Quarta-feira, 24 de junho de 2009

Vá à ópera. E me chame!



“A vida é apenas uma sombra errante, um conto narrado por um idiota, cheio de som e de fúria, e que nada significa”
- Macbeth

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Ópera Macbeth
Após vencer batalhas, os guerreiros Macbeth e Banco encontram feiticeiras que falam sobre o futuro de cada um. Macbeth será rei e o filho de Banco também! Foto: Paulo Lacerda


São cinco as óperas no currículo. Árias perdidas em coletâneas, dvds de montagens vistos de soslaio ou com convicção, performance de amigos-cantores líricos ou trilha sonora em filme de Woody Allen - nesse caso, mais especificamente Match Point. Isso para dizer que a ópera está por aí, viva, apesar de já ter sido evento cultural pop em séculos anteriores. Quem nunca ouviu "Largo al factótum", de O Barbeiro de Sevilha? Ou a "Habanera: L'amour est un oiseau rebelle...", de Carmem?

Mas se alguma familiaridade com a ópera tudo mundo tem, um estudo de Isaura Botelho e Maurício Flores (2005) sobre o uso do tempo livre e as práticas culturais mostra que 3 em cada 4 entrevistados com nível de escolaridade alto afirmaram nunca terem ido a uma ópera na vida.

Na capital mineira, o Palácio das Artes vêm cumprindo o papel de oferecer novas montagens a cada ano. “BH tem público para ópera”, costumava dizer em alto e bom som um antigo presidente da instituição.

Macbeth, de Verdi, iniciou a temporada de 2009. Para o segundo semestre, estão previstas A Menina das Nuvens, de Villa-Lobos, e Erwartung, de Schoenberg.

Cheguei a pensar que o jogo Brasil x Itália pudesse prejudicar a récita de domingo, 21 de junho, que começara às 18h, colada ao final da partida e com três horas de duração. O valor do ingresso da inteira variava de R$ 50,00 a R$ 30,00 dependendo da localização. Quanto mais longe, mais barato. Lógica estranha, pois só quem está na plateia superior tem a chance de ver a performance dos músicos da Filarmônica de Minas Gerais no fosso do teatro.


Poréns enumerados, jovens, adultos, idosos e algumas crianças ocuparam quase 100% das cadeiras.



Ouça Che faceste? Dite su, de Verdi (Atto 1 da ópera Macbeth):

Impressões, sensações e uma pulga atrás da orelha


A música de Verdi não arrebatou o Grande Teatro. Não era como ouvir Nessun Dorma (Turandot, de Puccini) naquele mesmo local. Alguns momentos foram grandiosos, sim: o brinde que Lady Macbeth faz aos convidados no castelo, a cena de sonambulismo - também da esposa do rei - ou o hino da vitória dos escoceses libertados após a morte de Macbeth.


Ouvi pessoas dizendo que acharam o cenário pobre, mas foi boa a solução encontrada pelo diretor cênico, Cleber Papa. Ele precisava fazer surgir fantasmas para artomentar a consciência de Macbeth pelos crimes cometidos e abriu mão de objetos cênicos em grande quantidade. Espalhados pelo chão do palco, havia fundos falsos de onde surgiam e desapareciam os “assassinados a mando do rei” e a iluminação também contribuía para a tensão das aparições.


Não sei se na história original de Shakespeare, Lady Macbeth rouba a cena do protagonista, mas a Cyntia Lawrence foi mais espetacular e mais aplaudida que Jason Stearns, intérprete de Macbeth.

Fim do espetáculo, orelhas em pé e uma pulga atrás da orelha: - Afinal, onde são apresentadas as óperas brasileiras modernas? Elas existem?

... ainda dá tempo de ver


Ópera Macbeth - Temporada de Óperas 2009 do Palácio das Artes

Local: Grande Teatro
Data: 25, e 27 de junho
Horário: 20h
Classificação etária: 12 anos
Ingressos: Platéia I: R$50 (inteira), R$25 (meia-entrada); Platéia II: R$40 (inteira); R$20 (meia-entrada);   Platéia Superior: R$30 (inteira); R$15(meia-entrada)
Informações: (31) 3236-7400




Votos: 1
Tags: ópera  verdi  macbeth 
Quinta-feira, 18 de junho de 2009

Chapéu, táxi e cinema numa tarde de dia útil

Atrasada para o cinema que começaria em 15 minutos, fiz sinal para um táxi que parou em fila dupla e quase foi atingido por outro veículo na traseira. O motorista abriu a porta dizendo: - Você estava rindo por que quase bateram em mim, né? Em pensamento respondi: - Não, eu estava sorrindo por que hoje estou de chapéu e as pessoas têm olhado para mim com doçura. Ajeitei-me no banco de trás e já que tinha que inventar alguma coisa para dizer a ele, que fosse algo “politicamente correto”: - Na verdade, eu peço desculpas. Acho que fiz errado em dar sinal para você numa esquina de avenida. Nunca sei como agir nessas situações, o que é certo, o que é errado... O melhor teria sido eu atravessar as duas pistas da Francisco Salles e pegar o táxi no ponto, mas eu queria economizar um real, talvez nem desse isso”... - Quê isso menina, táxi para em qualquer lugar! Selou-se uma empatia mútua.

Seguia em direção ao Palácio Artes, Belo Horizonte. Para isso, atravessaríamos o viaduto do Extra, uma virada à direita na rua dos hospitais e novamente à direita na Afonso Pena. Pronto, chegaria há tempo para sessão. Passávamos pelo Hospital João XXIII quando o motorista “puxou assunto”:

- Outro dia eu levava um cara que contou que um médico no interior deu anestesia local para colocar o braço dele no lugar. Veio parar aqui para fazer uma cirurgia.

Eu disse: - É...O João XXIII faz um trabalho muito bom nessa área...

- Vê se pode, que médico maluco! Meu braço já saiu do lugar umas três vezes e os médicos daqui colocaram ele no lugar rapidinho...

- Na marra, né?, interrompi meu novo amigo.

- Não, “na manha”, ele retrucou.

O sinal abriu e tentei pensar algo rápido para dizer-lhe: - Mas ortopedista é famoso por não ter muita frescura para lidar com essas coisas. Eles usam é a força para colocar o braço lugar, não?

O sinal abriu e ele explicou: - Minha filha, quando um braço sai do lugar não existe dor maior não... Você não sabe o alívio que é quando ele volta para o lugar....

Já estávamos na esquina da Alfredo Balena com Afonsa Pena quando ele voltou ao assunto: - Mas eu também terei que fazer cirurgia, qualquer movimento brusco que eu faço, o danado sai do lugar...

- Uai, então pare de fazer movimentos bruscos!

Então, ele perguntou: - Como é que eu não vou fazer movimentos bruscos numa briga?

Assustei-me e ele riu.

Todas as vezes que seu braço saiu do lugar foi por causa de briga?, perguntei com voz bem arrastada para deixar clara a minha indignação.

- Sim, as três vezes. Eu não quero brigar, mas sempre brigo. Não sei o que é que é isso...

Nem quis saber o motivo e fiquei em silêncio pensando se ele batia na namorada ou esposa, se era um torcedor fanático ou se era daqueles bêbados que brigam em bares. A relação tinha ido da simpatia à tensão em menos de três minutos.

Ele procurava um jeito de parar o carro e deixar-me na porta do meu destino enquanto tentava amenizar a má impressão que causara. - Mas é briguinha, deixa eu te mostrar como é que é... Antes que eu terminasse de dizer “Não quero ver não, vai que seu braço sai do lugar”, ele fez o movimento. Girou o braço esquerdo como se fosse dar uma cotovelada em alguém e, ao mesmo tempo, usava o direito para girar o volante e fazer a manobra.

- R$ 7,30, né?, encerrei o assunto.

- Você ficou com medo... Se ele tivesse saído do lugar você tinha que correr comigo para o hospital. E ele ria achando tudo muito engraçado.
Entreguei uma nota de R$ 10 e enquanto esperava pelo troco expliquei: - Meu filho, era mais fácil eu desmaiar do que te levar para um hospital.

Despedimo-nos com leveza. Um aceitou o jeito de ser do outro.

* * *

             
Cesárae                                                       Marguerite Duras

No hall do Palácio das Artes ganhei um elogio de um homem com a idade do meu pai:

- Nossa! Esse chapéu te deixou irresistível.


Fiz cara de séria, mas sorri depois que passei por ele.

Na bilheteria do Cine Humberto Mauro descobri que o meu cartão do Estado de Minas não dava direito à meia-entrada e desembolsei R$ 5 para ver um curta e um longa da diretora francesa Marguerite Duras, mais conhecida por seu trabalho como escritora. A mostra recebeu o significativo e instigante título “Escrever imagens”.

Essa sala de cinema é importante para Belo Horizonte. Pela programação alternativa, pela história do lugar e por homenagear um cineasta mineiro no nome.

A sessão era às 17h, mas estava atrasada. Em frente à porta de entrada do cinema tem três bancos longos de madeira polida e sentei-me no primeiro deles, entre uma dupla de amigos da terceira idade e um outro homem, também com mais de 65 anos, que olhava para frente e sorria com os lábios fechados como se estivesse recordando-se de algo bom.

Conversavam alto os amigos ao meu lado esquerdo. “Eu acho que o cinema nacional precisa vencer muitas barreiras com o público. Estamos tão acostumados a ver filmes estrangeiros que quando reconhecemos nossa língua falada na tela grande, causa um estranhamento”. Eles falavam muito sobre a sétima arte e repetiam chavões amenos do tipo: “o cinema brasileiro melhorou muito”, “a qualidade técnica melhorou demais” ou “o som era péssimo”. Pensamentos enfáticos que quase sempre me incomodam, mas tinha gostado daqueles homens... Estavam tão alegres e se estavam ali para ver filmes realizados por uma escritora francesa... “Ah, sensibilidade eles tinham”, pensei. Não me levantei e fiquei ali no meio deles a observar o público que me faria companhia nos próximos 100 minutos.

No banco ao lado, duas mulheres - também com mais de 60 anos - pareciam fazer reunião enquanto a sessão não começava. Muitos papeis, recortes de jornais e uma revista intitulada “Circuitos Europeus”.

Na minha frente, uma rodinha de três meninos que seguravam livros e sacolas de supermercado com salgadinhos de merenda de escola.  Tipo cheeps. Deviam ser universitários.

No último banco um jovem menino e uma jovem menina. Eles não se conheciam. Ela estava com a perna direita cruzada por cima da esquerda, mão no queixo e olhar focado na galeria em frente que recebia uma exposição fotográfica. As pernas dele estavam cruzadas em cima do banco e sua distração era observar o movimento das pessoas que desciam ou subiam escadas, que ocupavam as mesas do café do cinema...

Uma estudante moderninha de blusa azul e bolsa bonita foi a última a comprar ingresso e circulava para lá e para cá. Estaria ansiosa?

Éramos doze pessoas o público daquela sessão que começou com quinze minutos de atraso. O Cine Humberto Mauro é assim. Desocupado e imprescindível.

* * *

Moçoilo 'pervertido' no Cine Humberto Mauro


E isso me fez lembrar de uma outra história... Trabalhei por três anos no Palácio Artes. Uma amiga que também era da equipe de lá, foi a uma sessão no final de uma tarde de dia útil e chegou contando na manhã seguinte que com muitas cadeiras vazias na sala, um homem chegou atrasado e sentou-se ao seu lado. Ela achou estranho e normal ao mesmo tempo e ficou no lugar escolhido. Ainda no início do filme - que não tinha nada de erótico - o cara começou a se masturbar ao seu lado. Ela ficou com muita raiva, mas agiu com elegância e maturidade e mudou-se para uma cadeira que ficasse bem longe daquela companhia estranha. E não é que sem-pudores foi atrás dela? Aí ela se assustou e saiu para avisar ao porteiro ou ao bilheteiro, alguém que pudesse fazer alguma coisa. Mas enquanto procurava por alguém, o safado fugiu. A sua surpresa foi maior quando descobriu que aquela não era a primeira vez e que não era tão raro o Cine Humberto Mauro receber reclamações por esse mesmo ato.


* * *

Poesia na tela grande

“Escrever imagens”. Sim, esse foi um belo título para a Mostra Marguerite Duras. Não conhecia nem seus textos, nem seus filmes. Assisti à Césarae (11”) e Aghata ou as Leituras Ilimitadas (90”). Ambos são películas de pouquíssimas imagens, texto lindo e boa música.


A estrutura do Cine Humberto Mauro não ajudou o público a apreciar o trabalho da diretora. Além do atraso na sessão, levamos um susto quando, de repente, o filme parecia ter se derretido na tela para logo em seguida ser ocupado por uma tela preta. A explicação veio de uma voz no fundo da sala: - O filme arrebentou, vamos ter que emendar. Esperem um pouco.

A exibição foi retomada e seguia normalmente até que a legenda parou de aparecer. Nessa hora, percebi que uma menina que já estava na sala quando entramos para a sessão era responsável pela operação do aparelho que fazia a legenda aparecer em tempo real. Foi um problema com a fonte de energia e o filme correu por uns 15 minutos sem tradução.

Sim, são problemas recorrentes do Cine Humberto Mauro. Mas que lugar em BH abriria espaço para filmes assim?

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India Song, de Marguerite Duras




Votos: 2
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