04.02.2013 12:01 am

MANTEGA, O GAROTO-PROPAGANDA


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, dará início nesta semana, em São Paulo, à campanha que estrelará como garoto-propaganda do governo federal. A missão, que se estenderá por Nova York, Londres e Tóquio, tem por objetivo convencer os investidores estrangeiros que vale a pena participar dos programas brasileiros de concessões à iniciativa privada, avaliados quase R$ 230 bilhões. São projetos nas áreas de portos, rodovias, petróleo, ferrovias e aeroportos, com os quais a presidente Dilma Rousseff pretende destravar os investimentos tão necessários à retomada mais forte do crescimento econômico do país.


Se Mantega já está fazendo a lição de casa, memorizando cada detalhe dos empreendimentos, os investidores com os quais ele se encontrará têm, na ponta da língua, os questionamentos que farão ao ministro. E, com certeza, boa parte deles não se refere às concessões. Não é segredo para ninguém que o chefe da equipe econômica do governo Dilma e os donos do dinheiro andam às turras. A grande maioria dos que podiam estar abrindo e ampliando fábricas e financiando obras de infraestrutura simplesmente perdeu a confiança naquele que deveria guiar as expectativas do setor produtivo.


Os investidores não escondem o incômodo com a política econômica errática do governo. Alegam que as últimas ações do Ministério da Fazenda e do Banco Central acabaram com a previsibilidade no Brasil. A política fiscal, que permitiu ao país derrubar a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB), de 60% para 35% nos últimos 10 anos, transformou-se em um show de maquiagens para disfarçar gastos de péssima qualidade, que só contribuíram para a alta da inflação.


Nos dois primeiros anos de mandato, Dilma não consegui levar a inflação para o centro da meta perseguida pelo BC, de 4,5%. E não o fará em 2013 nem em 2014. Apesar de todo o discurso de que sistema de metas inflacionárias está mantido, é claro para todos que o governo simplesmente passou a aceitar um custo de vida maior, uma meta informal de 5,5%, para tentar alavancar o crescimento do PIB. Para piorar, agora, BC e Fazenda andam em direção opostas no câmbio. A autoridade monetária quer usar o dólar mais barato para controlar a inflação e a equipe de Mantega, garantir um dólar mais alto com o intuito de favorecer as exportações do país. Em meio a esse desentendimento, a única coisa que se sabe é que o câmbio deixou de ser flutuante e passou a ser administrado, seguindo interesses difusos.


Nem mesmo a política de incentivos ao consumo anima os investidores. Os benefícios foram concedidos de acordo com as pressões de setores mais organizados em Brasília. Em alguns programas, as regras mudaram constantemente. Muita coisa também foi decidida em cima da hora, por falta de coordenação da equipe econômica. Tanta confusão desgastou Mantega de uma tal forma, que a presidente Dilma cogitou substituí-lo, mas acabou convencida pelo ex-presidente Lula de que o melhor era manter o ministro no cargo e prestigiá-lo o máximo possível.


De mãos abanando


Diante desse quadro, Mantega poderá ouvir o que não quer — e, claro, responder num tom acima provocando ruídos desnecessários nos mercados . O descontentamento entre os investidores com o Brasil é enorme, por causa das constantes mudanças de regras, da inflação com sinais de descontrole e da falta de parâmetros para os contratos. No caso das concessões que o ministro venderá, teme-se que o retorno ao capital oferecido pelo governo torne os negócios inviáveis. Não será surpresa se o garoto-propaganda voltar de mãos abanando, como voltou a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, quando foi atrás de possíveis interessados pelos aeroportos do país.


Muitos dos donos do dinheiro que o governo está mirando vêm comparando o Brasil a um carro desnorteado, em que um grupo manda o veículo virar para a direita e outro, imediatamente, diz que o melhor caminho é pela esquerda. Para não perderem dinheiro, os empresários dizem que é melhor parar o automóvel do que correr o risco de acidentes. É essa a razão de a economia brasileira estar patinando. Os consumidores continuam comprando, ajudando a sustentar uma parte do PIB, mas os investimentos que dão a dinâmica do Produto permanecem parados, sem sinais de retomada importante.


2,5% de crescimento


Junto com as concessões, Mantega traçará, em suas apresentações, um país em ebulição, com perspectivas de crescimento de até 4% neste ano. Os investidores, porém, já se convenceram de que o resultado do PIB em 2013 será inferior a 3%. O consenso, lá fora, caminha para uma expansão de 2,5%. Isso, porque a base de comparação de 2012 foi muito baixa — menos de 1%. Com esse retrato, o capital que o governo tanto anseia acredita que Dilma encerrará o primeiro mandato com média de crescimento igual ou pior que a de Fernando Henrique Cardoso.


Para uma administração que assumiu o poder cercada pelo otimismo, de que a gerente Dilma Rousseff era a pessoa que o Brasil precisava para dar o salto ao crescimento sustentado, o que está restando agora é apenas desconfiança. Tomara que o tempo que ainda resta deste mandato seja usado para o bem do país. Está todo mundo cansado de tanta trapalhada, de declarações equivocadas que só favorecem a especulação. O que a economia precisa, e os investidores clamam, é de um ministro da Fazenda forte e previsibilidade. Nada mais do que isso.


Brasília, 00h01min


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