Samba-E


03/03/2009 00:41

Canto de Ossanha

Baden Powell e Vinícius de Moraes

 

O homem que diz "dou" não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz "vou" não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz "sou" não é
Porque quem é mesmo é "não sou"
O homem que diz "tô" não tá
Porque ninguém tá quando quer

 

Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor

 

Vai, vai, vai, vai... não vou!
Vai, vai, vai, vai... não vou!
Vai, vai, vai, vai... não vou!
Vai, vai, vai, vai... não vou!

 

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

 

Amigo senhor, saravá,
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte ao seu Orixá, o amor só é bom se doer
Pergunte ao seu Orixá o amor só é bom se doer

 

Vai, vai, vai, vai... amar!
Vai, vai, vai... sofrer!
Vai, vai, vai, vai... chorar!
Vai, vai, vai... dizer!

 

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

 

Ouça "Canto de Ossanha" com Vinícius, Baden e Quarteto em Cy

 

A celebração máxima do casamento da poesia de Vinícius de Moraes com o violão de Baden Powell está no disco "Afro-sambas". Gravado em 1966, após uma longa temporada de Baden conhecendo mais de perto a mistura de sons africanos influentes na musicalidade da Bahia, o LP com apenas oito faixas abençoou uma nova maneira de se gravar sambas no Brasil.

 

O disco, produzido por Roberto Quantin com arranjos do maestro Guerra Peixe, é o primeiro no país a misturar percussão primitiva com instrumentos clássicos como flauta, violão, sax e contrabaixo.  As entidades e as batidas dos cultos afro-brasileiros conduziram o processo criativo, que culminaria num trabalho popular que não abria mão de arranjos requintados, num tom informal. Esse clima se apresenta logo na primeira faixa, em destaque neste post: "Canto de Ossanha".

 

Sobre isso, o próprio poetinha  decreta na contracapa: "Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância, para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal".

 

Em tempo: Ossanha ou Ossãe é o Orixá das plantas medicinais e litúrgicas. Os filhos de Ossanha são calmos, ingênuos e pacíficos. Saravá!

 

fontes: Luis Américo Lisboa Júnior

 Sociedade Beneficente Centro Africano Reino de Oxalá

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Tags: canto  ossanha  baden  powell  vinicius  moraes  samba  e 

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02/03/2009 00:05

Meu drama (Senhora tentação)

de Silas de Oliveira e Joaquim Ilarindo

 

Sinto abalada minha calma
E embriagada minh’alma
Efeito da tua sedução
Oh! Minha romântica senhora tentação
Não deixes que eu venha sucumbir
Neste vendaval de paixão

Jamais pensei em minha vida
Sentir tamanha emoção
Será que o amor por ironia
Deu-me esta fantasia
Vestida de obsessão?

A ti confesso que me apaixonei
Será uma maldição?
Não sei...

 

 

ouça este samba na voz de Cartola

 
 
 
 
Agenor de Oliveira, o Cartola,
nasceu no RJ em 1908 e foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira. Seus sambas se tornaram populares ainda na década de 1930, mas ele só seria "descoberto" pela mídia em meados dos 50, através do jornalista Sérgio Porto. O velho Stanislaw Ponte-Preta encontrou Cartola ganhando a vida como lavador de carros em Ipanema. Este reencontro rendeu uma volta por cima, com o músico sendo adotado por toda uma nova geração de artistas. 
 
 
O primeiro disco solo só foi gravado em 1974
trazendo sucessos como "As rosas não falam" e "O mundo é um moinho". A música em destaque neste post, "Meu drama" ou "Senhora tentação" (que tem uma versão memorável na voz de Roberto Ribeiro), foi gravada por ele pela primeira vez em 1976, já no segundo trabalho como intérprete - coisa que Cartola repetiria  em apenas outros dois discos. Seu repertório foi reproduzido por artistas como Beth Carvalho, Caetano Veloso, Chico Buarque, Cazuza e muitos outros.
 
 
Cartola morreu em 30 de novembro de 1980,
vítima de câncer.
 
 
 
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