Foram nove noites inesquecíveis na Inglaterra.
Independentemente do que eu escrever a seguir, entendam. Valeu demais. Embora estivéssemos eu e o cinegrafista Zé Geraldo em plena atividade jornalística, não deixou de ser também um passeio gostoso, apesar de todos os pesares. Enfim. Nessas é que a gente reconhece, por comparação, o melhor e o pior de nosso próprio país. O balanço final, levando em conta o curto espaço de tempo dessa viagem: a Inglaterra, com sua organização exemplar de país de primeiro mundo, é baliza pro Brasil. Cidades muito limpas, aparentemente seguras, sem a neurose da metrópole que a gente conhece bem por aqui. Mas no temperamento (como no futebol), nosso povo dá de 100 nos ingleses. Pena. Conhecemos uma gente em geral intolerante, especialmente com estrangeiros. Falta a eles o calor humano que nos sobra. Arrogantes, vivem no quarto mundo das relações sociais. Londres é casa para indianos, chineses, árabes, latinos, que têm muito a oferecer como força de trabalho, contribuindo para que o relógio de toda aquela estrutura funcione perfeitamente. Mas eles fazem questão de nos tratar como invasores, o que representa um gigantesco atraso.
Fora isso, nos deparamos com história em cada canto. Em cada esquina um monumento. Casinhas de tijolos sem cercas elétricas, trânsito e tráfego sob controle, estátuas multicentenárias, parques lindos, cenários de tirar o fôlego. Tudo muito simétrico e agradável, fruto de uma cultura que cresceu dentro desse eixo cartesiano e que detesta improvisos. Mas o pior também vive por lá.
Trazemos na memória fotográfica o retrato de um povo frio, obeso na melhor idade e frívolo na juventude. As adolescentes lembram mais Barbies que Beatles. Pessoas que trocam um almoço reconfortante por um breakfast reforçado, a base de coisas gordurosas como chouriço, feijão e salsicha frita. E não parecem dispostas a encarar porções mais saudáveis no decorrer do dia. Consomem muito lixo fast food, como aqui, mas - aparentemente, reforço - numa proporção muito maior. Até pela quantidade dessas porcarias disponível em cada trecho de quarteirão. A cidade natal dos Fab Four, com uma população menor que a de Contagem, tem mais Subways. Pizza Huts e McDonalds por metro quadrado do que bons restaurantes. Os habitantes comem frango frito na rua como se fossem nossos farofeiros de praia. E bebem pra caramba, feito loucos, como se a embriaguez fosse algo bonito de se expor aos visitantes. Algo que salta no comportamento dos hooligans que encontramos. Torcedores do Liverpool fizeram questão de nos intimidar o tempo todo, ameaçando e chamando pra briga. Fica a péssima impressão de que não gostam do diferente. E isso se espalha como doença social, atingindo o senso comum.
Mas, pera lá! Vou tentar me lembrar dessa estada através das reportagens que lá produzimos. Guardo comigo os bons amigos que fizemos. Aggeu, Gallo, Dedé, Titi e Bicudo. Eles nos forneceram o conteúdo que realmente era indispensável ao espírito nessa semana. A arte dos Beatles é algo merecedor de todo nosso respeito. Conseguiu colocar uma cidade bonita mas mal-humorada no mapa mundi pop, dentro de uma reserva cultural digna de preservação, falando de uma paz e de um amor que só vimos nessas nove noites de festas no The Cavern e Adelphi Hotel.
O sonho, ao que parece, mora realmente numa caverna quente e apertada, onde cabe todo planeta. Do lado de fora, o clima era outro. A gente não consegue se ajustar porque não deixam. Mas nem assim ele, o tal do sonho, demonstra ter se acabado dentro de mim. Enquanto houver uma melodia imortal que espante o baixo astral, eu vou suspirar de saudade. Aí fecharei os olhos e lembrarei também de Penny Lane, Strawberry Fields, Saint Peters Church, Mathew Street, Abbey Road, das casas de Paul e John, porque inspiram algo muito maior. Não são lugares nem pessoas. São histórias boas de contar.
E é com elas que eu fico. Cheers for fears.
O sonho ganha contornos mineiros...
Depois da Beatle Week em Liverpool, o grupo Yesterdays chega ao Brasil para mais uma apresentação. Ganha reforços de peso: um coral e uma orquestra de arrepiar. A combinação é, no mínimo, tocante. Peguei minha câmera e fiz este videozinho mequetrefe, só pra não perder o registro. Em breve, os caras devem lançar um DVD com os melhores momentos deste espetáculo, que lotou o PA.
Não me surpreendi. Já sabia mais ou menos o que iria encontrar. Mas o elo que nos prende aos rapazes da banda me deixa mais íntimo do resultado. Bonito, heróico. Imaginem encampar um projeto desses no Brasil. E os caras conseguiram produzir um espetáculo digno de qualquer palco do planeta. Um presente receber isso no Palácio, que poderia ser o de Buckingham, mas era o bom e velho templo das Artes de Minas. Nós é que pudemos sentir a majestade dessa paixão que constrói sonhos.
Parabéns.
A entrada foi com câmera ligada, num plano-sequência que procurou proporcionar à audiência um clima autêntico de novidade. Foi também na primeira tomada, algo que traduzisse um pouco o mesmo olhar curioso de quem ali chegava pela primeiríssima vez. O áudio é editado, com o mestre de cerimônias introduzindo o Yesterdays para o público. Os mais sensíveis devem arrepiar, como eu arrepiei. Mesmo os menos devotos.
Não sou Beatlemaníaco.
Não sei a cor da cueca que o Paul McCartney usava na apresentação X ou Y, dia tal, hora tal, tal club. Mas não posso evitar mencionar a emoção de entrar pela primeira vez no The Cavern Club.
Eu poderia fazer parecer que era só mais um trabalho, mas não. Adentrar um templo sagrado ganha sempre um sentido religioso, independentemente do credo que você segue. E o The Cavern tinha esse mesmo peso, desde os primórdios da viagem. Afinal, os caras começaram ali, o passo definitivo para o fenômeno teve seu primeiro degrau naqueles lances de serpentina que levam até os salões abafados. Confesso que tremi, mesmo não sendo adepto dessa religião fundada por McCartney e Lennon.
A estreia do Yesterdays no The Cavern Pub já havia me proporcionado bastante adrenalina. Mas o Club era "O" lugar. Ainda que não fosse o palco principal, valeu a emoção de aportar na lenda chamada The Cavern Club.