava mais jovem e que fazia melhor.). Bom, eu nunca tinha estudado cifras e tal, mas o cara me aprovou. Dia desses, eu estava vendo o Benito di Paula falar em entrevista que também não sabia nada.
MV: Como foi a experiência com o “Expresso Melodia” (projeto cultural itinerante, cujos shows eram transmitidos por rádios) ?
TF: Ah menina, pois é! O Expresso Melodia era um caminhão que virava palco e onde muita gente boa se apresentou. Gonzagão já fazia uma coisa assim, do tipo Expresso Melodia. Naquela época ele chegava numa cidade, pegava o equipamento e botava em cima do caminhão. Ali ele cantava pro povo. Por isso ele é um dos caras mais populares que já apareceu. O Expresso era um caminhão mais bem transado. Era um baú que se abria e tinha um palco. A Rádio Inconfidência transmitia ao vivo para toda a cidade de Belo Horizonte. O Marílton Borges, irmão do Lô, sempre me apresentava e eu cantava uma musiquinha minha, pois achava que tinha que ter um material próprio para cantar.
MV: Qual é a sua ligação com o Clube da Esquina (movimento musical criado por mineiros)?
TF: Eu ouvi pela primeira vez uma música do Clube da Esquina numa rádio em Teófilo Otoni, uma música de nome “Gran Circo”, do Milton Nascimento e Márcio Borges (...vem chegando a lona suja, o grande circo humano, com a fome do palhaço e a bailarina louca. Vamos festejar a costela que vai se quebrar, no trapézio é bobagem a miséria pouca...). Eu achei isso um barato. Cheguei a Belo Horizonte e não tirava aquelas músicas, não conseguia entender. Um amigo meu havia me mostrado um disco lá em Teófilo Otoni, o “Geraes”, onde ouvi a música “Fazenda”, do Nélson Ângelo, que depois de muitos anos virou um super amigo. Eu achava a música diferente, mas não conseguia tirar. Achava bonitas as melodias, mas ao mesmo tempo não gostava muito das letras. Como eu vim do sertão de Minas, eu gostava muito da música que sofria influência do sertão do Brasil. Tinha o Grupo Raízes, de Montes Claros e que a gente já tocava lá (...eu sou fruta do norte, no curral sou boi de corte, sou água de enxurrada, pau preto no pé da serra...). Eu cantava tudo isso sem nunca ter ouvido em disco. Ouvia apenas os amigos e aprendia. Gostava das letras que falavam do sertão e das paisagens. Não entendia muito as letras do Clube da Esquina e fui deixando pra lá. A única música que eu cantei do Clube, quando eu consegui tocar, foi “Itamarandiba”, que estava num disco da Simone, acho que de 1982. Falava do Jequitinhonha e foi quando comecei a tomar consciência de que a região era carente e inspirava. Dava pra associar o canto a essa coisa. As pessoas nos olhavam com mais carinho. Tinha que ter um sofrimento (risos). Eu tentava fazer como os mineiros do Clube faziam, mas nunca cheguei perto.
MV: O Clube da Esquina era um movimento fechado?
TF: Tinha por exemplo o Murilo Antunes, que era letrista, nascido em Pedra Azul e criado em Montes Claros, mas era difícil chegar nos caras, muito difícil. As pessoas falavam muito do Beto Guedes, de outros, mas já havia um grilo, porque tinha muita gente querendo chegar nos caras e eles não deixavam. Não era muito fechado, é porque realmente, eles batalharam muito e conseguiram emplacar as músicas, depois disso, ficava todo mundo querendo chegar e virar parceiro. Os caras então tinham que fechar. A Bossa Nova fez isso também. O movimento era deles. Não era qualquer zé mané que ia chegar lá, só porque tocou. O Jorge Bem, por exemplo, que foi colocado como Bossa Nova pela imprensa, não tem nada a ver com o estilo. Ele faz um som mais diferente, swingado.
MV: Você acha que a imprensa é responsável por inserir o artista nesse ou naquele lugar?
TF: Sim. A Imprensa inventa apelidos. “A Pequena Notável”, foi um jornalista que inventou para a Carmem Miranda. Isso é muito legal. É de uma importância fundamental para fixar o artista. As gravadoras também têm uma importância fundamental, apesar de se apoderarem da obra do cara e não pagarem o que ele merece. Elas investem dinheiro e não fossem elas, não existiriam os registros que estão aí.
MV: Como era a sua situação com as gravadoras?
TF: Eu nunca tive gravadora, porque em Belo Horizonte não existia. Eu saí para ir ao Rio de Janeiro com o Aécio Flávio e nos encontramos com o Roberto Menescal, que à época, era produtor da Polygram. A gente almoçou, ele conversou comigo e comentou com o Aécio: “esse menino tá me lembrando o Fagner”. Mas não deu em nada. Eu liguei umas três vezes para o Menescal e ele não me atendeu. Então não liguei mais. Só que de repente o Milton Nascimento estava morando em Belo Horizonte e foi assistir ao show de um cara. Eu estava participando e ele quis me conhecer. O Milton falou comigo: “fica tranqüilo que vai dar tudo certo pra você e tal.”. Ele já estava pensando em me chamar pra gravar com ele, sem me conhecer. Quando entramos em estúdio juntos, eu tinha conversado com ele apenas uma vez, quando ele me convidou pra almoçar em sua casa junto com uma turma. Eu cantei com ele uma música que se chama “Comunhão”. Nisso chegou a Simone, que cantou a música também. Então minha primeira experiência em estúdio foi olhar pros lados e ver Simone e Mílton Nascimento. A consequência disso é que a gravadora fez um disco comigo. Mas eu acho que ela fez foi pra agradar o Milton, pra prender o Milton lá. Só que ele não ficou. Eu fiquei, fui lá algumas vezes sozinho e eles me trataram de qualquer jeito. Resolvi não voltar mais.
MV: Você nunca ficou escravo de gravadora?
TF: Não, não quis isso não. Achava que não valia a pena. A gente levava uma graninha pro Rio de Janeiro e dava pra ficar lá no máximo uma semana, hospedado na casa de algum amigo. Meu irmão morava lá nessa época e eu fiquei na casa dele. O dinheiro ia acabando e eu tinha medo. Então guardava o dinheiro da passagem de volta. Quando retornava, ia lá, conversava, e os caras apareciam com um contrato pra mais um disco. Foi aí que surgiu o disco “Cativante”, onde gravei a música “Nós Dois” e outras que eu achava que iam tocar nas rádios. Não tocaram. Essa (Nós Dois) foi a que tocou em vários lugares do Brasil.
MV: Tadeu, é inevitável associar o seu nome a essa música. Isso te incomoda?
TF: O engraçado é que a música “Comunhão” foi gravada com o Milton e a Simone, virou clipe de sucesso no Fantástico e as pessoas não associam, mas lembram sempre da música “Nós Dois”. (Desconversa e começa a falar da gravadora). O disco que tem a música demorou a sair, e quando saiu, a gravadora, que era Ariola, já veio com o selo Barclay. A gente debochou, desdenhou, mas aí um cara falou que a tal gravadora era do Eddie Barclay, da França, que produziu os discos da Edith Piaf. Aí eu pensei: “Pó, tô na turma da Piaf!” (risos). Então eu adorei. Depois mudou de nome outra vez, virou BMG-Ariola.
MV: Qual foi o momento em que você se convenceu de que era um músico, um compositor?
TF: Músico mesmo eu nunca achei que fosse. Pra mim ele é o cara que chega, não fala nada e não quer saber o motivo do show. Recebe a grana dele e vai embora. Quando gravei o primeiro disco, coloquei uma música minha e achei conveniente ser um cantor que compõe. No segundo disco, “Alma Animal”, coloquei sete músicas de minha autoria, com parcerias. Depois eu fiz o “Orlando Silva”, uma encomenda de uma gravadora em São Paulo, pra homenagear o cantor. O Orlando já é um intérprete consagrado. Quem gosta dele cantando daquele jeito, não vais gostar de me ouvir cantando as músicas dele. Pintou uma insegurança, mas decidi cantar do jeito que eu sei. São músicas antigas que ele gravou nos anos 30, algumas fizeram sucesso no carnaval. Eu sabia que as músicas existiam, mas não sabia que era ele quem cantava. Pesquisei, ouvi, consultei pessoas e gravei 16 sucessos dele. Era uma gravadora brasileira que não tinha muito poder de fogo. Os caras, muito poetas e sonhadores estavam tentando resgatar, botar a música brasileira na roda de novo. E o pessoal do Brasil não está interessado, não é? Não está querendo, não sei porque. Falam que parece que o cara tem que sofrer e tal...Quem fica rico é quem canta música sertaneja e rock, o resto não fica. O Paulinho da Viola, por exemplo, é uma pessoa que tem uma obra fabulosa, mas precisa ficar fazendo luthier (fabricar instrumentos), quando era pra estar fazendo shows frequentes. É engraçado isso.
MV: Qual idéia que você tem para lidar com a quantidade de coisa ruim que é colocada diariamente na mídia?
TF: A gente que lida com música não pode ficar dependendo apenas do que toca na rádio todos os dias. No Brasil inteiro nós temos um problema. Quando se chega ao Maranhão, por exemplo, tem um locutor tentando falar como o locutor do Rio de Janeiro. No rádio, sempre está tocando música estrangeira em quase todas as emissoras. Quando não, é a música de fronteira, daquele brasileiro tentando trazer o som parecido. Se você vai ao Rio, no Ceará ou no Sul, você percebe que uniformizou. A gente então não pode depender disso. Ou faz um disco pela lei de incentivo ou independente, com orquestração pequena, sem muito arranjo. Temos essa alternativa, de ouvir de dentro ou ouvir de fora. O que vem de fora você não tem como impedir, está ali passando, está tocando e você ouvindo. O ouvido de dentro fecha pra isso. Você ouve o que quer. Tenho amigos que compõem, eu ouço e exercito isso. É difícil pegar uma música inédita, mas quando ela é boa e bem feita, você quer ouvir de novo. Então a gente sofre um pouco com isso, porque os caras que estão na mídia chegam primeiro nos grandes cantores. Ninguém leva o seu trabalho pra eles. Outro dia, encontrei com o Milton Nascimento numa solenidade de entrega de título de cidadão honorário. Ele estava lá, mas eu não tenho intimidade pra chegar e sentar à mesa. Então peguei o CD “Pop Roça”, entreguei pra ele e saí dali. Se não fizesse isso, ninguém faria. Os amigos que são meus e dele, não entregariam. Depois fui ao lançamento de um livro que a Maria Dolores escreveu sobre ele e levei o CD “Em Nome do Amor”. E olha só, é um cara que já gravei com ele. O Beto Guedes por exemplo, ainda não consegui entregar o CD. Tenho que encontrar casualmente (risos). Quanto a música que toca por aí, é difícil e anti-ético meter o pau. A minha filha ouve “Tô nem Aí”, “Festa no Apê”, essas músicas que tocam, mas ela gosta da minha música.
MV: As Leis de Incentivo funcionam de verdade?
TF: É uma coisa interessante, mas quando chega numa rádio eles não tocam pra estourar porque é patrocinada pelo Estado. Fica difícil competir.
MV: E o Tadeu na intimidade, como é?
TF: Eu sou aquele cara assim que casou já com 40 anos, ou seja, demorei a casar. Casei quando já tinha três filhos. Acho que surpreendi. O homem que fica ali solitário, só em boteco, pensa que não pega fama de galinha, de botequeiro, mas pega sim. Depois que casei, eu parei de sair.
MV: A sua esposa é do meio artístico?
TF: Não. Nunca tive envolvimento com pessoas do meio artístico, mas não é por algum motivo especial, apenas não aconteceu. A Solange, minha esposa, eu conheci quando fui cantar num comício do pai dela (Antônio Faria, um dos fundadores do PSDB), que era candidato a Deputado Estadual. Depois disso nunca mais a vi. Um dia nos reencontramos, ela estava separada e eu falei: “vamos casar e aí você não se separa mais”. Nos casamos no cartório. Eu precisava dessa formalidade, queria levá-la pra apresentar pros meus irmãos e sou meio careta. Acho que a gente tem que usar isso, como isso usa a gente. Tem que ir à igreja, batizar o filho. Eu acredito que isso seja necessário. Um pouco de amor é um descanso na loucura. Guimarães Rosa já dizia isso e eu estou repetindo aqui. Se a gente tem esse direito, é um exercício bom. Não é isso que é o ruim do negócio. O ruim é a hipocrisia, a violência familiar, essas coisas que se tem que resolver. A formalidade é bonitinha. Sou contra apenas à babaquice que isso gera.
MV: Você segue alguma religião, Tadeu?
TF: Não. Eu fui batizado na igreja católica e acho que ela tem seus erros, mas é legal em algumas coisas. É bom sair de casa, ir à igreja...
MV: Você é machista ou ciumento?
TF: Não. Não sou não. Talvez eu não seja muito romântico. Mas sou um cara dedicado, daquele tipo que gosta de consertar as coisas, que tenta resolver. Eu quero fazer o meu trabalho, ganhar a minha graninha e cuidar das minhas coisas. Meu pai tinha uma boa definição sobre o segredo de um bom casamento. Ele dizia o seguinte: “cuida da dispensa e dê uma boa assistência que não acaba nunca”. (risos).
MV: O que serve de inspiração pra você?
TF: A mulher, filhos, tudo é motivo de inspiração. O sofrimento, aqueles momentos em que você se recolhe. A gente vai pegando uma manha também e quando está tudo dolorido, às vezes fica muito na cara e não fica legal. A mulher sempre foi um tema constante. (Tadeu faz uma pausa, pega o violão e canta “Brasileira”, do CD “Pop Roça”).
MV: Além de cantar o que mais te dá alegria?
TF: Eu gosto muito de desenhar e agora estou querendo retomar isso (segundo o amigo Augusto “Bala Doce” Vieira, que acompanhava a entrevista, Tadeu Franco é um grande caricaturista). Na música estou trabalhando mais meu lado autoral e a Lei de Incentivo contribui para isso. Com gravadoras, o trabalho é mais comercial. Poderiam me pedir por exemplo, um disco de rock. Já fui roqueiro, mas hoje não cantaria algumas coisas. Tenho filhos e o que não quero para os meus filhos, também não quero para filhos dos outros.
MV: Em algum momento você se decepcionou com a resposta do público ou se refugiou em alguma coisa?
TF: Sempre existem os shows, mas de repente você se pergunta se é realmente artista, se está nos planos das pessoas. Um momento em que eu senti isso, foi quando organizaram um show no Palácio das Artes, pra contar a história da música brasileira. Levaram pessoas de fora, como a Elza Soares, o Tito Madi, mais experientes, mas fora da minha geração. Fizeram deles o chamariz e os artistas de Minas foram os coadjuvantes. Meu nome não estava na lista. Tinha um pessoal lá que não queria que eu estivesse. Eu fiquei triste, deprê e comecei a tocar em todo e qualquer barzinho que havia pra não me sentir largado. Depois fui pensar e vi que realmente não estava perdendo nada, apenas um cachê. Mas é muito gratificante quando chego aos lugares e vejo que as pessoas têm um carinho, que meu nome ta aí. Aqui em Montes Claros está acontecendo isso. Fui recebido com todo carinho por você, pelo Peré Novaes, pelo Paulinho Narciso ( ambos jornalistas, respectivamente, Jornal de Notícias e site montesclaros.com). Isso é muito bom!
MV: Como nasceu o Pop Roça?
TF: O Pop Roça foi elaborado a partir de historinhas que eu angariei dos meus amigos. É dedicado a eles e traz essa mistura, essa crença que os mineirinhos têm. Eu pensei: o Sá e Guarabyra não inventaram o rock rural? Então acho que vou inventar o Pop Roça (risos) .
MV: Tem algum trabalho que é a sua “menina dos olhos”?
TF: No momento eu to apaixonado pelo Por Roça, é o que ainda está em mim, mas a minha menina dos olhos é uma música que se chama “companheira”, do CD “Em Nome do Amor”. Nessa música o Beto (Guedes) canta comigo. No mesmo CD tem também uma participação de outro montesclarense, o Aggeu Marques, na música “Para Vencer a Solidão”
MV: Tadeu, vou voltar a uma pergunta que fiz e você não respondeu exatamente: te incomoda ser lembrado pela música “Nós Dois”?
TF: Incomoda pelo seguinte: tem determinadas músicas que viram uma espécie de talismã e a gente até utiliza para chamar. Inclusive, fiz uma alteração em cima de uma parte dela que eu mesmo havia criado, mas eu não consigo cantar essa música sem sofrer. Apesar disso, eu jamais deixo de cantá-la em shows. Ela é uma música muito retilínea e não serve para ser interpretada ao piano. Não pode ser cantarolada, senão você se perde. É uma melodia não muito bonita, mas com a letra fica interessante. É um sofrimento. Dias desses vi a Maria Bethânia dando entrevista e o cara perguntou: “e aquela música tal?”. Ela se transformou e respondeu mais ou menos o que eu falo sobre “Nós Dois”: eu não sei cantar essa música assim sem mais nem menos! Mas eu não posso desdenhar, porque se eu fui ao Sul da Bahia, Imperatriz, Açailândia e tantos lugares diferentes, foi por causa dessa música. Não teve nenhuma outra que me exigissem tanto. Mas o cantor não pode ser de uma música só. Já vi gente que comprou o disco e rodou apenas ela, sem ao menos conhecer as outras.
MV: Gosta de literatura?
TF: Gosto. Manuel Bandeira foi o primeiro poeta que me encantou porque falava de coisinhas simples, do porquinho da índia, dos meninos carvoeiros, que eu já conhecia desde garoto. Por sinal, a música mais recente que eu fiz foi em cima de um poema dele chamado “O Bicho”. Tem também a coisa do sertão, que eu me identifico muito e está na obra do Guimarães Rosa.
MV: Tem algum sonho, Tadeu?
TF: Comprar uma casa.
MV: Pesadelo?
TF: Ser bipolar. Talvez eu seja (risos). A gente tem que pedir perdão pelos nossos fantasmas.
MV: É vaidoso?
TF: Só um pouco
MV: Amizade:
TF: Como disse Guimarães, “amizade é como juventude. É tarefa para mais tarde se desmentir”.
MV: Tem preconceitos?
TF: Alguns.
E a entrevista foi encerrada, claro, ao som de uma bela música, com Tadeu Franco ao violão.
* entrevista à repórter Márcia Vieira, nos domínios do escritor Augusto Vieira (Bala Doce). Publicada no JN.
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Bilhete para Murilo
Por Márcia Vieira
Murilo Badaró e Márcia Vieira, durante entrevista, em 2008, na sede da Academia
Mineira de Letras, em Belo Horizonte-MG
O senhor partiu. Sem pedir licença, sem se despedir de mim.
Fez mal. Eu não o teria deixado ir. Diria que ainda é cedo, que falta mais.
E o almoço? Como é que ficamos?
Ora, partiu antes de almoçarmos? Isso não se faz.
Prometeu. Convidou-me. Ofereceria-me um almoço acadêmico e eu lhe contaria coisas daqui.
Eu cumpri. Na ponta da língua guardei histórias boas para oferecer ao senhor.
E o senhor, impaciente, partiu.
Com que olhos partiu?
Tinha lágrimas?
Não minta. Eu conheço a sua lágrima.
Deve ter gosto de sal, como toda lágrima,
mas tinha sombra de saudade, quando eu a vi.
Saudade sim. Estava lá.
Durante a entrevista que carinhosamente me concedeu.
Em cada página da revista de sua trajetória.
Na voz embargada ao telefone.
Saudade do passado. Dos amigos, dos companheiros, das lutas.
De Moc não, lembra? De Montes Claros sim.
Pediu-me: "Moc não! Montes Claros é o nome bonito!"
Ah sim, ainda tem a vinda a Montes Claros.
Esqueceu-se?
Prometeu-me também!
Ah Deus, porque as pessoas prometem coisas e saem sem ao menos dizer "até já"?
Telefonou-me para certificar-se do endereço, enviou a revista com pedaços da sua história,
Convidou-me a um almoço regado a muita e boa conversa, entre retratos e livros imortais,
e agora sai assim, sem aviso, sem bilhete.
Disse-me é verdade, no último telefonema: "com essa revista, tenho a sensação de missão cumprida.É a minha prestação de contas.Devo isso ao meu povo".
Estaria ajustando-se para a viagem?
Mas diga-me: porque sair assim, de repente?
Porque tanta pressa?
Tantos compromissos ainda...mais livros, comemorações, histórias, entrevistas, palestras, óperas,sinfonias, bate-papo, saudações...
E a necessidade da sua presença. Afável, agradável presença.
7, 14, 25....Deus, porque as pessoas escolhem junho para partir?
Será para que eu não as esqueça? Para que fiquem cravadas em minha memória?
Mas eu não as esqueço, acredite.
Guardo-as, "dentro do coração. Mesmo que o tempo e a distância digam não"...
Senhor Murilo, boa viagem!
Para Murilo Badaró
15 de junho,2010 -01h50m
Um Sarau Montesclarino
Por Márcia Vieira
Momentos da noite de Magnus, em casa de Felicidade. (Fotos: Márcia Vieira)
Por Márcia Vieira
Flashes do cantor Márcio Greyck durante entrevista em sua casa, em BH
Márcio Greyck: “... Enquanto eu viver, vou cantar cada vez melhor!”
“... Eu não lido com a morte, eu lido é com a vida....”
“... O romantismo é inerente à minha pessoa....”
“... Acho que hoje existe muito marketing...”
“... Abrir porta de carro, mandar flores, são alimentos do amor...”
Márcio Pereira Leite, um homem de olhos profundamente translúcidos não passa despercebido. O atento povo belorizontino se inquieta à sua passagem. Em bares da cidade ou passeando pelas ruas, olhares curiosos são lançados em sua direção. Alguns, menos tímidos o abordam com elogios. Márcio, que virou Greyck, ídolo de tantas gerações, nasceu na capital mineira, local que escolheu para viver, depois de rodar meio mundo levando a sua música. Excelente música, diga-se de passagem. Num tempo em que era preciso ter conteúdo para alcançar a fama, que o romantismo imperava, Márcio se destacou como artista completo. Compositor e intérprete, foi regravado por artistas como ele, do primeiro time da MPB (Roberto Carlos, Verônica Sabino, Fábio Junior, Wilson Simonal e outros). Ousado, posou para a capa de um LP, sentado numa cadeira de espaldar reto, de pés descalços, comendo uma maçã, quando a moda era focar apenas o rosto do artista. Ali, naquela foto, ele contava uma história, que se transformou em variadas interpretações. Foi ele também um dos pioneiros em batizar as canções com nomes quilométricos, fugindo do que era comum. Um exemplo? “O Mais Importante é o Verdadeiro Amor”, ou “Impossível acreditar que Perdi Você”, esta, já regravada por cerca de 70 artistas. Márcio, um homem romântico e de alma simples, tanto quanto as letras de suas canções, vive e trabalha em um espaço amplo, abençoado pela natureza e com pouquíssima intervenção do homem. No próximo dia 27, o cantor faz show na AABB, em Montes Claros, dentro de promoção do colunista João Jorge. Mas antes, numa tarde/noite chuvosa e clima ameno, na capital, nos concedeu esta entrevista, onde fala de carreira, família, isolamento, do rei Roberto Carlos, e claro, de amor, tema principal de sua música. Confira:
MG: Isso aconteceu em 1967 quando assinei o meu primeiro contrato com a Polydor e lancei meu primeiro LP. Antes eu ensaiava alguns nomes derivados de "Cherche" o sobrenome da família de minha mãe, que é de origem italiana, da ilha da Sardenha, até eu decidir que meu nome teria que ter uma influência inglesa, assim como os Beatles e Rolling Stones, que invadiam o mundo com suas músicas. Por isso inventei, modificando o sobrenome, acrescentando o y e o k no que já tinha sido assimilado como Grec, Grech e virei definitivamente, o "Greyck"! Interessante observar, é que até hoje eu já conheci mais de 20 Márcios Greycks por esses brasis afora! E isso também me enche de orgulho e satisfação!
MV: E a consciência de que era um profissional da música, quando surgiu?
MG: Quando eu ainda cantava nos programas de auditório em BH e fui então convidado a participar de um conjunto de bailes para atuar como crooner, onde eu cantava de tudo um pouco.
MV: Depois de BH, qual foi a primeira parada?
MG: Rio de Janeiro, ao completar 18 anos e com uma carta de emancipação assinada meio a contragosto por meu pai e ainda um disco (acetato) de demonstração em que eu cantava em italiano "Se piange se ride" gravada com o acompanhamento do conjunto The Brazilian Boys nos estúdios da Rádio Itatiaia em BH.
MV: Você gravou também em espanhol. Porque essa decisão, já que a música, bem como o amor, se utiliza da linguagem universal?
MG: Era e é, uma exigência do mercado latino que praticamente só absorve seu próprio idioma além do Inglês, principalmente quanto às canções românticas, assim como acontece também com o Roberto Carlos que regrava as suas canções em espanhol para poder ganhar aquele público. Alguns artistas brasileiros até que conseguem impor seu idioma quando são genuínos o bastante para não se poder traduzir as expressões culturalmente nossas, como as do João Bosco e Djavan, por exemplo. Já a minha música tem sabor mais internacional e por isso é preciso interpretá-las no idioma deles.
MV: Fora da cidade natal, no princípio da sua caminhada, qual foi o momento de maior dificuldade, aquele que você não se esquece nunca?
MG: O de ter que dar continuidade ao trabalho de lançamento de um disco e ter que contar somente comigo mesmo para conseguir espaço nos canais de comunicação da época, e que já começavam a se deteriorar com as corrupções, chamadas na época de “jabá”. Eu até já passava uma imagem de êxito, mas a grana ainda era curta e o sufoco de ter que posar de artista de sucesso, era bastante difícil. Muitas vezes eu andava a pé o dia inteiro, indo de emissora em emissora economizando, para tentar conseguir tocar minhas músicas o maior número de vezes que fosse possível!
MV: Márcio, o artista costuma reclamar que as gravadoras visam apenas o lado comercial, sem se importar com o que ele, o artista, pensa. E você, como lidou com isso ao longo da carreira? Já foi obrigado a produzir o que não gosta?
MG: Sim. E apesar de ter conseguido certa regalia, com a carta branca que nos foi legada pelos Beatles, eu até que nem posso reclamar muito, pois brinquei e experimentei um bocado nos precários estúdios, do princípio em que eu também não sabia sequer que rumo seguir. Foi então que me agarrei aos Beatles como um verdadeiro norte para minha carreira, uma espécie de vanguarda dentro da jovem guarda. Mas o tempo trouxe a maturidade, a experiência, e com a segurança do êxito, foi que eu consegui me impor nesse processo de criação. Tive que aprender a compor as minhas próprias canções para não ser obrigado a cantar o que não queria, até porque os compositores já estavam gravando, eles próprios, as suas composições e não estava sobrando para os que eram simplesmente intérpretes.
MV: Como era o assédio das fãs e o que mudou com o tempo? Você chegou a se envolver com alguma delas?
MG: Era uma verdadeira loucura o delírio e o frenesi que acontecia quando eu me apresentava principalmente nos estados do Nordeste do Brasil, para onde iam os tapes gravados no "Telecentro" da TV Tupi do Rio e as suas afiliadas. Lá, fui contratado com exclusividade para atuar em todos os programas da emissora, assim como uma espécie de curinga. Inclusive, acabei por também apresentar o meu próprio na TV Tupi de São Paulo, e que chamamos de "O Mundo é dos Jovens" em 1968. E eu me envolvia o suficiente com as minhas fãs para tentar agradar a todas.
MV: Seus dois filhos também seguiram pela carreira musical. Foi por influência sua ou em algum momento você foi contrário à decisão?
MG: Eles nasceram com o dom da música assim como eu e também são autodidatas. É claro que eu devo ter influenciado em alguma coisa para que seguissem naturalmente os meus passos nessa carreira. Confesso que fico um pouco apreensivo quanto às mudanças acontecidas com o passar do tempo, não só no cenário artístico, em que os valores hoje são outros que não os do talento específico de cada artista, mas quanto ao capital, ou o patrocínio que esse artista possa disponibilizar para conseguir fazer sucesso. O Bruno Miguel é ator e cantor. Fizemos uma música em parceria, que entrou como tema de Malhação. Foi um disco que vendeu mais de seiscentas mil cópias, sem divulgação. O Bruno está acabando de lançar um CD e já foi com 7 indicações para o Grammy, o que já foi uma realização. Ele é um grande compositor, as canções são lindas e românticas. O Rafael, que se casou há pouco tempo, e mora também no Rio, tem uma música mais refinada, que não é tão popular como a do Bruno.
MV: Quantos casamentos e como foram as suas relações? Você é um romântico, como deixa parecer nas letras de suas canções?
MG: Creio já ter sido bem mais romântico algum dia, antes das inexoráveis desilusões, mas o romantismo é inerente a minha pessoa. A minha personalidade é assim desde os meus tempos de rapaz, em que eu vivia com o violão à tira-colo, sonhando e cantando embaixo das janelas das namoradas e amigas, nas frias madrugadas de BH. Eu praticamente me casei duas vezes com a mesma mulher e com a qual tive dois filhos em duas etapas de separação. O Rafael Greyck na primeira etapa, e o Bruno Miguel na segunda.
MV: Em algum momento você precisou se isolar, se distanciar um pouco, para entender o sucesso e as variações pelas quais passa todo artista? Qual é saída para não ser vítima das armadilhas?
MG: Eu não sei dizer quanto ao que se passou ou se passa com outros artistas, mas comigo, em um determinado momento, baixou uma completa desmotivação e perda do entusiasmo natural, por conta de uma gama de coisas negativas que já vinham acontecendo no meu universo musical, como a inversão dos valores, e que, somadas às desilusões amorosas, mais a problemática da minha própria infra-estrutura profissional defasada, fizeram com que eu decidisse parar com tudo e me refugiar em um sítio, que felizmente eu havia adquirido em Saquarema-RJ. Para lá fui, literalmente, me internar por uns dez anos, plantando batatas, analisando o comportamento social das galinhas, observando a trajetória das formigas e com isso, tentando me auto-analisar, até me sentir capaz de me dar alta, voltar para Belo Horizonte e resgatar meu sonho de novo, do princípio, e a por os pés na estrada novamente, o que me custou no total, uns bons 14 anos de hiato! Creio que para não se deixar ser vítima dessas armadilhas, além da sorte e uma boa infra-estrutura particular, tem que ser de um tipo muito, mas muito otimista mesmo, assim como o Roberto Carlos por exemplo, que já passou por tantas pressões como todos nós sabemos, mas que continua firme e resoluto como no princípio, e ainda comandando, sempre na frente!
MV: Márcio, como é a sua rotina? Tem horários rígidos, disciplina no dia-a-dia?
MG: Procuro sempre viver cada dia em especial como se fosse um novo começo! Sou feliz por ter esse privilégio de fazer do meu dia na semana o que eu quiser, quando não estou cumprindo agenda de shows, o que eu também adoro fazer! E a minha disciplina natural é tomar um copo d’água em jejum todos os dias, em seguida pegar quinze minutos de sol, bem cedo, logo quando ele aparece, agradecendo sempre o privilégio da vida. Como frutas no café da manhã, que aproveito para incrementar com pão integral, leite e farinha de semente de linhaça que agora adotei, além de uma pitada de canela em pó.
MV: Quando não está cantando, o que mais gosta de fazer?
MG: Gosto de cuidar do meu jardim, de mantê-lo sempre vivo e também de me comunicar com os amigos através da internet. Me perco no tempo escrevendo as minhas memórias de infância, adolescência e juventude, e pretendo, um dia, lançá-las em livro. Adoro ficar no meu home-stúdio, remixando idéias antigas e de canções novas, descobrindo novos truques.
MV: De que forma Deus está presente em sua vida? Você tem alguma crença, religião?
MG: Para mim, Deus é muito mais... Abundantemente além de tudo o que alguém possa pensar ou imaginar! Ele pode viver interiormente dentro de nós, como parte de nós mesmos, e como uma benção, se assim quisermos.
MV: Como é que Márcio lida com a morte?
MG: Eu não lido com a morte (assustado). Eu lido é com a vida (risos)! Morte pra mim, é consequência natural, uma passagem que vou ter que encarar um dia, mas eu não estou nem aí pra ela não, eu estou aí é pra vida. Não tenho medo de morte, mas não vou ficar dissertando sobre isso, porque não é assunto agradável.
MV: Então tem receio...
MG: com relação a que os outros possam ter a impressão errada do meu ponto de vista sobre morte, porque pra mim, morreu, acabou. O que fica é a energia que a pessoa deixou. Sinto isso, através de pessoas que perdi, que gostava muito. Sinto a presença delas ainda, como se não tivessem morrido. Isso é a energia, o que transcende. O que transcende a eternidade pra mim, são exatamente os valores que você repassa para os seus descendentes. Os Incas acabaram, porque eles não repassaram a cultura deles. Chegou um ponto em que eles foram exterminados....
MV: Como foi que criou seus filhos?
MG: Foram fases boas e fases ruins... Eu não tive o privilégio de acompanhar o crescimento dos meus filhos na íntegra. Foram criados hiatos profundos nessa minha convivência e foram muito ruins esses pedaços. Mas o que tivemos de convivência foi maravilhoso. Sempre procurei ser um pai presente, amigo, irmão... Aliás, até errei nisso, porque fui mais amigo do que pai. E um pai não pode deixar de ser pai mesmo. A gente não faz curso pra ser pai ou ser mãe, a gente vai na intuição e no amor. Fiquei confuso porque sou de um tempo em que o pai era a expressão máxima da autoridade, do respeito, e a minha geração era mais solta, mais relax. A dos meus pais era mais austera, mais rígida. Não posso reclamar dos meus filhos. O mais velho talvez seja um pouco mais rebelde, exatamente pela minha falta de experiência, de deixar muito à vontade, de paparicar demais. Com o mais jovem, procurei equilibrar o pai e o amigo, sem exacerbar nenhum dos dois.
MV: Depois de dois casamentos com a mesma mulher você não quis mais se casar?
MG: O destino não me favoreceu nesse ponto de vista. Fiquei muito anestesiado quanto a qualquer tipo de coisa nova e até com um certo temor, porque foi uma fase difícil, complicada, me afetou profundamente, exatamente num momento em que profissionalmente também passava por fases complicadas. Isso inclusive, foi o que determinou que eu chegasse um dia e falasse: “vou parar, vou sumir desse universo e ninguém mais vai saber de mim”. Felizmente tinha um sítio em Saquarema e fui pra lá. Fiz uma terapia e decidi: “vou voltar pra minha terra, que é Belo Horizonte”. Voltei em 1992 e fiquei incógnita sem ninguém saber. Montei um bar (Doce Ilusão) e através dele recobrei a minha motivação. Deu um trabalho danado, mas me ajudou muito. Tinha um espaço favorável ao que eu queria fazer, mas ficou grande pra scoth bar e pequeno pra casa de espetáculo. Foi aí que desisti, pois era eu quem tinha que segurar a onda com shows. Acabei assumindo o palco e tudo isso foi positivo, porque acabei me reencontrando, reencontrei amigos, constatei uma receptividade, como se eu jamais tivesse me afastado. Vendi o bar, montei uma banda e coloquei o pé na estrada.
MV: Márcio, como era esse público?
MG: Tinha os mesmos fãs e pessoas mais jovens. Surpreendentemente eu tenho tido o privilégio de me comunicar bem com os jovens, porque a minha canção, apesar de ser romântica, é muito densa, honesta, sempre o relato de um sentimento.
MV: foram dores realmente vividas?
MG: Vividas sim. Não na intensidade da canção inteira, porque o cantor tem a prerrogativa de usar exemplos que não sejam os seus para finalizar uma idéia de uma composição. Mas pra falar, tem que ser honesto, que tenha vivido ou participado. E na estrada eu me surpreendi com esse público cada vez mais jovem, os novos artistas regravando as minhas canções... Isso me deu motivação e eu comecei a criar uma perspectiva para o Márcio Greyck, que na verdade eu queria matar, pois já tinha desmaiado ele, deixado em coma. Eu queria matar pra renascer um outro artista com essa visão que eu acabei ganhando, através desse hiato. De fora, eu pude acompanhar a evolução e me distanciar do que eu era. Me atualizei e com dois filhos jovens com quem troco figurinhas, me mantive com uma sintonia jovem. Há pouco tempo escutei uma frase dita pelo (Charles) Aznavour. Ele disse que quando os jovens se apaixonam vão a loja comprar discos dele. Isso acontece porque ele é atual. O romantismo se defasa e evolui também. Pude constatar que apesar dos pesares, a minha canção continua assimilada pela juventude, porque o que eu falo, vai de encontro ao sentimento deles. Isso é muito legal. Tive a alegria de ser parceiro do Zeca Baleiro, que me convidou pra fazer shows com ele.
MV: É um dos seus ídolos dos dias atuais?
MG: Sim! O Zeca Baleiro, o Paulinho Moska, o Lenini entre outros...
MV: Todos eles são cantores alternativos, não estão na mídia todos os dias, mas tem um público específico....
MG: São três gênios contemporâneos e eu consigo ver a genialidade no trabalho deles. Eles são de uma geração depois da minha e conseguem falar pra essa juventude aí.
MV: Qual a definição pra sua geração?
MG: Eu sou de uma geração de busca, de inovações, de ousadias, então eu não sei o que eu quero, mas eu sei o que não quero.
MV: Márcio, você tem alguma espécie de aversão àqueles que estão expostos demais?
MG: Não. Mas os valores modificaram. Eu ficaria uma noite inteira falando sobre isso, porque acompanhei de perto, sofri na pele toda essa transformação.
MV: Você chegou a questionar seu próprio talento?
MG: Sim, eu fui de certo modo, vítima dessa mudança de valores, onde o talento hoje é colocado em segundo plano. Mas sempre questiono, porque sou muito auto-crítico, aliás, até demais e isso foi prejudicial. Hoje sou menos, porque deixei o virginiano um pouco de lado. Atualmente sou mais sagitariano e isso é ótimo, porque eu parei de sofrer tanto, como virginiano que era.
Nota: segundo a astrologia, com a maturidade, há uma prevalência do signo ascendente, em detrimento do solar.
MV: O sagitariano é mais livre e isso retrata um pouco a sua maneira de viver, pelo que eu vejo aqui, na sua casa. Fale um pouco sobre isso.
MG: Pois é, isso é o meu retrato, a minha casa. Essa simplicidade sou eu mesmo. Não sou avesso ao luxo. Freqüento muitos ambientes de luxo e me dou muito bem. Mas eu diria que sou 30% urbano e 70% sertanejo, no sentido mais interiorano da coisa. Eu sou mais mato. Gosto mais da fazenda do que da cidade. Gosto da cidade também, não posso ficar sem um shopping de vez em quando, mas sou apaixonado pelo sertão. A minha casa ficou sendo um retrato desse meu jeito mineiro de ser, apesar de 30 anos no Rio de Janeiro. Tudo aqui sou eu, mas não chamo isso aqui de uma casa pronta. Continua sendo um acampamento... Tenho a suíte, mas monto uma barraca no quintal e durmo escutando os grilos. Sinto uma liberdade imensa, me sinto num ambiente rústico, improvisado, mas com uma ambientação totalmente identificada comigo. Desde criança sou assim. Papai nos levava pra pescar, ficávamos acampados na beira do rio... Eu trago isso naturalmente... Talvez daqui a 10,15 anos a casa esteja pronta. Não existe um planejamento.
MV: Como é a sua história familiar, Márcio?
MG: Tive um pai, pai. Em determinado momento, ele quis ser amigo, não quis mais ser pai.
MV: E você recusou?
MG: Por isso é que eu acho que também não agi muito corretamente, porque na verdade, aquela transformação do meu pai foi boa por um lado. Por outro, eu senti falta. Por mais independente que você seja, passa a sentir isso, quando os pais morrem. O meu já faleceu e foi um golpe. Eu me senti cortado do cordão umbilical... Dá um certo temor da vida, porque você se sente realmente isolado. Naquele momento de pai ele me conflitou muito, especialmente na questão religiosa. Ele me colocou essa questão no momento errado, eu tinha 13 para 14 anos e eu passei a minha vida com o conflito, tentando me encontrar dentro desse contexto, de sim e não, de acreditar ou não. Felizmente eu tinha uma cabeça boa pra pensar, fui pensando, concluindo e hoje tenho um conceito sobre tudo isso, mas naquele momento acho que ele agiu errado. Sempre fui um filho disciplinado. Detestava que me chamassem atenção, acho que isso é característica do meu signo.
MV: Você gravou quantos discos?
MG: Gravei 14 LPs, antes do advento do CD, que foi quando eu parei, em 1984. E em 1997, o Roberto Menescal, da gravadora Albatroz, me convidou pra colocar um CD no mercado, com arranjos contemporâneos e lançar um disco. Achei a idéia interessante, porque não tinha CD na praça. Nessa época, a gravadora CBS (atual Sony) por exemplo, relançou uma compilação com meus sucessos remasterizados originais, e eu notei que o público dava preferência aos originais, por mais precária que tenha sido a gravação. Eu também sou assim, eu gosto da coisa antiga, como foi feita mesmo. Esse disco então, cedeu vez aos originais que as gravadoras começaram a relançar e foi extraordinário.
MV: Márcio, você acha que essa busca pelo que aconteceu, é porque o que está no mercado é muito ruim?
MG: Acho que um pouco, é sim. O que está ruim, é que muitas emissoras estão comprometidas com o processo da mudança de valores. Hoje você não ouve o que você quer, mas sim, o que eles querem que você ouça. Antigamente os disc-joqueis, tinham a prerrogativa de lançar o disco e tal. Se eles escutassem na discoteca e não gostassem, eles não queimariam o filme deles assinando embaixo. Hoje não existe isso. O que se assina é um cheque. O interesse maior é pelo resultado econômico tanto pras gravadoras, quanto pras rádios e pros artistas. Havia uma pesquisa sobre o que o público estava querendo. Naturalmente, diante da repercussão positiva, eles continuavam tocando. Algumas coisas são massificadas e até eu, outro dia, me peguei assoviando uma coisa dessas aí (risos)... É tudo muito diferente do que eu vivi. Costumo dizer brincando que demorei pra aprender as respostas e agora eles mudaram as perguntas (mais risos).
MV: Você sempre diz “quando eu parei”. Nesse período você não produziu nada?
MG: Foi uma estagnação mesmo. Uma parada total, mas como compositor não. Quem parou foi o cantor. Eu tinha meu sítio, um piano velho, o meu violão. Sempre compus. Tenho muitas canções inéditas, que pretendo lançar um dia. Agora tenho meu studio, fico elaborando algumas coisas, experimentando arranjos novos, novos acordes, amadurecendo essas canções.
MV: É incômodo quando o público pede as mesmas músicas?
MG: De jeito nenhum. Pelo contrário, isso me deixa feliz, porque tenho a certeza de que estou levando para as pessoas um produto e que elas estão com expectativa daquilo que vou entregar. É ruim quando a pessoa vai ao show de um artista, paga caro e não ouve a canção que queria que ele cantasse. Coisa nova não é pra show, é pra rádio. Primeiro o artista tem que divulgar. Ele tem até uma certa autoridade de cantar uma ou duas novas, mas o povo não quer pagar pra ouvir um monte de coisa nova. Acho isso uma incoerência de muitos artistas. Fico feliz de poder levar o meu show, porque ele é o que as pessoas estão esperando.
MG: Pro show em Montes Claros, você já pode adiantar com qual música pretende fechar?
MV: É surpresa. A surpresa é mais legal. É como quando você guarda o artista antes do show e depois anuncia o nome dele. Fica uma expectativa e é diferente de quando ele fica ali no saguão conversando com as pessoas, batendo papo. Não sou radical quanto a isso. Já entrei diversas vezes pela frente, passando pelas pessoas e dando tchau. Tudo bem, mas acho que a surpresa é sempre mais legal. O show tem uma dinâmica, tem um contexto. As canções estão inseridas num contexto chamado “No tempo, No Ar, No Coração”. Mas o final tem que ser surpresa.
MV: De todas as interpretações para “Impossível Acreditar que Perdi Você”, qual você gosta mais?
MG: É muito difícil dizer qual delas eu gosto mais, das mais de 70 regravações dessa mesma canção. Tem pessoas que vem sempre falar sobre o repertório e essa música é sempre citada. Ela é contemporânea, é profunda. Serei sincero em dizer que não troco a minha versão por nenhuma delas, apesar de gostar de todas. Porque tem ali uma dose muito grande de honestidade com o sentimento. Outras canções que não são minhas, eu canto com a mesma propriedade, porque se eu não conseguir sentir, vivenciar a música, eu não canto.
MV: Quem jamais poderia gravar Márcio Greyck?
MG: Não tenho a menor idéia, já que música para mim é uma questão de conceitos ou preconceitos! Eu posso ter uma visão e uma leitura completamente diferente da que foi proposta em uma canção. Sou capaz de imaginar como exemplo, o grupo Sepultura cantando "Mamãe eu quero", entende? Ou o Skank cantando uma marchinha da Emilinha Borba.
MV: Qual das suas músicas é a favorita?
MG: Ah, é difícil. Musica é como filho. Não dá pra falar “esse é o que eu gosto mais”. Você pode até ter mais afinidade com um ou outro, mas o amor é o mesmo. Claro que tem canções mais densas, mais marcantes na vida da gente. “Vivendo por Viver” talvez seja uma canção que tenha me realizado profundamente como compositor.Foi uma realização dupla. Concluindo a canção de uma forma satisfatória pra mim mesmo e depois ouvindo na voz do Roberto Carlos.
MV: Ele te emocionou?
MG: Sim. O Roberto Carlos me emociona mais do que eu mesmo nessa canção. O Roberto tem essa capacidade de emocionar a gente. É uma coisa que ele não consegue explicar, que ninguém sabe explicar. “Vivendo por Viver” é um caso especial, porque com o Roberto gravando passou a ser uma outra realização, porque ele é top até hoje. Há cinqüenta anos ele é top. Ele é realmente o rei do universo musical brasileiro, é o cara! Ele deu show de interpretação. Quando gravou, por volta de 1978, eu tinha um toca-fitas no carro, coloquei uma fita e dei mais ou menos umas trinta ou quarenta voltas no Aterro do Flamengo, indo do Aeroporto Santos Dumont à Copacabana, chorando e ouvindo seguidamente a música tantas quantas as voltas que dei. Ele me mandou um monte de xingamentos também porque eu o fiz chorar (risos)... Aquilo é um presente pra um compositor. Aliás, o Roberto é o intérprete que todo compositor brasileiro gostaria de ver gravando sua canção. Mas não são todos que tem esse privilégio. Eu sei de alguns importantíssimos que tentaram e não conseguiram. Ele é muito verdadeiro e grava aquilo que sente. Isso é uma coisa que ele tem e eu acho muito bacana.
MV: Como é o seu relacionamento com ele, Márcio?
MG: Muito bom, a gente é muito amigo, só não temos convivido. Ele tem uma agenda muito grande, eu também estou vivendo aqui, longe do Rio e viajando muito, mas quando nos encontramos o abraço é sempre verdadeiro, recíproco. Eu sou um fã ardoroso de Roberto Carlos e tenho o privilégio de saber que ele também é meu fã.
MV: E com os outros integrantes da Jovem Guarda?
MG: Na verdade, acabei entrando na Jovem Guarda e achei bom, porque eu não estava em contexto nenhum. É importante que você esteja em alguma tribo, liderando ou acompanhando algum setor. A Tropicália veio e me encantou, mas as letras não eram condizentes com a minha idade. Eu queria falar de amor da forma como eu falava. Os arranjos ficaram vanguardas, mas as letras continuavam inocentes e puras, de acordo com a minha fase de garoto, falando sobre amor e tal... Eu falo que fui meio vanguarda porque dentro desse movimento, eu lancei arranjos do quarteto de cordas, orquestra de câmara, que os Beatles estavam lançando e a própria tropicália... Mas as letras da tropicália, você tinha que mastigar muito pra entender. Eram letras complexas, coisas que a gente não estava acostumado. Isso me encantou muito, mas eu não conseguia me enquadrar como artista, porque a minha proposta era emocionar. As pessoas diziam: “O Márcio é da Jovem Guarda”, e acabei ficando por lá. Tenho orgulho muito grande, porque a Jovem Guarda se transformou num movimento espontâneo do Brasil inteiro. Um programa de televisão virou um conceito musical. Alguns são amigos até hoje. Sempre foi muito agradável a nossa convivência. O Jerry Adriany é padrinho do meu filho, o Rafael. Continuamos amigos apesar da distância. Recentemente nos encontramos no Aeroporto e achei o Jerry meio abatido. Ele perdeu a mãe e era filho único.
MV: Márcio, a música romântica já foi chamada de brega....
MG: Já foi chamado sim, mas não mais. Numa época eu achava incômodo, porque conheci o termo brega, de onde nasceu. Era uma pretensão do romantismo, mas sem tratamento, sem preocupação com gramática, com a coerência das frases, com o bom gosto nos arranjos. Me incomodou, quando o termo começou a abranger tudo que era romântico.
MV: Toda uma turma foi enquadrada...
MG: Foi uma coisa assimilada de uma forma equivocada. Brega é o mau gosto, a falta de capricho, o não saber das coisas.
MV: Qual seu defeito ou mania, irritante?
MG: Eu tinha a mania de roer as unhas desde criança. Ansiedade, nervosismo, timidez, um pouco de tudo. Isso veio comigo e eu não gostava. Há uns dez anos parei completamente. Decidi, porque descobri que a sonoridade dos instrumentos que eu tocava era melhor com unhas maiores. Fiz um sacrifício, me empolguei e aquilo me ajudou. Nunca mais roí as unhas. (risos).
MV: Você tinha uma briguinha com o Ronnie Von?
MG: Absolutamente. Aliás, numa época fui entrevistado por uma jornalista e ela me perguntou se eu imitava o Ronnie Von, porque eu tinha o cabelo grande também. Na resposta, disse que não, que admirava o trabalho dele e tínhamos muito em comum, mas era uma coincidência e todo mundo era igual aos Beatles, não ao Ronnie Von. Tínhamos todos a mesma influência. Mas a manchete saiu deturpada. E o Ronnie é meu amigo, foi meu padrinho de casamento.
MV: Como é viver em Belo Horizonte?
MG: Eu vivo uma vida que é um privilégio. Continuo fazendo o que eu gosto, que me sustenta e me mantém. Vivo da música, modestamente, mas não trocaria com Bill Gates em momento algum o que eu vivo. Faço o que gosto, vivencio todas as emoções de um artista de palco, dou autógrafos, sinto prazer em atender as pessoas que me trazem carinho, paro e converso com os que me abordam, mas não sou escravo disso. Tenho um tempo meu que não tem preço. Se você se comporta assim, qualquer tumulto passa, agora se fizer charme de artista, é claro que isso vai chamar atenção. Acho que hoje existe muito marketing. Em outros tempos nem se usava essa palavra. Começam a inventar coisinhas e tal... Sou avesso a essas coisas. Sou da maneira como você me vê aqui. No palco eu me transformo. Entro com a incumbência de passar aquela emoção que as pessoas estão esperando. Fico mais compenetrado naquilo que estou fazendo. Tenho que dar tudo de mim. As pessoas pagaram pra isso.
MV: Quando você está entre amigos e eles te pedem pra cantar, como é que você faz?
MG: Olha, eu parei de ir à festa (risos). Eles não pedem atendimento para um médico ou dentista, mas com o artista, eles acham que é brincadeira. É desgastante, porque você tem que se imbuir de um personagem.
MV: Você já quis ter uma outra profissão?
MG: Márcio Greyck são muitos. Profissionalmente não, mas eu gosto de várias coisas. Já pintei quadros e parei porque tinha alergia. Acabei perdendo a motivação, mas vou recomeçar. Na adolescência trabalhei como ajudante de um cenógrafo. Aprendi muita coisa, cheguei a pensar naquilo como um bom caminho. Estou aberto a outro tipo de arte também. Talvez fosse um cozinheiro. Quando vivi no Rio, não tinha muito suporte de empregada, então senti necessidade numa das separações, quando meu filho ficou comigo um tempo, de fazer comida pra ele... Acabei me encontrando naquilo, transformava pratos e tal... Culinária é uma tremenda arte. Aqui na minha casa tenho um fogão à lenha e pretendo, quando sobrar tempo, ter mais acesso a ele, cozinhar mais, chamar os amigos e curtir cada vez mais. Apesar de ser um cara solitário na vida, sou muito família.
MV: Existia tietagem em meio a família?
MG: Sim, existia. Minha voz era aguda e muito forte. Somos uma família musical. Meus tios tocavam cavaquinho, violão de sete cordas e aquilo tudo me envolvia. Cada um cantava uma e na minha vez, eu soltava o leão de uma forma diferente. Desde aquele tempo, me acostumei com os paparicos das tias, primas, presentinhos, como doces, etc. Isso tudo me influenciou pra que eu continuasse achando que meu caminho era aquele mesmo.
MV: Você teve programa de rádio e TV. Qual é o veículo mais interessante?
MG: A televisão é muito legal, mas eu acho que o rádio tem um encantamento que a TV não tem. É muito mais divertido fazer rádio. A TV te expõe muito e no rádio, existe a imaginação. Tive programa na (Rádio) Inconfidência e até pouco tempo apresentava, mas o horário era ingrato e eu tinha que fazer shows. Sou fascinado com o universo do rádio.
MV: Como é que se faz para contratar o Márcio Greyck ?
MG: Muito simples. Eu tenho um site (www.marciogreyck.com.br) onde as pessoas entram e tem uma noção do que já foi o Márcio. É um site simples e objetivo. Lá tem os telefones de contato.
MV: Não gosto quando você fala “já foi”. O Márcio “é.”
MG: Não. O que já foi, já foi. Pra continuar sendo o mesmo, foi preciso passar por mudanças. Se eu não tivesse mudado, eu talvez fosse uma coisa que as pessoas identificassem só lá naquela época. Eu chego no palco contemporaneamente. Estou ali pra atender as pessoas que me conhecem e também pra conquistar os mais novos. É o mesmo Márcio Greyck, mas renovado.
MV: Como anda sua agenda de shows?
MG: Tenho feito muito show fora de BH. Mas aqui é minha casa, então todo ano tenho que fazer. Fora do país também faço shows. Fui convidado para fazer um programa especial na televisão italiana, e talvez dê uma esticada em Portugal, porque sou padrinho de casamento do Roberto Leal e nunca fui à Portugal. Tenho discos lançados lá e é uma oportunidade de mostrar o meu trabalho. Por agora tenho shows no Maranhão, Belo Horizonte, Fortaleza, Natal, Teresina e Montes Claros.
MV: Essa rotina não te cansa?
MG: Cansa, mas eu gosto. Vivencio aquilo que é pra ser vivido. Não vou contrariado a uma viagem, eu vou feliz. Procuro curtir a trajetória e não apenas o destino. Não era assim, mas agora eu sou.
MV: Você parece o mesmo Márcio de antes. Faz alguma coisa para se manter em forma ou saudável? Como é que você lida com a vaidade?
MG: Bem, a minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos.... Ficaram brancos naturalmente!..(risos). Não pinto, porque é isso que sou eu. Não vou maquiar nada, vou ficar cheio de ruguinhas, mas plástica no nariz, na cara, jamais. Futuramente é possível que eu dê uma ajudazinha na estética, com os produtos que existem hoje, mas sem vaidade exacerbada. Em alguma coisa somos vaidosos sim. Uma coisa que a gente fez e que acha legal, já é uma forma de vaidade. Sou caprichoso. Por exemplo, vou levar o Márcio Greyck à Montes Claros. É claro que eu tenho que me preparar. Mas faz parte do profissionalismo, do compromisso de fazer uma apresentação agradável.
MV: O auge da sua carreira coincidiu com um período liberal da juventude, de sexo, drogas e rock and rool. Você passou incólume por toda loucura?
MG: Mas é claro que não! Eu também, e como quase toda a minha geração, assim como declarou inclusive o nosso ex-presidente FHC e até o próprio presidente Lula, experimentamos! Nós tínhamos a prerrogativa e o privilégio da juventude, e éramos nós, os próprios revolucionários de uma cultura que mudava vigorosamente em nossas mãos, e em que o mundo era mesmo todo nosso!
MV: Em cinema, como foi a sua trajetória?
MG: Eu fiz dois filmes. Fiz “O Mundo é dos Jovens”, que era um programa que eu apresentava em São Paulo, mas com o andar da carruagem acabou se transformando em “Ritmo Jovem”, acho que foi até pra copiar o Roberto, que tinha lançado “Em Ritmo de Aventura”. O filme tinha como coadjuvantes o Grande Otelo, Vanja Orico, Jorge Murad e eu protagonizando. Demorou a ser lançado, depois de muito tempo fizeram emendas de cenas, escolheram um circuito ruim pro lançamento, enfim, o filme era horrível, mas a experiência foi maravilhosa. Fiz também “O Amor em Quatro Tempos”. Eram quatro histórias de amor num filme só. Uma delas eu protagonizava, fazendo um papel de jovem da idade média que sai em busca do amor. Um filme bobo, de uma fotografia maravilhosa.
MV: Márcio, você teve envolvimentos afetivos no meio artístico?
MG: Sim, um desses filmes, foi também protagonizado pela cantora Adriana. Na época fomos apaixonados, vivemos um romance durante algum tempo, mas não dava certo, porque ela tinha uma carreira pela frente, queria abraçar o mundo com as mãos e tinha realmente todo um mundo pra abraçar. Foi um romance público. Não públicos aconteceram muitos, mas eu não estou autorizado a falar sobre coisas que não foram assumidas de forma objetiva. É complicado dizer nomes, mas eu fiquei solteiro muito tempo e tive bons envolvimentos. Precisei de muitos anos pra me ajustar emocionalmente. Mas não deixei de acreditar no amor, apesar das coisas contrárias. A mídia, as novelas, promovem conflitos, traições. Isso é um trabalho contra o amor. E o amor deveria ser enaltecido. As coisas consideradas bregas, como abrir porta de carro, mandar flores, são alimentos do amor. Fazem a diferença.
MV: Um defeito e uma qualidade do ser humano:
MG: Vou cair no lugar comum, mas vou dizer que uma coisa que eu abomino é a traição, em qualquer sentido. É tão fácil ser sincero! A coisa que eu mais admiro no ser humano é a capacidade de se colocar no lugar das outras pessoas. A capacidade de ouvir as pessoas. Isso é uma qualidade extraordinária. Um atributo muito bacana.
MV: Dizem que a tristeza é o melhor material para criação. Quando é que o Márcio mostra mais a sua veia criativa, é quando está triste?
MG: Bem, a tristeza facilita a inspiração dramática e sofrida! Já a alegria traz a inspiração do enlevo e do louvor! Dependendo de cada estado emocional é que se começa a formatação da composição de uma canção, triste ou alegre. Por experiência própria, eu sinto que as canções que contém uma densidade maior de tristeza, angústia e sofrimento, são as que mais agradam ao público em geral. Mas não me pergunte o porquê !!!
MV: Um momento triste na sua vida, Márcio....
MG: Complicado (pensativo).... A gente tem muita tristeza na vida, mas eu procuro não cultivar a tristeza. Acho inclusive, que é muito errado quando se vai a um velório e todo mundo está chorando demais, uma coisa lúgubre. O meu, eu gostaria que fosse uma festa, que as pessoas cantassem, batessem palmas, tocassem instrumentos.... Recentemente perdi uma irmã, que foi uma pessoa muito importante na minha vida. Todos temos muita tristeza, mas a gente tem que sempre pensar positivo e que um dia melhor está por vir.
MV: Qual é o momento mais feliz da sua vida?
MG: Eu me considero um cara feliz sempre e a qualquer momento, independente do motivo! É claro que guardo em minha lembrança alguns momentos que foram mais marcantes em minha vida, entre eles, o nascimento dos meus filhos. Mas tenho tantos momentos felizes... Esse agora é um momento feliz. Estou conhecendo você (a repórter) que é uma pessoa bacana. Adoro conhecer pessoas, fazer amizade... Sou um cara feliz naturalmente. A minha proposta é essa. Acordo feliz e durmo feliz.
MV: Qual sua expectativa para o show em Montes Claros?
MG: É uma grande expectativa. Já estive em Montes Claros uma vez e foi muito legal. Mas o momento hoje é mais propício. Depois que estive lá e faz muito tempo, aconteceram coisas na minha vida que me tornaram melhor. Uma pessoa melhor e um artista melhor também. Estou evoluindo no meu processo. Dizem que a voz com o tempo, acaba se deteriorando, perdendo o brilho natural. Eu discordo disso, vou teimar e põe isso aí: enquanto eu viver, vou cantar cada vez melhor! Quero estar com 80 anos e cantando! Passei por um problema de alergia, que me deixou três meses sem cantar, mas eu comecei a me tratar e melhorei. A minha alimentação mudou e tudo mudou.
MV: Qual o segredo pra manter esses olhos brilhantes?
MG: Quando chegam pessoas com uma energia legal, eles brilham mais. Isso é natural, um reflexo (muitos risos).
Nota: Entrevista concedida à repórter Márcia Vieira em Belo Horizonte, na residência do cantor. Publicada em "O Norte ", em 25 e 26/11/09.
Veja o álbum com todas as fotos do show de Márcio Greyck em Montes Claros em:
www.dzai.com.br/marciavieirayellow2/mypage/foto
Em defesa das “Manhãs de Setembro”
Por Márcia Vieira
FRANCELINO PEREIRA EM MONTES CLAROS: LANÇA LIVRO, VISITA AMIGOS E IMPRENSA

NAS FOTOS, DA DIREITA PARA ESQUERDA EM SENTIDO HORÁRIO, FRANCELINO, A FILHA MANINHA E O AUTOR KAO MARTINS NAS REDAÇÕES DA RÁDIO 98 E 93 FM, SITE MONTESCLAROS.COM , RÁDIO UNIMONTES E CANAL 20
FRANCELINO PEREIRA em MONTES CLAROS
O ex-Governador de Minas, Francelino Pereira esteve em Montes Claros para autografar o livro "O CHÃO de MINAS", onde é personagem principal. O livro foi escrito pelos irmãos jornalistas Sebastião e Kao Martins e Paulinho Assumpção. O texto a seguir, escrito pelo editor do site montesclaros.com , especialmente para aquele portal, reproduzido posteriormente pelo Blog do Norte de Minas, e finalmente, por este espaço, com prévia autorização, fala da visita de Francelino à cidade.
Por Paulo Narciso:
Caravanas de cidades vizinhas – com destaque para Januária e Pirapora - vieram ontem a M. Claros, para o lançamento do livro "O Chão de Minas", do jornalista Kao Martins, que reconta a trajetória do ex-governador Francelino Pereira. Muito ligado ao Norte de Minas, que considera sua pátria de escolha, o ex-governador (completará 89 anos, no próximo 2 de julho) autografou o livro até por volta de 1h da madrugada, atendendo a uma fila de amigos, admiradores e afetos, sempre ao lado da filha e da inseparável secretária, que atua ao seu lado há 42 anos. Ainda ontem à tarde, visitou empresas jornalísticas.
Na redação conjunta da Rádio 98 FM, da Rádio S. Francisco de Assis 93 FM e do montesclaros.com, Francelino Pereira (duas primeiras fotos) relembrou momentos cruciais da sua vida, desde que veio do Piaui. Destacou transes da abertura política, “lenta, gradual e segura”, da qual foi um dos pilotos, e de sua passagem pelo Palácio da Liberdade - momento que considera o mais alto da longa vida pública, desde que chegou rapazote do Piauí, desembarcado de gaiola do rio S. Francisco que aportou em Pirapora.
No grande salão do Automóvel Clube, no lançamento do livro (M. Claros é a terceira cidade a receber uma noite de autógrafos, depois de BH e Terezina), o ex-governador causou emoção ao revelar que estava ali no auditório, discretamente, modestamente, um dos seus principais auxiliares no governo de Minas. Sentado na platéia, o engenheiro Carlos Alberto Salgado, que dirigiu o DER por 4 anos, ouviu Francelino repetir publicamente que, naquelas cobiçadas funções, muitos se enriqueceram materialmente. “Ao contrário” do engenheiro, eficiente e correto, que deixou o cargo como entrou, “honradamente, com as mãos limpas”. Francelino e Carlos Alberto foram aplaudidos demoradamente.
(Depois, pessoas recordaram um episódio que o ex-prefeito de M. Claros, Toninho Rebello, protagonizou: ao deixar o Palácio da Liberdade, o governador Francelino não tinha veículo próprio, para se conduzir e servir à família. Toninho Rebello liderou uma "vaquinha" entre amigos, que cotizaram o valor suficiente para comprar um veículo, usado, de segunda mão, que foi servir ao já ex-governador.)
No lançamento de ontem à noite, mais uma vez a presidente da Academia de Letras, professora Ivone Silveira, de 95 anos, foi a mestra de cerimônia, ao lado da escritora Ruth Tupinambá, de 92, logo transformadas em centro de atenção pela jovialidade e imensa capacidade de participar dos acontecimentos da cidade. Durante toda a reunião, cantou a seresta de Lola Chaves, filha de João Chaves - autor de "Amo-te Muito, "Eterna Lembrança", "O Bardo", entre outras, conhecidas no Brasil inteiro. É raro o semestre em que redes de TV não recolhem direitos autorais pela execução das músicas.
Para completar a noite, com ares de nostalgia e de história, estava presente o ex-presidente da Assembléia de Minas, Antônio Dias, o mais novo da história. Foi ele, como presidente do colégio eleitoral, que dirigiu a Assembléia de Minas na eleição (indireta) de Francelino Pereira. Por fim, deu-lhe posse.
***
VEJA TODAS AS FOTOS DO LANÇAMENTO DE FRANCELINO EM MONTES CLAROS EM:
www.dzai.com.br/marciavieirayellow3/mypage/foto
Nota: Nossos agradecimentos ao Cerimonial da Prefeitura de Montes Claros, Rádios 98 e 93 FM, site montesclaros.com , Rádio Unimontes, Rádio Terra e Canal 20.
ENTREVISTA: MANOEL HYGINO

Flashes do escritor Manoel Hygino no seu ambiente de trabalho em BH
Manoel Hygino: “... A maior doença está na alma das pessoas...”
“... Os excessos é que constituem um grande problema...”
“... A cidade natal está dentro de mim, nas partes mais íntimas que os olhos não vêem...”
script> ´ Por Márcia Vieira
Nosso primeiro contato, entrevistadora e entrevistado, deu-se por e-mail. Sem pressa, entremeado por observações a respeito da nossa gente, dos amigos, conhecidos e especialmente da literatura. Confesso que a admiração pelo escritor Manoel Hygino, nasceu principalmente da curiosidade para descobrir a figura emblemática que, tendo saído de Montes Claros, conservou-a na alma, constatação feita a partir das suas crônicas, que dia sim e outro também, registram acontecimentos da nossa cidade, num jornal de Belo Horizonte, o “Hoje em Dia”. Atenciosa e pacientemente o escritor respondeu as perguntas que lhe foram feitas e as remeteu. Dias depois, já em Belo Horizonte, concluímos esta entrevista. Era manhã de sábado quando o Sr. Manoel Hygino nos recebeu em seu gabinete de trabalho, num hospital da capital, onde presta serviço como ouvidor. Nada poderia ser mais apropriado a um escritor, cujas sentenças são lançadas a partir de observações do cotidiano. O dia estava convenientemente nublado e frio, como é comum a este período do ano, que divide os semestres. O entrevistado encerrava um bate-papo com um colega quando da nossa chegada. Brincalhão, nos apresentou a ele, fez menção a um assunto divertido e colocou-se à disposição. Num lado da sala, uma estante com diversos livros, no outro, uma pequena mesa, onde repousava uma significativa fotografia, registro do encontro de pessoas queridas do escritor. Ali, um objeto raro chamava atenção: uma máquina de escrever. E não é para enfeite, como confessou Hygino. Ainda hoje, ele faz sim, uso da máquina, apesar do computador ditar a moda. Mas Manoel Hygino, autor entre outros, do livro script> “Getúlio: de São Borja a São Borja”, não é gente de se dobrar à moda, como vocês poderão conferir na entrevista que se segue:
MV: Sr. Manoel, pra começo de conversa, o que é ser montesclarense?
MH: É uma responsabilidade muito grave. Montes Claros tem arraigadas tradições nas letras, nas artes em geral; na bravura de sua gente; no respeito à palavra empenhada. Já nascíamos com esses pendores e deveres, dos quais procurávamos não nos afastar. Assim forjei o caráter, assim sou.
MV: Pertencendo a uma família tradicional da cidade, conhecida pela riqueza cultural, o senhor acredita que esse amor pelas letras tenha sido herdado ou deve-se às exigências de uma época?
MH: Na linhagem direta da família, não há nomes. Colateralmente, temos os Canelas, os Simões, os Pimentas, que se misturam com ancestrais do partido de baixo. Era os meus avós, gente operosa, estudiosa, autodidata, brilhante inteligência, mas sem formação convencional, formal. script>
MV: Escrever é...
MH: Escrever é imposição espiritual e necessidade fisiológica. Não sei me conter, diuturnamente assim. Lamento que outras atividades paralelas, no passado e no presente, não me permitissem dedicar-me mais a esse labor. Daí, a fraca bibliografia, equívocos em conteúdo e forma.
MV: Foi difícil mudar da máquina de escrever para o computador?
MH: Não foi difícil, porque não houve. Aprendi a datilografar em Montes Claros com D. Walquíria Teixeira e, de então até agora, jamais deixei a máquina de escrever. Admito que o computador é mais ágil, versátil, rápido. Continuo recebendo conselhos para adaptar-me ao teclado de computador. Mas depois de sessenta anos assim, mudar é difícil. Faço o mesmo que Hermann Brock, o Prêmio Nobel alemão, identificado nos aeroportos do mundo com sua máquina portátil.
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MV: O senhor fala sobre assuntos diversos em seus textos diários, mas Montes Claros é sempre citada. Isso é saudade?
MH: É saudade sim, mas também fato histórico. Montes Claros se insere em um universo, de que sou íntima parte. A cidade natal está dentro de mim, nas partes mais íntimas, que os olhos não vêem.
MV: Alguns nomes são recorrentes. Qual seria o seu principal elo com a cidade?
MH: Há nomes entranhados em minha vida, no passado e no presente. Ali, Jair de Oliveira, Hermes de Paula, Cândido Canela, Newton Prates, Monzeca, Nélson Viana (que era de Curvelo), gente de minha maior admiração e apreço. E outros muitos. Além dos que se foram mais recentemente, como os Silveiras, Olinto e Geraldo Tito Silveira, cuja obra continua com seus descendentes, e, no caso do segundo, no esforço fantástico, de Dona Yvonne (Silveira, presidente da Academia Mon tesclarense de Letras). Entre os de hoje, há também vários e ficaria difícil me explicar, se esquecesse algum nome. É uma lista enorme, integrada pelos membros da Academia Montesclarense e ACLECIA, e outros que não o são. Há o Paulo Narciso, com o seu script> montesclaros.com , precioso instrumento sob todos os aspectos, que Paulinho dirige e faz, com denodo, sacrifício e amor. Ele nos atualiza diariamente com as causas, fatos e pessoas. Paulinho é uma das figuras mais notáveis que eu conheço. Conheci tarde. Mas acompanhava a atuação dele na imprensa de Belo Horizonte, vendo-o conquistar sucessos incríveis, prêmios a que ele fez jus, e uma das coisas mais importantes que eu acho nele é a discrição, o comportamento, o misticismo. O compromisso com a profissão, o compromisso consigo mesmo. É uma pessoa respeitada em qualquer lugar. Isso é bonito.
MV: Aproveitando o ensejo, pedimos ao senhor Manoel, que registrasse impressões acerca de algumas pessoas:
Yvonne Silveira: D. Yvonne é um símbolo da mulher mineira em todas as suas virtudes, capacidade de realização, dedicação ao lar e à comunidade, às artes, ao magistério e às letras. Está em todos os lugares em que sua presença é solicitada, com uma notável disposição de servir.
script> Petrônio Braz: uma das figuras mais interessantes que eu conheço. Capaz, competente, dedicado, estudioso, polivalente. É um homem, que faz, edita, atua e é realmente uma figura respeitável que nós temos aí.
Wanderlino Arruda: É também uma das figuras que honram a cultura mineira. É lamentável que algumas coisas que se façam no interior, fiquem tão abandonadas. Nós temos em Montes Claros pessoas magníficas, que quando a gente cita, perguntam, “quem é?”, quando já deveriam saber: este é o cara!
Murilo Badaró: Meu amigo há muitos anos, embora algumas dissonâncias político-partidárias, porque ele mais ligado ao PSD e nós, que somos mais ou menos da mesma geração, quando chegamos ao fim do governo de Getúlio, nós éramos oposição à ditadura deste e ele era vinculado ao Getúlio. Mas é uma pessoa admirável. É um homem que dá o máximo de si às coisas que faz e isso eu acho muito bonito. Ele cantou ópera e fazia uma bela interpretação. Como político, foi sempre bom, quer dizer, ele realiza as coisas com empenho, com dedicação. Tudo que ele faz é com muito devotamento e isso é admirável.
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Ruth Tupinambá: é uma figura que eu acho necessário ser conhecida fora de Montes Claros. É uma moça de um sentimento fantástico, escreve muito bem e tem páginas admiráveis de memória. Fica entre nós, o que já é muito bonito, mas precisaria ser divulgada externamente.
Dário Cotrim: É uma pessoa que tem contribuído para aprofundar o conhecimento histórico da região. Lugares como Mariana, Ouro Preto, São João Del Rey, são muito citados, mas o Norte de Minas é pouco conhecido e o Cotrim faz um trabalho muito importante que é estudar e divulgar a região norte-mineira.
MV: Melhor recordação do tempo em que viveu em Montes Claros:
MH: Nada melhor e mais feliz que a infância, com os pais, avós, irmãos, primos, tios, a parentela enfim. Fogueiras, festa de junho, as lições de correção ética, as matinês no Cine Montes Claros, os filmes na adolescência ali e no Cine São Luís. A continuidade foi quebrada com a mudança para o Ginásio Dom Bosco (em Cachoeira do Campo). O nome tem muitos vínculos comigo. O jardim de infância foi na escola de mesmo nome, dirigida pela professora Alice Aquino Neto. Lindos tempos, com árvores junto à escolinha. Como era bom! Depois, o início do secundário no Instituto Norte-Mineiro de Educação, onde está hoje o Automóvel Clube, numa praça que tem o nome de João Alves. Chora em cada canto uma saudade. script>
MV: Como é o dia-a-dia do Manoel Hygino? Tem rotina?
MH: Vamos dizer que não há, a rigor, dia ou noite. Eles se completam. Faço muitas coisas há um só tempo. Redações, sobre temas diversos, uma barafunda, que atravessa as 24 horas. O sono é interrompido de 2 em 2 horas. Quando a madrugada chega, ainda o cansaço, mas pronto para o que vier. A lida pelos enfermos, tentando vencer as deficiências do sistema. São exaustivas, mas compensadora espiritualmente. Doença não tem feriado ou horários, e as carências humanas são permanentes e infindas. Ajo como escoteiro: sempre alerta, para ajudar, e estender as mãos aos que precisam, porque o coração é aberto.
MV: Tem algum texto favorito, entre os que já escreveu, e algum arrependimento?
MH: Não tenho preferência pelo que já escrevi. Algum leitor, sim, entre os poucos que tenho. Dídimo de Paiva, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, considera meu livro sobre script> Rasputim o melhor, o máximo no gênero. Generosidade dele, com certeza. Guimarães Alves, outro grande jornalista, preferia o livro sobre o Hamlet. Mas não tenho do que arrepender ou me penitenciar. O que se fé, está feito. Que Deus me perdoe!
MV: Num dos textos o senhor afirmou que o assunto “economia” não faz parte do seu cardápio. Qual é o melhor assunto ou principal motivo de inspiração?
MH: Em verdade, amo a história, as biografias, as memórias, evidentemente sem desprezar o bom romance, a poesia. Ler é bem supremo. Não se pode perder tempo com a subliteratura que anda por aí, até bem classificada nas listas dos mais vendidos.
MV: Existe algum ritual para escrever?
MH: Não há nada de especial. Apenas me sento e uso a máquina de escrever. Mas escrevo sempre com base em documentos, por essa razão, recorro a livros. A minha escrita é mais de ensaios literários, históricos, onde tenho que fazer pesquisa, buscar fotos, ao contrário das crônicas normais que tratam de problemas sentimentais e não exige documentação. De modo que existe todo um trabalho de investigação, para que não cometamos erros. script>
MV: O senhor citou aí os problemas sentimentais, que hoje em dia parecem maiores ou mais aflorados. Já passou por algum problema sentimental? Como é o Manoel Hygino nesse aspecto?
MH: A vida é um jogo sentimental na realidade. Não se vive sem sentimento, de amor, de saudade, essas coisas. Isso é que é realmente dar valor a vida. O resto é comercial, industrial, frio, material. As experiências sentimentais da vida é que dão a razão de viver. Seja o sentimento por uma perda ou a satisfação por algum tipo de glória, de sucesso. Tudo é marcado por sentimentos, mais com menos. E as pessoas como eu, sofrem exatamente porque tem muito vínculo com as razões transcendentais da vida. A morte pra mim é uma coisa traumática, porque é perder a vida que estava ao nosso lado. Até que a nossa a gente admite com mais facilidade, mas perder um ser querido é sempre algo traumático, assim como perder uma amizade, se é que amizade se perde, ou amor. Hoje as coisas são mais tranqüilas ou mais aceitáveis pelo menos. As pessoas casam e descasam, namoram, beijam, esquecem ou fazem de conta que esquecem, mas exatamente porque os sentimentos não estão tão arraigados dentro da alma como deveriam ou acontece comigo.
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MV: Acha que isto acontece, porquê? Qual seria a razão dos sentimentos serem diferentes ou tão efêmeros?
MH: Acho que a sociedade se materializou demais. A gente vê que a família ao longo do tempo se foi esvaziando, degradando. Os vínculos deixaram de ser tão estreitos como antigamente, embora noutra época houvesse doses exageradas de intransigência, de incompreensão. Eu acho que o grande mal de tudo está na materialização excessiva dos costumes que levam a degradação. Sempre escrevo citando Paz (Octávio, escritor e diplomata, vencedor do Nobel de Literatura em 1990, falecido em 1998 ), o poeta mexicano que dizia: “quando há uma degradação da língua, há degradação dos costumes, degradação política”. As coisas não andam isoladamente. De modo que a família perdeu a estrutura e a gente vê isso nos dramas que se repetem, que os jornais publicam, de mortes violentas, crimes hediondos que se cometem. Hoje se fala muito em doença, mas a maior doença está na alma das pessoas. Parece que é isso que acontece. A gente vê a troca de parceiros com uma freqüência muito grande e a divulgação excessiva estimula isso. São coisas terríveis. No meu caso, que dou assistência num hospital como a Santa Casa de BH, um dos três maiores do Brasil, vejo de perto o problema da gravidez na adolescência, que é um problema seríssimo.
script> MV: Então o senhor acha que a mídia tem culpa?
MH: A mídia tem uma responsabilidade muito séria nisso, na minha opinião. Responsabilidade, não culpa. A situação existe. As pessoas hoje, se formam muito pela televisão, dando seqüência a uma coisa, como eu disse, que começa dentro do lar. E num lar que muitas vezes é o ajuntamento de pessoas vivendo de maneira inadequada, que se sublinha com as últimas notícias de agora, quando se anuncia que um bilhão de pessoas no mundo passa fome. Junto a esses fatores todos, vem o estímulo da televisão, a exposição.
MV: As mulheres hoje são diferentes, deixaram de ser submissas e de suportar todo tipo de situação. O que acha disso? O que existe de positivo e negativo nessas mudanças?
MH: O que se vê atualmente são costumes que antigamente não se adotavam, não eram permitidos. Houve uma evolução, sob determinado aspecto, favoravelmente. Os excessos é que constituem um grande problema. A má educação, a má formação das pessoas. Determinados acontecimentos que são vistos por aí levaram à liberação dos costumes, que tem como conseqüência a facilidade sexual. Hoje as meninas de 16 anos participando ativamente desse processo que poderia ser até útil não fosse tão degradante ou degradado. Então, o excesso sempre prejudica. Os romanos já diziam “modus in rebus” ( script> expressão originada de uma sátira do poeta romano Horácio, que recomenda moderação em todas as coisas). Cuidado com o conceito, porque o andor é de barro. Todos nós somos de barro.
MV: Qual é o melhor sentimento?
MH: Não há dúvida que o maior sentimento do mundo é o amor.
MV: E o que é o amor?
MH: Amor é a pessoa dar-se em benefício do outro. Em favor dos outros. É entregar-se. É realmente isso o fundamento de tudo, inclusive da própria religião cristã que prega o amor. E esse amor que tem que continuar em todas as relações. Onde falta amor, falta tudo. Nós estamos vendo, por exemplo, nos campos de futebol, uma banalização da violência. Pessoas que deveriam ir ao campo de futebol para se distrair, aproveitar o dia, chegam lá e enfrentam brigas e brigas, mortes, essa coisa toda. Isso está acontecendo demais. A morte cada vez mais banalizada. Mata-se por matar, quando os nossos costumes já deveriam ter mudado no decorrer desses séculos e milênios. script>
MV: O pior sentimento:
MH: a ira, o desamor. Pessoas que não se respeitam, nas ruas, nas repartições públicas. Falta consideração pelo outro. Empurrões nas filas de ônibus, enfim, perdemos o sentimento de respeito, de amor pelo outro. É isso que estamos vendo. É isso que nos leva a essa situação, que acontece em tantos lugares. É um problema social muito grave.
MV: Quando fala de Montes Claros as coisas o tocam mais?
MH: As coisas me tocam muito especialmente, sendo de lá, tendo nascido lá, embora a pouca convivência em tempos cronológicos com Montes Claros, evidentemente os liames, as raízes estão lá. É sempre delicado. A raiz de tudo está lá e a gente tem as lembranças melhores da vida que são as da infância, da adolescência parcialmente passada lá. E o apreço que eu sempre encontrei do pessoal dessa cidade, que sempre me tratou com muito carinho. Eu não tenho nenhuma lembrança desagradável de Montes Claros ou da região. Antes pelo contrário e é por isso mesmo que somos gratos pelo que Montes Claros nos deu além da vida. script>
MV: Como escritor o senhor tem que vivenciar um pouco de tudo. No campo das artes existe alguma emoção maior, alguém que admire mais?
MH: Já que estamos falando de Montes Claros não posso deixar de lembrar a Helena Netto, a Yara Tupinambá, e o Konstantin (Christoff), que é velho amigo desde os tempos em que era estudante de medicina e é casado com uma minha prima. São realmente, entre outros, três exemplares magníficos de artistas plásticos pelos quais eu tenho uma grande admiração. Quando eu era mais jovem e estudava, procurei participar de todos esses movimentos de incentivo à arte. Era secretário geral da União Colegial de Minas Gerais, então fizemos o primeiro salão de arte juvenil de Belo Horizonte, exatamente para incentivar a atrair jovens estudantes para o campo das artes. Posteriormente, como chefe de gabinete do prefeito de Belo Horizonte, tive uma atuação no sentido de fazer esses movimentos para levar aos bairros. Naquela época em que os recursos eram mais parcos, mais pobres, levávamos a arte e ao mesmo incentivávamos os artistas. Tivemos várias experiências. Como assessor de comunicação do Governo de Minas, tivemos algumas iniciativas também nesse campo. Vários artistas são nossos amigos, por exemplo, o Coral Renascentista, que comemorou 50 anos e é uma grande obra. Por sinal, nas solenidades que eu compareço, o maestro Marco Antônio Maia Drummond, que é o regente atual, faz questão de executar uma obra do João Chaves (músico e poeta montesclarense script> ), o “Amo-te Muito”, que todo mundo gosta e muito me emociona. A arte é que tem conseguido salvar um pouco desse país.
MV: O senhor é um homem que tem preconceito, qualquer que seja?
MH: Não sei exatamente a qual você se refere, mas nós todos temos algum tipo de preconceito por menor que seja e por mais que se negue. Mas aqui onde estamos, estamos cuidando da vida, da saúde e aqui as pessoas são todas iguais. Tem a mesma origem e a mesma destinação, de modo que os preconceitos ficam muito abandonados. Uma das coisas que me prendeu a casa de saúde é que de um modo geral, aqui se cuida do ser humano. Venha de onde vier e para o que vier, aqui se procura salvar realmente e preservar a saúde. Isso é muito bonito e eu vejo todos os dias, com brancos, negros, judeus, brasileiros, etc. É tudo muito edificante, afinal.
MV: Estar aqui (no hospital), assistir a tantas mazelas, ajuda a aceitar as próprias dores?
script> MH: Ah sim, ajuda muito. Quando a gente vê a dor dos outros, a gente se sente feliz, por ver que não está padecendo daquele sofrimento. A gente se sente agradecido a Deus por não passar por esses momentos de tristeza, de desencanto. Isso tudo nos ajuda a sentir diferenciado quanto às possibilidades de se realizar.
MV: Como é o seu trabalho neste hospital?
MH: Quando cheguei aqui, foi como assessor do provedor, com uma função mais específica na área de imprensa, essa coisa toda. Posteriormente passei a ser também ouvidor ou “ombudsman”, ou seja, aquele que atende as manifestações internas ou externas com relação à vida da instituição. Reclamações, queixas, denúncias contra possíveis erros, dúvidas que as famílias têm referentes ao tratamento do paciente, problemas de acesso às próprias instalações da casa, então é uma função eminentemente social e humana. Eu me sinto muito bem porque sou essencialmente social e humano.
MV: Acredita que a humanidade tem salvação ou chegamos a um ponto onde não dá para retroceder?
script> MH: É uma resposta difícil para uma pergunta muito importante, porque o homem não assumiu ainda consciência do seu dever na sociedade e não sabe ainda se conduzir no sentido de proteger um ao outro. Nós não somos seres isolados, não somos ilhas, então o que está acontecendo é que estamos caminhando para um mundo degradado espiritualmente e degradado materialmente. Aí vem as campanhas pelo meio-ambiente, preservação das florestas, etc. O mundo tem solução? Pode ter solução, mas a grande verdade é que as nossas reservas, que mantém a vida, estão diminuindo, tanto que as pesquisas levam a busca de vidas em outros planetas. Se continuar como está, nós teremos que pular pra outro lugar.
MV: Voltando à música, o que o senhor pensa do que se consome atualmente e quais são as suas preferências?
MH: Na realidade, o povo mais humilde não está preparado para uma boa formação e evolui para o que há de ruim. Ao invés de ir a um bom teatro, vai ao que diverte. Às vezes não tem condição ou não está preparado psicologicamente, educativamente, para isso. Não se pode considerar, por exemplo, as letras das músicas que são interpretadas por aí e quando há letra. É bonito ouvir os compositores antigos e bons, que deixam afinal de contas, uma lição para o homem e para a humanidade. Aprecio a divulgação das músicas mais antigas ou de natureza social, como as de Chico Buarque. Ainda sou um pouco conservador, gosto de Lamartine Babo, Ary Barroso, João de Barro e esses outros que construíram a música popular brasileira na sua melhor fase. script>
MV: Montes Claros é uma cidade de talentos?
MH: Sim. Você imagina que nós tínhamos no campo literário, na Academia Brasileira de Letras, dois montesclarenses, Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos. Acho que poucas cidades -talvez nenhuma do interior brasileiro- chegaram a ter em tão importante sodalício, dois membros num só tempo. E quantos outros talentos nós temos por aí, que fazem cinema, que fazem música, que fazem teatro, imprensa... De modo que Montes Claros é uma cidade privilegiada por Deus.
MV: Se pudesse pintar uma cena, que mais o tenha emocionado até hoje, qual seria? Como seria esse quadro?
MH: Realmente nunca pensei nisso.... Uma cena que me emocionou dolorosamente foi a morte do meu pai. Ele morreu comigo ao lado e essa é uma cena que não se esquece nunca. E aquele corte na vida, embora sempre se diga que é natural e realmente é, é sempre extremamente turvo para os que ficam.
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MV: Religioso?
MH: Me considero sim. Rezo todos os dias, todas as horas. Não sou de freqüentar igreja, mas tem uma aqui bem próxima, que sempre que necessito vou lá, porque me ajuda a meditar nos problemas da vida. Sim. Sou religioso.
MV: Supersticioso?
MH: Não. Nenhuma superstição,
MV: uma personalidade:
MH: Há muitos que eu admiro, por exemplo, no quadro político internacional, o presidente dos Estados Unidos. Acho que ele é confiável, simpático e com uma possibilidade de trazer uma nova luz para o mundo. Acho que ele é uma promessa. script>
MV: O Lula era uma promessa.
MH: Confio muito no Obama. Ele é que é o cara! (muitos risos).
MV: Há algo que o senhor não goste?
MH: Acho que o que eu não gosto muito é da insensibilidade, do esvaziamento do amor.
MV: Sente-se realizado?
MH: Não. Estou em fase de realização. Espero ainda fazer alguma coisa. E o próximo livro que eu devo publicar, possivelmente seja sobre Jesus Cristo. Embora focalizando o aspecto material dele, de que ele morreu, é uma demonstração de apreço, de amor a quem tanto deu de si para a humanidade. O livro deve se chamar “Jesus - Causa Mortis”. script>
MV: Pra quando esse livro?
MH: Até o fim do ano, talvez. Ainda em 2009.
MV: E esse livro, o senhor lançaria em Montes Claros?
MH: Quem sabe? É uma possibilidade. Estou me reabilitando com Montes Claros (risos)
MV: Fale um pouco do seu livro sobre Vargas
MH: O livro sobre Vargas – “Getúlio: de São Borja a São Borja”, foi lançado em 21 de maio último, juntamente com “Tempo de Nascer, a Obstetrícia em Minas”, na Academia Mineira de Letras. Resulta aquele de muitos anos de pesquisa. Tem recebido manifestações de aplausos e, por sinal, já em agosto sairá a segunda edição. É a trajetória da vida do estadista gaúcho, de seu nascimento a seu trágico fim. Contém o conceito em que foi tido por muitos brasileiros de seu tempo: críticas e elogios, ambos muito fortes, até radicais. script>
MH: Muitos lugares preferidos em Montes Claros perderam sua atração original, os contornos de meu tempo, como a praça do velho Mercado, que não mais existe. A igrejinha do Rosário, a da Malhada evoca um tempo muito bonito, como a dos Morrinhos. Montes Claros é tudo e vale muito, toca o que é mais profundo em mim mesmo. Quanto a Belo Horizonte, foi-se o tempo de preponderância do popular Parque Municipal, porque novas imagens e iniciativas nos fascinam. A vida cultural e artística é intensa. Há muito a ver e admirar.
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MV: O que gostaria de dizer aqueles que o acompanham diariamente através da leitura, mas que não tem possibilidade de chegar ao senhor?
MH: Que tenham fé, que acreditem no futuro e que lutem por ele. O futuro depende de nós, de cada um de nós. O futuro não é um hábito só. É coletivo. O coletivo resultado do trabalho e do sentimento de cada um.
*entrevista concedida à repórter Márcia Vieira em Montes Claros/Belo Horizonte
Publicada em "Jornal de Notícias"; Jornal "O Norte de Minas"- Julho/09
Veja Fotos de Eventos em Montes Claros/BH/RJ em:
www.dzai.com.br/marciavieirayellow/mypage/foto (2008/2009)
www.dzai.com.br/marciavieirayellow2/mypage/foto (2009 à fev/2010)
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São Francisco e Ronaldo, encantos de Minas
* Por Márcia Vieira
Vista por um lado, vista por outro, a roupa tem movimento. Estamos falando das criações de Ronaldo Fraga, o estilista da moda estática, porém, flutuante.
Ele celebra a mulher, desconstrói o objeto, realça sua identidade.
Ronaldo caminha pelo sinuoso Rio “São Chico”, para nós, mineiros, norte-mineiros, terreno de riqueza incalculável.
O passeio é rico, íntimo, produtivo.
Começa pela nascente, ali na Canastra, e sem nada de canastrão, passa em Pirapora, se aboleta no Benjamim Guimarães e segue adiante.
No riacho, admira as lavadeiras e sua labuta. Roga a Santa Clara ou Santa Verônica, ambas, protetoras destas outras santas, pro rio não secar. Joga sal grosso, pra pedir proteção “e que água nunca vire sal”, diz ele, com olhos pedintes e emocionados, disfarçados por óculos de grossas lentes e aros de cor.
Em Bom Jesus da Lapa pede a bênção para seguir viagem. Percorre outros caminhos santos, respeita sinais, alimenta os peixes com olhar misericordioso, reproduz os irmãozinhos das águas em banners e em convite, que de princípio já é sedução. Olhos de peixinho morto convocam ao mergulho na coleção.
Em Cabrobó encontra a Iara, Mãe D’àgua. Comovido, lança-lhe afetuoso olhar e vaticina: “criarei uma veste que lhe cobrirá os seios e deixará confortável o seu ir e vir, sem desrespeitar as suas formas de mulher.”
Meio do caminho, um rosto de ar carrancudo mira o criador Ronaldo e murmura: “a expressão que vês é pura lenda, meu senhor. Carranca por fora, meiguice por dentro. Eu vim para proteger os barqueiros. Leve-me contigo e guiarei o teu caminho”.
E Ronaldo acolhe a carranca em seu embornal.
Desembarca em Brejo Grande e inicia a conspiração. “Do bem”, é bom lembrar.
Conspirar é tramar, e pro ofício de tramas e rendas requisita suas senhorinhas, de mãos habilidosas e certeiras.
Viagem concluída, é hora de desfazer as malas, pendurar as roupas nos cabides, descansar os pés em sandálias rasteiras, ouvir discos do “Agreste”, ler José Antônio de Souza ao lado da “mineira montesclarina” Ivana, sua “paixão alegre” e aguardar visitantes em sua palhoça, tecida com os fios singulares e naturais colhidos ao longo do Velho Chico.
Abrimos os olhos e o que vislumbramos? Mais um capítulo de fé, fantasia e atitude, esculpida pelas mãos e mente criativa do navegante RONALDO FRAGA, o estilista ilimitável. Mágico. Surreal. Estuda e desveste a alma para vestir o corpo. Sutil. Trata com desvelo e ternura a sua mulher. Cria e recria histórias, onde pinta de encantamento e faz caminhar com pernas próprias a figura feminina, seu principal personagem.
Notas:
1- A exposição “Rio São Francisco Navegado por Ronaldo Fraga”, fica aberta aos visitantes no Montes Claros Shopping, até o dia 20 de setembro.
2- Ivana Neves, citada no texto, é montesclarense e esposa do estilista.
3- “Paixões Alegres”, do dramaturgo/roteirista José Antônio de Souza, nascido em Januária, cidade norte-mineira que acolhe parte do Rio São Francisco, é o livro citado por Ronaldo Fraga como o seu preferido
4- “Grupo Agreste” é um grupo musical da Montes Claros dos anos 80, já extinto, e que teve duas de suas músicas incluídas na trilha sonora da novela “Rosa Baiana”, da Rede Bandeirantes. O Grupo compôs uma música - A Lenda do Arco-Íris- que fala do Rio São Francisco.

Uma noite em casa de Clarice
Por Márcia Vieira
Clarice, que é Guimarães Teixeira, Augusta no espírito e no prenome, é para toda Montes Claros, Sarmento, sobrenome herdado do seu pai Adail, embora não conste em seus documentos. Folclorista reconhecida, amante das artes, é bela, ainda e sempre. Frequentemente abre as portas de sua residência para receber os amigos, com alegria contagiante. Desde a adolescência sempre fui muito bem recebida na casa da folclorista, pois tenho a alegria de partilhar da amizade de suas filhas, colegas do tempo de estudante, mas na noite desta quinta-feira, me demorei um pouco mais na parede em que ela cuidadosamente reserva aos seus.
Fotografias emolduradas contam a história de sua família, acompanhadas de legendas esclarecedoras. De máquina (isso não se usa mais, hoje em dia só se diz “câmera”, mas optei por resistir aos novos nomes) em punho, pedi autorização para tirar a “foto da foto”. Autorização concedida, cá estou me deliciando com os registros.
Neta de Chiquinho Guimarães, construtor da Catedral Metropolitana de Montes Claros, Clarice relatou que a planta da suntuosa Igreja teria chegado a Montes Claros por engano. À época, seria um acinte erguer paredes de tamanha formosura. Parecia uma enormidade e coisa para “cidade grande”. Mas Chiquinho, engenheiro por vocação e talento, sem nunca ter cursado engenharia, topou o desafio. Graças a sua coragem, lá está, como cartão postal da cidade, uma das mais belas edificações de Minas Gerais. Na parede de Clarice, um retrato histórico mostra a família do construtor reunida em pic-nic às margens do Carrapato em 1941. Nesta foto, aparecem Sebastião Mendes (Ducho), Thais G. Mendes, cujo nome batizou a famosa Livraria da cidade, Vicente Guimarães (também nome de Avenida em Montes Claros), entre outros. Na foto também uma curiosidade. Dois dos filhos aparecem com apenas um pé de sapato. Segundo Clarice, os parcos recursos não permitiam que o pai calçasse os muitos filhos, desse modo, a solução foi dividir um par de sapatos para dois.
Como esta, outras histórias pouco conhecidas, de gente conhecida, embalaram a agradável noite. Sempre de bom humor, a anfitriã, com os filhos residindo em terras distantes, faz questão de preservar a amizade com os agregados. Vez ou outra, como boa canceriana, ainda faz papel de cupido, nos apresentando seus primos e sobrinhos “bons partidos”. Diz que prefere que eles estejam em boas e familiares companhias, tendo em vista os perigos do mundo. Essa mesma Clarice, que dedica parte do tempo em viagens pelo mundo e posteriormente aos relatos da mesma, deixa entrever uma enorme amor por Montes Claros, ao contar histórias da cidade das formigas. Também não esquece da preferência musical ou culinária dos convivas.
Conhecedora da minha adoração por melodias e intérpretes franceses, com grande delicadeza, pronunciou: “Márcia, esse é pra você”. Apertou um botão, e num aparelho moderno -mas que ao fechar os olhos eu imagino uma “vitrola”- Aznauvor disparou a linda e triste voz, começando por “She”-que desperta a vontade de dançar, até quando estamos nos lugares menos convencionais- e prosseguindo com outras igualmente maravilhosas como “Et Pourtant”, Que C’est Triste Venise”, “La Boheme”. Democrática, logo depois desse prêmio, trocou de CD e de estilo, afirmando que deveria atender ao gosto de todos os convidados. Mas duvido que algum deles venha se queixar de Aznavour , do macarrão ou dos fatos relatados por Clarice Sarmento.
Antes de findar a agradável noite, corri mais uma vez à parede. Percebi que noutros tempos os pic-nics eram salutares e organizados com tamanha dedicação, que mais pareciam festas de grandes salões, só que ao ar livre. Em mais uma foto, como diz a legenda, podemos apreciar um "pic-nic organizado por Joaquim Vale, em Montes Claros, Minas, no retiro do Cel. Antônio dos Anjos, em 03 de Setembro de 1906, comemorando seu noivado com Geny Fróis”. Feliz idéia de Patrícia de Paula (a filha única de Virgílio, e que o cantor Roberto Carlos quando aqui esteve em tempos idos na residência de Hermes, prometeu voltar para buscar assim que ela crescesse, pois naquele tempo contava apenas com três aninhos. Roberto, sabemos que você lê esse site, então venha. Amamos você tanto ou mais do que amamos Aznavour e Patrícia ainda te espera.) ao decretar que o encontro desta vez seria na casa “dos Sarmento/Guimarães Teixeira”. Merci, Clarice. Au revoir...
Texto e foto: Márcia Vieira
21/03/09

JOÃO BOSCO: "... é caminhando que se faz o caminho..."
"...não existe música sem silêncio..."
Entrevista - João Bosco
Por Márcia Vieira
João Bosco, mineiro de Ponte Nova, consagrado no cenário nacional como compositor e intérprete, está em Montes Claros para show que acontece neste sábado, dentro da programação da FENICS -Feira Nacional da Indústria, Comércio e Serviços. O cantor recebeu a imprensa em coletiva num hotel da cidade e falou sobre mineiridade, influências musicais, a parceria com o filho Francisco, censura e construção da música “O Bêbado e a Equilibrista”, sucesso de sua autoria em parceria com Aldir Blanc, que ganhou corpo na voz de Elis Regina. Bosco é alegre, comunicativo e extremamente atencioso com fãs e imprensa. Apresentou-se de forma simples e despojada, usando boné, acessório que já se tornou sua marca registrada e demonstrou entusiasmo com o show que acontece logo mais, na sua primeira visita a Montes Claros. Confira trechos da entrevista:
MV: João, você é uma mistura de mineiro e libanês. Como é que fica isso especialmente no campo da religiosidade?
JB: Bom, eu sou um mineiro consciente e libanês geneticamente. Nunca fui ao oriente, a não ser na imaginação. Em termos de religiosidade, me considero não só mineiro, mas brasileiro, que é aquela pessoa que tem acesso a várias religiões, acredita em tudo e sempre acha que uma fé em alguma coisa é sempre positiva. Conheço uma pessoa que nasceu em Angola e chegou ao Brasil com 4 anos de idade e foi criado na Bahia. Hierarquicamente, no candomblé, significa “Oluô”, ou seja, aquela pessoa que escolhe o substituto do pai ou da mãe de santo, coisa que só acontecia na África, antes dele. Visitei a sua casa no Rio e lá tinha todo tipo de símbolo religioso, de todas as religiões possíveis. E como ele era uma autoridade no candomblé, aprendi com ele que a procura é uma só. Mudam-se os nomes, mas busca-se a mesma coisa. Eu acho que já sabia disso quando morava em Minas. Sempre tive essa intuição. Nasci aqui, a minha base é toda aqui e aprendi que Minas Gerais é muito maior que tudo aquilo que eu pensava. script>
MV: Minas é o lugar?
JB: Eu acho que sim. Você não consegue ser diferente daquilo onde foi forjado, lapidado. É impossível. De alguma maneira, implícita ou explicitamente, você está sempre pensando em algum tempo do passado.
Sobre influências musicais:
JB: A música é dinâmica, tem várias maneira de se pronunciar, vem de vários lugares e nomes. Muito difícil a gente que trabalha com música popular falar sobre uma influência tão objetiva. Todas elas existem, estão no trabalho da gente, de uma ou de outra maneira. Muitas vezes uma coisa é mais aparente ou menos. Eu acho que a música sempre vem de alguém e de algum lugar.
Sobre o novo CD “Não vou pro céu mas já não vivo no chão”:
JB: É um CD despojado, sem muitos artifícios, mais essencial, pouca instrumentação, mais suave em relação a todos os discos que eu gravei anteriormente. São todas inéditas, a exceção de uma. O que diferencia esse CD dos anteriores é exatamente a maneira de como interpretar essas canções, com uma preocupação de deixá-las na sua essência, na sua origem, com pouca interferência vocal ou instrumental. A canção se apresentando como uma idéia nua. Foi uma idéia do meu parceiro Francisco, que insistiu muito pra que eu interferisse o mínimo e deixasse a canção ser aquilo que ela fosse. Esse disco é onde eu retomo a minha parceria com o meu velho amigo Aldir(Blanc), o título vem de um samba chamado “sonho de caramujo” e que o Francisco costuma chamar de auto-retrato alheio. Ele sonha comigo cantando um samba e ao mesmo tempo ele consegue me ver dentro de uma casa casca que ele acha que é a casca do meu violão, onde acha também que eu vivo. O verso “não vou pro céu mas já não vivo no chão”, é um verso que delimita um espaço que é da canção. Não é um disco comportamental, que vai ditar costumes ou interferir nas regras da sociedade. É um disco de canção brasileira, entre o imanente e o transcendente, entre a terra e o céu. script>
Sobre a influência do Francisco Bosco (filho e parceiro de João) e como o define musicalmente:
JB: Francisco é uma pessoa que está ligada à literatura, à palavra. Ele é uma pessoa que está no muro da filosofia, é um ensaísta, um escritor, enfim, ele tem um relacionamento muito íntimo com a palavra. Se você for olhar a minha vida toda, eu sempre andei com os caras que são muito íntimos da palavra, desde o Vinícius (de Moraes), que é o dono da palavra moderna brasileira, depois, inauguro a minha amizade com o Aldir que é uma pessoa completamente do mundo da literatura, depois o Waly Salomão, o Antônio Cícero, José Carlos Capinam, o Abel Silva, João Donato, o próprio Chico Buarque quando a gente fez o “mano a mano” e o Francisco, que é uma pessoa íntima da palavra. Quer dizer, eu procuro as pessoas que tem um relacionamento com a palavra, porque eu preciso da palavra, entendeu? Eu acho a palavra muito importante. Pra mim, ela é sempre musical e detona uma idéia musical dentro de mim, até muito mais do que a própria música. Existem palavras que sou apresentado a elas e acabam induzindo uma idéia musical. Eu preciso da palavra e como tenho dificuldade de encontrá-la algumas vezes, eu procuro as pessoas que vivem com elas e com o Francisco não é diferente. O mundo dele é a palavra, por isso quero estar perto dele.
MV: Um dos seus maiores sucessos (O Bêbado e a Equilibrista) foi gravado pela Elis Regina. Você prefere ser reconhecido como compositor ou intérprete? Ainda sobre essa música, cuja letra é de protesto, tem uma frase que diz: “ script> Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil”, numa alusão ao exílio forçado de que muitos artistas foram vítimas na época da ditadura. Henfil e os irmãos, anos depois, foram vítimas de um problema de saúde pública (eram hemofílicos e foram contaminados pelo HIV numa transfusão de sangue). O que mudou de lá pra cá? A música serve para os dias atuais?
JB: Bem, eu adoro me sentir um compositor gravado pela Elis. Depois da Elis eu procurei interpretar as minhas canções já que ela não estava mais aí. Me coube essa responsabilidade. Essa canção (O Bêbado e a Equilibrista), a Elis quando canta, ela faz parte, porque chama pra si e canta como se fosse dela também e a gente a considera como sendo uma pessoa que faz parte da composição. Tanto eu quanto o Aldir achamos que a Elis é fundamental, assim como achamos que o César Camargo Mariano, o autor desse arranjo, também faz parte desse trabalho. Essa música nasceu de uma idéia chapliniana, foi feita no dia da morte do Chaplin, no natal de 1977. Chaplin foi um grande artista que trabalhou do lado das pessoas menos favorecidas e no final dos seus filmes, havia sempre uma estrada e uma esperança. Uma estrada onde ele andava na direção da esperança. Essa música retoma essa mesma caminhada, em busca da mesma expectativa. Já foi feita uma peça de teatro chamada “Brasileiro, Profissão Esperança”. Isso é uma verdade e se você me perguntar o que vem acontecendo de lá pra cá, pode ser que agora a gente pense que não aconteceu muita coisa, que o Brasil continua buscando as soluções que são óbvias, mas muitas vezes não são, do ponto de vista político. Passamos por um problema de governabilidade, onde todo governante que chega ao poder argumenta que é impossível governar sem haver associações e conchavos de toda espécie. Isso vem dificultando as soluções dos problemas brasileiros, mas talvez seja um caminho que a gente tem que percorrer. A vida é isso e Chaplin já havia mostrado. Politicamente, às vezes andamos pra frente, pro lado, às vezes andamos pra trás, mas acho que as coisas estão acontecendo. Bem ou mal, as coisas estão acontecendo, indo em direção a algum lugar. Temos que esperar mais um pouco, mas a nossa forma de esperar é essa: criticando, fazendo, script> elegendo com mais cuidado, discutindo os problemas nacionais, para que de alguma maneira, a vida dessas pessoas, que foi dedicada à nação de uma forma tão digna e heróica possa fazer sentido. Acho que a gente vai ter que caminhar desse jeito em busca de alguma coisa, que talvez pela ansiedade, pela angústia, sente que ainda não chegou lá, mas é o caminho que tem que ser percorrido. É batalhar pela educação, pela saúde pública, pelo respeito. É caminhando que se faz o caminho.
Sobre problemas com a censura:
JB: Eu fui à censura naquela época, anos 70, mais vezes do que eu gostaria. Estive lá argumentando, várias canções ficaram pendentes na censura e a gente sempre discutindo. Às vezes a gente conseguia tirar com modificações ou argumentações, acho que não havia privilégio com ninguém. Todo mundo teve problemas, até com as músicas que não davam motivos pra serem censuradas. Existia uma paranóia e primeiro se censurava, depois ia saber o que estava se censurando. Hoje não há nenhum tipo de censura, pode-se dizer e escrever o que quiser. A que existe hoje é uma censura de mercado. Você precisa ter uma mídia de caráter livre e independente pra que ela mostre às pessoas o que é a cultura brasileira. A gente está trabalhando pra ter essa mídia, pra não ficar dependendo de uma receita apenas mercadológica da cultura brasileira. É preciso ter uma mídia cultural. Há uma televisão educativa, cultural, que está procurando crescer e conseguir espaço, existe uma ou outra rádio que está vinculada à cultura brasileira, mas ainda é pouco. Acho que tudo isso é uma coisa que a gente vai conquistar e através da qualidade, da inventividade dos fazedores de cultura.
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Sobre a pirataria no Brasil:
JB: A pirataria é uma conseqüência da vida marginal que as pessoas têm em relação ao entretenimento. Não podem comprar um DVD, um CD que custa muito caro. A pirataria vem pra viabilizar a inclusão das pessoas nesse mundo de entretenimento. Acho que uma coisa é decorrente da outra. Quando o mercado era mais acessível, o suporte da música era mais barato, não existia pirataria. Ela existe quando as coisas ficam mais difíceis de conseguir. Não é legal, não é reconhecida por lei, mas é uma coisa que faz você pensar, quer dizer, é preciso pensar em veículos de cultura que estejam ao alcance da maioria das pessoas, mas não uma coisa que possa alcançar só alguns poucos privilegiados que tem o poder econômico. Acho que a pirataria, na verdade, vem chamar atenção pra que possa ser criado um tipo de facilidade na inclusão da sociedade no entretenimento.
Sobre mudanças no músico João Bosco e na música desde o disco “Bolso de Pasquim” até o CD atual:
JB: Tenho dificuldade de fazer balanços, retrospectiva ou reflexão sobre o assunto. Acho que você pode visitar uma música sua de 20 anos atrás e ter uma leitura diferente. A música possibilita isso. Quando você vê por exemplo um Caetano Veloso gravando “incompatibilidade de gênios”, um samba de 1976, ele dá uma leitura nova. Eu acho que isso vem demonstrar que a música e o tempo tem um relacionamento muito subjetivo. É preciso entender que você pode fazer. Se a música tem vigor, tem veia criativa, ela permite que você faça uma releitura em tempos diferentes e ela possa se remoçar com isso. O grande escritor argentino Jorge Luiz Borges já dizia que “reler é tão importante quanto ler”. Se você pega contos milenares e lê hoje, dentro da cultura oriental, você consegue imaginar algo diferente do que se pensava naquela época. Você pode construir através da fantasia, viajar sem sair do lugar e isso a obra de arte permite. O tempo não é um obstáculo. Não sei aferir essas mudanças. Eu sei que a gente muda. O Drummond ( script> Carlos, escritor) falou sobre isso no “Boitempo” e até mesmo em função desse livro, desses versos do Drummond, eu cheguei a compor quatro versos para ser usado num encarte de disco ("no balanço da cadeira, o balanço da hora. No balanço do mar, não caia fora"). Acho que é isso. Tem que ir navegando. O importante é não morrer afogado e chegar do outro lado da margem.
Sobre movimentos musicais modernos :
JB: Nós (compositores da mesma época) somos compositores que trabalhamos a música num tempo diferente, principalmente aqui em Minas Gerais com o pessoal do Clube da Esquina. O Caymmi, por exemplo é o grande compositor da espera e nunca se afobou pra fazer uma canção, pelo contrário, teve canção que demorou um ano pra fazer. É a pessoa que mais conhecia a espera da canção. Muitas vezes ela não chega inteira, vem em fragmentos e você tem que ter a capacidade artística de esperar que ela se resolva. Acho que em outros estilos musicais isso não conta. As pessoas não estão preocupadas com isso e o que conta mais é a coisa imediatista. Falei do Drummond, da maneira como ele fala do tempo, do Caymmi, que é a pessoa que mais experimentou isso. Estamos falando dos grandes compositores. O Milton (Nascimento) por exemplo, tem uma obra onde o silêncio é muito importante. Talvez por isso a música dele seja tão especial também. Ela vem desse tipo de relacionamento, sem açodamento, sem precipitação, num respeito e numa curtição à música que vem chegando. Ela vem mesmo. Cada uma a seu modo, e é bonito você estabelecer um relacionamento de espera com a canção. Em Minas Gerais isso acontece de forma professoral, e com alguns compositores baianos como o Caetano e o Caymmi.
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Sobre o jeito mineiro:
JB: Quando me relaciono com meus conterrâneos (mineiros) fico emocionado. Acho muito bonito a maneira como se fala, esse jeito arrastado, sereno, calmo, de dizer as coisas, de chegar lá e como dizia Guimarães Rosa, “é como se o rio tivesse a terceira margem”. O fato de mudar o jeito de falar é como ouvir música também. Quando se escuta muito uma música, acaba sendo influenciado por ela. Isso é enriquecedor e positivo. Falar também é assim. Muitas pessoas que saem do Brasil esquecem o português rapidamente. Se vou a Bahia, já saio falando como baiano. Mas aqui eu não tenho recaída, eu tenho a caída no meu berço.
MV: Muitos artistas são valorizados somente depois do aval de estrangeiros. O que você acha disso?
JB: Isso é coisa do Brasil. É o jeito de ser do brasileiro, talvez porque fomos descobertos por outro e ficamos mal acostumados com isso. Temos a presença de várias nações, que vieram pra cá a fim de colonizar. Eu acho que não faz diferença. Mas às vezes as pessoas acham que faz. No fundo, acho que seríamos valorizados com ou sem o aval estrangeiro, é tudo uma questão de tempo, mas enfim, é bacana quando o brasileiro sai e mexe com a cultura do estrangeiro tão bem a ponto de influenciar essa cultura. Esse lado antropofágico que nós temos na maneira de se alimentar da cultura do outro e criar algo em cima, é uma invasão sem violência, sem armas, invasão apenas do talento, da inteligência e eu gosto disso. É bacana quando a bossa nova vai aos Estados Unidos e ensina um pouco pros americanos, essa bossa que também se influenciou pela música americana, de repente volta e influencia os estrangeiros. O Milton trabalhando com compositores americanos, Toninho Horta que grava script> My Funny Valentine e tantas músicas de uma maneira tão brasileira, acho legal isso.
Sobre show em Montes Claros:
JB: É a primeira vez em Montes Claros e sempre ouvi falar muito da parte musical da cidade, que é muito inspirada e daqui saíram vários talentos. Sempre soube disso, apesar de nunca ter vindo aqui. A minha expectativa é grande, pois vou tocar numa cidade que as pessoas têm a música como alimento do dia a dia. Isso é bonito. Fazer um show onde a música vai ser bem ouvida. Por ser bem ouvida, vai ser bem tocada, vai ter uma interação entre as pessoas e os músicos que estiverem no palco, que são muito bons. Acho que a atmosfera vai ser bonita. Eu adoro palco e não gosto de fazer roteiro. Tudo pra mim vai acontecendo na hora e sendo construída uma história musical ali. Isso é melhor ainda, porque não existe uma história fixa, ela vai acontecer em função do momento.
Sobre música mineira atual:
JB: É a música mais rica que se faz no Brasil e não me canso de falar sobre isso. Acho que o Brasil inteiro e os compositores sabem da música que se faz em Minas Gerais. Não sei se é a topografia, se é a história de civilização do estado, dos seus escritores, da sua palavra, do que se herdou, mas enfim, quando se pensa em harmonia, melodia, em silêncio, numa forma musical profunda e vigorosa que pode ser visitada décadas depois sem perder sua exuberância e sua história, essa é a música de Minas. Dentre os discos que eu escuto atualmente está um do Milton, gravado em 1972, mas sempre ousado, moderno, singular. Dessa fonte você pode beber a vida inteira, sempre tirando substância e alimento desse trabalho. Esses são os compositores que a gente quando tem sede vai lá beber, porque sabe que tem água limpa, pura. Isso é Minas Gerais e não poderia ser diferente com as gerações atuais. Minas não gosta de fazer alarde. A história de mineiro trabalhar em silêncio é porque o silêncio é uma das coisas mais difíceis de se entender nessa vida e o mineiro, dentro do Brasil, é o que mais entende disso. Não existe música sem silêncio. A música sem silêncio se atrapalha, mete uma nota pela outra, se afoba, se perturba e depois vira só ritmo. Quem entende de silêncio é Minas Gerais. Não vejo no Brasil outras culturas que saibam trabalhar isso tão bem. Vejo compositores que fazem isso porque ouviram a música de Minas Gerais e sabem o que ela significa. Antônio Carlos Jobim nunca foi de gravar outros compositores, no entanto, num dos seus últimos trabalhos gravou “Trem Azul”, que é de Minas. Porque fez isso ele nunca disse, mas a gente sabe porque. script> Gil fez um trabalho com o Milton porque era o Milton, que ele sempre admirou. Chico Buarque também compôs com ele. Aqui em Minas se faz uma música muito especial.
Publicada em: "Jornal de Notícias"
Veja todas as fotos da coletiva e show em:
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Flagrantes do jornalista Fernando Zuba, capa do livro e jornal com entrevista
Entrevista - Fernando Zuba
Por Márcia Vieira
Fernando Zuba nasceu em Montes Claros, sob o signo de virgem e num tempo em que exercer a atividade jornalística era, segundo ele, um exercício de humildade. Começou a sua carreira no extinto “O Diário de Montes Claros”, quando este era dirigido pelo saudoso Julio de Melo Franco, de quem Fernando não se esquece. O entrevistado em Belo Horizonte e a entrevistadora em Montes Claros, entenderam-se a princípio, virtualmente. Mas o encontro “intergaláctico” não deixou a desejar. Nesta entrevista, Zuba, que é casado com Maria da Glória Cruzeiro Horta e pai de Fernando Zuba Filho, também jornalista, fala sobre família, superações, fé em Deus, sobre o que considera “impublicável”, e claro, sobre a Guerra das Malvinas, onde esteve como correspondente e um dos poucos brasileiros a fazer a cobertura. Mesmo submetendo-se semanalmente a sessões de hemodiálise, o jornalista mostra-se bem humorado, disposto e não dá sinais de cansaço. No próximo dia 13, o jornalista Fernando Zuba, orgulhosamente montesclarense, apresenta, com prefácio do escritor Manoel Hygino, o seu “Malvinas - Crônicas de Guerra” , aos conterrâneos, numa noite que tem tudo para ficar na memória da cidade, a começar pelo lugar escolhido para o lançamento, o tradicional Automóvel Clube, palco de belas histórias. Para o evento, conta com o apoio das entidades literárias da cidade, e do amigo jornalista Jorge Silveira, que no livro é citado. Fazer o lançamento em pleno dia 13 pode ser sinônimo de misticismo. Ou não. Mas esta e outras particularidades do jornalista Fernando Zuba, você confere a seguir:
MV: Fernando, são 26 anos. Porque só agora falar sobre as Malvinas? É dolorida a lembrança?
FZ: Trata-se de deixar como referência de minha atuação no jornalismo aquele que considero o meu melhor trabalho. A lembrança de um conflito armado de grandes proporções é sempre dolorida.
MV: Foi inesperado? Antes disso, já havia sonhado ou imaginado cobrir um evento como esse?
FZ: Inteiramente inesperado. A determinação para que eu fosse para o front partiu de São Paulo, da cabeça da Rede Capital de Comunicações e já no dia seguinte eu estava a caminho das Malvinas. Jamais pensei ou sonhei cobrir uma guerra.
MV: Um conhecido seu, daqui de Montes Claros, diz que os jornalistas de hoje pensam que sabem tudo, que são os donos da verdade. Existe diferença acentuada em relação aos jornalistas de antigamente?
FZ: Tal afirmação corresponde à exata realidade. As diferenças são importantes, a principal delas a humildade do repórter que sabe ouvir sem interferir nas conceituações do entrevistado.
MV: Qual a sua principal recordação de início de carreira?
FZ: Meus bons tempos na redação do saudoso Diário de Montes Claros, que funcionava num velho casarão da rua Dr. Santos, onde eu virava madrugadas.
MV: Além de passar por uma guerra, você passou também por problemas de saúde. O que você tirou das duas experiências? As lições são semelhantes?
FZ: Os problemas de saúde, uma cegueira parcial e depender de uma máquina de hemodiálise para continuar vivo, de certa maneira equiparam-se a lição da cobertura de um conflito sangrento, requerendo ambas as situações coragem, humildade e, sobretudo, esperança.
MV: O que mais te chamava atenção durante a cobertura da guerra?
FZ: Sem dúvida ou matar e ou morrer em nome da irracionalidade humana.
MV: Nas Malvinas você esperava pelo desenrolar dos acontecimentos diferentemente do que se deu?
FZ: Não havia outra saída se não a final: a vitória avassaladora dos Ingleses.
MV: Quanto tempo você passou por lá? Já voltou ao local depois disso?
FZ: Fiquei até o fim da guerra, tendo permanecido no extremo sul da Argentina durante 36 dias. Não retornei a Argentina.
MV: Qual foi a etapa mais difícil na construção deste livro?
FZ: Foi todo o processo muito difícil diante da minha impossibilidade de poder ajustar e digitar meu pensamento.
MV: Você já era casado quando partiu para uma cobertura de guerra? Como foi a reação da sua família?
FZ: Sim, já era casado. Naturalmente a reação foi de muita apreensão, principalmente, quando assistiam pela TV o que acontecia nas Malvinas.
MV: Cessada a guerra, o Fernando voltou ao seu habitat ou um jornalista nunca tem rumo certo?
FZ: Voltei ao meu ninho, na minha trincheira profissional, valorizando muito mais o real sentido da paz.
MV: Você ainda tem familiares em Montes Claros? É um homem apegado às raízes? Como administra a distância?
FZ: Sim, tenho tios, primos e sobrinhos. A família Zuba é muito grande, com ramificações fortes em Montes Claros, Belo Horizonte e no Paraná. Sou extremamente apegado as minhas raízes, embora em 41 anos de ausência física de minha terra natal, somente tenha voltado à mesma em duas rápidas oportunidades, a serviço. Sobre a distância, sinto-me cada vez mais surpreso com o formidável desenvolvimento de Montes Claros, e mato saudades pela mídia eletrônica.
MV: É comum os profissionais da comunicação reclamarem de uma remuneração inadequada. Nessa área especificamente, o amor e a doação, falam mais alto?
FZ: Falam sim, porque não há outro caminho, outra alternativa.
MV: Os combatentes de guerra desenvolvem traumas incuráveis. Ficou mais fácil entendê-los e ao mundo de um modo geral, depois da experiência nas Malvinas?
FZ: Vou resumir: Considero tudo isso de difícil entendimento, onde, como já disse, o irracional e a estupidez infelizmente ainda prevalecem.
MV: Alguns colegas como você, saíram daqui para Belo Horizonte, a fim de exercerem a profissão, Existia uma “confraria” montesclarense nas redações ou mesmo fora dela?
FZ: Existia sim uma boa relação, dentro e fora das redações. Tinha os jornalistas Lindenberg (Carlos, Diretor de Redação do Hoje em Dia) e Paulo Narciso (site montesclaros.com), que foram meus colegas. Os dois, grandes jornalistas e até hoje grandes amigos. E também o Manoel Hygino (cronista do jornal Hoje em Dia e membro da AML), que além de amigo foi um dos meus mestres no caminho do bom jornalismo.
MV: Você se lembra dos colegas de profissão que deixou aqui? Tem algum caso curioso envolvendo algum deles?
FZ: Em Montes Claros tem alguns profissionais com quem não trabalhei, mas admiro pela competência, como o Reginauro Silva (editor de "O Norte"). Quanto aos casos curiosos, eu me lembro de vários, afinal o convívio das boas amizades nunca se pode esquecer. A principio nada de muito especial, a não ser aqueles impublicáveis...
MV: E os seus casos curiosos, poderia citar?
FZ: As engenhosas maneiras com que burlávamos os censores militares que durante o período da revolução enchiam a paciência nas redações.
MV: Montes Claros é berço de bons profissionais. Além disso, o que existe aqui que não é possível encontrar em outro lugar?
FZ: Sua gente, seus cheiros característicos de temperos típicos e, sem dúvida, seu belo luar, o melhor pequi e a formidável carne de sol da face da Terra.
MV: Qual é o meio social em que você passeia com mais desenvoltura: intelectual, artístico, boêmio ou familiar?
FZ: Em todos. Não há um que possa ser destacado como especial. Afinal todo jornalista deve necessariamente ser eclético
MV: E com mais dificuldade?
FZ: Naqueles em que predominam vaidades, arrogância e o culto ao personalismo.
MV: Todos nós, acredito, tomamos como exemplo ou inspiração alguém que tenhamos conhecido. No seu caso isso existe, profissional ou espiritualmente? Poderia nos falar quem é essa pessoa?
FZ: Profissionalmente, Júlio César de Melo Franco, pessoa de caráter ameno, extremamente paciente, editorialista de primeira linha: foi meu primeiro e inesquecível professor de jornalismo.
MV: Qual é a crítica insuportável e qual é a crítica bem-vinda?
FZ: A insuportável é toda aquela crítica com lastro na burrice. Detesto a ignorância. Toda crítica inteligente deve ser aceita e assimilada com humildade. Ela somente nos engrandece, nos possibilitando o aprimoramento.
MV: Você tem um filho que seguiu a sua profissão. Em algum momento, você acha que a sua atuação foi definitiva na escolha dele? Você chegou a induzir ou tentar demovê-lo da decisão?
FZ: Certamente que sim. Nem uma coisa nem outra, de forma alguma tentei interferir, ele segue o caminho que escolheu e sem dúvida será bem sucedido.
MV: O que é solidariedade, Fernando? É o sentimento mais presente no front?
FZ: No front também. Ali também há espaço para o abraço amigo, fraterno e as lágrimas entre companheiros de trincheiras.
MV: Ao escrever o livro, a sua intenção é....
FZ: Como já disse, deixar uma referência do meu principal trabalho no jornalismo, atuando como correspondente de guerra.
MV: Você tem medos, reais ou imaginários?
FZ: Claro, como qualquer pessoa normal.
MV: O que é ou deveria ser “impublicável”?
FZ: Tenho, simplificando, exemplo de uma iniciativa da qual fui um dos autores em BH: não devemos publicar casos de suicídios, já que muitos exemplos alardeados em manchetes sensacionalistas encorajam e desencadeiam em série estas tragédias.
MV: Tem algum rosto ou alguma imagem inesquecível da guerra?
FZ: Os corpos dos jovens marinheiros do Cruzador General Belgrano boiando mutilados entre os destroços do mesmo, enegrecidos pelo óleo. Este capítulo do meu livro tem o título de "O cheiro da Morte".
MV: Acredita em Deus? Ele surgiu em sua vida como imposição ou foi num momento especial?
FZ: Acredito totalmente. Ele surgiu naturalmente em minha vida, já na infância, ao fazer a primeira comunhão na Capela da Santa Casa de Montes Claros.
MV: Sua melhor reportagem:
FZ: Foi exatamente a cobertura da guerra das Malvinas, embora tenha feito outras, entre as quais destaco a reportagem sobre a cobertura e morte de Che Guevara na Bolívia; a caçada ao chamado Louco do Triângulo, Orlando Sabino, que na verdade foi uma cortina de fumaça sobre incipiente movimento de guerrilha com base na fronteira de Minas com Goiás.
MV: Livro de cabeceira:
FZ: Nenhum em especial. Até onde minha vista alcançou devorava todos que me vinham às mãos. Mas destaco Grande Sertão Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa.
MV: Qual é o signo?
FZ: Virgem.
MV: Manoel Hygino, um dos ilustres dessa terra, disse sobre você: “mais do que um brilhante redator e repórter, Fernando Zuba bem poderia ser seu personagem”. Hoje você é personagem desta entrevista. O que jamais foi escrito sobre ou pelo Fernando e que você gostaria de ler?
FZ: Acho que sou assunto esgotado, sem direito a suíte.
MV: O número 13 é tido como místico, de azar para uns e sorte para outros. A escolha da data tem a ver com misticismo?
FZ: Passo ao largo dessas superstições. Não acredito nessas coisas.
MV: Fernando, o jornalismo através da internet ganhou mais visibilidade. O que você acha do advento da internet?
FZ: É a mais importante variante da mídia eletrônica dos últimos tempos. Acho que o jornalismo via internet ainda nos surpreenderá muito.
MV: Quando olha para trás, tem algum arrependimento?
FZ: Não, de forma alguma. Procuro olhar sempre em frente.
MV: Qual é a sua maior alegria?
FZ: Minha família, minha esposa, meu filho e meus netos.
MV: Quem ou o quê é nota zero ou nota 10?
FZ: Nota 10 à paz. Nota 0 à guerra
MV: Tem planos para outros livros?
FZ: Sim. O seguinte será "Além do Olhar" no qual relato como tenho enfrentado e superado minhas deficiências. Trata-se também do relato de um novo mundo que encontrei, no qual pessoas com as mesmas dificuldades se irmanam num ambiente de extrema solidariedade e amor ao próximo. Outros dois livros estão em curso, com patrocínio da Fundação Assis Chateaubriand, um sobre a história do Diário da Tarde e outro sobre a minha trajetória no jornalismo.
MV: Pra escrever tem uma trilha sonora? Qual?
FZ: Mozart.
*entrevista concedida a repórter Márcia Vieira, pelo jornalista Fernando Zuba, por ocasião do lançamento de "Malvinas - Crônicas de Guerra". Publicada em "O Norte".

Entrevista
Marina Colasanti: “A educação foi deixada à solta...”
MV: Marina Colasanti, jornalista, cronista, escritora, artista plástica... Quem é a Marina, afinal?
MC: Essa é uma boa pergunta. Eu espero ter construído qualquer coisa pra responder essa pergunta. Eu posso ter uma resposta que não bate com a resposta dos outros a meu respeito. Em geral, a gente tem de si uma imagem melhor do que a que os outros tem, não é? Espero que seja uma pessoa trabalhadora, séria, muito empenhada no que faz, gentilmente amorosa com o próximo, delicada. Uma pessoa muito interessada em harmonia, muito ligada à harmonia das coisas. Sempre em atividade. Não sei ficar parada. Não é uma virtude? Não, é uma situação. Não sei ficar parada.
MV: Você nasceu na Etiópia e foi criada na Itália? Não tem o biotipo dos que nasceram lá. Conta um pouco dessa história.
MC: Eu tenho que fazer uma correção. Você está certa, mas o nome do lugar onde eu nasci mudou. É a terceira vez que eu mudo de país de origem no nome, porque quando eu nasci era Absínia, depois do fim da Segunda Guerra, passou a ser Etiópia e o país onde de fato eu nasci conseguiu sua independência depois de 40 anos de luta, então hoje em dia eu tenho que dizer que nasci na Eritreia. É um país pequeno, colado na Etiópia, de quem a Etiópia havia se apossado. Nasci na Eritréia porque meu pai tinha feito as chamadas Guerras de Conquistas, guerras colonizadoras na África, se encantou e quando a guerra acabou ele pediu transferência para a África e nós nos estabelecemos na Eritréia. Depois saímos de lá e fomos morar na Líbia. Moramos em Trípoli e quando a Itália declarou guerra à França, nós voltamos para a Itália. E daí, em 1948, nós viemos para o Brasil.
MV: Seu primeiro livro é o “Eu, Sozinha”. Você se sente só? Isso tem a ver com o fato de ser imigrante, e o que é solidão?
MC: Não. Eu sou uma imigrante um pouco atípica, porque inclusive eu vim tendo família aqui. Meu pai não veio como imigrante. Ele veio porque uma parte da família dele já morava aqui. Então não tive sequer essa sensação de estranhamento. Eu cheguei ao Brasil numa casa onde todo mundo falava italiano, onde já éramos parentes então era bastante fácil. A solidão?É inerente. Ninguém nasce acompanhado, nem gêmeo, porque um nasce primeiro. E ninguém morre acompanhado porque você pode estar com alguém na hora, mas pra onde você vai, vai sozinho. A solidão faz parte do ser humano, faz parte da vida. Eu não sou uma pessoa mais sozinha do que ninguém, sobretudo hoje. Eu tenho duas filhas maravilhosas, um marido com uma relação muito, muito boa, de amor. Tenho até cachorro. Não sou uma pessoa sozinha nesse sentido físico, mas a solidão não é uma questão física. Quando você pensa na vida, é você com seu enfretamento da realidade, com o enfrentamento da sua finitude. Você pensando sobre “que história é essa que eu vou ter que morrer um dia?”. Essas reflexões você só pode fazer sozinha. Pode até fazer em parceria, mas há um momento de silêncio na vida de todo mundo, há hiatos de silêncio, em que você fala consigo mesma. É dessa solidão que eu estava me ocupando.
MV: Marina, em relação à qualidade do que é colocado no mercado literário, o que você pensa? Existe mais qualidade do que antes?
MC: Sem dúvida. Tem mais qualidade e mais variedade. Se falarmos em literatura infantil, por exemplo, a minha geração (eu não, porque vim de outro chão) toda só tinha pra ler na infância, Monteiro Lobato. Não estou minimamente questionando a qualidade de Monteiro Lobato. Mas ter só um autor é pouco pra um país desse tamanho, dessa importância. Hoje os meninos têm Monteiro Lobato e um monte de gente muito boa. Então, a qualidade aumentou e há também um critério muito intenso de seleção. Porque ao mesmo tempo em que aumenta a qualidade da produção, se criaram cátedras universitárias em literatura infantil, coisa que antes não existia. O livro era escolhido “eu gosto”, “eu não gosto”. Hoje em dia você tem critérios teóricos, ferramentas teóricas para avaliação dos livros infanto-juvenis, com a mesma seriedade das ferramentas utilizadas para avaliação da literatura adulta. Os professores são preparados e há doutores em literatura infanto-juvenil. Tem muitas teses sendo feitas sobre esse tipo de literatura, o que traz uma crítica mais severa, uma seleção mais cuidadosa, e portanto, o material que chega às crianças é de melhor qualidade. É claro que o mercado imprime muita porcaria, mas imprimem muita porcaria no mercado adulto, no mercado infantil, fabricam-se sapatos que não podem entrar na água, fabricam-se roupas que desmancham quando você olha pra elas duas vezes. A porcaria na modernidade corre paralela à qualidade. Não haveria motivo pra que isso não acontecesse na literatura. Na música popular, você escuta cinco canções, uma presta, e quatro, são lixo total. Então isso não é só uma coisa da literatura. Temos que vê-la dentro do momento histórico, social e econômico em que ela se insere.
MV: Marina, você ganhou o Jabuti (tradicional e maior prêmio literário do Brasil) na literatura infanto-juvenil e foi editora de comportamento de revistas femininas voltadas para a mulher adulta. Como é o processo de escrever pra esse ou aquele público? Você tem um ritual?
MC:Olha, eu sou uma profissional. Eu não fico parada esperando a inspiração descer do céu como o Espírito Santo, né (risos)? Além do mais, o meu tempo é cronometrado. Hoje em dia um escritor parece um atleta olímpico, porque nós viajamos muito. Metade do ano é gasta em viagens, agendas e organização da vida, então o tempo da escrita tem que ser trabalhado muito objetivamente, muito cuidadosamente, pra o autor não se perder. Eu quero ter uma produção constante. Eu tenho conseguido manter, pois uma vez que ninguém me cobra, sou eu quem me cobro. Não tenho fórmulas, nem rituais. Acharia muito meigo, como certas pessoas que só escrevem no computador X, na hora tal, acorda hora tal, vai andar na praia pra depois escrever. Isso é muito bom pra quem pode e pra quem tem alguém fazendo toda a retaguarda. Eu faço a vanguarda, a retaguarda e a equipe do meio, o sapador, então não pode ser assim. O que eu tenho são os programas que estabeleço: “este ano vou fazer isso, isso e isso”. Estabeleço e faço, variando no gênero de acordo com meu desejo e a minha necessidade.
MV: Em qual das áreas você se mais se realiza?
MC: Eu me preencho mais no conjunto. Se alguma dessas atividades não me preenchesse eu largava. Eu tenho excesso de coisa pra fazer, largando uma, ficaria mais light. Mas eu preciso do conjunto, que estou trabalhando como uma coisa homogênea. Ele tem que avançar amalgamado. Eu levo um gênero pra frente, vou levar outro daqui a pouco, vou levar outro e quero que avancem juntos pra que fique claro que não são peças soltas. São elementos formadores de um conjunto e a minha cabeça, a minha personalidade, necessita do conjunto.
MV: Uma vez, perguntada sobre se é possível ser poeta sem se ter aprendido a amar, você respondeu que não sabe, porque sempre amou. O que é amor?
MC: Vamos ficar aqui duas semanas, porque você fez a pergunta que a humanidade está se fazendo há milênios. O amor é o conceito de amor que nós temos, que é uma construção feita através dos séculos, através de frases, de poemas, de ensaios. Eu tenho até um livro sobre isso que se chama “Esse Amor de Todos Nós”. Não tem uma palavra minha. Eu fiz justamente pra mostrar como as opiniões sobre o amor, as frases emitidas, vieram construindo o conceito de amor que nós temos hoje. Então o conceito de amor é um fenômeno social, cultural, coletivo. Quando você fala “amor”, não está inventando nada, está usando os conceitos que recebeu. Por outro lado, há uma parte do amor que é estritamente individual. Duas pessoas não vivem o amor do mesmo jeito. Isso eu deveria perguntar a você, a todas as pessoas nessa mesa. Se eu perguntar pra cada um o que é o amor e a pessoa tentar responder o que é pra si, e não puxar aquela ficha “o que é o amor”, você não terá duas respostas iguais.
MV: E a educação de filhos, passa mais ou menos pelo mesmo conceito? Pra cada um funciona de um jeito?
MC: Não. Educação de filhos é um outro assunto. Até antes de ontem, havia uma espécie de um decálogo, havia normas muito claras, rígidas, estabelecidas pela sociedade e era muito fácil educar os filhos, porque você aprendia as normas, se atinha a elas e utilizava com as crianças. Era uma educação unilateral. Só os pais agiam. As crianças se submetiam a essa educação até a idade de sair de casa. Isso foi mudando com a liberalização dos costumes, com novos estudos sobre a educação, com as novas descobertas da psicanálise, Freud, traumas... Uma série de modificações e chegamos ao momento atual em que é “free for all” (livre para todos). Cada um educa da forma como acha que deve educar. Isso criou sérios problemas para os pais, porque com grande freqüência, os jovens que vão ser pais, não foram preparados para isso. A educação foi deixada à solta, eles se vêem com crianças pequenas e não sabem como socorrer. Desandam a comprar livros de ajuda, revistas que ensinam a educar os filhos, procurando normas como os pais deles tiveram. Ao mesmo tempo, muito inseguros em relação a essas normas, porque eles adotam uma norma hoje, conversam com um casal amigo que detona aquelas regras e ficam perdidos, com medo de criar traumas nos filhos. Aí buscam outro livro, outra revista e outras normas. E o que aconteceu é que a educação deixou de ser unilateral e passou a ser feita em parceria, porque as crianças ganharam o direito de questionar, de reclamar, de fazer exigências, de responder. As crianças foram postas quase em nível de igualdade com os pais, senão um degrau acima. Em algumas famílias as crianças estão um degrau acima dos pais, é o que se chama o menino-rei. É o filho o dono da família. É ele quem manda, quem escolhe, quem decide. Aí ficou um pouco complicado.
MV: Você é filha de ator e irmã de ator (Manfredo e Arduíno Colasanti, respectivamente). Você pensou em ser atriz?
MC: Eu quis. Não fui. Pensei nisso. Além do mais eu sou sobrinha-neta de uma cantora lírica famosíssima, a Gabriela Besanzoni Lage, que era dona do parque Lage no Rio. Sou sobrinha de um importante cenógrafo e figurinista italiano, meu avô era um famoso crítico historiador de arte na Itália, ou seja, minha família toda está nas artes. Não fui atriz, mas peguei por outros lados. Eu até pensei, mas por uma série de circunstâncias da vida, deixei de pensar e minha filha acabou virando atriz, o que é ótimo, fica na família (risos).
MV: Marina, quando o Affonso esteve aqui, eu perguntei: “você está casado com a Marina?”. Ele respondeu: “Ainda e sempre!” E pra você, o que é casamento?
MC: É isso. Sou casada com o Affonso há 37, 38 anos. Somos um casal que se dá muito bem. O que os outros chamam “casal feliz”, que aí vem cheio de aspas, né? Somos duas pessoas que se querem bem, que vivem juntas, que gostam da sua vida em comum, das suas filhas. Nós somos uma família que se ama.
MV: É mais fácil ser casada com um escritor?
MC: Eu nunca fui casada com outra pessoa! (muitos risos)
MV: Como é sua relação com o leitor e com o público que assiste às palestras? Sua reação depende do lugar em que está?
MC: Não depende do lugar. Você pode perguntar isso ao Marcelo (Andrade, idealizador do projeto que trouxe Marina a Montes Claros), que tem me acompanhado há vários anos. Eu estaria fazendo alguma falsificação se não fosse sempre a mesma. E a reação do público é sempre semelhante porque reagem a uma pessoa que é sempre a mesma. Em grande parte, são professores que trabalham com meus livros, estudantes, ou seja, um público que já sabe o que foi buscar. Já sabe do que vamos tratar e quem eu sou.
MV: Alguma situação ou público que tenha te surpreendido?
MC: Não. É claro que quando a gente vai a congressos internacionais, em outros países, pode ser diferente no sentido das outras pessoas que estão no congresso terem um discurso
MV: Você é filha de ator e irmã de ator (Manfredo e Arduíno Colasanti, respectivamente). Você pensou em ser atriz?
MC: Eu quis. Não fui. Pensei nisso. Além do mais eu sou sobrinha-neta de uma cantora lírica famosíssima, a Gabriela Besanzoni Lage, que era dona do parque Lage no Rio. Sou sobrinha de um importante cenógrafo e figurinista italiano, meu avô era um famoso crítico historiador de arte na Itália, ou seja, minha família toda está nas artes. Não fui atriz, mas peguei por outros lados. Eu até pensei, mas por uma série de circunstâncias da vida, deixei de pensar e minha filha acabou virando atriz, o que é ótimo, fica na família (risos).
MV: Marina, quando o Affonso esteve aqui, eu perguntei: “você está casado com a Marina?”. Ele respondeu: “Ainda e sempre!” E pra você, o que é casamento?
MC: É isso. Sou casada com o Affonso há 37, 38 anos. Somos um casal que se dá muito bem. O que os outros chamam “casal feliz”, que aí vem cheio de aspas, né? Somos duas pessoas que se querem bem, que vivem juntas, que gostam da sua vida em comum, das suas filhas. Nós somos uma família que se ama.
MV: É mais fácil ser casada com um escritor?
MC: Eu nunca fui casada com outra pessoa! (muitos risos)
MV: Como é sua relação com o leitor e com o público que assiste às palestras? Sua reação depende do lugar em que está?
MC: Não depende do lugar. Você pode perguntar isso ao Marcelo (Andrade, idealizador do projeto que trouxe Marina a Montes Claros), que tem me acompanhado há vários anos. Eu estaria fazendo alguma falsificação se não fosse sempre a mesma. E a reação do público é sempre semelhante porque reagem a uma pessoa que é sempre a mesma. Em grande parte, são professores que trabalham com meus livros, estudantes, ou seja, um público que já sabe o que foi buscar. Já sabe do que vamos tratar e quem eu sou.
MV: Alguma situação ou público que tenha te surpreendido?
MC: Não. É claro que quando a gente vai a congressos internacionais, em outros países, pode ser diferente no sentido das outras pessoas que estão no congresso terem um discurso semelhante ou diferentes, mas enfim, estamos falando de temas correlatos, somos todos da mesma profissão. Imagina se cada vez tudo fosse inventado, seria impossível!
MV: Quem é essa mulher brasileira que apesar de buscar a independência ainda quer o príncipe encantado?
MC: Todo mundo procura. Você não quer um príncipe encantado? Claro que existe. Você não quer um homem bom? Ou você quer um homem ruim? Quando as mulheres falam em príncipe encantado, isso não foi inventado. As histórias de príncipes têm centenas e centenas de anos. Isso vem desde Sherazade (personagem feminina do conto das mil e uma noites). Algum fundamento tem que ter. O que se diz como príncipe encantado é um homem bom, um homem positivo, um homem que seja bom pra mulher. Até ontem o marido mudava o status social da mulher. Ele operava nela uma transformação. De mulher solteira para casada era uma diferença social estrondosa. Era nisso que estava o encantamento. O príncipe era encantado porque ele operava nela o encantamento. Porque o homem não procurava a princesa encantada? Porque ele não mudava o status pelo fato de ter se casado. Não fazia muita diferença social. Tudo que ele podia fazer antes, ele podia fazer depois. Apenas ele saía do rol dos jovens e entrava para o rol dos homens. Só isso, enquanto para a mulher era uma transformação. Alem do mais, ela deixava de ser virgem com o príncipe e o homem já havia deixado de ser virgem. Quando a mulher procura o príncipe, ela tem toda razão. Porque iria procurar um sapo horrendo? Ela quer um homem bom e é justo. Vamos parar com essa conversa “ai que horror, as mulheres continuam procurando o príncipe encantado!”. Ainda bem! As mulheres querem um homem que as complete e seria bom que os homens quisessem uma mulher para completá-los e não apenas um corpinho gracioso para levar ao leito. É esse significado, não um cavalo branco, um manto. É o que a palavra realmente significa: príncipe é qualidade, encantamento é um cara modificador.
MV: um livro da sua preferência e um escritor, Marina
MC: Nem pensar! Eu tenho muitos, muitos. Tenho escritores da minha preferência italianos, escritores brasileiros, escritores vivos, mortos. A minha paixão é a leitura. A literatura. O ensaio, a poesia, os autores são tantos... Eu li minha vida toda. Não passo uma semana sem ler. Selecionar escritor.... (acena negativamente com a cabeça)
MV: Um músico:
MC: Mozart
MV: Cidade:
MC: Roma
MV: Um momento
MC: O próximo
MV: Eternidade:
MC: Não tenho a menor idéia do que seja
MV: Existe felicidade?
MC: É claro! Você nunca foi feliz? (risos)
MV: (risos) Várias vezes!
MC: Então! Não existe felicidade eterna, mas todo mundo já foi feliz. A felicidade, ao contrário do que dizem, é muito democrática, porque eu conheço pessoas na pior que conseguem momentos de felicidade. A felicidade é necessária à sobrevivência. Pessoas eternamente infelizes não sobrevivem
MV: Uma saudade:
MC: Não.
MV: Futuro:
MC: A Deus pertence!
MV: Religião:
MC: Não tenho. Fui formada católica, mas não tenho religião. Uma coisa é religião e outra coisa é religiosidade. Uma coisa é um sentimento, uma espiritualidade, outra coisa é religião. De carteirinha? Estou fora!
MV: Qual mulher é mais feliz, década de 70, 80 ou 90?
MC: Cada uma estava inserida na sua época. Cada uma estava dentro de um conjunto de fatores. Não existe isso, porque se formos assim: “qual homem, qual gato, qual criança?”. A vida social é um conjunto de muitos fatores e as pessoas estão inseridas nesse conjunto.
MV: A mulher de décadas passadas era mais idealista?
MC: Não. Não é assim. Isso é simplificar as coisas. As pessoas vivem dentro de sua época, entro dos valores, das exigências da sua época. Uma mulher que não tinha métodos de controle de natalidade não podia ser a mesma que tem pílula, não podia, eram outros valores, outro sistema, outro tudo.
MV: Sexualidade na maturidade, porque algumas pessoas acham que não existe?
MC: Qualquer médico, qualquer psicólogo, qualquer sexólogo vai dizer que a pessoa tem sexualidade até a hora de morrer. A forma de exercê-la é que é diferente. Não tem isso de melhor e pior... (risos).

Olhos tristes de Michael
Em Memória de Michael Jackson
O que fizeram aos ídolos de minha infância?
Por Márcia Vieira
Michael, o que fizeram a você? Onde foi que você se perdeu? Quando foi que começou a saga de se transformar em homem branco? Eu era pequena, me lembro bem, e você deslizava com os seus sapatos peculiares e meias brancas. Tinha traços próprios à sua raça, era um homem que dançava com raça. Tão lindo em uma roupa espalhafatosa, que nem de longe fazia sombra ao seu brilho. Brilho de astro que refletia nos outros Jacksons. Todos eles viajavam com você, tomavam parte de um espetáculo cuja figura central era um doce menino correndo atrás da felicidade, com pés que ainda na infância desafiavam a gravidade.Você parecia voar, Michael. Quando foi que roubaram a sua inocência e te fizeram acreditar que para ser querido deveria se dobrar às curvas da vaidade? Onde está escrito que a beleza tem cor e traços finos?
Muitos anos depois, em um shopping de Belo Horizonte, parei na frente de uma loja que ocupava as telas com o seu vídeo de músico bailarino dos anos 80. Eu ainda me encantava com a sua dança perfeita, com o seu modo de se entregar à melodia, com passos leves, flutuantes e decisivos. Você, Michael, era rosto e corpo de baile de uma geração, e as que se sucederam, não ousam dizer que não sabem que é você. Todos o imitavam, na dança, na voz, no figurino. Ainda ontem ouvi “We Are The World”, uma canção simples, que nasceu da boa vontade de músicos, conclamados por você, que queriam salvar o mundo, e lá, a sua voz sobressaía entre as demais.
Mas alguém o feriu na tenra infância, é o que dizem. E essa infância roubada, mais tarde foi descontada em outros, tão inocentes quanto o menino que desafiava a gravidade. Escândalos sucessivos, acusações, tiranias, partiram daqueles mesmos que o colocaram no topo. A mídia é isso, Michael. Retrata o seu momento, não importando se é de dor ou de plenitude. Você se prendeu a ela de tal forma, que não mais podia se locomover como simples mortal. Seus passos, não apenas aqueles que desenhou na história musical do mundo, acompanhado de hits sensacionais como Billie Jean, Thriller e Beat It, eram seguidos em todo o planeta, todo o tempo.Te sufocaram, Michael, e você se rendeu ao mundo da fantasia, tão explícito na construção do Rancho de Neverland ou Terra do Nunca, como o chamavam. Zoológico e parque de diversões, devolviam a infância roubada ao menino que sabia voar.
Oh, Michael, a sua inocência, tanto quanto a culpa, não foram provadas, e você, mais ainda se perdeu. Não sabemos se alguém quis se aproveitar do seu terrível sucesso e tudo que essa palavra representa, ou se realmente você foi capaz de ferir alguém. Prefiro acreditar que você ainda é um menino. Em todas as cenas que o vi, os seus olhos apareciam miudinhos, como de quem muito chora. Mas naquela cena em que você dança no Brasil, com o Olodum, no alto de uma favela, a câmera alcança a sua performance e é nela que vejo os seus olhos mais verdadeiros, ainda que de perfil. Os seus olhos naquele instante eram maiores do que os seus passos e gritavam mais do que a sua voz.
É essa cena que vou guardar de você, Michael. Mesmo que em todas as outras, os seus pés alados apareçam em destaque, dos seus olhos irei me lembrar, ídolo da minha hoje distante infância. Exatamente hoje, quando recordo meu nascimento, você escolheu ir embora. Talvez para que nunca me esquecesse de você. Nem precisava, Michael. Jamais me esqueceria das alegrias que você me deu, com pés de bailarino e olhos de criança triste. A Farrah Fawcett, que ironicamente também é personagem de minha infância, pantera que toda criança queria ser, escolheu esse mesmo dia para partir. Liz (Taylor), a “Gata em Teto de Zinco Quente” de olhos cor de violeta por quem Burton, duas vezes sucumbiu, sua amiga mais fiel e amorosa, está triste, como todo o mundo que chora a sua partida. Logo mais, quando brindar com amigos, em noite de lua aberta e esplendorosa, recordarei os teus olhos e a eles brindarei. Com aqueles olhos tristes, você deve ter construído “Heal the World”(Cure o Mundo), sua mais linda canção. Canção de quem queria um mundo melhor.
Até breve, Michael!
Heal the World
THERE’S A PLACE IN YOUR HEART
Há um lugar em seu coração
AND I KNOW THAT IT IS LOVE
E eu sei que ele é o amor
AND THIS PLACE
E nesse lugar
COULD BE MUCH BRIGHTER THAN TOMORROW
Pode estar o mais brilhante amanhã
AND IF YOU REALLY TRY
E se você realmente tentar
YOU'LL FIND THERE'S NO NEED TO CRY
Você irá descobrir que não precisa chorar
IN THIS PLACE
Nesse lugar
YOU'LL FEEL THERE'S NO HURT OR SORROW
Você irá sentir, que não há mágoa ou tristeza
THERE ARE WAYS TO GET THERE
Há caminhos para chegar lá
IF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVING
Se você se importa muito com a vida
MAKE A LITTLE SPACE
Crie um pequeno espaço
MAKE A BETTER PLACE ...
Crie um lugar melhor
HEAL THE WORLD
Cure o mundo
MAKE IT A BETTER PLACE
Faça dele um lugar melhor
FOR YOU AND FOR ME
Para você e para mim
AND THE ENTIRE HUMAN RACE
E toda a raça humana
THERE ARE PEOPLE DYING
Há pessoas morrendo
IF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVING
Se você se importa muito com a vida
MAKE A BETTER PLACE
Faça um lugar melhor
FOR YOU AND FOR ME
Para você e para mim
IF YOU WANT TO KNOW WHY
Se você quer saber por que
THERE'S A LOVE THAT CANNOT LIE
Existe um amor que não pode mentir
LOVE IS STRONG
O amor é forte
IT ONLY CARES OF JOYFUL GIVING
E só cuida das dádivas alegres
IF WE TRY WE SHALL SEE
Se nós tentarmos, nós veremos
IN THIS BLISS WE CANNOT FEEL
Nesta felicidade nós não sentimos
FEAR OR DREAD
Medo ou receio
WE STOP EXISTING AND START LIVING
Paramos o existir e começamos a viver
THEN IT FEELS THAT ALWAYS
Então sentimos que sempre
LOVE'S ENOUGH FOR US GROWING
Bastante amor nos faz crescer
SO MAKE A BETTER WORLD
Então faça um mundo melhor
MAKE A BETTER WORLD ...
Faça um mundo melhor
AND THE DREAM WE WERE CONCEIVED IN WILL REVEAL A JOYFUL FACE
E o sonho que nós concebemos ... revelará um rosto alegre
AND THE WORLD WE ONCE BELIEVED IN WILL SHINE AGAIN IN GRACE
E o mundo que uma vez nós acreditamos irá brilhar de novo em graça
THEN WHY
Então por que...
DO WE KEEP STRANGLING LIFE
Nós sufocamos a vida ?
WOUND THIS EARTH CRUCIFY ITS SOUL
Ferimos esta Terra, crucificamos esta alma
THOUGH IT'S PLAIN TO SEE
Mas é claro ver....
THIS WORLD IS HEAVENLY
Que este mundo é divino
BE GOD'S GLOW
É a luz de Deus
WE COULD FLY SO HIGH
Nós podemos voar tão alto
LET OUR SPIRITS NEVER DIE
Nunca deixar nossas almas morrerem
IN MY HEART
Em meu coração
I FEEL YOU ARE ALL MY BROTHERS
Eu sinto vocês todos meus irmãos
CREATE A WORLD WITH NO FEAR
Crie um mundo sem medos
TOGETHER WE CRY HAPPY TEARS
Juntos nós choraremos lágrimas de alegria
SEE THE NATION
Veja a nação
TURN THEIR SWORDS INTO PLOWSHARES
Transforme suas espadas em arados
WE COULD REALLY GET THERE
Nós poderíamos realmente conseguir
IF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVING
Se você se importa muito com a vida
MAKE A LITTLE SPACE
Crie um pequeno espaço
MAKE A BETTER PLACE ...
Crie um lugar melhor
HEAL THE WORLD
Cure o mundo
MAKE IT A BETTER PLACE
Faça dele um lugar melhor
FOR YOU AND FOR ME
Para você e para mim
AND THE ENTIRE HUMAN RACE
E toda a raça humana
THERE ARE PEOPLE DYING
Há pessoas morrendo
IF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVING
Se você se importa muito com a vida
MAKE A BETTER PLACE
Faça um lugar melhor
FOR YOU AND FOR ME
Para você e para mim
YOU AND FOR ME
Para você e para mim.
Márcia Vieira
25 de Junho de 2009
foto: imagem da internet- autor desconhecido

Fotos: da esquerda para a direita, em cima, aparecem HÍLTON JADIR SILVEIRA(de camisa azul), engenheiro montesclarense que estava no vôo da Air France, até o momento desaparecido; DENDA(camisa amarela)petequeiro muito conhecido na cidade e irmão de Hílton; na foto de baixo, a partir da esquerda,amigos na porta da casa do engenheiro e os irmãos, Denda e Leonir, conversando com repórteres, em Montes Claros.
Durante a tarde desta segunda-feira foi grande a movimentação de amigos e familiares do engenheiro Hílton Jadir Silveira, de 52 anos, passageiro do vôo da Air France, desaparecido desde a madrugada. Os familiares receberam ainda pela manhã, a notícia de que o montesclarense estaria no vôo. Leonir Silveira, única mulher na família de oito irmãos, disse que já sabia que o irmão viajaria a Alemanha a trabalho nesta data, por isso ficou apreensiva desde as primeiras notícias da manhã.
Hílton é funcionário efetivo da Petrobrás e mora há 15 anos no Rio de Janeiro. Recentemente esteve em Montes Claros para rever familiares. Antes passou por Belo Horizonte, onde assitiu ao jogo do cruzeiro, seu time de coração. Apesar de gostar do esporte, Hílton foi o único que fugiu à regra. Toda a família é muito conhecida em Montes Claros pela sua ligação com o esporte.
Segundo Gildásio, petequeiro de renome na cidade conhecido pelo apelido de Denda e irmão de Hílton, o engenheiro recebeu o diagnóstico de um desvio na coluna, em tempos idos, por isso, não enveredou pelo esporte.
Os pais de Hílton Jadir, abalados com o acontecimento, recebiam cuidados da família e não puderam falar aos repórteres. Leonir e Denda, irmãos de Hílton, recebiam os muitos amigos que chegavam a residência, no bairro Santa Rita.
Se confirmado o falecimento, Hilton deixa a esposa Maria das Graças (Maninha) e dois filhos: Lucas, 19 anos, e Ludmila, 23. Os familiares recebem acompanhamento psicológico de profissionais da companhia aérea, no Rio de Janeiro. De Montes Claros, segundo afirmou Leonir, é possível que se desloquem alguns familiares, a fim de resolver ou obter mais informações a respeito do ocorrido.
NOTA: a foto foi disponibilizada pela família de Hílton e as demais, tiradas no local, nesta tarde.
A família disponibilizou também o endereço do BLOG de HILTON JADIR onde todos podem ver mais fotos:

Gustavo Penna: "...A cidadania vão vai ser construída nas coisas exclusivas, elitizadas e seletivas..."
Entrevista - Gustavo Penna
Por Márcia Vieira
Gustavo Penna, arquiteto mineiro, cujo nome é referência no ramo, esteve em Montes Claros recentemente, destinado a oficializar a entrega de projeto da construção do Centro de Convivência com a Seca, parte de ação do Governo do Estado em parceria com a prefeitura local. Devidamente apresentado aos convidados e fugindo da formalidade, se acomodou em um confortável canto da residência de Elbe Brandão, Deputada, Secretária de Estado e anfitriã daquela manhã/tarde, onde simpaticamente conversou com esta repórter. O arquiteto, embora tenha na profissão o traço milimetricamente estudado, não traz essa característica à conversa. Naturalmente descontraído e bonachão, nada nele soa estudado. Fala pausadamente, gesticula e sorri sem economia. Disse dele, o artista plástico Carlos Bracher: "Gustavo tem a arte do projetar, do refletir". Antes, outro Carlos, o Drummond de Andrade, já havia vaticinado: "Nem tudo está perdido em BH, pois os moços, como Gustavo Penna, apontam o caminho...". O arquiteto responsável por grandes projetos, entre eles, o da Academia Mineira de Letras, fala sobre cores e clima, tece elogios ao mito Niemeyer, critica o narcisismo em edificações e discorre sobre a cidadania, que pode brotar através dos ambientes. Confira:
MV: Qual a importância de ser responsável por um projeto desse porte (Centro de Convivência com a Seca) para Montes Claros?
GP: Em primeiro lugar, o convite da Elbe Brandão é irrecusável, especialmente quando vai na direção de um coração mineiro, que ama a terra, que sabe dos valores profundos e o significado de ser "Montes Claros", pela sua história, pelos seus grandes vultos. Trabalhar um edifício desses, cheio de simbolismo, é trabalhar com o que eu gosto, com a dimensão poética das coisas e não com a material, óbvia, que se faz superficialmente. É trabalhar com um edifício que seja um ponto de reunião de encontro das idéias, encontro de sentimentos, onde se discutirá valores. É um tempo bom de se pensar nisso. Estamos vivendo um momento em que o próprio planeta precisa ser repensado, então, quando a gente repensa a nossa terra, estamos fazendo alguma coisa também em direção ao planeta. Pensar convivência é pensar harmonia entre as pessoas, entre os povos. Pensar em convivência e tecnologia mais arte, significa pensar também no que a população é capaz de fazer, que transcende o objetivo imediato e material. São coisas nessa direção que a gente pretende fazer. Um edifício para caber esse tipo de encontro, para colher esse tipo de sentimento. É uma casa de símbolos.
MV: Existe uma arquitetura genuinamente brasileira?
GP: Existe. Claro que existe. Eu acho que só existe arquitetura no Brasil quando ela é feita com esse sentimento de quem está tocado pela terra. Você não pode fazer uma arquitetura no país, que desconsidere o próprio país, desconsidere seu clima, seu sol, seus valores culturais, sua dimensão simbólica, seu lugar de encontro. Então eu acho que arquitetura é ferramenta pro homem viver o lugar.
MV: Na elaboração de um projeto qual o principal fator que deve ser levado em conta? O que é mais característico, por exemplo, no montesclarense?
GP: O principal fator é contemplar, é perguntar pro lugar o que ele quer, não é trazer uma coisa pronta no bolso do colete ou na mala, que você venha a aplicar. É mirar pras montanhas que existem, pra uma árvore que exista, uma declinidade, olhar as manifestações como elas acontecem, a informalidade do pessoal do Norte, essa coisa de ver a cultura do semi-árido, valorizar exatamente isso e fazer com esse prédio acolha naturalmente, espontaneamente, a manifestação. Eu acho que o prédio só tem valor, se fizer referência a essas coisas. Se ele for um elogio às outras, ele não precisa ficar aqui. Tem que vir aqui para mostrar aquilo que nós, no coração, sentimos: o valor da cultura de Montes Claros, o que Montes Claros é capaz de fazer. No momento em que ele é capaz de sublinhar e dar status a essa manifestação, significa que ele percebeu alguma coisa e é útil às pessoas. Aí também a gente pode pensar que vai ser absorvido naturalmente pelo cidadão comum.
MV: A questão do clima é relevante?
GP: Total. O clima é o dado mais importante da arquitetura. O clima fecha um edifício ou abre totalmente. Quem faz isso é o clima. O sol que entra ou o sol que não entra às vezes, é uma parede ou não parede. Basicamente, o que determina o desenho, os abertos, vazados, os fechados, é exatamente o clima. Vamos trabalhar com isso, mas de uma forma interessante. Não só com os elementos de arquitetura, mas com árvores, espelhos D'água, relevos de solo. É uma grande multiplicidade de recursos que a arquitetura tem para compor o ambiente onde as coisas acontecem.
MV: Esse tipo de detalhe que você citou onera uma construção?
GP: Ao contrário, porque ele já tem pistas aqui. A região naturalmente já constrói dessa forma, porque essa provocação do clima nunca deixou de existir. Se a gente olhar um pouco pro fazer com a mão do povo, como o povo faz e recuperar alguma coisa que a gente já sabe por ser mineiro e trabalhar numa região de clima tropical, a gente saberá trabalhar valorizando o clima, evitando as questões do rigor e valorizando o vento, visada..
MV: Você é responsável por grandes projetos, como o da Academia Mineira de Letras, mas tem algum que você destacaria como principal?
GP: Este (Academia) é um projeto que eu tenho muito amor a ele, porque meu avô (José Oswaldo de Araújo) inclusive, foi presidente da Academia Mineira de Letras. Quando eu era menino, ia lá com o meu avô, então foi um privilégio ter feito o projeto. Fiz Expominas, que é um grande conjunto, com 60 mil metros quadrados de área construída. Agora estamos trabalhando no Mineirão e no Mineirinho, pra Copa do Mundo de 2014. Tem alguns outros projetos também, como o Parque Ecológico da Pampulha em Belo Horizonte e a Escola Guinard. São coisas múltiplas e talvez no Centro de Convivência com a Seca, a gente possa sintetizar essas experiências anteriores, mas criando uma coisa daqui, com a cara de Montes Claros.
MV: Cada um desses trabalhos tem uma particularidade?
GP: Todos têm. Todos são suportados pela poesia. Eu costumo dizer que quem faz a arquitetura não é tijolo, pedra e ferro. É a poesia, a palavra que segura a arquitetura. Porque quando eu falo leveza, as paredes vão subindo, quando eu falo aconchego, elas vão ficando curvas. O que na realidade desenha conceitualmente o espaço arquitetônico é a palavra. É aquela poética que você dedica ao tema que será exercido.
MV: Existe "uma cara" de Gustavo Penna, um ponto em comum, em todos os trabalhos?
GP: Sim, senão, não seria meu. Estou dando um recado aqui, falando com a minha voz, usando a minha voz. Quando vou fazer uma arquitetura, dou um recado que é da terra, mas com o meu traço, com o meu desenho. Quer dizer, leva uma porção que tem que ser minha, no sentido da sinceridade, daquilo que você acredita, daquilo que você se responsabiliza, porque é um jeito de fazer carinho, é um jeito de dizer coisas mais sucinto. Eu gosto do mais simples pra poder durar mais tempo.
MV: Gustavo, como você trabalha com as cores?
GP: As cores são as que o ambiente pede. Muitas vezes, quando a gente colore um prédio, a gente descolore a pessoa que vai usar, porque o prédio ganha dela. Eu prefiro um prédio neutro, para que brilhem as pessoas que estão lá. Eu prefiro que o povo brilhe. O edifício tem que ser neutro para caber o povo. Não pode fazer movimento demais, porque acaba invadindo, tirando a espontaneidade do gesto das pessoas.
MV: Li uma vez que você falou sobre os edifícios não dialogarem um com outro. Como é isso?
GP: Eu disse num contexto de que a cidade precisa fazer com que os edifícios dialoguem. Seria engraçado, por exemplo, uma festa em que alguém não falasse nada. Eu acredito que as cidades estejam sendo feitas assim. Os edifícios, como só pensam em si mesmo e são uma ode ao narcisismo, acabam não dialogando com o que está ao lado. Só visam a si mesmo. Eu acho que os edifícios têm de perder, tem de ser mais generosos, sair do seu egoísmo, de sua auto-referência e começar a conversar com a rua, com a montanha, com o que está do lado, com a calçada, e aí ele fica mais integrado a cidade, fica maior. Acho até que a função da arquitetura é tornar o homem maior, porque ela gera espaço pro homem, então os espaços pro homem, são os espaços de onde se pode estender.
MV: Como você chegou à profissão?
GP: Acho que não saberia fazer outra coisa não! Gosto de cantar, gosto de música, de desenhar e sou meio preguiçoso quando consigo (risos)...Acho que cheguei à arquitetura, porque eu penso que qualquer pessoa que tenha capacidade de fazer um gesto de carinho, sabe fazer arquitetura e é potencialmente um arquiteto, porque é uma coisa que se faz em direção ao outro. Sai de dentro de você em direção ao outro. É uma coisa interessante que fica no tempo. Num país que está pra ser construído ainda, não é um convite, a arquitetura? Tem tanta coisa pra ser construída que a gente fica obrigado, questionado, desafiado à profissão, que é uma maneira de construir organizada, equilibrada, harmônica, respeitando a cultura e as coisas mais nobres que o homem tem, que são a sua criatividade e intuição.
MV: Quem é Niemeyer (Oscar, arquiteto, construtor de Brasília, a Capital Federal) pra você?
GP: Niemeyer é o grande mestre da arquitetura brasileira e meu grande mestre, inclusive. Pessoa por quem tenho profunda admiração. É claro que eu não faço o que ele faz, porque senão não seria eu, e sim, ele (risos). Uma coisa que eu acho que transcende até a própria arquitetura dele, é o fato de ter dado ao Brasil a sensação de que nós somos capazes, de que "é possível" pro brasileiro. Se eu for a Itália e falar que sou arquiteto no Brasil, o cara vai falar: " ah, tem o Oscar Niemeyer e tal...". Nós temos paternidade. Qualquer arquiteto brasileiro está de alguma forma, definido mundialmente pelo fato da existência do Oscar Niemeyer, mesmo que a arquitetura que ele faça, não tenha nada esteticamente a ver com a de outros. Mas existe uma espécie de postura, de coragem, de desassombro, diante do fazer arquitetônico.
MV: Qual a definição do traço do Gustavo Penna?
GP: Eu diria que a arquitetura que eu mais prezo é que meus edifícios não são estanques. As coisas são integradas. Eu gosto de integrar as pessoas. Gosto de acreditar que no edifício que eu projeto as pessoas irão se reunir ali dentro, ele vai ser de fato usado para a harmonia, para o encontro, para a troca de idéias. Que não seja espaço de elitização das coisas, mas espaço de democratização, de cidadania. Eu acho que é essa possibilidade da técnica e sensibilidade a serviço do encontro das pessoas. Isso é o que nos faz viver em cidades, onde precisamos de instrumentos para viver em coletividade. A arquitetura é quem dá esses instrumentos. Na medida em que eles são bons, belos e equilibrados, eles são também funcionais, porque agem, de fato, contribuindo para a grandeza disso. Fazer um encontro num lugar qualificado é completamente diferente de realizar esse encontro num lugar absolutamente improvisado, desarmônico. O que me estimula, é que a gente está aqui, qualificando o encontro das pessoas, as dimensões mais sublimes do ser humano.
MV: Na sua área, a tecnologia só ajuda ou também, atrapalha?
GP: A tecnologia é fundamental, porque ela gera a ferramenta. Como eu poderia fazer um gesto de leveza, se não houvesse um grande vão metálico para realizar isso? O que realiza de fato, a nossa visão de arquiteto é a ferramenta tecnológica. Eu não estou submetida a ela, a arquitetura é que se utiliza dela, e não o contrário.
MV: Dê um exemplo de cidade hostil:
GP: As cidades que crescem quantitativamente são todas hostis, ou têm áreas hostis. Uma floresta de prédios do Belvedere III em Belo Horizonte é um inferno vertical. Os prédios parecem brigar uns com os outros. Não têm diálogo um com o outro, nem com a rua, então eu não acho que aquilo seja um exemplo, de como, no próximo milênio, a gente deva viver nas cidades.
MV: Qual é a cidade que apresenta a mais bela arquitetura?
GP: Falar de cidade é falar da coisa mais complexa inventada pelo homem. Nunca uma cidade vai ser totalmente bela ou totalmente feia. São muitas energias. O que nós fazemos, não é consertar as cidades definitivamente, é conviver com o contraditório, é fazer essa coisa que nunca acaba, a luta que nunca tem fim. Se ela tiver fim, nós acabamos também. No fundo, é propor, é contrapor a uma onda impessoal, fria, que as cidades estão assumindo, com essa arquitetura bidimensional que só pensa em vender apartamento, planta e fachada, que não considera o homem. O mundo está precisando de tanto carinho, então vamos fazer uma arquitetura que tenha a gentileza dentro dela, embutida num pensar mais generoso em relação ao próximo. A cidadania não vai ser construída nas coisas exclusivas, elitizadas e seletivas.
MV: Gustavo, no Brasil ou fora dele, uma cidade que tenha arquitetura harmoniosa:
GP: Eu prefiro as cidades congeladas, aquelas que pararam no tempo, uma cidade como Òbidos (vila portuguesa, na região turística do país), em Portugal, ou Veneza, do Ítalo Calvino (escritor nascido em Cuba e criado na Itália, bastante observado pelos arquitetos, em razão dos seus relatos precisos ao descrever as cidades). Eu não diria que uma cidade possa, no mundo, ganhar esse rótulo. Paris, por exemplo, é uma cidade linda, mas com regiões horrendas, onde tem os incêndios. Vou ficar com Veneza mesmo. Uma cidade impossível, que não existe efetivamente, mas que você só percebe pela dimensão do sonho.
*Entrevista concedida à repórter Márcia Vieira em Montes Claros

Tião Martins com a repórter em Belo Horizonte
Tião Martins: “...Embora o homem seja mais livre no exterior, a mulher é mais livre no íntimo...”
Entrevista - Tião Martins
Por Márcia Vieira
Manhã de sábado em Belo Horizonte, clima ameno, depois de uma madrugada chuvosa. É no restaurante de um hotel, que encontro o meu entrevistado. Tomamos café sob o olhar atento de algumas pessoas que ocupam o salão. Ao meu lado, está uma figura querida de Belo Horizonte. Como ele explica adiante, não nasceu na capital mineira, mas há muito escolheu as montanhas da cidade como recanto e moradia, depois de viver em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro. Versátil, o veterano jornalista chegou a se aventurar numa montagem de peça teatral na época de estudante. Foi produtor e apresentador de programa matinal na extinta TV Itacolomi. Depois de passar por diversos e conceituados veículos de comunicação, entre eles o jornal Estado de Minas -onde foi editor nos anos 70- e jornal Última Hora, Sebastião Martins, ou apenas Tião Martins, ocupa com delicadeza um dos espaços mais visitados do Jornal Hoje em Dia: o Caderno de Cultura. Ali, diariamente, ele divide com um sem número de leitores os seus conhecimentos, a sua maneira de ver e viver a vida, e também, como conta, aprende com esses mesmos leitores, a expurgar fantasmas. Durante o nosso descontraído bate-papo, ele opinou, muito à vontade, sobre diversos assuntos, e como faz nas suas crônicas ressaltou a importância da presença feminina num mundo até pouco tempo, dominado por homens. Do alto da sua experiência, falou das muitas mudanças ocorridas na imprensa e lamentou a ausência de sede pelo aprendizado, que não raro permeia o comportamento de alguns profissionais. Fã dos grandes e bons escritores, o nosso cronista passeia com desenvoltura pelo mundo das letras e com tolerância, desnuda a natureza humana. A conferir:
MV: Quem é Sebastião Martins?
SM: Um mineiro calmo, pacífico, que pensa sobre a vida e tenta entender os caminhos que as pessoas têm que trilhar pra se tornarem melhores. Em resumo, é o que eu venho fazendo. Antes, eu era comprometido com a notícia, com a informação, com reportagem, com opinião política, durante muitos anos. Hoje eu estou mais interessado nas pessoas e menos interessado em partidos políticos e instituições, naquilo que os homens públicos costumam chamar de compromisso com a nação. Eu tenho compromisso hoje com as pessoas, e as pessoas, se quiserem, tem compromisso comigo.
MV: Tião, pra você atualmente qual é a melhor definição? É a de cronista?
TM: É a de cronista do cotidiano. O cotidiano real e o cotidiano imaginário das pessoas, porque na verdade, nas crônicas que escrevo eu procuro captar tanto a vida real dessas pessoas, que são os leitores, quanto a lenda pessoal, a ficção que essas pessoas criam até mesmo pra justificar a presença delas no mundo. Porque muitas vezes, a vida real é tão pobre e tão escassa em alegrias e afeto, que as pessoas precisam criar uma ficção a respeito delas mesmas. E essa ficção é que elas contam. Isso me parece tão importante e tão significativo quanto à própria vida real.
MV: É difícil fazer uma crônica diária?
SM: Depois de décadas de profissão, a gente aprende que tudo é difícil, e tudo é fácil. Depende do grau de envolvimento, do grau de dedicação, do grau de comprometimento que você tem com aquilo que você faz. Se você é profissional, não significa que você saiba fazer tudo. Significa que você está disposto a enfrentar qualquer desafio. E foi esse o desafio mais recente que enfrentei: o de escrever uma crônica diária, 365 dias por ano. Realmente é um grande desafio, mas um desafio que me dá um enorme prazer. Então, se você soma dedicação e empenho, com prazer, aí a coisa fica bem mais leve do que as pessoas às vezes imaginam.
MV: Vamos falar um pouco da sua origem. Veio de onde? É mineiro?
TM: Nasci em Teófilo Otoni, Nordeste de Minas, vim estudar em Belo Horizonte, fiquei aqui apenas três anos, fui embora para o Rio (de Janeiro), morei alguns anos lá, depois morei em Paris durante um ano. Quando voltei, pensei em trabalhar em São Paulo, estive lá durante algum tempo, mas não gostei muito do ambiente profissional e a cidade era meio assustadora naquele momento. Resolvi voltar para Belo Horizonte e estou aqui até hoje. Eu gosto de Belo Horizonte como gosto de Minas. Eu sou apaixonado por Minas. Por pequenos detalhes ou por grandes coisas de Minas. Eu sempre falo com os paulistas e cariocas que Minas têm um segredo que a gente não consegue revelar. Ainda bem! É a nossa pedra mais preciosa, é esse segredo que cada um tem dentro de si e que não consegue -talvez nem queira- dar forma a isso, porque teme que isso se esvazie no dia em que tiver uma forma definitiva. Você vê muito isso nos escritores mineiros, no Guimarães Rosa, no Paulo Mendes Campos, no Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, todos falam dessa coisa meio mística de Minas. Mas a mística é só porque a gente não quer dar uma forma que depois acabe se tornando propriedade da nação (risos). A gente quer ter sempre um grau de mistério que a gente possa oferecer sob formas meio disfarçadas, meio de ficção... Não importa... Nas Artes Plásticas, no cinema... Mas que não revele tudo. Minas não se desnuda inteira. Esse é o nosso segredo.
MV: Você passou por outros veículos, como rádio e televisão. Fale um pouco dessa experiência.
TM: Trabalhando em Belo Horizonte, foi quase inevitável que a gente trabalhasse com várias mídias. Além de rádio, jornal, televisão, revista, eu fiz teatro na época de estudante e foi muito legal. Belo Horizonte permitia, sobretudo no século passado, e talvez ainda permita hoje, que a gente se exercitasse em várias mídias. Coisa que, por exemplo, no Rio e São Paulo não era muito comum na época. Ainda hoje não é comum. Não há muito tempo pra você fazer no mesmo período rádio, jornal e televisão, como vários colegas nossos fizeram durante anos, simultaneamente. No Rio isso é quase impensável, em São Paulo, praticamente impossível. Além disso, eu trabalhei em publicidade, que foi um grande aprendizado pra mim, porque, se no jornal, rádio e televisão a gente aprende concisão, na publicidade aprendi uma coisa que normalmente nos veículos de comunicação a gente não tem a preocupação de aprender: a concisão voltada para um objetivo. No caso da publicidade, vender uma idéia, vender um produto, mas na medida em que se aprende essa técnica, na minha visão, você aperfeiçoa o seu jeito de escrever para rádio, para jornal, para televisão. E dá mais foco, mais objetividade e até resultado, coisa que normalmente a gente não se preocupa nas redações.
MV: Nas crônicas você fala muito da mulher. Tião Martins transita bem no mundo feminino?
TM: Sim, eu transito bem porque eu tenho uma enorme admiração pela mulher como ser humano. Eu acho que a gente tem tudo para aprender com a mulher. Não que todas as mulheres do mundo sejam perfeitas, maravilhosas e sem pecado original, não é isso não. Eu acho é que as mulheres estão mais próximas do humano. As mulheres estão mais próximas do que é natural. Elas têm uma sensibilidade mais aguçada para sentimentos, para caminhos novos, a mulher é mais criativa, mais inventiva, menos medrosa, menos assustada, menos formal, menos submetida às regras sociais do que o homem. Embora o homem aparentemente seja mais livre no exterior, a mulher é muito mais livre no íntimo dela, no interior dela. Quando uma mulher aparentemente escravizada às regras da sociedade e aos limites do casamento rompe com isso, ela rompe de uma forma muito mais profunda, mais inteira e muito mais criativa do que o homem. Por isso eu tenho tanta admiração pela mulher e aprendo muito com ela.
MV: Como é a construção desses personagens que você retrata tão bem nas crônicas? São fictícios ou reais?
TM: Todos reais. São pessoas que lêem o jornal, que escrevem, que contam histórias e eu tenho um grande orgulho: é que essas pessoas confiam em mim. Tenho por princípio nunca usar texto que as pessoas me mandam sem pedir autorização delas na forma final como vai sair a crônica. Faço isso com um sentido de compromisso ético comigo mesmo e com essas pessoas que nem sabiam que eu tinha esse compromisso, mas que ficam muito gratas por esse respeito. É um respeito mútuo, entre a pessoa que vai escrever e publicar e a pessoa que escreveu pra contar alguma coisa muito íntima. Já houve casos em que a pessoa me autorizou a usar uma história pessoal, uma história íntima e eu adverti que ela não devia autorizar porque poderia ser prejudicial a ela. Porque as pessoas, às vezes, num impulso se deixam levar e dizem: "não, publica sim, é bom que o cara leia, o cara saiba e tal...". Eu disse: "olha, pensa duas vezes, porque pode ser que você tenha um conflito com seu pai, que você às vezes não tem tanto respeito, mas ama, e você vai envenenar um relacionamento sem nenhuma necessidade...". Então essa pessoa depois me agradeceu muito e disse: "você tinha toda razão". Esse tipo de compromisso, que não foi declarado previamente, mas que a pessoa se surpreende quando acontece, eu acho que a gente tem com todas as pessoas. Da mesma forma que eu tenho um compromisso com quem me contar uma história pessoalmente, de não repetir aquilo, eu não tenho o direito de colocar no jornal, de publicar, sem essa pessoa ter lido antes. É um princípio ético meu, não importa que outras pessoas não adotem.
MV: Não existe aí uma contradição, uma censura, já que você precisa da autorização para publicar seus escritos?
TM: Não, não.... Não é censura. Eu escolho os materiais que chegam, o que as pessoas me contam verbalmente ou que me escrevam. Eu escolho que material eu quero usar, agora, com esse compromisso de respeitar a história da pessoa, a ficção da própria vida ou a realidade que ela resolva contar. Não é censura, não é aprovação num sentido mais global. Ela aprova o uso daquelas frases, daquelas coisas que ela disse num outro contexto. E se não aprovar, eu simplesmente abro mão daquele texto e faço outro. Eu sou um profissional e estou aí para captar as histórias, os sentimentos, as afeições das pessoas. Se uma resolve que foi longe demais ao contar e que ela não quer compartilhar isso com o grande público, mas quis compartilhar foi comigo, tudo bem, eu respeito. É um direito, uma escolha dela.
MV: De onde partiu a idéia de batizar aquele retângulo de papel de "barquinho"?
TM: Isso foi meio uma brincadeirinha, porque eu tomo a vida como uma viagem. Uma viagem de barco ou de navio, é uma das melhores coisas que você pode fazer na vida, porque você se desliga de terra firme e está sujeito -isso é uma metáfora- a tudo. Está sujeito a tempestade, a sol forte, a ondas altas, ao balanço do navio, a enjôo e a outras coisas que acontecem em grandes navios. Pode encontrar uma paixão, pode mudar sua vida. Enfim, o navio é um espaço de liberdade, de aventura, de surpresa, é um espaço do inesperado, onde tudo pode acontecer. E foi por isso que comecei a brincar com essa história do barquinho, que muita gente gostou e muita gente não gostou. Aos poucos eu fui abandonando porque as pessoas disseram: "ah, tá muito repetitivo e tal".... Enfim, são estratégias pra manter o interesse pelos textos, pra que não se tornem tão redundantes, tão repetitivos, tão rotineiros, como acontece com outros cronistas que eu respeito muito, mas que talvez não tenham tanto cuidado e não levem isso tão a sério como compromisso profissional, como eu aprendi a levar tudo que eu faço.
MV: Você recebe correspondência de todas as partes do país. Existe alguma história que tenha chocado o Tião Martins? Você se choca com alguma coisa?
TM: Olha, chocar com a humanidade eu não me choco mais. Eu espero tudo de bom e lamento muito que espere também qualquer coisa de ruim que possa vir da nossa, às vezes triste, às vezes alegre, humanidade. Acho eu que conheço bem as pessoas e sei do que elas são capazes de fazer pro bem e pro mal, e a mesma pessoa... A mesma pessoa pode fazer coisas maravilhosas, ser a mais generosa, a mais idealista, a mais apaixonada pelas outras pessoas e ser capaz de uma crueldade absolutamente venenosa, coisa de serpente. Gente é assim. Querer a perfeição nas pessoas não é só um equívoco, é uma traição à própria humanidade. A humanidade cresce é através dos seus defeitos, aprende é com as quedas, aprende é com a dor, como aprende com a alegria também. A gente não pode exigir das pessoas que elas sejam perfeitas o tempo inteiro. Que elas sejam maravilhosas durante um tempo, mas que elas permitam que o veneno saia também. Muitas vezes você rompe com um relacionamento por causa de uma gotinha de veneno... "Pô, podia deixar passar aquilo ali!"... Mas as pessoas são muito impacientes. Elas exigem perfeição nos outros, mas não pedem perfeição a elas mesmas, porque sabem que isso é impossível. Não existe perfeição.
MV: Então o sofrimento é necessário?
TM: Não acho nem que seja necessário ou desnecessário não. Ele é da própria essência da humanidade. Ele faz parte da nossa vida cotidiana. Escapar disso é cair no terreno da ilusão, da fantasia mais desatinada que não leva a lugar algum, nem ao próprio conhecimento que é essencial. Quando você se conhece, você sabe do que é capaz. De bem ou de mal. Que predomine o chamado bem ou que predomine o mal, aquilo que outros podem chamar de mal e eu também, é uma questão de luta interna. Você tem que se resolver, tem que escolher o seu caminho pro melhor, em primeiro lugar pra você e depois pros outros, porque quem guarda muito veneno dentro de si, não só se envenena como deixa sobrar veneno pros outros.
MV: Como é o seu relacionamento com os leitores? As pessoas se sentem íntimas do Tião Martins pelo fato dele estar presente todos os dias no jornal?
TM: Jornal é um meio frio, no sentido de que é distanciado, porque a pessoa lê ali, mas não existe um contato mais visual com o autor. Quando eu fiz televisão, eu descobri uma coisa que me assustou muito: o programa tinha muita audiência na época, era líder de audiência no horário, com duração de três, quatro horas, sendo o programa que encerrava a noite, e as pessoas se sentiam proprietárias da gente, nós que fazíamos o programa. Acho que rádio tem essa coisa mais quente, mais próxima também. Eu conheço mil histórias de ouvintes que se apaixonam pelas pessoas que apresentam programas nos rádios, onde em muitos casos essas histórias foram vividas, chegaram a se tornar reais. O jornal é mais distanciado, mas eu sinto duas coisas: primeiro, muito carinho por parte das pessoas que escrevem, e depois, uma coisa surpreendente, gratidão pela forma de abordar uma história da própria pessoa onde ela se vê por escrito e é levada a refletir e pensar em mudança.
MV: Estar em contato com diversas e tantas histórias diferentes, ajuda a lidar com os próprios fantasmas? Você se educa através do que passa pras pessoas?
TM: Claro que sim! Na medida em que você discute com o mínimo de respeito e seriedade as coisas que as pessoas escrevem, você está pondo em cheque também a sua convicção, seu sentimento, sua própria história, a história do seu futuro, suas lendas.... Eu acho que com um mínimo de seriedade, de honestidade, de abertura, isso é inevitável, porque todos os dias, as histórias delas geram histórias em você, geram reflexão, geram aprendizado e crescimento também. Acho que todos nós estamos crescendo juntos, ou quase todos, enquanto discutimos os nossos fantasmas, as nossas fantasias, os nossos medos, o nosso futuro, o nosso passado.
MV: Imprensa do passado e de hoje. Qual é a principal diferença?
TM: Éramos mais românticos, menos arrogantes, mais abertos ao aprendizado diário. Tínhamos um respeito muito grande por aqueles que nos precederam, mas esse respeito nunca nos impediu de buscar caminhos novos, formas novas de fazer jornalismo. Entrávamos em conflito com essas pessoas que a gente respeitava exatamente porque as respeitávamos, caso contrário, simplesmente evitaríamos o conflito e deixaríamos que elas morressem de inanição. Era porque a gente respeitava que aprendia. E porque havia uma espécie de escola informal dentro de cada redação. Eu me lembro que quando comecei -e lá se vão décadas- que depois do trabalho diário, o diretor de redação nos propunha testes de melhoria de redação dos melhores textos do jornalismo brasileiro da época. O Jornal do Brasil era o modelo de qualidade de texto pro país inteiro. Ele (o diretor) nos dava um trecho do Jornal do Brasil e dizia: "melhorem!". A gente se empenhava e não era de brincadeirinha não, era parte de um trabalho profissional. Hoje, que eu saiba, não tem nada parecido com isso. Pode ser que em um caso ou outro, excepcional, você tenha um chefe de redação empenhado em melhorar a qualidade dele como profissional e chamar à participação a equipe, pra todo mundo melhorar em conjunto. O que eu vejo é certa arrogância, as pessoas se sentem donas da verdade, não têm mais nada pra aprender, sabem tudo, desde o primeiro dia. Outro dia um companheiro meu me disse essa frase: "esses meninos acham que o diploma que eles recebem na escola é um certificado de sucesso profissional, e que eles não tem que aprender mais nada.Entraram na faculdade semi-analfabetos e saíram gênios". É mais ou menos por ai.
MV: Qual é a melhor história?
TM: Eu acho que a história mais comovente que eu já escrevi a partir de uma mensagem de leitor, foi de uma senhora de 90 anos, em que ela falava que, embora sofra ainda hoje a perda do marido, o amor que ficou entre eles é a grande história da vida dela e isso só se constrói com confiança, respeito, carinho e delicadeza. E dizia: "a delicadeza está morrendo no mundo, está morrendo no nosso tempo". Eu acho que foi a coisa mais comovente que eu já escrevi.
MV: O Tião tem um ídolo?
TM: Na literatura? Vários! Ernst Hemingway, Willian Faulkner, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Machado de Assis, mestre de todos nós. Não são muitos, mas eu acho que formam o melhor coquetel da literatura mundial, brasileira, e terminando esse coquetel, a cereja que vem no alto chama-se a Bíblia Sagrada.
MV: É um apaixonado por cinema?
TM: Sempre. Eu fui criado dentro de uma sala de cinema, meu pai trabalhava com isso e desde os 7, 8 anos, eu ia ao cinema diariamente. Vi filmes proibidos pra dezoito anos quando eu tinha dez. Isso confundiu muito a minha cabeça, mas eu aprendi muita coisa. Sobretudo aprendi que essas distinções de idade são absolutamente falsas. Um menino de 10 anos pode ser muito mais responsável que um cara de 40. Depende do jeito que ele vê o mundo, que o educaram e que ele se educou pra viver no mundo.
MV: Você é uma pessoa religiosa?
TM: Se você chama de religiosa a pessoa que respeita os laços que a prendem a vida e que procura construir sua história pessoal com dignidade, sim. Se você fala de religião organizada, oficial, não. Eu não tenho nenhum vínculo com nenhum tipo de pensamento organizado, seja ele religioso, político, o que for. Eu acho que cada um de nós é solitário na busca do seu caminho e na busca disso que você chama de religião.
MV: E o romantismo?
TM: Sou romântico. Sempre fui e acho que serei sempre. Não há como escapar disso, sendo brasileiro, moreno, tropical, não tem jeito de escapar do romantismo não. Esse romantismo eu bebi nos poetas do parnasiano, nos grandes escritores do passado, que não tinham medo, não tinham vergonha de serem românticos, porque românticos somos todos nós quando amamos.
MV: O que é essencial num ser humano?
TM: Dignidade, identidade e respeito pelas pessoas. Que se traduz em delicadeza, em atenção, em carinho, em confiança, enfim, uma série de coisas que a gente luta uma vida inteira pra construir.
MV: Pra finalizar, um bate-bola. Sua definição de amor:
TM: Essencial. O grande equívoco é achar que o amor é uma coisa que você vai encontrar pronta, que você vai encontrar na primeira esquina, acontece e pronto, não te exige nada, não te pede nada e você não tem que dar nada. Eu acho que amor é um processo de doação, de aprendizado e de crescimento, feito por duas pessoas. Ao invés de você crescer separado, aprender separado, sofrer separado, ser alegre separado, você aprende a fazer isso com uma outra pessoa. É difícil? É. Talvez seja das tarefas mais difíceis que a gente enfrenta ao longo da vida e às vezes a gente passa por vários testes, por várias pessoas e com cada uma delas, a gente aprende um pouco. O que eu acho ruim é que às vezes a gente desaprenda com as pessoas e isso acontece também. Muita gente acaba se tornando cruel, porque foi vítima de crueldade. O que não leva a nada, mas acontece.
MV: Saudade:
TM: Eu tenho muitas vezes, de muitas coisas. Saudade do tempo em que o Atlético Mineiro era um time muito melhor do que é hoje. Tenho saudade da delicadeza entre as pessoas. Eu fui criado num ambiente em que as pessoas eram delicadas umas com as outras, tinham cuidado e respeito umas pelas outras, e vejo os meninos hoje, tratando companheiras, namoradas e amigas, com grosseria. E elas respondem com uma grosseria impressionante. Eu fico prestando muita atenção nisso, porque me parece uma degradação que não tem nada a ver com moral não, mas é que cuidar das pessoas é uma das tarefas mais dignas que a gente recebe enquanto está vivo.
MV: Alegria:
TM: Pra repetir a história do (Clube Mineiro) Atlético, alegria seria se o Atlético chegasse ao primeiro lugar, mas isso não vai chegar nunca... (risos)... Alegria é encontrar os amigos, saber que são amigos ao longo de décadas, confiar neles e nelas, é ter construído uma relação de respeito, de amizade e de solidariedade entre amigos, que é talvez a coisa melhor que a gente tem na vida. E nesse rol dos amigos, eu incluo os meus filhos.
MV: Inteligência ou sabedoria?
TM: Não há oposição entre uma coisa e outra. A inteligência quando é separada da emoção, é quase inócua, inútil. A sabedoria é a soma de inteligência com emoção, razão com emoção. Isso pra mim é sabedoria. Ela não existe congelada, pronta, feita, acabada. Sabedoria é uma construção diária e uma desconstrução diária. Aquilo que você aprende de falso -e a gente aprende muita coisa de falso- é preciso desconstruir. Então é uma construção, desconstrução e reconstrução, que gera sabedoria.
MV: Um livro, um filme e uma música:
TM: Infância, de Graciliano Ramos; Cidadão Kane; Im In The Mood For Love, composição americana gravada pelo Frank Sinatra.
MV: O Tião Martins desnuda a alma dos leitores, mas pouco se revela, porquê?
TM: Não, acho que tudo que a gente escreve, fala... É um pouco de desnudar sim. Eu só acho que eu não tenho o direito de ocupar um espaço que pertence aos leitores. Isso não é uma declaração demagógica não. Pertence mesmo. O jornal existe por causa do leitor e eu gosto de saber que aquele espaço só existe porque o leitor escolhe que ele exista. Ele é que tem direito de falar, de expor seu pensamento, seu sentimento e tal....
MV: Foi ótimo falar com você, mas quero saber quando você vai a Montes Claros.
TM: O compromisso eu faço, mas data eu não posso dizer, porque dependo de planejamento do meu tempo pra conseguir, mas eu gosto demais de Montes Claros. Tenho amigos não só nascidos em Montes Claros, mas que vivem, viveram e amam Montes Claros, bem mais do que eu até, porque escolheram voltar pra cidade, como o Paulo Narciso que é um grande amigo de décadas, e outros amigos ligados à imprensa que eu conheci ao longo do tempo, como o Carlos Lindenberg, o Robson (Costa, jornalista já falecido), enfim, eu não sei se vocês concordam com isso, mas Montes Claros e Santa Luzia, são os dois municípios que mais produzem jornalistas em Minas Gerais. É impressionante o número de jornalistas bons -eu estou falando de gente competente, de gente boa- produzidos nesses dois lugares. Santa Luzia é até mais compreensível, está muito próximo de Belo Horizonte, agora Montes Claros, tão distante... E são caras que tomaram espaço na imprensa mineira, na imprensa paulista, com grande competência, de modo que a cidade está de parabéns pelo menos nesse departamento de produzir jornalistas... (risos)
MV: Qual recado para seus leitores?
TM: Que vocês continuem prestigiando aquela mínima coluninha que eu estou fazendo todo dia. Eu descobri que o Hoje em Dia tem para Montes Claros, e eu achei isso surpreendente, um significado quase como de jornal local, e eu espero que um pouco desse carinho sobre pra mim. (muitos risos).
*Entrevista concedida à repórter Márcia Vieira, em Belo Horizonte.
O Irmão Mora ao Lado
Por Márcia Vieira
Há dias assistimos a mais uma catástrofe em nosso Brasil. Santa Catarina, na rica e educada região Sul do país, agoniza. Centenas de mortos, desabrigados, desassistidos. É crível e digna, toda mobilização que objetiva socorrer os irmãos. Números de telefone são disponibilizados em toda parte do país, assim como números de contas bancárias. Movimentos apontam naquela direção, onde a situação, quase insustentável, faz queixume nos corações de quem assiste. E quem assiste? Nós, irmãos do Sudeste, também do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Assistimos, nos ferimos, vertemos lágrimas, nos posicionamos como se lá estivéssemos. Irmãos do Sul ou de outras regiões já citadas, são irmãos. De sangue ou de coração, a dor é igual. É dor! E aí, assistindo a tudo, queremos socorrer. O espírito de solidariedade está em todo o Brasil. Esse mesmo espírito que tão logo nos impele a refletir. Mas e o meu irmão, que aqui está, logo ali, tão pertinho, a dois ou três quarteirões, na minha rua, na minha porta, na casa vizinha, metros ou quilômetros de distância, tenho feito por ele, algum bem? Tenho estendido a mão, a voz, ou ao menos tenho olhado em seus olhos com atenção? Perto, tão perto ou numa casa distante, numa rua erma, num bairro massacrado, numa cidade próxima, num hospital de desvalidos, numa vila de desamparados, lá também estão os nossos irmãos. E o espírito solidário, que sofre ao se deparar com cenas tristes, nos acorreu com a mesma e intensa velocidade que atingiu o coração ao assistir a catástrofe em Santa Catarina? Sim, eu diria. Mas por que então, não olhar e enxergar o que padece tão próximo? Porque é mais fácil, cômodo até, direcionar os olhos e as mãos àqueles que não nos criam problemas, que não se fazem presentes fisicamente, a ponto de perturbar o nosso sossego, o nosso descanso. O sofrimento do país é verdadeiro. Mas o egoísmo, que reside em cada um de nós, também. Depositar uma quantia a fim de socorrer aos que sentem fome, frio e sono, sem sequer ter onde recostar, é mais tranqüilo e seguro do que oferecer a nossa cama, o nosso cantinho, o nosso farto alimento. Queremos ajudar, mas sem estar lá, sentindo fome, frio, e sono. Temos nossos cantos confortáveis para repousar, nossas telas de televisão e computador que favorecem o contato com os demais, temos a nossa vida reta, quase sem sobressaltos, temos a comida quente e saborosa, a roupa bonita, elegante e "da moda", enfim, temos a segurança (?) longa e incansavelmente almejada. Temos! Um sem número de "temos". E "somos" ou "estamos" realmente preocupados com o espírito de fraternidade, legado, antes de todos, à humanidade? Milhares de pessoas prosseguem irmanadas na intenção de reconstruir Santa Catarina. Seria cruel não socorrê-los. E não é menos cruel, desviar os olhos do irmão que mora ao lado, do que não tem emprego, saúde, moradia e do que carece, às vezes, apenas de um afago. Afago na alma, olhar amigo, palavra doce. Abençoado seja também, aquele que desconhece a essência da boa ação: o silêncio. Este esquecido e solene ato de bondade, que raramente acompanha a mão/coração que oferta. O que é ofertado com bem querer, afeição justa e sincera, oculto também deveria ser. É comum assistirmos, em momentos como este, pessoas físicas ou jurídicas que se gabam de doações encaminhadas, da ajuda prestimosa, do socorro oferecido, como para expurgar os pecados opressos em recônditos da alma. De uma forma ou de outra, é certo que os irmãos de Santa Catarina, agradecem. Humilde e sinceramente, agradecem. Como agradecido poderia ficar o nosso vizinho; o desconhecido, que situações cotidianas nos impedem de enxergar; o enfermo de corpo ou de espírito; o atendente, que sabe-se lá qual problema, destila mau humor e descortesia; o aniquilado pela vaidade; o injustiçado habitante de um mundo sem diretriz; o vitimado pela fome, frio, sede, perdas e afins, com a solidariedade do irmão que mora aqui, bem ao lado. script>

Petrônio Braz ao lado de Yvonne Silveira, Presidente da Academia de Letras de Montes Claros
Petrônio e a Chuva
E foi numa noite de chuva que ele se tornou imortal. Dia escolhido a dedo, na anunciada chegada das 80 primaveras. Sob o signo de escorpião, águas enviadas por São Pedro, salão lotado e iluminado do Automóvel Clube, coral encantado, batizado de Denise Vilela, que há pouco foi suavizar o céu, chegada de filhos distantes, amigos como o Bala (Augustão) e Genival, que aportaram cá, nos Montes Claros, no instante exato de sua coroação. Foi assim a noite de Petrônio Braz, jurista, escritor, contador de histórias e estórias. Filho do lendário Brasiliano Braz (autor de "São Francisco nos Caminhos da História", cujas quadrinhas populares me encantaram ainda criança), o Dr. Petrônio veio de São Francisco para deliberar nos Claros Montes. É daqui, ninguém duvida, mas é também e ainda, de lá, onde passa o Rio. Indo e vindo, discorrendo sobre o São Francisco-que o "Agreste" e muitos cantaram-, assimilando as inovações, tecendo astutas observações, construindo amizades, regando antigas, semeando letras e colhendo informações, tomou assento na Academia de Letras de Montes Claros. Justo, pois aqui se faz presente virtual e fisicamente. E "computador não pensa", disse ele, como quem quer dizer: "humanos que somos, precisamos do calor humano que máquina alguma é capaz de ofertar". Certo, Dr. Petrônio. Dela, máquina, somos companheiros, numa relação próxima, mas imprevista, que tanto pode ser agradável como aborrecida. Do senhor, somos companheiros de prosa, ouvintes atentos, leitores "co" e recorrentes. Esperamos surpresas, talvez, mas com um sabor conhecido, uma pitada de "déjà vu", que pode aparecer na próxima crônica, rabisco, palpite ou livro. Surpresa boa e familiar. Esperamos ainda, que chegue aos 90, 100 e mais, com a mesma vitalidade e bom humor que recebeu os 80. Que venha outra chuva, como aquela que acompanhou o lançamento de um dos seus livros no mesmo e tradicional clube, e que adornou a noite em que o senhor, fagueiro, recebeu diploma e distintivo de ilustre acadêmico.
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Jadir Rodrigues posa ao lado dos troféus, minutos antes da entrega, defronte ao Café Galo.
Tradição Política : Café Galo entrega troféus aos eleitos do Norte de Minas
Na manhã deste sábado, a entrega de troféus aos prefeitos eleitos no Norte de Minas movimentou o centro de Montes Claros. Há 20 anos, Jadir Rodrigues, proprietário do tradicional Café Galo, realiza o evento, que traz à principal cidade do Norte, os prefeitos eleitos da região. O evento aconteceu num palco montado defronte ao Café, sob os aplausos e olhares atenciosos da população.Este ano, foram homenageados os prefeitos: Warmillon Braga, de Pirapora; Toninho Cordeiro, de Coração de Jesus; Lacerdino Menezes, de Mirabela; José Benedito, de Janaúba, Juraci Freire, de Porteirinha; Marcelo Leão, de Itacambira; Ildeu Reis, de Lontra; Maurílio Arruda, de Januária; Reinaldo Teixeira, de Capitão Enéas e Luiz Tadeu Leite, de Montes Claros, este, um dos mais festejados. O evento parou o centro de Montes Claros, mais especificamente, o cruzamento das ruas Governador Valadares e Simeão Ribeiro, que abriga o tradicional reduto político da cidade. Por ali, jornalistas, escritores, políticos, historiadores, formadores de opinião, aliados a até adversários dos homenageados compareceram em peso. A população teve ainda o prazer de assistir a uma bela apresentação do repentista Téo Azevedo, uma das figuras mais representativas da cultura local, reconhecido nacionalmente. Num dado momento, o prefeito de Montes Claros, Tadeu, chegou a dividir o palco com o cantador Azevedo e deixou aflorar seu lado musical. O vereador mais votado em Montes Claros, Ildeu Maia, também foi agraciado.
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Tadeu Leite, PMDB, novo prefeito de Montes Claros
Luís Tadeu Leite é o novo prefeito de Montes Claros a partir de 2009, vitória celebrada com cerca de 10 mil votos sobre o adversário. Tadeu, do PMDB, chegou à sua residência, por volta das 20h30, onde parte da população, ansiosa, já o aguardava. Fiel ao seu estilo, recebeu a todos de braços abertos. Na sala de sua residência, o novo prefeito da cidade mais importante do Norte de Minas, falou com a imprensa, sempre ao lado da companheira Stela Martins Leite e dos filhos Tadeuzinho e André. Em seguida, Tadeu seguiu para a Avenida Deputado Esteves Rodrigues, para festejar com a população. Com o prefeito seguiram também a vice-prefeita eleita Cristina Pereira e o esposo, Deputado Gil Pereira, além de aliados, vereadores da atual legislatura (dos quais, 12 apoiaram o agora prefeito), vereadores que ocuparão suas cadeiras a partir de 2009, amigos e familiares.
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