Segunda-feira, 14 de novembro de 2011 05:13 pm

As novilhas, o touro e a dentadura

Foto: Mário Castello

Por Dulce Helena Franco:

"Meu pai, Mário de Almeida Franco, enxergava  o futuro. Certa ocasião, ele foi a uma fazenda no interior do Rio de Janeiro para comprar um bom número de novilhas. Chegando lá, deu de cara com um bezerro lindo e forte, filho de uma vaca campeã, mas fingiu que não viu. Ficou tão interessado no filhote, que para distrair o dono das novilhas sobre o seu real interesse, arrematou um lote com o dobro de animais que pretendia comprar quando chegou. Era muito dinheiro.


-Vou levar esse lote grande, mas só se aquele bezerrinho ali vier junto. 

- Nem pensar, ele é filho de campeã.

- Então nada feito, deixo as novilhas todas aqui.

 Foi uma negociação dura, mas valeu a pena. Mário Franco saiu de lá dono das novilhas e do bezerro, que teve que ficar na fazenda onde nasceu até desmamar. Assim que isso aconteceu, o animal foi levado para Uberaba.  No caminho, caiu a ficha: o bicho  não tinha nome. Então meu pai perguntou ao meu irmão:

- Como vamos chamá-lo?

Era 1968. Jacqueline Kennedy, a rainha de um país sem monarquia, uma heroína internacional pela coragem com que enfrentou a morte de seu marido, John Kennedy, e Aristóteles Sócrates Onassis, um fabuloso grego que tinha o dom de transformar em ouro tudo o que tocava, anunciavam que iam se casar. Abrindo o jornal, meu irmão leu a notícia do casamento e gritou:

- Olha, pai, aqui está, o nome do bezerro vai ser Onassis.

O bezerro Onassis fez juz ao anome e não negou a estirpe soberana. Foi o Grande Campeão Nacional da Expozebu alguns anos depois. Era forte e garboso. Um dia, porém, deixou de comer.

Vieram veterinários de toda parte do país para tentar descobrir o motivo da inapetência do touro. E nada. Até que o único especialista brasileiro em odontologia de animais veio do Rio Grande do Sul e descobriu que os dentes de Onassis estavam apodrecendo. Ele não comia porque não agüentava de dor. Para salvar o animal, meu pai mandou fazer uma dentadura de platina, que foi posta na boca de Onassis, que viveu muitos e muitos anos".  

 

 

 

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Sexta-feira, 11 de novembro de 2011 06:00 am

O gato, o pires e o cliente

Foto: Mário Castello

Um conto popular, que me contaram em Uberaba:

Era uma vez um comprador de antiguidades que viajava o mundo em busca de objetos preciosos. Um dia ele chegou a uma cidade longínqua,  num país longínquo, e entrou numa loja de bugigangas velhas para ver se encontrava algum objeto de valor que valesse a pena arrematar.

Mal pisou no estabelecimento e viu um gato de raça que bebia leite num pires depositado no chão, na lateral de um móvel caindo aos pedaços.  Imediatamente ficou arrepiado. O pires era uma peça rara e caríssima, coisa de colecionador.

Sem querer dar bandeira para não chamar a atenção do dono da espelunca sobre a peça que o interessara de fato - tinha medo que ele pedisse muito caro por ela - percorreu a loja, comprou dezenas de peças que jamais teria adquirido se não fosse o valioso pires jogado naquele cantinho e, por último, disse ao vendedor, tentando parecer distraído:

- Ah!, põe no pacote aquele pires pequeno que está jogado ali no chão. Ele até que é bonitinho.

E o dono da loja:

- Ôpa, moço, esse eu não vendo não. Esse é o meu pires de atrair cliente...  

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Quinta-feira, 10 de novembro de 2011 06:00 am

Dulce e seu cachorrinho, Whisky


Foto: Mário Castello

Aos 19 anos, Dulce Helena Franco foi morar em Paris com uma prima. Não foi fácil convencer seu pai, Mário de Almeida Franco, um fazendeiro de Uberaba,  amigo de Juscelino Kubitschek, - e considerado o diplomata da pecuária brasileira -, a presenteá-la com essa viagem. A lembrança da greve geral  que estalou em Paris em maio do ano anterior ainda estava muito fresca para que ele desse a autorização com tranqulidade.

Dulce e sua prima tiveram que recorrer a subterfúgios na tentativa de conseguir o sinal verde para viver em Paris por um ano. Ou seja: foi necessário mentir. Muito e bem. Um casal de amigos da família que vivia na cidade luz ajudou, afirmando que as duas moças viveriam em sua casa, o que não era propriamente verdade. Deu tudo certo e elas partiram.

A princípio moraram num quarto  de um pequeno hotel no Quartier Latin. Para chegar até esse aposento, era preciso subir quatro andares. Não havia geladeira. Os mantimentos que precisavam ser refrigerados eram estocados na janela. Depois de três meses , as duas conseguiram alugar o pequeno apartamento do casal amigo, que estava de mudança. Ficava no mesmo bairro, no Boulervard Saint Michel.

- Bem embaixo desse prédio tinha um pequeno restaurante, o mais badalado da cidade. Era só descer para trombarmos com figurinhas como Alan Delon, Brigitte Bardot, pintores, cineastas.

Paris era uma festa e Dulce tinha sido convidada.

- Foi um ano maravilhoso. Contratamos uma senhora francesa que nos levava aos museus e falava conosco sobre arte e história. Estudei na Sorbonne. Viajava praticamente todos os fins de semana. Para que eu voltasse ao Brasil, minha mãe teve que ir me buscar. Hoje ela conta que se arrependeu.

Dulce e os irmãos nasceram no município de Conceição das Alagoas, que fica em Minas Gerais mesmo, bem na ponta do Triângulo. São garimpenses. Cedo mudaram-se para o Rio. E assim, ela raramente ia a Uberaba, onde o pai mantinha suas fazendas de criação de gado, reunidas numa  S/A.

Com a morte dele, o negócio passou a ser tocado por um dos irmãos. Alguns anos depois, a S/A foi desfeita e cada um foi obrigado a assumir o comando da sua parte.O problema é que a filha de Mário Franco gosta muito de artes plásticas, cinema, teatro e literatura, mas não entendia nada de gado. A princípio acreditou que poderia administrar sua herança delegando poderes, mas descobriu rapidamente que para mandar direito, é preciso saber fazer. Por isso, em 2000 voltou para Uberaba e mergulhou de cabeça no universo rural. Com a tranqulidade de quem já teve o mundo a seus pés.  

- Crio guzerá e nelore puros de origem. São matrizes reprodutoras.  Mas tive que aprender.

Ela conta que peões e técnicos foram bons professores. Cursos de especialização na ABCZ  (Associação Brasileira de Criadores de Zebu) também ajudaram. Dulce também aprendeu que a intuição feminina funciona como uma ferramenta  eficiente para o sucesso do negócio.

 - Uma vez um veterinário me mandou sacrificar dois animais que só ficavam deitados. Não concordei. Perguntei se eles estavam comendo e o técnico me disse que sim. Então determinei que enquanto eles estivessem com apetite, continuariam vivos. Dois dias depois, os dois touros se levantaram e voltaram ao pasto como se nada tivesse acontecido. Foi fascinante.

 

 

   



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Quarta-feira, 09 de novembro de 2011 06:00 am

O Noroeste de Minas e o Velho Chico

 

Foto: Mário Castello

Quando falava que "o sertão é o fim do mundo", o escritor João Guimarães Rosa não estava brincando. Para os peões e sertanejos que viviam no local em meados do século 20, não existia nada além dos chapadões e do cerrado mineiro. Era bem ali que o mundo acabava.


Abertas as novas fronteiras do desenvolvimento no Brasil - Goiás, Mato Grosso,  Floresta Amazônica - parece que o sertão ficou pequeno. Os rios que abastecem o Noroeste de Minas, por exemplo, como o Paracatu (que você vê na foto) e o Urucuia, estão na lista dos principais afluentes do São Francisco. São eles que vão permitir que o projeto de transposição do Velho Chico  para o abastecimento de regiões semiáridas do Nordeste brasileiro se torne viável.


A transposição depende de barramentos (de água) que serão feitos entre os rios Paracatu e Prata, numa extensão de 15,3 mil hectares. E também no rio Caatinga (15,3 mil hectares de barragem), no rio Sono e no Santo Antõnio (19 mil hectares) e no Urucuia (são 14 mil hectares).  


- Esses barramentos vão elevar a vazão do rio São Francisco em 800 metros cúbicos por segundo. Isso viabiliza o projeto da transposição. Os barramentos são estratégicos nesse sentido.


Quem me diz isso é Afonso Aroeira, presidente da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Noroeste de Minas. 

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Terça-feira, 08 de novembro de 2011 06:00 am

O braço direito de Tommaso Buschetta


Foto:Mário Castello

O assentamento de Fruta Dantas está localizado numa propriedade de 20 mil hectares que pertenceu ao italiano Adalberto Sansioni, braço direito de Tommaso Buschetta, um dos mais importantes membros da Cosa Nostra, a máfia italiana.


Em sua segunda estada no Brasil, no início dos anos 80, Buschetta aumentou de forma considerável o seu patrimônio graças ao tráfico de entorpecentes. A base e a conexão internacional da atividade ilegal estavam justamente ali, em João Pinheiro.


Onde hoje funciona a sede da associação dos assentados de Fruta Dantas antes funcionava o angar dos aviões dos mafiosos. Onde hoje funciona a escola, antes funcionava a residência do Sansioni. Agora, do luxo da era Buschetta só resta uma recordação: a faixa de azulejos portugueses incrustrada numa parede que antigamente dava para o pátio interno da casa e que chama a atenção de quem passa por ali pela primeira vez.


Em João Pinheiro, comenta-se que os mafiosos italianos guardavam suas armas num porão (esse que você vê na foto) que fica localizado nos fundos da casa, agora transformada em escola. Mas há controvérsias.


- Havia poucas armas nesse local. Aqui eles guardavam mesmo eram os melhores vinhos italianos. O povo é que fala em armamentos.


É o que me diz Sandro Gonçalves Silveira, responsável pelos serviços gerais na escola. A tia dele trabalhou por três anos para a esposa de Adalberto, chamada de dona Anne. A farra acabou porque a movimentação de aviões e a dinheirama espalhada na cidade pelos mafiosos acabou chamando a atenção da Polícia Federal, que numa batida digna dos melhores filmes de Hollywood prendeu todo mundo que estava dando sopa.


Isso aconteceu em 1983. O assentamento seria criado dois anos depois.


    

 

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Segunda-feira, 07 de novembro de 2011 06:00 am

Educação para todos


Foto: Mário Castello

No assentamento Fruta Dantas existe uma escola (ensino fundamental e médio) com 500 alunos. As aulas começam às 10h30 porque os alunos vêem de muito longe. O município de João Pinheiro, onde está localizada a escola, é o maior de Minas Gerais, com 11 mil quilômetros quadrados. Todos os dias nesse horário chegam doze ônibus lotados de alunos de Fruta Dantas, de outros assentamentos e até de cidades vizinhas.



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Sexta-feira, 04 de novembro de 2011 06:00 am

Ouro que vai para longe


Foto: Mário Castello


Esse caminhão "fora de estrada" tem capacidade para carregar 240 toneladas de minério. Dentro da Kinross, empresa canadense que extrai ouro em Paracatu, o movimento desses veículos é intenso. No cálculo da empresa, cada tonelada de terra revolvida rende 0,4 grama de outro. A quantidade, de tão ínfima, é impressionante. O ouro que sai dali vai todo para a exportação. A relação entre a empresa e a comunidade é tensa. A mina, considerada a maior a céu aberto do mundo, fica a apenas 12 quilômetros do centro.

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Quinta-feira, 03 de novembro de 2011 06:20 am

Bi-trem

 

Foto: Mário Castello


Se você nunca tinha visto, isso é uma carreta bi-trem. Imagina cheia de cana...


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Quinta-feira, 03 de novembro de 2011 06:00 am

Eh ararinha besta...


Foto: Mário Castello

No caminho entre Brasilândia e Paracatu, em meio a extensas plantações de cana, pastagens devastadas, veredas esparsas e imensos canais de irrigação que sugam a água do rio Paracatu,  um dos principais afluentes do Velho Chico, nos deparamos com essa dona arara azul aqui.
Quando eu e Antônia a vimos, logo pedimos para o rafael parar o carro e para o Mário fotografá-la. Resultado: como de praxe, ao empunhar uma câmera, ele entrou em transe e esqueceu da vida. A arara já tinha feito todas as poses do mundo, quando olho para a minha frente na estrada e vejo duas coisas.
Na mão esquerda, contrária à nossa, vinha um caminhão bi-trem carregado de cana. Esse caminhão vinha reduzindo a velocidade mas, quando olhei para a nossa mão de direção, lá vinha pra cima de nós outra carreta. Momentos de tensão. O Aroeira, que nos acompanhava, já se preparava para saltar do carro. Eu, no meio do banco, entre ele e a Antônia, mal tinha forças pra dizer ao Rafael:

- Dá ré, depressa. Dá ré!

E o Rafael nada. A carreta que vinha na nossa direção parou (ele já tinha visto que ela estava desacelerando).

Na verdade essa carreta era nada mais nada menos do que a outra parte do caminhão, que se desencaixou, e por sorte veio perdendo a velocidade, parando sozinha.

Respiramos. Eh ararinha besta...

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Quarta-feira, 02 de novembro de 2011 12:30 pm

Grande Sertão: Veredas


Fotos: Mario Castello


No meio da plantação de soja e milho, no município de Paracatu, produtores de grãos se preocupam em preservar nascentes e áreas como essa vereda que você vê na foto. A água aqui é cristalina porque a lavoura foi plantada num sistema que evita o assoreamento do riacho Mundo Novo. Mas não pense que essa seja uma regra no coração do grande sertão.

Rodamos centenas de quilômetros pela região Noroeste de Minas e o que se vê são buritis morrendo afogados por causa do represamento de água que vai irrigar plantações. Quilômetros mais adiante, esse mesmo riacho tem água barrenta por causa do assoreamento provocado por outros produtores.


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