Verbo Feminino


17 outubro 2008

Mad City

Prometi a mim mesma que não tocaria no assunto. Promessa, mais uma, que não soube cumprir. Ouço o rádio, espio a TV, navego na internet, lá está ele. Mais do que o papel da mídia nessa história - me lembrei do filme Mad City, do Costa Gravas, lembram? - o que mais me choca é o processo mesmo de construção de um personagem frente às câmeras da telinha. Não, não falo do já mundialmente famoso Joe Encanador, o republicano. Falo de um bobalhão armado de 22 anos, que faz refém (?) a ex-namorada de 15, já nem sei há quantas horas. Fora a incompetência generalizada dos responsáveis pela "negociação", o que assistimos, afinal, é o mais simplório reality show, em que um jovem casal de classe média baixa encontra, finalmente, o caminho para seus minutos de fama. É verdade que no começo as emissoras não deram muita bola, trata-se de um conjunto habitacional de periferia. Foi preciso varar a noite naquela lenga-lenga para o assunto ganhar mais e melhores manchetes. E os tão sonhados 30 segundos no Jornal Nacional. O casal de pombinhos deve estar se divertindo à beça com o controle remoto da TV - mesmo sendo conjunto habitacional de periferia o apê deve ter, claro, um pacote basiquinho de tv a cabo - buscando as matérias sobre o "fato". O rapaz, um pobre coitado, nessa altura já se assemelha a um anti-herói de verdade. Às tantas alguém inventa, com o consentimento dos pais, de sugerir a volta de uma refém ao covil - tudo é possível no país em que se mata diretor de presídio às dúzias, já estamos em meia dúzia!, e em que polícia enfrenta polícia, provando a todos, definitivamente, que os dois lados são bandidos. A amiguinha da amada - e pressinto um estranho triângulo amoroso nesse caso - insiste em voltar, todo mundo acha natural. Entra para negociar a rendição, mas se rende e fica. Claro, lá dentro é bem mais divertido que cá fora, é possível aparecer na janela de vez em quando, para felicidade dos exaustos cinegrafistas. E vamos assistindo ao desenrolar da história com uma naturalidade espantosa, mesmo porque é mais inverossímel que o enredo da novela das 9. Uma hora a história terá um fim, sabemos. Provavelmente com a rendição do trio, algumas entrevistas emocionadas de mãe, da avó e da tia, sempre tem uma tia para dar depoimento nessa hora, e uma exclusiva com a refém no Fantástico. E ninguém mais vai se lembrar daquilo.

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20 abril 2008

Audiência X Ética

Lá vou eu também, pensei que conseguiria ficar sem escrever a respeito... Mas quero registrar minha incrível torcida para que a madrasta e o pai fossem declarados inocentes! Como torci! E minha torcida tinha um único motivo: queria ver quebrar a cara a mídia – essa que ganhou pontos milionários na audiência, às custas de transformar mais uma tragédia familiar no mais novo e fantástico reality show de hoje em dia. Imaginem se surgisse, como num passe de mágica, um louco confessando que esteve lá sim, igualzim garante o pai, e se provasse que o louco, sem deixar vestígio algum, esganou e atirou pela janela a doce menininha. Com que cara veríamos a cara-de-pau de repórteres de rádio, jornais, revistas e portais da internet e, claro, dos apresentadores da televisão, escondendo seus vampiros caninos? Leio, assombrada,  que até o Sapori conseguiu sair-se com essa pérola lá no blog dele: “entendo que o espaço dado ao tema na mídia reflete apenas o interesse dos brasileiros. E a mídia não forjou tal interesse, dado que ele decorre do sentimento de indignação que tomou conta do Brasil.” Como assim, cara- pálida? Esse é o mesmo argumento fajuto dos sanguessugas que fazem do caso um lucrativo negócio. Daniel Castro já ressaltou em sua coluna na Folha que o caso garantiu aumento médio de 46% na audiência da televisão aberta, na semana passada. 46%, sabem o que é isso? Audiência não ocorre por acaso e nem sem investimento, a televisão gastou rios de dinheiro em horas extras, equipamentos para transmissões ao vivo, vôos de helicóptero, montagem de estúdios provisórios em casas alugadas em pontos estratégicos, reconstituições do crime (pasmem!) com atores e parafernália de novela, entrevistas maliciosas, artes mirabolantes, depoimentos pagos e exclusivos – tudo temperado à emoção e à catarse dos roteiros de telenovela, com direito a lances de suspense e ansiosa espera pelo próximo capítulo. A mídia não foi apenas divulgadora da tragédia ou mera incentivadora do interesse mórbido coletivo. Tem sido partícipe macabra no mais degradante linchamento público.Todos os princípios éticos do jornalismo brasileiro foram por água abaixo – e infelizmente são pouquíssimos os que se indignaram por isso. 

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19 março 2008

Tente não rir!

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18 março 2008

Belíssimo

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17 março 2008

Síndrome de Estocolmo

Amiga minha narrou cena terrível de tortura porque passou recentemente. Cena que se repete aos milhares a cada minuto, atingindo mulheres a partir dos 15 anos e ainda não sei até que idade, mulheres submetidas a uma dor lancinante, à superexposição do corpo e da alma e a uma enorme humilhação. E, como numa verdadeira Síndrome de Estocolmo, essas mulheres voltam à cena do crime inúmeras vezes, e se submetem repetidas vezes à mesma torturante sessão. Estou falando da já famosa depilação da virilha ao estilo brasileiro, em que são arrancados até os pelos dos grandes lábios para um resultado final que está mais para a sobrancelha da Malu Mader do que para a natural vulva feminina. Deitadas em macas separadas por toscas cortininhas de plástico ou tecido, dessas que nunca estão verdadeiramente fechadas e que sopram ao sabor de qualquer brisa, as mulheres se expõem em posições pra lá de esdrúxulas, pernas escancaradas para as mãos nem sempre hábeis das depiladoras, as mais experientes delas sendo capazes até de forjar mimosos desenhos com os poucos pentelhos que sobram, nesta uma seta , naquela uma flor, na outra um coração, mas o mais pedido é mesmo o formato de sobrancelha vertical. Recebe-se primeiro uma demão de cera quente, a pele queima e arde para em seguida encarar o inevitável puxão, desses que arranca lágrimas até de mulheres acostumadas com parto natural sem peridural, e depois dos puxões começa o interminável acabamento com a pinça, que ferroa as partes pudentas qual um formigueiro repleto de saúvas. Diz que a pele até fica lisinha, mas quase sempre salpicam aquelas bolinhas de pele machucada e pêlo que encravou, ou vai encravar. Considerando que apenas uma parcela ínfima dessas mulheres tem um contrato para posar nua em revista masculina, outra pequeníssima parcela usa biquíni que deixam os grandes lábios expostos, fiquei curiosa: as mulheres se submetem a isso porque os homens não conseguem mais encarar a dita cabeluda?

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