Bramam os Deuses
Ó Brâmanes Brasileiros, de vossa Meritíssima Boca sai a verdade. Ante ela nos curvamos. Nós, iluminados que somos por vossas vozes e sentenças, vos louvamos. Sim, vinde, assentai-vos, ó Supremos Deuses Federais, e julgai! Sim, vós que distribuís justiça com equidade imarcescível.
Ó Brâmanes Brasileiros quem é este que se atreve com a presunção de julgá-los, visto que sois Deuses Supremos!? Visto que vossa divina palavra, sempre a final, produz a irretocável justiça brasileira!?
Por que esta casta inferior clama e geme, chora e suplica, a merenda roubada, a segurança jurídica assaltada, saúde degradada, a educação de nada?! Acaso não estão fartos com as justas sentenças saídas da boca dos Deuses Brâmanes!? Se não, certamente o que lhes falta é entendimento; tal visão entorpecida, então, é o que lhes causa tormento.
E quem é esse zé, chinelo no pé, que se atreve a pensar que todos os homens são iguais!? Cego! Não vê, o tal zé, que sois a própria Palavra Divina?! Falaram: é decreto: reto, irrevogável, irrecorrível.
Por que reclamam os párias de seu trabalho de cultivar campos, limpar lixo, encher cofres e ventres? Vós sim, sois vós, ó Brâmanes Brasileiros, que, com palavras justas, verdade e equidade, alimentam a mente, saciam o espírito, purificam a alma, enlevam o corpo. Deles, jamais comeis o pão regado com sangue; assado com suor. Dessa natureza, o pão só faz crescer intestinos e acumular lipídios. Porém, a palavra que sai da vossa boca, ó Brâmanes, faz justiça ao oprimido, mantêm na prisão o ladrão, gera confiança, alegra a nação.
Ó insolente, por que insistes que os Brâmanes são homens, teus iguais!? Estás sim, na Idade das Trevas. Não vês que são Deuses!? Nem ainda vistes que não fostes iluminado pela Justa Palavra Professada Pela Boca dos Brâmanes Brasileiros!?
Ó vós, saídos dos pés, excretados dos rins, frutos fétidos do reto de Brama, calai-vos, que a Boca fala. Parai com vossos gemidos inexprimíveis que nada dizem aos juízos proferidos por Brama.
E para ti, joão ninguém, por tua insana presunção de que todos hão de prestar contas, lavrada e coligida está a tua sentença. Bramam: É pena de morte: calai-vos para sempre, que pária não fala, só tem ouvido. Ouvido para obedecer e ausência de boca para calar.
Daniel Ramos Côrtes